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Part 33

Chapter 334,180 wordsPublic domain

Deve o prudente Governador, quanto nelle for possivel, tirar os màos costumes da terra, antes que criem raiz, que depois naõ lhe aconteça, como aos Fisicos na cura dos Eticos, cuja enfermidade no começo he boa de curar, e mà de conhecer e no fim he boa de conhecer, e mà de curar. E quando os Cretenses antigamente queriaõ rogar alguma grande praga a seus inimigos; diziaõ, que ainda os vissem folgar com màos costumes. Naõ deve o Principe ser esquecido do que toca a toda huma Reepublica, e se este defeito em huma pessoa particular se estranha tanto, que deve ser em quem representa todo o povo? Dizia Scipiaõ Africano, que era mà escusa no tempo da guerra dizer o Capitaõ quem houvera isto de cuidar? O que tambem se pode aplicar ao tempo da paz; porque na guerra a muita diligencia faz às vezes danno, e por isso dizia o mesmo Scipiaõ, que nunca se devia dar batalha, senaõ com grande vantagem, ou necessidade, mas no tempo da paz naõ he assi, no qual nunca a diligencia pode ser tanta, que naõ seja toda necessaria, para a conservaçaõ dos bons costumes. Trabalhe o bom Principe, que a sua vida seja aos subditos, como huma regra direita de bom viver, como dizia o Filosofo Xenocrates. Naõ hà cousa mais fóra da razaõ, nem que peor pareça, que vivendo bem os Vassallos, viverem os Senhores mal, e como acima disse as mais vezes vemos, que as Cidades, e Povos seguem a vida, e costumes de seu Senhor. Quanto a pessoa he mais illustre, tanto o erro, que cõmete, he havido por mayor. E como diz S. Joaõ Chrisostomo, as culpas se sóem a medir naõ pola quantidade do peccado, mas pola dignidade do que pecca.

Que grande contentamento deve ser o do bom Principe, vendo-se limpo, e apartado de todo o vicio, e não tendo feito, nem fazendo cousa alguma, de que naõ possa dar boa conta de si, e muy digna de ser recebida, darlhe-hà contentamento sua mesma consciencia: dar-lhoaõ seus amigos, sendo delles louvado verdadeiramente, dar-lhoaõ seus Vassallos em o seguirem, e tomarem seu exemplo, finalmente dar-lhoaõ seus contrarios, e os que lhe quizerem mal, os quaes buscando em que o possaõ reprehender, tanto mòr paixão haõ de levar, quanto menos acharem cousa em que com razaõ o possaõ fazer. E quem estas partes no Regimento da Reepublica prudentemente conservar, sem duvida terà muito, e continuo trabalho, mas elle conseguirà o verdadeiro fim de bom Principe. Por isso naõ sem causa V. Alteza sendo como he em tudo taõ acabado, vigia continuamente, aplicando seu entendimento a todos os cuidados, porque nòs vivamos descançados: o fruto, que jà disto recebe he taõ grande, que o esperta a passar esta carreira animosamente, o trabalho se ajuda da vontade, o bom natural se aproveita de muita arte, e assim como o bom Capitaõ deseja sempre novas victorias, e o bom Piloto naõ se contenta com o que sabe, vay por diante descobrindo novos mares, e terras, o que cada hum destes faz pela gloria, que espera, alli o bom Principe naõ receando nenhum trabalho, nunca cança, nunca repousa, ora fazendo leys, ora inventando novas maneiras proveitosas ao bem do seu Povo, e Estado, ora competindo com os melhores Principes, e trabalhando por lhes levar ventagem: o que tudo faz naõ por algum interesse desta vida, mas polo fim, e bemaventurança, que na outra deste trabalho espera.

