Notas d'arte

Chapter 10

Chapter 103,807 wordsPublic domain

D. Sophia de Sousa, n'esta exposiÁ„o vem desfazer uma desagradavel impress„o que me tinha ficado d'uma exposiÁ„o anterior. Agora, com pujanÁa artistica, apresenta-me seis quadros, entre os quaes, com uma garridice soberba digna de nota, o seu _Ao sol_, que È um trabalho largo, definido, cheio de luz, de cÙr, de transparencia. _Uma paisagem_ e o _Margens do Ave_, s„o trabalhos dignos de menÁ„o.

Apparecem n'esta exposiÁ„o alguns amadores entre elles, um com muitos quadros, o sr. Hugemin, que j· em tempos fez uma exposiÁ„o sÛ sua, onde deu provas evidentes de que È um amador-artista de valor.

[Figura: Ao Sol--SOPHIA de SOUSA]

Entre as amadoras est· a snr.^a D. Maria Afflalo, que pela primeira vez expıe os seus trabalhos e que fazendo-o prova que tem muitas aptidıes artisticas e È uma discipula que honra sobremaneira o seu professor JosÈ de Brito.

D. Leopoldina Pinto, com o seu quadro _Flores e fructos_, apresenta mais uma prova do seu saber pinturar.

D. Clotilde Rocha Peixoto, È uma discipula da Academia de Bellas Artes que se apresenta com um largo quadro inspirado na deliciosa poesia de Campoamor:

QuiÈn supiera escribir!

… um amplo trabalho executado visivelmente com muita e muita proficiencia. Ha uma das figuras (o padre) que est· traÁado com correcÁ„o e muita propridade.

Poderei affirmar que esta amadora È uma das novas que mais firmemente demonstra que ha-de ser uma bella artista.

[Figura: D. Maria Afflalo]

Ainda figuram na exposiÁ„o mais algumas senhoras, taes como: Viscondessa de Sistello, Condessa de Alto Mearim, D. Maria Alto Mearim, D. Beatriz Alto Mearim.

A condessa de Alto Mearim confirma de um modo justificado o seu talento _hors ligne_ na confecÁ„o do bello quadro _Poveretta_.

D. Beatriz Alto Mearim, apparece com o seu estudo a pastel; tambem lhe n„o fica a dever nada. … este seu trabalho uma prova incontestavel do seu muito merito artistico.

D. Maria Luiza Alto Mearim apresenta duas cabecinhas interessantes e regularmente bem feitas.

Viscondessa de Sistello, com tres paisagens feitas com conhecimento de Arte, especialmente uma, que È bellamente feita.

[Figura: JosÈ Rom„o Junior]

Ha na exposiÁ„o dois trabalhos de esculptura, um de Fernandes de S·, _Rapto de Ganymedes_, outro de JosÈ Rom„o Junior, _CabeÁa de estudo_.

A respeito do primeiro artista j· eu disse atraz n'um desenvolvido artigo, o que pensava d'elle. Successor indiscutivel de Teixeira Lopes, È um bellissimo talento.

Do segundo, Rom„o Junior, È a primeira vez que vejo trabalhos seus, e confesso que a _CabeÁa de velho_ que apresenta, me d· uma magnifica impress„o. A figura lanÁada com largueza tem magnificos requisitos. … uma demonstraÁ„o evidente de que Rom„o Junior maneja o cinzel e o escopro com proficiencia. Um novo de talento que, de futuro, ha-de continuar a affirmar que a raÁa dos esculptores portuenses È das de primeira ordem.

Na secÁ„o aguarella sÛ figuram os nomes de dois concorrentes JosÈ de Brito, de quem atraz j· fallei e D. Isabel Lauer.

Esta ultima com dois quadrinhos de figuras. Para mim n„o me desagrada o operario, se bem que nenhum d'elles por completo me prenda muito a attenÁ„o. Bastante amaneirados e muito exquisitos.

