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Part 10

Chapter 103,766 wordsPublic domain

Hà neste Reyno cinco gràos de Nobreza, segundo a Ord. l. 5. t. 139. o primeiro, saõ os Vassallos, que tem cavallos, o segundo os Escudeiros, o terceiro os Cavalleiros, o quarto os Fidalgos de Cotta de armas, e geração, que tem insignias de Nobreza, o quinto he dos Fidalgos, que tem assentamentos, e foro na Casa delRey. Entre estes tambem hà diferença; porque as leys do Reyno fazem mençaõ de tres generos de solares, que saõ solar conhecido, solar com jurisdicçaõ, e solar grande. Os de solar conhecido, segundo o Doutor Antonio Francisco,[92] saõ aquelles, que tem a Nobreza dos Avòs, e Bisavòs; de modo, que senaõ pòde pòr em duvida ser o tal Appellido Nobre, e de fidalguia antiga. Os de solar com jurisdicçaõ saõ os Senhores de terras, que por doaçaõ Real as possuem, e governaõ com suas jurisdicções. Os de solar grande, saõ os Duques, Marqueses, Condes, Viscondes, e Baroens de Titulo, que saõ verdadeiramente Grandes, e por esta causa os chama a Ordenaçaõ Fidalgos de grande solar. Os Reys deste Reyno fizeraõ sempre tanto caso da Nobreza, que só della se serviraõ, assim nos cargos de Estado, como nos da Justiça, Fazenda, e Milicia; e no serviço da Casa Real naõ saõ admittidos senaõ os Nobres.

§. II.

_Da origem dos Appellidos dos Nobres de Portugal._

Os nomes foraõ inventados entre os homens para distincçaõ delles, porèm crescendo o numero da gente, e faltando nomes singulares para cada hum, vieraõ a ser muitos homens de hum mesmo nome. Pelo que para evitar confusaõ, acrescentaraõ os sobrenomes, ajuntando o nome dos pays aos seus, e por isso se chamaraõ patronimicos; destes usaraõ mais os Gregos, que os Romanos; mas nem por isso tiveraõ os Latinos menor numero de nomes; porque muitas vezes tinha hum homem quatro nomes, que eraõ prenome, nome, cognome, e agnome. Exemplo disto seja Quinto, Fabio, Maximo, Ovicula. O primeiro podemos hoje chamar nome proprio, o segundo sobrenome da Famillia, o terceiro Appellido, e o quarto tambem Alcunha.

Com o Imperio Romano entraraõ em Espanha seus costumes; e assim usaraõ desta fórma de nomes, como se vè largamente das historias latinas. Porèm vindo os Godos, e extinguindo quasi de todo os Romanos nella, se tornaraõ a introdusir os nomes proprios singulares sem sobrenomes alguns, que duraraõ atè a entrada dos Arabes, depois da qual se começaraõ a usar os patronimicos, Dias, Esteves, Fernandes, Gonçalves, &c. que se derivaraõ de Diogo, Estevaõ, Fernando, Gonçalo. Porèm naõ foy isto bastante para os homens poderem ser conhecidos; porque de hum pay procediaõ muitos filhos, e de todos tomavaõ o mesmo patronimico. Pelo que ordenaraõ tomar por Appellido os nomes das terras donde viviaõ, ou donde eraõ naturaes, como fizeraõ neste Reyno os de Beja, Castello-Branco, Chaves, Santarem, e outros, mas o mais ordinario foy tomar cada hum o nome da terra, onde tinha senhorio, ou alguma jurisdicçaõ. E tanto he isto assim, que mostra o Bispo D. Prudencio de Sandoval, que Alvar Fanhes famoso Cavalleiro em tempo do Emperador D. Afonso VII se chamou de Çurita, quando a teve a cargo, e de Toledo, quando o fizeraõ Alcaide daquella Cidade.

