Part 19
Tambem mandou lavrar cobre para o Brasil de vinte reis, e de dez reis. Tem de huma parte dous XX. com a Coroa Real em cima, e as letras ao redor, que dizem, _Joannes V. D. G. P. & Bras. Rex_, e da outra tem huma Esphera com estas letras, _Pecunia totum circuit orbem_. Mandou fazer outra sorte de cobre de dous vintens, e de vintem, que tem o Escudo das Armas Reaes, sem a cercadura dos Castellos com as letras _Joannes V. D.G.P. & Bras. Rex_, e no reverso tem XL. com estas letras _Æs usibus aptius anno. 1722_.
De todas as moedas dos nossos Reys, e de muitas Medalhas, que mandaraõ abrir veraõ os Curiosos hum completo Tratado em laminas de buril no Tomo IV. da Historia Genealogica da Casa Real de Portugal, composto pelo P. D. Antonio Caetano de Souza Clerigo Regular, Qualificador do Santo Officio, e Academico Real do numero, que jà està impresso, e brevemente sahirà à luz.
§. XXXVIII.
_Das Livras_
Livra he a Moeda, de que se acha mais antiga relaçaõ, como se ve da Ordenaçaõ Velha liv. 4. t. 1. Esta Moeda parece, que era de prata, como ainda hoje o he em França, e Alemanha, donde os Officiaes da Moeda parece vieraõ a este Reyno; e à sua imitaçaõ a deviaõ introduzir cà os nossos Reys, como fizeraõ outras muitas cousas à semelhança de Inglaterra, e França, àlem de trazer de là principio o Conde D. Henrique, e muitos dos seus com elle: e assim nos ficaraõ muitas cousas da lingua, e costumes dos Franceses. O nome de Libra he latino, e significa peso de doze onças; desta quantidade lavraraõ os Romanos a primeira Moeda, como diz Plinio lib. 33. cap. 3. e o tem Covarruvias de Numismate, Gregor. Agricola, Budeu, e Leto. Donde parece que do _livra_ latino se derivou o nome às Livras das outras Provincias, e a estas de Portugal.[217]
Todas as Livras, que se lavraraõ atè o anno de 1395. em que reynava ElRey D. Joaõ I. foraõ da mesma valia. Por tanto mandou ElRey D. Duarte por Ordenaçaõ, que pelas Livras atè este anno se pagassem 20. Reaes brancos dos primeiros, os quaes Reaes brancos, como diz a dita Ordenaçaõ liv. 4. t. 1. §. 17. valia cada hum dez Seitis, e quatro quintos de Seitil: e assim 20. Reaes destes brancos vem a montar 216. Seitis, que a seis Seitis o Real tornaõ agora 36. Reaes dos nossos; e tanto valia cada Livra atè este tempo.
Porèm vendo-se ElRey D. Joaõ I. apertado pelos muitos gastos das guerras, fez lavrar as Livras de menor peso; e com tudo lhes deu a mesma valia, como tambem fizeraõ antigamente os Romanos, segundo Plinio no lugar referido; porque sendo a sua primeira Livra de doze onças de peso, e valor; depois pelas necessidades da Republica, as mandaraõ lavrar de duas onças de peso, e depois de huma onça sómente, mas todas com a valia de 12. onças. E assim ficou a Republica ganhando tanto dinheiro, que se desempenhou. O mesmo se conta delRey D. Henrique de Castella o Nobre no 4. livro da sua Historia cap. 10. Pelo que deste meyo se quiz valer o nosso Rey D. Joaõ; porque valendo as Livras, como dissemos 20. Reaes brancos dos primeiros, que fazem dos nossos 36. Reaes, estas segundas Livras, que mandou bater, naõ tinhaõ de verdadeiro peso mais que 25. reis, e 3. Seitis.
A estes dous generos de Livras chamaõ nas Escrituras do tempo delRey D. Duarte para cà, antigas, à diferença das outras, que depois se lavraraõ de muito menor valia. De maneira, que vieraõ a tanta diminuiçaõ, que pelas primeiras Livras antigas se mandaraõ pagar 700. das Livrinhas pequenas atè o anno de 1395. e deste anno por diante se mandaraõ pagar por estas segundas Livras antigas 500. Livras das pequenas.
