Chapter 8
Veio por fim Arthur Loureiro, esse laureado artista que todos nÛs conhecemos, pelo seu talento, e lanÁa a idÈa de uma escÛla d'Arte, tal como ellas s„o no estrangeiro. Lucta com mil difficuldades ao principio para poder realisar o seu plano, e eu ao saber do seu emprehendimento todo me enthusiasmo um momento, para pensar logo em seguida que a sua idÈia ha-de morrer, como morreram todas as outras. Mas, tal n„o succede; Arthur Loureiro se no fundo È um bom portuguez e um genuino portuense, vem saturado d'essa convivencia de vinte annos com os inglezes, gente que tem tanto de aventureiros como de previdentes. Debaixo d'essa esplendida orientaÁ„o Loureiro cria a sua escola de pintura para senhoras e n„o desanima, confiado em que querer È poder. E hoje È elle o unico artista que, no nosso meio, realisa este grande melhoramento, em prol da Arte: ter uma escola onde v„o os seus discipulos, n'uma confraternisaÁ„o artistica, tomar as s·bias liÁıes que elle lhes d· com a sua proficiencia e saber.
E, com que arte, e com que cuidado, elle soube transformar uma sala fria e desconfortavel n'um _atelier_, que se n„o È um _especimen,_ È no entanto um delicado recinto onde o gosto decorativo do artista se casa perfeitamente com a severidade das paredes, onde pousam como scintilantes fulguraÁıes de genio, trabalhos, estudos e composiÁıes do professor, de mistura com gessos de estudo.
[Figura: Retrato do dr. Francisco Anthero--ARTHUR LOUREIRO]
Fui ha dias ao _atelier-escola_, precisamente no momento em que terminavam as liÁıes e as alumnas, fulgurantes de mocidade e alegria, saiam n'um chilrear que encantava. Os cavalletes, espalhados pelo _atelier_, eram como sentinellas que ficavam guardando os logares das discipulas. Passei-os em revista, cheio de curiosidade e de interesse em notar n'aquelles esboÁos as disposiÁıes de quem os tinha executado. Aqui, desenho dos principiantes, de diversos objectos, taes como garrafas, jarros, pucaros, etc., e onde elles, emquanto desenham, v„o tendo noÁıes do que È a perspectiva pratica.
Mais alÈm, estudos de fructas e flores, e entre esses os d'uma discipula que compıe e applica aos tecidos as flores e os fructos que desenha e que pinta do natural.
Outros, desenhos de gessos das differentes escolas, grega, romana e renascenÁa... Mais alÈm, cÛpias flagrantes a oleo, dos modelos vivos e dos costumes populares portuguezes.
Uma verdadeira escola, methodica e definida, onde os alumnos n„o copiam os seus trabalhos de modelos que veem de FranÁa ou da Allemanha ·s grosas, mas sim do natural; estudando desde as mais rudimentares noÁıes de traÁos e linhas, atÈ aos intrincados problemas da perspectiva, sÛs por si, apenas com as indicaÁıes do professor.
S„o tambem para notar as pastas carregadas de estudos que os discipulos executam em casa, apÛs as liÁıes, e que s„o documentos irrefutaveis do bom aproveitamento d'este systema de ensinar o desenho e a pintura.
Entre os discipulos de Loureiro, ha um que se torna notavel, porque com 48 liÁıes apenas, uma cada semana, tem feito maravilhosos progressos. D'este discipulo, j· eu tive occasi„o de fallar, quando em tempo dediquei duas linhas a uma exposiÁ„o que Loureiro fez e em que appareceram alguns estudos d'elle.
Ha tempos, porÈm, quando visitei o _atelier-escola_, tive uma boa occasi„o de vÍr de novo trabalhos seus feitos alli: uma bella copia a oleo do gesso, correcta de execuÁ„o e de desenho e mais uns trabalhos que elle fizera fÛra da escola, em passeio d'Arte pelo campo e pela praia. Havia uma marinha bem tocada, e uma paisagem delicadamente pintada e superiormente estudada e desenhada, n„o fallando n'um interessante quadro de camelias, que me encantou. Talvez porque eu gosto muito de flores, e aquellas estavam t„o frescas, que me fizeram uma magnifica impress„o.
… elle o sr. Manuel Lucio um dos amadores que, se continuar assim, mais brilhantemente poder· affirmar o que se tem dito de Loureiro: que se È grande como artista, n„o o È menos como professor.