O mesmo se affirma das Familias de Aragaõ; e daqui vieraõ os Appellidos de muitas linhagens, indose depois continuando em seus successores. A estas terras chamavaõ Solares, derivando o nome da palavra latina _solum_, que quer dizer terra, e assento, donde o homem està. Edificaraõ aqui estes Fidalgos suas torres, e casas fortes donde viviaõ; assim para se defenderem dos rebates dos Mouros, como por ser este modo de edificar casas fortes no campo, proprio das naçoens do Norte, como ainda hoje se vè em toda França, Alemanha, e Inglaterra. Pelo que neste Reyno se naõ concedia licença para fazer estas torres, e pòr ameas nellas, senaõ a pessoas illustres; como parece das que estaõ registadas nos livros das Chancellarias dos Reys antigos. Destes Solares, e torres hà ainda muitos neste Reyno, como saõ os de Abreu, Ataide, Bayaõ, Britto, Carvalho, Cunha, Faria, Goes, Lima, Nobrega, Pereira, Sampayo, Sousa, Sylva, Vasconcellos, e outros muitos, donde estes Appellidos tiveraõ seu principio.

Alèm dos Solares se tomaraõ tambem outros Appellidos de alguns feitos assinalados na guerra, como fizeraõ os Bandeiras, Machados, Mouras, Menagens; e outros os tomaraõ das Provincias, que descobriraõ, ou sojeitaraõ, como os Baharens, Minas, Camaras; outros da Casa Real donde descendem, como saõ neste Reyno os de Aragaõ, Lancastres, Portugal.

Tomaraõ-se tambem os Sobrenomes de Alcunhas, que se poseraõ a varios homens de animaes da terra, peixes, e aves, assim como Perdigaõ, Pegas, Falcaõ, Touro, Coelho, Raposo, Sardinha, Salema. Das cores, como os Pretos, Trigueiros, Morenos. De alguma qualidade do corpo, como Barrigas, Calvos, Delgados, Feyos, Magros, Pestana, Velhos, Unhas. Outros de instrumentos, como Caldeiras, Calças, Correas, Lemes, Pontes. Outros de arvores, hervas, e flores, como os Figueiras, Oliveiras, Pinheiros, Moreiras, Carvalhos, Flores, Rosas, Carrascos. E assim outros. Estas saõ as origens, a que se reduzem todos os Appellidos, que hoje hà neste Reyno, como particularmente em cada Familia veremos. E porque os Appellidos saõ os sinaes hoje da descendencia das familias, e nobrezas dellas, foraõ os Reys deste Reyno taõ desejosos de cada linhagem conservar o seu, que sabendo ElRey D. Joaõ o II. que Simaõ Gonçalves da Camara, filho herdeiro do Capitaõ da Ilha da Madeira Joaõ Gonçalves da Camara se chamava Simaõ de Noronha, que era o Appellido de sua mãy, lhe mandou dizer, que logo se chamasse do Appellido de seu pay; pois havia de herdar a sua casa, senaõ que passaria a successaõ della a Pedro Gonçalves da Camara seu irmaõ.[93] Ao que Simaõ Gonçalves obedecendo, lhe foy bejar a maõ pela mercè. Porèm ElRey D. Manoel procedeo nisto mais rigorosamente, porque mandou nas Ordenaçoens com penas gravissimas, que ninguem tomasse o Appellido de nenhuma familia, que lhe naõ pertencesse; e o mesmo se ordena na ultima reformaçaõ, que se fez das leys deste Reyno.

§. III.

_Das origem das Armas, que trazem os Fidalgos, e Nobres de Portugal._

As insignias militares foraõ inventadas para distinguir as companhias dos Exercitos. De maneira, que conhecendo cada soldado a sua bandeira, ainda que nas batalhas se desordenassem as Cohortes, podessem acudir a ellas, e com facilidade recuperar seu lugar. Para este effeito usou Romulo do Manipulo, e depois se introdusiraõ, o Lobo, Aguia, Minotauro, e Javali, que os Romanos trouxeraõ por insignias, como os Assyrios a Pomba, e a Lua os Egypcios, os Bizancios o Cacho de uvas, os Thebanos a Tartaruga, os Africanos a Espiga; e assim outras varias cousas. Porèm os soldados particulares costumavaõ trazer os escudos brancos, atè que faziaõ algum feito insigne, cuja historia pintavaõ nelles, ao qual costume alludio o Poeta,[94] quando disse de Heleno.

