Part 35
Quem comparar ambos estes Reys Pay, e Filho, acharà que naõ menos forte foy Salamaõ na paz, do que foy David na guerra. Bem sabia David, sendo Profeta, e taõ aceito a Deos, que seu filho Salamaõ havia de reynar pacificamente, e com esta certeza lhe mandou edificar o Templo. Com tudo estando jà para dar a alma a Deos, nenhuma cousa lhe encomendou mais que fortaleza, porque via que tambem os Reys na paz tinhaõ della muita necessidade: mas V. Alteza igualmente se serve da Fortaleza em ambos os tempos: a guerra feita por seus Capitaens contra os Mouros d’Africa, contra a India, contra a Persia, contra a Arabia daõ claro testemunho do que digo: nas mòres fortunas mostra mòr animo. Constantemente leva àvante por mar, e por terra o que huma vez começou, nem me espantaõ grossas armadas de Rumes, nem Reys da India, porque a graõ fortaleza, acompanhada de muita fé, não pòde ser desbaratada, pouco aproveita começar huma, a quem a naõ hade levar àvante, e muito mòr infamia lhe fica leyxando-a, do que mereceo louvor em a começar, e tal foy o Emperador Tiberio, o qual sendo graõ Capitaõ em principio, depois que veyo a reynar, faltou no melhor tempo, e por sua fraqueza, ou descuido leyxou perder muitas terras do Imperio Romaõ. Deve-se fugir a guerra quanto for possivel, mas depois que justamente for cometida, mais aproveita a huma Reepublica levalla àvante com perigo, que desistir della com vergonha, e por isso se escreve, que sabendo os Lacedemonios, que o Poeta Archiloco dissera que era melhor renderse, e leyxar as armas, que morrer, que logo no mesmo ponto o lançaraõ fóra da sua Cidade.
Essa fortaleza mostrou Alexandre Magno na Conquista da Persia, porque sendo cometido por ElRey Dario com grandes promessas a que soltasse a empreza, que levava, e parecendo isto bem a alguns seus privados, não quiz Alexandre por nenhum interesse soltar a guerra, que somente por dezejo de gloria começàra, assi que levou àvante sua tenção, nem descançou athè por força lhe naõ tomar todo o Estado, e senaõ fazer Senhor da mòr parte da India, e de toda a Asia, e se a morte o naõ estorvara, opiniaõ he de muitos, que se fizera Senhor do Mundo; mas a ventura contraria (pola mòr parte) dos grandes começos, e grandes pensamentos, ordenou que aquelle Principe que jà em seu titulo se chamava Rey do Mundo, a que nenhum Exercito pudera resistir, que nenhuma Cidade cercàra, que naõ tomasse, que em nenhum Reyno entràra, que naõ sojugasse, que tanto esforço dava aos seus, que em sua prezença, e dezarmado, naõ temia nenhuma gente armada aquelle, a quem o mar de Pamphilia (segundo escreve Jozepho) milagrosamente se abrira como a Moysès o mar Roxo, a quem em sonhos por revelaçaõ Divina foraõ ensinados remedios para curar feridas, que tantas Cidades edificàra, que acabàra cousas, que Hercules naõ pudera acabar, quiz (como disse) a ventura que este tamanho Rey, e Capitaõ depois de tantas vitorias, tantos titulos, tantos triumfos, fosse na flor de sua idade morto com peçonha por traiçaõ dos seus, e a causa desta morte foy por se fazer adorar à maneira dos Reys da Persia, contra vontade de seus naturaes.
