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Part 32

Chapter 324,087 wordsPublic domain

Huma dellas he cazar-se com a muy poderosa Rainha Dona Catharina Nossa Senhora, e a outra no tempo das grandes fomes, e esterilidades destes Reynos, trabalhar tanto, que seus subditos vivessem abastados. Ardia este Reyno em grandes suspeitas, e receos de males, que se esperavaõ, a guerra parecia certa, os tempos naõ permetiaõ descanço, a vontade dos homens naõ achava repouso algum. Naõ pòde V. Alteza naõ sòmente sofrer os males de seus vassallos, mas nem a suspeita delles, por onde logo no principio de seu reynado, sendo muito mayor seu muito saber, e prudencia do que se podia esperar dos annos, e idade, se cazou com a Rainha nossa Senhora, Irmaã do Emperador Carlos V. deste nome, e para mais liança, e remate de taõ santa amizade, mayormente antre Reynos vezinhos, e comarcaõs, dahi a hum anno lhe deu por molher a Infanta Dona Izabel sua Irmã, dando-lhe com ella taõ grande, e magnifico dote, digno de seu Real coraçaõ, que com razaõ se pòde comparar com as promessas delRey Dario, e liberalidades de Alexandre Magno. Assim que lançado o fundamento da paz, o povo dantes suspenso, e solicito descançou, e vendo mostra de tanto amor o começou com mais razão d’amar, e tanto cada dia mais o ama, quanto as obras de V. Alteza merecem cada dia mais de serem amadas. Mereceo, que lhe desse Deos a Rainha Dona Catharina nossa Senhora por mulher dotada de toda a perfeição, e santidade de vida, cujas virtudes saõ tantas, e taõ grandes, que melhor se pòdem cuidar, e ver no pensamento, que louvar segundo seu alto merecimento polo qual nem eu me acho assaz eloquente para as poder dizer, e ainda q́ fosse, se deve isto guardar para outro tempo, em que mais conveniente, e copiosamente em seu proprio lugar se possa fazer.

Mas como poderey eu dizer a estremada diligencia, que V. Alteza uzou nos tempos das grandes esterilidades de seus Reynos, mandando vir trigo de diversas partes do Mundo, aventurando grande soma de dinheiro, e suas armadas a tantos perigos, vencendo as dezordens dos tempos, e contraria constellaçaõ do Ceo, porque seu povo não sentisse fome, e vivesse contente, e abastado, com taõ verdadeira piedade, e amor, como se elle somente fora o que sentira? Grande mal he a mingoa das cousas, que muito importaõ à vida, de que nascem mil queixumes, e descontentamento, e por isso tanto mòr louvor merece o Principe, que atalha as necessidades de seu povo. ElRey Herodes filho de Antipatro, por soccorrer a huma tal esterelidade ao Reyno de Judéa, mandou vir muito trigo do Egypto com que abastou aos naturaes, e estrangeiros. Foy amado, e julgado porRey excellente, posto que no tempo atraz, tivesse feito grandes males, e cruezas, e delle se escreve, que em outra esterilidade, quitou a terça parte das rendas, que lhe eraõ devidas; pois com quanta mòr razão merece V. Alteza ser louvado, e quanto mais evidente nos mostra o amor, que nos tem, o qual nas necessidades, e carestias deste Reyno, naõ de terra taõ vizinha, e comarcaã, como era o Egypto de Judèa, mas de Reynos taõ afastados, como saõ Sicilia, e Alemanha mandou trazer à sua propria custa tanta abastança de paõ, e assim a seus rendeiros, naõ sómente em hum anno, mas em todo o tempo tem feitas, e faz cada dia grandes, e muy liberaes quitas? Louva-se o Emperador Trajano, que havendo esterilidade no Egypto por naõ encher o Nilo ordenou que levassem là d’outras partes muita soma de trigo, e assi o Emperador Octaviano, nas fomes de Roma provia com muito cuidado as necessidades do povo, fazendo vir paõ de muitas partes, o qual mandava dar de graça, ou vender por baixo preço. Mas quanto a esta parte sobre todos he louvado o Emperador Severo, que naõ sómente em quanto foy vivo, trabalhou que em Roma naõ houvesse tal necessidade; mas ainda foy causa, que depois de sua morte, pola provisaõ, que leyxou, vivesse sete annos o Povo Romaõ abastado. A fartura, que he dada polo Principe, como verdadeiramente diz Plinio, he huma mercè perpetua, que sempre dura nas vontades, e o Principe liberal naõ menos aproveita a propria fazenda, que a fama: por isso dizia o Emperador Aureliano, que naõ havia cousa no mundo mais para folgar de ver, que o Povo Romaõ, quando era abastado, nem deu menos gloria ao grande Pompeo a empreza de fazer vir paõ a Roma, que os triumfos, e vitorias, que trouxe d’Oriente.

