Chapter 9
Um dia, Arthur Loureiro que tinha aberto ao publico a sua escola de pintura para senhoras, confiado no bom gosto que ultimamente se estava desenvolvendo entre as _madames_ para esta manifestaÁ„o de Arte, viu entrar-lhe pela porta dentro este rapaz chic, que perguntava se elle quereria dar-lhe algumas liÁıes de pintura. Loureiro immediatamente se promptificou a isso, mas sob condiÁ„o que elle deveria comeÁar por onde todos devem comeÁar, pelos rudimentos de desenho. SÛ n'essas condiÁıes o poderia acceitar como discipulo.
Accedeu o nosso amador immediatamente, pois farto estava elle de saber que o pouco que tinha estudado com um _soi disant_ de nada lhe valia e logo combinaram dar breve inicio aos seus trabalhos.
Ao principiar estas liÁıes, Manuel Lucio, vinha cheio de uma inegualavel boa vontade, um honroso desejo de vir a ser na pintura, alguma coisa mais, do que as habituaes vulgaridades, e por isso, pondo completamente de parte as noÁıes que recebera de um insignificante professor, que d'isso sÛ tinha o nome, pois emquanto ao resto era d'uma nullidade completa, todo elle se dedicou a estudar e a cumprir as instrucÁıes que Arthur Loureiro lhe ia dando.
E assim, foi desenhar, desde os primeiros rudimentos atÈ · perspectiva, e isto por longas liÁıes, sem nunca dar mostras de canÁaÁo ou aborrecimento, pelo contrario sempre cheio d'um grande prazer em traÁar firme e rapidamente o contorno e o claro-escuro dos objectos que copiava.
E ainda hoje continua e affincadamente, desenhando todos os dias, mesmo a fÛra dos esboÁos que fez para os seus quadros.
Depois de ter desenhado muito a lapis e a carv„o, copiando gessos e modelos, entrou ent„o no desenho a cÙres, (pastel) e fez a paisagem e a figura, isto tudo do natural, e fel-o com uma tal garridice e um tal desenvolvimento que os seus trabalhos mereceram os applausos, n„o sÛ do seu professor, mas da critica conscienciosa e honesta de alguns entendidos.
ApÛs isto passou a pintar a oleo, no atelier, e sob a vista e a conceituosa informaÁ„o de Loureiro, lanÁou · tela flores que estudou em todas as suas minudencias, sem comtudo fazer dos seus trabalhos, rendilhados e lambidos quadros.
N„o, Manuel Lucio, estudou as flores desenhando-as e colorindo-as depois nos tons e nos valores que ellas deviam ter.
E emquanto no atelier-escola pintava flores sob a vista do professor, l· por fora, sÛsinho, apenas com as sabias noÁıes recebidas tentava a paisagem a oleo.
Eram estas algumas das que Loureiro me mostrava, e de que eu vos dou umas gravuras.
Vieram em seguida os estudos a oleo de gessos, feitos com muita consciencia e extraordinaria proficiencia, e hoje estuda valentemente, como um verdadeiro amador de talento, o modelo vivo, e ainda ha pouco n'uma exposiÁ„o de alumnos que Loureiro promoveu no seu atelier, elle l· estava com 19 trabalhos a oleo entre os quaes alguns havia que eram verdadeiramente maravilhosos de cÙr, de luz e de verdade, e 9 desenhos, provas irrefutaveis de quanto elle trabalha e do bem como trabalha.
Mas Manuel Lucio n„o È sÛ um amador de pintura consciencioso, È tambem um burilador de litteratura _hors ligne_ e um entendedor de coisas d'Arte. Deve-se · sua pessoa o prefacio do Catalogo da 1.^a ExposiÁ„o de Alumnos no Atelier-Escola. N'esse prologo o nosso perfilado discorre sabiamente sobre as vantagens de desenhar perfeitamente para bem pintar. S„o uma serie de consideraÁıes bem feitas e profundamente estudadas, que d„o a verdadeira orientaÁ„o do seu modo de pensar e proceder n'este genero de _sport_ artistico em que se metteu.