Escreve-se delle, que athè o fim se alembrou da grande fortaleza, que em toda a sua vida mostràra, porque estando jà para espirar, e sendo lhe perguntado por seus privados, e amigos, que de redor delle estavaõ, quem queria leyxar por seu erdeiro, respondeo, que o mais digno, e esta foy a sua derradeira palavra. Foy tanta a sua grandeza, que tendo hum filho chamado Hercules, que fora avido em Marsine sua escrava, e hum seu Irmaõ por nome Arido, e assi leyxando prenhe a sua mulher chamada Roxane, todavia esquecido do sangue, e das razoens de todo o parentesco, quiz sómente nomear por seu erdeiro o que fosse mais digno, mas depois de morto Alexandre, aquelle grande Imperio, que em taõ breve tempo fora ganhado, em breve tempo foy desbaratado, e desfeito, porque succedendo no Reyno Arideo, Irmaõ de Alexandre homem fraco, e para pouco, os Capitaens, a que fora cometida a governança das Provincias, se alevantaraõ cada hum com a sua, ao que sómente resistio a Rainha Euridice mulher de Arideo: esta naõ podendo sofrer a fraqueza de Arideo seu marido, e sendo muy constante, e valerosa com ajuda de Cassandro seu Capitaõ fez muitas cousas de esforço, cobrou muitas Cidades de Grecia, constrangeo os Lacedemonios que cercassem novamente a sua Cidade, cousa, que athè entaõ nunca fizeraõ; mas porque huma mulher naõ podia resistir a tantos males, que se levantavaõ de cada parte, em fim foy necessario que perdesse tamanho Imperio. Tambem aquelles vitoriosos Soldados, chamados Argiras, e Pidas, que quer dizer escudos de prata, com que Alexandre conquistàra o Mundo, tanto que o perderaõ, perderaõ logo toda sua força, e sendo pouco antes espanto de todas as gentes, foraõ por Antigono deshonradamente desbaratados, e postos em cativeyro, donde se pòde ver quamanha verdade he o que sohia dizer ElRey Philipe de Macedonia, que era melhor, e mais forte hum Exercito de cervos com hum Leaõ por Capitaõ, que hum de Leoens tendo por Capitaõ hum Cervo. E foy tanta a fama, que leyxou Alexandre de sua fortaleza, que ainda agora depois de tantos tempos, e idades he nomeado em todo o mundo. Escreve-se do Emperador Cesar Augusto, que achando-se em Alexandria, Cidade do Egypto, e dezejando ver o corpo de Alexandre, que nella jazia sepultado; foy à sepultura, e a mandou abrir, e vendo o corpo o adorou, lançando-lhe em cima muitas flores, e pondo-lhe na cabeça huma Coroa de ouro, que era a mòr honra, que então a hum corpo morto se podia fazer, e sendo perguntado se queria tambem ver o Corpo delRey Ptolomeo, respondeo, que elle viera alli para ver o Rey, e naõ para ver os mortos.
Havia em Roma huma nobre linhagem dos Macrianos, os quaes tinhaõ por devoçaõ, e bençaõ de seus Avòs trazerem sempre a imagem de Alexandre consigo, e os homens a traziaõ de ouro, ou prata, as mulheres sómente d’ ouro na cabeça, ou em manilhas nos braços direitos, e em aneis, e tinhaõ antigamente como escreve Julio Capitolino, que quem consigo trouxesse a Imagem de Alexandre em ouro, ou em prata, que todas suas cousas succederiaõ bem, e hiriaõ àvante. Esta honra mereceraõ os feitos, e fortaleza de Alexandre, o qual naõ sómente teve respeito ao tempo da vida, mas como muy prudente Principe trabalhou por haver Chronistas excellentes, que pudessem (como era razaõ) encomendar à memoria seus grandes aquecimentos. Desta opiniaõ era Themistocles Atheniense, que sendo perguntado qual era a voz, que mais folgara de ouvir, respondeo: que aquella de quem visse suas cousas mais eloquentemente serem tratadas. Foy Alexandre magnanimo nas adversidades, e de tal maneira cõmetteo a guerra, que naõ pareceo, que dezejava a paz: foy magnifico, e desprezador das riquezas sabendo certo, que querer bem ao dinheiro naõ havia mòr sinal de coraçaõ fraco, nem polo contrario cousa mais real, nem mais digna de hum graõ Principe, que desprezalo, quando o naõ tivesse, e quando o tivesse despendelo magnifica, e liberalmente. Em fim teve Alexandre as mais das partes, que deve ter hum Capitaõ forte, e magnanino com que naõ somente foy aceito aos homens, mas ainda obrou Deos por elle cousas de grande admiraçaõ. Se a virtude da fortaleza naõ fora aceita a Deos, naõ edificara ElRey Salamaõ no Templo o Armazem das armas junto à Sede Real, em que eraõ levantados os Reys depois de serem ungidos pelo Principe dos Sacerdotes.