Artaxerxes Rey da Persia, filho delRey Xerxes, a que os Gregos chamaraõ Cyro, e os Judeos Assuero, foy muito nomeado antre os Persas, delle se conta, que jazendo huma noite na cama, e naõ podendo dormir por naõ perder aquelle tempo mandou chamar hum Secretario, e que trouxesse os livros dos memoriaes, em que estava escrito o merecimento, e galardaõ de cada pessoa, o qual vindo se achou, começando a ler logo hum, que por serviços, que fizera a ElRey houvera humas terras em satisfaçaõ, e mais adiante acharaõ outro, que recebera mercè de dinheiro, e estes ambos tinhaõ asignado no livro como he costume, e chegando a hum Mardocheo, que os tempos passados descobrira huma traição, que estava ordenada contra ElRey; perguntou Artaxerxes se a este fora feita alguma mercè, e respondendo o Secretario, que o livro estava em branco, fez ElRey a mesma pergunta a hum grande seu privado, que estava prezente chamado Amaõ, o qual tambem naõ sabendo nada, Artaxerxes espantado de tamanho descuido, mandou logo chamar ao mesmo Mardocheo, e o fez vestir de vestiduras Reaes, e lançar-lhe hum Colar de ouro ao pescoço, e no dia seguinte quiz, que fosse levado com grande pompa por toda a Cidade, e porque seu privado Amaõ fora taõ descuidado em cousa, que tanto lhe cumpria, mandou, que elle mesmo fosse pelas ruas diante de Mordocheo, apregoando, que o mòr premio da honra se dava a Mardocheo polo mòr serviço. A mesma diligencia teve em governar o mundo o Emperador Cesar Octaviano, porque em quanto viveo, sempre ordenou cousas muy proveitosas à sua Reepublica, e antre outras escolhendo por authoridade do Senado dez pessoas, que o ajudassem, constrangeo a todos os Cavalleiros de Roma, que viessem perante elle dar conta, e razaõ de sua vida, e os que a naõ deraõ boa, parte castigou com pena, e parte fez infames, e outros reprehendeo de palavras: o mais brando castigo de todos foy meter na maõ, a quem naõ achava taõ culpado, hum pequeno escrito de reprehensaõ, que logo o mesmo havia de ler antre si em presença do Emperador, e nisto Octaviano seguio o exemplo de Amasis Rey do Egypto, segundo conta Herodoto, que fez huma Ley, que sobpena da vida, todo o homem cada anno perante Juizes Deputados fosse obrigado a dar razaõ de sua vida, e o mesmo costume passou depois Solon Filosofo às leys dos Athenienses. Mandou Cesar Augusto soltar todos os devedores a que seus acredores tinhaõ presos na cadea naõ por esperar paga alguma, naõ tendo elles de seu nada, mas para tomar huma sobeja, e dura maneira de vingança, e foy em tudo taõ prudente, que naõ sómente na vida, mas tambem na morte teve respeito ao bem cõmum. Escreve-se, que leyxou tres livros feitos por sua maõ, o primeiro do que pertencia a seu enterramento, o segundo lembrança de todas as cousas, que fizera, no terceiro se continha huma breve instrucçaõ de todo o Imperio, quanta gente de peleja ficava no campo, quanto dinheiro deixava, quanto se devia das rendas publicas, e assi o que deviaõ seus criados, e procuradores a Reepublica, para que em todo o tempo por este livro lhe podesse ser tomada conta.

Quem leyxarà de louvar a verdadeira clemencia, e humanidade de V. Alteza, que naõ menos usa com os grandes, que com os pequenos em tudo sempre conservando, o que cumpre a sua real authoridade? Proprias virtudes saõ estas de bom Principe Christaõ, que sempre deve trabalhar de naõ ser aspero, nem so berbo ao povo, nem lhe dar mais opressaõ daquella, que cumpre para o bem, e conservaçaõ da justiça, e polos males, que do contrario disto em algumas partes nascem, se pode ver bem, quanta verdade digo. Huma das mòres virtudes, que houve em Julio Cesar foy a Clemencia, e a mayor, que houve em Tito filho de Vespasiano, foy a mansidaõ de que nasce toda a liberalidade, e comedimento. Sóhia dizer este Emperador Tito a seus amigos, quando passava algum dia, sem fazer mercé, que perdera aquelle dia. Octaviano foy taõ clemente, e piedozo, que mandou queimar todas as obrigaçoens, e conhecimentos de dividas velhas, que se deviaõ à Reepublica, donde claramente se pòde ver, que assi como das palavras asperas, e soberba condiçaõ nasce crueza, assi da clemencia, e mansidaõ vem todo o bom respeito, e liberdade.

