Part 13
Juro assim mesmo, que serey verdadeiro, e leal, fiel, secreto a todo o Estado de Nobreza; e tudo o que for dito em segredo, naõ sómente nestes Reynos, e seus Senhorios, mas em qualquer outro Reyno, em que me achar, ou Senhorio.
Juro assim mesmo, que naõ farey desafio, nem entrevirey nelle entre nenhumas pessoas de qualquer qualidade, e condiçaõ que sejaõ, sem mandado Especial delRey nosso Senhor.
Juro assim mesmo, que qualquer dadiva, bem, ou honra, que receber de qualquer Rey, Principe, ou Senhor, a que por ElRey Nosso Senhor for enviado, ou por quem seu lugar, e mandado para elle tiver, o direy a ElRey Nosso Senhor: e assim a quaesquer outros Reys, e Principes, se por elles por isso for perguntado, naõ direy mais, nem menos, do que receber, nem me for feito por tal, que verdadeira, e fielmente notifique a Nobreza de cada hum.
Acabado o juramento traz o Copeiro Mòr huma copa dourada sem cobertura com agoa, e o Veador a toalha; e ElRey na fórma ja dita lança a agoa pela cabeça ao Arauto, e lhe poem o nome da principal Cidade, que ha por bem, e tomando ElRey a toalha na fórma jà dita, o Rey de Armas vira a cota ao novo Arauto, e lhe poem o Brazaõ à maõ direita, publicando todos os Officiaes da Armaria em voz alta por tres vezes o nome do mesmo Arauto. O que feito bejaõ a maõ a ElRey, e o Copeiro dà a Copa ao novo Arauto, que a leva na maõ por ser de direito sua.
Quando ao Rey de Armas se lhe poem o nome, vay tambem ao Paço acompanhado de todos os Officiaes da Nobreza vestidos com suas còtas, e postos de joelhos diante delRey, faz o juramento seguinte em hum Missal, que o principal Rey de Armas tem na maõ, dizendo.
Juro a estes Santos Evangelhos nas maõs de Foaõ Rey de Armas, que bem, e verdadeiramente darey do livro de meu Regimento das Armas aos Nobres as armas, que direitamente se lhes pertencem, segundo a ordem, e Regimento, que para elle me he dado por ElRey Nosso Senhor, que em tudo guardarey, cumprirey: e que por temor, nem por amor, nem por dadiva, nem por prometimento; nem por outro nenhum respeito, naõ farey nisso cousa, que naõ deva; e finalmente guardarey nisso a justiça, e direito da parte a que tocar.
Juro assim mesmo, que quando for enviado com algum Embaixador, que ElRey Nosso Senhor enviar, serey com todo o cuidado diligente a seu serviço, e fielmente farey, cumprirey tudo o que me for mandado, e com minha cota de armas vestida entrarey onde quer que me for mandado por ElRey Nosso Senhor, ou por seus Embaixadores.
Juro de em todo cumprir, e guardar o juramento, que feito tenho, quando fuy feito Arauto, e todas as cousas, obrigaçoens do dito juramento, e cada huma dellas cumprirey, e sarey fiel, e verdadeiramente, como no dito juramento he conteudo.
Feito o juramento, o Copeiro Mòr traz outra copa dourada com sua cobertura, e o Veador huma toalha, e tomando ElRey a copa, lança ao novo Rey de Armas a agoa pela cabeça, e lhe poem o nome da Provincia, que ha por bem. E depois de lhe darem a toalha na fórma referida, os Officiaes da Nobreza publicaõ logo o nome do novo Rey de Armas, e recebe a copa, que teve a agoa, da maõ do Copeiro Mòr, e a leva por ser gaja sua.
§. XX.
_Dos Titulos, que antigamente se davaõ aos Grandes do Reyno; e particularmente dos Ricos Homens._
Os Titulos, que os Reys concederaõ à Nobreza, foraõ varios, e que o tempo tem mudado muito. Porèm começando dos mais antigos, trataremos somente de tres, por serem os mais communs, e que duraraõ até quasi nossos tempos, a que succederaõ os Duques, Marqueses, Condes, Viscondes, e Baroens, que de presente se usaõ.
