Chapter 6
D'entre todas essas telas destacarei para mim como a mais subtilmente inspirativa--_Christo lamentando Jerusalem_, de linhas definidas embora, em esquicio, de uma concepÁ„o bella, d'um effeito sentimental e de uma suave express„o.
_Os cuidados de m„e_, que eu j· conhecia, s„o um estudo de interior que revela muito saber e muita observaÁ„o.
_O fim da tarde_, delicioso poente, onde o cÈu tingindo-se de vermelho, d· ao quadro uma inspiraÁ„o suave do quer que seja de poesia lyrica.
_No limiar da porta_, bella cabeÁa de rapariga, d'um olhar aveludado e triste, de quem espera por alguem; talvez pelo seu namorado.
No _CabeÁa de rapariga bret„_, ha a mesma serenidade que no _Limiar_.
_Um caminho_, È um bello retalho de aldeia, um caminhosito tortuoso coberto por uma frondosa ramaria. Appetece descanÁar um pouco, ali, apÛs um largo passeio.
_Os casebres de Alfena_, _O lavadouro_ (Guisec), _AÁudes_ (Vizella), _Ribeira de Pont d'AbbÈ_, e mais outros ainda, s„o manchas tocadas com primor e com muita proficiencia.
_Os pequenos marinheiros_, È um quadro onde se revela d'uma maneira accentuadamente definida a disposiÁ„o que Thomaz de Moura tem para a figura. Os dous rapazes est„o perfeitamente desenhados e sahem da tela accentuadamente.
Ha um quadrosito tambem notavel, È o _Nos campos_, um pequeno sentado sobre a relva parece desfolhar malmequeres emquanto ao fundo, sob um traÁo de luz, pastam dous mansos bois, È inegavelmente um dos mais apreciaveis trabalhos expostos.
Mais largo poderia e deveria ser este _compte-rendu_ da exposiÁ„o, mas eu prometti apenas uma ligeira noticia, e as minhas aptidıes criticas n„o d„o para mais.
E ao acabar permitta-me Thomaz de Moura, que lhe signifique n'estas rapidas linhas a magnifica impress„o que me deixou a visita que fiz · sua exposiÁ„o.
1904.
[Figura: Panneaux decorativo na Sala da Bolsa no Porto--VELLOSO SALGADO]
XIII
AMADORES PORTUENSES
D. JOANNA ANDRESSEN SILVA
Sinceramente e no mais grato dos respeitos vou deixar em breves linhas as minhas impressıes sobre o merito artistico d'esta illustre senhora, amadora distincta d'esculptura, illustre pelo talento e pela fidalguia do caracter, um caracter d'oiro, propenso ao bem, cheio de fÈ e de bondade.
[Figura: D. Joanna Andressen Silva]
Eu sei que biographar um amador È trabalho de certo folego, muito especialmente quando o amador È distincto, como esta illustre senhora; mas eu n„o venho com mais largas ideias que fazer uma simples resenha dos seus trabalhos, resenha esta que servir· ao mesmo tempo de ligeira nota de carteira da visita que fiz ha dias ao seu atelier. A isso, sÛ a isso, me abalanÁo, convencido de que cumprindo um dever de cortezia presto ao publico, ao que aprecia as manifestaÁıes d'Arte, um interessante e util favor.
N„o me alargarei em detalhes minuciosos do grande problema--a _Arte_. Rapidamente, aqui e alli, tocarei aquellas notas, que veja de mais necessidade ferir, para completo comprehendimento do assumpto.
N'esta altura, cabia perfeitamente, como preambulo a estes _pseudo-perfis_, uma larga tirada sobre _Escolas d'Arte_, _EvoluÁıes da Arte_, _Variedade de gostos artisticos_, _Papel moral da Arte_, etc. N„o enveredarei por esse caminho, deixo esse estudo aos outros, aos que com mais direito e mais conhecimentos possam fallar do assumpto.
Sou apenas uma especie de _reporter artistico_, que vem sempre que d'isso tem occasi„o, trazer a noticia d'um amador que se torna notado, d'um artista que est· em fÛco, d'um atelier que se recommenda pela sua disposiÁ„o e pelo _recheio_, e d'um _salon_ que se abre em exposiÁ„o de trabalhos _isolados_ ou _collectivos_.