Depois, como tem muita leitura d'Arte, elle reune a um bello amador, um cavaqueador agradavel e um conhecedor cheio de saber.
Ahi fica em rapidas linhas o que eu posso dizer do discipulo de Arthur Loureiro, o bello discipulo que faz honra ao professor.
1904.
[Figura: Barra, Foz do Douro--MANUEL LUCIO]
XX
UMA EXPOSI«√O DE QUADROS
do Instituto de Estudos e Conferencias
No louvavel intento de desenvolver a Arte de pintura entre nÛs, o Instituto de Estudos e Conferencias, realisou no pateo da Misericordia mais uma outra exposiÁ„o. … pois d'este certamen artistico que me vou occupar n'este rapido artigo.
Fui l·, quando a exposiÁ„o era vedada ao publico. Unicamente ali tinham entrada os socios do Instituto e os delegados da imprensa, e por isso muito · vontade me demorei por l· umas duas horas a analysar.
SÛ o quadro de Sousa Pinto me reteve boa parte do tempo. Que aquillo È, para mim, o que se chama o requinte da perfeiÁ„o.
[Figura: Sousa Pinto]
N„o abalanÁarei opini„o sobre tal trabalho, porque me julgo infinitamente pequeno para discutir obra t„o magistral.
Sousa Pinto, tem o seu nome feito, nome glorioso que se impıe l· fÛra, nos grandes centros artisticos, como o _Salon_, onde os seus quadros s„o recebidos com toda a consideraÁ„o e premiados com as melhores recompensas. E a critica sabia e correcta dos grandes analystas da Arte, essa critica que È indomavel como a justiÁa, tem dito que elle È um grande, um superior pintor. Gloriosa coisa È por isso, para nÛs, podermos admirar hoje na nossa despretenciosa exposiÁ„o um trabalho de t„o requintada perfeiÁ„o como o _Ferreiro_ de Sousa Pinto. Portanto, antes de entrar na enumeraÁ„o dos trabalhos expostos, consinta a direcÁ„o do Instituto de Estudos e Conferencias que a felicite por ter, como vulgarmente se diz, mettido esta lanÁa em Africa; porque Sousa Pinto n„o quer sujeitar-se · critica portugueza, e n'estas condiÁıes foge de apparecer nas nossas exposiÁıes.
Mas n„o nos demoremos mais, sigamos para diante, que eu vim para lhe fallar do conjuncto da ExposiÁ„o, e n„o sÛ de um artista.
[Figura: JOS… de BRITO no seu atelier]
Aberto pois o catalogo acha-se inscripto como n.^o 1 o snr. Almeida e Silva, que desta vez me convence de que È um artista. Eu estava mal impressionado com elle, os seus trabalhos, talvez por muita meticulosidade de acabamento e pelo recortado das figuras e dos assumptos, tinham o quer que fosse de oleographico. Mas, n'esta exposiÁ„o, elle vem mais pujante de execuÁ„o, mais artista. E em qualquer dos generos em que se apresenta mostra aptidıes definidas. Entre esses trabalhos destacarei: _O Rio Pavia no Outomno_, _Manh„ d'Outubro_, _Veterano de Ormuz_, _Tranquillidade_, _Retrato do snr. D. Diogo d'Almeida_ (Reriz). Ha mais alguns quadros, mas esses s„o inferiores.
[Figura: Crepusculo Matutino--CANDIDO da CUNHA]
Segue-o JosÈ de Brito, com dous retratos a oleo de que n„o gosto nada. No entanto noto o _Retrato de Antonio Ramos Pinto_, a pastel, que È muito bem feito, e as aquarellas, que apresenta s„o todas bem tocadas, especialmente umas tres que s„o um primor de execuÁ„o. _As Margens do LeÁa_, (2 quadros), _Caminho de Nevogilde_ e _Villarinha_, especialmente.
Abel Cardoso, com quatro quadros, dos quaes destacarei o _Tapada_. Ha uma portinha vermelha a destacar na linha do muro da quinta, que d· uma nota interessante. O retrato do militar esse, meu Deus, È phantastico.