O nome de Ricos Homens, diz ElRey D. Afonso, se lhes deu porque àlem da riqueza temporal, foraõ tambem ricos de partes naturaes. Porèm isto he moralizar; e assim me parece mais certo o que diz Fr. Hieronymo Roman,[139] o qual affirma, que no tempo daquelles primeiros Reys, que succederaõ a D. Pelayo pelas miserias em que todos estavaõ, naõ havia Titulos, e a cada hum se dava o nome das cousas, com que servia aos Principes, e ajudava na guerra contra os Mouros, chamando Escudeiros aos que pelejavaõ com Espadas, e Escudos; e Cavalleiros aos que serviaõ a cavallo. E aquelles, que pelas riquezas de bens se avantajavaõ aos outros, mantendo à sua custa gente de guerra, os intitulavaõ Ricos Homens. Estes depois foraõ os Mestres de Campo, e Generaes na guerra, que só podiaõ fazer gente, e trazella a seu cargo, e naõ reconheciaõ outro Capitaõ, senaõ o mesmo Rey. Era este nome de Rico Homem, segundo se collige dos Foros de Sobrarve, pelos quaes em seu principio se governaraõ os Navarros, e Aragoneses, generico, e o dava o povo a quem lhe parecia. Porèm depois que os Reys vieraõ a mayor crescimento, e magestade, tomaraõ para si o concedello. E assim vemos no livro das Linhagens do Conde D. Pedro,[140] como ElRey D. Afonso fez Rico Homem a D. Ruy Gomes de Briteiros, e lhe deu Pendaõ, e Caldeira. E na Chronica delRey D. Afonso IV. se faz mençaõ de como concedeo este titulo, e insignias a Lopo Fernandes Pacheco. E nas de Castella se le, que D. Afonso Fernandes Coronel, com ser senhor de muitas Villas, desejava o titulo de Rico Homem, e o alcançou delRey D. Pedro.
Faziaõ os Reys este acto com grande solennidade; porque o que havia de receber tal titulo, velava primeiro as armas com as ceremonias da Cavallaria para ser armado Cavalleiro, que era o fundamento sobre que todas as dignidades militares antigamente assentavaõ. Depois o levavaõ com grande acompanhamento aonde ElRey estava, e posto de joelhos diante delle, lhe entregava hum pendaõ, ou bandeira em sinal, que o fazia General, e lhe dava poder para capitanear, e governar a gente na guerra. No pendaõ hiaõ pintadas humas Caldeiras; pelas quaes se demonstrava, que podia trazer gente na guerra, e sustentalla. Destes Ricos Homens ficou, parece, o costume de darem aos Condes, e Titulos, que depois aos Ricos Homens succederaõ (como quer ElRey D. Afonso o Sabio) as bandeiras, quando com solennidade se lhes dà a investidura de suas dignidades, como o sente Garibay.[141] As Caldeiras, que o pendaõ levava por divisa, tiveraõ sua origem do pouco dinheiro, que entaõ havia em Hespanha; por cuja causa senaõ dava aos Soldados soldo de dinheiro, mas mantimento. E como para o poder guisar a tanta gente eraõ necessarios grandes vasos, usavaõ destas Caldeiras de notavel grandeza, como ainda hoje se vem nos Conventos da Batalha, e Alcobaça, onde ficaraõ algumas da vitoria de Aljubarrota. Continuou-se o Titulo de Ricos Homens neste Reyno por muitos annos, e ainda ElRey D. Manoel faz mençaõ delles, e das Ricas Donas, que eraõ suas mulheres. Porèm nas Ordenaçoens[142] he mais nome generico, que naõ particular Titulo; e com tudo hoje està jà de todo exincto, succedendo em seu lugar os outros Titulos modernos.
§. XXI.