[Figura: Poveretta--Condessa de ALTO MEARIM]

Com desenho a pastel apparecem tambem sÛ dois concorrentes: JosÈ de Brito, artista consumado n'este genero, e D. Beatriz Alto Mearim.

Falta fallar de duas secÁıes, ainda: desenho a claro-escuro e arte applicada. Na primeira das secÁıes ha um trabalho delicioso de Torquato Pinheiro, um fino desenho do _Convento de Santa Clara_ de Villa do Conde, trabalho impeccavel de correcÁ„o e firmeza.

Luiz Bastos, traz-nos retalhos d'essa linda Coimbra a cidade dos Bachareis, apanhados em estudos varios do Choupal, do Rio Mondego, de Santo Antonio dos Olivaes, etc. Alguns feitos com mestria.

Na arte applicada, Jorge CollaÁo, o distincto caricaturista do _Supplemento de O Seculo_. Os seus azulejos s„o interessantes e dignos de nota, especialisando o grande quadro _Reviravolta_, estudado com interesse e executado com cuidado.

E eis, meu amigo publico, a impress„o sincera de quem viu a exposiÁ„o com a independencia caracteristica do seu pensar e com a antecipada disposiÁ„o de n„o regatear merecimentos a quem os tivesse, nem adular aquelles que, sendo mediocres, aspiram · enfatuada bazofia de serem notaveis. Sinceridade e nada mais.

… provavel que os _verdadeiros_ entendedores n„o pensem como eu, mas l· diz o dictado:--que seria, do amarello se n„o houvesse mau gosto.

Deveria fechar j· aqui a minha informaÁ„o mas vejo l· expostos uns azulejos, _panneaux_, etc., que se desculpam por serem o reclame de uma fabrica de Ceramica, porque, se tem sido apresentados como trabalhos artisticos, ent„o deveriam ser exautorados rigorosamente.

E adeus, que n„o tenho tempo para mais, nem sei mesmo se alguem ter· coragem de ler isto atÈ ao fim.

[Figura: Barcos de pesca--JULIO RAMOS]

XXIII

AMADORES PORTUENSES

ALBERTO AYRES DE GOUVEIA

Discipulo de MARQUES DE OLIVEIRA

Este meu biographado n„o È precisamente um amador; poderia, sem receio ele ser contraditado, e sem medo de errar, incluil-o francamente no numero dos nossos mais distinctos pintores, e isso porque os seus trabalhos artisticos s„o de molde a dar-lhe esse fÙro.

Alegro-me ao escrever este artigo, e alegro-me porque È sempre com consolo que me refiro ·quelles que, possuidores de algum valor, se n„o deixam adormecer · sombra ele alguns louros colhidos na paz doce da mandria, antes tentam a mais e mais fixar as suas aptidıes, n'um trabalho serio e proveitoso.

E, Alberto Ayres tem feito isto. Desde que se emprehendeu a pintar tem trabalhado com afinco e muitissimo proveito.

[Figura: Alberto Ayres de Gouveia]

Conhecia de ha muito este rapaz, que, pela sua avultada fortuna, pelas relaÁıes de familia, e por viver na alta roda, onde se dava o prazer de ser um dos eleitos, eu tinha na conta de um excellente cavalheiro, um fino homem de sala, cavaqueador com espirito e mais nada!

Mas, enganei-me redondamente, o que n„o È para admirar, porque acontece a muito boa gente.

O meu biographado era tudo aquillo e ainda mais alguma coisa:--um amador _enragÈ_ da pintura.

Como soube eu isto e como tive emfim a confirmaÁ„o do seu merecimento artistico? Vou tentar dizel-o em poucas palavras.

Nas noites frias de inverno temos por costume reunirmo-nos alguns amigos em cavaqueira alegre e discutimos n'essas occasiıes muitissimas coisas, problemas d'Arte, mundanismo, casos alegres do dia, philosophando de vez em quando sobre politica, litteratura, celebridades, theatros, etc., etc. N„o È um cenaculo, nem uma academia, È um _cercle_ algo espiritual, onde a alegria tem especialmente o seu logar.

