Part 22
Todas estas tres causas acima referidas da falta dos Sacerdotes, escandalo dos tratantes, e enfirmidades da terra, se pòdem remediar facilmente com hum só meyo, o qual he ordenar Sua Magestade, que haja Seminarios nos lugares, que parecer mais convenientes, como Loanda, e Cacheu, que he na terra firme do districto de Cabo-Verde, em que se crie certo numero de moços de cada huma destas Provincias, onde estaõ os nossos governos, os quaes moços aprendaõ, e sejaõ ensinados nos mesmos Seminarios em bons costumes, e virtudes por alguns Religiosos, que só por serviço de Deos se entreguem deste cuidado, e espiritual empreza; de maneira que quando os Seminaristas tornarem para suas patrias, possaõ fazer o officio de Prégadores, e succedendo huns aos outros, continuem na cultivaçaõ espiritual daquellas Provincias, atè as converter de todo. Este remedio he taõ notorio, e a obrigaçaõ taõ precisa, que jà se mandou fazer hum Seminario na Ilha de Santiago do Cabo-Verde, mas como naõ se lhe applicou governo conveniente, ficou quasi como se o naõ houvesse. Por onde se vè que estas cousas fóra da Barra naõ pòdem ter effeito, senaõ forem administradas por huma Religiaõ, que nunca morre, como se vè no Seminario de Goa. Todos os inconvenientes apontados se remedeaõ com estes Seminarios. Primeiramente evitarse haõ com os Sacerdotes deste Seminario as faltas, que dissemos nos nossos Ministros Ecclesiasticos, porque os do Seminario seraõ mais em numero para poderem discorrer por todas os povoaçoens de suas Provincias, e seraõ tambem de bons costumes, pois os levaõ da creaçaõ do recolhimento, e boa doutrina. Poderàõ os do Seminario muito melhor fazer o officio de Pregadores, porque escusaõ interpretes na doutrina, e prègaçaõ, que he hum dos grandes impedimentos, que os nossos Clerigos tem para ensinar; porque gastaõ muito tempo em saber a lingua, e ainda quando a alcançaõ, nunca a pòdem tambem saber como os naturaes. Seràõ os Sacerdotes mayor effeito na prégaçaõ, porque como naturaes da terra, haõ de permanecer sempre nella, e naõ virse logo como fazem os nossos; e com o natural amor, que tem aos de sua naçaõ, se moveràõ com natural zelo aos ensinar, e elles os ouviraõ com muito melhor vontade; por verem que os que lhes prégaõ, e daõ exemplo, saõ de sua mesma patria, e gente, e que naõ hà nelles outro interesse.
Naõ se remediarà menos com estes Sacerdotes do Seminario a segunda causa, que apontamos do mào exemplo de alguns nossos naquellas partes; porque vendo os mesmos Portugueses a virtude que resplandece nestes de novo convertidos; confundirse hão considerando a vantagem, que lhes levaõ nos costumes, sendo os nossos os que lhes ensinaraõ a Fè. E quando todavia succeder algum escandalo, os do Seminario tiraràõ a opiniaõ aos naturaes da terra de serem todos os nossos semelhantes na vida, dizendo-lhes da grande Christandade deste Reyno, e que por huns se naõ haõ de julgar todos os outros.