§. XXXIX.
_Das Livras de dez Soldos_.
Para se entenderem bem as especies das Livras, de que tratamos, avemos de presuppor, que assim como ElRey D. Duarte mandou pagar pelas duas diferenças de Livras mais notaveis, e antigas a 700. Livrinhas por huma, a 500. Livrinhas por outra; assim para entenderem bem, e evitarem embaraços, redusiraõ outras quaesquer especies de Livras a este genero de Livrinhas.
Depois das Livras antigas jà ditas se lavrou huma moeda, que chamaraõ Livra de dez Soldos, a qual era de cobre, e tinha a decima parte da Livra mayor, e mais grande de 700. E assim valiaõ dez Livras de dez Soldos 700. Livrinhas. Chamavase de dez Soldos, porque quando se bateo, se lavraraõ huns Soldos, dez dos quaes faziaõ essa Livra. Prova-se isto por muitas Escrituras antigas; e em particular pelo livro dos Anniversarios velho da Sè de Evora, que começou no anno de 1442. em que està huma verba em 15. de Agosto, que diz: Neste dia fazem Aniversarios por N. e saõ para este Anniversario 50. Soldos antigos, e outo Livras de moeda de dez Soldos; e diz o Contador em baixo, como costuma, que por este Dinheiro recebe 1810. Livrinhas. Pela qual conta se mostra o que temos dito; porque os 50. Soldos antigos valiaõ a 25. Livrinhas cada hum, como diremos em seu lugar. E assim formaraõ 1250. Livrinhas; e as outo Livras de dez Soldos, contadas a 70. Livrinhas cada huma, vem a fazer 560. Livrinhas, que com as 1250. dos Soldos antigos jà ditos, vem a somar as 1810. Livrinhas, que o Contador diz, que recebeo.
Resta averiguar quanto valia esta Livrinha de dez Soldos a respeito da nossa moeda hora corrente, que facilmente se mostra da valia, que temos provado acima na Livra grande de 700. Porque se a Livra grande valia 36. reis; esta, que he a sua decima parte, valeria a tres, e meyo, e tres quintos de Real.
§. XXXX.
_Das outras Livras, que valiaõ dez Livrinhas sómente_.
Consta tambem por Escrituras antigas, que havia outras Livras, cada huma das quaes valia sómente dez Livrinhas das pequenas. O que se vè claramente do livro das contas dos Anniversarios da Sè de Evora, que servia no anno de 1464. na addiçaõ de 9. de Setembro, e assim ficavaõ valendo estas Livras, confórme a nossa moeda, cada huma meyo real, e seis setimos de seitil.
Outra moeda havia de cobre chamada de tres Livras, e meya, porque valia tres Livras, e meya destes de dez Livrinhas, que agora dissemos. E assim valia esta moeda 35. Livrinhas das pequenas. Nesta moeda fallaõ muitas escrituras antigas; e em particular o livro das contas dos Anniversarios do Cabido de Evora no lugar acima referido de 9. de Setembro de 1464. e outro em 17. de Dezembro, em que diz se davaõ para aquelle Anniversario 80. Livras de tres Livras, e meya; e diz o Contador abaixo, que recebeo por estas 80. Livras 2800. Livrinhas. Pelo que consta que valia cada huma destas 35. Livrinhas, como fica dito. E assim ficavaõ valendo da nossa moeda hum Real, e meyo, e hum seitil, e quatro quintos de seitil.