Sem duvida todos estes louvores cabem em V. Alteza, e nisto se pode ver com quanta razaõ merece ser amado de seu Povo, o qual tanto mais verdadeiramente o ama, quanto mais certo vè, e sabe, que as mercès, que lhe faz, vem de sua propria bondade, sem algum seu particular respeito, que entaõ he verdadeiro o amor quando as boas obras nascem delle só, e naõ da esperança d’algum interesse, mas nem com isto satisfaz ainda o seu muy virtuoso zelo, e santa inclinaçaõ. Novas maneiras, novos caminhos busca cada dia com que tenha mais contente seu Povo, e naõ tendo nos mais, que dezejar, todavia o seu dezejo cresce, e nunca cansa, e satisfazendo a todos, sómente a si nunca satisfaz. Era entrado neste Reyno, polo costumes das sedas, hum mais desordenado gasto no vestir do que cumpria ao bom ensino, e honestidade, e trajo antigo desta Naçaõ, o que vendo V. Alteza de tal maneira o atalhou, e remediou, que elle mesmo foy a ordenaçaõ, someteo sua real authoridade a trajo temperado, e commum, digno da gravidade de seus antepassados, porque naõ sómente com as virtudes d’alma, mas com o exemplo de fóra aproveitasse ao povo, e lhe mostrasse tambem nisto o grande amor, que lhe tinha. O quanto mais luzem, e resplandecem nelle os temperados, e honestos vestidos, que em outros muitos Principes brocados, e forros, e golpes demasiados! Sem duvida tanto mòr verdade he o que digo, quanto no Principe he mais louvada a temperança, que a desordem do appetito. Com razão deve ser reprehendido Aureliano Emperador Romaõ, que usou primeiro pòr Diadema na cabeça à maneira dos Principes barbaros, e vestio Opas d’ouro tirado, cubertas de perolas, e pedras preciosas, as quaes insignias leyxaraõ depois os Reys Christãos em sinal de humildade.

Que direy dos Moços, que V. Alteza à sua propria custa mandou, e cada dia manda à Universidade de Pariz aprender as Artes liberaes, e Santa Theologia, porque a honra de seu Reyno naõ menos nas Letras, que nas outras virtudes seja por elle acrescentada? Louvado he o Emperador Trajano, por mandar criar cinco mil meninos Romaõs pobres à sua custa, mas tanto V. Alteza he digno de mòr louvor, que Trajano, quanto a doutrina, e ensino das Letras se deve mais estimar, que toda a outra criaçaõ. Nomeada he nas historias a memoria delRey Ciro, que sabia o nome a todos os seus Soldados, e delRey Mitridates, que sabia vinte e duas linguas de vinte e duas Provincias de que era Senhor: tambem Temistocles Capitaõ Atheniense sabia o nome a todos seus Cidadaõs. V. Alteza naõ sómente se lembra dos nomes, mas do merecimento, e preço das pessoas, nem ganha menos a vontade de seus Vassallos com a viveza da memoria, que com a perfeiçaõ das obras. Aquelle verdadeiramente se pode chamar bom, que se preza de boas obras.

A virtude, segundo diz Aristoteles, consiste no obrar, o qual tem jà. A bemaventurança do homem naõ he outra cousa senaõ usar a nossa alma segundo a razaõ quer em toda a vida. Que mòr testemunho do que digo queremos, que o que este dia, e tempo prezente nos pode dar, em que naõ sómente faz mais rica, e populosa com sua presença a sua Cidade d’Evora, mas ainda muy dezejoso de lhe ser causa de mores bens lhe traz novamente a agoa de muy longe com muita abastança, vencendo com arte à natureza, restituindo o cano de agoa taõ necessario, e tantos tempos hà esquecido, e com grande animo suprindo os defeitos do lugar por dar saude, e contentamento aos homens. Ó quam bem se pode applicar a V. Alteza aquelle consentimento geral, que o Povo Romaõ deu ao Emperador Helvio Pertinaz em estas palavras: _Reynando o Emperador Helvio Pertinaz seguros vivemos, ninguem tememos, ao Pay piedoso, ao Pay do Senado, ao Pay de todos os bens_. Este he o verdadeiro officio do Principe viver para proveito dos homens, isto he, que Deos, e o mundo, e a obrigaçaõ do Sceptro Real requerem.

