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Part 21

Chapter 213,779 wordsPublic domain

Da Universidade de Compostella faz mençaõ o Padre Andrè Escoto na Biblioteca Hispana, naõ apontando mais que o nome. O Licenciado Molina no livro das Grandezas de Galiza l. 2. cap. 127. diz que ha nella todas as Sciencias, mas naõ refere o anno, em que se fundou, nem o Author della. Porém o Padre Frey Fernando de Oxea na Historia de Santiago, diz que D. Alonso da Fonseca Arcebispo de Santiago fundou dous Collegios em Compostella, hum mayor de doze Collegiaes, outro menor de outros doze, a quem dotou magnificamente, para que nelles se lessem todas as Faculdades, o que parece foy pelos annos 1462. atè 1504. em que governou aquella Igreja, e ainda que elle imagina a este estudo mayor antiguidade, por dizer o Bispo Pelagio no anno de 1073. que nascera em Compostella, e nella aprendera Theologia, parece que se deve de entender do estudo particularmente dos Monges, e naõ de Universidade formada, como a instituhio o Arcebispo D. Affonso. Rodrigo Mendes da Sylva na sua Poblacion de España cap. 2. do Reyno de Galiza, diz que a Universidade começou no anno de 1532. em que havia muitos annos que D. Affonso da Fonseca naõ era Arcebispo; mas podersehia fazer por sua ordem.

§. XIX.

Biscaya.

_Onhate._

Foy fundada a Universidade de Onhate com o Collegio do Espirito Santo pelo Bispo de Avila D. Rodrigo de Mercado anno 1543. como refere o Padre Frey Luiz Ariz Monge Bento na Historia de Avila §. 15. fol. 54. Nesta Universidade parece naõ ha mais liçoens, que de Filosofia, e lingua Latina, como se collige do Licenciado Affonso Garcia Mata Mouros no seu Tratado de Academijs, que anda no segundo Tomo da Hispania Illustrada, fol. 817. Nesta Universidade aprendeo Estevaõ de Garibay Author de 40. livros, que intitulou: Compendio historial de Espanha, que por conter toda a historia della he obra de muita estimaçaõ; por a qual todos os Reynos de Espanha devem muito a esta Universidade, della faz particular mençaõ este Author l. 16. c. 10. fol. 442.

§. XX.

Asturias.

_Oviedo._

A Universidade de Oviedo foy fundaçaõ de D. Fernando de Valdés Arcebispo de Sevilha, Inquisidor Geral, e Presidente de Castella, de que se faz mençaõ na historia dos Arcebispos de Granada de D. Francisco Bermudes de Pedraza 4. p. c. 160. Rodrigo Mendes da Sylva na sua Poblacion general de España c. 9. do Reyno de Leaõ, diz que a fundaçaõ da Universidade foy no anno de 1580. e que se lem nella todas as Sciencias. Porèm na vida do Bispo de Oviedo D. Fernando de Valdès, que anda no Theatro Ecclesiastico da Igreja de Oviedo se diz, que nesta Universidade se começou a ler no anno de 1608. e que tem 17. Cadeiras, 4. de Theologia, 3. de Artes, 5. de Canones, e 5. de Leys, com renda de hum conto, e sessenta, e outo mil reis; e se apontaõ os primeiros Cathedraticos, que nella começaraõ a ler.

§. XXI.

Aragaõ.

_Huesca._

A Universidade de Huesca foy fundada pelo Bispo da mesma Cidade D. Pedro III. do nome com privilegio delRey de Aragaõ, de estudo geral de todas as sciencias anno 1354. como se refere no Catalogo dos Prelados de Aragaõ do Doutor Martim Carrilho, no Catalogo dos Bispos de Huesca fol. 318. onde se diz, que desta Universidade escreveo hum particular livro o Doutor Monter. Nesta Cidade fundou Sertorio a primeira Universidade, que houve em Espanha, como refere Plutarco na sua vida; mas os Mestres, que nella ensinavaõ, eraõ da lingua Grega, e Latina, como se vè do mesmo Plutarco, e o nota Aldrete lib. 1. da origem da lingua Castelhana cap. 20.

§. XXII.

_Çaragoça._

Foy fundada a Universidade de Çaragoça por D. Pedro Cerbuna Prior da Igreja de Çaragoça, e depois Bispo de Tarragona anno 1583. Lem-se nella todas as sciencias, como consta da Historia de Nossa Senhora do Pilar de Çaragoça de Fr. Diogo Morilho tt. 2. c. 24.