Differentes cousas saõ antre si, como diz Plinio, Senhor, e Principe, nem ha Principe que mais contente ao povo, que o que menos se lembra que he Senhor. Antigamente este nome de Senhor era odioso, e offendia muito, e polo contrario o nome de Principe era aceito. Por onde Alexandre Emperador Romaõ defendeo que o naõ chamassem Senhor, e como diz Seneca, os antigos querendo abrandar dos nomes asperos, que eraõ escravo, e Senhor, chamavaõ Pay de Familia ao Senhor, e ao escravo chamavaõ familiar. Escreve-se de Octaviano, que mandava ter as portas abertas, a quem o quizesse vizitar, e recebia com tanta humanidade, e taõ boa acolhença os homens, que chegando hum dia a elle hum Romaõ pouco desenvolto, e dando-lhe huma petição com muito pejo, o Emperador lhe disse rindo-se que parecia homem, que dava ceitil a Elefante. Antre os principaes louvores de Trajano era hum que todos podiaõ entrar onde esse estava, e louva Pacato em hum seu Panegyrico ao Emperador Theodosio de muy brando, e humano para todos. Com a mesma humanidade sohia Cesar Augusto hir vizitar, e consolar a muitos em pessoa, sabendo bem a consolaçaõ do Principe ser de muita força, e virtude para abrandar os coraçoens dos homens.

Que direy da bondade de V. Alteza, que naõ sómente em seu reynado, mas em todo o tempo de sua vida nos mostrou, naõ fallo agora d’quella bondade, que he nome geral, e vem a ser huma mesma com a virtude, mas da outra particular bondade, q́ tambem se chama santa inclinaçaõ, ou zelo virtuoso, e desta V.A. tem tãta parte, que a execuçaõ della tem convertido em sua propria natureza? Xenocrates excellente Filosofo da Seita dos Stoicos, que segundo diz Tulio melhor fallaraõ das virtudes, que todos os outros, sendo perguntado que podiaõ delle seus Discipulos aprender? Respondeo: fazerem por sua vontade o que os outros fizessem com medo das leys, e Xenocrates cuidava, que naõ podia alcançar perfeita virtude sem muita doutrina. Quanto mais de louvar he, quem de seu natural, e sem nenhum mestre, nem preceitos de Filosofia póde alcançar per si o que poucos sabedores, ajudados de tantos mestres em muito tempo, e com grande trabalho se poderaõ alcançar?

Esta tamanha ventagem nasce (se me eu naõ engano) da bondade que digo, e venturosa inclinaçaõ das pessoas, a qual se em todo o homem he louvada, quanto mais no Principe o deve ser? Com muita cauza he nomeada a bondade do Emperador Trajano, que foy tanta, que ficou em proverbio, taõ bom como Trajano, e acho eu, que sendo elle hum dia publicamente louvado no Senado, e sofrendo mal por sua temperança tal maneira de louvor, hum Senador lhe disse em voz alta: Emperador Trajano lembrate do que fazes, e veràs o que dizem de ti; escreve-se delle, que naõ quiz nunca ser Censor, sendo este hum dos principaes Officios de Roma, e de mais authoridade, que os maes de seus ancessores o quizeraõ ser, e com elle se castigavaõ os màos costumes dos nobres, e da outra gente. Mas Trajano, vendo que o exemplo de sua vida aproveitava mais ao povo, que nenhum Càrrego de Censor, ouve por escusado querello aceitar, e porisso se disse, que a vida honesta do Principe he censura; a esta olhaõ os vassallos, a esta seguem, nem tem tanta necessidade de Officiaes que os castiguem, quanta do bom exemplo de quem os manda. Mestre aspero, e pouco fiel da gente he o arreceyo das leys, melhor aprendem os vassallos dos bons costumes, e virtuosa atençaõ de seu Principe, o qual antre outros bens tem este, que confirma com seu exemplo poder-se fazer o que mandaõ as leys que se faça: e naõ a outro fim os antigos Romaõs sohiaõ a pòr nas sallas, e cazas dianteiras as imagens, e estatuas de seus Avòs, que em alguma virtude, ou parte da vida foraõ dignos de memoria, porque com isto sendo elles mais lembrados, trabalhassem por seguir, e reprezentar o que os taes fizeraõ. O Rey vicioso todas as boas partes lança do Reyno naõ menos com lhes querer mal, que com poder muito, e com seus vassallos naõ ousarem a hir-lhe à maõ.