Pois n'uma d'essas cavaqueiras abordou-se o assumpto pintores e amadores, e entre outros nomes veiu · tela da discuss„o o nome de Alberto Ayres de Gouveia, que um dos circunstantes conhecia perfeitamente.

Elogiou-o, fez a historia da sua aprendizagem d'Arte e eu fiquei como se costuma dizer com a _pedra no sapato_ e, como observador que sou, tratei immediatamente de me informar do merecimento verdadeiro ou falso d'este amador.

De divagaÁ„o em divagaÁ„o e de informe a informe, vim a concluir que o meu amigo tinha muita raz„o e que Alberto Ayres era de facto um rapaz de incontestavel merecimento artistico.

Mas, n„o sÛ como pintor elle deveria ser apreciado, como auctor e amador dramatico tambem. Eu me explico.

Um anno, estando a banhos como de costume, na formosa e aristocratica praia da Granja, alli deu as suas provas de amador, desempenhando, n'uma festa de caridade, alguns papeis de umas deliciosas comedias, que elle proprio tinha escripto, e que, segundo entendedores do genero, eram verdadeiras joias litterarias finamente buriladas.

E, com esta minha eterna mania de conversar, uma tarde, no atelier do meu muito amigo e infeliz Manuel San Rom„o, fallando-lhe dos divertimentos da Granja e a respeito do baile Luiz XV que alli se dera, das finas recitas que a gentil colonia alli a banhos, costuma realisar, o nome de Ayres de Gouveia foi citado e eu disse como me tinham inspirado sobre o seu merito litterario e artistico.

Manuel San Rom„o, com aquelle seu modo correcto e fino e aquelle seu espirito ousado e emprehendedor, n'um gesto todo de enthusiasmo fallou-me d'elle dizendo, que no que elle era notavel era na pintura e citava um formoso retrato do Snr. D. Antonio Ayres de Gouveia, ent„o Bispo de Bethesaida, hoje Arcebispo da Calcedonia e tecendo-lhe os mais rasgados elogios, affirmou-me que elle era um amador que havia de futuro marcar epocha entre os artistas (mestres) portuguezes.

[Figura: A palavra do Mestre--ALBERTO AYRES de GOUVEIA]

A opini„o de Manuel San Rom„o, era para mim como uma pagina do Evangelho; elle que lhe via merecimento era porque na verdade o tinha.

O retrato se n„o era uma maravilha, dizia San Rom„o, era no entanto uma obra acceitavel e cheia de bellos predicados, um verdadeiro quadro tocado com proficiencia, desenhado com saber, d'um colorido doce e d'uma mais que regular semelhanÁa.

Ao ouvir isto, logo se me arreigou no espirito a ideia de que elle tinha talento e me nasceu o desejo de ter de _vizu_ a confirmaÁ„o d'isso, o que sÛ poderia conseguir visitando o seu atelier e a sua galeria, pois que elle, nem expunha, nem vendia os seus trabalhos.

Como conseguir porÈm isto? Quasi impossivel, porque o amador fugia · visita que eu tentava fazer-lhe, querendo assim deixar-se ficar no encoberto mysterio d'uma modestia, que n„o tinha raz„o de existir.

Passara-se tempo, muito tempo, sem que eu tivesse o prazer de, encontrando-o, lhe manifestar o desejo que tinha de n'uma visita ao seu atelier, vÍr o que elle tinha realisado em Arte.

Em 1902, abre uma das exposiÁıes que o Instituto de Estudos e Conferencias t„o proveitosamente tem organisado e realisado no Pateo da Misericordia. Era um magnifico dia de _vernisage_, e eu ao entrar sou immediatamente attrahido d'um modo particular e suggestivo, por umas poucas de telas que me saltam · vista impressionantemente. Tomo do catalogo e folheando inquiri quem È o seu auctor. O nome de Alberto Ayres de Gouveia era o que se lia por cima dos numeros que eu procurava. Eram, de facto, de molde a impressionar os trabalhos expostos. ¡ mente me saltou, como uma doce recordaÁ„o, a conversa que tivera com Manuel San Rom„o e immediatamente me convenci de que quem pintava aquelles quadros n„o podia ser apellidado de simples amador.