Finalmente fazendo se os Seminarios, se evitaràõ com isso as doenças, e mortes, que padecem os nossos, que vaõ prègar a Guiné; porque como estes moços sejaõ naturaes da terra, seguramente podem andar, e viver nella. Por estas razoens se fez em Goa o Seminario da Santa Fé, em que se criaõ os sojeitos de todas as naçoens Orientaes. E neste Reyno o vimos por experiencia no mesmo Guiné; porque em se descobrindo o Reyno de Congo; mandou ElRey D.Joaõ II. doutrinar logo alguns moços nobres; porque depois de ensinados na Fè, tornassem a prègar a seus naturaes. E o mesmo fez ElRey D. Manoel aos filhos, netos, e sobrinhos delRey D. Afonso de Congo, e outros moços nobres, os quaes aprenderaõ, naõ sómente as nossas letras, mas ainda as latinas, e sagradas; de maneira que delles sahiraõ muitos Sacerdotes, e prègadores; e dous Bispos, que exercitando seu officio, serviraõ a Deos com grande aproveitamento espiritual daquelle Reyno, como testifica Joaõ de Barros Dec. 1. l. 3. c. 10. Pelo que naõ hà duvida, que aprendendo estes sogeitos, faràõ agora os mesmos effeitos, principalmente se os Governadores, Bispos, ou Religiosos, a quem Sua Magestade cõmetter a escolha dos sojeitos, que haõ de vir para o Seminario, fizerem boa diligencia em escolherem os de engenho mais vivo, e melhor inclinaçaõ: e posto que em alguns naõ haja taõ bom successo (como acontece em todos os Seminarios, e Collegios de qualquer naçaõ que sejaõ) isso não tira, que de ordinario nos mais se acerte, principalmente sendo todos estes povos de Guinè muito differentes do novo mundo, e muy doceis, e capazes para toda a doutrina, como o experimentaraõ jà por vezes os que ensinaraõ os de Congo, e Cabo-Verde, e o confessaõ de todos os Olandeses nas suas navegaçoens Orientaes p. 6. cap. 9. dizendo: _Viri omnes habent proprietates, quibus virum cordatum, circunspectum, & prudentem ornatum esse convenit, ingenio sunt, & intellectu optimo, & facilè quod vel semel saltem viderunt, apprehendentes imitari, & æmulari non infeliciter conantur, &c_. E de hum delles conta o Author Gorardo que lia, e escrevia na lingua Portuguesa, e q́ foy argumentar com os Olandeses, para lhes confutar suas heresias, allegando muitas authoridades do Evangelho, e livros Apostolicos; como refere p. 6. c. 21. nestas palavras: _Quin, & unus inventus est, qui linguam Lusitanicum legere, & scribere perfecte potuit, inque sacris literis adeo versatus fuit, ut de religione cum Batavis conferre, & si quid contrarium proferentis, ipsi refutationem ejus ex Evangelistarum, & Apostolorum scriptis suscipere non dubitaret; unde videre est, ingenium quidem eis non deesse, quo ad veritatis agnitionem pertingerent, modo haberent aliquem à quo in capitibus pietatis, & religionis Christianæ principijs recte erudirentur. Quo magis eiiam optandum, ut talia Deus ipsis media largiatur, quæ ad propagationem verbi sui, & salutem ipsorum facere, & prodesse possint_.
§. IV.
_Do proveito temporal, que resultarà à Coroa de Portugal de se fazerem estes Seminarios._
Notorio he a quem tem noticia das cousas deste Reyno, que a contrataçaõ, e direitos da Costa de Guinè foraõ por muitos annos a principal renda da Coroa de Portugal, e a com que ella se enriqueceo, e lhe deu cabedal para poder fazer as conquistas do Oriente, e novo mundo, pelo muito que importavaõ os direitos de Cabo-Verde, e rios de Guinè, Mina, S. Thomè, e Angolla, como se pòde ver dos Contratos, em que muitas vezes andaraõ arrendadas. Estas rendas, nas quaes os rendeiros ganhavaõ ainda muito, e eraõ taõ certas, que diz Joaõ de Barros[241] della estas palavras: _Quanto ao acrescentamento do patrimonio Real, eu naõ sei neste Reyno jugada, portagem, dizima, siza, ou algum outro direito Real mais certo, nem que regularmente cada anno assim responda, sem rendeiros allegarem esterilidades, ou perdas, do que he o rendimento de cõmercio de Guinè; porque dà ouro, marfim, cera, courama, assucar, pimenta, malagueta, e daria mais cousas, se tanto quisessemos della descobrir, como descobrimos, alem dos povos Japões, que passaõ acerca de nós por Antipodas._
Porèm he muito para sentir,[242] que este taõ grande rendimento da Coroa Real esteja quasi de todo acabado de alguns annos a esta parte. A causa saõ os Olandeses, e naçoens do Norte, que navegando àquellas partes em suas nàos, levaõ là as mercadorias, que nòs levavamos em muito mayor abundancia: e naõ contentes com isto, roubaõ todas as nossas embarcaçoens, que por aquellas Costas andaõ de maneira que estaõ hoje quasi senhores daquelle commercio, e tiraõ delle tanto proveito, que se julga por homens praticos lhe vem a importar o trato perto de dous milhoens: e esta foy a fonte das riquezas, que hoje possuem os Olandeses. Para remedio deste mal se tem applicados alguns meyos, mas nenhum delles foy de effeito; porque como aquellas Provincias saõ taõ distantes, e tenha cada huma tantos centos de legoas de Costa he impossivel defenderem-selhe todos os portos com armadas nossas, nem com fortalezas; e assim senaõ acabarmos com os mesmos naturaes da terra, que os naõ queiraõ receber em seus portos, nem commerciar com elles, naõ poderemos ser restituhidos a nosso antigo Senhorio.
