Neves de antanho

Part 9

Chapter 93,512 wordsPublic domain

Um cavalleiro portuguez, Vasco de Lobeira, que as ideias de cavallaria andante embriagavam, escreve, na volta do seculo XIV, o seu _Amadis de Gaula_. E logo a sorte mofina envolve n’uma nebulose o auctor e o romance, de maneira que, conforme diz o Dr. João de Barros nas _Antiguidades e cousas notaveis de antre Douro e Minho_, «como estas cousas se seccam em nossas mãos os Castelhanos lhe mudaram a linguagem e attribuiram a obra a si.» Deram-lhe como auctor um Montalvo ainda mais indeciso na sua personalidade que o nosso Lobeira.

Um mathematico de genio, que lia nos astros e comprehendia a harmonia das espheras, inventa o instrumento que melhor ajudaria os navegadores a proseguirem na sua rota sem escolhos; e sem detença vem os Francezes com o seu Vernier, pretender que o aparelho d’este precede, se não no tempo, pelo menos nas vantagens, o _nonio_ do nosso immortal Pedro Nunes.

Antonio Ferreira, o culto humanista, rendilha em correctissimos versos soltos a sua _Castro_, obra prima do nosso cyclo classico.

Pois o plagiario Bermudez não ousou arrogar a si a paternidade da obra, valendo-se da precedencia da edição da sua insipida _Nise lastimosa_?

Ainda mais. Um conego engenhoso e atrevido atira uma tarde, do alto do Castello de Lisbôa, em Agosto de 1709, a celebre _Passarola_, sua invenção, avó veneranda dos modernos Zeppelins. Soffregamente, os Montgolfiers em França affirmam que se haviam antecipado ao nosso Bartholomeu de Gusmão.

E não param aqui os latrocinios.

Recuando um pouco no tempo, topamos com o mais engenhoso romance de Cavallaria que o seculo XVI produziu--_O Palmeirim de Inglaterra_, lido e relido por cavalleiros e donas, amado por todos os que sentiam ainda na imaginação esvoaçar a pluma ligeira da poesia medieva, e se compraziam em admirar a valentia dos heróes que vencem gigantes e resgatam donzellas prisioneiras. Pois essa novella, que Francisco de Moraes offerece á erudita e talentosa Infanta D. Maria, que durante dezenas de annos desperta em todos os animos masculinos valor e ancia de combates, e em todos os corações de mulher sympathia e admiração pelas proezas dos Palmeirins, Florianos e Dramusiandos, esse quasi poema que ao proprio Camões inspira a _Tenção de Miraguarda_, tambem tem sido regateado á gloria do seu auctor, attribuindo-o até a outros Portuguezes. Assim, o proprio Cervantes, ao dar o golpe mortal na Cavallaria Andante, quando figura na livraria de D. Quixote o barbeiro e o cura condemnando á fogueira os livros culpados da exaltação do engenhoso manchego, e exceptuando por serem excellentes o _Amadis_ e o _Palmeirim_, refere-se a este ultimo dizendo: «este libro, señor compadre, tiene autoridad por dos cosas: la una por que él por sí es muy bueno; y la otra, porque es fama que lo compuso un discreto Rey de Portugal.»

Um Rei de Portugal? D. Duarte diziam uns, D. João II diziam outros sem grande attenção pela chronologia e sem grande senso critico. Como se ao melancholico filho do Rei D. João I sobrasse tempo depois de escrever o _Leal Cavalleiro_ ou o _Livro da Ensinança de bem cavalgar toda sella_, para se embrenhar na narrativa das extraordinarias aventuras, que se emmaranham nos 172 capitulos do famoso romance. Ou como se D. João II, entre os festejos de Evora e o proseguimento de sua empreza governativa, tivesse disposição e embocadura litteraria para se comprazer na tarefa de explicar como o cavalleiro do Dragão desencantou Leonarda, e como a mesma Leonarda foi tambem desencantada pelo sabio Daliarte.