As ultimas, e mais pequenas Livras, foraõ estas, a que chamamos Livrinhas. Estas foraõ taõ diminuidas, e de taõ pouco valor, que como fica dito, mandou ElRey D. Duarte, que se pagassem 700. dellas por huma das mais antigas atè o anno de 1395. e 500. por cada huma das Livras antigas do dito anno por diante. O que cada huma destas Livrinhas valia a respeito do nosso Real, se pode provar desta maneira. Setecentas destas valiaõ huma Livra antiga, que dissemos tinha 36. reis da nossa moeda, logo he necessario, que repartamos 36. reis por 700. partes, e o que vier a cada parte, isso serà o que valia cada Livrinha. Para esta repartiçaõ se fazer mais cõmoda, faremos primeiramente cada Real dos 36. em 20. partes, que montaõ 720. partes. Estas partidas por 700. Livrinhas, vem a cada huma 20. partes de Real, e dous setentavos de 20. partes de Real. Esta he a valia, que tinhaõ, nem he de espantar haver moeda taõ meuda, pois havia Mealhas, como adiante veremos, que valiaõ meyo seitil; e assim hum Real valia doze Mealhas. E alèm disso pòde bem ser, que no peso fossem tamanhas como seitil, ou Mealhas, e a valia fosse esta sómente, ou o que mais he de crer, estas moedas modernas foraõ as que cresceraõ na valia, sendo de pequeno peso. Estas Livrinhas parece que jà as não havia em tempo delRey D. Duarte; porèm para mòr commodidade reduziaõ a ellas todas as contas, como hoje fazemos dos Reaes, não havendo jà quasi nenhuns entre nòs. E assim durou contar-se por ellas muitos annos adiante.
§. XXXXI.
_Dos Soldos_.
Havia antigamente, antes do anno de 1395. outra moeda mais meuda, a que chamavraõ Soldos, 20. dos quaes valiaõ huma Livra antiga de 36. reis; o que se collige da dita Ordenação §. 1. em que se diz, que ElRey D. Duarte mandou pagar 20. Reaes brancos por esta Livra mais antiga, e mandou que cada Real branco valesse hum Soldo. Bem se infere logo que 20. Soldos, era huma Livra. O mesmo consta do livro primeiro das Sisas, em que ElRey diz, que lhe pagaraõ de Sisa dous Soldos por Livra. E na Addiçaõ delRey D. Afonso V. se explica logo, que esta conta vem a ser a decima parte: por quanto huma Livra tinha vinte Soldos. Valia este Soldo da nossa moeda hum Real, e quatro seitijs, e quatro quintos de seitil.
Tambem havemos de presuppor, que as outras Livras, que se foraõ lavrando, como foy a Livra antiga de 500. e a Livra de 10. Soldos, tiveraõ tambem seu Soldos ao mesmo respeito. E assim quando se lavrou a Livra de 500. se lavrarão os segundos Soldos, que tambem eraõ 20. por Livra. O que se prova por muitas Escrituras antigas, particularmenre da Sè de Evora do anno de 1442. e do de 1462. nos quaes se contaõ todas as Livras antigas a razaõ de 500. Livrinhas, e os Soldos a razão de 25. Livrinhas; e assim 20. delles fazem as 500. Livrinhas, e valiaõ estes Soldos da nossa moeda hum Real, e dous setimos de Real.
Este nome Soldo se tomou dos Latinos, os quaes chamavaõ: _Solidum_, àquillo que era totalmente perfeito; e por isso deraõ este nome a certo genero de Moeda, que tinha na valia aquillo, que verdadeiramente pesava. Esta Moeda correo por todo o Imperio, como as outras de Roma. E assim Santo Isidoro nas Ethymologias mostra, que corria em Espanha no seu tempo. Em França ainda hoje ha Moeda deste nome, posto que de diferente metal, e peso; e deste principio nos devia de ficar o nome _Soldo_.
§. XXXXII.
_Dos Dinheiros_.