_Dos Vassallos._
Este nome Vassallo, confórme diz Scipiaõ Amirato,[143] se derivou de _Vasso_, que significa inferior; e mostra com varias authoridades, que os Vassallos se diziaõ antigamente Vassos por estarem sogeitos a alguns Senhores. Daqui podemos entender, que se introduzio esta palavra em Hespanha com o Imperio Gotico, pois a Italia, e França o trouxeraõ as Naçoens do Norte. Debaixo deste nome se comprehenderaõ antigamente neste Reyno muy differentes generos de pessoas; o que naõ advertindo alguns Authores, se enganaraõ grandemente, cuidando que só os Grandes, e Senhores de terras tinhaõ tal Titulo, como affirma Fr. Hieronymo Roman,[144] e em parte o Doutor Jorge de Cabedo,[145] dizendo, que o nome de _Vassallo_ atè o tempo delRey D. Afonso V. era só de grandes Senhores; mas que de entaõ para cà se deu a homens de grande qualidade, chamados Vassallos acontiàdos; sendo assim, que de todos estes generos de Vassallos se faz mençaõ nas Chronicas antigas, muitos annos antes delRey D. Afonso V. Para o que he de saber, que debaixo deste nome se comprendiaõ tres generos de gente, os primeiros eraõ Senhores de terras, e Alcaides Mòres, os segundos Fidalgos, e os ultimos gente rica popular. De todos elles faz mençaõ ElRey D. Afonso Sabio[146] nas Partidas, com estas palavras: _Vassalos son aquellos, que reciben honra, e buen echo de los Señores; assi como Cavalleria, o tierras, o dineros, por servicio señalado, que le ayan de fazer_. Do primeiro genero de Vassallos falla o mesmo Rey em outra Partida, especialmente ordenando, que elles só confirmem as Doaçoens dos Reys; com tudo neste Reyno os Grandes, e Senhores de terras, e Alcaides Mòres tinhaõ este titulo, como mostra largamente o Padre Fr. Jeronymo Roman; onde vemos, que a D. Afonso de Meneses Conde de Barcellos, ao Condestable D. Nuno Alvares Pereira, a Vasque Annes de Castello Branco, a Joaõ Cesar, e outros semelhantes deraõ os Reys este nome. Pelo que parece claro, que todos os Senhores, que hoje chamamos de terras, se diziaõ entaõ Vassallos delRey absolutamente.
O segundo genero de Vassallos se chamavaõ Acontiàdos; porque estavaõ prestes para servir a ElRey com certas lanças na guerra por certa quantia de dinheiro, que dos Reys aviaõ, e por isso se chamavaõ Acontiàdos. Delles, e do modo, com que eraõ aceitados por Vassallos, se faz mençaõ nas Chronicas do Reyno, e particularmente no primeiro Capitulo da Chronica delRey D. Pedro, fallando das condiçoens do mesmo Rey, diz:[147] _Elle foy graõ creador de Fidalgos de linhagem, porque naquelle tempo naõ se costumava ser Vassallo, senaõ filho, e neto, e bisneto de Fidalgos de linhagem; e por usança, haviaõ os taes a contia, que agora chamaõ maravidis, dar-se no berço logo, que o Fidalgo nascia, e a outro nenhum naõ. Este Rey acrescentou muito nas contas dos Fidalgos depois da morte delRey seu padre, que naõ embargante, que ElRey seu padre D. Afonso fosse cumprido no dar de muitas, e boas bondades, tachavaõ-no porèm de ser escasso muito em grandeza, &c_. Pelo dito se mostra a qualidade destes Vassallos, os quaes ainda, que eraõ Fidalgos, differiaõ dos outros Senhores de terras, que temos dito. Este costume, como ja dissemos no Discurso da Milicia, mostra depois o Chronista,[148] que innovou ElRey D. Joaõ, mandando dar à lança do Fidalgo 1U000. livras, e à do que o acompanhava 700. e que os filhos naõ vencessem contia, senaõ depois de terem idade para poderem servir; e entaõ lha assentavaõ nos livros, a respeito da que o pay havia, porèm sempre mais pequena, para dar lugar aos acrescentamentos ordinarios.
O terceiro genero de Vassallo eraõ tirados de cada povo, confórme à contia das fazendas,[149] por razaõ das quaes eraõ obrigados a ter cavallos, e Armas; e tiveraõ origem das listas, que os Reys mandaraõ fazer de toda a gente do Reyno, confórme se costumou em todos os grandes Estados, e o usaraõ os Romanos, elegendo para isso os seus Censores. Nestas listas se assentavaõ os nomes dos moradores de cada povo, e a fazenda, e renda de cada hum, e a respeito dellas se mandava pòr ley, que os que tivessem tanta contia de fazendas, fossem obrigados a ter cavallos, e certas Armas. O tempo, em que este genero de Vassallos teve origem, naõ consta das historias, porèm jà na Chronica delRey D. Fernando se faz mençaõ delles. Pelo que se enganou o Doutor Jorge de Cabedo,[150] cuidando que no tempo delRey D. Afonso V. começaraõ. Fizeraõ-se estas listas no Reyno por muitas vezes, e particularmente em tempo delRey D. Fernando, D. Joaõ I. D. Afonso V. D. Manoel, e de entaõ para cà ficaraõ por ley expressa. O Doutor Antonio Francisco[151] diz, que estes Vassallos tem o primeiro grào da Nobreza; fazendo a Ordenaçaõ sempre esta distincçaõ: _Se for Vassallo, e dahi para cima, ou se for piaõ, &c_. Com tudo o nome de _Vassallo_, parece que nesta particular significaçaõ està extincto, de especial se fez geral, e comprehende hoje todos os subditos do Reyno, assim grandes, como pequenos.