Mas não é essa competencia, que mais affronta a paternidade do nosso Moraes. Cervantes, que não era um erudito ou um bibliophilo, attribuiu ao _Palmeirim_ aquella origem, e ainda assim fallando pela bocca do Licenciado.

Outros Hespanhoes, porém, viriam disputar em favor de compatriotas seus, a proveniencia do notavel romance ao imaginoso Thesoureiro de El-Rei D. João III.

* * * * *

Depois de mais de dois seculos de incontestada naturalidade portugueza, apparece, em 1826, o livreiro-bibliophilo D. Vicente Salvá, que, fugido de Valencia, foi estabelecer-se em Londres, a berrar aos quatro ventos, no seu famoso catalogo, que descobrira uma edição hespanhola do _Palmeirim_, anterior á portugueza de 1567, e que o seu auctor era um tal Ferrer. Este Ferrer, diga-se de passagem, não foi mais que um modesto mercador de livros, escriba de segunda ordem.

Mas logo depois o filho de Salvá, illudido por um acrostico da edição de 1547, julga descobrir que não foi Ferrer o auctor da obra, mas sim Luiz Hurtado, um poeta menor, incapaz de o escrever por falta de engenho, e por falta de edade. Tinha apenas uns 15 annos.

Dividiram-se então os campos, envolvendo-se os contendores na celebre controversia, e foram com erudição apresentados os mais rebuscados argumentos (alguns fundados em ingenuas subtilezas) para comprovar as asserções com que os de cada nação reivindicavam o _Palmeirim_.

Do lado dos Hespanhoes formaram na primeira fila Salvá e D. Pascoal Gayangos, que foram seguidos por outros criticos e diccionaristas bibliographicos.

Defendendo a origem portugueza, encontrâmos o sabio hespanhol Benjumea, o brasileiro Odorico Mendes, D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, Pinto de Mattos, o Sr. Theophilo Braga e mais recentemente o escriptor inglez William Edward Purser, que em 1904 publicou um livro digno, a todos os respeitos, de attento exame e de uma gratidão sem reservas por parte de todos os Portuguezes que prezam as glorias da sua terra.

William Purser, em 464 paginas de prosa cerrada, encara no seu _Palmeirin of England_ o assumpto em todos os seus aspectos, e, occupando-se principalmente da controversia, demonstra com argumentos irrespondiveis a origem portugueza da novella que Francisco de Moraes compoz, quando foi a França como Secretario de D. Francisco de Noronha, futuro Conde de Linhares, Embaixador de Portugal.

Não caberia aqui, ainda que me propuzesse extrahir e distilar a quinta essencia do assumpto ou apontar as questões que têm levantado o famigerado romance de cavallaria, bem como as polemicas litterarias a que tem dado azo. O sabio inglez trata de todas. Quem quizer aprofundar o caso terá, portanto, depois de ler os trez volumes do _Palmeirim_, o que não é tarefa ligeira para o leitor de hoje (pois que o mesmo Purser diz a respeito da novella: _a work no one reads_) de compulsar vagarosamente a obra do critico.

São de natureza varia os argumentos por elle usados; uns colhidos no estudo intrinseco do romance, outros fundados na chronologia, outros na comparação do merecimento de Francisco de Moraes, da sua cultura, do seu estylo, da situação social que occupou em Portugal e na Côrte de Francisco I, com as individualidades inferiores dos dois Hespanhóes, o Ferrer e o Hurtado.

Um dos mais engenhosos argumentos é o que devemos á paciencia do critico inglez, e que faz parte do capitulo em que coteja as duas versões, phrase por phrase. Prova com elle exuberantemente terem sido os Hespanhóes que traduziram (em estylo, aliás incaracteristico e insipido) o texto portuguez e não Francisco de Moraes que trasladou o de Hurtado.

Purser comparando os dois textos, e fazendo notar que a nossa palavra _saudade_ não tem equivalente em hespanhol, encontrou no _Palmeirim de Inglaterra_, em portuguez, _cincoenta e sete_ vezes esta palavra e sempre empregada com propriedade. No texto hespanhol é omittida _trez_ vezes, e nas outras _cincoenta e quatro_ é substituida pelas palavras--_alegria_--_cuidado_--_gozo_--_soledad_--_deseo_-- _deleite_--etc; evidentemente rodeios para evitar a difficuldade da traducção de uma palavra intraduzivel.

