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Part 34

Chapter 344,102 wordsPublic domain

Sohia dizer Marco Antonino Emperador Romaõ, quando entrava em conselho, que mais razaõ era, que elle só seguisse o conselho de tantos, e taes seus amigos, que naõ que elles seguissem o parecer delle, e Agamenon Rey dos Gregos no cerco de Troya, pedio a Deos, que lhe desse outros taes dez conselheiros, como era Nestor, o qual por sua longa idade, e experiencia excedia no arrayal dos Gregos. Se Pithagoras manda, que todo o homem tenha na vida respeito a dous tempos, que saõ manhãa, e tarde, quer dizer, que pela manhãa nos lembremos do que havemos de fazer aquelle dia, e à noite do que jà temos feito, e se Cleobulo hum dos sete sabedores leyxou dito, que antes que sahissemos de casa, cuidasse-mos o que haviamos de fazer, e depois de tornados tomasse-mos conta a nòs mesmos do que tinhamo feito, se estes preceitos foraõ dados a qualquer pessoa particular, que conselho, que cuidado deve ser o do bom Principe, a quem toca o Regimento de tanto numero de gente? Naõ diz em balde o proverbio mais vem dous olhos, que hum, o que Aristoteles confirma, e o mesmo diz, que poucas vezes acontece, quando muitos daõ conselho, que algum delles naõ acerte. Se pudesse ver o Principe os defeitos, males, e fraquezas dos homens, e se por alguma graça, ou privilegio Divino pudesse entrar nos pensamentos, e julgar taõ claramente as vontades, como julga o que vè de fora, sem duvida acharia ser verdade o que digo, e veria quam necessario he ao bom Governador entrar muitas vezes em conselho para com elle soccorrer, e acodir a todos os perigos, e necessidades de seu povo. Escreve-se de Solon hum dos sete Sabedores de Grecia, que vendo andar hum seu amigo muy triste, e enojado por grandes payxoens, o levou ao Castello de Athenas, que era no mais alto da Cidade, e dahi lhe rogou, que lançasse os olhos, por todos os edificios, e cazas, que daquelle lugar podia ver, e então lhe disse: cuida agora meu amigo, quantos trabalhos, quantos cuidados, quantas tribulaçoens ouve sempre de baixo daquelles telhados, e os que agora tambem ha, e os que ao diante seraõ, e cuidando bem isto, naõ chores os males, que a todos saõ geraes, como se a ti só fossem particulares, e com esta consolaçaõ nos mostrou as Cidades, e Reespublicas serem huns parques, e encerramento de muitos cuidados. O mesmo Filosofo dizia que se os males de todos os homens se ajuntassem para depois igualmente se averem de repartir antre todos os homens, que antes cada hum tomaria, e escolheria levar os seus para sua caza, que tomar de todos juntos a parte, que a cada hum coubesse.

Outro grande Filosofo, chamado Eraclito, doendo-se das mizerias dos homens, nunca outra cousa fazia, senaõ chorar. He causa clara, que nenhum Reyno naõ pòde durar muito sem ajuda de Principe, que tenha bom conselho, mas cumpre que os conselheyros sejaõ verdadeiros, e amigos de Deos, e que saybaõ, e naõ sejaõ de pouca idade. Sohia dizer Socrates muy prudentemente, que a Deos deviamos somente pedir que nos desse o que fosse bem, porque elle somente via o que era bem, mas que os homens pola mòr parte dezejavaõ o que seria melhor q́ naõ ouvessem, e o mesmo dizia que era grande atalho para a verdadeira gloria, que fossemos taes, quaes queriamos parecer a outrem, porque com Deos naõ he necessario estar em muitas praticas, nem dar lhe razoens do nosso dezejo; mas a verdade de leyxar tudo em suas maõs, e quanto a esta parte brevemente lhe pedir, que faça o que mais vir, que he necessario, que he seu serviço, mas no negocio dos homens, por andar a verdade as mais vezes encuberta, cumpre primeyro que se a cousa ponha em obra, que seja comunicada, e examinada com os amigos, e comparando os tempos, e aquecimentos, que se vejaõ as razoens, e busquem os meyos, e dos meyos qual serà o melhor, e depois que se ponha em obra, porque desta maneira, sendo discutidas, e praticadas as cousas, se vem a cahir no conhecimento da verdade, e para isto muy necessarios, como dizem, saõ ao bom Principe bons, e verdadeiros Conselheyros. Nem cuido eu que por outra causa a Reepublica de Veneza passa jà de mil annos, que florece sem nunca ser tiranizada. Necessario he que no Conselho naõ entre payxaõ, odio, nem cobiça, nem pouco amor de Deos, nem lizonjaria, porque sempre se vio as pessoas, que taes vicios, ou parte delles tiveraõ, serem prejudiciaes às Reespublicas.