V. Alteza todas as virtudes tem abarcadas consigo nos seus olhos, nas suas orelhas, no seu coraçaõ as traz sempre, uzando do que ellas mandaõ, e tanto as ama, tanto quanto se prezaõ delle. Jà vemos por experiencia a principal defençaõ do Reyno pender da bondade, e santa inclinaçaõ do Principe. Jà vemos por de mais ser cercado de armas, o Rey que naõ he cercado de amor de seus vassallos; mas porque as merces quando saõ feitas aos bons acrescentaõ a virtude, e polo contrario se saõ feitas aos màos a maldade cresce, e a virtude perde sua força, elle nesta parte uza daquelle estremado juizo, e discriçaõ, que delle se espera, naõ se apartando nunca da temperança, e afastando-se dos extremos. DelRey D. Sancho de Portugal, chamado Capelo, se escreve, que por ser muito bom, e piedozo, foy mào a este Reyno, e se perdia em seu tempo a justiça, nem cuido eu que Alaxandre Magno fosse movido de verdadeira bondade, quando fez a hum Ortelaõ Rey de Sidonia. Por certo melhor exemplo poderiamos tomar da vida de Antonino Emperador de Roma, que foy chamado piedozo, o qual com a fama da sua virtuosa inclinaçaõ, e perfeita vida governou tamanho Imperio pacificamente vinte, e tres annos, por isto todos os Reys, Povos, e Naçoens o temiaõ, e amavaõ mais como o Pay, e defensor, que como a Senhor, e Emperador: a elle sendo vivo se encomendavaõ como a Deos, a elle tomavaõ por Juiz em todas as suas diferenças: os Reys da India, os Reys da Persia, e de todo o Oriente, ouvindo sua fama o mandavaõ vizitar por seus Embayxadores com ricos prezentes, naõ por medo, ou necessidade, que delle tivessem, sómente polo gosto, que levavaõ de ter amizade com taõ virtuoso Principe. Naõ errarão os que em Castella, e Portugal fizeraõ historias de Cavalleiros d’aventura em os fazerem zelozos, e inclinados à virtude, tirando as semrazoens da terra, defendendo, e amparando as Viuvas, e Donzellas, o que tambem segundo muitos escrevem, fizeraõ Theseo, e Hercules, e outros muitos, que floresceraõ nos tempos, a que os Gregos chamaraõ heroicos. Mas antes que deste lugar me parta, naõ leyxarey de trazer à memoria o Cid Ruy Dias, cuja bondade, e cavallaria foy tanta, que mereceo, que o graõ Soldaõ do Egypto o mandasse vizitar com ricos presentes, e que suas filhas, que os Infantes de Carriaõ primeiro engeitaraõ, viessem depois a ser cazadas com os Reys de Aragaõ, e de Navarra.

Se tão louvado foy hum bom Cavalleiro, quanto mais o deve ser hum bom Principe, e se hum mào Principe sem embargo de ser tal, toda via pola dignidade real he muy acatado, que veneração, que honra, que gloria merecem todalas partes da justiça, cuja parte he esta virtude de que trato? Escreve-se dos Romaõs, que sendo grandes contrarios, e inimigos do nome real, com tudo acatavaõ muito aos Reys, e se algum Rey era prezo em guerra, ou batalha, lhe naõ davaõ morte, mas depois de triumfarem delle o tinhaõ prezo, avendo por grande mal pòr a maõ em pessoa de tanta authoridade; por isso trabalhe todo o bom Principe, pois o seu officio he de tamanho pezo, de tanto mais ser limpo, e apartado de todo o vicio, quanto as virtudes, e culpas se vem nelle mais claro: peor està huma nodoa em huma Oppa de brocado, que em hum vestido mais baixo, e peor a hum grande Senhor, que a hum homem do povo.

Tem alguns que as Reespublicas, e Cidades se devem fundar em lugares esteriles, porque todos trabalhem, e fujaõ a ociosidade; outros tem que he melhor edificarem-se nos lugares fertiles, e abastados, e dizem que nestes pòde haver leys com que se atalhe o muito folgar, exercitando-se a gente nas cousas que cumpre a guerra, como fizeraõ os Mamelucos no tempo que havia graõ Soldaõ, os quaes povoando terra taõ viciosa, e farta, com tudo naõ leixaraõ nunca ser avidos por valentes homens, e com isto puderaõ sustentar o estado do Egypto por espaço de quatrocentos annos.