Abençoada seja a benedictina perseverança com que o estudioso inglez catou a prosa de Francisco de Moraes!

Mais uma vez a palavra--_saudade_--tão nossa, veiu dar uma certidão de naturalidade a uma obra escripta na doce lingua portugueza.

Outro argumento que melhor ainda demonstra essa naturalidade e constitue, por assim dizer, uma prova n’este processo de investigação de paternidade, é o episodio que no _Palmeirim de Inglaterra_ toma os capitulos 137 a 147, em que são descriptas as justas em honra de _quatro senhoras francezas_, esclarecido pela comparação com o escripto de Moraes, que nas suas obras se intitula: _Desculpa de uns amores, que tinha em Pariz com uma dama franceza da Rainha D. Leonor, por nome Torsi, sendo portuguez pela qual fez a historia das damas francezas no seu Palmeirim._

* * * * *

Recordemos esse pequeno romance, seguindo o proprio Moraes, que n’elle foi heroe e chronista, e percorramos não só aquelle escripto em que nos deixou a sua confidencia, mas tambem a carta dirigida ao Conde de Linhares, onde encontraremos uma scena flagrante das recreações algo desregradas das damas da côrte franceza.

_Desculpa de uns amores..._ é o titulo com que foi divulgada a curiosa declaração.

Desculpa? N’esta confissão, especie de auto-biographia amorosa, que alguem já comparou ás de Rousseau, por se comprazer em mostrar-se á posteridade n’uma postura de geito ingrato, o nosso Moraes é tão ingenuamente sincero, que não extranhamos que quizesse como que desculpar-se de, em edade já avançada, se deixar envenenar pela _amorosa pestilencia_ distillada nos olhos maliciosos da escarnicadeira Torcy.

Para um meridional facilmente inflammavel, como era o thesoureiro particular de D. João III, que no seu proprio dizer tinha «a condição namorada como em especial a tem os Portuguezes» e já anteriormente se sentira muitas vezes tomado de amores, era perigosa aquella creatura formosa, loureira, voluvel, e prezada do seu parecer, que estonteava todos os cortezãos de Fontainebleau, Dijon, Pariz e Melun. Vejamos como operou a feiticeira, e como se deixou captivar o indefenso portuguez.

Reinava em Portugal D. João III pelos annos de mil quinhentos e quarenta e tantos, quando em França o voluptuoso e inconstante Francisco I, aos pés da Duqueza d’Etampes, ou borboleteando entre as mimosas da côrte, esquecia a Rainha Leonor com quem casara, em virtude do contracto de Madrid de 1526, depois da batalha de Pavia.

_La Reine Alianor_, a irmã de Carlos V, fôra bella, quando na mocidade, as feições do seu retrato, devido ao pincel de Clouet, haviam perturbado de tal sorte a imaginação de El-Rei D. Manoel de Portugal, duas vezes viuvo, e quinquagenario, que, levado de paixão serodia, a roubou ao filho (depois D. João III) de quem estava noiva.

Agora, embora conservasse as linhas da sua belleza (belleza que, diga-se de passagem, um retrato existente em Hampton-Court não deixa suspeitar), começava a envelhecer e faltava-lhe o sufficiente prestigio para segurar o coração e dominar os sentidos do seu inquieto marido, o sybarita Valois, galanteador e artista.

Mas esse Rei, porque era cavalheiroso e magnanimo, rodeava a Rainha, embora imposta por Carlos V, o rival odiado, de uma côrte brilhante. E as damas que a serviam eram as mais illustres e mais formosas de França.

Á casa da Rainha Leonor pertenciam entre outras Madame de l’Estrange, Mademoiselle de Macy, Madame de Telligny, e, a mais que todas perturbante, Mademoiselle de Torcy.