Por isto vendo alguns, que grande trabalho era reynar bem, escolheraõ antes viver descançados sem Reynos, que reynando serem obrigados, e sugeitos a tantos cuidados. Le-se do Emperador Diocleciano, que vencido do grande trabalho soltou o Imperio Romaõ, e se recolheo a huma sua quinta perto de Veneza, e sendo-lhe requerido por parte do Senado por Herculeo, e Galerio pessoas principaes, que quizesse tornar a aceitar o Imperio, lhe respondeo estas palavras: se visseis meus amigos as ervas, que eu por minhas mãos tenho postas, e na minha orta, certo saõ, que me naõ darieis tal conselho: e naõ hà muito tempo, que Luiz Landrasi, Principe de hum Estado em Alemanha sendo eleito Emperador o naõ quiz aceitar, e quiz antes viver em seu pequeno Estado, que governar o Imperio de Alemanha: antre as escusas, que dava para o naõ poder ser, era naõ saber letras, as quaes dizia serem muy necessarias para o governo da Reepublica Christãa, este foy taõ amigo das leys, que as fez tirar de latim em sua lingoa por melhor as poder entender.

Convida-me neste lugar o tempo a fallar da liberalidade de V. Alteza, que como dizem os Filosofos he graõ parte da justiça, e propriamente pertence aos Reys, e Grandes Senhores, e sabido està com quanto animo usou sempre desta virtude, mòrmente em tempos taõ contrarios, merecendo todo o louvor, que se pode dar a hum Rey Magnifico, e liberal. Acho eu, que os mais dos Excellentes Principes foraõ liberaes: liberal foy Alexandre Magno, e isto em tanto grào, que nos ficou em proverbio. Liberal foy ElRey Cyro, o qual como escreve Xenofonte, dizia que o seu Thesouro estava nos amigos, e assi Julio Cezar o foy tanto, que partindo-se de França, Provincia taõ rica, aonde estivera dez annos por Governador, e naõ tendo com q́ fazer a guerra Civil a Pompeo, que pouco antes começara, lhe foy forçado pedir dinheiro emprestado aos Capitães, e Soldados de seu Exercito. Por certo mais real cousa he enriquecer o Principe a outrem, que fazer-se elle a si mesmo rico, e por isso bem dizia ElRey D. Pedro de Portugal, que o dia que naõ dava, se naõ tinha por Rey. Devese com tudo ter respeito, que esta virtude seja empregada em quem merece, e se verdade he, que toda a liberalidade he justa, quem deste meyo fugir, darà consigo em hum dos extremos, e ou serà avarento, ou prodigo. Escreve-se de Archelao Rey de Macedonia, que pedindo-lhe hum homem de màos costumes, que lhe fizesse mercè d’hum vaso d’ouro, ElRey mandando-o dar ao Poeta Euripedes, lhe disse: Tù es digno, que peças, e naõ te dem, e estoutro he digno, que naõ pedindo lhe seja dado. Por isso reprehende muito Plutarcho aos Principes, que naõ se lembrando dos Criados vergonhosos, e bem ensinados, fazem sómente mercè aos importunos, que naõ tem vergonha, e lhes daõ naõ o que lhes querem dar, se naõ o que lhes naõ podem negar. Mas V. Alteza em todas as partes guarda muy inteira temperança, despreza o dinheiro, mas sómente o despreza nos lugares, e tempos onde he razaõ, edifica Templos sumptuosamente, mas naõ como o Emperador Domiciano, e alguns outros Principes, que nesta parte excederaõ o modo.