§. XXII.
_Dos Infançoens._
Sobre o nome, e qualidade de Infançoens naõ hà menor alteraçaõ entre os Authores,[152] afirmando muitos, que se dava sómente este titulo àquelles, que dos Infantes descendiaõ, e que por isso eraõ assim chamados. E disto hà sentenças em favor dos Cidadaõs de Lisboa, e do Porto, que todos tem privilegios de Infançoens, concedidos pelos Reys passados. Porèm o contrario desta opiniaõ consta claramente das historias, dos privilegios, e das mesmas Provisoens Reaes. Porque sabido he, que o nome de Infante naõ passa aos filhos dos Infantes; mas acaba juntamente com elles; e se passara, e se chamaraõ Infançoens, como estes Authores querem, sem duvida mayor honra fora a de Infançaõ, que a de Rico Homem. Porèm consta, que sendo os Ricos Homens Senhores particulares, em quem naõ havia sangue Real, precediaõ em tudo aos Infançoens, logo naõ podiaõ ser filhos de Infantes. Ve-se isto em muitos lugares do Conde D. Pedro,[153] o qual refere nos livros das Linhagens de Espanha, que sendo Ruy Gomez de Britteiros Infançaõ, o fizera ElRey D. Afonso Rico Homem, como atraz deixamos Escrito. E tratando de D. Diogo Lopez o Bom Senhor, de Biscaya, quando veyo de vencer hum graõ torneo, que se fez entaõ em Castella, diz[154] que desarmando-o sua Mulher Dona Toda com as Donas, e Donzellas de sua Casa, lhe acharaõ hum ferro de setta em huma perna; e espantando-se Dona Toda de como o podèra sofrer tanto tempo, lhe disse elle: _Honrada està agora a filha, do Infançom_. Ao que ella respondeo: _Este Infançom, que vòs dizedes, por Rico Homem era tido em sua terra_. Por onde se vè claro; que mòr dignidade era a de Rico Homem, que a de Infançaõ. O mesmo consta dos privilegios, e em particular do delRey D. Afonso IV. que traz o Doutor Jorge de Cabedo; porque nas aposentadorias, que entaõ era costume dar-se nos Mosteiros aos Fidalgos, manda que se dem aos Ricos Homens 30. reis, e aos Infançoens 15. e aos Cavalleiros 10. E disto hà outros muitos exemplos, que naõ refiro por escusar molestia. E assim tornando à origem deste nome, deixadas as opinioens, a mim me parece muy provavel o que escreve Vidal Canhelas Bispo de Huesca Author antigo de Aragaõ,[155] de quem Jeronymo Çurita faz muita conta, o qual affirma, que assim como os filhos de Reys, que naõ herdavaõ, se chamavaõ Infantes; assim aos filhos dos Fidalgos, que naõ herdavaõ as Casas, e Morgados de seus pays, lhes chamava o vulgo à sua imitaçaõ, Infançoens, e o mesmo a seus descendentes; o que tambem affirma Gonçalo Argote de Molina, dizendo na Nobreza de Andalusia. 1. c. 77. que os Infançoens eraõ filhos dos Ricos homens. E assim mesmo Escolano[156] na Historia de Valença. Pelo que ainda, que lhes faltavaõ as riquezas, e grandeza, por naõ serem os principaes de sua Casa, naõ deixavaõ de ser muito privilegiados, e honrados. A esta opiniaõ favorece muito ElRey D. Afonso, quando fallando dos Infançoens nas suas Partidas,[157] diz: _E como quer que estos vengan antigamente de buen liñage, & hayan grandes heredamientos, peró nó son en cuenta destos grandes Señores, que de suso diximos_. E bem se vè serem de boa linhagem, pois casavaõ suas filhas com Ricos Homens, e os Reys lhes davaõ com facilidade o mesmo titulo, e os avantajavaõ aos Cavalleiros ordinarios. Pelo que muitos impetravaõ dos Reys os privilegios, e titulo de Infançoens, como foraõ as Cidades jà nomeadas; o que os Reys concediaõ sem mais ceremonias, que passarlhes disso suas cartas.