O Principe, que quer ser forte, ha de guardar inteiramente sua fé, e porque isto naõ teve ElRey Philipe de Macedonia, antes usou de enganos, e falsidades, poz muy grande nodoa em muitas partes da fortaleza, que nelle havia: deve tambem ser lido, e folgar de ouvir as historias, e vidas dos grandes homens, olhando como se governaraõ na guerra, examinando as causas da victoria, e perda das batalhas, e seguindo o exemplo de algum notavel Capitaõ. O mesmo Alexandre seguio Achiles, Julio Cesar seguio Alexandre, e assi Scipiaõ Africano seguio tanto a ElRey Cyro, que quem bem ler a historia, que Xenofonte escreve delle, acharà, que todas as virtudes, e liberalidade, e humanidade delRey Cyro foraõ representadas por Scipiaõ de maneira, que bem se poderia dizer, que ou Cyro foy Scipiaõ, ou Scipiaõ foy Cyro. Dizia este Rey, que o Principe no tempo da paz devia ter cuidado das cousas da guerra, e porque isto fez (naõ muitos tempos hà) Francisco Sforcia foy em quanto viveo Duque de Milaõ, e os filhos polo contrario naõ tendo nenhuma lembrança da guerra vieraõ a perder aquelle Estado, que seu Pay lhes leyxara a elles muy pacifico. Por muy desaventurado se deve ter o Principe a que nunca aconteceo dezaventura, na qual alem de se provarem os homens para quanto saõ, a experiencia dos trabalhos os faz mais prudentes, e avizados, e sempre ter passado algum mal aproveitou muito para a conservaçaõ do bem presente. De Policrates poderoso tiranno da Ilha de Samno se lè, que sendo em tudo muy prospero, e bemaventurado, veyo no cabo a ser prezo por Orontes Capitaõ delRey Dario, e a ser enforcado no mais alto outeiro da montanha de Micale sobre o mar: em a fim soube Policrates quanta verdade lhe fallava Amases Rey do Egypto grande seu amigo, porque vendo, que se prezava muito de sua boa fortuna lhe escrevera por algumas vezes, que se guardasse do fim.
Fortes foraõ muitos Capitaens Romaõs, nem se devem as victorias, que ouveraõ d’atribuir mais à sua boa fortuna, que à sua virtude, que posto que a guerra tenha necessidade de tres cousas, boa gente, bons Capitaens, e boa fortuna, com tudo a mòr parte della consiste nas duas primeiras, e por isso bem diz hum Proverbio latino, que a fortuna succede segundo saõ as manhas, e costumes de cada hum. Teve Roma grande Estrella, mas naõ teve menos fortaleza, e com ambas pode alcançar tamanho Imperio, o qual logo em seu principio cresceo tanto, que em tempo do sexto Rey de Roma havia jà nella oitenta mil homens para tomar armas, e foy tanta a bondade, e nome desta Reepublica, que os Reys antigamente trabalhavaõ por serem Senadores della. Naõ desprezou esta Dignidade o Infante D. Henrique Irmaõ delRey D. Afonso de Castella decimo deste nome, naõ a desprezou Carlos Rey de Napoles, e Sicilia, e Conde de Andegavia, e Proença, em cujo tempo no anno de Nosso Senhor do nascimento de mil e duzentos e oitenta e hum foy aquella conjuraçaõ taõ nomeada dos Sicilianos, em que foraõ mortos em hum só dia todos os Francezes, que polo Reyno de Sicilia foraõ achados, e levantando-se logo toda a Ilha se deu a D. Pedro de Aragaõ. Mas tornando ao meu proposito se no tempo, que Roma era jà desfeita, e destruida, com tudo os Reys desejavaõ serem Senadores della, que devemos cuidar, quando prosperava, e mandava o mundo?