[Figura: Sal„o do palacete de D. Joanna Andressen Silva]
Feitas as precisas explicaÁıes, vou dar principio · minha singela narraÁ„o, sem balofas adjectivaÁıes e sem assumir o ar solemne e grave de _Pater Magister_. Serei simples e breve como convem aos que escrevem para todos: para os que se embrenham nos profundos e intrincados problemas sociaes e artisticos e para aquelles que sÛ sabem ler. Farei portanto todo o possivel para que facilmente me faÁa compreender e alguma coisa de util, traga, ao fim, em bem da Arte.
Foi n'uma manh„ formosissima, de sol forte e claro que fiz a minha primeira visita ao atelier da Ex.^{ma} Snr.^a D. Joanna Leheman Andressen Silva.
Ao fundo da Rua Antonio Cardoso, rua que partindo da formosa Avenida da Boa-Vista, vae findar no Campo Alegre, fica o sumptuoso palacete onde reside esta talentosa amadora. A vivenda sÛ em si È um encanto. A bella casa, circumdada de formosos parques e jardins, tem um aspecto grandioso e rico que se impıe. Os jardins e o parque que a rodeiam s„o deliciosos trechos onde as musas predilectas bafejam e inspiram os menos lyricos a compor deliciosas bucolicas e onde os menos artistas encontram retalhos de paisagem encantadora e suggestiva para transplantar · tela. Eu n„o posso fallar d'essa paisagem adoravel que me n„o sinta enlevado pelos seus encantos naturaes. Como È bello tudo quanto d'alli se avista! Como È soberbo todo esse quadro immenso, cheio de vida e de luz, deixando-nos apreciar por momentos o bulicio da cidade, a serenidade das aguas do Douro, que serpeia l· em baixo, a agitaÁ„o continua do mar, cujas ondas se vem ao longe n'um revolutear continuo, e a tranquilidade da vida alde„, que se adivinha com as primeiras casinhas que se descobrem do outro lado, no Monte das Ch„s!...
[Figura: Canto do Atelier]
Transpostos o jardim e o parque entra-se n'uma ampla galeria, onde, _bibelots_ caros e artisticos se juntam n'uma delicada confus„o que contrasta com o fino do mobiliario e a riqueza das tapeÁarias. Apenas alli introduzido, logo me appareceu a distincta amadora, cheia de attenÁıes e cuidados que encantam, convidando-me a visitar o seu atelier. Acedi da melhor vontade e caminhei vagarosamente encantado pela conversa fluente e interessante da illustre senhora que tem a alma d'uma fina artista e a virtude d'uma delicada e cuidadosa dona de casa.
N'essa passagem atravez de todo o interior formoso e confortavel da habitaÁ„o, passagem que fiz com a religiosa uncÁ„o de quem visita um museu intimo, tive a grata ventura de pousar a vista em admiraveis trabalhos de Antonio Teixeira Lopes, Marques d'Oliveira, Julio Costa, Julio Ramos, Candido da Cunha e muitos outros, e entre estes alguns dos mais consagrados artistas estrangeiros.
[Figura: Busto de mademoiselle Eliza Andressen]
E tudo isto, todo este batalh„o de Arte se espalha pela casa, gentilmente, nos seus logares proprios, n'uma bem estudada escolha de luz.
Entramos na sala de jantar depois de termos atravessado o sal„o de baile. Maravilhou-me a magnificencia das pratas, das louÁas e dos crystaes, mas acima de tudo a confecÁ„o e o estylo do mobiliario. Avancei uma pergunta:---´Quem fÙra o auctor d'aquella maravilha? Quem a desenhara?ª
E a distincta amadora, sorrindo, contou-me a historia d'aquella mobilia, dizendo n'uma adoravel simplicidade que para a sua execuÁ„o fizera dous desenhos; um era aquelle, o outro, mais decorativo, mais cheio de flores, fÙra posto de parte porque seu primeiro marido n„o gostara d'elle.--´E eu tambemª, concluiu a illustre amadora.
Assim devia ser, porque, por mais formoso que o outro fÙsse, aquelle desenho que alli estava, com certeza o havia de supplantar, porque È uma verdadeira maravilha de Arte, quer em concepÁ„o, quer em execuÁ„o.
Em seguida atravessamos o jardim, onde brincavam os filhinhos de D. Joanna, e passamos ao atelier. … este construido sob a sombra protectora e amiga d'algumas bellas arvores; banha-o de luz intensissima uma larga janella que l· do alto se abre para a estrada.