Candido da Cunha. Sempre o sentimental artista que desde sempre conheci. Tem tres quadros, qual d'elles o mais bem feito, sempre com um ar nostalgico do pÙr do sol, que elle t„o distinctamente pinta. _O Crepusculo Matutino_ È um delicioso encanto.
D. Alice Grillo, tem tres quadros, um de _Flores_, outro de _Rosas e fructos_, e um _Estudo de velha_. Para mim os dous primeiros s„o superiores. As laranjas s„o bem pintadas, de bella cÙr e as rosas e os amores perfeitos, s„o lindamente tocados, d'uma grande frescura.
[Figura: Paisagem--MARQUES d'OLIVEIRA]
Marques d'Oliveira. Eis um nome que se impıe e que sempre que se apresenta nos deixa convencidos de que È um talentosissimo artista. Nos seus quadros, ha um certo quÍ que demonstra a technica superior d'este mestre de pintura. E embora alguns criticos queiram abocanhar o nome feito d'este artista, elle supplanta toda essa inveja, que outra cousa n„o era o que eu ouvi dizer d'elle. Dos quadros expostos, pincelados de uma fÛrma correcta e distincta, destacarei o _Rua de Agueda_, _Effeito da tarde_ (Agueda), _C„es da Ribeira_, _Espinho_, _Effeito da tarde_ (Espinho), o que quer dizer que s„o todos.
[Figura: Guardando vaccas--EDUARDO MOURA]
D. Julia Molarinho. … pintora da nova ala que vae dando a nota do seu merecimento. Os seus quadros _CabeÁa de preto_, _CabeÁa de rapaz_, _Poente_ e _Pochade_, s„o bem feitos, especialmente os dous primeiros. Tem mais quadros, que n„o me prenderam a attenÁ„o.
Eduardo Moura. Apresenta-se com um sÛ quadro, se bem que pelas suas aptidıes deveria ter exposto mais. … um trabalho bem feito, digno de ser admirado.
Thomaz de Moura. Com uma _Cabecita de rapariga_ regularmente executada. Ha tambem muito de monotono no fundo, um azul indefinido.
D. Leopoldina Pinto. Tres quadros de _Flores e fructos_. Tem um quadro de _Geranios_ que est· bem tocado, d'uma certa frescura. Esta senhora È especialista n'esta qualidade de flores. J· n'outra exposiÁ„o apresentou um quadro de geranios que era um assombro de perfeiÁ„o. Os crysanthemos esses n„o s„o bons. No quadro _Fructos_, ha umas uvas bem tratadas, com bastante transparencia.
Arthur Prat. … um pintor de cÙres retumbantes. Os seus quadros s„o como fanfarras de luz. Gosto d'elles porque me d„o muito bem a nota estridula e alegre dos campos do sul. Apresenta dez quadros, alguns d'elles regularmente feitos e regularmente estudados.
Julio Ramos. Esse paisagista que tanto nos tem encantado com os seus quadros, apresenta-se tambem d'esta vez com muita distincÁ„o, se bem que me n„o prenda a attenÁ„o, como d'outras vezes que tem exposto.
Carlos Reis. Ora aqui est· um pintor que È para mim um genial artista. Seguidor dos moldes de Silva Porto, apresenta-se n'esta exposiÁ„o com cinco quadros que s„o uma maravilha. _O Idilio_, È uma pintura deslumbrante. _O retrato de minha m„e_, È tambem um superior trabalho, feito com toda a correcÁ„o, d'um verdadeiro mestre.
[Figura: JULIO RAMOS no seu atelier]
Augusto Ribeiro, nos seus quadrinhos _mignons_ apresenta-se admiravelmente--atÈ nem parece o artista de outros tempos. Agora mais socegado, mais accentuado, fez-nos a pintura do nosso Minho em paginas d'album, mas muito bem feitas.