O Nome, _Dinheiro_, se corrompeo de _Denarius_, Moeda Romana, a quem se deo este nome, por valer dez _Assis_. E ainda hoje em Espanha ha em Valença certa Moeda, que chamaõ _Dinheiro_, 23. dos quaes valem hum Real de prata Castelhano. Estes nossos de Portugal antigos valiaõ atè o tempo delRey D. João I. doze delles hum Soldo daquelles, que 20. faziaõ a Livra mais antiga, como consta da Chronica delRey D. Fernando cap. 55. Nem obsta o que diz a Ordenação já dita §. 17. em que affirma, que o Soldo valia dez Dinheiros, e 4. quintos de Dinheiro, porque a Ordenaçaõ falla pouco mais, ou menos; e naõ avia que se fizesse Moeda miuda, que ao justo naõ viesse a montar o Soldo em 11. ou 12. ou 14. Pelo que se ve claramente, que mais aviaõ de ser os Dinheiros, que dez: e pela Chronica jà dita consta que eraõ doze, e assim mesmo dos livros das contas dos Anniverssarios do Cabido de Evora a 20. de Novembro de 1464. De modo que o justo preço deste Dinheiro era hum Seitil menos hum decimo.
Ouve outros Dinheiros, doze dos quaes valiaõ hum Soldo de 25. Livrinhas, como se prova pelas Escrituras antigas, e cada Dinheiro destes valia duas Livrinhas, e hum duodecimo de Livrinha: e assim doze Dinheiros destes valiaõ hum Soldo de 25. Livrinhas, e na nossa moeda valia este segundo Dinheiro meyo Seitil, e hum quadrigesimo segundavo de Real.
Ouve outra Moeda chamada Dinheiro Alfonsim, pela mandar bater EIRey D. Afonso o IV. como se ve da Chronica delRey D. Fernando cap. 55. e referese no mesmo lugar, que EIRey D. Afonso mandou, que nove destes Dinheiros valessem hum Soldo, e 20. Soldos huma Livra das mais antigas de 36. Estes Dinheiros eraõ do mesmo peso, que os velhos, mas na valia lhe levavaõ os velhos ventagem, pois 9. delles mandou ElRey que valessem hum Soldo; e dos velhos 12. valiaõ hum Soldo. Supposto isto, podemos dizer, que estes Dinheiros Alfonsis se os considerarmos, segundo o peso, valeraõ da nossa Moeda hum Real menos hum Decimo; porèm se os tomarmos segundo a valia que lhe ElRey deu, valeriaõ da nossa Moeda hum Real, e hum quinto de Real; porque todo o Soldo antigo, val, como fica dito, dez Seitis, e quatro quintos de Real, que saõ 54. quintos; os quaes repartidos por 9. vem a cada hum seis quintos, que he hum Real, e hum quinto de Real; e tanto he a sua justa valia, confórme à nossa Moeda. Esta Moeda parece que naõ correo mais, que em tempo delRey D. Afonso IV. e que tornaraõ logo a valer doze destes Dinheiros hum Soldo; porque a este preço os mandou pagar ElRey D. Duarte atè seu tempo.
Depois disto no anno de 1446. se bateraõ outros Reaes brancos, àlem dos que temos dito, que bateo ElRey D. Duarte, os quaes ainda que tinhaõ a mesma valia, eraõ de menor peso, e quantidade de metal.
E no de 1453. se bateraõ outros Reaes brancos de menor peso, que os primeiros, e segundos, mas da mesma valia.
E finalmente no anno de 1462. se fizeraõ outros Reaes brancos, que tinhaõ a mesma valia, que os acima ditos, sendo de muito menor peso, que os primeiros, segundos, e terceiros. Desta diversidade de Reaes nasceraõ grandes queixumes; porque as pessoas, que tinhaõ contratado antes do anno de 1446. diziaõ que se lhes naõ satisfaziaõ os Reaes brancos, que lhes deviaõ por quaesquer outros Reaes brancos modernos dos segundos, ou terceiros, ou quartos; porque sempre se lhes ficava defraudando a divida. De maneira que se hum homem tinha aforado no anno de 1440. humas casas por 20. Reaes brancos, naõ queria aceitar no anno de 1463. 20. Reaes brancos dos ultimos; dizendo que quando elle aforàra por 20. Reaes, eraõ outros, que pesavaõ mais. Querendo ElRey D. Afonso V. acudir a estas duvidas, ordenou em Evora no anno de 1473. que pelos primeiros Reaes brancos se pagassem a razaõ de 18. pretos, que entaõ corriaõ, os quaes Pretos valiaõ tres quintos de Seitil; e assim vinha a ter cada Real destes brancos dez Seitis, e tres quartos de Seitil, como temos dito.