Para se isto alcançar daquella gente, parece que naõ póde haver outro meyo mais poderoso, e facil, que o dos Seminarios, que dizemos; porque com elles se alcançaõ dous importantissimos effeitos. O primeiro he segurarmos em nossa amizade os Regulos confederados; porque tendo estes entre nòs seus filhos, e parentes, quasi como em refens, naõ poderaõ declararse em favor dos Olandeses em publico, nem em secreto. O segundo he a universal benevolencia, que adquirirémos com aquelles Principes, e povos de Guinè, os quaes vendo o grande beneficio, que se faz a seus filhos, e parentes em os mandar sua Magestade ensinar, e doutrinar à sua custa, honrando-os, e engrandecendo-os com a dignidade Sacerdotal, admittindo-os aos Beneficios, Cortesias, e Dignidades de suas Igrejas, forçosamente haõde ficar obrigados a taõ grande mercè, e unidos com nosco em paz, e amizade, e feitos inimigos de nossos contrarios, principalmente depois que os Seminaristas seus naturaes lhes começarem a prègar, e persuadir, que se apartem de sua communicaçaõ. Disto temos jà visto hum grande exemplo[243] em ElRey D. Filippe da Serra Leoa, o qual sem receber beneficio algum temporal da Coroa deste Reyno, mais que o espiritual do Bautismo, foy este bastante para lançar fóra de seus portos os Olandeses, e prender os que depois a elles chegaraõ. Pelo que mais se pode esperar que façaõ os outros daqui por diante, vendose obrigados a Sua Magestade com lhes mandar ensinar, e honrar seus filhos, e naturaes.
He este meyo de taõ grande importancia, que naõ póde haver outro mayor, nem mais certo para as Naçoens do Norte deixarem aquelle cõmercio; porque nenhuma cousa cria taõ grande odio entre as gentes, como a diferença das Religioens. E assim ainda em razaõ de estado este he o meyo mais principal, com que os Reys fazem mais obedientes os vassallos, e inimigos de seus vizinhos, como conta a Escritura Sagrada de Jeroboaõ, que fez idolatrar a gente de Samaria, para ficar firme no Reyno novo. Pelo que se estes, e outros muitos alcançaraõ este seu intento prégando falsa doutrina; com muita mais razaõ devemos pretender a conversaõ desta Gentilidade; pois com ella àlem do bem de suas almas se confirmarà em perpetua obediencia o senhorio, que esta Coroa tem naquellas partes, fazendo aborrecer, e odiar nellas os Herejes, de maneira, que naõ sejaõ nellas mais admitidos.
Seguirseha tambem destes Seminarios a paz de Angolla, deixandose o meyo das armas, que ha tantos annos a andaõ destruindo, das quaes senaõ tem colhido fruito algum; porque o pensamento de nos senhorearmos das Minas, a experiencia o tem mostrado impossivel, naõ só porque as naõ hà da fineza, e abundancia, que se requerem para serem de proveito; mas pela grande dificuldade, que haveria em se conservar o dominio dellas tantas leguas pelo sertaõ dentro, o que naõ poderia ser sem muitos presidios. Onde os inimigos, e doenças eraõ bastantes, para consumir toda a gente de Portugal. E assim destes metaes nunca poderémos ter mais, que aquelles que os Negros nos trouxerem a resgatar, movidos pelo interesse do ganho; e as guerras, que por este respeito se fazem, só servem de gastarem a fazenda de Sua Magestade ha muitos annos, por custar muito naquellas partes a sustentaçaõ dos soldados, e naõ para algum bom effeito. Porque ainda que sempre tivemos vitoria, naõ se contentaõ muitos Capitaens com este vencimento por ganharem mais com Sua Magestade nestas guerras, do que as mesmas rendas de Sua Magestade poderiaõ ganhar com o commercio da paz. E sendo assim que a conquista de Angolla naõ se intentou para povoarmos aquella Provincia (pois neste Reyno nos sobejaõ terras muito melhores, que por falta de gente se deixaõ de cultivar) senaõ por respeito da conversaõ dos naturaes da terra, e do comercio: não sey que espirito de guerra tem entrado naquelle Estado, que o tem destruido quasi de todo. E feito cessar huma, e outra cousa, por ser a guerra a destruidora dos commercios, e da promulgaçaõ do Evangelho, que sendo como temos dito, de paz, naõ se pòde prègar com as armas na maõ. E por isso dizem os Santos, que ordenou Nosso Senhor houvesse huma paz universal no Mundo, quando quiz que se convertesse, e prégasse nella sua Santa Ley. E o que em Angolla està feito de conversaõ, e commercio, se deve aos que a governaraõ em paz, e naõ com guerra. Por tanto se devem mandar extinguir estas infaustas guerras, e trazer aquelles Povos à nossa amizade com beneficios, e boas obras, ensinando-lhes os filhos, e honrando-lhos por meyo dos Seminarios; e por esta via se alcançarà a benevolencia daquellas gentes, e naõ com as mortes de seus parentes, e assolaçoens de seus Povos, que cada hora recebem de nossas mãos, em lugar dos favores, e caricias, com que os haviamos de attrahir para se converterem, e estimarem nossa communicaçaõ.