Mas leixando esta questaõ para outro tempo como agora naõ muito necessaria, eu para mim tenho que nenhuma cousa pòde fazer bemaventurada huma Reepublica, senaõ o bom Principe, o qual entaõ pòde, e merece ser chamado bom, quando for justo, e porque como diz Aristoteles, a vida do que bem obra ella por si lhe dà inteiro contentamento, nem he bom o que naõ leva gosto de bem obrar, sem duvida leixando à parte a gloria deste Mundo, tanto mais contente deve viver o bom Principe obrando bem, quanto mais, e mòres cousas obra que os outros. Isto, e isto dezejaõ as leys, que os vassallos, e Cidadoens antre si sejaõ conservados, e vivaõ sem nenhum perigo, huns como os outros, e os que o contrario fizerem, que sejaõ punidos com morte, e desterro, prizaõ, e perda de sua fazenda, isto muito mais requere a mesma razaõ da natureza, que he huma ley Divina, e humana, e quem lhe obedecer (o que todos devem fazer) nunca dezejarà o alheyo, nem quererà ver a outrem, o que naõ queria ver a si mesmo. Em fim isto dezeja aquella justiça Senhora, e Rainha de todas as virtudes, que o proveito seja universal, o qual naõ se pode chamar proveito, quando naõ for justo; por isso se os Filosofos antigos vendo, que naturalmente os homens nasceraõ para obrar bem tinhaõ esta opiniaõ quanto mais a devemos nòs ter, que fomos alumiados da verdadeira Fè de Christo? O Principe, que estas partes tiver, eu naõ sey como naõ vivirà muy contente. Muy contente vivia o Emperador Antonino, quando disse, que queria antes dar vida a hum Cidadaõ seu, que matar a mil de seus contrarios. E contente era Licurgo quando ordenou as Leys da Republica Spartana, o qual sem duvida mereceo mòr louvor em as ordenar, do que Lizandro, e Pausanias Nobres Capitaens da mesma Cidade mereceraõ em pellejar valentemente.

Havia entre os Gregos hum proverbio, que a saude era a melhor cousa, e a justiça a mais fermosa, e alcançar o homem a cousa mais desejada he de mòr contentamento, mas Aristoteles todas estas tres cousas dà à bemaventurança do homem, que segundo elle affirma he obrar virtude em todo o tempo da vida. Que mais fermosa cousa pode ser, que a justiça, e partes della, as quaes todas luzem em V. Alteza como em hum claro espelho, se naõ cuidamos, que ha hi outra fermosura senaõ a que parece aos olhos bem, mas (se naõ me engano) mais fermosa he a virtude, que com os olhos d’alma se contempla, polo qual bem disse Marco Tulio, que se a virtude d’alma pudesse ser vista com os olhos de fóra, que naõ haveria ninguem, que por ella se naõ perdesse, e se esta geral fermosura das pessoas naõ tem mais credito, naõ he por defeito da virtude, mas por falta do nosso entendimento, o qual andando cego, e envolto na prizaõ deste corpo as mais vezes se engana, e assi os olhos de fóra podem mais, e tem mòr jurisdiçaõ, que os d’alma. Chamava Socrates à fermosura das mulheres tirannia de pouco tempo, e Theofrasto engano dissimulado, e Plataõ privilegio da natureza, e Theocrito engano de marfim, e Carneades Reyno solitario, todas estas diffiniçoens quadraõ à fermosura do corpo, e porèm a da virtude dura para sempre, e naõ hà nella engano, nem tirannia, nem dissimulação, mas quanto mais velha se faz, tanto melhor parece, e tanto mais verdadeira, e amiga se mostra do homem. Que melhor cousa pode no mundo haver, que justiça, que fé, que liberalidade, que serem os màos castigados, e os bons haverem galardaõ. E assi como o homem usando da virtude he nesta vida bemaventurado, assi para ser mal aventurado abasta, que queira mal, e que seja contrario à justiça.

Eu bem vejo, que naõ he piqueno trabalho vencer os apetitos; pola mòr parte se soem de vencer, quam mal as grandes dores se podem dissimular. Com tudo lembre-se o bom Principe, que nunca muito custou pouco, e que a virtude de sua natureza he trabalhosa, da qual como dizia Aristoteles, a raiz he amargosa, e o fruito he doce. O mesmo zombava dos Athenienses, porque gabando-se, que foraõ os primeiros inventores do Paõ, e das Leys, dizia Aristoteles, que do Paõ se sabiaõ aproveitar, e das Leys se leyxavaõ esquecer, e por isso mal pode hum Principe fazer justiça, se elle mesmo naõ for justo. E he tanta a força da virtude, que atè Epicuro, que poz a bemaventurança na deleitaçaõ, leyxou dito, que naõ podia ninguem viver contente naõ sendo justo. Mal me poderà a mim ensinar quem naõ olha o que faz, e mal me poderà mostrar o caminho, quem vay errado como eu. Naõ deve o Rey peccar com intençaõ de que depois se emmendarà, que quanto mais tarda o remedio, tanto os vicios criaõ mòr raiz, e saõ peores, e guarde-se naõ lhe aconteça, como soe dacontecer a quem por algum dezastre cahe d’algum lugar d’alto, porque vendo-se cahir, e querendo-se valer d’alguma cousa, ou pegar, que o tenha, jà naõ pode resistir ao grande impeto da queda, que o leva. Antre as virtudes, que saõ necessarias para naõ somente o Principe, mas qualquer homem ser justo, sempre o primeiro lugar foy dado à prudencia: esta consiste no conhecimento da verdade, e em naõ cuidar o homem, que sabe o que naõ sabe, e o despender o tempo em cousas, que naõ relevaõ, nem servem de nada. Grande perfeição dà esta virtude ao entendimento, espertando a vontade ao bem obrar, e sem elle nenhuma das outras se poderà soster.