Naõ deve ser o Conselheyro muito moço, que aonde naõ ha idade, naõ pòde haver muita prudencia, e os mancebos naõ tendo experiência do mal, naõ podem entender o bem, nem o sabem aconselhar, e então conhecem o erro, quando o mal he presente, e a culpa naõ tem remedio. Escreve-se que succedendo Roboaõ filho de Salamaõ no Reyno de seu Pay, e sendo-lhe requerido em ajuntamento geral polos doze Tribus, que quizesse soltar alguma parte dos tributos, que ElRey seu Pay lhes puzera, quiz Roboaõ antes que nada fizesse praticar isto em Conselho em que aos velhos parecia, que ElRey no começo de seu Reynado devia contentar ao povo. Os mancebos polo contrario o aconselharaõ, que pois o povo fora taõ descortès, que ousara pedir cousa, que jà estava taõ assentada, que Roboaõ lhe devia responder asperamente, porque outra hora vissem com quem o haviaõ, e naõ ouzassem entrar em taõ doudo requerimento. Pareceo melhor o Conselho dos mancebos a Roboaõ, por ser tambem mancebo, e pondo-o assi em obra, foy causa de que dez Tribus se alevantassem logo contra elle, e fizessem outro Rey, chamado Jeroboaõ, ficando sómente com Roboaõ dous Tribus Benjamim, e Judà, por isso os Romaõs, como os Persas, como todos os outros Estados deraõ sempre muita authoridade, e credito aos mais velhos, o que o mesmo nome de Senador nos representa.

Naõ he piqueno inconveniente quando os mancebos daõ conselho serem muy colericos, e seguirem seu appetito, que a rasaõ naõ olhaõ a que pode seguir, porque saõ as maes vezes guiados de hum falso desejo, e enganosa esperança, que lhes cega o entendimento, ou por seguirem sua vontade, ou por contentarem a quem aconselhaõ, querem tudo aventurar em hum ponto, e por isso diz Aristoteles, que os taes naõ saõ aptos para o exercicio das virtudes moraes. Os velhos polo contrario ensinados da longa idade, e experiencia das cousas passadas, nenhuma cousa fazem, nenhuma cousa dizem, senaõ com muito tento, julgaõ o que hade vir polo passado, e no presente se guardaõ dos extremos, nem pòde mais nelles a payxaõ, e colera, que a razaõ, e entendimento: naõ fazem, nem aconselhaõ nada aceleradamente, e se aproveitaõ do tempo segundo a qualidade do negocio, alguma ora uzando de pressa, outra de vagar, e tudo isto para conseguir, o que he mais proveitoso à Reepublica, com dilatar as cousas, e assi como no tempo da paz se vem a saber todo o engano, assi na guerra se descobrem os conselhos, e acordos da parte contraria.

Dizia Epaminondas Capitaõ Thebano, que nenhuma cousa era mais necessaria, nem mais proveitosa a hum bom Capitaõ, que conhecer as determinaçoens dos inimigos. O Emperador Cesar Augusto (que tanto neste Panegyrico allego) era Principe muy attentado, e prudente, o qual dizia, que o Capitaõ novo sobre tudo se devia guardar de pressa, e atrevido cometimento, e trazia muito na boca estas palavras (ajunta pressa com vagar) que vieraõ a ficar em proverbio. O mesmo dizia, que assàz depressa era feito, o que era bem feito, nem queria que se começasse alguma guerra, salvo quando a esperança do proveito fosse mayor que o receyo do danno, e os que aventuravaõ muito por cousa pouca, dizia, que eraõ semelhantes a quem pesca com anzol d’ouro, o qual se se perde, he muito mayor a perda, que a esperança do interesse. Naõ cuide alguem que Fabio Maximo mereceo sobre nome de Maximo por ser aventureyro, e cometedor, mas por ser muy attentado, e uzar de dilaçaõ a seu tempo, e quanto mais valha o vagar attentado, que a pressa acelerada se pòde bem ver polo exemplo de Minucio seu Mestre dos Cavalleyros, porque este despresando os conselhos de seu Capitaõ, e reprehendendo nelle aquella dilaçaõ, que foy causa de ser quebrada a furia d’Anibal, se ouvera de perder, se o mesmo Fabio lhe naõ acudira, assi que o vagar de Fabio Maximo naõ aproveitou pouco depois a Marcelo, a Scipiaõ Africano para serem diligentes.