O Emperador Octaviano nenhuma cousa depois de Deos estimava tanto, como a memoria dos Capitaens por cuja industria, e fortaleza o Imperio Romaõ de pequeno fora feito taõ grande, e para isto melhor mostrar, renovou as obras, e edificios, que cada hum delles fizera, e mandou levantar a todos estatuas em habito triunfal de redor da sua praça com hum pregaõ, que dizia, que isto fazia Octaviano para que o Povo Romaõ assi a elle, e aos Emperadores, que viessem depois obrigassem a darem de si taõ boa conta, como elles deraõ. Este taõ grande Imperio houve fim, e acabou como naturalmente acaba tudo, e segundo a opiniaõ de alguns o principio de sua destruiçaõ foy quando os Romaõs esquecidos de quem eraõ, se começaraõ a ajudar da gente de fóra, e deraõ soldo aos Godos, naçaõ barbara, e estrangeira, e sem duvida naõ hà remedio menos firme para a conservaçaõ de hum Estado, que a potencia fundada nas forças alheyas, por tanto os Principes, e Reepublicas devem fazer guerra com os seus natu-raes, e aventurar-se antes com elles, que tomar ajuda d’outra parte, e se bem queremos olhar, esta foy a causa, por onde poucos tempos hà Italia foy destruida, porque sendo o Imperio de Roma lançado della, e alevantandose muitas Cidades principaes contra os nobres, que com favor do Emperador as tirannizavaõ, e tendo muita necessidade de ajuda parte dellas, se encomendavaõ ao Papa, e parte de algumas Reespublicas principaes de Italia, mas polo Papa ser Ecclesiastico, e as Reespublicas serem pouco usadas nas armas começaraõ entaõ para defençaõ de seus Estados de darem soldo aos de fóra, e o primeiro, que deu authoridade, a gente, e armas estrangeiras foy Alberico de Romanha, mas porque poucos homens de pè aproveitavaõ pouco, e muitos eraõ màos de manter, ordenaraõ entaõ em lugar destes gente de Cavallo para fazerem corpo com poucos de Cavallo, o que com poucos de pè naõ podiaõ fazer, e fazer-se com muitos era graõ despeza, dahi por diante sendo dado tanto favor à gente de fóra tiveraõ occasiaõ os Estrangeiros de se hirem fazendo Senhores de Italia, atè que finalmente aquella Italia senhora do mundo veyo a ser escrava de muitas naçoens, corrida por ElRey Carlos, roubada por ElRey Luiz, vencida por ElRey D. Fernando vosso Avò, e deshonrada por Soiços.
