Notas d'arte

Chapter 11

Chapter 113,536 wordsPublic domain

A mesma revoluÁ„o se faz na vida social dos homens isoladamente. Caricaturados por um lapis mordaz, mas fino, que os apresente · irris„o publica, sob qualquer dos seus aspectos ridiculos, elles remorder-se-h„o na sua vaidade intima e, procurar„o, embora disfarÁadamente, curar-se dos seus defeitos, se È que o mal da desfarÁatez os n„o contaminou t„o intimamente, que os tenha posto por completo fÛra da acÁ„o benefica, embora torturante do medicamento.

Muitos, muitissimos factos poderiam ser apontados como provas indiscutiveis e irrefutaveis, se quizessemos d'um modo affirmativo e terminante impÙr a nossa opini„o. Mas, n„o, n„o temos nem esse desejo, nem essa vaidade. Ao delinear estas linhas, simplesmente o fazemos como o _avant-propos_ · apresentaÁ„o que tentamos fazer d'um dos mais distinctos medicos portuenses, e no momento presente o primeiro caricaturista portuguez.

Hoje que infelizmente perdemos o maior de todos os nossos caricaturistas--o grande, o incomparavel mestre--Bordalo Pinheiro, posso dizer abertamente que Manuel Monterroso È entre nÛs o unico capaz de seguir t„o gloriosamente como o Mestre, as suas deslumbrantes pisadas e seu genio fulgurante e radioso.

[Figura: Uma pagina da _Parodia_--MANUEL MONTERROSO]

E, n„o quero que Monterroso me agradeÁa estas verdades sinceras que me saltam da penna, ditadas pelo pensamento, espontaneamente, lealmente, taes como as sinto. N„o, nem o meu fim È esse. Se lhe dedico algumas palavras È porque na minha pequenez de insignificante amador de Arte, tenho por elle, pelo seu lapis fino e caustico e pelo seu muito talento artistico, uma profunda admiraÁ„o.

Extasiava-me diante das caricaturas de Bordalo com a veneraÁ„o adoravel de verdadeiro admirador, do engraÁado, do mordaz, do bello e do correcto.

Hoje ante o traÁo fino, seguro, preciso e mordaz de Monterroso tambem me permitto ficar extasiado. E tudo isto porque o considero um optimo caricaturista, um perfeito desenhista.

Incapaz, como sou, de faltar · verdade, n„o escrevia que o achava grande, nem o diria t„o afoitamente, se n„o estivesse, como estou, convencido de tal.

N„o digo isto, È bom que se saiba, para me dar ares; digo-o porque rebuscando e procurando na pequena galeria dos caricaturistas portuguezes, n„o encontro nenhum que possa passar-lhe adiante. Nem mesmo o Manuel Gustavo, que ainda assim, para, mim, È um dos melhores.

[Figura: Jo„o Oliveira Ramos--Caricatura de MANUEL MONTERROSO--Publicada na _Voz Publica_]

Pois, nem mesmo esse, que t„o intimamente conviveu com o Mestre, que t„o de perto recebeu as suas liÁıes, pÛde dizer ousadamente a Manuel Monterroso:--eu valho mais do que tu... o primeiro logar pertence-me...

Por que de facto n„o vale. Manuel Monterroso tendo a intuiÁ„o natural de _fazer bonecos_, (como elle diz), conhecendo anatomicamente o homem (ou elle n„o tivesse sido um dos bons discipulos do terrivel Lebre[1], possuidor d'uma retentiva verdadeiramente photographica, elle, vendo uma vez um individuo, apanha-lhe immediatamente, n„o sÛ as linhas geraes, mas os mais pequenos detalhes caricaturaes: e, n'estas condiÁıes, com estes predicados e alem de tudo isto uma boa dÛse de talento, realisa desenhando verdadeiras obras primas.

[Figura: Raphael Bordallo Pinheiro--Caricatura em barro de MANUEL MONTERROSO]

Fulgurantissimas de graÁa s„o as varias paginas, que muitas vezes, de collaboraÁ„o com os litteratos Campos Monteiro e Guedes d'Oliveira, viram a luz na _Parodia_.

Notavel como trabalho de verve fina e delicadissima a caricatura que foi offerecida ao Dr. Jo„o Pereira Dias Lebre, professor de anatomia da Escola Medica do Porto, no anno em que elle se jubilou.