§. XXIII.
_Da antiguidade dos Duques em Portugal, e do que à sua dignidade pertence._
Duque se derivou da palavra _Dux_, que em latim significa guia, e Capitaõ.[158] Sendo este nome generico, se foy fazendo especial em tempo dos Emperadores Romanos. Porque Augusto Cesar depois de se ver Senhor do Imperio, dividio as Provincias delle entre si, e o Senado; e dando à Republica as pacificas, tomou para si aquellas, que confinavaõ com os inimigos, e tinhaõ necessidade de presidios; e assim fez nove fronteiras nos confins do Imperio, onde constituhio outros tantos Exercitos. Estas foraõ Espanha, Alemanha Baixa, Alemanha Alta, Dalmacia, Panonia, Syria, Egypto, Africa, Misia. A cada Exercito destes nomeou hum General, que chamou Capitaõ, ou Dux, que he o mesmo. Estes Exercitos se multiplicaraõ depois pelos Emperadores successivos. Mas daqui foy a primeira origem de tomarem os Duques o nome das Provincias, e terem o governo dellas; com tudo este cargo naõ durava entaõ sempre, mas era por tempo limitado. Porèm entendendo depois os Emperadores, que os Capitaens, e Soldados fariaõ melhor officio de defender os limites do Imperio, se tivessem dahi particular proveito, concederaõ assim aos Duques, como aos Soldados dos Exercitos todas as terras, e campos, que tomassem aos inimigos, para os poderem possuir em sua vida sómente, ou de seus filhos, quando lhes succedessem na Milicia. Com esta[159] occasiaõ se ficaraõ aproveitando os Duques, e principaes Capitaens de muitas terras nos confins do Imperio, logrando o Senhorio dellas, e os governos por toda a vida. Pelo que de officios se ficaraõ fazendo dignidades, como aconteceo quasi aos Capitaens deste Reyno nas Ilhas, e no Brasil, que de cargo ordinario se lhes deu em vidas, e fez hereditario, de modo que tanto monta agora chamar a hum homem Capitaõ de huma Capitanîa do Brasil, ou de huma Ilha, como Senhor, e Governador della. Passado o Imperio a Grecia, ainda que os maes deste Capitaens ficaraõ com nomes de Condes, pelas razoens, que logo diremos; com tudo em muitas Provincias se conservou o nome de Duques, os quaes tinhaõ particulares insignias, com que andavaõ, porque os vestidos eraõ vermelhos, o baltheo, ou cinto Militar de prata, ou ouro, no dedo traziaõ hũ anel com duas pedras, e hum colar lançado a tiracollo, capacete, e escudo dourado, e só elles podiaõ trazer gente armada consigo, e diante hum estendarte, cousa que a outrem senaõ concedia. Algũs dos Governadores, que os Emperadores Gregos mandaraõ a Italia, Duques se chamaraõ; posto que depois tomaraõ o nome de Exarcos. Hum destes, que foy Longino (segundo Sigonio)[160] introduzio o nome de Duques mais comummente em Italia; porque tirando os Varoens Consulares, ou Rectores, que havia nas Cidades, poz em cada huma seu Presidente com nome de Duque, e lhe deu grande jurisdicçaõ para cobrar os tributos Imperiaes, e administrar justiça. Neste tempo entraraõ em Italia os Longobardos trazidos por Narzetes, Exarco que fora de Ravena, os quaes achando este modo de governo, o seguiraõ, e poseraõ em lugar destes Duques, Capitaens seus, com o mesmo nome, fazendo este officio dignidade, durante a vida de cada hum; e principalmente fizeraõ naquella Provincia quatro Ducados mayores, que foraõ o Espoletano, Forojuliense, Benaventano, e Taurinense; a que depois se seguiraõ os de Perusia, Romano, Toscano, e Campano. O mesmo estylo tiveraõ os Godos em Hespanha,[161] porque imitando em muitas cousas os Emperadores Romanos, poseraõ em suas fronteiras Capitaens