Part 12
Duarte Coelho foy hum Fidalgo de grande esforço na India, e hum dos primeiros nossos Capitaens, que chegou à China.[130] Pelo que ElRey D. Joaõ III. lhe deu a Capitanîa de Pernambuco para a povoar, e pacificar; o que elle fez com grande valor, e trabalho, e com tanto fruto, que ficou sendo Pernambuco a mais rica, e populosa Capitanîa do Brasil. E assim ElRey D. Joaõ III. no anno de 1536. entre outras mercès, que lhe fez; lhe deu novas Armas, que foraõ em campo de ouro huma Cruz chãa affirmada em hum pè de verde, e hum Leaõ de purpura passante, e hum chefe de prata com cinco estrellas de ouro, e huma bordadura de azul com cinco castellos de prata. A Cruz denòta seu solar, e senhorio de Pernambuco na terra de Santa Cruz, que este nome lhe deu seu descobridor; e as cinco estrellas significaõ o Cruzeiro do Polo Antartico, por o Brasil ficar no outro Emispherio; o Leaõ, o valor, com que se houve na Conquista daquella Capitanîa, e por serem proprios dos Coelhos os cinco castellos por outras tantas povoaçoens, que na Capitanîa fizera.
Luiz Loureiro foy hum Fidalgo muy celebrado neste Reyno por seu grande esforço, o qual sendo Capitaõ de Mazagaõ, foy sobre a Cidade de Azamor, e lhe deu o assalto sobindo elle primeiro pela escada ao muro, e levantando a sua bandeira, foy a Cidade entrada, e saqueada. Pelo que ElRey D. Joaõ III. no anno de 1551, entre outras mercès lhe deu por Armas o campo esquartelado; ao primeiro em campo vermelho hum castello de prata, e elle arrimado a huma escada de ouro, e ao contrario huma bandeira branca com a haste de ouro, como trazem seus descendentes juntamente com as Armas dos Figueiredos, de quem elle descendia.
Lopo Rodrigues Camello foy muy aceito a ElRey D. Sebastiaõ, pelas boas partes, que nelle havia de erudiçaõ, e cortesia, e haver visto muitas Provincias de Europa. E quando ElRey foy a Coimbra, vindo de S. Marcos por Tentugal, achou a ponte do Mondego quebrada; e querendo passar a valla, Lopo Rodrigues, que hia só com ElRey, lhe disse, que aquelle passo era perigoso. Ao que ElRey tornou: Ora passay primeiro. Respondeo Lopo Rodrigues: Se Vossa Alteza me engana, ditoso engano he esse. Entaõ se deitou na valla, e ficou cravado só com o pescoço, e hum braço fóra. Quando ElRey o vio em taõ grande perigo, lhe pedio a maõ, e tomando-o ElRey por ella, em pouco espaço o poz em terra. Lopo Rodrigues, porque deste caso ficasse a seus descendentes memoria, lhe pedio, que lho desse por Armas, ElRey lhas concedeo, e as mandou debuxar no escudo desta fórma: em campo de agua com hum braço vestido de ouro, e outro braço; como que sae da agua, de cor azul, e o braço do Rey o tem apertado pela maõ, como se vè esculpido sobre o seu sepulchro na Igreja de Nossa Senhora da Luz.
§. XVII.
_Origem dos Timbres._
Saõ parte das Armas os Timbres, que hoje se trazem sobre os Elmos, o qual uso he antiquissimo, assim entre os Gregos, e Romanos, como nos Alemaens, segundo se vè de muitos lugares de Virgilio na guerra Troyana, e no Catalago da gente, que veyo em favor de Turno contra Eneas. E Plutarco escrevendo a vida de Mario, diz[131] que a cavallaria, dos Cymbros fazia terrivel apparencia tanto pelo resplandor das Armas, que traziaõ vestidas, como pela variedade das cimeiras, ou timbres, que cahiaõ sobre as celadas, que representavaõ diversas figuras de feras: _Galeas_, diz elle, _ornatas horrendis hiantium animalium formis ferebant, &c_. Teve este costume principio das gàleas, ou capacetes, que era armadura da cabeça feita antigamente de couro; a qual para mayor bravosidade, e fortaleza ornavaõ por cima com a cabeça do animal, cujo elle fora: e depois vindo-se a usar a mesma gàlea de ferro, naõ perdeo com tudo a forma antiga, ainda que mudou a materia, como se vè em Alexandre ab Alexandro;[132] e parece ainda das medalhas, e estatuas antigas dos Romanos, e Gregos. Os paquifes ou folhagens, que acompanhaõ os timbres, tiveraõ principio dos penachos dos elmos, como parece do mesmo Author.
Tambem os Principes, e Senhores Titulados trazem Coroneis em cima dos elmos, o qual costume, segundo se vè de Plinio, era ja introdusido em seu tempo. Porque tendo as Familias Nobres de Roma nos pateos das casas por insignias as imagens de seus antepassados de pào, ou cera, com as cores, e proporçoens de cada huma a mais natural, que podia ser; diz Plinio, que em seus tempos usavaõ jà em lugar destas imagens, huns escudos de bronze, no meyo dos quaes entalhavaõ de meyo relevo em prata os rostos de seus mayores, ornando-lhes as cabeças com as insignias triumphaes, ou quaesquer outras Coroas, que lhes competiaõ, como costumavaõ às imagens de vulto. Porèm vindo-se depois a perder as artes com a entrada das Naçoens barbaras do Norte; se contentaraõ de pòr em cima dos escudos pintados os elmos sómente em memoria dos rostos, com as coroas, cristas, ou cimeiras, que he o mesmo, que os Franceses chamaõ Timbre, que lhes competiaõ. Do elmo descem penduradas duas correas, que parece tiveraõ principio do Baltheo, ou tiracollo, insignia propria da Milicia Romana.
§. XVIII.
_Dos Officiaes que os Reys de Portugal crearaõ para conservaçaõ das insignias dos Nobres, e da Casa das Armas de Cintra._
Na conservaçaõ das Armas da Nobreza poseraõ os Reys muito cuidado,[133] entendendo, que foraõ ganhadas pelo valor dos Fidalgos deste Reyno, na recuperaçaõ delle. E como a grandeza, e segurança de seus Estados consistia no valor dos Nobres, por galardaõ, e agradecimento de tantos serviços, procuraraõ conservar as Armas de cada Familia. Foy este intento taõ antigo nos Reys de Portugal, que se conta na Chronica delRey D. Fernando cap. 30. que mandou fazer hum rico paramento todo bordado de aljofares com as Armas dos Fidalgos de Portugal, de modo, que naõ tiveraõ menos cuidado da conservaçaõ dos seus brazoens, que dos Appellidos; querendo, que só aquelles, a quem de direito tocavaõ, fossem honrados com ellas. Para isto ordenaraõ os Reys de Armas, em cujos livros mandaraõ pintar as insignias de todas as Linhagens do Reyno.
Começaraõ estes Officios em tempo delRey D. Joaõ I. porque atè entaõ, pelas poucas mudanças, que houve em Portugal, eraõ todos os Nobres conhecidos; e pacificamente possuhia cada hum as heranças, e honras, que de seus passados alcançàra. Porèm como por morte delRey D. Fernando se seguiraõ taõ largas, e continuadas guerras sobre a successaõ desta Coroa, sustentando huns as partes da Rainha Dona Brites filha do morto Rey D. Fernando, e mulher delRey D. Joaõ de Castella, e outros, as do Mestre de Aviz, e Rey D. Joaõ I. de Portugal, foy tanta a variedade, e alteraçaõ das cousas, que com razaõ diz o Chronista,[134] que começou entaõ neste Reyno, em certo modo, a setima idade do mundo; porque graõ parte das Familias Nobres, que seguiraõ a opiniaõ de Castella, ficaraõ extinctas, e acabadas de todo, e algumas, que sustentaraõ as partes delRey D. Joaõ I. foraõ de novo levantadas a grande lugar. Estes, como naõ eraõ dantes conhecidos, para se acreditarem com o povo, tomaraõ em muitas partes os Appellidos, e Armas de outras Familias antigas, que lhes naõ pertenciaõ. E assim diz o mesmo Author, que no dia da batalha de Aljubarrota estavaõ as Bandeiras dos Aventureiros cheyas de varias Armas, e insignias, que a muitos naõ competiaõ. Pelo que considerando ElRey D. Joaõ I. depois de ter o Reyno pacifico, como a confusaõ desta materia era de graõ prejuizo à Nobreza, movido do exemplo dos Reys de Inglaterra, com quem estava aparentado, introdusio o Officio dos Reys de Armas: e de entaõ para cà os hà em Portugal. Prova-se isto, porque Fernaõ Lopes na 2. p. cap. 39. da Chronica deste Rey dà a entender claramente, que atè o tempo da batalha de Aljubarrota os naõ houve; e o mesmo parece das historias dos outros Reys atè entaõ, nas quaes senaõ acha feita mençaõ alguma de Reys de Armas; e com tudo de entaõ para cà se trata delles nas Chronicas dos Reys ordinariamente nos lugares, que lhes cabe. Pelo que he evidente; que ElRey D. Joaõ foy o primeiro, que os mandou vir a Portugal. Porém vendo ElRey D. Manoel, como ainda esta materia naõ estava em sua perfeiçaõ, mandou Antonio Rodrigues seu Rey de Armas às Cortes dos mais dos Principes Christaõs a saber em particular as obrigaçoens, e usos, que os Officiaes da Nobreza tinhaõ: e depois que assentou a ordem, que se havia de guardar, poz o nome, ou (como se diz nos livros de Armaria) bautizou de novo fallando equivocamente, com grande solennidade nos Paços da Ribeira tres Reys de Armas com seus Arautos, e Passavantes; e mandou ver as Sepulturas do Reyno para dellas se notarem as armas, e insignias dos Fidalgos; de muitas das quaes fez pintar os Escudos com suas cores, e Timbres em huma fermosa sala, que para isso mandou edificar nos Paços de Cintra; e deu comprido Regimento aos Officiaes da Armaria para a conservaçaõ da Nobreza, e armas das Familias, de modo que naõ houvesse mais a confusaõ antiga.
Na Casa de Cintra naõ estaõ todos os Brazoens, porque naõ cabiaõ, e só se pintaraõ os das Familias, que entaõ parece andavaõ na Corte, e no serviço do Paço.
No meyo do tecto da Sala estaõ as Armas Reaes de Portugal, ao redor as do Principe, Infantes D. Luiz, D. Fernando, D. Afonso, D. Henrique, D. Duarte, Dona Isabel, Dona Brites.
Em baixo se vem 74. Brazoens, com o que està sobre a porta, de diversos Appellidos, pendurados cada hum do collo de hum Veado, que nos cornos tem o Timbre; estaõ em dous circulos, que por o serem, naõ ha nelles precedencia; e por isso vaõ aqui pela ordem das letras.
=A=
Abreu, Aboim, Aguiar, Albergaria, Albuquerque, Almada, Almeida, Andrada, Arca, Azevedo, Ataide.
=B=
Barreto, Betancor, Borges, Britto.
=C=
Cabral, Carvalho, Castelbranco, Castro, de seis Arruelas, Castro de treze, Coelho, Corte Real, Costa, Coutinho, Cunha.
=E=
Eça
=F=
Faria, Ferreira
=G=
Gama, Goes, Gouvea, Goyos.
=H=
Henriques.
=L=
Lemos, Lima, Lobatos, Lobeiras, Lobo.
=M=
Malafaya, Manoel, Mascarenhas, Meiras, Mellos, Mendoça, Meneses, Miranda, Moniz, Motta, Moura.
=N=
Nogueira, Noronha.
=P=
Paçanha, Pacheco, Pereira, Pimentel, Pinto.
=Q=
Queirós.
=R=
Ribafria, Ribeiro.
=S=
Sà, Sampayos, Sequeira, Serpa, Serveira, Sylva, Sylveira, Souto-Mayor, Sousa.
=T=
Tavares, Tavora, Teixeira.
=V=
Valente, Vasconcellos, Vieira.
Por baixo ao longo da aba do forro deste tecto estaõ escritos estes quatro versos nos quatro lados das paredes da Casa com letras palmares de ouro.
_Pois com esforço, e leaes Serviços foraõ ganhados Com estes, e outros taes Devem de ser conservados._
Desta casa faz mençaõ Damiaõ de Goes na Chronica delRey D. Manoel, quarta parte cap. 86. fol. 112. com estas palavras: _Mandou ver todalas sepulturas do Regno, para dellas se notarem as armas, e insignias, e letreiros, que nellas havia, das quaes armas mandou no Paço de Sintra pintar todolos Escudos com suas cores, e Timbres em huma fermosa Salla, que para isso mandou fazer: àlem do que mandou fazer hum livro muito bem luminado, em que estaõ pintados os mesmos Escudos da linhagem da Nobreza destes Regnos, &c_.
Succederaõ estes Reys de Armas modernos aos Antigos Feciales Romanos,[135] que eraõ os que publicavaõ as pazes, e guerras nos Exercitos, de que faz mençaõ muitas vezes Livio, e outros Autores Latinos. Este cargo tinhaõ entre os Gregos os Caduceatores, e entre Carthagineses os Trombetas, e outros em outras Provincias, segundo o uso de cada Naçaõ. Diogo do Monte citado por D. Sebastiaõ de Covarruvias[136] affirma, que Julio Cesar instituhio certas dignidades, que se davaõ a doze Cavalleiros antigos depois de jubilados na Milicia; os quaes levavaõ nas vestiduras as insignias do Principe, e nenhumas armas offensivas; porque estes naõ pelejavaõ, mas advertiaõ, e notavaõ sómente os feitos valerosos dos Soldados; para que depois se desse o premio aos benemeritos, e esforçados, e lhes deu nome de Heroes, e diz que Carlos Magno renovou estes cargos com as mais cousas do Imperio Latino; e do nome Heroes se disseraõ Heraldos, e Heraos, como os chamaõ em França. E assim tiveraõ antigamente grande authoridade, e delles usaraõ os Principes de Alemanha, Inglaterra, Castella, e Portugal.
Ha tres especies delles, os primeiros, e menores saõ chamados Passavantes, os quaes tem o nome da principal Villa da sua Provincia. Estes antigamente tinhaõ por officio andar por varias Provincias vendo os usos, e costumes dellas. Os segundos se chamaõ Arautos, e eraõ ordinariamente os interpretes dos Reys, e os que levavaõ seus recados na guerra, de que ha assaz de exemplos na historia delRey D. Afonso V. e na de D. Carlos V. Emperador, e Rey de Castella: para o que quasi de todas as gentes tiveraõ salvo conduto. Tomaraõ o nome da principal Cidade do Reyno. Ultimamẽnte saõ os Reys de Armas, que se intitulaõ do nome da Provincia.
Neste Reyno ha tres Officiaes de cada Provincia, cada hum de sua especie. Os nomes de que usaõ, saõ Rey de Armas Portugal, Arauto, Lisboa, Passavante, Santarèm, Rey de Armas Algarve, Arauto Sylves, Passavante Lagos, Rey de Armas India, Arauto Goa, Passavante Cochim. Os Reys de Armas tem obrigaçaõ neste Reyno, segundo o Regimento, que lhes deu ElRey D. Manoel, de cada hum em sua Provincia fazer hum livro, em que se escrevaõ todas as Familias dos Nobres, e Fidalgos, que nella vivem, apontando os casamentos, e filhos, que cada hum ha; e fazendo disso arvores certas, e distintas com seus nomes; e por este trabalho manda ElRey lhe dem os Fidalgos suas gajas. Tem mais obrigaçaõ de fazer, que cada hum traga as armas, que lhe pertencem de direito, e de visitar cada qual sua Provincia de dous em dous annos. Manda-lhes assim mesmo ElRey se appliquem ao estudo da Armaria, de maneira que entendaõ as causas, porque se deraõ as armas a cada Familia; e as possaõ explicar, quando lhe pedirem as declaraçoens, assentando tudo em seus livros. Obrigados a por em lembrança todos os feitos de armas, que em suas Provincias passarem; e assim mesmo as mesagens, recados, torneos, justos, retos, e desafios, especificando os actos de cada cousa, como na verdade passaraõ. Manda que elles sós possaõ passar as Cartas de Armas, que se pedirem de novo, appresentando as petiçoens aos Desembargadores do Paço; hum dos quaes farà exame de testemunhas, porque conste, que o que pede a Carta de armas, he daquella linhagem, e lhe pertence, e que só o Rey de Armas as assinarà.
Tem tambem obrigaçaõ de assistirem nos levantamentos dos Reys, nos actos das Cortes, nas entradas solennes das Cidades, e nos Exercitos, quando os Principes se achaõ nelles. Acompanhaõ nos actos publicos aos Fidalgos, a quem os Reys daõ novos Titulos, assistem nas mesas ao comer dos Reys, e quando vaõ fóra pela Cidade, e finalmente nos enterros, e exequias. Estas saõ as obrigaçoens dos Reys de Armas, muitas das quaes naõ sey se se cumprem, e se he por descuido, ou pelos poucos premios, que recebem de seu trabalho; porque tirando a assistencia, que fazem aos Principes nos actos publicos, e acompanhamentos, e o passar as cartas ordinarias de Armas, no apontar as geraçoens, naõ vi memoria alguma. Porèm acudiraõ a esta obrigaçaõ alguns particulares, movidos do zelo do bem commum, por naõ se acabar a memoria da Nobreza de todo. E deixando o primeiro, que isto fez em Portugal, que parece foy conhecidamente o Conde D. Pedro, filho delRey D. Diniz (a quem deve a Nobreza de Espanha isso, que se della sabe, como confessaõ os Historiadores Castelhanos.) Depois delle seguio esta empresa no que toca a este Reyno sómente Xisto Tavares Quartanario da Sè de Lisboa continuando algumas Familias, de que tratou o Conde. Porèm ainda que o fez com diligencia, escreveo de poucas. Imitou-o Damiaõ de Goes Chronista Mór, e fez o livro de Geraçoens, que hoje està na Torre do Tombo imperfeito, por lhe naõ dar a vida lugar ao acabar de todo, e assim tratou sómente de poucas Familias. O Cardeal D. Henrique, como Principe taõ zeloso, encommendou esta empreza a Gaspar Barreiros Conego de Evora, na qual elle confessa, que trabalhou muito, porèm naõ lhe deu fim: e por sua morte encarregou o Cardeal o livro ao Bispo Jeronymo Osorio, que o acrescentou de algumas cousas; e por seu fallecimento o recolheo o Bispo Capellaõ Mòr D. Jorge de Ataide. D. Antonio de Lima fez tambem hum Nobiliario collegido dos livros dos Registos dos Reys muy apurado, e bom. Outro livro compoz tambem de Geraçoens Diogo de Mello Pereira Prior de Tentugal, parte do qual chegou a se imprimir; mas por justos respeitos, e defeitos, que tinha na composiçaõ, foy mandado tirar da imprensa. Destes livros, e doutros, que nesta materia fizeraõ muitos Fidalgos, se tem tirado muitas arvores de Geraçoens; as quaes para serem perfeitas, costumaõ os Italianos fazer com os retratos naturaes de cada pessoa dentro no seu circulo, e à roda delle lhe escrevem o nome, e em cima lhe poem a insignia da dignidade, que teve, como o Coronel, sendo Titulado, a Mitra, ou Chapeo, sendo Cardeal, ou Pontifice: aos Santos cercaõ os circulos de resplandores; aos Generaes dos Exercitos poem por insignia o Bastaõ; aos Capitaens da Cavalleria, o Elmo; e aos Cavalleiros das Ordens Militares assentaõ os circulos sobre as mesmas Cruzes; e do tronco da arvore penduraõ o Escudo das Armas da tal Familia.
Na explicaçaõ das Armas fizeraõ os Officiaes da Nobreza pouca mais diligencia; porque usando sómente de certos livrinhos estrangeiros, que trataõ das cores, e metaes dos Escudos, todo seu intento poseraõ em explicar estas cores; dizendo, que o vermelho significa sangue, o branco pureza, e assim outras cousas vulgares, que de cada cor, e metal ordinariamente se dizem, e por aqui explicaõ com regras geraes todos os Brazoens. O mesmo quasi fazem das peças dos Escudos, dizendo que os animaes saõ mais nobres, que as plantas, e estas, que os metaes, e os metaes, que os edificios, e outras cousas semelhantes contra toda a boa razaõ. Porque deste modo ficavaõ sendo mais nobres as Armas de hum particular, que tivesse no Escudo hum Lobo, ou hum Leaõ, que naõ as de hum Rey, que tivesse hum Castello, ou huma Cadeya; como saõ os de Castella, e de Navarra, ou huns Escudos, como os de Portugal. Pelo que com razaõ reprovaõ esta opiniaõ Thomaz Garsone[137] na sua Praça universal, e Gregor. Lopez Madeira[138] nas Excellencias da Monarquia de Espanha; os quaes resolvem, que a Nobreza das Armas naõ se hà de regular pelas cores, ou materiaes, de que constaõ; mas pela dignidade de quem as traz, ou pela bondade do acto, em que foraõ ganhadas. Sò na ordem de trazer as Armas poseraõ mayor cuidado, ordenando que sò os Chefes tragaõ as Armas direitas, que he o mesmo, que sem differença; e a todos os outros filhos segundos se lhes poem alguma peça no Escudo para differença. Esta peça se toma ordinariamente das Armas dos Avòs. E sendo muitos irmaõs, o primeiro tem a escolha para tomar a melhor differença, Ve-se isto muy distinctamente na Casa das Armas de Cintra, onde mandou ElRey D. Manoel pòr as suas no meyo, e à roda as de todos os seus filhos; dos quaes hum tomou por differença as de Castella, outro as de Aragaõ, outro as de França, Inglaterra, &c. cada hum por sua precedencia. Quando pintaõ os Escudos, os poem sempre inclinados para a parte direita; posto que os Chefes os trazem hoje direitos com os elmos fronteiros, havendo algum animal no Escudo, ou outra peça, se poem tambem por Timbre: ninguem sendo Chefe pòde trazer as Armas com outra mistura, tirando se o for de muitas geraçoens; porque entaõ as poderà trazer juntas. Os outros podem usar das dos quatro Avòs, quarteadas, ou das de sua mãy sómente. As mulheres trazem as Armas em Escudos quadrados postos com a ponta para cima, partindo o campo em palla, e deixando a parte direita delle para as Armas do marido.
§. XIX.
_Do modo, com que saõ postos os nomes aos Officiaes da Armaria._
ElRey D. Manoel depois, que mandou fazer o Regimento dos Officiaes da Armaria, diz Damiaõ de Goes no cap. 80. da 4. p. da sua Chronica, que em Lisboa nos Paços da Ribeira fez hum acto publico muito solemne, em que deu nome a todos os Reys de Armas, e Arautos, e Passavantes destes Reynos, a cada hum delles separadamente da sua Provincia. Pelo que me pareceo bem pòr aqui as ceremonias, com que estes actos se fazem; porque alèm de pertencerem a este lugar, atègora as naõ vî escritas em outra parte. Estando ElRey sentado debaixo do Docel em Sala publica, vem o novo Passavante, e o Rey de Armas o appresenta sem cotta, nem Brazaõ diante delRey, e posto o Passavante de joelhos faz o juramento seguinte. Foaõ Passavante juro a estes Santos Evangelhos nas maõs de Foaõ Rey de Armas, que bem, e verdadeiramente, e com todo o cuidado, e diligencia aprenda todo o que necessario for ao nobre officio das Armas, para que dignamente possa passar, e ser acrescentado ao officio de Arauto, e de Rey de Armas, quando ElRey Nosso Senhor disso houver por seu serviço de me prover. E assim juro em todo o que pelo dito Senhor, e por aquelles, que para elle seu lugar tiverem, me for mandado, que de meu officio de Passavante faça, e farey toda a fidelidade, cuidado, e diligencia, assim como devo, e saõ obrigado fazer ao serviço de meu Rey natural, e Senhor.
Acabado o juramento, o Copeiro Mòr traz huma taça de prata branca com agua, e sem cobertura, e o Veador huma toalha, e dando o Copeiro Mòr a taça a ElRey, lhe lança por cima da cabeça huma pouca, e lhe poem o nome da Villa, que quer, e o principal Senhor, que està na Sala, toma a toalha da maõ ao Veador, e a dà a ElRey para alimpar as maõs. Feito isto, o Rey de Armas lhe poem o Brazaõ no peito à parte esquerda, e veste a cotta de Armas atravessada, como he costume trazerem os Passavantes, e depois de vestidos, assim elles, como os mais Officiaes de Nobreza, e o Rey de Armas bejaõ a maõ a ElRey, e o Copeiro Mòr dà ao Passavante a taça de prata, em que esteve a agua, a qual leva na maõ, porque de direito lhe pertence.
O Arauto vem a este acto vestido, ainda como Passavante, e acompanhando-o diante todos os Officiaes da Nobreza, leva-o pela mão o principal Rey de Armas, o qual o appresenta diante delRey: o Arauto entaõ posto de joelhos com a mão em hum Missal, que o Rey de Armas tem aberto, faz o juramento seguinte.
Juro aos Santos Evangelhos nas maõs do Rey de Armas Foaõ, que bem, e fiel, e lealmente servirey a ElRey Nosso Senhor toda a minha vida, e me naõ mudarey, nem passarey para nenhum outro Rey, nem Principe, nem mudarey o nome, que pelo dito Senhor me he posto, resalvando, se para elle o dito Senhor me der licença.
Juro assim mesmo, que em qualquer maneira, e em qualquer tempo, que sentir danno, ou proveito do dito Rey Nosso Senhor, que a meu officio toque, e pertença, o revelarey, e direy a sua propria pessoa, ou a quem por elle me for mandado, resalvando em guerra, se o dito Rey nosso Senhor com algum Rey, ou Principe a tivesse, ou com qualquer outra pessoa, a que por meu officio saõ obrigado guardar segredo, assim a meu Senhor, como à parte contraria.
Juro assim mesmo, que em todas as mesagens, recados, embaixadas, de que for encarregado, assim pelo dito Rey Nosso Senhor, como pelos que seu lugar, e mandado para elle tiverem, como de qualquer outro Rey, ou Principe; posto q́ estè em imizade com o dito Rey nosso Senhor, farey verdadeiras, e fieis relaçoens: inteiramente direy, e fallarey o que me for dito, e mandado, e naõ acrescentarey, nem minguarey disso cousa alguma por odio, dadivas, nem prometimento, nem por outro respeito algum, e em tudo farey verdade, servirey fielmente, &c.
Juro assim mesmo, que quando me achar em algumas justas, ou torneos, ou em guerras, escaramuças, desafios, assaltos, ou em quaesquer outros actos de guerra de qualquer sorte, e qualidade que sejaõ, sempre diga fiel, e verdadeiramente tudo aquillo, que vir por meus olhos à boa fé, e sem engano, nem malicia, e sem acrescentar, nem diminuir alguma cousa em nenhum modo que seja; e de tudo farey verdadeiro, e fiel testimunho, sem tirar, nem minguar, nem acrescentar a honra, e louvor, e fama de nenhuma pessoa por nenhum respeito que seja.