Jo„o Augusto Ribeiro. Com um quadro sÛ, um _Estudo de velho_, primoroso de desenho e de cÙr, flagrante de verdade.
D. Aurelia de Sousa. Dous trabalhos a oleo de que n„o gosto e um pastel--_N'um jardim antigo_, que est· muito bem executado.
D. Sophia de Sousa. Apresenta quatro quadros, dos quaes destacarei como mais digno de menÁ„o a _Paisagem_. … uma verdadeira artista.
Julio Teixeira Bastos. Seis telas expostas. Destaco _O Melro_, como sendo a que mais impress„o me fez.
[Figura: Torquato Pinheiro]
Torquato Pinheiro. … com toda a correcÁ„o que se nos apresenta, n'este certamen, este conceituado artista. Dos seis quadros expostos notarei como melhores os seguintes:--_Tarde no Corgo_, correctissimo, _Rua da Pedreira_ e _Crepusculo_.
Jo„o Vaz. O superior pintor de marinhas, vem · exposiÁ„o com tres quadros que s„o um encanto, especialisando a _Barra de Lisboa_ onde a agua È tratada d'um modo irreprehensivel.--_Barracas de Pescadores_, tambem muito bem feito. O outro--_Margens do Sado_, tem para mim uma nota que o torna desagradavel: È uma serie de piteiras que d„o ao quadro um quÍ de bordado a missanga.
Eurico Ricardo Jorge. Apparece pela primeira vez em publico e apresenta-se muito bem com o seu estudo a pastel--_CabeÁa de velho_.
JosÈ David. Tem algumas aguarellas que est„o bem manchadas.
E nada mais porque j· vae muito longe este artigo.
[Figura: Retrato de Bernardino Reaes--TORQUATO PINHEIRO]
XXI
Uma ExposiÁ„o de Carneiro Junior
No Pateo da Misericordia
A ExposiÁ„o Carneiro Junior È mais uma confirmaÁ„o do talento de quem a organisa. Esse bello rapaz, desde a primeira vez que com elle fallei logo conquistou em extremo a minha simpathia.
Alma de poeta epico, idealisando sempre, n'um desejo fremente de ser grande, quadros que prendam e enthusiasmem quem os vÍ.
D'esta vez, no seu grande quadro, mais humano e mais terreno, deve ter sido melhor comprehendido pelo publico que tem visitado a exposiÁ„o.
Assumpto de molde a prender bem a alma de todos os que ainda tem um pouco d'amor · sua patria, È o seu quadro uma pagina flagrante de verdade e de movimento, arrancada · Historia de Portugal. Figuras talhadas em moldes verdadeiramente portuguezes, agrupadas flagrantemente em posturas naturaes, o seu quadro È, innegavelmente, uma bella obra.
A figura altiva, mas sem arrogancia, do hespanhol vencido que recebe uma corÙa de flores para collocar no punho da espada, como para dizer que n„o a elle mas sim a ella se deve qualquer gloria obtida, È bem estudada; e o portuguez, que respeitosamente offerece como galharda dadiva de simpathia a mesma corÙa, È de soberba concepÁ„o. Era primeira intenÁ„o do artista dar outra orientaÁ„o a estas duas figuras, mas fez bem em ter resolvido assim o problema. A fidalguia da guerreira Hespanha n„o podia tomar posiÁ„o humilde deante d'um portuguez illustre e valoroso que tinha a gentileza de offerecer-lhe uma capella de flores, que m„os delicadas de mulher tinham composto.
[Figura: Entrega de Evora--Quadro de ANTONIO CARNEIRO JUNIOR]
Ha no quadro figuras flagrantes de verdade. Os frades d„o-nos a impress„o serafica d'homens que, entre o latim e o repasto, n„o quizeram tambem fugir · manifestaÁ„o imponente que o povo fazia ao guerreiro vencedor.
Os cavallos est„o bem estudados especialmente o que tem a garupa virada ao espectador, cujo tom de cÙr d· o verdadeiro avelulado sedozo de um alaz„o fogoso e bem tratado.
