Neves de antanho

Part 8

Chapter 83,904 wordsPublic domain

Chegou afinal a apurar-se que elle não fôra culpado. Ao que parece, a alma damnada, a inspiradora e, porventura, figurante ou representadora da comedia, era uma creada da casa dos Villas Reaes que illudia o moço D. João, fazendo-lhe crer que era bem acceito de sua ama. Fabricava ella propria as cartas de D. Juliana, puzera talvez em scena o pretendido casamento, e, (quem sabe?) talvez o consummasse no mysterio d’aquella noite em que o apaixonado se encontrou dentro da praça, e intentou, ou se viu obrigado a arrombar a janella do aposento de D. Juliana.

Não ficaram documentos explicativos da interferencia da creada, que nos elucidem sobre os intuitos que a levaram a compor este auto _vicentino_, nem sabemos o destino que a moça teve.

Começaria talvez por uma simples complacencia para com as solicitações do namorado pretendente, seduzindo-a tambem a mira nas esportulas chorudas, dadas pelo generoso D. João. Fingia bôa avença da parte de D. Juliana.

Iria depois complicando-se por tal fórma a trama urdida que difficil seria recuar.

Teria tambem, (não é isso impossivel) o coração interessado; e não podendo comer á mesa do banquete, diligenciaria, com dissimulações e embustes, saborear algumas migalhas que lhe não eram destinadas?

Sendo assim, o desvairado D. João teria cahido n’um logro levado pela conhecida sentença que diz: _Quod volumus facile credimus_. E elle, que tanto queria aquelle casamento, acreditaria facilmente nas apparencias mentirosas.

As cartas asseguravam-lhe amor correspondido, as entrevistas, nocturnas e rapidas, confirmavam-lhe essa convicção, e a comedia do _casamento a furto_ (se a houve) mais lhe consolidaria essa crença. Quando entrou de noite em casa de D. Juliana, supporia talvez de bôa fé encontrar-se com sua mulher.

Muito penoso lhe havia de ter sido o accordar do sonho, sentindo-se roubado nas suas aspirações, afastado do valimento régio, e alvo das zombarias de todos os que estão sempre dispostos a folgar com os males alheios.

Mas nem calumniador, nem falsario era o pobre moço. Isso não!

Se não ha provas indiscutiveis da sua innocencia, nem documentos, que revelem os artificios occultos empregados pela ladina cuvilheira dos Villa Reaes para attrahir o incauto áquella ratoeira, ha testemunhos que, embora indirectos, são a cabal demonstração de que o procedimento de D. João Lobo e de seu pae, era menos condemnavel do que se suppunha.

Quanto ao pae, é eloquente a sentença dada em Julho de 1548, isto é pouco mais de um anno depois da prisão.

No seu accordão, os Desembargadores de El-Rei, ordenam que, em _vista dos autos e da devaça_, ao Barão D. Rodrigo seja levantada a menagem sob que estava preso no Castello de Soure, e permittem-lhe _ir para sua casa_.

Logo em seguida D. João III determina que venha para a Côrte _servir o seu officio_. Isto é reintegra-o no lugar de Védor da Fazenda, que exerceu até á morte, que succedeu em 1559. E não só lhe dá o cargo como lhe restitue a privança.

Estão cheios de anecdotas comprovativas da intimidade entre o soberano e o vassallo as paginas das chronicas e os _Apophthegmas_ de Suppico.

Querem ouvir dois?

«Ordenando El-Rei D. João III que se fizesse um livro, em que se escrevessem todas as mercês que até então tinha feito, e se sommassem; como soube que estava acabado, mandou que lh’o levassem, e juntamente outro em que estavam registadas todas as mercês que El-Rei D. Manoel seu pae fizera; e achando que até alli as suas valiam dobrado lhe disse o Barão, que era um dos Ministros com quem El-Rei communicava aquelle particular.

--«Não achará Vossa Alteza n’esse livro ter-me feito outra mercê mais que só de um açôr.»

Respondeu-lhe El-Rei:

--«E o potro que vos trouxe o Almoxarife de Beja, sahiu bom?»