Notaveis os seus trabalhos, que tem distribuidos por amigos, em amistosas dadivas.

Caricaturas avulsas de typos conhecidos feitas em intimas camaradagens e que o grande publico nunca teve o prazer de vÍr, mas que eu conheÁo perfeitamente bem. N„o fallando nas caricaturas que a largos traÁos de carv„o elle lanÁa rapidamente sobre o papel branco que friamente apparece ao publico, quando em algum concerto de caridade elle vem tambem coadjuvar o luzimento d'essa festa, com a irradiaÁ„o do seu genio repentista e correcto.

N'essas occasiıes È que elle tem mostrado mais publicamente a facilidade com que retem e executa o desenho caricatural dos typos apresentados.

A todos quantos tenho visto fazer este genero de trabalho, tenho notado uma coisa: elles ao apresentarem-se em publico trazem j· no seu cerebro estudados e desenhados os typos a executar, e assim invariavelmente nos atiram com o JosÈ Luciano, o Hintze Ribeiro, o Burnay, o ZÈ Povinho, o Rei de Inglaterra, o Rei de Portugal e outros personagens, cujo perfil est· de ha muito conhecido e estudado, perfis que, a maior parte das vezes, eu mesmo, leigo em desenho e em caricatura, ia desenhar depois de uma leve recordaÁ„o.

Manuel Monterroso, n„o faz assim. Uma vez no palco ou estrado, lanÁa a vista por sobre a plateia, e com aquelles olhinhos vivos e penetrantes fÛca um individuo. Olha-o duas vezes e em seguida, costas voltadas ao publico elle ahi vae, carv„o em punho, traÁando, rapida e precisamente o typo que escolheu. … assim que elle faz; nunca trouxe de casa, no seu caderno de apontamento, as notas typicas dos individuos a desenhar.

Mas, n„o sÛ como desenhista e caricaturista a lapis ou a aguarella, elle È notavel. Ha alguma coisa mais a notar no meu artista.

Como ceramista tambem È para ser notado e muito.

--Ora? dir· o leitor! Como ceramista? Pois n„o lhe conhecia essa prenda?!

--Nem eu! Mas ha tempos em conversa, a rirmos sobre mil coisas diversas e muito especialmente sobre _bonecos_, Manuel Monterroso disse-me · queima roupa: Sabe, vou fazer _bonecos_ em barro, caricaturas de outra especie.

--VocÍ est· a brincar, disse-lhe eu.

--N„o estou, n„o, ver·. E a primeira ha-de ser a do Bordalo (ainda elle era vivo). Dito isto, despediu-se de mim, e, bem contra minha vontade, n„o o tornei a vÍr durante uns poucos de dias.

Nem mais me tinha lembrado d'isso, quando uma bella manh„ vejo entrar o Monterroso pela porta dentro com um embrulhosito na m„o, dizendo:--C· est· a obra.

[Figura: O Rei da PeÁa--Caricatura de MANUEL MONTERROSO--Publicada no _Primeiro de Janeiro_]

[Figura: Os Donos da Casa--Caricatura de MANUEL MONTERROSO--Publicada no _Primeiro de Janeiro_]

Corri apressado ao seu encontro, obrigo-o a mostrar-me o embrulhito e... ante a appariÁ„o que se fazia deante dos meus olhos eu ficava estasiado.

Uma delicada, uma fina maquete da figura em corpo inteiro do grande mestre da Caricatura, apparecia diante de mim, admiravelmente lanÁada, sabiamente estudada e medida, bellamente executada. N„o parecia o primeiro trabalho de um amador, n„o. Era o trabalho de quem sabe e muito, como o barro se espalma e se contorna, como se modela e como se vivifica.

N„o penseis que faÁo o elogio balofo d'uma insignificancia. FaÁo simplesmente a resenha verdadeiramente sincera de uma das mais notaveis manifestaÁıes do talento do meu querido caricaturista.

[Figura: JosÈ Ribeiro--Caricatura em barro de MANUEL MONTERROSO]

N„o resisti, abracei-o, felicitando-o e pedi-lhe que continuasse n'aquelle novo systema de caricaturar os homens notaveis do nosso tempo, e do nosso conhecimento. Prometteu-me continuar mas, a sua medicina e os seus muitos afazeres, n„o tem consentido que os meus olhos possam vÍr mais d'aquellas deliciosas obras.