Finalmente com esta obra dos Seminarios alcançarà Sua Magestade hum nome gloriosissimo de Pio, e Religioso Principe, porque vendo as outras Naçoens estes Seminarios, e o grande zelo da honra de Deos, com que Sua Magestade manda taõ longe, e a terras taõ barbaras doutrinar sogeitos para a prègaçaõ do Evangelho, e fazer politica huma das mayores partes do Mundo, naõ poderaõ deixar de lhe dar grandes louvores, edificando-se de taõ grande zelo da salvaçaõ das almas. E com isto se calaraõ de todo nossos inimigos,[244] que vendo nosso descuido, naõ deixaõ de nos calumniar, dizendo que naõ himos àquellas partes, por estender o Evangelho, senaõ por fazer nosso proveito. As quaes calumnias falsas, e outras semelhantes, de que andão seus livros cheyos, cessaraõ de todo, vendo com estes Seminarios, que a salvaçaõ das almas he o principal interesse, que Sua Magestade pretende destas Conquistas.
§. V.
_Como se poderaõ fazer os Seminarios com pouco custo._
Do que temos atègora dito, consta que esta obra da conversaõ dos Ethyopes desta Costa, naõ se pòde fazer sem ajuda dos mesmos naturaes da terra doutrinados, e ensinados por nòs. Pelo que resta sómente vermos os meyos, com que isto se hade fazer: estes saõ notoriamente dous, ou vindo os sogeitos de Guinè aprender a Portugal, ou hindo os Prègadores de Portugal a Guinè a ensinallos.
Bem sey que de muito mòr proveito fora fazer estes Seminarios em Portugal, applicando-se a creaçaõ delles a alguns Religiosos; porque cà seria de mòr fruito a doutrina, e aprenderia juntamente a policîa, como aconteceo aos primeiros Sogeitos que de Congo vieraõ, que chegaraõ a ser depois Bispos. Mas se pelas occasioens presentes naõ pòde isto agora ter inteiro effeito, ao menos bem se poderiaõ repartir alguns a dous, a dous pelos Conventos de Religiosos com ordem de Sua Magestade, para que fossem doutrinados nas boas letras, e podessem depois hir fazer o mesmo officio com seus naturaes. O que meyo com muita facilidade se podia executar. Porém quando isto agora naõ possa ser, facilmente se poderaõ ordenar em Guinè; porque as fabricas, que se usaõ naquellas partes, saõ taõ pouco custosas, e do mesmo modo a sustentaçaõ dos sugeitos pela barateza dos mantimentos da terra, que ElRey D. Affonso de Congo fez huma cerca, em que tinha mil moços nobres com Mestres, que os ensinavaõ, e delles sahiraõ Mestres, que poseraõ escolas por todo o Reyno, e por este meyo se veyo converter todo elle, como se diz na Chronica delRey D. Manoel p. 4. c. 3. Pelo que tornando as rendas daquellas Provincias seu estado com huma moderada ordinaria, se poderiaõ sustentar os sogeitos, que parecessem convenientes.
