Chapter 7
Depois, ha alli qualquer coisa a mais, e que infelizmente me entristece: È vÍr suspensas da m„o da Folia, como se fossem duas grandes bexigas, as mascaras da Russia e do Jap„o. N„o acho de grande intuiÁ„o artistica aquellas duas figuras n'aquelle logar. Quando duas grandes naÁıes se degladiam n'uma sangrentissima guerra, exquisito È que se aproveite esse caso para que, como n'um ridiculo de troÁa, a _Folia_ atira sobre a multid„o que se diverte com essas duas grandes figuras.
Mas... adeante; isso nem se discute.
O cartaz ahi est·! … o que o publico pÛde vÍr! Agora, o que o publico n„o pode vÍr, È o cartaz que apresentou Manoel Monterroso, e È pena, porque se o visse havia de convencer-se de que este, como ninguem, comprehendeu qual o verdadeiro caracter que devia ter o cartaz.
No cartaz d'este distincto amador, havia de tudo, bello desenho, cÙres retumbantes, e verdadeiro caracter portuguez.
Depois, a concepÁ„o era genial, d'um bello artista.
No seu trabalho, uma verdadeira caricatura carnavalesca, revelava-se mais uma vez o seu espirito fino e observador e o seu traÁo caracteristico e definido.
As figuras que elle apresentava, eram recrutadas no nosso meio, de genuina originalidade portugueza. Oh! mas esse n„o apparece.
[Figura: Cartaz--MANUEL MONTERROSO]
… que a commiss„o entendeu que devia premiar os dois e mandar executar sÛ um. E porque seria isto? Que entendedores fÙram os que determinaram resoluÁ„o t„o exotica? Porque n„o se far· a exposiÁ„o do outro cartaz?
Cumpre ao Club, antes de apparecer em publico com o seu cortejo, fazer afixar o cartaz de Manoel Monterroso; sem isso ter· dado uma prova de favoritismo, de preferencia a um artista, com o fim, talvez de amesquinhar outro. E isso n„o È de pessoas que dirigem um Club cuja divisa È--_Pelo Porto_!
Que appareÁa o cartaz de Monterroso, para que o publico o aprecie tal como elle merece, e para que se n„o fique julgando que o Carnaval ser· palido e desenchabido como o cartaz de Juli„o Machado.
E que o artista me desculpe, que eu n„o lhe quero mal. Venho unicamente, como um dos mais sinceros amigos do Club Fenianos Portuenses, pugnar pelo bom nome do mesmo e pelo interesse do meu querido Porto, que se prepara briosamente para receber os milhares de forasteiros que ahi vir„o assistir ao carnaval, que deve ser maravilhoso.
Janeiro de 1905.
Nota--E o Club, depois do meu repto, deixou-se ficar muito calladinho com o cartaz de Monterroso e n„o o afixou. _O Janeiro_, porÈm, na TerÁa feira de Entrudo, em illustraÁıes do dia, deu-o em traÁo ligeiro. Apesar d'isso, eu, mais meticuloso e mais pratico, aproveito esta occasi„o para fazer inserir n'este logar os dous cartazes. Assim, o leitor ver· a justiÁa de meus dizeres e a sinceridade com que eu tracei estas ligeirissimas linhas. Elles ahi ficam expostos e o publico que os julgue como entender.
XVI
NA CRUZ
Quadro de JULIO COSTA
Eis ahi duas singelas palavras que envolvem um grandioso poema de dÙr, porque exprimem o final d'esse drama de soffrimento que passou Christo.
E o pintor portuense Julio Costa, com o seu muito talento artistico, conseguiu transportar · tela todo esse sentimento, realisando um quadro que por si sÛ bastaria para fazer um nome, se elle de ha muito n„o estivesse feito.