A reproducÁ„o em bronze da _maquete_, em que fallei foi elle, como manifestaÁ„o da sua muita admiraÁ„o e amizade pelo grande mestre, levar-lh'a a Lisboa, onde Bordalo, como eu, se extasiou ante a disposiÁ„o artistica de Monterroso e a execuÁ„o d'aquelle trabalho.

E, posto isto, posso fechar o artigo porque j· provei bem · evidencia que Manuel Monterroso È innegavelmente um rapaz de indiscutivel talento.

Mas, perguntar· o leitor: a que veiu aquelle prologo em que se fez jogar a medicina e a caricatura como meios curativos da sociedade e das gentes?!

Eu explico. … que se n„o tivesse gasto tanto tempo ainda vos havia de dizer como È que o Manuel Monterroso pÛde ser ao mesmo tempo um grande caricaturista e um bello medico. Isso porÈm fica para segundas leituras.

XXVI

A BAIXELLA BARAHONA

Venho cheio d'um sincero enthusiasmo fallar-vos agora exclusivamente d'um dos maiores acontecimentos para a arte de ourivezaria portugueza, e n„o sÛ para ella como para a Arte, na verdadeira accepÁ„o da palavra; da Baixella Barahona! … esta j· bem conhecida em todo o Portugal, pelo que d'ella tem dito os jornaes de Lisboa, mas um brado mais, d'um sincero amador, nunca faz mal para engrossar o cÙro de hossanas, que em volta de t„o magnificente obra, se tem levantado por todos quantos a tem visto.

A casa Leit„o & Irm„o, innegavelmente os primeiros joelheiros e ourives portuguezes, levaram a cabo a execuÁ„o da obra mais monumental e mais artistica no seu genero, que se tem feito em Portugal ha cem annos para c·. E estou bem certo que ser· preciso passar um incalculavel numero de annos para que se faÁa uma outra obra assim.

[Figura: Columbano Bordallo Pinheiro]

Dous s„o os motivos, que me levam a acreditar n'esta profecia: ´A falta de homens de gosto e de dinheiro, como o dr. Francisco Barahona; e a falta de comprehens„o da maior parte da gente, de que a Arte È a manifestaÁ„o mais bella e mais brilhante do desenvolvimento espiritual e intellectual d'uma naÁ„oª.

Mas, como n„o me julgo com competencia para divagaÁıes philosophicas sobre _Arte_, _Dinheiro_ e _Gosto_, vou entrar no meu assumpto--A Baixella Barahona--da qual est„o em exposiÁ„o o _Centro de meza_, e as _Duas serpentinas_.

S„o estes tres monumentos, deixem-me assim chamar-lhe, uma coisa phantastica. Delineados sobre motivos esculpturaes do tempo de D. Jo„o V, harmonisou-se n'uma contextura brilhante, encantadora, fazendo-nos passar, como que em revista as decoraÁıes architectonicas dos monumentos da epocha, os escudos d'armas da casa real de D. Jo„o V, as talhas douradas dos conventos, as conchas nacaradas dos mares, que nÛs portuguezes dominamos nos nossos tempos de navegadores, e as aguas espraindo-se nas nossas formosissimas praias onde o mar bate altisonante, cantando ainda restos das nossas passadas glorias.

[Figura: Serpentina da Baixella Barahona]

… como que a orquestraÁ„o muda d'uma epopeia de deslumbramento e de luxo. Mereciam um poema, tal È o seu primor e a sua riqueza.

Por ambas as vezes, que fui vÍr estas deslumbrantes obras de arte, fiquei estasiado algumas horas, na contemplaÁ„o d'ellas, e cada vez que as olhava novos encantos lhe achava; aqui eram os festıes de flores que pareciam baloiÁar ao sopro da aragem, pendentes das m„os torneadamente papudas dos deliciosos amores; mais em baixo, os golphinhos com as suas fauces escancaradas d'onde jorram torrentes d'agua que se espraiam pelo enconchado da base; de todos os lados, as nacaradas conchas encurvadas caprichosamente n'um anichamento sublime de preciosidades do fundo do mar, e contornando tudo isto n'uma justeza de fÛrma, n'um carocolar de serpente, d'um brunido admiravel, como que uma fita de seda que m„os delicadas de fadas se entretivessem a dispÙr alli, como cercando aquella serie de deliciosas coisas.