Pelos segundos Reaes brancos mandou ElRey pagar 14. dos ultimos, com que vinha a ter cada hum destes dous Reaes brancos, a valia de hum Real, e dous Seitis, e dous quintos de Seitil.
Pelos terceiros Reaes brancos mandou ElRey se pagassem doze pretos dos ultimos; e assim valia da nossa Moeda cada hum delles hum Real, e hum Seitil, e hum quinto de Seitil; o que se acharà multiplicando os tres quintos de Seitil, que dizemos val cada preto, pelos doze pretos, que val cada Real, viraõ a montar 36. quintos, os quaes feitos em Seitis, vem a somar 7. Seitis, e hum quinto de Seitil, que he o que temos dito.
Pelos quartos, e ultimos Reaes brancos mandou ElRey pagar sómente dez pretos, que vem a montar seis Seitis, e assim tinhaõ a mesma valia, que hoje tem hum Real dos nossos; porque multiplicando dez vezes tres quintos de Seitil, que valiaõ aquelles Pretos, saõ trinta quintos de Seitil, os quaes feitos em Seitis, fazem seis Seitis; que he o que val o nosso Real, que agora corre.
Passados alguns annos, mandou ElRey D. Joaõ o II. lavrar outros Reaes de cobre sem liga alguma; e assim perderaõ o nome de brancos, e se chamaraõ Reaes correntes; e estes saõ os que ao presente correm neste Reyno, que cada hum delles vale seis Seitis.
Com os segundos Reaes brancos se bateraõ tambem segundos pretos; dez dos quaes valiaõ hum dos Reaes brancos segundos.
Provase isto, porque ElRey D. Afonso V. mandou pagar 18. pretos por hum Real branco primeiro, e se durassem os primeiros pretos não se podia ordenar esta ley; pois o seu primeiro preço foy valerem dez delles hum Real branco primeiro. Por esta razaõ se collige, que houve outros pretos de segundos, e terceiros Reaes brancos; porèm estes, confórme o que fica dito, naõ eraõ Reaes taõ bons, como os primeiros. E assim os dez pretos dos primeiros valeriaõ mais, que hum Real branco destes segundos, e terceiros; e dez pretos destes quartos, e ultimos naõ chegavaõ a valia destes segundos, e terceiros Reaes brancos, e por isso mandou ElRey pagar estes Reaes a razaõ de 14. e 12. pretos destes ultimos. Logo de força havemos de dizer, que assim como se batiaõ novos Reaes brancos, se batiaõ logo novos pretos. Resta agora resolver que valia cada preto destes, confórme à nossa Moeda. Isto fica claro pelo que dissemos, que cada Real destes tinha. Os primeiros Reaes valiaõ dez Seitis, e quatro quintos de Seitil, os segundos Reaes brancos valiaõ 8. Seitis, e dous quintos de Seitil, por onde o seu preto valia quatro quintos de Seitil, e dous cincoentavos de Seitil, os terceiros Reaes brancos valiaõ 7. Seitis, e hum quinto de Seitil, por essa razaõ valia o seu preto tres quintos de Seitil, e seis cincoentavos de Seitil. Os quartos, e ultimos Reaes brancos valiaõ seis Seitis, pela qual razaõ valia o seu preto tres quintos de Seitil, como atraz dissemos.
§. XXXX.
_Das Mealhas_.