Esse quadro, estudado com um carinho adoravel de pintor de raÁa, com seus laivos de poeta lyrico, È admiravel de execuÁ„o e representa Christo no momento em que, erguendo ao ceu o olhar, dizia:--´Perdoai-lhes, Senhor, que elles n„o sabem o que fazemª.
N'uma bem lanÁada cruz, que se destaca, em todo aquelle fundo tenebroso da noute tragica do Calvario, pende, deliciosamente desenhado, e admiravelmente tratado, um Christo que nos chama o olhar, n'uma contemplaÁ„o muda de admiraÁ„o e respeito.
Que de cousas sentenciosas se poderiam dizer da sua execuÁ„o? Mas para que fazel-o, se o publico conhece bem o merito artistico do nosso amigo?
E a Camara Municipal do Porto, que parece querer agora fazer qualquer cousa de bom a bem da arte portugueza, acaba de adquirir este bello trabalho, para o museu municipal.
Quando os nossos leitores poderem admirar mais este soberbo quadro de Julio Costa, h„o de reconhecer que a apreciaÁ„o que d'elle faÁo nada tem de exagerada.
[Figura: Na Cruz--Quadro de JULIO COSTA]
1902.
XVII
AMADORES PORTUENSES
D. MARGARIDA RAMALHO
Discipula de JULIO COSTA
Tendo que traÁar algumas ligeiras palavras, para as Notas d'Arte, a respeito d'uma senhora, que, como amadora, se torna notavel na pintura, devo pedir venia, e formando um bello arco com lyrios e rozas enfeitar esta pagina. Depois, respeitosamente, com um certo ar · Antiga, pondo um pÈ atraz, fazer uma reverencia o mais gentilmente que possa, e estendendo a minha forte e grossa m„o de trabalhador honesto, pegar levemente nos dedos finos da delicada m„o d'essa senhora, e levando-a fidalgamente aos labios, beijar-lh'a, pedindo-lhe licenÁa para lhe dedicar duas phrases desataviadas, n'um pequenino artigo sobre o seu valor como amadora de pintura.
Ella, sorrindo, naturalmente dir· que sim, e ent„o eu comeÁarei a escrever, cheio d'aquelle doce encanto que nos vem d'esses olhos vivos e d'um rosto lindo.
[Figura: D. Margarida Ramalho]
E que isto v· sem ar de madrigal, porque estou velho de mais j· para isso, e muito especialmente porque eu j· n„o sou sÛ... Adeante!...
Comecemos pois, nada de perder tempo em rebuscamentos de estylo.
Dentre a multid„o enorme de amadores de pintura, multid„o cujo calculo È impossivel fazer, ha alguns, n„o muitos que merecem especial menÁ„o, e que devem passar n'estas simples Notas d'Arte ao lado dos verdadeiros artistas, como affirmaÁ„o de que o talento, acaba por n„o distinguir uns dos outros.
N„o pense o leitor que eu vou transplantar para aqui, todos os amadores de talento que ha na cidade da Virgem. Isso seria impossivel.
Vou apenas apresentar-vos uns dous ou tres, com incitamentos para os outros.
E a aprezentaÁ„o d'estes amadores, visa a dous fins:--animar os alumnos, na esperanÁa de se verem glorificados um dia publicamente, em lettra redonda e excitar os professores para que desde que encontrem nos seus discipulos aptidıes para o desenho e para a pintura, ou esculptura, os obriguem a destacar-se no nosso meio artistico.
N„o devem portanto, os que n„o apparecem n'este livro, vÍr da minha parte, n'esta falta, o desejo de os n„o notar. N„o, n„o È assim; È que nos limites d'este volume n„o cabem todos, e por isso sÛ aqui aparecem aquelles com quem mais em contacto estou e de quem mais de perto conheÁo as obras.
Se algum dia porÈm eu voltar a publicar outro volume como este, ent„o dedicar-lhes-hei uma grande parte d'elle e alli apparecer„o todos os amadores, que o mereÁam, est· bem de ver.