Alguem que tenha visto a Baixella, dir·: e as figuras que alli existem onde as deixar· ficar o chronista?

As figuras essas s„o deslumbrantes de contextura, e se me deixei ficar para o fim a fallar n'ellas, È, que t„o fundo me feriram no espirito que lhe reservo um logar mais ao fim do artigo para que quem me ler nunca se esqueÁa d'ellas.

O centro, como muito bem diz o nosso amigo M. Oliveira Ramos, na memoria escripta expressamente para ser distribuida pela casa Leit„o aos seus convidados, compıe-se d'uma taÁa oblonga de amplo bojo, enfunada para a base e recordando talvez na sua fÛrma, o casco dos nossos galeıes do periodo aureo.

[Figura: Centro de meza da Baixella Barahona]

De cada lado d'esta taÁa e como sentados no rebordo, ha duas figuras; um Fauno e uma Bachante.

O Fauno, tendo n'uma das m„os uma frauta de Pan, ri brejeiramente para um amor que parece ter-se deitado na base a analysar aquelle typo t„o caracteristico e t„o bem delineado. E a Bachante com um exhuberante cacho d'uvas, tenta o outro amor que, deitado tambem, nos d· a impress„o suave d'um delicioso _bÈbÈ_ a quem uma nympha estivesse fazendo negaÁas com em brinquedo.

Mas, È tal o deslumbrante das fÛrmas e o rigor da anatomia d'estas figuras, t„o primorosamente modeladas e t„o assombrosamente executadas que parece que aquella fria prata, de que s„o feitas, se anima e palpita. Todo o conjuncto È bello, mas as figuras extasiaram-me.

Columbano Bordallo Pinheiro, ao modelar aquelles primores de arte, (talvez isto seja uma heresia), fez, a meu vÍr, um dos seus trabalhos mais geniaes, a manifestaÁ„o mais ampla do seu muito talento.

Porque È preciso ter-se muito talento para se realisarem obras d'aquellas.

Ficarei por aqui, se bem que n„o era esse o meu desejo, mas a falta d'espaÁo e de tempo, a isso me obrigam. Antes porÈm de fechar cumpre-me fazer, por este meio, o que j· fiz pessoalmente, dar um aperto de m„o, a quem se abalanÁou a uma empreza como esta e saudar enthusiasticamente com o meu fraco appoiado os grandes collaboradores d'esta manifestaÁ„o de arte portugueza,--o dr. Francisco Barahona, o verdadeiro patriota que sabe como ninguem comprehender para que serve o dinheiro,--Columbano Bordallo Pinheiro, que para essa obra deu parte do seu _eu_ artistico--Augusto Luiz de Sousa e Francisco Ignacio Cardoso os dois artistas ourives sob a direcÁ„o dos quaes se executou tal obra.

[Figura: Magdalena--Columbano Bordallo Pinheiro]

Aos snr. Leit„o & Irm„o um bravo! Um bravo enthusiastico d'um humilde admirador.

E para fechar, folgarei immenso ouvindo dizer que esses tres monumentos v„o mostrar ao mundo inteiro, na ExposiÁ„o de Paris, que em Portugal ha verdadeiros artistas e homens de arte.

Lisboa, 31-4-900.

XXVII

CONCLUS√O

Fechando este volumesito despretencioso e vago, que fiz publicar, n„o com a vaidade de escriptor ou critico d'Arte, mas simplesmente para reunir n'um mÛlho, pequenos e insignificantes artigos, que escrevi em dias socegados e alegres, e que appareceram em revistas e jornaes diarios apÛs visitas feitas a Ateliers, Escolas e ExposiÁıes d'Arte, onde tive o superior prazer de passar algumas horas boas e distrahidas, julgo ter prestado um pequenissimo serviÁo ao meu paiz e · sua Arte.

S„o estas paginas simples notas de um amador. Nem ellas desejaram nunca ser mais do que isso. Escrevi-as sincera e desapaixonadamente sem interesses ligados aos artistas, nem o desejo de ser amavel para com elles.