Era indiscutivelmente muito mais do que isso, era um verdadeiro artista e com trabalhos taes, que alguns pintores, com nome feito, n„o desdenhariam assignar.

Em artigo que n'outro logar publÌco a elles me referi e alli disse alguma coisa do que pensava a tal respeito. Agora porÈm que dedico ao seu auctor duas paginas do meu livro, em especial, n„o ser· demais tornar a fallar d'elles.

Eram para mim esses trabalhos primorosos, mas, se alguns defeitos tinham eram elles por si t„o insignificantes que apenas mereciam o reparo ligeiro e unicamente indicativo, sem que viesse aggravado com a investida descortez e brutal de certa critica imperduravel e muitas vezes inconsciente. Porque os trabalhos expostos eram indicados no catalogo simplesmente como d'amador, mas d'amador distincto e correcto em verdade.

E bastava sÛ isto, que elles fossem de amador, mas feitos firmemente com largueza de traÁo, precis„o de cÙr, correcÁ„o de desenho e de perspectiva, definidos emfim como de verdadeiro artista, para espantar a critica de campanario e os entendedores _bon marchÈ_.

E tudo isto porque? Porque habitualmente os amadores quando apparecem em publico com trabalhos seus, s„o estes t„o banaes e t„o simples que passam perfeitamente desapercebidos entre os trabalhos dos artistas, sem lhe fazerem mossa, ou sem lhe provocarem confrontos.

Com Alberto Ayres, porÈm, n„o se dava isso, apparecia pela primeira vez, mas t„o desassombradamente e com trabalhos de tal folego, que atÈ houve quem n„o quizesse acreditar que eram d'elle. Mas eram e t„o bons que poderiam entrar com gloria em qualquer concurso, pois tenho a certeza que ao seu auctor seria dada uma primeira classificaÁ„o.

[Figura: Christo morto--ALBERTO AYRES de GOUVEIA]

Ent„o È que mais e mais se me encasquetou na cabeÁa a ideia de observar toda a sua obra, conhecel-o no seu intimo, na sua maneira de vÍr e de pintar, e depois de um assedio em forma consegui que elle me desse a honra de permittir-me uma visita d'Arte. E visitei ent„o a sua formosissima casa, onde se espalham artisticos _bibelots_ e bellos trabalhos de muito valor artistico. Fiz esta visita cheio d'uma suave uncÁ„o que se deve aos templos onde se sacrifica a um Deus. N'aquella casa sacrificava-se a Deusa Arte e por isso reverente alli me conservei.

Conversando durante algum tempo contou-me a sua iniciaÁ„o na arte de pintar, e como, sob a competente e abalisada inspecÁ„o do grande Marques d'Oliveira, pÙde conseguir o que fazia.

Desenhou muito, e quando lanÁava os seus vÙos para mais alto, sob indicaÁıes do professor, foi em viagem artistica pela Europa, aos paizes onde mais afincadamente se rende culto · Arte e alli estudou nos museus e nas escolas de pintura alguma coisa que lhe dÈsse conhecimentos uteis. E assim, analysando e estudando os quadros geniaes dos mestres e acompanhando os adeantamentos e os progressos das novas escolas, percorreu os muzeus de Madrid, Paris, Londres e Italia, n„o com a despreoccupaÁ„o de um _touriste_, mas com a observaÁ„o religiosa d'um crente, sob a indicaÁ„o e a companhia de Marques de Oliveira, seu professor e que È entre os que pontificam na Pintura, um dos que mais sabiamente sabem vÍr, porque È dotado d'um espirito critico especial e finissimo.

Da visita que fiz ao atelier d'este distincto amador, ficou a mais grata e a melhor das impressıes.