E, n„o me deixava eu alargar por ahi abaixo em salamalekes para os amadores da pintura, sem me lembrar, quasi, que tinha que dedicar estas paginas a uma senhora?
Queira V. Ex.^a desculpar, minha senhora, e entremos no nosso assumpto.
--Como foi que eu conheci pessoalmente esta senhora, que de ha muito conhecia de nome?
Vou explical-o.
¡s noutes reuno-me muitas vezes com o velho amigo Julio Costa e discutimos muitos e variados casos. Entre essas conversas muitas vezes nos entretemos a fallar de Arte. N'uma d'essas occasiıes, discutindo aptidıes de alumnos, Julio Costa fallou-me largamente d'esta sua discipula, que mostrava uma disposiÁ„o especial definida para a pintura.
Era, n„o uma d'estas senhoras, que se prendeu em simples bibelotagem d'Arte, mas, que, uma vez dada a estudar, queria ir para deante.
Julio Costa afeiÁoou-se a esta discipula e dedica-lhe uma especial estima.
Uma noute, depois d'uma d'essas conversas muito vulgares entre nÛs, disse-me Julio Costa:--VocÍ sabe, Lemos, fallei em si e na conversa d'hontem · minha discipula de Mattosinhos e manifestei-lhe o desejo que vocÍ tinha de visitar o seu pequenino atelier.
--E ella que disse?
--Que poderia ir quando quizesse, que bastava eu ter-lhe dito que tinha vontade que vocÍ visse os seus trabalhos, para immediatamente consentir; que eu, como professor, n„o lhe teria fallado n'ella, se n„o visse que ella tinha qualquer pequena coisa que merece apenas sÛ vÍr-se. E, confessava-me o Julio Costa: dizia isto t„o cheia de modestia t„o encantadoramente, que vocÍ deve l· ir e muito breve.
--Pois vou l· no domingo. E fui. Era meio dia, quando me apeei do electrico, na alameda de Mattosinhos, mesmo · porta da caza onde mora D. Margarida Ramalho.
A caza, com um doce aspecto de frescura, fica alcandorada um pouco acima do nivel da estrada, circundada por um jardimsito bem tractado e onde se ostentam bellas flores.
Das janellas desfructa-se o rio LeÁa, que indolentemente se espreguiÁa, n'um _dulce far niente_, atÈ desaguar l· ao longe no mar, em Leixıes. E, quasi em frente das janellas, na alameda, entre a frondosa ramaria das arvores, a figura de Passos Manuel impassivel e serena, n'uma atitude de resignado ante a aluvi„o de zang„os, que por este tempo de ver„o se encarregam de zumbir de volta d'elle, como os _Passos_ d'hoje zumbem em volta da sua _Memoria_.
Perdoe-me a gentil senhora, mas ao apear-me do electrico e ao olhar para aquella figura, fiz estas mesmas consideraÁıes.
Pois bem, logo que cheguei subi ao jardim e bati docemente · porta. Veio abrir-m'a uma creadita loura, d'um louro acastanhado.
Perguntei se D. Margarida estava e entreguei o meu cart„o de visita.
Voltou dentro em pouco dizendo que sim, que podia passar · sala. Entrei. D. Margarida n„o se fez esperar. … uma senhora nova, baixinha, magrinha e muito loira, interessante como um lindo _biscuit_. Recebeu-me o mais amavelmente possivel. PeÁo-lhe desculpa do meu atrevimento mas o Julio Costa tinha me fallado d'ella com tanto interesse, que tinha immediatamente feito nascer no meu espirito de admirador do bello, procurar ensejo de ir ver os seus deliciosos quadros.
Eram favores, do seu professor, dizia ella. Mas j· que tinha vindo ent„o sempre ia mostrar-me os seus trabalhos.
Entrei no atelier, um recantosinho alegre onde ella estuda os seus assumptos e onde os pıe em execuÁ„o, depois de ter em pleno ar livre, feito os esquissos e os precizos estudos.