Para se fazerem estes Seminarios, àlem do de Loanda em Cacheu, ou em Biguba ha a mayor commodidade, que pòde ser, naõ só para os Discipulos, mas para os Mestres, que naõ saõ naturaes da terra. Cacheu, diz o Padre Balthesar Barreira nas cartas do anno de 1607. e 1608. que he o mais composto, que se póde escolher; porque he porto frequentado de todos os navios de Europa, e Caboverde, pelo grande resgate, que aqui ha de escravos, os quaes antes de se embarcarem, se bautizaõ, e por isso he alli mais necessaria huma casa de Religiosos doutos. Confessa o Padre, que aqui fez mayor fruito, que em nenhuma outra parte de Guinè, com estar alli menos tempo. E com tudo era grande a magoa, e dor, que sentia de ver a perdiçaõ de tantas almas, que se poderaõ salvar, se deste Reyno lhes mandaraõ quem os doutrinasse; porque com o bom entendimento, que tem, se sojeitaõ tanto às razoens, que lhes daõ, que sem duvida se converteriaõ todos. E he esta Provincia taõ perto deste Reyno, que naõ dista de Portugal mais que 20. dias de navegaçaõ. E o que mais he de notar, que diz o Padre em muitos lugares, que os ares da Serra Leoa, e dos mais lugares daquella costa levaõ ventagem aos melhores de Portugal; e que se naõ morre naquella terra de doença, senaõ de velhice; porque naõ tem excesso nos frios, nem nas calmas pela frescura que sempre corre, e assim naõ he necessario no veraõ usar de remedios de aguar as casas, nem de avanos. E affirma o Padre, que tem esta terra por mais accommodada à vida humana, que todas as de Europa.
A facilidade da conversaõ he tanta, que diz o Padre Balthasar Barreira, que naõ ha Rey dos que vivem pela Costa, que naõ queira receber o Evangelho com toda a sua gente: exemplo seja, que os mais delles lhes deraõ os mesmos filhos, para que os levasse consigo, e os ensinasse, e assim entre outros trazia dous filhos delRey de Tora, e outros dous, da Serra Leoa.
O Cõmercio he taõ grande, que excede o que se tira de todas as outras partes, porque diz, que só os Olandeses tiraõ delle todos os annos dous mil arrateis de ouro. Na terra hà melhor pào de tinta, que o do Brasil, mais algodaõ, e mais fino, ambar, marfim, cera, malagueta, courama. As canas de assucar nascem naturalmente, grande abundancia de mantimentos, ferro, e outros metaes, muitas arvores de espinho, as uvas se daõ pelo campo, bananas, arroz, milho, castanha, a que chamaõ Cola, de que se leva para todo Guinè, e nascem em ouriços sem espinhos, palmeiras, toda a sorte de aves, e animaes, muitos, e bons pescados, pelo que naõ só havendo Prègadores, se ficaria ganhando hum numero quasi infinito de almas para a Igreja Catholica, mas hum muy rendoso comercio para este Reyno.
Para Sua Magestade mandar contribuhir das rendas de Guinè esta ordinaria, hà assaz de razoens: porque àlem de naõ ser muita a porçaõ, he esta obrigaçaõ imposta pelo Sagrado Concilio Tridentino àquelles dizimos, àlem de os Summos Pontifices concederem com esta condiçaõ à Coroa deste Reyno o Senhorio de Guinè; da qual só Angolla rendia quarenta contos. Pelo que naõ he muito, que para esta obra de tanta obrigaçaõ, e proveito espiritual, e temporal se acrescente esta Ordinaria às outras de Angolla, e Caboverde, a qual naõ servirà de despeza, senaõ de accrescentamento dellas; porque como dissemos, naõ se pòde fazer mayor guerra aos Herejes naquellas partes, que por meyo do Seminario. De maneira que continuandose elle, em poucos annos se colherà sem comparaçaõ muito mayor fruito temporal, do que pòde ser o gasto; mas ainda que se este naõ seguisse, assaz se alcança com a salvaçaõ de tantas almas: sendo cada qual de tanto preço, que só por huma dellas, viria Nosso Senhor de novo do Ceo à terra a se fazer homem, se isso fora necessario para sua salvaçaõ.
Este zelo da honra de Deos foy o que dilatou o Senhorio de Portugal posto num canto de Espanha atè os fins da terra, dando-lhe as riquezas de Africa, Asia, e America. Esta grandeza hirà sempre em crescimento, se se continuar o zelo da conversaõ das mesmas gentes. Para o qual ministerio Nosso Senhor escolheo por sua particular graça, e misericordia aos Portugueses, como o certificou ao nosso primeiro Rey D. Affonso Henriques. Este he o fundamento de nossas vitorias, esta he a causa de se sustentarem as Colonias de Portugal por todas as Costas da redondeza da terra; o que naõ pòde ser senaõ milagrosamente, porque naõ houve nunca Monarquia, que tanto se estendesse, nem Imperio algum, que tivesse poder para defender tantas mil legoas de Fronteira confinantes contra os mayores Principes do mundo. A esta divina obra deraõ principio os Portugueses, como outros novos Apostolos, por ella derramaraõ tantas vezes o sangue, e sacrificaraõ as vidas, como tem visto o mundo todo no grande numero de Martyres, assim Religiosos, como Seculares, que padeceraõ no Japaõ, China, Siaõ, India, Cafraria, e no Brasil.