Bem sey que alguns saõ de opiniaõ, que Fabio foy chamado Maximo, quando em Roma apartou os Estrangeiros em quatro Tribos, ou Freguesias sobre si, mas a gloria de salvar Italia das maõs d’Anibal foy tamanha, que naõ sey para que buscamos outra causa, nem outro nascimento a taõ honrado titulo, e eu para mim quero viver neste engano; devem isso mesmo os que aconselhaõ saber muitas cousas, e senaõ forem Letrados, ao menos sejaõ taõ prudentes, que escuzem as letras, e porque o principal fundamento de todos os Estados està em boas leys, e boas armas, naõ menos devem de entender as cousas da guerra, que da paz. Preceito he de Xenocrates, que o Rey se deve aconselhar com homens Letrados, e universaes, e com Poetas, e com Filosofos, mas eu assi como naõ tomo todo o perigo desta tençaõ sobre mim, assi ousaria affirmar, que o bom Conselheyro deve ter noticia de muitos estudos, das Ordenaçoens, da Patria, do Direito commum, finalmente dos verdadeiros Officios de toda a virtude, e quem estas partes todas tiver, poderà bem aconselhar seu Principe.

Acho eu, que duas maneiras ha ahi do governo, porque ou o Principe quer conservar o que tem, ou quer conquistar os caminhos para conquistar saõ estes: aos vencidos naõ dar muita opressaõ, mandar que os vassallos, e naturaes vaõ morar nas terras ganhadas, as quaes povoaçoens os Romaõs chamavaõ Colonias, dos despojos fazer thesouro: afadigar ao inimigo com cavalgadas, entradas, e batalhas campaes, e naõ concertos: ter rico o pubrico, e pobre: a os vencidos dar aos Capitaens inteiro poder como faziaõ os Romaõs, naõ reservando para si mais que o mover nova guerra, e assi manter com muita diligencia os Exercitos, e gente d’armas: as regras para conservar saõ enfrear cobiças, e desejos demasiados, e governar as Cidades com boas leys, e bons costumes. Mas quer o Principe queira conquistar, quer se contente com conservar o ganhado, sempre tem muita necessidade de fieis, e prudentes Conselheiros, fieis seraõ quando fallarem verdade, e como diz o nosso Proverbio antigo (mais valem açoutes do amigo, que beijos doces do inimigo) e prudentes, quando tiverem experiencia, ou letras. Costume he da Reepublica Veneziana, que havendo muitos officios nobres em cada officio da Justiça, e durando ordinariamente os officios, nunca sahem todos juntos, nem entraõ todos juntos; mas se saõ dez Officiaes de hum càrrego, quando o primeiro delles acaba, ainda os nove, que naõ tem acabado, ficaõ, e quando o segundo acaba, ainda ficaõ os oito, e em lugar dos que acabaõ, se elegem outros de novo. Ordenaraõ isto os Venezeanos, porque haja sempre Officiaes, que ensinem aos que entraõ, porque se começassem todos juntos, naõ poderia ser, e para que vejamos quam necessario he o bom conselho a todos os Principes, olhemos quantos males, e quantas deshonras, vem aos Reys, e Senhores, que se regem por sua cabeça.