Caçadas e justas, torneios e monterias succediam-se ora nos frescos bosques de Sonia «que agora chamam Dijon», ora na floresta de Fontainebleau, cujo palacio o Rei, seduzido pelas graças da Renascença e influenciado pela Duqueza d’Etampes adornava com as maravilhas de Jean Goujon.

Era deslumbrante a côrte que Francisco de Moraes ia encontrar em França, para onde partiu em 1540 como Secretario do Embaixador D. Francisco de Noronha. Tão grande era o poder de seducção de que este dispunha que, sendo o posto que ia occupar sobremaneira ingrato, pouco depois de alli estar tinha conquistado as boas graças do Rei, da Rainha, dos cortezãos, e tornara-se o mimalho da sociedade franceza.

Não era isso empreza facil se pensarmos que Francisco I tinha sobejos motivos de aggravo da nossa côrte, que bem penosos eram para o seu orgulho, pois sentia a politica portugueza toda inclinada a Castella. Carlos V o adversario feliz, casára com uma filha do El-Rei D. Manoel, a doce Imperatriz Isabel; e D. João III depois de rejeitar Carlota, a filha de Francisco I, casára com D. Catharina, irmã do Imperador...

Acertadamente procedia portanto o Rei de Portugal escolhendo, para o representar em Paris, o insinuante e intelligente fidalgo. Teve este durante a sua estada em França uma melindrosa missão. D. João III destinara sua filha D. Maria ao filho de Carlos V, Filippe, o futuro _Diabo do meio dia_.

Francisco I não podia olhar com boa avença este consorcio que mais ia engrandecer o detestado competidor. O Rei de Portugal, querendo evitar complicações, julgou preferivel não dar d’isto conhecimento ao monarcha francez. Nem mesmo chegou a consultal-o.

A noticia, porém, voou até Pariz, e foi sabida na Côrte, antes que D. Francisco de Noronha a farejasse. O Embaixador passou por isso um mau bocado.

A scena que o chronista Francisco de Andrade nos deixa adivinhar é caracteristica e pittoresca.

De uma vez que o representante portuguez foi ao Paço, onde tinha facil accesso e onde era recebido com «muyta festa e bom gasalhado» notou que a atmosphera aulica tinha arrefecido subitamente. «Viu no Paço tão notavel differença que até nos lacaios se enxergava muito claramente. Porque a gente franceza é a que mais se transforma ao gosto ou desgosto de El-Rei.»

Penetrou no emtanto até junto do soberano, que encontrou com sobrecenho, e de aspecto carregado. Pelas salas e antecamaras a frieza dos cortezãos annunciava-lhe borrasca. Não conhecendo a causa d’aquella novidade, o sobresalto não foi pequeno, sobretudo quando Francisco I, não podendo conter a colera que lhe invadira o animo, o levou para o vão de uma janella, onde, com palavras asperas, o increpou desabridamente. Queixava-se do procedimento do Rei de Portugal que, estando com elle em paz, fôra casar a filha com o herdeiro do seu maior inimigo, sem ao menos lhe dar as razões porque o fizera.

O Embaixador que nada sabia, e que carecia de instrucções para proceder, ficou engasgado. Mas não se desconcertou. Foi deixando explodir a sanha do irritado monarcha, emquanto reflectia na attitude que melhor convinha tomar.

Via no fundo da sala os cortezãos segredando, e adivinhava nas physionomias ironicas e sorridentes a satisfação com que alguns assistiam ao seu desfavor. Avaliando a gravidade da situação, logo que as queixas de Francisco I iam esmorecendo, pediu licença para responder. E com destreza se houve no seu arrazoado, jurando que ignorava tudo, mas que era sua convicção que o silencio de El-Rei de Portugal, longe de ser uma desconsideração, demonstrava o desejo de manter boa amizade... Enfeitou com tal arte esta these aliás difficil de defender, que Francisco I, ouvindo-o discretear «ficou n’isto tão satisfeito que com muito riso e festa levantou o Embaixador nos braços (porque era homem de muito grande corpo e de muitas forças), dizendo-lhe: Ah monsiour (sic) dom Francisco, dera Paris por um homem como vós.»