[Figura: Castanheira--D. MARGARIDA RAMALHO]
… no atelier que ella tem os seus melhores trabalhos, pousados artisticamente pelas paredes, todos elles com magnificas qualidades de cÙr.
Aqui, È um quadro representando uma rapariga · porta d'uma taverna, com uma assadeira de castanhas, n'um taboleiro, castanhas j· assadas, e n'um cesto ao lado maÁ„s. No fogareiro da assadeira ainda restos de lume. A rapariga, d'uns doze annos, olhos azues, cabello louro, poderiamos dizer dourado. Uma express„o dolente, um ar pensativo e triste, talvez, quem sabe? com receio de que n„o appareÁam freguezes e ella tenha que levar tudo aquillo para casa, sem ter apurado vintem. Por detraz d'ella, vÍ-se uma grande pipa j· vazia, no fundo escuro. … um quadro bem tratado, cheio de um intimo sentimento. Alli, uma _CabeÁa de velho_, de barba branca amarellada e chapeu largo, È verdadeiramente interessante, feito com proficiencia, destaca deliciosamente da tela, e sente-se, que se a aragem passasse um pouco forte, aquella barba ondularia fluente e suave. Mais alem, n'uma boa e s„ frescura, de moÁa sadia, uma _Rapariga de Villar d'Andorinho_, com o seu typico chapeu de maÁanetas pretas, irradia vida e cÙr.
Outros mais ainda, mas como nota final d'este recinto, um delicioso quadro que intitularei _Volta da fonte_. Uma rapariga muito esguia e muito fina desce uma rampa trazendo ao hombro um cantaro cheio de agua e isto por um sentimental fim de tarde.
Em todos estes trabalhos se denota uma perfeita orientaÁ„o, um serio estudo. VÍ-se que D. Margarida Ramalho n„o È uma amadora vulgar, que se atira inconscientemente a executar a pintura, sem primeiro a ter estudado conscienciosamente. Alli ha valores, tonalidades, tons e meios tons, perspectiva, desenho, arte emfim.
[Figura: CabeÁa de velho--D. MARGARIDA RAMALHO]
SaÌ do lindo atelier depois de demorada vizita, e de agradavel conversa por onde pude concluir que havia j· 7 annos que estudava. Subindo a escada, no patamar encontram-se os seus primeiros estudos em dezenho, dos quaes destacarei como mais notaveis um _Perfil de Mulher_ e uma _CabeÁa de express„o_, de guerreiro. A todos esses trabalhos liga esta amadora uma especial predileÁ„o. A convite da illustre amadora entrei depois no seu _boudoir_, cheio do mais profundo respeito. Este quarto, mobilado com simplicidade, mas fino gosto, mereceu a minha attenÁ„o porque as suas paredes s„o decoradas delicadamente pela sua habitante.
N'um enlevado sentimento de amor pela Arte, D. Margarida Ramalho, entendeu e muito bem, que no seu quarto de dormir ella devia reunir e patentear aos seus olhos alguma coiza que saindo do seu esforÁo artistico constantemente lhe desse um doce effluvio emotivo e agradavel, e ent„o traÁou em largos _panneaux_, com os seus finos pinceis, deliciosas artemizias e frescas e orvalhadas rozas. Um verdadeiro encanto. Ao tecto deu o collorido azul duma suave atmosphera, como um vago sonhar do ceu. E sobre a cabeceira do seu leito pintou uma linda composiÁ„o d'aquellas bellas flores--bons dias e boas noites, dentre as quaes pende um formozo Christo de marfim.