Entendeu o Barão o remoque e disse promptamente:

--«Senhor sahiu um sendeiro.»

De outra vez, refere o bom do Suppico, estando El-Rei em despacho com o Barão d’Alvito e o Secretario Damião Dias se leu a petição de um rendeiro que estava preso por 500 cruzados que devia á Fazenda. El-Rei perdoou-lhe 300. O Barão mandou logo passar a Provisão d’essas partes mas o Secretario entrou em duvida sobre a quantia, o que originou disputa entre os dois magistrados. Atalhou então o Rei dizendo:

--«Pois que, cada um de vós me entendeu em differente fórma razão é que me incline para a melhor parte». E perdoou tudo a esse homem.

Este pequeno episodio, se demonstra a generosidade de El-Rei, dá tambem a medida da boa harmonia entre o monarcha e o seu Secretario das Finanças.

Isto pelo que respeita á plena rehabilitação do pae.

Com referencia ao filho, D. João Lobo, accusado dos crimes de diffamação, arrombamento, e outras acções feias praticadas em detrimento da reputação da filha da Marqueza de Villa Real, sabemos que nem sequer foi obrigado a partir para o degredo. E, se chegou a sahir do Reino, voltou logo. Mas ainda melhor demonstra não só o perdão, o apreço em que vieram a ser tidas as suas qualidades, o alvará de Abril de 1560, que o nomeia por morte do seu pae, Védor da Fazenda com o ordenado de cento e oito mil e trezentos e trinta e trez reaes, fóra os emolumentos que deviam ser importantes.

Assentou, assim, como em chão de relva humida, a poeirada que o episodio do estouvado D. João levantara.

Não é conhecido, já o dissemos, o destino que teve a ardilosa camareira que, por espirito de intriga, ou de ganancia (_auri sacra fames_, que ataca ainda os mais humildes) ou talvez por erotica paixão, teceu a teia em que se iam enredando os Alvitos e a nobre Juliana.

D’esta é que sabemos como epilogou o romance.

Vamos a vêl-o.

* * * * *

Já contámos como o Duque de Aveiro se retirara rabugento para Setubal, quando El-Rei lhe embaraçou a pretensão de casar com a filha do Duque de Bragança e de casar sua irmã D. Helena com o Duque de Barcellos.

Foi tal o seu desprazer (diz D. Antonio Caetano de Sousa), deu-se por tão sentido, que não cuidou mais durante a vida de seu pae em tomar estado.

Os casamentos e os casos de amor fizeram por um capricho do destino segregar muita bilis a este D. João de Lancastre, filho da gentil «Perigosa», e do Senhor D. Jorge, aquelle que nascera num episodio romantico de D. João II.

Na mocidade tivera a louca pretensão de se declarar casado com D. Guiomar Coutinho, filha do Conde de Marialva, o que tantos dissabores lhe dera. Depois fôra o desvairo de seu pae (e d’esse achaque não estava então ainda curado) intentando, perto dos setenta, casar com D. Maria Manoel mocinha de dezeseis annos, ao que elle Duque de Aveiro tivera de se oppôr com uma energia que deu brado. Em seguida viera a contrariedade de lhe impedirem a alliança com os Braganças. Agora chegavam-lhe aos ouvidos rumores que misturavam o seu nome entre os dos personagens do caso de Santarem.

--Que significaria esta atoarda? Perguntava a si proprio o Duque quando no inverno de 1547 se achava em Evora convalescendo, (talvez do figado combalido) e que El-Rei o mandou chamar a Almeirim onde estava a Côrte.

--Que lhe quereria El-Rei?

Até então nunca fôra Sua Alteza prodigo para com elle em graças, intimidades ou bons dias.

E embora alguns biographos affirmem que El-Rei era inclinado ao Duque, os factos tinham demonstrado o contrario.

Cumpria, porém, acatar as ordens do soberano.

Promptamente mandou selar o seu melhor troteiro, e ordenou que o acompanhassem alguns officiaes e creados, seguindo logo os azemeis e mulas bagageiras.