Mas, voltemos · escola. Tem ella sobre todos os outros _atelieres_ a grande vantagem de estar installada nos jardins do Palacio. Quando a primavera, ridente, enche aquelle recinto de flores e de sol, c· para fÛra, para o ar livre, vem os discipulos, e, ou recolhem nas suas telas as flores lindas e frescas e os pontos de vista deliciosos que d'alli se disfrutam, ou estudam e pintam pequeninos recantos do jardim variados e bellos. E tudo isto realisa Arthur Loureiro, n„o sem largas e complicadas difficuldades, que felizmente elle vÍ cobertas de bom resultado, se bem que com pouco interesse.
Ao vir-me embora depois de ter dado os meus parabens sinceros ao professor pela sua iniciativa, pensava em como aquelle bello recinto do Palacio de Crystal poderia ser aproveitado para tanta, tanta coisa util, em vez de jazer ignominiosamente alli, mudo e sinistro como um crime.
E que tudo isso se poderia fazer se quem o dirige, visse mais alguma coisa do que umas _reles exposiÁıes de flores e aves_ e do que umas _festarolas de arraial_ com _musica do ZÈ da Gaita_ e _fogo d'artificio do Devezas_!...
[Figura: Tigres--ARTHUR LOUREIRO]
III
ARTHUR LOUREIRO e a Academia de Bellas-Artes
Ha tempos n'uns bem elaborados artigos da _Voz Publica_, alguem, que eu n„o sei quem È, veio apresentar a ideia de que Arthur Loureiro deveria ser professor da nossa Academia de Bellas-Artes.
Achei t„o acceitavel e t„o util para a Academia essa ideia, que n'este momento em que me tenho de occupar da sua exposiÁ„o de quadros, entendi dever acompanhar na sua propaganda quem t„o desinteressadamente a apresentou. N„o È que eu venha a campo combater afincadamente em favor d'este artista, n„o, venho sÛ como mero espectador do grande palco da vida applaudir quem soube apresentar a ideia.
Arthur Loureiro foi um dos mais distinctos discipulos das nossas academias de Bellas Artes e tem a sua folha de bom profissional, resplandecendo de brilho e cheio de gloria immoredoira.
N„o foi no seu paiz natal que elle se completou em arte, foi no estrangeiro, nas grandes terras onde ser-se pintor n„o È uma mera galanteria de gente fina; foi nas terras onde se faz da Pintura alguma coisa mais pratica e mais definida do que entre nÛs.
Voltou tarde · patria, vinte annos passados sobre o seu curso. Quer isto dizer, que elle vem mais senhor do _metier_ do que aquelles que meramente se demoram l· por fÛra uns tres ou quatro annos. … certo que muitos que estudaram no estrangeiro nem sempre ao voltar veem mais vigorosos e mais trabalhadores do que quando partiram. Mas elle n„o.
Arthur Loureiro, foi unicamente para trabalhar e affirmam-no exuberantemente os cargos que por l· occupou distinctamente, taes como:--examinador das classes de Arte da National Gallery of Victoria, e director e professor de 1.^a classe dos cursos de Dezenho e Pintura do Presbiteriam Ladier College em Melbourne, na Australia.
[Figura: SÛ no mundo--Quadro de ARTHUR LOUREIRO]
Ora estes cargos dados a um estrangeiro, a um portuguez, o que affirmam È o que o seu nome era ali conhecido e que estava · altura de occupar esses logares com toda a hombridade e todo o saber.
Mas ha mais, quando terminou o seu curso em Portugal foi classificado para pensonista em Paris, onde fez uma larga e profunda aprendizagem d'arte.
Concorreu a muitas e variadas exposiÁıes, onde os seus quadros foram sempre apreciados como mereciam. Entre esses deveremos notar como primordiaes a ExposiÁ„o Religiosa da Belgica onde o seu quadro, _A Vis„o de Santo Stanislau de Kastka_, foi acolhido com enthusiasmo por toda a critica, e muito especial referencia mereceu ao celebre critico religioso, l'AlbÈ Moeller. E ainda em Londres, onde concorreu, a convite, · Greater Britian Exibition, em 1899 e foi recompensado com diploma d'honra e medalha de ouro. Ha pouco foi elle eleito Academico de Merito da Academia da Victoria, em Melbourne.
VÍ-se bem claro, por tudo isto, que Arthur Loureiro era considerado e muito, l· fÛra, como um verdadeiro artista que È.