Uma vez alli dentro, analisei detidamente tudo o que l· se achava, desde o mais insignificante desenho atÈ · mais bem lanÁada esculptura, desde a mais pequena revista atÈ ao mais precioso livro de Arte. E apoz isto, entrei n'um largo inquerito. Sentados n'uns artisticos escabelos, conversamos um pouco sobre arte, discutimos escolas e processos, analisamos rapidamente trabalhos que conheciamos de memoria e por ultimo fallamos da educaÁ„o artistica da nossa gente. N'esta altura averiguei que D. Joanna desde creanÁa revelara uma grande disposiÁ„o para a esculptura.
Seu pae, um bom e honrado negociante allem„o, que viera para o Porto estabelecer-se, pratico como era, costumava brindar seus filhos com livros de desenho, que mandava vir d'Allemanha. D. Joanna toda se enthusiasmava com esses brindes, que collecionava cuidadosamente e d'onde fazia copias para estudos, revelando desde essa epocha uma vocaÁ„o especial para o desenho.
[Figura: Busto de mademoiselle Ramos Pinto]
Quando menina teve como professora Madame Bizarro, que bem conhecida foi no Porto pelos seus trabalhos em miniatura e bordados.
Foi, portanto, sob a direcÁ„o d'esta desenhista correcta e sabedora que ella comeÁou a seguir verdadeiramente o caminho da Arte. Depois, foi por algum tempo para a Allemanha, e ahi, vivendo na intimidade da familia Katzenstein, teve occasi„o de acompanhar muito de perto e receber mesmo indicaÁıes utilissimas do conhecido pintor Katzenstein, irm„o do Consul d'Allemanha n'esta cidade. Durante essa epocha D. Joanna amavelmente _pousou_ para modelo de algumas das figuras dos quadros d'esse excellente artista, j· por vezes devidamente apreciado no Porto, por quadros de certo merecimento artistico, que tem exposto em varios certamens a que tem concorrido.
Com estes dois impulsionadores, Madame Bizarro e Katzenstein, D. Joanna volta a Portugal, cheia d'uma grande boa vontade de ser alguma coisa mais do que a vulgaridade no nosso meio artistico. E para isso chama para lhe completar a educaÁ„o d'arte dous dos mais notaveis artistas e mais insignes professores: Marques d'Oliveira, o paisagista sabedor e poetico e Teixeira Lopes o genial estatuario, cujo nome È uma verdadeira gloria da Arte Nacional.
E, recebendo liÁıes d'um e d'outro com um aproveitamento pouco vulgar, D. Joanna revela-se n„o uma amadora distincta, mas uma distinctissima artista. Affirmam-no exuberantemente os seus trabalhos, internecedores pelo encanto com que s„o concebidos e executados.
[Figura: Busto de Mademoiselle Maria Joanna Andressen]
D'alguns d'esses magnificos trabalhos v„o aqui photogravuras, pelas quaes facilmente se vÍ que aquillo que affirmo n„o È sen„o a sentida express„o da verdade. Na photogravura _Recanto de atelier_, ha uma figurita sobre a meza, _maquette_ de um trabalho em tamanho natural, e que se intitula _Rapaz jogando a malha_, que È um assombro de bem executado.
Entre os gessos que ornam o atelier ha um que merece especial mens„o. … um _Christo na Cruz_ original do grande e saudoso Soares dos Reis.
Nos trabalhos de D. Joanna salientam-se duas _CabeÁas de rapazes_, bustos de dois filhos seus, mas dos quaes por motivos especiaes n„o pude obter photographia.
Parecer· ao leitor que quem executa t„o bellos trabalhos n„o necessita mais de professor; n„o o entende assim D. Joanna e, n'essas condiÁıes, como quer ser tambem alem de esculptura uma pintora distincta, ouve e recebe orientaÁıes e liÁıes do velho Costa, o meu querido amigo Antonio JosÈ da Costa, o artista que mais linda e sabiamente pinta flores em Portugal.
… desnecessario proseguir. J· fica dito o bastante sobre as impressıes recebidas na primeira visita que fiz ao atelier de D. Joanna Leheman Andressen Silva, n'essa manh„ deliciosa, de que conservo as mais gratas recordaÁıes, n„o sÛ pelo prazer de avaliar de perto os superiores trabalhos d'essa illustre amadora, mas muito especialmente pelas preclaras virtudes do seu caracter delicado e requintadamente attencioso.
Ficarei por aqui, convencido de que a critica sincera e desapaixonada, dos Mestres d'esta boa terra portugueza, hade dizer mais e melhor, sobre os meritos artisticos da illustre senhora a quem acabo de referir-me, quando um dia tiver de apreciar devidamente os seus trabalhos.