Pela estrada que corre da capital do Alentejo atravez a leziria até á pittoresca Almeirim, D. João de Lancastre ia ruminando a natureza das determinações de El-Rei.

Empreza militar?--Embaixada?

--Governo em Além-mar?

Porventura passava-lhe na mente a verdadeira causa da chamada. Ter-lhe-hiam chegado aos ouvidos os echos das declarações de sua prima D. Juliana perante os magistrados.

Zum-zuns indiscretos, talvez lhe tivessem trazido algumas palavras de El-Rei...

Á medida que se approximava de Almeirim, atravessando a paizagem plana dos campos de Muge, e quando lá ao longe via já recortarem-se na linha do horizonte as torres de Santarem, ia elle cogitando no destino que o esperava.

--Casamento? As ordens de El-Rei não se discutem. E d’ahi, talvez não lhe desagradasse a ideia (quem sabe?) de transformar a appetitosa Villa Real n’uma Duqueza de Aveiro.

Ia já nos 46 annos e a sua grande casa ameaçava não ter por elle successão. Não lhe repugnava pois a espectativa de que El-Rei lhe fallasse no assumpto.

O Palacio Real de Almeirim, fundado por D. João I, e que El-Rei D. Manoel engrandecêra e alindára, já apparecia agora, n’aquelle approximar de noite fria de inverno, como uma grande mole escura, picada de luzes.

O Duque de Aveiro apeou-se á porta das casas que habitava o Arcebispo do Funchal, e ahi ficou alojado.

Logo na manhã seguinte se avistou com os soberanos, e El-Rei, sem mais preambulos, propoz-lhe para esposa D. Juliana.

D. João de Lancastre, Duque de Aveiro, não era um sonhador, um amoroso, um poeta, nem tampouco um artista. Intelligente, sim. Escriptor mesmo. Mas as suas obras denotam mais tendencias de erudição religiosa, que sensibilidade perante o encanto feminino.

Entretanto (considerava de si para si) D. Juliana era formosa, e as suas qualidades seduziam-no.

Não foi, portanto, constrangido que beijou a mão a El-Rei, agradecendo o interesse na conservação da sua Casa; e referindo-se «á que elegera para sua mulher, affirmou que nenhuma podia ser-lhe mais conveniente que aquella que lhe insinuava.»

Este rasgo do cavalheiroso Duque abafou por completo as ultimas murmurações dos soalheiros da Côrte.

Todos agora approvavam a determinação dos soberanos e a boa aceitação do Duque, que logo se ficou em Almeirim, preparando as bodas.

Na presença d’El-Rei se fez o ajuste do dote, assignando-se o contrato a 29 de Janeiro.

Não nos interessam os dizeres d’esse extenso documento, que contém numerosos artigos e demonstra a grandeza dos personagens que se uniam.

Olhemos apenas para as cerimonias e festejos a que este consorcio deu ensejo.

Quem nos vae guiar para assistirmos a essa festança é Braz Luiz da Motta, um conego da Sé de Lisbôa, que foi testemunha de vista, e que por isso escrevendo ao Cabido, a narrar-lhe as peripecias, se alonga em pormenores que necessariamente temos que rezumir, embora com pena, por serem interessantes.

Foi a 1 de Fevereiro de 1547, que Dom Nuno Alvares, tio da noiva, a trouxe de Santarem em umas andas, especie de leito portatil ou palanquim, conduzido por azemolas possantes. Hospedou-a em sua casa.

Logo no dia seguinte, o Infante D. Luiz, o Cardeal, muitos bispos e toda a nobreza, montavam a cavallo, indo buscar o Duque de Aveiro á sua pousada.

Vestia, segundo diz o conego, de panno preto tozado, pelote e capa aberta, gorro de velludo com uma estampa, e um collar honesto. Montava um cavallo branco, sendo conduzido entre os Principes ao Paço, em cujo terreiro entraram, passando o arco. N’esse terreiro estava D. João III, tambem a cavallo. Recebeu-o affavelmente, debruçando-se sobre o arção da sella para lhe fallar.