D'entre as telas que vi, as que mais fundamente me impressionaram foram a _Leitura das prophecias_, _Retrato do Ex.^{mo} e Rev.^{mo} Snr. Arcebispo de Calcedonia_, _A palavra do Mestre_, _Retrato do proprio auctor_, _Retrato de A. Burnay_, _Estudo_, _Baixo imperio_, _Appolo_ e _CabeÁa d'estudo_ (carv„o), que s„o admiraveis.

[Figura: S. Jo„o lendo as prophecias--ALBERTO AYRES de GOUVEIA]

D'alguns d'estes trabalhos, apresento as gravuras, que pude conseguir, quebrando quasi · forÁa a modestia do meu biographado.

El-Rei D. Carlos, n'uma visita que fez · ExposiÁ„o de Bellas-Artes em Lisboa, fez menÁ„o especial dos seus quadros, chamando-lhe pintor notavel e de pulso.

E de facto El-Rei n„o se enganou porque Alberto Ayres de Gouveia est· na galeria dos artistas de pintura portuguezes mais distinctos.

[Figura: Paisagem--CANDIDO da CUNHA]

[Figura: Estudo--JO√O AUGUSTO RIBEIRO]

XXIV

Uma ExposiÁ„o de Estatuetas

FRANCISCO GOUVEIA

J· era tempo de dedicar algumas palavras de justiÁa, ao distincto artista Francisco Gouveia, ·cerca da visita que fiz · sua magnifica exposiÁ„o de esculptura, aberta aqui no Porto, no Sal„o da Photographia Guedes, e cumprir o dever gratissimo de corresponder · galanteria e ao modo penhorante como elle me acolheu.

E faÁo-o, porque nunca antepuz · manifestaÁ„o de admiraÁ„o pelos trabalhos de qualquer artista de valor, outra qualquer manifestaÁ„o.

[Figura: Francisco Gouveia]

A Arte, para mim a mais sublime das cousas, a mais insinuante das manifestaÁıes, tem um logar t„o alto, t„o deslumbrante, t„o culminante que em frente d'ella eu julgo-me insignificantemente pequeno, e curvando-me reverente, fico depois extatico, cheio d'uncÁ„o na mais santa e na melhor das adoraÁıes.

Por isso, ao abalanÁar-me ao cumprimento d'um dever sagrado, eu commetteria um crime de lesa-religi„o artistica se n„o dedicasse algumas paginas · deliciosa exposiÁ„o, que ha tempos tive o prazer de visitar.

J· o tenho dito varias vezes e hoje o repito: eu sempre que tenho ensejo de admirar uma obra de arte, pintura, esculptura, musica, ou seja o que fÙr, nunca falto; sou dos que vou primeiro, e, quasi sempre, dos que sahem no fim.

… facil ficar perfeitamente embasbacado em frente d'um quadro, ou d'uma esculptura, durante horas, alheio a tudo quanto se passa em volta de mim, tal me tem succedido ante as obras de MalhÙa, Salgado, Carlos Reis, Marques de Olivieira, etc., e como em nenhumas outras, ante as extraordinarias creaÁıes do sublime Teixeira Lopes.

Por isso, como um fanatico pela Arte eu accorri ao Sal„o da Photographia Guedes a vÍr os trabalhos, j· para mim conhecidos de nome, do nosso querido concidad„o Francisco Gouveia.

Que este artista, como todos os bons esculptores portuguezes, tambem È filho do Porto.

Francisco Gouveia, era um nome que se impunha j· de ha muito · consideraÁ„o e · admiraÁ„o de todos nÛs, porque l· fÛra, no estrangeiro, affirmava exhuberantemente, com os seus trabalhos, que nÛs os portuguezes tambem somos capazes de dar provas evidentes e definidas de intellectualidade e aptid„o artisticas.