[Figura: Guarda fiel--ANTONIO JOS… da COSTA]
XIV
PINTORES PORTUENSES
ANTONIO JOS… DA COSTA
Ha nomes que, em qualquer parte que se pronunciem, se impıem · consideraÁ„o de todos nÛs.
O que encima este artigo È um d'elles.
Como homem e como pintor Antonio JosÈ da Costa deve ser respeitado e admirado. Como homem porque È um cavalheiro em toda a acepÁ„o da palavra; como pintor porque È um mestre.
[Figura: Antonio JosÈ da Costa]
… muito grande a minha ousadia, em tentar desenhar, n'um pequeno artigo, uma figura culminante da pintura em Portugal; e n„o vos admireis, leitores amigos, que eu diga isto, nem julgueis que, ao afirmal-o, queira empanar a gloria de muitos dos nossos pintores. N„o. Se considero Antonio JosÈ da Costa um grande artista, n„o quer isto dizer que o julgue maior que alguns outros, mas simplesmente accentuar que elle È um dos grandes artistas da pintura em Portugal.
Para mais ao deante reservaremos o fallar d'esses artistas, grandes como este ou talvez ainda mais, mas, cada um no seu genero.
N„o quero, nem procuro saber quando e como È que Antonio Costa se fez pintor: o que tento È provar que elle hoje È, em Portugal, um soberbo paisagista e o primeiro pintor de flores. E se conseguir isto parece-me que terei dado o meu tempo por bem empregado. Que o mais facil e o mais demonstrativo seria dizer: vÍde esses quadros de que vos dou a gravura; vizitae as muitas casas de amadores onde elles est„o espalhados: vizitae as exposiÁıes onde elles apparecem; ide ao atelier do artista e ficareis convencidos d'esta verdade indiscutivel.
[Figura: Rosas e Peonias--ANTONIO JOS… da COSTA]
Mas isso È infelizmente impossivel; os amadores que possuem quadros, com raras excepÁıes, fazem monopolio dos trabalhos que compram, parecendo ter medo que os outros, sÛ de lh'os verem, lh'os damnifiquem. E o artista mora l· para Bellos Ares, t„o longe do centro da cidade, que, chegados ao seu atelier, o canÁaÁo seria tanto que n„o vos deixaria vÍr com a devida attenÁ„o, as lindas coisas que elle vos mostraria. DescanÁai pois que eu,--dando-vos, a traÁos largos, um relato da obra do artista--vou privar-vos da fadiga d'essa romagem.
* * * * *
Para a pintura como para todas as demais manifestaÁıes da Arte È necessario, em logar primordial, a disposiÁ„o natural do individuo. N„o basta sÛ a boa vontade. Mas quando esta se alia ·quella ent„o tem-se realisado o supremo ideal, e, embora diga o ditado que ´querer È poderª n'este caso esse ditado falha porque muitos artistas conheÁo eu de muito boa vontade e que querem chegar a onde v„o os mestres e nunca l· chegam. E porque? Porque lhe falta a _bossa_ artistica, a disposiÁ„o natural.
[Figura: Outros tempos. (EsboÁo)--ANTONIO JOS… da COSTA]
Ora com Antonio Costa d·-se o caso de elle ter, alem da sua grande boa vontade, a intuiÁ„o, a disposiÁ„o natural para a pintura.
… um paisagista, com uma vista perspicaz de observador, que, ao tracejar um estudo, faz resaltar logo a nota caracteristica e determinante do assumpto. E ao olhar esse estudo, no conjuncto de cores e de tons, nÛs temos a impress„o completa e perfeita do que elle queria dizer nos seus quadros. Dous esboÁos acompanham este trabalho, e ambos demonstram sobejamente o movimentado assumpto, que nos seria revelado pelos quadros, se elles tivessem tido completa execuÁ„o.
No primeiro, que chamarei _Outros tempos_ e que tem o duplo interesse de ser um repositorio de figuras conhecidas e muito populares no Porto, taes como o Dr. Pimentel, pae do escriptor Alberto Pimentel, o Amorim Vianna, o professor Jo„o Correia, o pintor Rezende, o Brown, etc., que, na janella e na rua, assistem ao desfilar do regimento onde estamos a vÍr perfeitamente o ar aguerrido e os jogos malabares d'esse grupo de porta-machados e seu tambor-mÛr que, descendo pela rua da SovÈla abaixo viram para o seu lado direito, para a travessa de Cedofeita, n'uma cadencia de marche-marche. E na massa quasi informe que os segue ha a intuiÁ„o caracteristica do grosso do regimento.