Quando o quarto estava completamente pintado, D. Margarida pediu ao seu professor que lhe pintasse alli qual couza que podesse, dizia ella, dar um ar de grandeza ·quellas pobres flores. E Julio Costa, querendo ser agradavel · sua discipula porque vÍ n'ella uma verdadeira fanatica da Arte, e muito e muito a estima, pintou ent„o n'um v„o escuro da janella, um _Fim de tarde_. Numa larga planicie arida e muito extensa, l· ao fundo, o sol cae, e ao esconder-se deixa um tom alaranjado, donde saem fortes e espalhados raios dum vermelho intenso.
E D. Margarida conta-nos tudo isto timidamente. Porque ella È uma timida. Tem um grande respeito pela Arte e esse respeito cria-lhe uma indiscriptivel duvida sobre o seu poder executante d'obras de largo folego.
Fallei-lhe de trabalhos que conhecia de varios pintores e ella, como que se alterava, quando eu lhe dizia, que a achava com forÁas de tentar obras assim, e sÛ me respondia: Est· enganado, eu sei l· fazer tanto!... E apesar disso os seus trabalhos demonstram bem o contrario.
… vulgar, segundo me diz o Julio Costa, ao apresentar-lhe um assumpto para tractar, ella dizer-lhe: Eu n„o faÁo isso, porque È muito difficil, muito difficil. Depois, principia a desenhar cheia dum grande escrupulo, sempre com medo de errar, chegando ao fim e tendo executado o desenho e depois a pintura em equilibrio muito estimavel e mesmo muito notavel.
E ella faz isto tudo, porque admira intimamente a Arte e È uma doce adoradora do Bello.
N„o se atreve ao mais difficil, sem consideraÁ„o, sem respeito, treme ante o mais modesto e o mais singelo trabalho, e por isso consegue ser notavel entre os amadores de pintura.
Tinha feito a minha agradavel vizita e ia despedir-me, quando ao passar pela sala de visitas notei um bello piano. Atrevi mais uma pergunta:--Era ella tambem a amadora?... Era, e executando com talento. Rogada ent„o para se fazer ouvir, descerrou o piano, passou suavemente os dedos pelo teclado e soltou l· de dentro um primoroso _Nocturno de Chopin_, que me deixou no espirito a nota viva do seu grande amor · Musica. D. Margarida È uma _virtuose doublÈ_ de pianista e pintora.
Disse-lhe adeus, e ao saÌr para tomar o electrico que me trouxesse ao Porto, abenÁoava o Julio Costa, que tinha conseguido que eu passasse duas horas deliciosamente.
[Figura: Impress„o de Paris--CANDIDO da CUNHA]
XVIII
Novos quadros de ARTUR LOUREIRO
I
NO SEU ATELIER do PALACIO de CRYSTAL
Os quadros que n'este momento se acham expostos no _atelier_ do delicado artista Arthur Loureiro, devem ser vistos com attenÁ„o, porque esses trabalhos fazem resaltar rapidamente todo o segredo emotivo. N„o s„o como certos quadros que precisam para serem comprehendidos uma intuiÁ„o especial e definida. N„o, nas telas de Loureiro logo nos resalta clara e ridente a verdade, tendo o grandioso merito de se incutirem no nosso espirito pelo espectaculo de linhas e de cÙres harmoniosas, de leves sensaÁıes, lembranÁas e sonhos que se misturam pouco a pouco com o prazer da impress„o visual.
[Figura: ARTHUR LOUREIRO]
Arthur Loureiro, inegavelmente, È um grande artista, e embora alguem n„o goste d'isso, È d'aquelles que aferrado ao seu trabalho lucta lealmente, sinceramente, na ideia firme e correcta de mostrar que sabe e que tem fundos recursos para grandes e luminosos emprehendimentos.