[Figura: O Desterrado--SOARES dos REIS]

Fil-o como conversador inveterado que sou, e que, no desejo constante de conversa, escolhi o grande publico para lhe expÙr as minhas impressıes pessoaes e quem sabe, faltas de sciencia e talvez de criterio.

Tenho dito mil vezes, n'essas paginas atraz o digo, e n„o ficar· mal ao ir-me embora, repetil-o mais uma vez:--eu n„o sou um critico d'Arte, nem tenho pretenÁıes a isso.

E, n'essas condiÁıes, sob uma tal ordem de ideias, interessando-me pelas exposiÁıes d'Arte, pelo desenvolvimento pintural dos discipulos e pelo engrandecimento dos professores, excitando os que comeÁam para que breve se ponham ao lado dos que j· v„o na vanguarda, animando o publico e creando-lhe aos poucos o gosto pela Arte, dando noticias resumidas d'algumas exposiÁıes, destacando alguns artistas e amadores dos que mais em fÛco tenho encontrado, embora sem aquelle _tino especial_ de critica _hors ligne_, como convinha para tal emprehendimento, julgo no entanto, que contribuo dentro das minhas forÁas, para o desenvolvimento do gosto pela pintura e pela esculptura entre os meus compatriotas, com estes artigos.

N'um paiz como o nosso t„o cheio de poesia, t„o cheio de sol, t„o cheio de cÙr, com costumes t„o typicos e figuras t„o accentuadamente caracteristicas, com pedaÁos de natureza (paisagem e marinha) t„o cheia d'um extraordinario encanto, d'um collorido t„o nosso, t„o genuinamente bello, necessario se torna que elle seja sabiamente estudado e proficientemente transplantado · tela e v· mundo em fÛra, fazer esta grande affirmaÁ„o: que no nosso paiz, caracteristicamente pittoresco, que como poucos È dotado de bellezas naturaes dignas de serem admiradas por todo quanto em _tourismo_ d· a volta ao mundo, ha uma pleiade de artistas, verdadeiramente grandes, e que valem tanto como os que ha bons l· pelo estrangeiro.

Se eu, debaixo d'este ponto de vista, apontando, notando, frizando, destacando e elevando, entre os que trabalham n'esta bella obra, aquelles que a meu vÍr mais dignos s„o de menÁ„o, conseguir excitar os outros para que trabalhando honradamente, gloriosamente se possam collocar ao lado d'elles, darei por bem empregado o meu tempo.

E como n„o quero que se diga que esqueci os que mais gloriosamente teem batalhado n'esse combate da Arte, aquelles, que emquanto vivos produziram genialissimas obras, e seriam assombrosamente grandes em qualquer parte do mundo, aqui deixo ficar, nas ultimas paginas do meu livro, tres copias de tres trabalhos sublimes dos sublimes mestres, d'esse trio sagrado de sacerdotes magnos do templo da Arte--Soares dos Reis, Silva Porto e Raphael Bordallo Pinheiro.

E nada vos direi de taes genios artisticos porque para isso seria preciso escrever tres volumes, e acho que quem È t„o pequeno como eu n„o se deve abalanÁar a empreza t„o ardua e t„o difficil, pois que para fazer o elogio d'estes sublimes mestres, exige-se pelo menos ser t„o grande como elles na litteratura e na critica.

[Figura: Conduzindo o rebanho--SILVA PORTO]

Por isso simplesmente, como significaÁ„o de respeito e muita admiraÁ„o ao seu grande talento, aqui lhe deixo significado o sentimento da minha muito grande veneraÁ„o.

Havereis de ter notado n'este meu livro faltas extraordinariamente grandes, bem sei. Mas, que quereis, quem d· o que tem n„o È obrigado a mais.

Desejaria ainda fazer um catalogo, biographico e artistico dos nossos melhores artistas e das suas obras com sabias notas descriptivas, mas isso era trabalho largo de mais para quem t„o fracamente maneja a penna e t„o leves conhecimentos tem em tal assumpto.

Se um dia, porem, l· para o futuro, me achar com coragem de emprehender empreza de tal bojo e tanta responsabilidade prometto-vos que o farei o mais larga e o mais desenvolvidamente possivel.