Estou d'aqui a vÍr a balburdia que vae no nosso meio artistico por estas minhas despretenciosas notas, mas n„o s„o ellas mais do que o desejo de provar que o homem est· · altura de occupar um logar de professor na nossa Academia.
Porque estou bem certo de que elle, chamado a dar provas publicas do seu saber artistico, ellas ser„o convincentes.
Se elle È um grande artista, n„o È menos um grande trabalhador, incansavel; trabalhando, quer em quadros para expÙr e vender, quer dando liÁıes ·quelles que desejam bem conhecer a arte de pintar, no seu _atelier_, no Palacio de Crystal Portuense. N'esse mesmo _atelier_ j· por varias vezes tive o prazer de visitar exposiÁıes organisadas por elle.
Ali me mostrou elle que embora longe de nÛs por tanto tempo, n„o se deshabituara das cÙres e da luz da nossa boa terra. N„o veiu inebriado com o nebulozo da Escocia, com o cinzento da FranÁa, nem com o vermelho violaceo da Italia.
Veiu isento de escolas, preoccupando-se sÛ com o que via na natureza tal qual ella se apresentava, vibrante de luz se o sol espadanava rutilantemente no espaÁo, nebuloso e triste, se a nevoa cobria a atmosphera e a paisagem que pintava.
Era como que o executor da verdade tal como ella deve ser. Era, emfim, um paisagista perfeito e definidamente portuguez.
Pois bem, todos ahi viram as suas recentes exposiÁıes, e que eu saiba, ainda ninguem amesquinhou o seu muito merecimento; pelo contrario todos foram · uma a dizer que elle tinha valor. A critica, que deve ser sincera e justa, n„o teve por onde o atacar, nem veiu dizer d'elle sen„o que era bom, por isso a sua entrada como professor de paisagem na Academia de Bellas Artes, do Porto, deveria ser acolhida por todos os professores e alumnos com enthusiasmo, se bem que a nossa Academia n„o seja para largas manifestaÁıes.
Mas deixemos agora o artista para fallarmos da sua ultima exposiÁ„o.
No _atelier_ de Arthur Loureiro, ha um n„o sei que de conforto que nos prende. Sob a sua direcÁ„o tem-se transformado aquella fria sala n'um bellissimo gabinete, onde se podem passar horas e horas admiravelmente bem. Decorado com simplicidade, mas com um especial _cachet_ de galanteria os seus quadros destacam alli maravilhosamente.
Vou fallar delles, como sei, ou como entendo.
Como nota primordial destacarei o grande quadro, cujo titulo È _De aldeia em aldeia_ e que inspirou ao bello poeta M. Ricca, esta quadra:
Sob a cruz pesada e feia Da miseria que a consomme Corre _d'aldeia em aldeia_, Na Via-sacra da fome.
[Figura: De aldeia em aldeia--ARTHUR LOUREIRO]
… um soberbo trabalho, desenhado com cuidado e pintado com amor. Uma velhita andrajosa atravessa um trecho de paisagem, por um caminho encharcado. Que correcÁ„o e que luz, verdadeira obra prima que um grande mestre n„o se envergonhar· de assignar.
_No pinhal_. … um delicioso estudo de pinheiros, graceis e altos com a sua coma dum verde _foncÈ_, que parece sussurrar com a aragem que passa.
_Mar agitado_. Agua deliciosamente tratada e transparecendo atravez d'ella a penedia que ella cobre. Luz deliciosa de grande ar.
_Vaga quebrada_. … um pequeno quadro em que uma vaga se espadana como champanhe de encontro a um rochedo. Com que vigor est· pintada essa molle de agua, que n'um desdobrar vertiginoso e bravo encontra um obstaculo e se desfaz para o ar, como n'um grito de desespero!
_Retrato de G. Nogueira_. Este retrato È um primor de parecenÁa e de trabalho. Loureiro poz n'elle um cuidado especial e amigo; È uma obra prima.
_Nevogilde_. Um trecho de paisagem portuense, muito sentida, muito nossa.
_Padeira de Avintes_. … um delicioso estudo dos nossos costumes populares. Modelo gracil e airoso como s„o todas as nossas lavradeiras, correctamente desenhado, primorosamente pintado.
_Barcos_. Um quadrito interessante, onde ha dois barcos que parece boiarem docemente nas aguas mansas do rio, sob um ceu suave d'um azul transparente e bom.
Mais outros quadros ainda, todos elles confeccionados com mestria; alguns estudos de desenho, cabeÁas rigorosamente estudadas nos seus claros-escuros.