Loureiro, embora o julguem um triste, um melancholico, n„o È d'aquelles que preferem o aroma resinoso dos bosques e o perfume das flores, na doÁura d'um crepusculo, na hora em que a nossa alma sobe tristemente ·s regiıes do ideal, e que os objectos se descoram e a paisagem toma uma attitude recolhida e quieta!... N„o, elle verdadeiro filho do norte, onde as raparigas, vermelhas como rom„s e os rapazes, valentes como heroes, cantam poemas sublimes de amor e de luz, n'uma musica altisonante e harmoniosamente alegre, elle, ama mais o grande sol de luz intensa e forte e o sussuro que nos d· a nitida impress„o da vida e do trabalho.
E tudo isso se vÍ nos seus quadros, n'esses cincoenta trabalhos expostos, que s„o, como j· o disse um meu collega da imprensa, como que provas definidas para um concurso de Arte. Com aquelles documentos, Loureiro affirma que em todos os generos de pintura È um mestre. No retrato, na paisagem, na marinha, no estudo d'animaes, no genero decorativo, em todos elles o nosso artista se nos apresenta verdadeiramente grande. E sen„o, · _vol d'oiseau_, rapidamente, vejamos: _Os tigres_ que anatomia e que correcÁ„o; como se desenha t„o nitida e t„o visivelmente o traÁo de todo aquelle animal n'uma postura molle de traiÁ„o e de forÁa. Como vemos atravÈs d'aquelle olhar felino e do aveludado da sua garra, a indole perversa que d'elle se acolhe. E com que verdade est„o tractados aquelles olhos brilhantes e magoadores, d'um outro, que por traz do que est· no primeiro plano, parecem fitar o espectador, na esperanÁa de filal-o, n'um salto rapido e traiÁoeiro. … inegavelmente um d'estes trabalhos que sÛ por si fazem o nome laureado a um artista.
_Estudo decorativo_. Simplesmente soberbo e encantador. Entre flores, envolvendo-se n'um veu de gaze transparente e lucido, sae como uma deslumbrante rosa, toda viÁo e frescura, uma linda creanÁa, encantadora e meiga como um anjo, tendo na m„o uma haste de flores-_saudades_. N'um fundo rutilante de luz, como na aureola ridente d'uma fresca manh„ de Agosto, destaca essa linda figura. E como foi desenhada e como foi executada. Alma de poeta, d'esses poetas que cantam as manh„s claras do sol e os rostos lindos das raparigas, foi a que concebeu aquelle quadro e que o executou. Nada mais...
_O retrato do Chico Anthero_.--Perd„o, doutor, tratal-o assim, mas, francamente, quando olhei para o seu retrato n„o pude respeital-o e pedi-lhe que contasse uma d'aquellas suas historietas. N„o contou, mas È tal a semelhanÁa, tal a express„o, t„o seu aquelle modo e t„o psychologicamente estudado aquelle quadro que me pareceu mesmo ouvil-o a larachear e a rir. … um primor de execuÁ„o, È um assombro de correcÁ„o.
[Figura: Retrato de S· d'Albergaria--Pintado por ARTHUR LOUREIRO]
_Retrato do dr. Julio de Mattos_.--Bello trabalho feito na largueza subtil d'um quadro d'arte, n„o com a preoccupaÁ„o d'um retrato para galeria de definidores da ordem terceira, mas um retrato intimo, que temos no nosso gabinete de trabalho, ou no nosso quarto, retrato para nÛs, para consolo da nossa alma e dos nossos. Tal È o retrato do dr. Julio de Mattos, que incompleto como est·, j· mostra que ha-de ser um quadro t„o bello, t„o bem feito como o do _Chico Anthero_.
_O retrato do dr. Magalh„es de Lemos_ tambem È um bello trabalho.
Ha mais dois retratos de senhora, dois estudos, como Loureiro lhe chamou, mas que s„o dous primores. Loureiro adoptou para os seus retratos uma fÛrma e um tamanho especial o que lhe d· uma gracilidade gentil e meiga, deixem-me assim dizer.