_Ense levis nudo, parmaque in glorius alba, &c._

E o Satyrico significa pelo mesmo termo ter sahido da idade juvenil, dizendo:[95]

_Permisit sparsisse oculos jam candidus umbo._

Estas pinturas dos escudos eraõ varias, e naõ ficavaõ depois a filhos; posto que algumas vezes, quando o predecessor era muy insigne, usavaõ seus descendentes da tal figura, como empreza, segundo se vè de Virgílio,[96] fallando de Aventino filho de Hercules.

_Clypeoque insigne paternum Centum angues, cinctamque gerit serpentibus hydram._

Entre os Romanos usava a Familia dos Torcatos do collar de ouro, e os Cincinnatos da cabelleira, porèm naõ como armas, porque como consta de toda a historia latina, as armas das Familias Romanas foraõ as imagens, e estatuas de seus mayores, que tinhaõ nos pateos à entrada das casas.

§. IV.

_Da origem dos Leoens, e Aguias, e outros animaes, que se trazem nos escudos._

Depois que entrou o governo dos Cesares, e foy necessario accrescentarem-se os Exercitos, e havellos sempre nos confins do Imperio, multiplicando-se as Legioens, foy necessario dar-lhes tambem novos nomes, e insignias. E como os Romanos estavaõ ja mais polidos, naõ escolheraõ estes nomes, e sinaes a caso, mas com muita consideraçaõ, denotando em cada hum delles algum bom pensamento. E porque cada Soldado fosse conhecido de que Cohorte era, mandavaõ, que logo nas officinas de armas, quando se faziaõ os escudos, lhe pintassem, ou esculpissem no meyo a mesma imagem da mesma Cohorte, e pela parte de dentro escreviaõ o nome do Soldado, e a Cohorte, e Centuria, de que era. Tudo isto diz claramente Vigecio nestas palavras:[97] _Ne milites aliunde in prælii tumultu à suis contubernalibus aberrarent, diversis cohortibus diversa in scuto signa pingebant, quæ ipsi nominant pegmata; sicut etiam mori est fieri. Præaterea in averso uniuscujusque militis erat nomen adscriptum, addito, ex qua essent cohorte, & ex qua centuria._ E Claudiano[98] allude ao mesmo, dizendo da Legiaõ invicta.

_------Nomenque probantes Invicti, clypeoque animosi teste leonis._

Deste costume diz Guido Pancirolo[99] se introduziraõ as armas, que agora temos. Porque vindo depois a professarem a Milicia os filhos, e netos dos mesmos Capitaens, e Soldados, usavaõ sempre das proprias insignias, e depois que se perdeo o Imperio Romano, se ficou continuando o mesmo uso, pondo segundo aquella imitaçaõ cada hum no Escudo o animal, ou figura que melhor lhe parecia, denotando sempre com estes hieroglylphicos alguma cousa de valor, constancia, ou virtude, por onde se alcança a honra militar. E assim daqui nasceraõ os Leoens, as Aguias, os Touros, Serpentes, que trazem as Familias de Europa, e particularmente as deste Reyno. As que usaõ de Leoẽs nos Escudos, saõ as seguintes.

Achiolis illustres Florentinos, que vieraõ povoar a Ilha da Madeira, e dahi passaraõ a este Reyno, Alvos, Arnaos, ou Ernaos, Barrosos, Betancor, Britos, Cayados, Campos, Castelobranco, Cerqueira, Chanoca, Conestagio, Esmeraldos, Frótas, Galhardos, Gamboa, Giraldes, Gondim, Gramaxo, Gravas, Groymis, Morel, Neto, Ossem, Pains, Pò, Ribeira, Rolaõ, Salvagos, Santarèm, Serraõ, Simoens, Toscanos, Valladares, Valentes, Unhas, Vogados.