§. XXIII.

Catalunha.

_Lerida._

Fundou a Universidade de Lerida ElRey D. Jaime II. de Aragaõ pelos annos de 1300. com confirmaçaõ Apostolica; e prohibio, que naõ houvesse outra Universidade em seus Reynos, como refere Hier. de Çurita lib. 5. dos Annaes de Aragaõ cap. 44.

§. XXIV.

_Perpinhaõ._

Em Perpinhaõ hà Universidade, em que se lem todas as Faculdades, ainda que nenhum Author dos referidos faz mençaõ della; só Rodrigo Mendes Sylva, diz que ElRey D. Pedro de Aragaõ a fundou anno de 1349. e assim naõ podemos saber mais della com certeza.

§. XXV.

_Barcellona._

A Camara de Barcellona, e o Sabio Concelho de Centro saõ fundadores, e padroeiros desta Universidade, e do erario publico pagaõ estipendios aos Lentes. Em tempo de Carlos V. se lançou a primeira pedra no edificio a 18. de Outubro de 1536. debaixo da invocaçaõ de Santa Cruz, e Santa Eulalia. Lem-se nella todas as Faculdades, e a lingua latina. ElRey D. Fillipe II. de Castella a reformou com novos privilegios no anno de 1561. como refere Rodrigo Mendes Sylva na sua Poblacion de Hespanã, cap. 2. do Principado de Catalunha.

§. XXVI.

_Tarragona._

Foy fundaçaõ a Universidade de Tarragona do Cardeal Gaspar de Cervantes pelos annos de 1570. Lem-se nella todas as Faculdades, como refere Andrè Escoto na Bibliotheca Hispana tom. 1. cap. 2. fol. 38.

§. XXVII.

_Gyrona._

No livro intitulado Poblaciones de España se diz, que nesta Cidade de Gyrona hà Universidade fundada por ElRey D. Fillipe o Prudente anno 1561.

§. XXVIII.

Reyno de Valença.

_Valença._

A Universidade de Valença foy fundada pelo Magistrado da mesma Cidade, e confirmada com privilegio delRey D. Fernando o Catholico, e do Papa Alexandre Sexto anno 1449. Lem-se nella todas as Faculdades. Desta Universidade trata o Licenciado Gaspar Escolano na 1. Decad. da Hist. de Valen. l. 5. c. 22. & Robl. na vid. do Arceb. Franc. de Sisn. cap. 11.

§. XXIX.

_Luchente._

O Mosteiro dos Padres Prègadores da Villa de Luchente està fundado no lugar, em que se disse a Missa, e donde se esconderaõ as formas Consagradas milagrosas, que se guardaõ com os Corporaes de Daroca. Foy fundado o Mosteiro no anno de 1423. E o Papa Xisto IV. à instancia de D. Nicolào de Proxita, filho do Fundador, fez a este Convento Universidade, donde se podessem graduar os Frades da Ordem, como refere o Bispo de Monopoli Cent. 5. da Historia de S. Domingos c. 24.

§. XXX.

_Origuela._

O Arcebispo de Valença D. Fernando de Loases fundou hum Collegio de Religiosos de S. Domingos, com mais de dez mil livras de renda, e alcançou privilegios dos Summos Pontifices para se poderem nelle graduar. Diz o Licenciado Gaspar Escolano na 3. p. da Historia de Valença cap. 7. l. 6. que isto foy em seus dias, sem nomear anno, e como elle imprimio pelos de 611. seria poucos antes. Tambem o Bispo de Monopoli na 3. p. da Historia de S. Domingos faz mençaõ desta Universidade. l. 3. cap. 91. e diz que foraõ seus Estatutos tirados do Collegio de S. Gregorio de Valhadolid. O mesmo Author diz, que no anno de 1552. confirmou o Papa Julio III. tudo o que o Arcebispo tinha dado, e concertado com a Ordem sobre este Collegio, e concedeo aos que nelle estudassem, que podessem ser graduados nas Faculdades, que nelle aprendessem; porèm que o Papa Pio V. no anno de 1568. deu licença para que todas as pessoas, assim Ecclesiasticas, como seculares, ainda que estudassem em qualquer outra parte, podessem ser nelle graduadas em Artes, Medicina, e em ambos os Dereitos, e Theologia; e concede aos taes graduados os privilegios, que tem as Universidades de Salamanca, Valhadolid, e Lerida. Vivem neste Collegio mais de 100. Religiosos, dos quaes ao menos 60. haõ de ser do corpo da Universidade, Regentes, Leitores, e Estudantes, como tudo refere o Bispo de Monopoli na Historia de S. Domingos 5. p. l. 2. c. 25. Rodrigo Mendes Sylva na sua Poblacion de España, diz que sua fundaçaõ foy anno 1555.