Do Emperador Octaviano se escreve que naõ podendo sofrer a pouca vergonha, e deshonesto viver de sua filha Julia, vencido de muita ira, contou publicamente todas suas deshonestidades, que della sabia ao povo, em que foy digno de muita reprehensaõ, que posto que (segundo delle escrevem) queria mais ver morte aos seus, que deshonra, com tudo as culpas de sua filha mais eraõ para elle as callar, e castigar secretamente, que naõ para as dizer ao povo: mas depois que a merencorîa se lhe foy, e em lugar da sobeja colera succedeo o conhecimento da verdade, doendose Augusto de sua infamia, e queixando-se de si mesmo, dizem, que disse em voz alta com grande dor de sua alma estas palavras: naõ me acontecèra a mim isto, se Agrippa, e Mecenate meus Conselheiros foraõ vivos; estes foraõ dous grandes seus privados ambos pessoas de muito preço, e de muita virtude, que o Emperador desde sua mocidade tomàra por amigos, e achando-os dignos de sua amizade os amàra constantemente; porque Augusto antre outras virtudes teve esta, que assi como era mào de tomar amigos, e amizades novas, assi as que huma vez tomava, nunca mais soltava atè morte, e se o Emperador Augusto, sendo tal Principe, por se naõ aconselhar, cahio em tamanha culpa, em tanto mòres erros se deve crer, que cahiraõ os Principes, que naõ saõ iguaes a Octaviano, se se quizerem sómente reger por seu Conselho. Mas tornando a meu proposito, V. Alteza faz tudo o que se espera de hum virtuoso Principe, e assi como Nosso Senhor o dotou de muy alto, e experto juizo, e vivo entendimento, assi os do seu Conselho saõ merecedores de tamanha honra como he confiar delles o pezo dos negocios, q́ tocaõ a seu Ceptro Real, nos quaes elle he taõ occupado, que posto que a idade o convida a folgar, e a tomar algum descanço, e recreaçaõ do trabalho; com tudo o amor, que tem à sua Reepublica he de mais força, e pode mais que nenhum seu particular contentamento. Louvado he o exercicio da caça, e monte aos Principes, e grandes Senhores, o qual, como diz Xenofonte, ha de ser temperado, e antigamente os filhos dos Reys se criavaõ nos bosques e caças, e tinhaõ quem lhes ensinava muitas cousas necessarias para guerra: tambem o sitio, e disposiçaõ dos lugares se sabe pola mòr parte, porque havendo nas terras todas alguma conformidade facilmente polo conhecimento de humas, se vem a saber as outras; mas posto que este exercicio seja louvado, e V. Alteza use dalle temperadamente, e a seus tempos, com tudo muito mòr louvor sem nenhuma comparaçaõ merece o seu continuado exercicio, e trabalho de governar bem, e ter em muita paz, e justiça seu Reyno, levando elle sóo mà vida, com que nòs todos vivamos descançados. A todos he notorio quanto amor às Letras, quanto favor, quanto amparo, quanta mercè recebem delle os Letrados de toda a sciencia: este amor he causa de sua Corte florecer hoje tanto em Letras como florece, este mesmo o faz cuidar novas maneiras, e novas invençoes d’Estudos geraes, por onde as sciencias em seu Reyno naõ menos cresçaõ, e vaõ adiante, que as outras virtudes. Verdadeiramente as Letras dizem bem com as armas. Bem sey, que saõ muitos d’outra opiniaõ, mas a causa disto (se me não engano) he por naõ confessarem seu defeito, louvando a virtude de que carecem. Mal hiria ao Capitaõ senaõ fosse prudente, e mal à Reepublica que naõ houvesse armas sem conselho, e authoridade de Letras; mas fique esta questaõ para outro tempo, agora sómente direy, que os mais dos Emperadores, e Reys, e Capitaens de grande fama foraõ Letrados.

Costume era no Egypto (como escreve Plataõ) dos Filosofos se elegerem os Sacerdotes, e dos Sacerdotes os Reys. Destes foy aquelle graõ Rey Mercurio chamado Trimigistro, que quer dizer tres vezes grande, por quanto em Filosofia excedeo a todos os Filosofos, na Religiaõ a todos os Sacerdotes, e em saber governar, seu Reyno a todolos Reys, e do mesmo se escreve, que começou a Theologia antiga, que depois acabou Plataõ. Quem bem esta ordem de eleiçaõ atentar, verà quam bom Regimento era o do Egypto, e quam bem està ao Principe ter conhecimento das cousas Divinas, e humanas. De Pericles Atheniense se lè, que foy grande Capitaõ, grande orador, e grande Filosofo, e Discipulo muito tempo do Filosofo Anaxagoras. Epaminondas Thebano foy graõ Capitaõ, e graõ Filosofo. ElRey Philipe de Macedonia, filho delRey Amintas, e Pay de Alexandre Magno, foy Letrado, e Discipulo de Epaminondas. O mesmo Alexandre foy Filosofo, e muy dado às Letras, e antre tantos trabalhos, e occupaçoens de conquistar o mundo, cada dia tomava algum tempo para ler, e delle se escreve, que nunca se lançou na cama, sem hum punhal, e o livro de Poeta Homero à cabeceira. Isicrates Atheniense foy graõ Capitaõ, e orador.