[Figura: Teixeira Lopes--F. GOUVEIA]

Entre muitos dos seus bellos trabalhos destacarei, para fazer notar aqui, o seu _Beatriz de Portugal_, que marcou d'uma fÛrma confirmativa e energica o seu saber e o seu modo de esculpir.

Este trabalho ao apparecer em Paris, de tal nomeada foi cercado, que mereceu a honra de ser reproduzido em diversas illustraÁıes estrangeiras, onde se fizeram referencias honrosamente dignas ao nome do nosso artista.

Mas, como diz Xavier de Carvalho n'um pequeno esboÁo critico a respeito de Francisco Gouveia: ´quiz ser o artista naturalista no minucioso detalhe, comeÁando por nos dar um _EÁa de Queiroz_ apanhado n'uma _pose_ verdadeiramente natural e sincera. Depois temos a serie das suas esplendidas estatuetas, t„o cheias de vida plastica, d'um correctissimo desenho, mesmo quando o esculptor passa da maneira emocional do seu mestre querido Injabert · larga _Èbauche_ de Rodin que mesmo chegou a attingir na silhueta do grande artista rebeldeª.

E de facto assim È. Francisco Gouveia realisou este _desideratum_ e ao abrir ao publico indifferente e · critica honrada e honesta d'uns, venenosa e malsinada d'outros, a sua exposiÁ„o, fel-o, sem aspirar as louvaminhiches dos primeiros nem temer boas ou m·s apreciaÁıes dos segundos. Fel-o como affirmaÁ„o publica do seu talento artistico e da sua persistencia do trabalho, fel-o como era justo que o fizesse.

Para isso traz-nos 78 trabalhos qual d'elles o mais fino, qual d'elles o mais correcto, qual o mais bem estudado, e mais bem executado.

Desde a estatueta sÈria · estatueta caricatural, desde os medalhıes graves ·s mascarasitas patinados, nada ha alli que n„o seja correcto e que n„o seja perfeito.

Estudos regularmente anatomisados, dando o individuo em todo o seu ser, em todo o seu aspecto, com todo o ar natural, parecendo mover-se regular e compassadamente, vivificados, com movimentaÁıes naturaes, express„o definida no rosto. E tudo isto em estatuetas que variam entre 40 e 60 centimetros d'alto.

Mas, ha para mim, entre todos os trabalhos expostos, um, que È dos mais extraordinarios--a caricatura psychologica do grande morto _EÁa de Queiroz_!--Fulgurantissima de genio. Vemos n'ella, n'aquelle bronze, atravez da esgrouviada figura do romancista que nos assesta o monoculo n'uma persistente meticulosidade de observador a sua alma analysta, com um quÍ de sarcastico, como sorrindo-se interiormente de toda esta nossa sociedade, que elle olha atravez da sua impertinente lente. … simplesmente assombroso.

[Figura: EÁa de Queiroz--F. GOUVEIA]

A minha vontade era fazer notar uma a uma as estatuetas, as composiÁıes, as caricaturas, as medalhas, mas isso È impossivel e portanto, em mais duas palhetadas vou fechar este artigo.

Entre os trabalhos _estatueta-retratos_, muitos d'elles de pessoas nossas conhecidas, ha alguns com quem appetece conversar um pouco. A do _Marcos Guedes_, a do _Pae Ramos_, (ambos estes collegas do _Janeiro_), a do _Snr. Caetano Pinho da Silva_, a do nosso querido _Teixeira Lopes_, a de _Guedes d'Oliveira_ s„o magnificas. Ha tambem um retrato do grande poeta _Guerra Junqueiro_ (phantasia), que È muito interessante. Guerra Junqueiro È apresentado com uma tunica que lhe cae sumptuosamente como a um propheta, tendo o braÁo direito levantado em menÁ„o de quem prÈga o Evangelho, e no braÁo esquerdo as taboas da lei. … delicioso de concepÁ„o e de execuÁ„o.

Na _estatueta-composiÁ„o_ destacarei: _A viajante_, _A primeira esculptura_, _A parisiense_, _A tristeza_, _MeditaÁıes_, _Grupo de leitoras_, _Saudades_ e _Ama parisiense_ (do jardim de Luxemburgo).