Finalmente de tal maneira he magnifico distribuidor de suas riquezas, que sempre se guarda dos extremos, e assi como naõ se esquece da conservaçaõ, e acrescentamento de sua fazenda, assi a fonte de sua magnificencia està sempre aberta para todos seus amigos, e Vassallos. Naõ pode mais claro sinal ser do que digo, que o cuidado, que teve sempre, e hoje em dia tem dos Infantes seus Irmãos, naõ receando cousa alguma por onde se veja, que naõ menos os tem por filhos, que por irmãos, e certo nas obras, e amor, que lhes mostra, naõ hà diferença para elles de Pay para Irmão. Saõ elles bemaventurados carecendo de taõ excellente Pay naõ carecerem de hum tal Irmaõ, o que posto que cada hum mereça por suas muito grandes virtudes, e lealdade, e amor, que lhe tem; com tudo a mòr parte deste louvor se deve atribuir à liberalidade de V. Alteza. Huma das grandes virtudes mais estimadas de Marco Antonio Emperador dos Romãos, chamado por sobrenome o Filosofo, foy esta de quem se escreve, que sendo o Thesouro de Roma gastado, e naõ havendo com que pagar huma grande soma de dinheiro, que se devia aos Exercitos, elle por naõ lançar nenhum pedido, nem dar oppressaõ às Provincias, mandou vender, e pòr em pregaõ toda a sua bayxella, vasos d’ouro, joyas, e tapeçaria, com que satisfez, e pagou a todos inteiramente.

Muito bem dizia Julio Cesar, que os outros Capitaens venciaõ seus inimigos com crueza, e que elle tinha achado huma nova maneira de vencer, que era clemencia, e liberalidade, e de maneira, que o bom Principe, he hum só remedio da gente pobre, e assi fazendo muitas merces, naõ menos aproveita a si, que aos outros; porque àlem de ganhar verdadeira gloria, dà o dinheiro que sempre hade ter prestes, e achar em seus vassallos quando cumprir, e a este proposito disse muy bem o Poeta Rabirio: Naõ tenho outra cousa de meu, senaõ o que dey. Verdadeiramente diz Tulio naõ ha virtude que mais faça os homens conversaveis antre si, que justiça, e liberalidade. A natureza dos homens he esta, assi se obrigarem polas boas obras que fazem, como polas que recebem. Bem vejo quam escuzado he querer eu confirmar com authoridades de fóra as virtudes de que V. Alteza he taõ novel exemplo; mas he tamanho o meu contentamento, fallando nellas; que pòde mais em mim este appetito, que o receyo de ser polixo, e vendo bem quam poucas vezes se acha hum tal Principe taõ acabado em tantas partes, saõ forçado a me deter em cada huma dellas particularmente.

Tornando a meu proposito, he tamanha virtude esta de que fallo, que muitos Principes viciosos, e perversos com serem sómente liberaes, foraõ bem quistos de seu povo. Herodes filho de Antipatro Rey de Judèa foy cruel contra seus filhos, e de forte condiçaõ, com tudo porque foy liberal mereceo ser obedecido dos seus, e naõ de todo malquistos sohia dizer delle o Emperador Octaviano, e Marco Agrippa, que era mòr o estamago del-Rey Herodes que o Reyno, e que era digno taõ liberal Principe do Reyno de Egypto, ou da Suria. Deve com tudo o bom Rey saber naõ menos acquirir, que despender, e de tal modo temperar esta virtude, que querendo ser muito liberal, naõ venha a dar em prodigo, e desbaratado. Do mesmo Herodes se lè que naõ podendo suprir seus demasiados gastos, e tendo jà despezo todo o seu Thezouro, trabalhava com todos os modos, e vias illicitas roubos, e cruezas para ajuntar outro de novo, e naõ sómente roubava o povo, mas os lugares, e sepulturas antigas. Contaõ delle que ouvindo dizer, que na sepultura de Rey David fora metido hum graõ Thesouro por mandado delRey Salamaõ, e que Hircano Principe dos Sacerdotes nos tempos passados tiràra della tres mil talentos, que era hum conto d’ouro, e oito centos mil cruzados, Herodes cuidando, que ainda là ficasse muito mais, entrou huma noite secretamente na cova, e sendo chegado aos muimentos da pedra em que jaziaõ os ossos delRey David, e delRey Salamaõ, supitamente da mais derradeira parte della se alevantou huma chama de fogo, que queimou dous homens da sua guarda, que hiaõ diante delle, o que vendo Herodes tornou atraz com grande medo, e em satisfaçaõ da culpa, mandou depois à entrada da sepultura edificar hum muimento de marmore branco de magnifica obra, e despeza, e assi foy castigada a cobiça delRey Herodes.