Botero no livro intitulado: Del officio di Cardinali l. 2. fol. 138. estranha grandemente aos Portugueses o esquecimento que tem de prègarem na Ilha de S. Lourenço; tendo tanto zelo, que se empregaraõ na conversaõ espiritual da India, Malucas, Japaõ, e China, que lhe ficava muito mais longe. Pelo que com quanta mais razaõ se podéra queixar de faltarmos com esta doutrina aos povos de Guinè, se fora informado das commodidades, que para isso temos muito mayores, que naõ para a Ilha de S. Lourenço, suas palavras saõ: _Non voglio pero lasciar de dire che io mi maraviglio grandemente, che i Portuguesi, che con lode, e con gloria loro immortale an aportato la luce del Evangelio a la India, a le Maluche, a la China, i al Giapone, & che no hanno incio risparmiato, ne speza, ne travaglio, ne periculo alcuno, lascino, in abandono, la Isola de San Lorenzo, posta quasi a media strada de le navigationi loro_.
Finalmente se desejava[245] S. Francisco Xavier de hir prègar aos Doutores da Universidade de Pariz a obrigaçaõ, que tinhaõ de exercitar o talento na conversaõ dos povos da India, que por falta de semelhantes obreiros se hiaõ à perdiçaõ; com quanto mais razaõ pòdem temer esta conta aquelles, a cujo cargo estiver procurar a conversaõ de tantas almas, que por esta falta se perdem cada dia? E assim parece se deve mandar entender nesta materia com muita diligencia, e consideraçaõ; pois della resulta taõ grande serviço de Deos, e de Sua Magestade.
NOTAS DE RODAPÉ:
[233] _P. Joaõ de Lucena na vida de S. Francisco Xavier l. 2. c. 10._
[234] _Joaõ de Barr. Dec. 10. l. 3 c. 9. & 10._
[235] _Chron. delRey D. João II. c. 178._
[236] _Relaçoens de Botero p. 3. t. Angolla._
[237] _Relaçaõ do Padre Guerreiro do anno de 1605._
[238] _Padre Guerreiro nas Relacoens de 605. 606. 607._
[239] _O mesmo Padre no lugar citado._
[240] _Barros Dec. 1. l. 3. c. 12._
[241] _Dec. 1. l. 3. c. 11._
[242] _Padre Guerreiro Relação de 605. l. 3. c. 9._
[243] _Guerreiro no lugar citado._
[244] _Navigationes Oland. p. 7._
[245] _P. Lucena l. 2. c. 15._
DISCURSO VII.
_Sobre as Cauzas dos Muitos Naufragios, que fazem as Nàos da Carreira da India, pela grandeza dellas._
Sendo as Nàos da Carreira da India as Embarcaçoens em que Portugal mete a principal substancia de seu cabedal em Dinheiro, Armas, Soldados, e Fidalguia delle, para em retorno lhe trazerem as riquezas do Oriente, he notorio a todo este Reyno, quantas destas Nàos se perdem quasi todos os annos. Pelo que parece obrigaçaõ muy precisa tratarse do remedio de taõ grande danno, pois em cada Nào destas, àlem da gente, se perdem muitos milhoens, e sendo esta perda tamanha he a mais ordinaria que padecemos, e ainda por vezes se tem apontado varias causas deste mal, parece que de todas ellas he a mayor, e mais prejudicial a demasiada grandeza das Náos, e o mào concerto, que se lhes faz com a querena; e porque sabido o principio, que estes erros tiveraõ, se poderaõ mais facilmente remediar, apontarey a noticia que delles tenho.
Todos os que tem lido as historias da India, sabem como no tempo, que ElRey D. Manoel viveo, naõ passavaõ as Nàos da Carreira de 400. toneladas, isto se vè assim, pelo dizerem os mesmos Historiadores, como pelo numero da gente, que nellas hia.