Se quizermos olhar França, tambem ella nos serà exemplo de quam prejudiciaes aos naturaes saõ as Armadas de fóra. ElRey Carlos de França VII. deste nome Pay delRey Luiz Onzeno depois de livrar seu Reyno com muito trabalho das mãos dos Ingleses conhecendo esta necessidade fez em França ordenança de gente de pè, ou Infantaria, depois ElRey Luiz seu filho tirou a Infantaria, e começou a dar soldo aos Soiços, e este erro continuado foy causa dos perigos, e males daquelle Reyno, porque sendo dada a authoridade aos Soiços, o partido dos Franceses sem gente de pè ficou bayxo, e a sua gente d’armas veyo a ter necessidade da gente estrangeira, donde vem, que os Franceses aos Soiços naõ podem resistir, e sem elles naõ valem muito. Se Capua naõ recebera a gente de Anibal, naõ fora destruida pelos Romaõs, se Grecia naõ chamara a Philipe Rey de Macedonia, naõ viera a ser sogeita dos Macedonios, nem passara os males, que passou. Se o Emperador de Constantinopla Michael Paleologo naõ metera os Turcos de Natolia em Grecia, naõ se perdera aquelle Imperio, como se perdeo. Finalmente se nestes tempos d’agora Joaõ Vayvoda naõ chamàra os Turcos, Ungria senaõ destruira, e elle estivera mais honrado, que està: assi que claro se vè de quantos males, e perdas as armas estrangeiras saõ causa, e sempre foraõ; por isso o Principe que dezeja, que seu povo seja forte, faça a guerra com os seus naturaes, lembrando-se que nenhum Capitaõ conquistou muito, senaõ com a propria gente, e se o Emperador Carlos V. deste nome ouve em nossos tempos tantas vitorias contra ElRey de França, e o prendeo em batalha por seus Capitaens, que a principal causa disto foy, por fazer a guerra com os Espanhoes seus naturaes, e ElRey de França polo contrario com muita parte de Soiços, e Italianos: grande inconveniente he ajudarse o Principe do Exercito, que sómente anda por roubar, porque assi como a gente natural peleja por amor, assi a estrangeira por só interesse, o qual faltando, tudo falta, e a tal gente se leyxa vencer por ser peitada, ou por esperança de mòr proveito, e o peor he que muitas vezes por este caminho os Estados se vem a perder, e a ficarem sugeitos daquelles, que os ajudavaõ.
Diz Aristoteles, que os Athenienses levantaraõ a Codro por seu Rey por lhes conservar a liberdade, e ElRey Cyro mereceo antre os Poetas a mesma honra: outros foraõ feitos Reys, ou por conquistarem Reynos, ou por fundarem Cidades de novo, como foraõ os Reys dos Macedonios, dos Spartanos, e dos Molossos. Tambem os Reynos, que neste tempo por legitima sucessaõ se herdaõ, antigamente foraõ aos grandes merecimentos das pessoas, ou por virtudes, ou boas obras, ou grande fortaleza. O mesmo Aristoteles diz, que o mòr pensamento dos Principes antigos era levantarem o Ceptro Real, em sinal da fé, que direitamente haviaõ de guardar, e pois que aos Reys antigos, os povos deraõ sobre si tamanho poder, e authoridade polos bens que receberaõ delles, e principalmente pola liberdade, e asosego comum, devem todos os Reys seguir os exemplos de seus avòs, e da caza donde vem, de maneira, que os Reynos, que herdaõ por sangue, tornem a merecer de novo por grande virtude, e fortaleza, e sobre tudo devem conservar a honra, descanço, e liberdade de seus vassallos, usando verdadeira fortaleza, e naõ confiando mais na gente de fóra, que na força, e valentia de seus naturaes, por quanto sempre se vio com a gente natural se conquistarem os Reynos alheyos, e com a de fóra se perderem os proprios, e jà ganhados.
Tudo isto que disse de fortaleza, e partes della, foy porque vissem todos comparando as cousas antre si, quam excellente Principe em todas he V. Alteza quam forte, quam constante, quam afeiçoado à lembrança dos feitos, que saõ dignos de memoria. Quantas Conquistas tem contra os infieis em diversas partes do Mundo, e assi quanto mais confia no esforço, e bondade de seus naturaes, que nas armas, e ajuda de nenhuma gente estrangeira: mas naõ se contenta com sómente ser forte (sendo este em si tamanho louvor) mas ainda vay mais por diante, merecendo mòr nome, que o da fortaleza, e sua natureza he naõ descançar nunca athè naõ chegar ao mais alto ponto, e cabo de toda a virtude. Grande louvor seria a todo o Principe ser chamado forte; V. Alteza de tal maneira o he, que tambem com muita razaõ pòde ser chamado magnanimo. Quem o vio nunca menancorio, ou desviado daquella humanidade, e brandura, que mais representa homem Divino, que humano? Quem vio nunca seu rosto alterado, nem vencido de alguma payxaõ, por nenhuma grande adversidade, que fóra destes Reynos (tantas esterelidades, tantas fomes, tantos terremotos, e pestes em quantos annos atraz foraõ) se elle com seu grande, e magnanimo esforço, e bondade lhes naõ acudira?