Este vicio foy a causa, por onde o Emperador Nero veyo a ser taõ mào, e cruel tirano, como foy. Mas naõ deve menos fugir todo o bom Principe do outro, extremo da avareza, que em todolos tempos foy muy reprehendido, e causa de muitos males, e inconvenientes, nem ha cousa que peor esteja a hum graõ Senhor, que ser escaço, polo qual o Idolo de Apolo Delphico em huma reposta, que deu disse, que a Reepublica dos Lacedemonios se perdèra por avareza. E Persio derradeiro Rey de Macedonia por ella se perdeo. O Emperador Vespasiano, sendo em muitas cousas louvado de bom Principe, nesta só foy vituperado. Acha-se nas historias antigas que havia no Reyno da Persia huma ley, que ElRey Ciro fizera, que quando ElRey entrasse em alguma Cidade de seu Reyno, mandasse dar a cada molher cazada huma moeda d’ouro. Depois reynando Ocho Principe muy avaro, e querendo entrar na Cidade d’Especio por naõ pagar a moeda d’ouro, que segundo a ley era obrigado, rodeou os muros, e passou adiante. Foy esta naõ pequena infamia para hum Principe taõ poderoso, e taõ rico. Por certo digno de louvor foy Alexandre Magno, o qual entrando duas vezes na mesma Cidade, de ambas mandou pagar a sua moeda às mulheres, e às prenhes mandou que fosse pago o dobro. Pola mesma causa se louva o Emperador Octaviano, porque vizitando como Pay geral de todas as Cidades, e lugares de Italia, aos Cidadaõs, que faziaõ certo terem filhos, ou filhas, mandava dar hum sextercio, que eraõ vinte, e cinco cruzados.

Por isso trabalhem os Principes por serem liberaes, e tomem exemplo de V. Alteza, nem cuidem que he tão pouco saberem-no ser, e por quanto às vezes com menos trabalho se vingaõ as injurias, do que se fazem as boas obras; a razão disto he: porque a boa obra, quando se faz, soe carregar muito, e a vingança ella consigo tras contentamento. Lembrem-se que se Pompeo, e Scipiaõ triunfaraõ taõ mancebos, e se Valerio Corvino foy feito Consul de vinte, e tres annos, que naõ sómente com serem cavalleiros, mas com serem liberaes sobiraõ em taõ pouco tempo a tanta honra, e authoridade. Tenhaõ porèm na lembrança, e avizo que fujaõ, como disse, dos extremos, nem sendo avarentos, nem prodigos, o que se olharaõ os mais antigos Emperadores d’Alemanha, pola ventura naõ consentiraõ, que Cidades por taõ pequeno censo, e tributo se fizeraõ livres, donde nasceo ousarem depois os socios alevantarem-se contra o Duque d’Austria, e os povos cobrarem tanta ouzadia, e coraçaõ contra o mesmo Emperador, porque sendo partida Alemanha em quatro partes Soiços, Terras francas,......e Terras Impereaes, por esta sobeja liberalidade, que a todos foy comunicada, vieraõ a estimar pouco o Emperador, e a terem huns com outros mil guerras, e diferenças, dos quaes males, como jà disse, foraõ causa os primeiros Emperadores, que querendo fazer grandes merces ao povo excederaõ o modo, e cuidãdo de aproveitar os vassallos, fizeraõ muito danno a si, e a seu estado, e authoridade. Nem me pòde a mim parecer bem aquella opiniaõ do Emperador Tiberio Cesar, que os Governadores depois de ter governado muito tempo eraõ melhores, que os que entravaõ de novo, e dizia que os de muito tempo, sendo jà ricos, roubavaõ menos, os que começavaõ indo pobres metiaõ mais a maõ, e era mais prejudicial às Provincias. Mào Regimento, e mà atençaõ,(segundo meu fraco entender) era esta tomar por remedio do roubo, e tirannia a continuaçaõ do tempo, e naõ bom ensino das leys, sem duvida mais louvor merecèra Tiberio, ordenando sua Reepublica de maneira que ninguem fora ousado de roubar. Que louvor darey a bondade, e santa inclinaçaõ, e ao trabalho continuo sem nenhum repouso, à clemencia, e humanidade de V. Alteza?