E os artistas que me perdoem ent„o tal arrojo e tal atrevimento.

Por hoje apenas estas leves notas reportivas d'um insignificante amador de Arte.

[Figura: Vinte annos depois--RAPHAEL BORDALLO PINHEIRO]

* * * * *

Como estou em marÈ de desabafos, n„o ser· de todo mau que antes de terminar o mandato que a mim proprio impuz n„o deixe de dizer alguma coisa a respeito d'alguns erros que apparecem nas Notas d'Arte. Por isso, com a maior franqueza declaro que, n„o querendo seguir as pisadas d'uma grande parte dos nossos litteratos, imputando aos pobres typographos erros que sÛ cabem aos auctores como maus revisores d'aquillo que escrevem, dou o seu ao seu dono affirmando que todos os erros que surgem pelo volume fÛra sÛ podem ser attribuidos · ligeireza com que tracei todas essas rapidas Notas d'Arte que, a meu vÍr, apesar dos seus defeitos tem a grande vantagem de mostrar o grande amor que tenho · arte sublime do Bello e o desejo ardente de vÍr galardoados os meritos dos artistas e dos amadores portuenses.

A illustraÁ„o e a benevolencia do leitor, pesando bem a senceridade das minhas palavras, supprir· todos os erros remediando assim o velho costume de finalisar com _emendas_. … certo que ninguem vae ao cÈo sem _emenda_, mas uma vez que se faz uma _confiss„o expontanea_ o _penitente_ fica perdoado dos seus _peccados_.

30 de Novembro de 1906.

INDICE

DOS ARTIGOS Pag.

No Limiar 1 Impressıes d'uma ExposiÁ„o 5 Pintores Portuenses.--Julio Costa 9 Pintores Portuenses.--Antonio Carneiro Junior 17 Thadeu Maria d'Almeida Furtado 21 Pintores Portuenses.--Arthur Loureiro 25 Esculptores Portuenses.--Fernandes de S· 31 ExposiÁ„o da Sociedade de Bellas-Artes de Lisboa 39 Pintores Portuenses.--Manuel San Rom„o 67 A Mulher Artista 73 Novas ExposiÁıes d'Arte 81 Uma ExposiÁ„o de Aguarellas organisada por Amadores 89 Pintores Portuenses.--Thomaz de Moura 93 Amadores Portuenses.--D. Joanna Andressen Silva 97 Pintores Portuenses.--Antonio JosÈ da Costa 105 Em frente d'um Cartaz!... 113 Na Cruz 117 Amadores Portuenses.--D. Margarida Ramalho 119 Novos quadros de Arthur Loureiro: I--No Atelier do Palacio de Crystal 127 II--Arthur Loureiro e os seus discipulos 131 III--Arthur Loureiro e a Academia de Bellas Artes 135 IV--Mais uma visita ao Atelier de Arthur Loureiro 141 Amadores Portuenses.--Manuel Maria Lucio Junior 145 Uma ExposiÁ„o de quadros do Instituto de Estudos e Conferencias 151 Uma ExposiÁ„o de Carneiro Junior 159 Notas ligeiras d'uma ExposiÁ„o 163 Amadores Portuenses.--Alberto Ayres de Gouveia 171 Uma ExposiÁ„o de Estatuetas.--Francisco Gouveia 179 Amadores Portuenses.--Manuel Monterroso 185 A Baixella Barahona 193 Conclus„o 197

INDICE

Retratos Pag. Quadros Pag.

S. M. a Rainha 73--Estudo de creanÁa (aguarella) 75

El-Rei 39--Paisagem (pastel) 40 Guarda arabe (pastel) 66

Alberto Ayres de Gouveia, 171--A Palavra do Mestre 173 Christo Morto 175 S. Jo„o lendo as Profecias 176

Adelia Ramos (D.) 144--

Alfredo Keill --A chegada da deligencia aos Valles em Ferreira do Zezere 61

Alice Grillo Lima (D.) 79--Orchideas 80

Antonio JosÈ da Costa 105--Chrysanthemos 7 Guarda Fiel 103 Rosas e Pionias 106 Outros tempos 107 No Pinhal 108 Camelias 109 Junquilhos e Camelias 110 Junto do Cruzeiro 111