Eraõ perdidas muitas Nàos de V. Alteza que vinhaõ carregadas da India de muita riqueza, naõ cessavaõ diferenças muito importantes com grandes Principes, com tudo sentindo sem comparaçaõ mais os males presentes, que seus Reynos padeciaõ, e dissimulando a payxaõ com muito esforço, naõ cessava com igual prudencia, e magnanimidade de socorrer continuamente as necessidades de todo o seu povo, muito mais do que a qualidade dos tempos parecia, que pudesse soportar; mais he isto que fortaleza, e mòr louvor merece, porque saõ estas as partes do coraçaõ alto, e segundo dizem os Filofofos, heroico, que assi como nas prosperidades se vem os homens para quanto saõ, assi nos grandes males, e perdas se conhecem os magnanimos. Em tempo do Emperador Marco Antonio o Imperio Romaõ padeceo todos os males, que se podiaõ cuidar, toda a terra de Levante toda Esclavonia, toda a França ardiaõ em guerra, havia fomes, esterilidades, tremia a terra em muitas partes, cahiaõ Cidades, e lugares com perda de muita gente, vinhaõ grandes cheas de rios, que alagavaõ os campos, e faziaõ grande danno, andava por todas as partes graõ pestilencia, com outras muitas doenças, desciaõ polo ar nuvens de Gafanhotos, que aonde pousavaõ, destruiaõ tudo, em fim nenhum mal, nenhuma desaventura se poderia imaginar, que entaõ naõ ouvesse, mas Deos que nunca se esquece dos homens, tanto que naõ lhes dè algum remedio, quiz por sua misericordia, que fosse naquelles tempos Emperador de Roma Marco Antonino Principe dotado de tantas virtudes, e de taõ excellente engenho, e saber, que pode com seu esforço repairar, e ter o rosto quedo a tamanha fortuna, e bem se pòde dizer, que se naquelles tempos naõ fora Antonino, que o Imperio Romaõ se perdera. Com muita razaõ pòde V. Alteza ser comparado a este taõ virtuoso Principe, posto que nisto lhe faz ventagem, que tendo recebidas mòres perdas em sua fazenda naõ leyxou por isso, nem leyxa de ser taõ liberal, como elle foy; mas quanto mais me estendo por seus louvores, e grandes virtudes tanto se faz o caminho mais comprido. Aconteceme como àquelles, que entrando polo mar Occeano, quanto mais vaõ por diante, tanto mais se metem no alto, por isso em tanto perigo, melhor, e mais saõ conselho seria recolherme, e assi o quero fazer se primeiro disser algum pouco da grande temperança que ha nelle: claro remate de todas suas virtudes, sugigando sempre o appetito à razaõ, e guardando inteiramente o que cumpre, e sómente està bem a seu Real Estado. Grande jurisdicçaõ tem esta virtude em toda a vida do homem, e com todas as outras esta abraçada de maneira, que de nenhuma se pòde apartar, nem pòde haver perfeita virtude, em que naõ haja temperança, com que nada repugna à razaõ; mas he tudo confórme, e conveniente antre si. Naõ me he a mim necessario para prova disto allegar muitas razoens, por quanto o exemplo de V. Alteza basta para verificar o que digo, no qual naõ menos todas as outras virtudes, que esta, e suas partes se representaõ. Qual homem por mais rude, e idiota que seja, vendo a sua muita temperança, naõ cuidarà que vè hum daquelles Principes antigos cheyos de toda a humanidade, e comedimento, que de si nos leyxàrão memoria para sempre?