A neblina que se percebe por entre a porta em arco da cidade, no seu tom cinzento violaceo tem perfeitamente o tom do amanhecer dos dias lindos do Alemtejo.
Este quadro, destina-se a ornamentar a escadaria do sumptuoso palacio do snr. Barahona, d'Evora, um dos homens que mais tem acompanhado e protegido a Arte nacional.
Destacam-se para mim depois, n'esta exposiÁ„o, os retratos. Ha-os flagrantissimos de verdade taes como o do _Dr. Jo„o Novaes_, e do _Antonio Cruz_, esse velho rapaz que conheci tal qual desde os tempos idos do _Jornal da Manh„_. O retrato do auctor n'uma postura scismadora e triste, verdadeiro estudo psycologico da sua individualidade; È soberbo. A figura distincta e airosa da esposa do seu amigo Alberto d'Oliveira, executada · noute sob a luz viva d'um largo candieiro de petroleo, È adoravel de cÙr e de execuÁ„o.
No _Retrato da Ex.^{ma} Snr.^a D. Emilia de Carvalho_, executado com primor e cuidado, ha um ar de ingenuidade deliciosa e amiga que nos prende. A cabecita da pequenina Rachel, com os seus olhitos vivos e o seu ar risonho, d·-nos a tentaÁ„o de um beijo todo amor, todo candura.
Notei na facÁ„o de todos os retratos um quÍ do genio de Columbano, mas um quÍ bom, sem aquella psychologia profunda e doentia que o mestre d· ·s suas composiÁıes. Carneiro Junior È a meu vÍr mais humano, mais positivo.
Da paisagem destacarei para aqui, como tendo-me dado mais viva impress„o as seguintes: _Rio Tamega_ (Amarante), _Crepusculo na montanha_, _LeÁa_ (estudo), _No bosque_ (impress„o), _O mar_, _Um poente_ e _Rua do Bomfim_ (tarde de chuva), os quaes s„o flagrantes de luz e de tom. _O mar_, com o seu fundo em iris avermelhado È bello e a _Rua do Bomfim_, em tarde de chuva, na sua meia nevoa, È deliciosa.
Os desenhos para o estudo do grande quadro s„o magnificos de correcÁ„o e de justeza. CabeÁas estudadas do natural, nas suas linhas definidas, s„o primores de quem sabe e muito da, para mim difficilima, arte de desenhar.
[Figura: Baixo relevo (Bronze)--ANTONIO TEIXEIRA LOPES]
Ha na exposiÁ„o uma coisa que me encanta sobre todas as outras: s„o as cabecitas dos filhos do pintor, desenhadas a sanguinea. N„o sei se por ser essa a minha cÙr predilecta, se pelo bem executado d'ellas. Naturalmente por ambas as circumstancias. S„o retalhos da alma d'esse poeta pintor que elle copia com um carinho desusado. J· na sua outra exposiÁ„o um dos quadros que mais me enthusiasmou pelo amor e cuidado com que estava feito foi o retrato da esposa do artista, aquelle que tinha uma grande abada de flores. Isto confirma o que eu penso do homem, um _menager_ todo conforto e carinho. Ponto, porÈm, que eu n„o estou aqui a fazer o retrato psychologico do artista, mas sÛmente a resenha dos seus quadros; mais nada.
[Figura: A Prociss„o--CANDIDO da CUNHA]
Fechando, vou fallar do esquisso final para o seu quadro grande.
Elle chama-lhe um esquisso definitivo, eu chamo-lhe um quadro completo. Gosto d'elle tanto ou mais do que do grande. Se me permitte, chamar-lhe-hei a miniatura do trabalho que È o _clou_ da exposiÁ„o.
Que Carneiro Junior desculpe este deslizar de cousas a respeito do seu talento artistico e da sua exposiÁ„o.
E, a proposito d'esta e outras exposiÁıes, n„o ser· mau repetir que o meu fim n„o È outro sen„o vÍr se se obriga o publico a interessar-se um pouco mais por o nosso meio artistico. Conheci alguns homens cheios de dinheiro e com pretenÁıes a ter bom gosto, que nunca na sua vida gastaram dez tostıes, que fosse, em uma pintura, a n„o ser na pintura obrigatoria das portas e das janellas da sua casa. TÍm, quando muito oleographias ricamente encaixilhadas nas suas salas de receber.
Pois È preciso que esses homens que podem, venham ·s exposiÁıes, puchem pelos cordıes · bolsa, comprem quadros aos artistas que levam uma vida de trabalho e de estudo para nos darem com palpitaÁıes flagrantes os retratos que executam, e com vibraÁıes de luz e de cÙr as paisagens que retalham da grande M„e Natureza para telas, que poderemos ter no nosso quarto de trabalho, recordando-nos pedaÁos da nossa querida terra, t„o bella de paisagens, t„o deslumbrante de sol.
XXII
Notas ligeiras d'uma ExposiÁ„o
Maio È o mez das flores, dos poetas e dos artistas. E a comprovar o meu dizer l· se abriu n'este mez das graÁas e das benÁ„os, a 5.^a ExposiÁ„o de Bellas-Artes, que a prestante aggremiaÁ„o Instituto de Estudos e Conferencias, com o seu grande empenho de vulgarisar entre nÛs o gosto pela Arte, promoveu. Como simples informador d'um limitado publico l· fui n'essa romagem artistica no primeiro dia, mas, porque me vi rodeado por todos os pintores portuenses, n„o me atirei a tomar notas, nem a esmiuÁar detalhadamente tudo aquillo.
[Figura: D. Lucilia Aranha Grave]
Dois dedos de conversa a este, mais dous ·quelle, ouvindo opiniıes que passavam no ar, n'um quasi sussurro de confidencias, n„o podia o meu espirito socegadamente fazer a apreciaÁ„o sentidamente minha, que eu queria fazer. Depois, eu tenho a veleidade de ter opini„o, de pensar sÛ... e n„o fazer como muitos que se deixam ir na correnteza do que lhe dizem os _espiritos santos de orelha_.
Eu vou sempre umas tres ou quatro vezes ·s exposiÁıes d'arte, e fico burguezmente, como um bom mercieiro, estatico deante de todos os quadros... em alguns como n'uma adoraÁ„o pelo bem executado, n'outros como n'um pasmo, do arrojo da concepÁ„o e n'outros ent„o, assombrado, fulminado, ante a imbecilidade com que elles s„o feitos. E depois, serenamente, sem pretenÁıes, nem vaidades, com a franqueza com que fallaria a um conhecido de ha muito, venho dizer ao publico a impress„o que tive.
N„o levo a minha franqueza ao ponto de ser descortez com os artistas que conheÁo, nem a incensar bajuladoramente aquelles de quem sou amigo: n„o... sou um _critico_ moderado... sem _coterie_, e honestamente independente.
[Figura: Paisagem--AURELIA de SOUSA]
O _vernisage_ (eu estou muito visto em termos francezes, n„o acham?) esteve este anno, como em poucos, animado de artistas...
O _salon_ tinha um quer que era de superior. Os artistas tinham-se dado ali _rendez-vous_...
Uma coisa faltava para dar a nota _chic_, e fina... eram os rostosinhos galantes d'algumas das nossas damas. Se ellas tem apparecido, poderia dizer n'este artigo com _aquelle meu gesto · Augusto Rosa_, que o outro me encontrou, que a abertura da ExposiÁ„o tinha estado muito curiosa, muito _becarre_.
[Figura: Aos grillos--JULIO RAMOS]
Faltaram porÈm essas notas estridulas de garridice das senhoras, mas, em compensaÁ„o appareceram por l· magnificos tipos _caricaturaes_ e _grotescos_!... Se atÈ eu estive l·!!!...
Agradou-me · primeira vista o conjuncto do certamen, se bem que de visita mais demorada, como a que em outra vez fiz, n„o trouxe de l· a mesma impress„o.
Ahi est·, se eu tivesse feito de afogadilho este artigo teria dito que a exposiÁ„o era geralmente boa, e agora n„o, n„o seria t„o pessimista. Recortarei pois do catalogo alguns nomes como os de mais destaque.
Em primeiro logar, e affirmando cada vez mais a caracteristica de um primoroso paisagista, Marques de Oliveira, com as suas trese telas de paisagem e marinha, e ainda como affirmativa de que elle toca com o mesmo saber a nota da figura, uma primorosa _CabeÁa de velha_, t„o finamente tratada, t„o cuidadosamente desenhada e collorida que me maravilhou.
A seguir vem Candido da Cunha, esse delicioso poeta nostalgico de pintura, que me suggestiona com os seus quadros, poentes deliciosos, onde parece que, atravez d'uma doce tonalidade de aldeia, se ouve o religioso toque das AvË-Marias. … Candido da Cunha um d'estes pintores que ao serem vistos uma vez nos seus trabalhos, deixam ficar na nossa retentiva o seu modo especial de pintar, para nunca mais se esquecer, tal È o seu sentimento.
Torquato Pinheiro tambem se nos apresenta bem, com uns nove quadros, que a n„o ser aquelle seu tom _gris-violete_, t„o seu, t„o peculiar, me fariam uma mais larga impress„o. Destacarei porÈm as _Lavadeiras na levada_, _¡ vista do Mar„o_, _Sol de tarde_ e _Fim de tarde_ (Real, Porto).
[Figura: Paisagem--CANDIDO da CUNHA]
Julio Ramos, tambem nos d· quadros que demonstram o seu saber, especialmente o _Fim da tarde_, que È, a meu vÍr, um explendido trabalho.
JosÈ de Brito vem · exposiÁ„o com dous retratos a oleo, um pastel e algumas aguarellas. Dos retratos a oleo notei como bem executado especialmente o de _D. Margarida G. Oliveira_. O seu pastel--_Retrato do conselheiro Avides_, È um bello trabalho. Este artista È para mim um dos melhores desenhistas a pastel. As suas aguarellas s„o bem feitas, muito bem feitas.
[Figura: Lavadeiras na levada--TORQUATO PINHEIRO]
Jo„o Augusto Ribeiro.--Esse bello artista que conheci como um dos bons, vem · exposiÁ„o com seis quadros. Destacarei _O Estudo_ (de troncos), _Depois da chuva_, _A Madrugada_, que me parecem affirmar d'uma maneira categorica que Ribeiro È um bello artista.
[Figura: D. Margarida Costa Rom„o]
Ha ainda Eduardo de Moura com um quadrinho muito interessante _Um interior de um aido_, onde o assumpto È estudado com cuidado, e pintado com saber, dando a confirmaÁ„o de que este artista n„o È uma vulgaridade.
Mais alguns artistas ha na exposiÁ„o, mas, para n„o desviar o espirito do leitor, nem lhe massar a paciencia, n„o me occuparei d'elles, nem dos seus trabalhos. N„o È porque alguns n„o mereÁam a minha attenÁ„o especial, mas, tenho que dedicar duas palavras a algumas senhoras artistas, e aos amadores, e se fosse a gastar muito tempo e espaÁo, pouco poderia dizer d'estes ultimos.
Quando entrei pela primeira vez na exposiÁ„o, logo me saltou · vista um quadro de _Camelias_, que eu julguei ser do velho Costa o grande pintor de flores. Aproximei-me e com surpreza vi que n„o era d'elle, mas, sim de D. Margarida Costa Rom„o, uma nova que ao apparecer nos diz logo quanto vale. Mas, n„o admira, l· diz o dictado:--filho de peixe sabe nadar--e D. Margarida Costa È filha de um bello pintor, o Julio Costa. Pois esta senhora com os seus tres quadros d·-nos a impress„o sincera de que se continuar, como principia, ha-de ser uma grande artista.
D. Alice Grillo Lima. J· muito nossa conhecida como uma verdadeira artista, tambem d'esta vez se nos apresenta com muita correcÁ„o e saber. S„o bons os seus dous quadros de camelias.