Que direy de Julio Cesar, Sylla, Pompeo, Octaviano, Adriano, e dos outros Emperadores Romaõs, que naõ menos em armas, que em Letras floreceraõ? Finalmente Carlos Magno Emperador d’ Alemanha foy Letrado, e compoz algumas obras, por isso quem ousar de reprehender algum Principe por ser dado às Letras, he-lhe necessario, que reprehenda tambem a estes todos, os quaes sendo nellas naõ menos excellentes, que nas armas, veja com quanta sua honra a seu salvo o poderà fazer? Se naõ fossem as Letras, e o conselho, que dellas aos Principe nasce por onde se governaõ, sem duvida muita tormenta naõ poucas vezes passariaõ as Reespublicas.

Por tanto o bom Rey he comparado ao bom Piloto, o qual naõ somente na parte da Nào em que està faz proveito, mas com seu conselho, e saber em hum mesmo tempo provè, e manda o que se faça em toda a Nào, e dizia Cataõ Uticense, que naõ fizeraõ os Romaõs a sua Reepublica de pequena tamanha com força d’armas, mas com uzarem em casa de muito saber, e governarem fóra perfeitamente, e com serem livres em dar conselho, e asaltados de toda a reprehensaõ, donde cuido eu, que nasceo o Proverbio, que por elles se disse, o Romaõ estando assentado vence. Bem està a todos os Principes serem grandes, e prudentes, e amadores das Letras, mas muito melhor està isto aos Reys de Portugal, e a razão he, porque a naçaõ Portuguez hoje mais, que nenhuma (se me naõ engano) conserva a gravidade, e desejo de honra, que antigamente sohia ter o Povo Romaõ. O Emperador Cesar Augusto, quando lia por algum livro latino, ou Grego, achando algum exemplo, ou preceito, que pudesse aproveitar ao Regimento da Reepublica o fazia logo tirar, e o mandava, ou a seus Criados, ou a seus Exercitos, ou Governadores das Provincias, ou aos Officiaes de Roma, assi como via, que delle cada hum tinha necessidade.

Deste, e taõ grande Principe se escreve ser homem de poucas palavras, e que nunca fez falla ao Senado, ao Povo, nem o Exercito, que a não levasse primeiro cuidado de casa: com taõ singular prudencia fez muitas cousas, muy proveitosas, e necessarias a sua Reepublica: ordenou que naõ houvesse mais de trezentos Senadores no Conselho de Roma, havendo d’antes mais de mil: estando em Conselho nunca perguntou por ordem seu parecer aos Senadores, mas ora a huns, ora a outros, porque cada hum estivesse mais apercebido, e respondesse melhor quando fosse perguntado; favoreceo muito os Lavradores, trabalhou que estivesse Roma farta, ennobreceo-a de muitos edificios, teve grande cuidado da segurança, e paz geral, e naõ menos cuidado dos Exercitos. Renovou, e ornou os Templos, acrescentou o numero, e dignidade dos Sacerdotes, emmendou todas as cousas de mào exemplo, ouvio partes, e elle per si determinou muitas demandas, e proveo como naõ ardessem os edificios em Roma. Teve sempre hum memorial em sua camera de todo o Imperio, ordenou homens em pàradas, para ser mais cedo avizado do que se passava, e estes depois tirou, e poz Cavallos em postas, porque os mesmos, a que fossem dadas as cartas, lhas podessem trazer, e dessem razaõ do que fossem perguntados. Escreve-se, que ElRey Cyro foy o primeiro, que ordenou Correyos, de tal maneira, que hum mensageiro corresse todo hum dia em hum só Cavallo, e o seguinte noutro, e assim atè o cabo; e finalmente Octaviano todalas cousas fez prudentemente como cumpria ao bem, e conservaçaõ da Reepublica Romãa, mostrando-se em tudo mais virtuoso, que todos, e Pay verdadeiro de seus Cidadaõs, aos quaes teve tanto amor, que duas vezes esteve determinado para soltar a Reepublica, e restituir à Cidade a sua liberdade, e sempre o fizera, se lhe naõ parecera mais perigoso ser jà governada por muitos, que hum sóo.