As que trazem aguias saõ: Abul, Abreu, Azevedos, Botados, Bovadilha, Carregueiro, Serrabodes, Coroneis, Correaõ, Dagraã, Guivar, Jacome, Lemes (Marletas sem pès) Maciel, Medeiros, Montarroyos, Ourem, Penha, Proença, Rodrigues, Sampayo, Tinoco, Villanova.

As que trazem Serpes, saõ, Alfaros, Brandoens de Inglaterra, Covas, Dragos, Mendaos, Moutinhos, Rebaldos, Roboredos, Regras, Serpes, Villasboas.

As que trazem Lobos, saõ, Ayalas, Haros, Lobos, Villalobos.

As que trazem outros animaes, saõ: os Carreiros hum Gatto caçando, os Garros huma Onça, os Leoens entre sete Estrellas dous libreos negros armados de prata, alludindo à fidelidade destes animaes, os Osorios dous Touros, os de Valdés hum Elefante.

§. V.

_Da origem das Faxas, Bandas, Barras, e Escaques, que se trazem nos Escudos._

As Barras, Faxas, Bandas, e escaques, tiveraõ origem dos Alemaens, que como affirmaõ alguns Authores, costumavaõ trazer listrados os Escudos de cores, e se prezavaõ muito disto. E senhoreando-se estes das Provincias do Imperio, introduziraõ seus costumes nos povos, que sojeitaraõ; e como com elles se acabaraõ as boas artes, foy facil por falta de Pintores, usarem os Soldados nos Escudos daquellas bandas, e pinturas simplicissimas. Donde vem, segundo diz Scipiaõ Amirato, que as mais das Familias antigas tem em Europa estas insignias, como se vè nos Escudos das Faxas da casa de Austria, das Bandas de Borgonha, Barras de Aragaõ, e Escaques dos Duques de Nivers. Isto se confirma com a authoridade de Cornelio Tacito no segundo dos Annaes,[100] que diz dos Escudos dos Alemaens, que eraõ humas taboas de pintura simples: _Tenues, & sucatas colore tabulas_. E no livro de Moribus[101] Germanorum refere, que pintavaõ os escudos com varias cores: _Scuta tantum lectissimis coloribus distinguunt_. Pelo que conclue Scipiaõ Amirato,[102] dizendo que destas simples pinturas argue a antiguidade das armas: _Onde io_, diz elle, _sono indotto a credere quello che etiamdio volgarmente vego dalcune a ser tenuto, che quanto le arme sono piu simpleci, piu sieno antiche, &c_. Destes principios se pòde conjeturar, que tenhaõ origem as armas de muitas Familias de Portugal, que trazem Faxas, Bandas, Barras, e Escaques.

Faxa he hum listaõ entre duas linhas, que atravessa o Escudo ao largo. As Familias, que trazem Faxas, saõ: Almas, Avelar, Austria, Cio, Durmaõ, Escrocios, Ferreiras, Landins, Leitaõ, Mascarenhas, Matela, Mexia, Pamplonas, Pedrosos, Pestanas, Rebellos, Sylveiras, Vargas.

Banda he hum listaõ entre duas linhas, que atravessa o Escudo de canto a canto.

As que trazem Bandas, saõ Almadas, Albernoses, Ataides, Azambujas, Azeredos, Barbato, Barbosas, Bardes, Bairros por Bandas tres troncos, Barreiros, Barros, Belchiras, Bembos, Beringes, Bivares, Botelhos, Bracamonte, Calados, Caminha tres bastoens de prata em Banda, Canto, Carvalhaes, Castanhedas, Çuniga, Feijòs, Feyos, Frazaõ, Freyres de Andrade a Banda da Ordem Militar da Banda de Castella, de que foraõ Cavalleiros, Leys, Limpos, Lyra, Lordello, Mendanhas trazem huma cotta de armas passada com settas, Mouzinhos, Nogueiras, Ornellas, Pegados, Pegas, Privados, Quintal, Sandovaes, Tovar a Banda da Cavallaria da Banda, Varellas.