E esta exposiÁ„o n„o est· a abarrotar de exemplares, mas toda ella comporta coisas lindas e boas.
Ao sahir d'ali, vem-se sob a impress„o sincera de que tudo aquillo È nosso, e muito nosso.
Vem-se t„o bem disposto, que se fica com o desejo de l· voltar muitas mais vezes.
[Figura: Paisagem--ARTHUR LOUREIRO]
[Figura: Flora--Quadro de ARTHUR LOUREIRO]
IV
Mais uma visita ao Atelier de ARTHUR LOUREIRO
Eu j· disse algures que Arthur Loureiro era um poeta na pintura e hoje o repito aqui, no desprendimento sincero de quem o admira pelo seu talento. Os seus quadros s„o _bucolicas_ de cÙr e de luz. Ha-os que s„o como deliciosos sonetos camoneanos. Ha-os que s„o verdadeiros poemas. As pequenas telas veridicamente portuguezas, com a sua cÙr e a sua luz d'aldeia, s„o como cantigas de namorados entre os rumorejos do trabalho campestre.
Arthur Loureiro, talvez, porque viveu muito tempo longe da sua patria, ao voltar, como que tentou, n'um largo sentimento de amor patrio, desforrar-se d'aqui n„o ter vivido sempre. E n'uma subtileza ideal desenhou e pintou a grande alma portugueza, desde a Torre dos Clerigos, atÈ ao mais escondido recanto do Minho. A sua obra È como que o grito sentido do filho prodigo que volta ao fim de muito tempo · casa paterna. E que foi elle sen„o um filho prodigo da Arte, que andou por terras estranhas a expandir o seu talento em grandes manifestaÁıes, e que ao voltar, um pouco abatido da grande lucta, nos mostrou que, se alguem o julgava j· um estrangeiro, a sua alma pulsava no mais sublime enthusiasmo por tudo o que È nosso, por tudo o que era portuguez, desde as suas paisagens atÈ aos seus homens.
E agora mais uma vez fallemos dos seus quadros, e dos do seu discipulo.
Antes porÈm de entrar na enumeraÁ„o dos seus trabalhos ahi vae uma opini„o.
Na occasi„o em que eu visitava a exposiÁ„o entravam ali um grande pintor portuguez (Souza Pinto), um grande actor portuguez (Augusto Rosa), e um grande actor francez (Coquelin AinÈ). Pois estes tres cavalheiros insuspeitos para todos, depois de larga apreciaÁ„o aos trabalhos expostos, quedaram-se em frente d'um quadro que ha muito est· no atelier _A Primavera_, e Souza Pinto, esse artista cujo nome resÙa no estrangeiro como um clarim de gloria nacional na arte de pintura, disse que se admirava que aquelle quadro ainda n„o tivesse sido adquirido para o muzeu nacional como um especimen de boa pintura e de soberbo desenho.
Tambem eu teria soltado o meu brado de admiraÁ„o, se n„o soubesse que o Estado e as Camaras n„o teem dinheiro para essas cousas, e sÛ o teem para _festejos balofos_, para _comesainas opiparas_ e para _bolos_ rendosos aos afilhados; para mais nada. A galeria nacional de pintura no Porto È talvez mais parca do que a do mais pequeno amador. … uma vergonha!!...
[Figura: Pinheiros--ARTHUR LOUREIRO]
Adeante, que vamos gastando muito tempo com consideraÁıes philosophicas.
Pois os quadros expostos de Loureiro, s„o 17 novos e uns 8 j· vistos.
Dos antigos nada direi sen„o que s„o soberbos, dos modernos, d'esses alguma coisa mais escreverei. Entre todos ha um que me encanta profundamente. … _O Pinhal_!... Um dia ouvi dizer a alguem que o pinheiral era um motivo que n„o dava nada na pintura, pela sua fÛrma, pela sua cÙr e pela sua uniformidade. N'essa occasi„o, n„o me quiz manifestar, eu n„o sou pintor e n„o queria cahir em erro deante de quem tinha obrigaÁ„o de conhecer o assumpto melhor do que eu, mas, c· para mim mantinha a minha opini„o formada; o pinheiro presta-se · pintura, a quest„o È sabel-o desenhar e pintar. E Loureiro com o seu quadro _Pinhal_ veiu completamente preencher a minha modesta opini„o. Alli, n'aquella tela esguia, sob a correcÁ„o impeccavel de desenho, erguem-se uns pinheiros, que parecem balanÁar sob a press„o do vento que passa assobiando na sua ramaria.