Consta do cap. 56. da Chronica delRey D. Fernando, em que se falla de muitas Moedas, que dos Dinheiros ultimos, em que jà temos fallado, se faziaõ as Mealhas, de modo que quem queria fazer Moeda mais pequena, que estes Dinheiros, partia hum Dinheiro pela ametade com huma thesoura, ou com qualquer outro instrumento, e ametade deste Dinheiro chamavaõ Mealha, ou Pogeja, e compravaõ com ella alguma cousa meuda. E assim que Mealha naõ era Moeda cunhada per si, mas ametade do dito Dinheiro, e com tudo a dita Ordenaçaõ falla nella, dizendo que valia meyo Seitil, o que he confórme temos dito, porque se hum Dinheiro daquelles valia Seitil, e a Mealha, que era ametade do Dinheiro, bem se infere, que teria ametade de hum Seitil, posto que a Ordenaçaõ falla, pouco mais, ou menos, por quanto o seu verdadeiro he dous quintos, e hum vigesimo de Seitil, que he ametade do que dissemos, que valia o dito Dinheiro.
§. XXXXI.
_De outras Moedas Estrangeiras, que corriaõ no Reyno conforme á Ordenaçaõ_.
Alèm das Moedas Portuguesas, que temos referido, diz a Ordenaçaõ velha, que tambem corriaõ outras, ainda que Estrangeiras, pela bondade de ouro, e peso, que tinhaõ, e nomea, àlem das Mouriscas, que dissemos, as Dobras de Sevilha, as de Leaõ, ou Maravidis Leoneses, as Dobras da Banda, as de Dona Branca.
As Dobras de Sevilha se diziaõ Sevilhantes[218] por ElRey D. Afonso o Sabio as mandar lavrar em Sevilha, nas quaes estava esculpido ElRey armado a cavallo com a espada na mão com huma letra à roda, que dizia: _Dominus mihi adjutor_; e da outra as Armas de Castella, e Leaõ; e à roda: _Alphonsus Dei gratia Rex Cas_. Esta pesava quasi tanto como a Dobra da Banda, segundo consta de huma, que tenho em meu poder.
As de Leaõ, ou Maravidis Leoneses pesaõ hoje 600. reis, como se vé de dous de ouro, que tenho de huma parte com hum Leaõ esculpido, e as letras, que dizem: _Petrus Dei gratia Rex Legionis_; e da outra hum Castello com as mesmas letras, e parece que ou pela esculptura, ou por serem batidos em Leaõ, se chamaraõ Leoneses.
As Dobras da Banda eraõ Castelhanas, e chamavaõ-lhes assim, porque de huma parte tinhaõ as Armas Reaes de Castella, e Leaõ quarteadas em Cruz, e da outra hum Escudo com huma Banda, que o atravessava do canto direito para o esquerdo, que foy a empresa delRey D. Afonso Undecimo de Castella, chamado das Algeziras, como jà dissemos nos Andradas, que trazem a mesma Banda por Armas. Esta Moeda valia entaõ 120. reis brancos dos primeiros, que confórme à nossa Moeda, fazem 216. porèm o ouro da Moeda, segundo o valor que tem o marco, pesa mais de 600. como se vè por experiencia em duas destas Dobras, que tenho em meu poder, huma, que se achou na Villa de Alhandra no anno de 621. e outra junto a S. Manços em huma herdade, que chamaõ a Mesquita, as quaes tem as insignias jà ditas, e de huma parte diz: _Joannes Dei gratia Rex Castellæ_, e da banda do Escudo: _Joannes Dei gratia Rex Legionis_.
As Dobras de Dona Branca se batiaõ em Sevilha, e se chamavaõ Dobras Cruzadas de Dona Branca, porèm dizem se fizeraõ com o dote da Rainha Dona Branca de Borbon, que ElRey D. Pedro engeitou. Destas Dobras se faz mençaõ no C. 11. da Chronica delRey D. Pedro, e valiaõ tanto como as Dobras inteiras, e que o mesmo Rey D. Pedro mandou lavrar, que como dissemos, pesaõ 600. reis.