Em quanto · _Paisagem_ muito teria que dizer se podesse alargar este artigo, mas como me n„o È possivel n'este momento, limito-me a fallar dos seguintes quadros:
_Rua do Meio_.--Da vulgaridade d'uma rua, com casas de um lado e d'outro, e uma egreja no primeiro plano, teve Loureiro a habilidade de fazer um dos seus para mim mais interessantes quadros.--E porque? perguntar· o leitor. Outro qualquer o faria...--Mas n„o fazia. Para isso È preciso saber-se vÍr e vÍr muito bem, conhecer mil pequenas cousas e transplantal-as para a tela com uma especial pericia e arte... d'onde se conclue que aquella rua n„o È como n„o È uma coisa chata, sem relevo. Aquella rua È um quadro e dos mais interessantes.
_Montanhas da Galliza, Corgo, Monte de Santa Tecla, Alto de Santo Antonio, Barra de Caminha_. Tudo isto s„o retalhos sublimes da natureza, que Loureiro transplantou · tela com uma verdade flagrante e uma technica segura.
Fecho por aqui este meu despretencioso artigo fazendo apenas uma leve consideraÁ„o. Ha no nosso Muzeu quadros de quasi todos os pintores portuenses, mas n„o vimos ainda l· nenhum de Arthur Loureiro. Agora, como nunca ha occasi„o para que a Camara do Porto, que parece se interessa um pouco pelas cousas d'Arte da nossa terra, compre um quadro a Loureiro para o Muzeu Municipal.
E porque n„o ha-de fazel-o!?... Tem este artista dois quadros que est„o a pedir transplantaÁ„o para logar, onde todos os possam apreciar condignamente e s„o: os _Tigres_ ou _Por montes e vales_.
Cumpre · camara do Porto este dever de gratid„o para com o artista distincto, que apÛs 20 annos de ausencia, volta a Portugal cheio de Arte a glorificar-nos com os seus trabalhos.
II
ARTHUR LOUREIRO e os seus discipulos
Nada ha que mais me enthusiasme e me anime, do que saber que ainda ha, quem, dentro da esphera da Arte, tenha iniciativas e emprehendimentos de coisas uteis e aproveitaveis, sem mira a vanglorias ou a fabulosos lucros, unica e exclusivamente pela Arte.
Ha annos, todo eu me enthusiasmei, quando meia duzia de artistas, homens de lettras e amadores, tentaram crear no Porto uma sociedade de Arte, que infelizmente, como todas as coisas uteis, cahiu ao tentar elevar-se; digo mais, morreu de morte affrontosa ao nascer.
Depois, perante a iniciativa do Instituto de Estudos e Conferencias, que parecia vir dar a nota correcta de que as exposiÁıes d'Arte seriam verdadeiros concursos de trabalhos definidos de artistas, tambem me enthusiasmei, porque imaginei que, com os elementos de que elle dispunha poderia fazer muito melhor do que o que tem feito, se bem que tenha feito alguma coisa.
Apparece depois um sr. Magalh„es, que n„o conheÁo, em communicados nas gazetas, a dizer verdades amargas a respeito do Palacio de Crystal e a reclamar para aquellas duas alas lateraes, que foram em tempo bazares, escÛlas de pintura, de lavores femininos, etc., emfim, reclamando o aproveitamento d'aqnelles dois esplendidos _atelieres_ em alguma coisa de util para a Arte... Mas, infelizmente as verdades que o sr. Magalh„es dizia, ficaram perdidas como perolas em chiqueiro de porcos, porque a gerencia do Palacio de Crystal achou mais util tel-os assim vasios, do que aproveitados em _qualquer coisa_... Assim, podia em noites de _spleen_, passear n'ellas, como a sombra do Hamlet, sem tropeÁar em qualquer coisa que tornasse o Palacio interessante ao publico, mais do que os macacos e o sr. Vieira da Cruz!... E essa idÈa, como era boa, morreu, n'um significativo desprezo por parte dos interessados no rejuvenescimento do Palacio de Crystal.