§. XXXI.

_Gandia._

Foy fundada a Universidade de Gandia pelo Santo Francisco de Borja, sendo Duque daquella Cidade, no anno de 1546. Lem-se nella Theologia, Philosophia, e Latinidade. Deraõ-lhe os Summos Pontifices, e o Emperador Carlos V. privilegios de Universidade para graduar nestas duas sciencias, como refere particularmente o Padre Pedro de Ribadaneira na vida do Santo Francisco de Borja l. 11. c. 13.

§. XXXII.

Navarra.

_Hirache._

A Universidade de Hirache està fundada no mesmo Mosteiro de Monges Bentos, intitulado Santa Maria a Real de Hirache, que he Abbadia celeberrima em Navarra. Le-se nella Theologia, e Filosofia, e por privilegio se daõ nella os gràos em todas as Sciencias. O Padre Frey Antonio de Yepes escreve a historia deste Convento no 3. tomo da historia Geral de S. Bento cent. 4. anno Christi 815. cap. 1. e ainda que refere largamente o dito privilegio fol. 338. com tudo naõ diz o anno, em que se lhe concedeo, nem por quem foy concedido, mas em comum diz, que o privilegio he de Summos Pontifices, e Reys.

§. XXXIII.

_Estella._

No livro das Povoaçoens de Espanha se diz, que nesta Cidade ha Universidade em hum Collegio fundado anno de 1565. por D. Alonso de Cordova, e Vellasco, Conde de Alcaudete, e Viso-Rey de Navarra.

§. XXXIV.

_Pamplona._

No dito livro intitulado Poblaciones de Espanha, no titulo desta Cidade se diz, que tem Universidade instituhida anno 1608. e naõ dà mais razaõ della.

Do que està dito consta, que as letras em España tiveraõ seu principio nos Lusitanos, e que se as outras Provincias de Europa levaraõ ventagem à nossa Espanha em fundarem primeiro Universidades, por estarem os Espanhoes occupados com as guerras domesticas dos Mouros, nem por isso se tem mostrado os Espanhoes menos amadores da Sabedoria; pois em taõ poucos annos tem ornado a toda Espanha com mayor numero de Universidades, e mais celebres, que nenhuma outra Provincia.

NOTAS DE RODAPÉ:

[219] _Reg. 2. 20. 18._

[220] _Arte Grega do Bracense._

[221] _Estrab. lib. 3._

[222] _Pli. l. 3. c. 1._

[223] _Rodrigo Caro l. 3. c. 68. & l. 3. c._

[224] _Cidade de Deos de S. Agost. l. 8. c. 9._

[225] _Aldrete na lingua Castelhana l. 1. c. 22. f. 148. Plin. l. 7. c. 48. Macr. l. 1. Satur. c. 12._

[226] _Pro Arch. Poet._

[227] _Gelius l. 1. c. 4. & l. 15 c. 15._

[228] _Garib. 1. 5. c. 10._

[229] _Es oto Bibliot. Hispan. tom. 1. c. 2. fol. 30._

[230] _Garib. sup. Robl. na vida do Arceb. Cisner. c. 1._

[231] _Garib. sup._

[232] _Robles na vida do Arceb. Cisner. c. 11._

DISCURSO VI.

_SOBRE A PROPAGAÇAM DO Evangelho nas Provincias de Guiné._

§. I.

_Das condiçoens, com que os Summos Pontifices deraõ aos Reys de Portugal o Senhorio de Guiné._

Sendo a prègaçaõ do Evangelho na Provincia de Guinè, a primeira que os Portugueses fizeraõ, e a mais vizinha a este Reyno, he muito para sentir ser esta a que tem dado menor fruito. Pelo que me pareceo necessario apontar as causas que impediraõ naõ se reduzir esta obra à sua perfeiçaõ, para que remediados os impedimentos produza a seara Evangelica nestas regioens os grandes augmentos, que se della pódem esperar; pois este he o intento, com que os Reys Portugueses emprenderaõ as suas Conquistas, e consentem que seus naturaes se desterrem da propria Patria, e occupem suas forças em habitar, e cultivar as alheyas.