Barra he hum listaõ, que toma o Escudo de alto a baixo. As que trazem Barras, saõ: Aragaõ, Barrayola, Contreiras, França, Godinho, Guimaraens, Nobregas, Patalins, Patto, Refoyos.

Escaques he hum Escudo pintado com as casas do taboleiro do Xadrès, ou em parte, ou em todo.

As que trazem Escaques, saõ: Aboins, Alcaforado, Altro, Areas, Avinhal, Barbança, Barbuda, Bermudes, Buzios, Cotrim Dante, Espindola, Fafes, Folgueiro, Fuzeiro, Gamas, Godins, Magalhaens, Maracote, Negreiros, Pavia, Peixoto, Porto Carreiro, Pretto, Quadros, Raposos, Sà, Sandes, Severim, Souto Mayor, Toledo, Velasques, Utre, Xarce de Valença.

§. VI.

_Da origem das Cruzes Floreteadas, Cruzes da Cruzada, e de S. Jorge, que se trazem nos Escudos._

Depois da entrada dos Arabes em Hespanha, se começou a usar das insignias nos Escudos mais ordinariamente em tempo do nosso primeiro Rey D. Afonso Henriques, e de seu primo ElRey D. Afonso VII de Castella, como o mostra doutamente o Chronista Ambrosio de Morales,[103] e o Arcebispo D. Antonio Agostinho;[104] e por isso se pòde dar com razaõ principio às de Portugal des do tempo delRey D. Afonso Henriques para cà. E sendo certo, que em Castella, e em outras partes de Espanha se tomaraõ as Cruzes, Aspas, Luas, e Estrellas pelas occasiaõ da guerra, que naquellas Provincias ouve com os Mouros, podemos ter por conjectura provavel, e quasi certa, que nas que se offereceraõ neste Reyno semelhantes, se deu principio às que cà se trazem.

O primeiro, que pintou Cruz nos escudos, foy o Emperador Constantino, o qual depois, que lhe appareceo este divino sinal no Ceo, o mandou pintar nas bandeiras, e dahi nos escudos. E porque os Capitaens antigos eraõ muito pios, traziaõ os mais delles ordinariamente Cruzes por divisas. Disto temos em Espanha assás de exemplos; porque a primeira insignia, que tiveraõ os Reys de Aragaõ, foy a Cruz, e os primeiros Reys de Leaõ, que succederaõ a ElRey D. Afonso o Casto, a trouxeraõ tambem por armas; e do mesmo modo o Conde D. Henrique, que trouxe huma Cruz chaã. Daqui tiveraõ origem as Armas de Portugal, porque trazendo a mesma Cruz seu filho D. Afonso, depois que ganhou a batalha do Campo de Ourique, em memoria das cinco Chagas, com que Nosso Senhor lhe appareceo Crucificado, partio a Cruz em cinco Escudos, pondo dentro de cada hum trinta circulos, que denotaõ os dinheiros, porque Christo nosso Senhor foy vendido. Alèm disto para ficar lembrança da grande vitoria, que alcançara dos Mouros, atravessou quatro cordoens no escudo, dous em Cruz de meyo a meyo; e dous em aspa de canto a canto, fazendo de outro cercadura, e por todos elles pendurou muitos escudos; posto que quatro, que ficaõ dentro no escudo, e o do chefe da bordadura, saõ notavelmente mayores; e feitos a modo de adargas; estes parecem dos cincos Reys, que alli foraõ vencidos, e os mais seriaõ de outras pessoas principaes, ou dos que ElRey por sua maõ alcançasse. Esta me parece a origem, que tem estes escudinhos, e cordoens delRey D. Afonso, os quaes se vem nesta fórma, assim na sua sepultura em Santa Cruz de Coimbra, como em todos os seus privilegios, depois da batalha, dos quaes estaõ alguns no Cartorio do Cabido de Evora. Porèm D. Sancho I. despejou logo o escudo destes escudetes, como parece entre outros exemplos pelos cunhos dos seus maravidîs; hum dos quaes tenho de ouro do tamanho de hum tostaõ, no qual elle està esculpido de huma parte armado a cavallo com espada na maõ, e da outra os cinco escudos em Cruz, que nòs chamamos Quinas, e dentro em cada hum cinco dinheiros naõ mais.