O gelo derreteu-se milagrosamente. E a fina flôr da gente palaciana, que de longe observava o extranho espectaculo, logo fez correr a noticia de bocca em bocca pelas camaras e recamaras, de modo que o valimento de D. Francisco ficou outra vez consolidado.

* * * * *

Quem era este Embaixador? Filho segundo do Conde de Linhares, por seu Pae descendia dos Villa Reaes e dos Braganças, sendo portanto proximo parente da Casa Real. Seu irmão primogenito, D. Ignacio, que na primeira mocidade fôra intelligente e valoroso, deixara-se dessoradamente arrastar a uma vida crapulosa de prazeres faceis. Attrahido pelos encantos equivocos de hetaïras de viella, sacrificava á Venus plebeia em orgias de baixa esphera, o que fez determinar sua mulher D. Isabel de Ataide, filha de Vasco da Gama, a recolher-se a um convento, desgostosa por ver o marido dominado e amollecido pelas comborças, que infestavam as betesgas da Alfama. Conscio da propria degradação, D. Ignacio, afim de mais livremente se entregar ás suas fugas para Cythera, pediu, ou foi pelo Rei induzido a pedir, a renuncia do titulo e da casa, em que succedeu o secundo-genito D. Francisco de Noronha que assim foi o 2.º Conde de Linhares.

Os Linhares, Noronhas, com excepção de D. Ignacio, eram gente dada ás cousas do espirito, e na sua casa prestou-se fervoroso culto ás lettras. Esse culto foi intensificado com o casamento de D. Francisco.

Sua mulher, Violante de Andrade, provinha de uma casa nobre tambem, e toda rica de tradicções litterarias. A essa familia pertenceu Diogo de Paiva de Andrade, o grande prégador; o heroico frade agostinho, Frei Thomé, auctor vernaculo dos «_Trabalhos de Jesus_», Francisco de Andrade, o chronista; sem contar que d’essa estirpe brotaram tambem os Ericeiras, tão nobres no patriciado das lettras como no do sangue, e no das armas. E de D. Violante e D. Francisco foi filho aquelle D. Antonio de Noronha, o amigo dilecto de Camões que, ao saber da morte do pobre moço, lhe dedicou o lindo soneto:

«Em flôr vos arrancou, de então crescida, Ah! Senhor D. Antonio a dura sorte...

* * * * *

e que termina:

«Na memoria das gentes vivereis.»

Basta este verso para tornar immorredouro o nome de D. Antonio.

Entre aquelles que frequentavam a casa dos Linhares, todos notaveis por varias fórmas,--Fernão da Silva; Francisco de Moura, estribeiro mór do Senhor D. Duarte; João Lopes Leitão, o famoso pagem da lança, Caminha, o mesurado poeta, e Luiz de Camões, o turbulento amigo do moço D. Antonio,--encontrava-se frequentemente Francisco de Moraes, filho do Thesoureiro-mór do Reino.

As suas faculdades eram muito apreciadas e aproveitadas pelos Senhores d’aquella familia.

A elle por vezes recorriam, como se vê da petição dirigida a El-Rei por D. Ignacio, para que a seu irmão D. Francisco passasse o titulo e a casa.

Francisco de Moraes nascêra nos fins do século XV. Fôra na primeira mocidade, moço fidalgo da casa do Infante D. Duarte.

O cargo de seu pae e o seu proprio obrigaram-n’o a manejar cifras e algarismos.

Mas nem a tarefa da contabilidade lhe turvou a inspiração, nem o ambiente severo da Côrte lhe abafou as ebulições e effervescencias do coração.

Poeta, versejou em portuguez e castelhano. Cavalleiro e namorado, o mesmo é dizer--ardente de animo, terno de coração--foram varias as crises amorosas que atravessou, como elle proprio confessa. Não deixaram, porém, esses passageiros enternecimentos outro vestigio que não fosse a ingenua confidencia (ou auto-biographia amorosa) que nos faz pela bocca do seu heroe _Florendo do Deserto_, ajoelhado aos pés da Torcy.