[Figura: No Pinhal. (EsboÁo)--ANTONIO JOS… da COSTA]
No outro, n'um pinheiral esguio, onde bate o sol, veem-se duas figuras por determinar, estando uma com seu guarda-sol aberto; o terreno È empastado e ha no horisonte um quer que seja que nos diz que ali È o mar. Mas nada d'isto est· definido, nada disto est· executado e, no entanto, nÛs vemos perfeitamente n'aquellas manchas que o quadro seria assim.
Ora esta particularidade, este modo de fazer os estudos È que sÛ È peculiar a quem nasceu para ser artista, e Antonio Costa È-o e em alto grau.
Depois, como desenha admiravelmente e possue essa grande propriedade de saber vÍr os motivos a pintar, d'um pequeno retalho de paisagem, d'uma cancella, d'um casebre tosco, d'um port„o de Quinta, d'um _nada_, faz um quadro que È sempre um encanto. Muitos e muitos s„o os seus trabalhos n'este genero. E mesmo n'aquelles, que a critica n„o acha completamente bons, ha sempre alguma cousa, muito atÈ, que È excelente.
Por acaso tenho aqui na minha frente um jornal de 1893 onde um dos nossos criticos d'arte de mais cotaÁ„o no Porto, diz o seguinte a respeito d'um quadro de Antonio Costa, _Portaes do Mar„o_: ´… um pedaÁo de pintura feito com uma sinceridade emovidissima de sensaÁ„o e uma franca acÁ„o de pincel; em toda a obra do pintor portuense eu separo esta como a que melhor denuncÌa o seu talento por vezes desigual, com caprichos de intermitencia, mas talento legitimo testemunhado nos intervalos de superioridade com um explendido entono glorioso...ª
Ora este attestado passado ha onze annos ao meu perfilado È a confirmaÁ„o do que venho dizendo, e como na arte n„o È vulgar andar-se para traz, mas sim cada vez mais aperfeiÁoar-se, cada vez mais estou na minha, que, se elle n'esse tempo era um bom artista, hoje È um grande artista.
[Figura: Camelias--ANTONIO JOS… da COSTA]
Mas, Antonio JosÈ da Costa que, alem de pintor, tem o quer que seja de floricultor, um dia, ao cuidar das suas camelias, dos seus chrisanthemos e das suas rosas, resolveu, tal como as via, transplantal-as · tela, em pintura; e, com o seu muito saber e o seu arreigado gosto artistico, comeÁou de nos dar quadros t„o admiravelmente lindos e frescos como as flores que cultivava, e assim se fez o deslumbrante pintor de flores que agora È.
Ha no espirito de muita gente que pinta, a crenÁa de que as flores s„o de facil execuÁ„o e d'ahi esse enxame de amadores, que nos surge de todos os lados desatando a copiar flores dos modelos que a FranÁa e a Allemanha nos exporta continuamente. E pintam flores... mas que flores, Santo Deus!!!!
Para pintar flores È necessario ter na paleta alem das tintas fortes e vivas... um certo quÍ de orvalho, um pouco de sol e uma porÁ„o de ether, esse fino fluido que nos cerca. Ora isto È que sÛ elle tem, sÛ elle possue.
[Figura: Junquilhos e Camelias--ANTONIO JOS… da COSTA]
As suas camellias s„o t„o frescas e t„o carnosas que temos a impress„o de que, se as tocassemos, ellas amareleciam tal qual as naturaes. Os seus chrisanthemos, na variadissima e arrevesada forma das suas petalas, parecem sair da tela em contorneaÁıes exoticas, envolvidos no tal ether em que fallei mais acima.
E as suas rosas, d'uma frescura e d'uma suavidade unica, ora aveludadas como seios de mulheres lindas, ora transparentes como gottas de orvalho, s„o admiraveis; parece atÈ exalarem, em delicias, o aroma que lhes È t„o caracteristico.
Em todas as suas flores emfim, existe o supra-summo da verdade e da perfeiÁ„o...
Ao olhal-as n„o nos julgamos em frente d'um quadro, julgamo-nos n'um jardim...
Mas n„o s„o sÛ flores que elle pinta deliciosamente. As fructas, tambem s„o tratadas por este artista com o mais desvelado e carinhoso amor.
ConheÁo alguns quadros n'este genero que s„o um verdadeiro assombro.