Se eu este Panegyrico escrevera em alguma terra muy afastada de nòs, onde o seu nome ainda naõ chegàra, pola ventura receando de me naõ darem credito, ou temperara taõ grandes louvores, ou os leyxara de dizer. Mas fallando isto em parte aonde saõ taõ claros, e manifestos, naõ recearey dos celebrar em quanto puder, porque sey que assim como naõ posso dizer tanto, que satisfaça a verdade, e contente meu dezejo, assim heyde ter a todos por testemunhas, e assaz me parecerà, quam ditozo som, se vir, que nesta obra ao menos he recebida minha vontade, que do mais bem vejo que naõ pode o estillo ser igual a taõ alto merecimento, posto que naõ sinto eu parte, em que jà senaõ achem muitas testemunhas do que digo. Cheyo està o Mar Occeano, cheyo està Levante, e Ponente da grandeza de suas obras, e assim de seu louvor. Naõ se pòde hum Reyno prosperamente governar, sem muito trabalho, assim na justiça, e partes della, como em todalas outras virtudes. E se a vida do homem, como dizem alguns, he vigia, quanto mais o deve ser a do Principe. Por tanto V. Alteza muy solicito, e diligente, na conservaçaõ do seu povo, depois que entrou na governança delle, naõ em huma só parte de negocio, mas em quantas occorrem, e cumprem a seu estado, nunca cançou, nem cança, com que sendo aceito a Deos possa aproveitar aos homens, e ganhe memoria para sempre.

Naõ he piqueno trabalho o que tem todo o bom Principe no tempo da paz, e quanto o repouso, e descanço, que della nasce he mayor, tanto os homens pola mayor parte saõ peores, senaõ ha quem continuamente os possa, e saiba emmendar, e he isto taõ necessario, que às vezes a huma Reepublica, que vive em muita ociozidade, aproveita verse em alguma fadiga, porque com os trabalhos, e perseguiçoens a gente se emmende, e leixando os màos costumes, se torne ao verdadeiro caminho, como dizem que aproveitou muito a Roma ser tomada dos Francezes em tempo de Camillo, com que os Romaõs espertaraõ, e tornaraõ a renovar a virtude antiga, que jà nelles hia faltando, e porque naturalmente todalas cousas vaõ diminuindo, cumpre naõ huma vez, senaõ muitas, serem as Reespublicas tornadas a seu principio, quero dizer, serem tornadas aos bons costumes com que foraõ fundadas. Antigamente sohia dizer Apio Claudio Cidadaõ Romaõ, que melhor hia ao povo Romaõ no tempo da guerra, que no da paz, naõ porque naõ soubesse quanto melhor estado era o da paz, mas porque via os grandes Reynos, e Imperios com o trabalho, e exercicio das armas hirem por diante, e com boa vida tornarem atraz.

Da mesma tenção era Quinto Mettelo, Pay de Mettelo, chamado o piedoso, quando disse, que se naõ sabia, determinar, se terem os Romaõs vencido a Cidade de Carthago era mais damnoso à Reepublica, ou mais proveitoso, porque com a vida de Anibal Italia espertara do sono, e depois da victoria havia medo que tornasse a dormir. Por isso cumpre ao bom Principe no tempo da paz ser taõ diligente, que a justiça, e bons costumes se conservem, e sejaõ afastados os males, que o descuido da longa paz soe trazer consigo. A muita confiança naõ o faça desapercebido, e a muita confiança não o faça mào de sofrer: nas cousas prosperas naõ use menos do conselho de seus amigos, nem lhes dè entaõ menos credito, que nas contrarias. E no mesmo tempo se deve guardar dos lizongeiros, e isto tanto mais, quanto este engano he mais sotil, porque as mais vezes os homens quando saõ lizongeados, cuidaõ que lhes fallaõ verdade, e dessa presumpçaõ, ou opiniaõ falsa nascem muitos erros, que cada dia crescem, quando naõ saõ atalhados. E porque a prudencia he saber o homem as cousas, que se devem fazer, e o saber consiste no entendimento das cousas divinas, e humanas, cumpre muito ao bom Principe, que dè alguma parte do seu tempo, e cuidado ao conhecimento desta virtude, mòrmente tirando-se della grande fruto, e dizia Plataõ, que entaõ seriam bemaventuradas as Reespublicas, quando, ou os Filosofos reynassem, ou os Reys fossem dados à Filosofia. Mas posto que todo o bom Principe seja obrigado a saber todas as partes do bom governo, muito mais obrigado he aquelle a que este cuidado vem como por herança de seus Avòs: porque assi como os Pays naõ podem leyxar aos filhos mais honrado patrimonio, que a gloria de virtudes, e feitos excellentes, assim os filhos com todalas suas forças devem, seguir o exemplo dos bons Pays, e fazendo o contrario naõ hà culpa, nem infamia de que naõ sejaõ dignos.