Os Principes, que querem ser justos, e prudentes, e pacificos devem sempre imitar tal Emperador, nem sinto eu, que gloria se possa comparar com a justiça, e paz de Octaviano: mas naõ menos santas, e proveitosas invençoens a estes Reynos nascem cada dia da prudencia de V. Alteza, com as quaes vivemos taõ descançados, como na mais segura Reepublica do mundo: jà naõ hà morte, jà naõ hà ladroens, jà naõ hà salteadores, todos os males com sua justiça, e prudencia saõ de tal maneira apagados, que quando ouvimos, que foraõ, nos espantamos como poderàõ ser. Ó grande bemaventurança destes tempos, pola comparaçaõ dos bens presentes, naõ podemos dar credito aos males, que jà passaraõ! Sem duvida estes bens se devem atribuir à grande virtude de V. Alteza, o qual assi como tem sua consciencia muy limpa, e apartada de todo o vicio, assi trabalha, que sua terra esteja limpa de todos os males; estas virtudes taõ excellentes acompanha V. Alteza de grande fortaleza, e magnanimidade: forte he quem defende a boa rasaõ, e igualdade, as quaes nunca pòdem estar: forte he quem ama a virtude, naõ por interesse algum deste Mundo, mas pola gloria do outro, que espera: forte he quem sempre mostra hum mesmo rosto à fortuna, nem se espantando com nada, nem se leyxando vencer d’algum appetito. Fortaleza he procurar as cousas da paz, naõ menos que vencer batalhas campaes, por quanto as ordenaçoens da paz aproveitaõ para sempre, os males da guerra saõ muitos, e o bem da vitoria as mais vezes dura pouco. Magnanimo he quem resiste à ira, e menencoria, e quem soffre temperadamente a prospera, e adversaria fortuna, nem se alterando com as prosperidades, nem se abayxando com as adversidades.

Finalmente a magnanimidade està no cume de todas as virtudes, a todas dà muita perfeiçaõ. Quem bem quizer olhar todo o tempo do Reynado de V. Alteza, acharà que todalas partes desta virtude se pòdem nelle verificar. O zelo de toda a virtude, a boa razaõ, e a igualdade tem nelle taõ forte, e constante defensor, que o que em outras partes se faz com medo da pena, se faz neste Reyno seguindo seu virtuoso exemplo. Quem naõ sabe quam forte foy no principio de seu reynado, vendo logo cousas em que bem mostrou quam acabado em tudo era, e ao diante havia de ser, as quaes eu cuido que Deos permitio, que vissem estes Reynos por experiencia quamanha merce delle receberaõ em se lhes dar tal Principe, e que de taõ pouca idade, e sendo taõ novo em tamanho officio, assi resistio a muitas cousas, a que outros pola ventura de mais tempo naõ puderaõ resistir, rasaõ era que delle se esperassem todos os bens, naõ nos enganou esta esperança: passa de doze annos que V. Alteza reyna, nos quaes sendo sempre taõ excellente Rey, nunca cançou, nem cança d’o ser cada dia melhor: notorio he ao Mundo com quanto respeito, com quanta igualdade, se ouve com a Rainha de França Dona Leonor usando com ella toda a virtude, e magnificencia, que hum Rey Christianissimo, e magnanimo podia usar.

Naõ sómente como dizem os Filosofos o que peleja, he bom Cavalleyro; mas tambem merece este nome, quem no tempo da paz pode levar ao cabo as cousas fundadas em bom conselho, e rasaõ, nem foy menos forte Salamaõ no tempo da paz, do que foy seu Pay David no tempo da guerra: venceo o Gigante Philistheo d’altura de seis covados, venceo outras muitas Naçoens poderosas, e apartadas do Reyno de Judea, Salamaõ estando em paz com naõ menos fortaleza, fundou em louvor de Deos aquelle Templo taõ nomeado de Hyerusalem, manteve os doze Tribus em muita justiça, enriqueceo seu Reyno, e vassallos sem nenhuma comparaçaõ: edificou Cidades em muitas partes, e muy longe de Judèa: foy Senhor pacifico da Arabia, e mòr parte da Suria: estendeo sua fama pola Asia, Persia, Etiophia: mandou fazer no Mar Roxo nàos em hum porto, que entaõ se chamava Asion Gaber perto da Cidade de Helena, que depois foy chamada Beronica, e pòde ser que seja agora porto Judà, porque toda esta terra, e costa foy naquelle tempo dos Judeos, e estas Nàos sendo mandadas por ElRey Salamaõ à India, e governadas por Marinheiros, e Pilotos da Cidade de Tyro, que entaõ eraõ grandes homens do mar, chegaraõ a hum lugar chamado Ophira, que depois se chamou Terra d’ouro, donde trouxeraõ a ElRey mil e cem arrobas pouco mais, ou menos, e muita madeira de Pinho alvo, de que Salamaõ mandou fazer Violas, e Psalterios, com que os Levitas tangessem a Deos no Templo.