Pelas suas occupações, que lhe davam facil accesso na intimidade dos soberanos, e pela sua acceitação em casa dos Linhares, estava naturalmente indicado para Secretario da Embaixada de D. Francisco, que partiu para Pariz no anno de 1540.

Cumpre aqui n’um ligeiro parenthesis desfazer a impressão, que porventura tenham deixado no animo de algum leitor desprevenido, os periodos em que Odorico Mendes, o escriptor maranhense, que denodadamente defendeu a origem portugueza da novella, dá a entender que Francisco de Moraes foi na embaixada como mentor ou guia de Dom Francisco de Noronha. O Embaixador ficaria assim com um papel de simples representação, sem nada emprehender senão com a ajuda do intelligente Secretario.

Odorico Mendes, o douto Brasileiro, deixou-se arrastar pelas suas tendencias cegamente democraticas, quando escreve o seguinte: «Era costume, o de nomear-se um figurão para o posto superior, e alguem de boa cabeça para segundo.»

Deve notar-se que o _figurão_ era um espirito cultivado, que logo de entrada conquistou as boas graças e resolveu negocios importantes, como é sabido.

E Francisco de Moraes, quando chegou a Pariz, nem mesmo a lingua franceza entendia, como elle proprio confessou na _Desculpa de uns amores..._

Nada prova isso em seu desabono, mas desfaz a atoarda que alcunha de inepto espaventoso o Embaixador, que tão habil se mostrou no desempenho da sua missão.

Um e outro eram dotados de engenho. Um e outro possuiam qualidades para se fazerem apreciar.

E o valimento do Embaixador facultou a Francisco de Moraes, o Secretario, facil acolhimento nos circulos palacianos. Valendo-se d’isto, e porque era conhecedor do coração humano, este soube habilmente explorar o affecto maternal da Rainha Leonor fallando-lhe na filha que ficára em Lisboa, e evocando com tacto e arte subtil os tempos em que moça, adorada e feliz, quando casada com El-Rei D. Manoel, ella era a soberana radiôsa na Côrte de maior explendor da Europa.

A Rainha agora ia já entrando na edade mofina.

Desapparecêra a frescura da mocidade; o marido voluvel cultivava descuidadamente os alfobres em que floresciam as suas damas de honor; o irmão implacavel continuava a guerra; e, lá longe, sobre o Tejo, a filha, a Infanta D. Maria, unico arpão que devéras a prendia á vida, aboborava n’um quasi sequestro em que D. João III a conservava por não lhe convir que a Irmã sahisse de Portugal.

Francisco de Moraes facilmente encontrou o caminho d’aquella alma desterrada, d’aquelle coração maternal ulcerado, d’aquelle orgulho de soberana dolorida. Fallava-lhe em castelhano. Perfumava-lhe a imaginação de recordações, e o coração de consolos.

Descrevia-lhe a filha, a Infanta, então em todo o esplendor da sua altiva belleza loura, requestada por Soberanos e por Principes; narrava-lhe a existencia austera, mas de requintado lustre que ella levava nos Paços da Alcaçova Velha e nos de Santa Clara, onde a esse tempo já se reunia uma Academia douta e elegante.

A estes colloquios do Secretario portuguez assistiam ás vezes as damas da _Reine Alianor_, que eram para elle um motivo de constante curiosidade e lhe davam a impressão de fructos exoticos de desconhecido, mas appetecivel sabor.

Com os seus cincoenta annos ainda florescentes olhava attento aquelle feminino batalhão volante, que frequentemente tinha ensejo de observar.

É elle proprio quem o conta n’uma carta dirigida ao Conde de Linhares, D. Antonio, pae do Embaixador, datada de Melun, em 10 de Dezembro de 1541.

São d’essa carta os seguintes periodos que transcrevemos, conservando-lhes a redacção original para não tirar o sabor á descripção do jogo da pella (partida de _lawn-tennis ou foot-ball_), a que assistiu nos jardins de Fontainebleau: