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Part 11

Chapter 113,881 wordsPublic domain

As Meyas Luas saõ insignias proprias dos Mahometanos, como mostra Joaõ Botero,[113] e o Padre Frey Marcos de Guadalajara na sua Expulsaõ dos Mouriscos,[114] onde dà largamente as razoens, que para isso tem; e assim as trouxeraõ sempre por sinaes em suas bandeiras todos os Principes daquella Seita, como he notorio, e se vè de Argòte,[115] Pelo que os Cavalleiros, que nas batalhas tomavaõ algumas bandeiras aos Mouros, pintavaõ nos Escudos para memoria, e tropheo as mesmas meyas Luas, como se vè em muitas Familias de Castella. Neste Reyno se tomaraõ muitas nas batalhas com os Mouros, e principalmente na de Sevilha. Exemplo seja Gonçalo Mendes de Sousa, que acompanhou ao Infante D. Sancho, quando foy sobre Sevilha, e na batalha de Guadalquibir, tomou aos Mouros quatro bandeiras, e porque cada huma dellas tinha huma meya Lua, tomou por armas no Escudo huma quaderna feita das quatro meyas Luas, e as bandeiras mandou ao Mosteiro de Pombeiro, onde ainda hoje se conservaõ.

De semelhantes casos podemos dizer tiveraõ origem as meyas Luas, que trazem nos Escudos as Familias nobres deste Reyno, que saõ Alardos, Alpoem, Amaral, Bessa, Cassena, Carvalho, Froes, Goes, Homem, Lemos, Pessoas, Pintos, Queiròs, Sousa, Taborda, Valentes, Zagallos.[116]

§. X.

_Estrellas._

A mesma occasiaõ tiveraõ as Estrellas; porque ordinariamente usaõ os Mouros, àlem das Luas de cinco Estrellas nas bandeiras, por denotaçaõ dos cinco Planetas, que tem Estrellas, a que chamaõ Errantes, como se vè nas armas do Miramolim Rey de Cordova, Granada, e Baeça, que traz Argòte.[117] Exemplo seja disto Memmonis, que acompanhou ao Infante D. Sancho, quando foy na batalha de Sevilha, do qual se conta na Chronica delRey D. Afonso Henriques, e o refere Duarte Nunes na mesma, fol. 51. vers. que este Fidalgo tomou a bandeira delRey de Sevilha, na qual tinha pintado cinco Estrellas, como refere Gonçalo Argóte de Molina lib. I. c. 44. da Nobreza de Andaluzia, e assim tomou por armas as mesmas cinco Estrellas. Por semelhante occasiaõ trazem os Fonsecas outras cinco Estrellas por armas, por as trazer nas bandeiras ElRey de Lamego, a quem os primeiros desta geraçaõ cativaraõ, e tomaraõ a Cidade. E dahi as tomarão tambem os Coutinhos, que delles descendem. As Familias, que as trazem, saõ Alvellos, Avelares, Barbedos, Barbudos, Çacoto, Coutinhos, Freytas, Macedo, Perestrellos, Rojas, Salazares, Tavares, Leaes.

§. XI.

_Arruelas._

Arruelas saõ circulos redondos, que muitos tem para si significarem Escudos; por quanto foy costume entre os antigos tomarem por sinal do inimigo vencido o Escudo, ou Elmo. Porèm Gonçalo Argòte de Molina[118] no liv. da Nobreza de Andaluzia cap. 103. diz que ElRey Artur de Inglaterra, quando instituhio os Cavalleiros da Tabola redonda, que he o mesmo, que mesa redonda, deu por armas a Janazio o Forte (que era hum dos mais valerosos) treze Arruelas, significando na figura de Arruela a mesa redonda; e o numero de treze serem outros tantos os Cavalleiros; porque doze foraõ escolhidos à honra dos doze Apostolos, e o decimo tercio era o mesmo Rey Artur. Depois o Emperador Carlos Magno fez outra companhia de doze Cavalleiros, a que chamou Pares, que quer dizer iguaes; e por isso tambem comiaõ em mesa redonda, onde naõ ha cabeceira.[119] Pelo que muitos Fidalgos, ou por descenderem destes Cavalleiros, ou por se mostrarem semelhantes a elles no valor, e merecimento, tomaraõ por armas as mesmas Arruelas, variando no numero: mas de ordinario eraõ seis, porque parece, que usando do vocabulo, _Par_, que naõ somente significa igual, mas tambem dous, sendo as Arruelas de pares, as seis montavaõ por doze. Daqui parece, que tiveraõ principio as treze Arruelas, e as seis dos Castros, e as seis Arruelas dos Mellos, e Almeidas, as quaes estaõ metidas entre duas Cruzes dobradas, que tambem denotaõ o mesmo nome de _Par_. As Familias, que trazem Arruelas, saõ Almeidas, Castros, Doutiz, Ferraz, Gouvea com Cruz dobrada, Mellos, Taveira, Teives.

§. XII.

_Flores de Liz._

A origem dos Lirios nos Escudos, parece que se tomou do successo delRey de França Clodoveo,[120] o qual antes que se bautizasse, dizem que trazia no Escudo huns Sapos, depois que se bautizou, lhe appareceo hum Anjo com huns Lirios de Açucena na maõ, a que os Franceses chamaõ Flor de Liz; e lhe mandou, que tirados os Sapos, puzessem por insignias aquellas Flores. Saõ os Lirios hieroglyphicos da perfeiçaõ, da pureza, e da esperança do bem publico, como mostra largamente Pierio Valeriano nos seus Hieroglyphicos;[121] e por ser a mais fermosa Flor de todas, he Nosso Senhor nos Cantares comparado a ella. E no Evangelho disse Christo, que nem Salamaõ em toda sua gloria se vestira taõ ricamente, que chegasse à belleza de hum Lirio. Por estas razoens tomaraõ muitos Cavalleiros as Flores de Liz por armas, e as deixaraõ a seus descendentes, como foraõ os Albuquerques, os Gouveas, &c. Os de Faria trazem as Flores de Liz sobre o Castello, por quanto em cima do monte, donde o Castello de Faria està, permanece ainda hoje huma Igreja antiga de grande devoçaõ, e romagem, que chamaõ Nossa Senhora da Branqueira, a qual fundaraõ alli huns Monges Bentos, que foraõ os primeiros, que de França vieraõ a Portugal; e alli tiveraõ hum celebre Mosteiro, e por serem estes Monges Francos, e de França, puzeraõ nas armas Flores de Liz Francesas. Os de Miranda tambem trazem Flores de Liz Francesas no vaõ da Aspa, a razaõ he, porque se prezaõ de virem de huma Senhora da Casa de França, cuja figura trazem por timbre do Brazaõ numa imagem de Donzella, e em sua memoria puzeraõ tambem os Lizes Franceses no Escudo.

As mais Familias, que trazem Flores de Liz, saõ: Aldana, Atouguia, Borges, Carrilhos, Casal, Frasoens, Guedes, Leytes, Toronhas, Madureira, Maldonado, Marinhos, Martines, Matta, Motas, Moitinhos, Pavias, Rangeis, Reymondo, Rodrigues, Soares de Toledo, Travaços, Varejola.

§. XIII.

_Castellos._

Os Castellos saõ antigas divisas das mesmas terras, como se pòde ver largamente na Noticia dos Imperios. Pelo que os mais dos Alcaides, e Senhores, que os tiveraõ por solares, ou os tinhaõ a seu cargo, os tomaraõ por armas. As Familias, que os trazem em Portugal, saõ Alcacevas, Asturias, Barrigas, Benambia, Berredos, Botos, Cameras, Carvalhosa, Castilhos, Celemas, Correlhas, Cotifer, Coutos, Esparragosa, Farias, Frias, Flores, Giroes, e huns Guzmaens com arminhos, por virem dos Duques de Bretanha, que os trazem por armas; ainda que outros trazem Caldeiras de Ricos homens, Horta, Larzedos, Malafaya, Menagem, Mouras, Pinas, Rolins, Saldanhas, Sobrinhos, Tangere, Ternate, Vellez, Vellosos, Zusarte.

§. XIV.

_Cifras dos Appellidos._

As insignias mais ordinarias de todas as armas de Espanha saõ a cifra do mesmo Appellido, como confessa Argòte de Molina l. 1. 42. & 43. aonde diz, que os Reys de Leaõ tomaraõ por armas hum Leaõ, como cifra do titulo de seu Reyno de Leaõ, e os de Castella hum Castello. E assim vemos em quasi todos os Appellidos, que significaõ algum sinal, ou instrumento, os daquella linhagem tomarem por armas a mesma figura do Appellido. Os que trazem em Portugal nos Escudos por armas as peças, que significaõ os Appellidos, por cifra, saõ as seguintes. Os de Abreu, ou Avreu, os Cotos de aves; Alvernazes, ramos de Carapeto, alludindo ao verde perpetuo de Veraõ; os de Arco, o arco; os de Agumias, gumiz; os de Aguiar, aguias; os Aranhas, huma aranha; os de Azinhal, azinheira; os Azambujas, hum azambujeiro; os Bacellares, huns bacellos verdes; os do Appellido de Badajoz, a Imagem de S. Joaõ Bautista com a mesma Cidade na maõ, que tomaraõ, por a Sè de Badajoz ser do orago de S. Joaõ Bautista, e ser o Castello a Cidade; Bayaõ, cabras, por haverem sido Senhores de Cabriz; os de Belliagua, as aguas; Bicudo derivado de pecudum, que he gado, hum carneiro; Biscaya, as armas de Biscaya; Biveiro, Caldeiras de Ricos homens; Borreco, borregos; Botilher, humas botelhas; Brandoens, brandões; os Caceres trazem huma palmeira, que he insignia de vitoria; porque ainda que a parte delRey D. Pedro, que seguiraõ, ficou vencida, e elles foraõ desterrados de Castella, ficaraõ com a vitoria de se naõ sogeitarem à parte contraria, e conservando sua lealdade. Tambem se trazem as folhas de Golfaõ, por sinal da vitoria do campo, onde se deu a batalha, como se vè nos Furtados, Montoyos, e Taveiras; Cabral, cabras; Caldeiras; Camoens a serpente, que Cadmo matou, por se prezarem de descenderem delle; Çapatas, humas çapatas; os Cardosos, cardos; os Carneiros, carneiros; Carrascos, hum carrasco; Carvalhaes, hum carvalho, Carvoeiro, matta para carvaõ; Carvalhos, carvalho; Cerveiras, cervas, Chacins, os arminhos por antiphrasi; Chaves, chaves; Cirnes, hum cirne; Coelho, coelhos; Cordovil, oliveira cordovil; Cordeiros, cordeiros; Corvachos, corvos; Costa, costas; Correa, correas, Cotas, huma cota de armas; Couros, a serpe assim chamada, Cogominhos, Chaves, por terem por solar esta Villa, e haverem sido seus Alcaides Mòres; Cunha, cunhas; os Delgados, hum limoeiro com huns limoens de ouro, alludindo à celebre Albergaria de Payo Delgado, que fundaraõ em Lisboa no sitio do Limoeiro; Dragos, dragos; Evangelhos, as figuras dos quatro Evangelistas; Fagundes pelo solar de Chaves, trazem chaves; Farinha, bolos de farinha; Fialhos, tres mundos, alludindo à palavra: _Fiat lux_; Figueira, humas figueiras; Figueiredo, folhas de figueira; Fogaças, duas fogaças; Fragosos, que; em latim se chamaõ: _Fulgosos_, tres Soes resplandecentes; Galvaõ, hum gaviaõ. Gaviaõ, huns gavioens; Garcez, garça, Gatachos, e Gatos, huns gatos, os Guantes trazem manoplas (que saõ guantes) de prata; Lagartos, lagartos; Lagos, huma torre com huma ribeira ao pè; Lançoens, Lançoens: Laras, caldeiras de Ricos homens: e do mesmo modo os Manriques: Lobatos, lobos, Lobeira, lobos: Lobia, cordeiros, por ser a relè dos lobos: Lobos, lobos: Lousadas, as lousas dos lagartos: Lucenas trazem hum Sol, alludindo ao nome da luz, da qual he o Sol a fonte: Lucio, o peixe lucio: Lunas, humas luas, Machados: Mattos, matta com leoens: Moraes, amoreira, Monteiros, cornetas de montaria: Nabaes, e Novaes, novellos. Oliveiras, oliveira: os de Ortiz trazem hum Sol, pela equivocaçaõ de _Ortus_, que por antonomasia, quer dizer o nascimento do Sol, e pela allusaõ do verso do Psalmo: _Ortus est sol_: Pachecos, caldeiras de Ricos homens: Padilhas, humas paz, Paçanhas, huma banda vermelha com dentes de Serra pelo solar em Genova se chamar Penha, ou Serra roxa, que em nossa linguagem he vermelha: os Pedrosos, cinco pedras em aspa: Perdigão, perdigoens: Perestrellos, estrellas: Pinheiros, pinheiros: os Porras, humas cachaporras: os Puges, humas espòras quasi pungentes, ou picantes: Rego, rego: Ribafria, Castello sobre ribeira: Ribeiros, ondas, Sardinhas, hum ribeiro de sardinhas: Rio, e Rios, faxas de agua: Sarmento, huns sarmentos: Seixos, Pombas seixas: Serniches, humas serras: Serpas, Serpe: os Sylvas, a sylva: Tavora, o rio Tavora: Torquemadas, huma torre abrazada: Tourinhos, touros, Sodres, _quasi sobrij_, e temperados, tres gomiz: Trigueiros, espigas: Vasconcellos, as ondas dos ribeiros, por descenderem delles: Segurados, cinco machadinhas; que os latinos dizem _Securis_: Torres, torres: os Correas da Sylva trazem huma pelle de Leaõ, alludindo ser propria morada de Leaõ a sylva, confórme aquillo da Escritura.[122] _Hereditas mea, quasi leo in sylva_: e que de pelles de Leoens saõ as suas correas.

§. XV.

_Descendencia._

Muitas Familias tomaraõ as armas daquella Casa, e Familia donde tiveraõ seu tronco, de que podem ser exemplo as que descendem dos Reys.

Os de Sousa trazem as Quinas Reaes, por casar D. Gonçalo de Sousa com Dona Urraca Sanches, que era sobrinha delRey D. Afonso Henriques; e assim mesmo o Leão, por descenderem de hum filho bastardo delRey D. Fernando o Grande de Leaõ, que foy o primeiro de Castella.

Os Sylvas trazem o Leaõ por armas, por serem descendentes delRey D. Afonso de Leaõ, pay que foy de D. Rodrigo Afonso da Sylva, cuja mãy era Dona Aldonça Martins da Sylva, como refere o Conde D. Pedro tit. 58. §. 2. das suas Linhagens.

O mesmo Leaõ trazem tambem os Telles, por serem descendentes de huma filha delRey D. Ordonho de Leaõ.

Os Limas trazem o mesmo Leaõ, por serem descendentes de huma irmãa delRey D. Afonso Henriques, filha da Rainha Dona Theresa, e neta delRey D. Afonso VI. de Leaõ, e Castella, como se refere na 3. p. da Monar. Lusit. l. 9. c. 23.

Pela mesma causa trazem os Albuquerques as Armas Reaes, por descenderem de hum filho bastardo delRey D. Diniz.

Os de Eça como descendentes delRey D. Pedro de Portugal trazem as Armas antigas Reaes com os cordoens, como as trouxeraõ os primeiros Reys deste Reyno.

Assim mesmo os Noronhas, e Henriques por serem descendentes de D. Afonso, filho natural delRey D. Henrique o Nobre Rey de Castella, e Dona Isabel filha natural delRey D. Fernando de Portugal, trazem o Escudo quarteado das Armas de Portugal, e Castella.

Os Senhores da Casa de Bragança atè o Duque D. Gemes, e os que delles descendem, que saõ os Duques de Cadaval, os Condes de Vimioso, de Odemira, os de Fàro, e os do Vimieiro trazem as Armas de Portugal em Aspa, por descenderem delRey D. Joaõ I.

Os Lancastres trazem as Armas de Portugal, por descenderem delRey D. Joaõ II.

Os Manoeis, ou de Vilhena, como descendentes do Infante D. Manoel, filho delRey D. Fernando o Santo de Castella trazem as Armas, que o mesmo Infante tomou, que foraõ hum Escudo quarteado, numa parte hum Leaõ, que significa o brazaõ dos Reys de Leaõ, e noutra hum braço com huma aza, e na maõ huma Espada, que vem a ser a maõ de hum Anjo, alludindo a sua mãy, que era descendente de Isacio Angelo Emperador de Constantinopla.

Os Lacerdas vem do filho mais velho delRey D. Afonso o Sabio de Castella, e por isso trazem as Armas de Castella, e Leaõ misturadas com as de França, que por sua mãy lhe pertenciaõ.

Os de Mendoça trazem o Escudo dividido em campo verde, e banda vermelha, em cada parte hum S. negro; o Escudo verde tomaraõ do Cid Ruy Dias, de que muitos Authores affirmaõ, que os desta Familia saõ descendentes; o qual como consta do Conde D. Pedro, quando falla da batalha delRey D. Garcia, e D. Sancho sobre Santarem, refere que vendo ElRey de Castella hum pendaõ verde, disse, que tinha em sua ajuda o Cid, por ser muy conhecida esta divisa por sua, e os S. S. trazem por fuziz de cadea, como descendentes dos Furtados de Mendoça, que em Castella trazem sobre o Escudo as cadeas, que tomaraõ no rompimento da batalha das Navas de Tolosa, e as folhas de golfaõ por outra grande vitoria, que alcançaraõ, tomando por armas estas hervas do campo, como refere Argòte de Molina l. 2. c. 110. da Nobreza de Andaluzia.

Os Vasconcellos descendem dos de Ribeira, os quaes tomaraõ por armas as ondas, alludindo à Ribeira. E como os Vasconcellos succederaõ no Senhorio grande dos Ribeiros, e seu illustre sangue, trouxeraõ tambem suas armas.

Os de Alvarenga trazem as mesmas, por serem descendentes dos Vasconcellos.

Os Barbudos pela mesma razaõ.

Os Barretos tomaraõ as armas dos Arminhos, por serem descendentes dos Senhores de Chacim, que foraõ Fidalgos muito principaes deste Reyno; os quaes por contraposiçaõ do nome do solar, que tinhaõ de Chacim, que quer dizer porco, por denotarem sua pureza em toda a materia contra a immundicia do porco, usaraõ de arminhos no Escudo, que saõ os animaes, de quem faz mençaõ Plinio l. 8. cap. 37. que saõ brancos como neve; e delles se diz, que estimaõ tanto a brancura de seu pello, que se lhe cercaõ o lugar, onde se recolhem, de lodo, ou cousa, com que se possaõ manchar, se deixaõ antes prender do caçador, que ficarem sujos. Donde nasceo a celebre empresa: _Malo mori, quam fædari_. Tomaraõ os Barretos estas armas dos Chacins, por descenderem de Nuno Martins de Chacim, e de Dona Maria Rodrigues Chacim sua filha, com quem casou Martim Fernandes de Barreto, como consta do Conde D. Pedro tit. 39. §. ult. Os Arminhos dos Castanhedas, Botetos, Gayos, e Goyos procedem da mesma descendencia.

Os Fonsecas trazem por timbre hum Bezerro, por descenderem dos Bezerras de Castella, como consta do Conde D. Pedro tit. 66. §. 3.

Os Peixotos trazem por timbre hum Corvo por descenderem de Mem Corvo Alcaide Mòr de Lanhoso, Fidalgo muy conhecido nos tempos antigos; por quanto Joaõ Vaz Peixoto casou com D. Guiomar Annes neta de Mem Corvo.

Os Resendes trazem duas Cabras por armas, por descenderem dos Senhores de Cabriz.

Os Palhas trazem as armas dos Almeidas, por descenderem delles.

§. XVI.

_Armas tomadas por casos particulares._

Pertenderaõ os Emperadores de Alemanha, que todos os Reys de Europa se reconhecessem por seus vassallos; e havendo em Roma hum Cavalleiro Alemaõ, que pelas armas defendia este Direito, segundo o Conde D. Pedro conta,[123] D. Sueiro Mendes da Maya o Bom entrou com este Alemaõ em desafio, e vencendo-o libertou o Direito de Hespanha do feudo, que pertendia o Imperio. E dizem os de Amaya seus descendentes, que por este caso tomàra D. Sueiro por armas a Aguia negra do Imperio, que era a que o Cavalleiro Alemaõ defendia.

Conta o Conde D. Pedro no tit. 64. em que falla na Familia dos Valles, que Martim do Valle, chamado da Espada, servindo a certo Conde, outro Conde seu inimigo o matou; e Martim do Valle tomando a espada do Conde seu amo, lidou com o matador, e o matou, donde dizem seus descendentes, que trazem por armas as tres espadas, que saõ a sua, a do Conde seu amo, e a que tomou ao Conde, a quem elle venceo; e por isso foy chamado o da Espada.

Os do Appellido Corte Real trazem sobre as armas dos Costas huma Cruz branca, que dizem ganhàra Vasque Annes Corte Real a hum Cavalleiro, que viera pedir desafio à Corte delRey D. Duarte; e porque o venceo com grande valor, dizem, que disse ElRey, que a sua Corte era Real, quando Vasque Annes estava nella; e daqui tomou elle o Appelido, e o accrescentamento da Cruz nas armas.

Quando ElRey D. Afonso V, passou a Africa a tomar Arzilla, o acompanharaõ cinco Irmãos da Familia dos Pimenteis naturaes de Villa Real; e como sendo entrada a Cidade, os Mouros se fizessem fortes na Mesquita, donde faziaõ grande resistencia, sem poderem ser entrados: estes irmaõs, tirando os cintos, e atados huns nos outros, os lançaraõ a huma ameya, e sobindo por elles acima, levantaraõ huma bandeira, e por alli foy entrada a Mesquita, e mortos os Mouros. Por este feito taõ honrado, lhe deu ElRey D. Afonso V. por armas em campo de ouro cinco cintos vermelhos com fivellas de prata, e tachoens, e huma bordadura azul com sete Flores de Liz, por timbre hum meyo Mouro com huma azagaya na maõ, e huma bandeira de prata, e por Appellido o mesmo nome de Mesquita.

Estando o nosso Exercito sobre Tangere, veyo hum Mouro a fazer grandes algazares, e pedir desafio, ao qual sahio logo Gabriel Gonçalves Themudo, e correndo com a lança, o derrubou do cavallo abaixo, e lhe cortou a cabeça, e appresentando-se com ella diante delRey D. Afonso, lhe deu em memoria por armas huma Aguia de duas cabeças, com huma cabeça de Mouro aos pès, e cercado o Escudo com hum cordaõ de S. Francisco; por haver acontecido em seu dia este valeroso successo.

Gonçalo Pires Bandeira, naõ só se houve na batalha do Touro com grande valor, mas vendo, que hum Cavalleiro Castelhano levava presa a bandeira Real de Portugal, investio com elle, e lha tomou das maõs, e a libertou;[124] e por este feito insigne ElRey D. Joaõ II. lhe deu por armas huma bandeira branca com hum Leaõ nella de prata, denotando na bandeira a Real, que libertàra, e no Leaõ o valor, e esforço, que neste caso mostràra. E assim lhe deu tambem o appellido de Bandeira, com que hoje seus descendentes se nomeaõ.