Melhor do que eu porÈm fallam as gravuras publicadas no _Portugal Artistico_, reproducÁ„o de alguns quadros de Antonio JosÈ da Costa.
E julgo ter assim cumprido o meu dever de homenagem a um artista respeitado e querido.
1904.
[Figura: Junto ao Cruzeiro--ANTONIO JOS… da COSTA]
XV
EM FRENTE D'UM CARTAZ!...
CHRONICA DO "MONITOR"
Antes de entrar no assumpto da minha Chronica, duas palavras de desculpa.
N„o appareci na ultima semana porque estive com as _maleitas_, um diabo d'umas febres que apanhei quando era rapaz e ia brincar para os campos do Cyrne, alli para os lados do Reym„o.
Pois essas _maleitas_, vieram atacar-me traiÁoeiramente, como costumam, e quando eu me dispunha a escrever a Chronica tive de me enfiar em _vale de lenÁoes_ a tremel-as... Um martyrio, que nem o leitor imagina.
Unica raz„o porque Vossas Excellencias se viram livres da minha proza a semana passada. Hoje, porÈm, n„o escapam. Estou agora fino como um pÍro e muito _bravo_.
Portanto, se virem que arranco da espada com valentia, n„o vos afflijaes, porque ella È de _cortiÁa_, como era a da _JustiÁa_, para matar a _CarriÁa_... Ora pois, como a espada È de cortiÁa, n„o corta, o mais que pode fazer È arrolhar. Adiante.
No alto d'este arrazoado escrevi eu:--_Em frente d'um cartaz_!...--E sabeis a que cartaz me refiro? N„o sabeis? Pois ides sabel-o. Ao cartaz executado por Juli„o Machado para reclame aos festejos carnavalescos no Porto.
--Porque vai elle dedicar uma Chronica a este cartaz, perguntar„o l· de si para comsigo os leitores?
--Por um simples motivo, meus senhores, porque entendo, que aquillo est· muito longe de ser o que se desejava. Juli„o Machado È, inegavelmente, um bom artista, mas, d'esta vez, no trabalho apresentado deixou muito a desejar.
N„o quer isto dizer que elle esteja mal feito, mal desenhado, mal colorido; n„o, o que quer dizer È que n„o era aquillo que se queria.
Que se queria, n„o digo bem; que eu queria e a maior parte do publico.
Aquillo, È um lindo desenho, para figurar em ponto pequeno, em uma pagina de revista, na capa d'um livro, ou ainda dum reclame-programma, para distribuir nos theatros, ou na rua.
Finura de traÁo, cuidado de desenho, doÁura de cores... tudo alli ha; mas, faltam-lhe os requisitos essenciaes para o verdadeiro cartaz: largueza de traÁo, cÙres fortes e retumbantes, cÙres, que collocadas pelas paredes, tilintassem como crystaes que se partem, retumbassem como trovıes, vibrassem como clarins, ou refulgissem como o sol.
[Figura: Cartaz--JULI√O MACHADO]
Acima de tudo isso, era preciso que tivesse o caracter genuinamente portuguez, que infelizmente n„o tem. As figuras passam n'elle como se fossem a reproduÁ„o d'uma festa em pleno Paris---o _Boi gordo_, por exemplo.
Unicamente, como nota portugueza, no primeiro plano um busto de _lavradeira_, e l· entre essa multid„o apenas um _capote e lenÁo_, como que querendo fugir para fÛra do traÁo delimitador do caixilho, talvez embaÁado de se vÍr seguido por tanta gente, que elle nem sabe quem È.
Os nossos mascaras caracteristicos, os _chechÈs_, os _lavradores_, os _bebÈs_, os _gallegos_, etc., etc., que davam a nota definida do nosso carnaval, esses, fugiram n'um desespero de se verem amarfanhados n'aquella _pele-mele_ de mulheres em _maillot_, e mascaras que nÛs n„o conhecemos.
Mas a culpa n„o foi do artista. Elle viu assim o carnaval; viu n'aquella _cocote_ fina e delicada, que o _pierrot_ leva sobre o grande bombo, a _Folia portugueza_, e enganou-se!... A _Folia portugueza_ n„o È assim t„o fina e quasi ingenua, È muito mais expressiva, mais valente, de gesto largo e de fundas gargalhadas, atirando um grande punhado de _bombons_ ou um _bouquet_ de violetas, com ar de quem n„o est· a estudar posiÁıes ao espelho, despreoccupadamente...
No meu entender, Juli„o Machado n„o realisou o verdadeiro programma.