Outras mandou bater o mesmo Rey, que pesavaõ ametade menos, como se vé de huma, que se achou em Evora, que eu tenho esculpida de huma parte com o rosto do mesmo Rey com Coroa sem barra, e da outra com hum Castello, as letras do primeiro circulo saõ: _Petrus Dei gratia Rex Legionis;_ e da outra: _Petrus Dei gratia Rex Castelæ._
NOTAS DE RODAPÉ:
[187] _Tacit. l. de Morib. Germ._
[188] _Matth 13. 52._
[189] _Moral. t. 2. l. 18. c. 71._
[190] _Moral. tom. 2. l. II. c. 65._
[191] _Moral. t. 2. l. 12. c. 2. & 4._
[192] _Moral. l. 12. c. 9._
[193] _Moral. l. 12. c. 10._
[194] _Moral. l. 12. c. II._
[195] _Moral. l. 12. c. 14._
[196] _Dialogo 8._
[197] _Moral, l. 12. c. 16._
[198] _Dialogo 8._
[199] _Moral. l. 12. c. 30._
[200] _Moral. l. 12. c. 14._
[201] _Dialogo 8._
[202] _Moral. l. 12. c. 53._
[203] _Moral. l. 12. c. 57. & 63._
[204] _Moral. l. 12. c. 65._
[205] _Moral. l. 12. c. 67._
[206] _Ausenij Catalogus Urbium nobilium._
[207] _Chron. delRey D. Ped. c. 11._
[208] _Chron. do Conde D. Pedro de Meneses 1. p. c. 81._
[209] _Moral. p. 3. t. 13. no principio averiguaçaõ do Maravedi._
[210] _3. p. da Monarq. Lusit. l. 10. c. 7._
[211] _Estas comparaçoens do marco de outro em 30U. reis era o valor, que tinhaõ quando se fez este Discurso, e o mesmo se entenda dos 2U600. reis ao marco de prata._
[212] _Chron. delRey D. Joaõ I. 1. p. c. 49._
[213] _Chron. delRey D. Fern. c. 56. e Chron. delRey D. Joaõ I. p. 2. c. 50_
[214] _Ord. Antig. t. 1. l. 4._
[215] Fr. Hier. Romano Republ. Christ. l.c.
[216] _Chron. de D. Joaõ 2. c. 56._
[217] _Todas as Computaçoens que neste Tratado se fazem das moedas antigas com as que agora correm, se entendem a respeito da valia do marco de prata de 2U600. e do ouro 60U. que tinhaõ quando este Tratado se compoz antes da felice acclamaçaõ de Sua Magestade._
[218] _Chron. delRey D. P.c. 11._
DISCURSO V
_SOBRE AS UNIVERSIDADES de Espanha._
§. I.
Refere-se na Sagrada Escriptura,[219] que era proverbio em Palestina. _Qui interrogant, interrogent in Abellà_, com que se dava a entender, que quem quisesse ter verdadeira sciencia, e conhecimento das cousas, a fosse aprender a Abellà, porque esta era a Cidade daquella Provincia, onde havia escholas publicas de todas as Artes. O mesmo podemos dizer das nossas Universidades de Espanha; pois a ellas reconhecem todas as sciencias grande parte de suas perfeitas noticias, e nestas Academias se exercitaõ os engenhos Espanhoes de tal maneira, que naõ fizeraõ no mundo menos famosos pelas letras, que pelas armas. Alguns Authores procuraraõ escrever destas Universidades particulares Tratados, entre os quaes foraõ mais largos o Licenciado Afonso Garcia Mata-Moros, cuja obra anda no segundo tomo da _Hispania Illustrata_, e o Padre Andre Escoto no principio da _Bibliotbeca Hispana_, Estevaõ de Garibai no seu Compendio Historico lib. 16. cap. 10. e o Mestre Eugenio de Robles na vida do Arcebispo Cardeal D. Francisco Ximenes cap. 11. Porém occupados estes Authores com referir alguns Varoens doutos, que nas Universidades floreceraõ; dellas quasi naõ dizem mais, que os nomes, e ainda nestes faltaõ. Pelo que em graça dos estudiosos das boas letras apontarey neste Cathalogo as Universidades, que hà em cada Provincia de Espanha; quem foraõ os Fundadores, quãdo começarão, que Faculdades nellas se ensinaõ, e os Authores, que de cada huma mais particularmente escreveraõ.
§. II.
_Principio das sciencias na Lusitania._