A _Feira Nova_--… uma delicada _pochade_ verdadeiramente caracteristica do que s„o as nossas feiras no Minho, sob barracas de lona branca, que se prendem aos troncos das arvores, com o borborinho de centos de lavradores e lavradeiras, acotovelando-se na furia de serem os primeiros a vÍr o que ha alli para vender.
A _Carvalheira_--Uma larga arvore de folhas amarellecidas que comeÁam a cahir sob o ventinho frio do inverno; È deliciosamente estudada.
E a _Desfolhada_, e a _Estrada do Gerez_ (sob a chuva), as _Alminhas_ e o _Caminho de Besteiros_--e todos elles, emfim, como s„o t„o verdadeiramente nossos, t„o sentidamente portuguezes, verdadeiramente minhotos, nos seus verdes inconfundiveis, na sua luz inimitavel.
Entre as tres _cabeÁas de estudo_, ha duas de uma velha, que s„o um encanto. TraÁadas na meticulosidade de pormenores, s„o feitas largamente com pulso de quem È um verdadeiro artista.
AlÈm dos trabalhos do mestre, que s„o como sempre magnificos, tomando uma das paredes do atelier, est„o os trabalhos do discipulo, do snr. Manoel Maria Lucio Junior, que ha unicamente um anno, estuda com Loureiro, desenho e pintura.
Aos meus collegas da imprensa, como que tem passado despercebido o trabalho d'este amador, que entra agora no nosso meio artistico. Ora eu, que inegavelmente sou o mais incompetente dos apreciadores dos quadros, sempre lhe quero dispensar duas linhas.
Manuel Lucio È um rapaz da nossa fina sociedade, que todos nÛs conhecemos como sendo um dos elegantes da nossa terra.
Durante muito tempo julguei-o um _bon vivant_, dedicando unicamente o seu espirito ao talho d'um _veston_ ou ao feitio de uma gravata. Um dia, porÈm, entrando a visitar Loureiro no seu atelier-escÛla encontrei l· este cavalheiro dando liÁ„o de desenho. Acabada a aula, Loureiro mostrou-me trabalhos de varios discipulos e abrindo uma arca artistica que elle ali tem, tirou de dentro varios desenhos e disse-me:--s„o feitos pelo Lucio, È um rapaz de habilidade.--E de facto os desenhos que elle apresentou, revelavam uma certa disposiÁ„o para a Arte.
Passaram-se tempos, o mestre foi para fÛra e ao voltar encontrou-se em frente d'um discipulo que lhe d· honra, porque Manuel Lucio, dotado d'uma vontade de ferro em conhecer o methodo de desenho e de pintura tem trabalhado denodadamente e tem conseguido com isso e com as bellas indicaÁıes do professor o que muitos com idas ao estrangeiro n„o tem conseguido.
Quatorze s„o os trabalhos expostos por este intelligente discipulo de Loureiro. Cinco trabalhos a oleo, cinco pasteis e quatro desenhos a lapis.
[Figura: D. Adelia Ramos : Discipula de Arthur Loureiro]
Entre os desenhos notarei _O Contador_, que È uma prova irrefutavel do modo como elle interpretou as noÁıes de perspectiva indicadas; na pintura a oleo notarei os _Cravos_ e um retalho de paisagem, onde as cÙres e os tons est„o bem achados, resaltando os planos da chateza vulgar, propria dos estudos de amadores.
Aonde porÈm eu admiro a disposiÁ„o artistica de Manuel Lucio È nos pasteis, especialisando uns _Effeitos d'agua_, um _Poente_ e um _Ceus nublados_.
Innegavelmente o discipulo d· honra ao mestre e o mestre deve estar orgulhoso por ter achado, quem t„o bem tenha sabido comprehendel-o e t„o sabiamente aproveite as suas indicaÁıes. E recebam os dous, mestre e discipulo a sincera express„o do meu applauso.
1903 a 1904.
XIX
AMADORES PORTUENSES
MANUEL MARIA LUCIO JUNIOR
Discipulo de ARTHUR LOUREIRO
O Arthur Loureiro È um velho rapaz, pintor d'alma e coraÁ„o, trabalhador infatigavel, cavaqueador ameno e interessante, amigo dedicado, e, acima de tudo isto, professor consciencioso e sabedor.