geraes com o nome Latino de _Duces_, ou Duques; os quaes governavaõ os seus territorios, e Provincias, como agora fazem os Viso-Reys, e delles fallaõ muitas leys do Fuero juzgo. Vindo depois Carlos Magno a Italia, e vencendo o ultimo Rey dos Longobardos, tomou para si a mayor parte da Provincia, e deu os Ducados della àquelles principaes, que o ajudaraõ a ganhar a terra; porèm com mais liberdade, que os Reys Longobardos, porque naõ sómente lhes deu estes Senhorios em sua vida, como entaõ muitos tinhaõ; mas para seus descendentes, com condiçaõ que lhe guardassem fidelidade, e reconhecessem vassalagem. Daqui tiveraõ nascimento os Duques nà fórma, em que hoje os vemos; porque como muitos Senhores Grandes de Italia ficaraõ com este Titulo, se estimou mais, que o dos Condes, posto que mais antigo. A isto se ajuntou dar o Papa Nicolào II. a Roberto Guiscardo titulo de Duque de Apulha, e Calabria com ceremonias quasi Reaes,[162] dando-lhe cetro, estoque, e barrete vermelho cuberto de pedraria, com licença para fazer moeda; do que fizeraõ tanto caso outros Senhores, que largando os antigos titulos, que tinhaõ de Condes, e Marqueses, se chamaraõ Duques, como foraõ os Condes de Saboya, Borgonha, Moravia, Bavaria, Saxonia, e outros muitos; dando assim os Emperadores, que succederaõ a Carlos Magno, com os Reys de França, e Inglaterra à sua imitaçaõ em seus Reynos este Titulo a muitos. E de Inglaterra veyo esta dignidade a Hespanha muitos annos adiante em tempo delRey D. Joaõ I. quando D. Joaõ Duque de Lencastre, filho segundo delRey D. Duarte, passou a Hespanha a pretender o Reyno de Castella, por sua mulher, que era filha delRey D. Pedro de Castella o Cruel. Pelo que o nosso Rey D. Joaõ I. seu genro à sua imitaçaõ deu a mesma dignidade de Duque aos Infantes D. Pedro, e D. Henrique seus filhos, quando veyo de tomar Ceita;[163] e foraõ os primeiros, que houve neste Reyno, e quasi no mesmo tempo ElRey D. Joaõ I. de Castella fez Duque a seu segundo filho D. Fernando, que depois foy Rey de Aragaõ.
As ceremonias com que se esta dignidade dava em Portugal, naõ achamos nas nossas Historias. Porèm segundo Scipiaõ Amirato,[164] e se collige do Regimento dos Reys de Armas deste Reyno. Vem o novo Duque acompanhado dos principaes Senhores da Corte, seus amigos, e parentes, precedendo diante os Reys de Armas, e musica de Ministreis, e levaõ-lhe huma bandeira, e Coronel os mayores Fidalgos, que o acompanhaõ; chegando assim ao Paço, entraõ na Sala Real, onde ElRey està em seu Trono, e lhe fazem huma pratica em seu louvor; dando as razoens porque ElRey lhe concede aquella dignidade: depois pondo-se o novo Duque de juelhos diante delRey, lhe mete a bandeira na maõ, e lhe poem o Coronel na cabeça: feito isto, se torna outra vez a cavallo com as insignias postas na cabeça atè sua casa. O livro chamado Ceremonial de Principes, diz que os Duques pòdem trazer estoques diante de si com a ponta para baixo à differença dos Reys, que o trazem com a ponta para cima, e usar Coronel na cabeça, e vestir huma oppa vermelha forrada de arminhos aberta pela ilharga, e que em suas Casas tem doceis, e nas Igrejas Sitiaes, e se lhe dà a beijar o Evangelho na Missa; diante dos Reys se assentaõ em Cadeiras razas com Coxins em cima: tem Arautos, e Maceiros para os acompanharem. Em Italia, e Alemanha usaõ[165] os Duques livres, em lugar de Coronel, de hum barrete vermelho redondo forrado de arminhos, que parece significa a liberdade, por ser o barrete antigo hieroglyphico della.