[Figura: Marcos Guedes--Guedes d'Oliveira--Guerra Junqueiro--_Pae Ramos_--FRANCISCO GOUVEIA]

Mas que estou eu aqui a destacar, se todas ellas s„o boas, se todas ellas me encantaram?!...

As outras, terras-cotas, bronzes, etc., s„o, como estas, deliciosas obras, que merecem ser vistas e apreciadas devida e detalhadamente.

N„o È esta exposiÁ„o de molde a ser visitada como uma exposiÁ„o de quadros, onde as cÙres nos venham de longe em varias tonalidades, · vista. N„o, aqui precisamos de parar, analysar feiÁıes, expressıes, linhas, tudo, emfim. … preciso deixar a vista pousar durante um pouco, para examinar toda aquella perfeiÁ„o, toda aquella correcÁ„o, que n„o se pÛde vÍr · _vol d'oiseau_. … preciso fazer como eu fiz, estar l· horas e voltar l· mais vezes, que de cada vez que se l· volta novas cousas se descobrem nos trabalhos expostos. Quem vÍ sÛ uma vez, quasi sempre n„o vÍ nada.

Vou acabar por aqui, antes, porÈm, devo dizer que Francisco Gouveia È um d'estes rapazes insinuantes, com quem se sympathisa logo que se falle com elle uma vez.

Modesto em extremo, È um trabalhador de verdadeiro merito, e um espirito lucidissimo. E eu, ao fechar o meu artigo para as Notas d'Arte, aqui lhe deixo significadas, ainda que muito pallidamente, a minha admiraÁ„o ao seu grande talento artistico e a convicÁ„o de que o seu nome tem o direito indiscutivel de figurar a par do dos nossos primeiros artistas, pois exuberantemente conquistou um dos primeiros logares, como sacerdote magno, no templo da sublime Arte Portugueza.

[Figura: Paisagem--LUCILIA ARANHA GRAVE]

[Figura: Teixeira Lopes]

[Figura: Caim--TEIXEIRA LOPES]

XXV

MANUEL MONTERROSO

Tenho para mim este modo de pensar, talvez exotico, mas convicto, de que a caricatura È um maravilhoso remedio para muitas doenÁas sociaes.

Bem sei que nem sempre a cura se faz e a caricatura È applicada sem resultados praticos. Mas, muitas vezes, a maior parte d'ellas, a applicaÁ„o adquada, d'uma caricatura, no momento psychologico, produz tal revoluÁ„o no meio onde È lanÁada, que a doenÁa social desapparece como por encanto.

[Figura: Manuel Monterroso]

Com todos os remedios acontece a mesma coisa. Quantas vezes um illustre clinico applica um caustico, cheio de confianÁa, convencido que dentro de duas horas a pelle do doente estar· levantada e suppurante, e apesar do medicamento estar em pleno effeito, o caustico falha, ou porque o doente j· n„o d· reacÁ„o para que o resultado seja satisfatorio, e n'esse caso est· morto, ou ent„o por que a pelle È de tal fÛrma grossa e callejada que n„o ha nada que a possa atravessar e remover!

As doenÁas da sociedade s„o tal qual as doenÁas dos homens. E ella propria tambem tem anomalias como qualquer doente.

Uma sociedade morta, ou quasi a dar o ultimo suspiro, pÛde ser causticada com caricaturas, que n„o resurgir·. E o mesmo succeder· se ella pela desfarÁatez dos seus caracteres fÙr uma sociedade _estanhada_, endurecida e callejada. Mas se entre essa sociedade alguma coisa houver ainda que vitalmente sinta as picadas ardentes da caricatura, ent„o ella resaltar· e viver· pondonorosamente espurgada do mal que a amortecia e definhava.

[Figura: Dr Leopoldo Mour„o--Caricatura de MANUEL MONTERROSO--Publicada na _Voz Publica_]