[Figura: MANUEL LUCIO no Atelier de ARTHUR LOUREIRO]
Ora eu, que gosto de passar bem o meu tempo, vou muitas vezes, e especialmente aos domingos, ao Palacio de Crystal, dar dous dedos de cavaco ao Arthur Loureiro, no seu delicado e interessante atelier. AppareÁo alli por volta da hora e meia. … quando elle acaba de dar liÁ„o ao Manuel Lucio, que, quasi sempre, quando eu entro ainda l· est· dentro, com a sua _blouse_ vestida, paleta em punho, dando as ultimas pinceladas no modelo que copia.
Outro dia, copiava elle uma velha; quando entrei, estava j· limpando os seus pinceis e a paleta para se ir embora.
Nas faces de Arthur Loureiro pairava um alegre sorriso de satisfaÁ„o.
Que se teria passado de extraordinario para que elle estivesse t„o sorridente?!... Alguma boa nova da familia ausente, ou grande bem estar na sua delicada saude?!... Talvez as duas coisas juntas!? Quem sabe?...
--Esperemos os acontecimentos, disse eu commigo, avido, no entretanto de conhecer o motivo d'aquella intima alegria. O que fÙr soar·, pensei, porque o Loureiro com a sua peculiar franqueza, n„o occulta por muito tempo o motivo que o faz estar assim satisfeito e alegre. E assim foi...
Mal o Lucio saiu, virou-se para mim e sem mais, disse-me, indicando a porta por onde saira:--… um discipulo que me ha-de dar honra, podes crer... Tem bastante disposiÁ„o e È muito applicado... Ha-de dar muito se continuar assim, e se se convencer que isto de pintura n„o se aprende em dous dias.
Queres vÍr? E sem esperar resposta levantou o tampo do seu divan-arca, saccou de l· de dentro uma pasta com desenhos e algumas pinturas a oleo, dizendo: s„o d'elle.
Eram de facto estudos que o Manuel Lucio tinha executado em casa, longe das vistas do professor, mas sob a orientaÁ„o e as liÁıes que o Loureiro lhe dava, proficua e sabiamente aproveitadas.
Era especialmente por isso, porque tinha encontrado, n'aquelles estudos que n'esse dia o discipulo trouxera · sua apreciaÁ„o, a boa vontade, a applicaÁ„o e a disposiÁ„o natural de que elle era dotado, que Loureiro alegremente se sorria.
E elle tinha raz„o. Manuel Lucio, que eu tinha por um exterior, um balofo, quando o via passar ostentosamente, as suas sobrecasacas talhadas pelos ultimos figurinos, as suas gravatas espaventosas e ricas, onde pousavam joias caras e os seus chapeus altos sempre muito polidos e muito lustrados, n„o era o que eu pensava.
Olhava-nos, parecia ter um ar sobranceiro de _enfant-gatÈ_, ou, como eu costumo dizer portuguesissimamente, _menino bonito_, e sentia-se por elle um quer que fosse, que obrigava a pÙl-o, com uma certa reserva, na devida distancia a que se pıem sempre os infatuados, que n„o valem nada e que julgam ser verdadeiras notabilidades. Era um juizo errado aquelle que eu fazia; reconheÁo agora que n„o o conhecia, e nunca lhe tinha encontrado nem podia encontrar predicados por que o admirasse. Estava de sobre-aviso a seu respeito.
Hoje, porÈm, ponho de parte essa opini„o errada que d'elle fazia e isso porque tendo acompanhado com grande interesse os estudos d'esse discipulo, e o seu aproveitamento n'aquella risonha escola d'Arte, que o bom Loureiro tem no seu interessante atelier dos jardins do Palacio de Crystal, e como o reconheÁo digno de ser notado entre os amadores que n'este momento ha pelo Porto, vou dedicar-lhe algumas palavras de incitamento, para que n„o esmoreÁa na empreza da Arte em que o seu bom gosto e as suas disposiÁıes artisticas o metteram. N„o pense, porÈm, Manuel Lucio que eu vou incensal-o louvaminheiramente; n„o, vou rapidamente em duas leves pennadas dedicar-lhe algumas palavras de elogio merecido e sincero.
[Figura: Marinha--MANUEL LUCIO]
Para isso, soccorro-me de alguns informes que Loureiro me deu e fallaremos os dous conjunctamente, eu pelo que tenho visto nas minhas visitas ao atelier-escola, e especialmente na ultima exposiÁ„o de trabalhos de discipulos, elle pelo que tem apurado do estudo que o discipulo tem feito e de como tem recebido salutarmente as suas sabias liÁıes. Comecemos pois.