Fernaõ Gomes natural de Lisboa, se obrigou a ElRey D. Afonso V. a continuar o descobrimento da Costa de Africa, que tinha começado o Infante D. Henrique.[125] E porque comprio este intento com grande diligencia, e descobrio a Mina, donde veyo tanta copia de ouro a Portugal, lhe deu ElRey D. Joaõ II. o Appellido de Mina, e por armas hum Escudo em campo de prata, e nelle tres meyos Ethyopes de preto dos braços para cima em roquete, com colares de ouro ao pescoço, arrecadas nas orelhas, e nos narizes.

Diogo Caõ Capitaõ de valor hindo por mandado delRey D. Joaõ II. descobrir a Costa de Ethyopia, foy o primeiro, que deu noticia do Rio Zaire, em cuja boca poz hum padraõ; em razaõ do qual se chamou tambem Rio do Padraõ, e foy o primeiro, que descobrio o Reyno de Congo, e deu noticia de nossa Santa Fè àquelle Rey.[36.] Em memoria deste feito lhe deu ElRey por armas duas Colunnas, ou Padroens de prata com duas Cruzes em cima pelas que poz neste descobrimento, em que chegou atè o Cabo da Boa Esperança.

Depois que o grande Vasco da Gama veyo do descobrimento da India, entre outras merces, que ElRey D. Manoel lhe fez em remuneraçaõ de taõ heroico feito, foy huma, que elle podesse trazer no meyo de suas armas as Quinas Reaes de Portugal;[126] porque assim como com este descobrimento se accrescentava o Reyno de Portugal por aquella parte do Mundo de Asia, assim era razaõ, que quem abrira caminho a este novo senhorio de Portugal, participasse das Reaes insignias delle.

Vasco Fernandes Cesar andando guardando o Estreito com huma Caravella, lhe sahiraõ seis Galeòtas de Mouros, que apartadas em duas alas o investiraõ, porèm elle com incrivel valor as venceo todas.[127] Pelo que ElRey D. Joaõ lhe mandou accrescentar ao Escudo de suas armas as seis Galeòtas, e a sua, com que elle venceo, por Timbre do Escudo.

Em hum socorro, que ElRey D. Manoel mandou a Arzilla, foy Christovaõ Leitaõ por Capitaõ de Infantaria, onde por seu esforço, e industria defendeo huma Torre, que quasi os Mouros tinhaõ entrada. Pelo que ElRey D. Manoel lhe concedeo, que sobre as armas dos Leitoens posesse a Torre de Arzilla encravada de settas em campo vermelho, e em outro quarto duas bombardas, que tomàra aos Mouros.

Nicolao Coelho foy hum Fidalgo de grande valor,[128] a quem ElRey D. Manoel deu a Capitanîa dum Navio, para hir em companhia do Grande Vasco da Gama a descobrir a India, no que elle se houve com grande esforço, e prudencia; e quando voltou, chegou primeiro a Cascaes, que Vasco da Gama. E por elle soube ElRey todo o succedido naquelle descobrimento. Pelo que entre outras mercès, que ElRey D. Manoel lhe fez, lhe deu por armas em campo vermelho hum Leaõ rompente entre duas colunnas de prata, que estaõ sobre huns montes verdes, e em cima de cada huma, hum Escudo com cinco dinheiros, e ao pé o mar; no que significou os padroens, que deixou postos no novo descobrimento do mar, e terra do Oriente; e no Leaõ o valor, com que neste heroico feito se houve.

Levantando-se o Rey de Barem contra ElRey de Ormuz, cujo tributario era, foy mandado Antonio Correa por Capitaõ da nossa gente, para que reduzisse o Mouro à obediencia delRey de Ormuz.[129] Antonio Correa se houve nesta empreza com tanto valor, que tendo o Rey de Barem muita mais gente, elle o desbaratou, e matou, e senhoreando-se da Ilha, a restituhio a ElRey de Ormuz. Por este heroico feito lhe deu ElRey o Appellido de Barem, e lhe acrescentou nas armas huma cabeça de hum Rey Mouro coroada, cortada em vermelho com a Coroa de ouro.