Hà com tudo nas mesmas Cruzes, que se trazem por mais, varias differenças; porque humas saõ chaãs, como as de S. Jorge, outras floreteadas, como as de Aviz, outras com as pontas quadradas, como as da Cruzada, e finalmente outras feitas em aspa. As armas de Morimundo Convento Cisterciense eraõ huma Cruz floreteada;[105] quero dizer, era huma Cruz, cujos braços, e haste rematavaõ em flores de liz. E porque Calatrava foy de sua jurisdicçaõ, ficou à sua Ordem huma Cruz semelhante por armas; e depois a Alcantara, e a Aviz, por serem Ordens Militares, que lhe estiveraõ sojeitas.

Mas sem embargo disto dizem muitos Authores, que as Cruzes floreteadas, que se trazem nas armas em Espanha, tiveraõ principio da batalha das Navas de Tolosa, por huma semelhante, que appareceo no Ceo o dia da peleja, como diz largamente Gonçalo Argòte:[106] e posto que elle mostra isto mais propriamente dos Castelhanos, e Navarros, como seja certo, que de Portugal mandou ElRey D. Afonso II. grande socorro a ElRey seu primo D. Afonso IX. de Castella, consta que muitos Fidalgos Portugueses se acharaõ nella, assim por acudirem ao urgente perigo, que toda Espanha corria pelo grande poder dos Mouros, que contra os Christaõs vinha, como por mostrarem o valor de suas pessoas, para o que sahiaõ da patria a buscar semelhantes empresas, quando cà havia paz, e particularmente a Castella, como o testifica o Conde D. Pedro,[107] dizendo, quando trata da tomada de Sevilha: _Em aquel tempo os Fidalgos Portugueses hiaõ a Castella muitas vezes, por se provarem pelos corpos, quando em Portugal mesteres naõ havia, &c_. Destes foy hum o Conde D. Rodrigo Frojaz Pereira; e assim tomou por armas esta Cruz;[108] e o mesmo se pode entender dos Almadas, Albergarias, e Farinhas, que trazem estas armas, que provavelmente se deviaõ là achar, florecendo entaõ nestas Familias Cavalleiros de muito nome, como em suas linhagens se refere; o mesmo se pòde dizer das outras, que hà no Reyno.

As Cruzes da Cruzada tomavaõ por insignias os que hiaõ à Conquista da Terra Santa, e saõ como as de Christo; como se vè nos Cavalleiros Gaitanes de Castella, e cà as trazem os Pimenteis, e Teixeiras.

Outras Cruzes hà, como as de S. Jorge, que tomaõ os escudos de alto a baixo, e de ilharga.[109] Estas se introdusiraõ por devaçaõ do Santo, por ser advogado da Milicia, e particularmente o invocavaõ os Ingleses, e Portugueses nas pelejas. As que hà em Portugal desta fórma, parece se deviaõ tomar na batalha, que se deu em Alcacere do Sal aos quatro Reys Mouros, que o vinhaõ descercar;[110] porque antes da peleja viraõ os nossos no Ceo hum homem muy resplandecente com huma Cruz vermelha nos peitos; em memoria do qual he de crer, que os que presentes se acharaõ, tomaraõ por insignia este divino sinal na mesma fórma, em que lhes appareceo.

As Familias, que trazem Cruzes floreteadas, saõ: Alarcaõ, Albergaria, Leaõ, Meira, Meireles, Moreiras, Pereiras, Soares de Albergaria, Sisneiros.

As que trazem Cruzes da Cruzada, saõ Bulhoens, Gançoso, Pimenteis, Teixeira.

As que trazem Cruzes de S. Jorge, saõ Almeidas, Atouguia, Beja, Frades, Loja, Mello, Pào, Sarzildes, Veigas.

§. VII.