O Senhorio, que os Reys de Portugal tem em Guinè, em que se incluem os Estados do Caboverde, Mina, S. Thomè, Angola, e parte de Congo, foy primeiramente concedido[233] aos Reys de Portugal por huma Bulla do Papa Martinho V. e depois por outras de Eugenio IV. Nicolao V. Xisto IV. e Leão X. nas quaes dizem os Summos Pontifices, que daõ o dominio daquelas terras a esta Coroa com condiçaõ, que os Reys della provejaõ de Sacerdotes, e Ministros do Evangelho, que bautizem, e ensinem nossa Santa Fè aos naturaes da terra, encarregando-lhes sobre isso suas consciencias, como se ve do theor de todas ellas, e por o mesmo respeito deraõ tambem aos Reys o Padroado de todas as Igrejas daquellas Provincias, e os dizimos dellas applicaraõ a Commenda Mestral da Ordem de Christo, para mais largamente acudirem os Reys a estas despezas; o que por ser nonotorio, e largo de referir, senaõ aponta com as mesmas palavras das Bullas Apostolicas.

Foraõ os Reys deste Reyno taõ pios, e zelosos da honra de Deos, que o principal intento, com que emprenderaõ estas conquistas, foy a propagaçaõ da Fè Catholica, e conversaõ daquella Gentilidade; e acrescentando-se de novo a este seu desejo a obrigaçaõ de que se encarregaraõ aos Summos Pontifices acima referidos, procuraraõ com muito cuidado desencarregar-se desta promessa; e por isso erigiraõ Igrejas Cathedraes na Ilha de Santiago, de Cabo-Verde, e na Ilha de S. Thomè, e na Cidade do Salvador de Congo, e em outras partes levantaraõ Igrejas, e poseraõ Vigarios para administrar os Sacramentos, e ensinar a Doutrina Christãa; e mandaraõ muitas vezes Religiosos àquellas partes, particularmente ao Reyno de Congo a fazer esta conversaõ, e para haver mayor copia de Ministros, fez ElRey D. Joaõ III. o Collegio da Companhia de Coimbra, e ElRey D. Henrique a Universidade de Evora, donde sahiraõ, e saem muitos Religiosos, e Varoens doutos nas Letras Sagradas, que empregaõ as vidas nesta gloriosa empresa. O primeiro lugar, que os Portugueses povoaraõ na Costa de Guinè, foy a Mina no anno de 1482. nelle se fez a primeira prégaçaõ, como o dà a entender Joaõ de Barros Dec. 1. l. 3. c. 2. e com haver mais de 150. annos ao tempo que se perdeo, naõ havia mais naturaes Christãos, que os de tres, ou quatro aldeas junto das fortalezas de S. Jorge, e Axem, sendo o districto deste governo taõ grande, que passa de 200. legoas.

A segunda prégaçaõ se fez em Congo,[234] e começou no anno de 1491. em que ElRey D. Joaõ II. mandou os Religiosos de S. Francisco, que bautizaraõ os Reys, e principaes Senhores daquelle Reyno: e por estes Religiosos morrerem em poucos annos, enviou depois ElRey D. Manoel à mesma empresa doze Padres dos Azues, a que neste Reyno chamaõ de S. João Evangelista. E ElRey D. Joaõ III. quatro Sacerdotes da Companhia, que huns, e outros acabaraõ em breves dias nesta empresa; a qual continuaraõ depois os Bispos, Conegos, e Clerigos, que o mesmo Rey D. Joaõ III. mandou, fazendo huma Igreja Cathedral na Cidade do Salvador. Porém de todas estas prégaçoens se tirou pouco fruito, ainda que foraõ feitas com grande zelo da salvaçaõ das almas, e concorrendo Deos nellas com obras maravilhosas, e sem haver resistencia nos naturaes da terra para receber o Bautismo; porque como a Provincia he muito grande; e os Ministros muito poucos, a mayor parte dos naturaes do Reyno naõ tem mais que o nome de Christãos, e os mais delles nunca viraõ Sacerdote; e tirando o Bautismo, e os nomes, que dos Santos tomaraõ, nos ritos, nos costumes, e na doutrina, saõ como de antes, quando eraõ Pagaõs. E assim nascem sem haver Sacerdote, que ensine os filhos, nem quem encaminhe os pays, nem quem leve por diante a obra de Deos naquella terra. De modo que sendo esta huma das grandes Christandades de que se podèra colher copioso fruito, està toda bravîa, por falta de quem a cultive, sem valer a seus Principes pedirem por tantas vezes ao Papa, e a Sua Magestade o remedio deste mal.