Por isso opiniaõ he dos Filosofos, que quem tiver discriçaõ, que terà todas as virtudes, mas porque a prudencia està partida em tres partes: aconselhar bem, julgar bem, e mandar bem, tanto ellas em si seraõ mais estimadas, e aceitas, quanto o proveito, que dellas nascer, for mais universal, e por isso o Principe prudente de que pende o bem, e descanço de todo o povo, he digno de mòr louvor, que os outros homens. Diz o Poeta Hesiodo, que aquelle se pode chamar perfeito, que sem ajuda de ninguem por si conhece a verdade, e logo a poz este, o que sabe tomar o bom conselho, mas quem naõ alcança nada per si, nem quer ser aconselhado d’outrem, que este tal naõ tem saber, nem aproveita a si, nem a Reepublica. Em todalas partes da prudencia V. Alteza he taõ perfeito, como nas outras, que já disse da justiça, nem poderia ser tão justo, senaõ fosse taõ prudente. Notorio he a todos com quanto saber, com quanta diligencia se aconselha em todalas cousas importantes a seu Estado, e a o bem destes Reynos, como esquecido de todo folgar, e passatempo, al naõ cuida, em al naõ trabalha, senaõ em buscar meyos para conhecer o que he bom, e em saber qual he melhor, é depois de sabido em o pòr por obra. Com tal aviso Themistocles Atheniense conservou a liberdade de Grecia, e os Romãos poderaõ conquistar, e governar tamanho Imperio, e muito bem diz o Poeta Homero, que o Principe, que tem grandes negocios, naõ deve dormir toda a noite.

O Rey, como diz o Filosofo Xenocrates, que naõ menos reyna para ti, que para os outros, o Rey que ha de ter seu povo livre de todo mal, e descançado, cumpre-lhe, que naõ creya nenhum falso contentamento, e de tal maneira vença seus appetitos, que os Vassallos obedecendo a elle, obedeçaõ à virtude, e naõ he menos cousa real vencer-se o Rey a si mesmo, que vencer batalhas campaes, e cumpre-lhe naõ dezejar, nem buscar louvor daquellas cousas em que os màos homens podem ter preço, por quanto o caminho do verdadeiro louvor he a mesma virtude. Cumpre-lhe trazer muitas vezes à memoria os aquecimentos, e feitos passados, assi dos Reys, e Principes, como das pessoas, que o naõ saõ. E desta maneira quem souber o passado, julgarà mais prudentemente o que està por vir. Finalmente cumpre lhe lembrarse em todo o tempo, que he Rey, e aconselhar-se naõ sómente do que ha de fallar, é porque os lizongeiros saõ muy contrarios do verdadeiro conselho, naõ nos ha de sofrer em sua casa, mas ha de lançallos de si. O Emperador Trajano a quantos soube, que sohiaõ no tempo passado, por pedir a fazenda alhea mexiricar alguem com o Principe, desterrou, e fez embarcar em Navios, e passar por huma grande tormenta a humas Ilhas desertas. Tiberio Cesar em quanto foy vivo Octaviano nunca fez cousa sem conselho, seguindo o exemplo, e authoridade de taõ singular Principe, por onde suas cousas hiaõ àvante, assi na guerra, como na paz era bem quisto, e dava de si muita esperança, mas depois que morto Octaviano veyo elle a ser Emperador, usando mal do grande poder (porque quem muito pode as mais vezes muito erra) e não se aconselhando como d’antes, veyo a dar consigo em toda a cruesa, e deshonestidade da vida, e apparecer nelle os grandes vicios, que a reverencia, e acatamento do Emperador Augusto, e o conselho dos seus amigos muito tempo tiveraõ encubertos.