_Aspas._

As Cruzes em Aspa se trazem nas armas por devoçaõ de Santo Andre, como mostra Argòte[111] na Conquista de Baeça, a qual Cidade tomou no dia deste Santo Apostolo o Conde D. Lopo Dias de Haro com 500. Cavalleiros, que foraõ ao socorro do Castello, que os Mouros tinhaõ cercado, e em memoria do favor, que de Santo Andre receberaõ nesta taõ grande vitoria, pintaraõ todos as Aspas nos escudos, alèm das divisas, ou armas, que cada hum jà trazia. Os Navarros daõ esta mesma origem às Aspas, que muitas Familias daquelle Reyno trazem, posto que naõ conste pro historias, que elles se achassem neste feito. Pelo que com razaõ podemos entender, que as Aspas, que muitos Fidalgos deste Reyno trazem por armas, se tomaraõ por outro semelhante caso, que aconteceo na tomada de Beja, a qual foy recuperada pelos Christaõs vespera de Santo Andre com notavel esforço, por ser este hum dos mayores lugares, e mais fortes da Lusitania.

As Familias, que trazem Aspas, saõ: Araujos, Azevedos, Filippes, Gago, Guariços, Miranda, Palameque, Oroscos, Rochas. A Aspa dos Mirandas pòde ser pela razaõ jà dita, se naõ he em memoria do seu solar de Miranda, que està em Asturias, junto a Santo Andre.

§. VIII.

_Vieiras._

Conta D. Mauro Ferrer[112] na vida do Apostolo Santiago que trazendo os Discipulos do Santo seu Apostolico Corpo em hum Navio, quando hia para Galliza, se estavaõ fazendo na praya humas grandes festas pela celebraçaõ do casamento de hum principal Senhor da terra de Maya, e que o cavallo, em que andava, se meteo pelo mar atè chegar ao Navio; deixando suspensos a quantos o viaõ, e muito mais o Cavalleiro, por se achar todo cuberto de Vieiras a si, e ao cavallo; e dizendo aos Discipulos o que lhe tinha acontecido, elles lhe declararaõ, que com aquelle milagre quisera Nosso Senhor honrar o Corpo do seu Apostolo, e depois de o bautizarem, soou huma voz do Ceo, que disse como aquellas Vieiras haviaõ de ser a insignia do Santo: e tornando o Cavalleiro a terra com taõ grande milagre, foy occasiaõ da conversaõ de todos. O qual caso alèm de se contar no Santoral de Alcobaça, se confirma pelos versos de hum Hymno, que canta a Igreja de Oviedo a 25. de Julho, que diz assim.

_Cunctis mare cernentibus, Sed à profundo ducitur, Natus Regis submergitur. Totus plenas conchilibus._

Diz o Author, que daqui vem muitas Familias nobres de Hespanha trazerem por este caso Vieiras nas armas.

Por razaõ deste principio os Cavalleiros da Espada, que se dedicaraõ a Santiago, logo depois da grande vitoria de Clavijo, trouxeraõ nas bandeiras por sua devoçaõ as Vieiras, e ornaraõ com ellas os Templos, que ao Santo dedicaraõ. Pelo que como este glorioso Patraõ de Hespanha fosse o principal advogado dos Soldados, por devoçaõ sua tomaraõ muitos esta insignia. E assim tenho por muy provavel, que as Vieiras, que se trazem em Portugal, se tomaraõ da batalha do Campo de Ourique, por se alcançar esta vitoria vespera de Santiago, que por ser em tal dia, a deraõ os nossos com certa confiança de vencimento, e vendo que ElRey tomava armas novas por memoria deste feito, faria cada hum o mesmo.

As Familias, que trazem as Vieiras nos Escudos, saõ os Barbosos, Barrosos, Barradas, Calças, Calvos, Calheiros, Camelos, Màrizes, Pimenteis, Rochas, Seraiva, Sequeira, Velhos, Vieyras. Pela mesma devoçaõ de Santiago tomaraõ os Falcoens os Bordoens, que costumaõ trazer os Peregrinos do mesmo Santo.

§. IX.

_Meyas Luas._