A Ilha de S. Thomè se povoou no anno de 1493.[235] que hà 159. annos; e em todo este tempo se doutrinaraõ sómente os Negros Cativos dos moradores da Ilha; e na terra Firme, só em Oere, porto onde residem Portugueses, hà alguns Christãos da terra.

Em Angolla des do anno de 1575. em que começou a conquista, atégora tudo foraõ guerras,[236] e da conversaõ dos naturaes se tratou pouco, ainda que tem em Loanda hum Collegio da Companhia, e outro Convento dos Padres Terceiros; porque o Evangelho de Christo he de paz, e naõ se ha de prègar com as armas nas mãos. E assim tirando os Negros de Loanda, e Massangano, naõ hà na terra outros Christaõs, senaõ os escravos, que saem daquelle porto de resgate para Europa, e Novo mundo; aos quaes bautizaõ, sem os cathequizarem, de maneira, que morrem nas mesmas embarcaçoens como brutos. Os outros moradores daquella grande Provincia, assim estaõ como quando nella entramos, antes escandalizados de nossas armas, que edificados da nossa doutrina.

O Cabo Verde, e suas Ilhas se descobriraõ no anno de 1440.[237] que hà mais de 200. annos; e a conversaõ, que se fez em todo este tempo, foy sómente nos escravos das Ilhas de Santiago, e do Fogo, onde estaõ as nossas povoaçoens, e na terra firme nos portos do Rio de S. Domingos, Guinalla, Biguba, Rio das Pedras, Bissao, Cacheu, e Joala, em que os nossos Portugueses residem. Fazem do mesmo modo bautizar os Negros, que compraõ, ou de que se servem, e nunca se prégou o Evangelho geralmente a nenhuma daquellas Provincias, até que no anno de 1605. por ordem do Concelho de Portugal se mandaraõ àquellas partes alguns Religiosos da Companhia, de que foy por Superior o Padre Balthesar Barreira Varaõ Apostolico, que nellas fez grande fruito, convertendo alguns Reys da Serra Leoa, e doutros districtos com muitos dos seus principaes; porém morrendo-lhe logo os seus companheiros, e elle pouco depois, ficaraõ outra vez os novamente convertidos desamparados de todo o socorro espiritual, para continuarem no conhecimento de Deos, e aproveitamento de suas almas.

§. II.

_Das causas porque em tantos annos se tem feito taõ pouco fruito na conversaõ dos povos de Guinè._

Do que està dito se tem visto bastantemente o zelo, com que continuaraõ os Reys deste Reyno na conversaõ dos povos de Guiné, e o pouco fruito, que deste trabalho se tem colhido; as razoens, que para isso hà, saõ tres, a primeira nasce dos Ministros Ecclesiasticos, a segunda dos Portugueses, que trataõ naquellas partes, e a terceira da malignidade dos clymas daquella terra.

Os Ecclesiasticos, que alli vaõ ter, ou saõ Bispos, ou Religiosos, ou Clerigos: dos Bispos, ainda que houve alguns zelosos do bem de suas ovelhas; com tudo os mais delles as desampararaõ, vindo-se dos seus Bispados pouco tempo depois de là chegarem: de maneira que os mais delles vieraõ, e morreraõ neste Reyno, e naõ nas suas Igrejas; e ainda houve alguns que depois de as aceitarem, foy necessario usar com elles do rigor de justiça, para os fazerem embarcar para hirem residir nellas (que com taõ pouco animo de residir se aceitaõ às vezes estas Prelazias) a causa disto he por a terra pela mayor parte ser muito doentia, habitada de Negros barbaros, e sem policia alguma, de modo que naõ querem viver nella, senaõ aquelles, que pretendem tirar disso, ou grande interesse para a alma, ou para o corpo. Os Religiosos, que foraõ àquellas partes, eraõ poucos, e como naõ tiveraõ successores (porque as suas Religioens naõ aceitaraõ a empreza) acabaraõ em breve tempo, depois de gastarem a mòr parte delle em aprender a lingua dos naturaes: e assim hà muitos annos, que tirando-os das duas casas de Loanda, senaõ vem naquellas terras Religiosos, senaõ he a caso, e mais a buscar remedio temporal para seu bem proprio, que naõ o espiritual da gente della. Por tanto os Ecclesiasticos, que mais continuaõ nestas Provincias, saõ Clerigos; destes recebem os naturaes pouca doutrina, porque muitos delles saõ degradados deste Reyno; ou quando naõ, saõ os que naõ pòdem ter cà outro remedio de vida. De modo que sendo estes os que lhes haõ de dar exemplo, e doutrina, saõ impedimento para a salvaçaõ dos naturaes; porque alguns delles com seus costumes escandalizaõ aquelles povos, que com sua virtude, e doutrina houveraõ edificar, e converter. E assim, diz destes o Padre Balthesar Barreira,[238] que só se occupaõ em comprar, e vender, e que nunca dizem Missa, nem fazem officio algum de Sacerdote, tendo o intento principal em se tornarem logo para o Reyno, como se vém ricos, ou como algum remedio para o fazerem.

A segunda causa da conversaõ naõ ir avante he o mào exemplo, que de ordinario daõ os nossos Portugueses[239] naquellas partes; porque ainda que nellas vivem alguns bons Christãos, e zelosos do serviço de Deos, com tudo os mais dos que nelles moraõ, saõ degradados do Reyno por delitos graves; e os que andaõ no cõmercio, ou saõ tratantes, ou soldados, gente pela mayor parte cativa do interesse, a quem respeitaõ mais que a tudo. E assim muitas vezes estes saõ os que sem temor de Deos fazem naquellas partes grandes enganos, roubos, e extorsoens, por cativarem os naturaes contra justiça, e satisfazerem a sua cobiça. Pelo que naõ he muito que seja este roim exemplo dos Christaõs impedimento para se os naturaes converterem. Assim procedem muitas vezes os nossos misturados entre aquelles Gentios, passando muitos annos sem Missa, sem Sacramentos, sem ouvir a palavra de Deos, e pòde ser que sem se lembrar delle.

A terceira causa he a malignidade do clyma de muitas daquellas Provincias, que por serem de ares pestilenciaes, em breves dias consome, e mata a mais da gente, que deste Reyno là vay ter, e os que escapaõ, depois de os apalpar a terra, andaõ sempre com cores de homens mortos, atè que pouco a pouco os acaba de matar de todo aquelle Anjo percuciente, porque como diz o nosso Joaõ de Barros[240] poz alli Deos por seu occulto juizo com huma espada na maõ de mortaes febres, com que nos impede aquella habitaçaõ. Por tanto os mais dos Religiosos, e Bispos, que àquellas partes passaraõ, duraraõ muito pouco tempo, principalmente os que quiseraõ tomar mais trabalho abrazando-se com febres, ou exhalandose-lhes os espiritos pelos poros abertos com a grande inflamaçaõ do calor, de maneira que o Bispo de Cabo Verde D. Joaõ Parvi espirou estando chrismando, afrontado com o trabalho da muita gente; e D. Fr. Sebastiaõ da Assumpçaõ por fazer hum Pontifical, e prègar juntamente, acabou ao outro dia a vida.

Faltando pois aos naturaes a presença dos Bispos, e o exemplo dos Sacerdotes, e escandalizando-os algumas vezes o trato ordinario dos seculares, e matando a terra os Prègadores, que haviaõ de dar soccorro a estes males, naõ he muito que frutificasse taõ pouco esta sementeira, porque como diz o mesmo Senhor no Evangelho: Pouco importa semear, se a semente cae no caminho, e he pisada dos que passaõ, ou comida das aves, sem haver quem a guarde, ou he affogada das espinhas, faltando quem a monde. E S. Paulo confessa, que sua prègaçaõ em Corintho fora sem fruito, se Apollo seu discipulo a naõ regàra: pelo que carecendo esta Sementeira da cultivaçaõ necessaria, naõ he de espantar, se fizesse bravia, e de trigo tenha degenerado em zizania.

§. III.

_De como se podem remediar todas estas tres causas havendo Seminarios destas Naçoens._