A multidão era enorme e apinhava-se de tal fórma nos terraços, escadas, galerias, e varandas, que se deram alguns episodios, entre comicos e dramaticos.

Conta-nos o bom do Braz Luiz, que n’uma certa varanda e escada que a ella dava accésso, a gente era tanta, e carregavam uns sobre os outros com tal força, que o mainel d’essa escadaria rebentou, cahindo a gente, uma sobre outra, de cabeça para baixo «e os que traziam más calças descobriram as suas pobrezas, e os que as não traziam boas nem más mostravam aquillo que Deus lhes deu». Entre os gemidos de uns que sentiam as _cabeças esmechadas_, e a risota dos outros que tinham presenciado o espectaculo da natureza, a que o conego se refere, recolheram o Rei, o noivo e a Côrte á sala onde estava armado um estrado sob o docel.

Quando alli chegou a Rainha, a futura Duqueza, e as damas, veiu o Nuncio, que recebeu os nubentes.

Depois d’esta cerimonia começou o serão.

É difficil imaginar o que seria uma d’estas funcções na Côrte mais rica e faustosa da Europa, para celebrar as bodas dos Duques de Aveiro, ambos parentes de El-Rei. Nas paredes os Razes e as tapeçarias de Flandres figuram scenas da antiguidade ou da mythologia. A luz macia dos brandões, que os pagens, vestidos de côres garridas, empunham, illumina as salas, povoadas da melhor nobreza. Brocados e sedas, e pannos de ouro adornam as lindas portuguezas.

Fios de perolas entrançam-se nos seus cabellos, e nos afogadores rutilam pedrarias custosas. Os purpoens e justilhos dos cortezãos entrecruzam-se com as vestes prelaticias dos Bispos e do Nuncio.

A musica da camara, em que se fazem ouvir João de Badajoz e os Baenas, Nicoláo de Estovar, tangedor de harpa, e os ministris mais habeis, entôa uma marcha mesurada, ao som da qual começa o baile.

Dansam: El-Rei com a Rainha D. Catharina, grave e severa nos seus velludos escuros; o Infante D. Luiz com a Infanta D. Maria, cuja belleza loira, porte altivo e deslumbrante donaire attrahem todas as attenções.

Não menos chamam a curiosidade os dois esposados, dansando juntos; ella graciosa no curvar das reverencias, elle inclinando-se com cortezia nos compassados movimentos.

E depois d’estes pares, os dos mais senhores da Côrte: as duas Bocanegras--D. Maria, a camareira-mór, e D. Cecilia, a mais nova, D. Maria de Menezes, D. Violante de Lemos, já edosa, que fôra dama da Rainha D. Leonor, e, muito novinha, a seductora Catharina de Ataide, pensativa, um pouco alheada, cuidando no seu poeta, e escondendo talvez no seio aquelle retrato de que elle disse:

«Retrato vós não sois meu Retrataram-nos mui mal, Que a sereis meu natural Foreis mofino como eu.»

Ella sentindo o contacto d’este retrato e suspeitando as perseguições que ameaçavam o original, o moço Luiz de Camões, é possivel que errasse os passos da _pavana_. Errava-os decerto, porém, com tanta graça, que era um regalo dos olhos. Assim o sentiam todos, desde os Condes de Portalegre, da Castanheira, da Vidigueira, e D. Affonso de Portugal, filho do Vimioso, e D. Francisco de Mello, filho do Marquez de Ferreira e muitos mais, até aos bobos e graciosos de El-Rei, que entre guinchos, dichotes e chufas que atiravam a granel sobre as cabeças mais gradas, não deixavam de celebrar a seu modo as bellezas femininas.

Eram esses bufões D. Fernando Roxas--_marmanjo-mór_, o Panasco, preto creoulo, cujos ditos eram famosos, e eram D. Felix e D. Briando.

«Os truhões chocarreiros com guitarras Que aplazen aos reis, aos principes, aos infantes.»

Ao dar das nove horas terminou o serão.

Acabavam cedo estas seroadas da Côrte. É que além de ser esse o costume, cumpria n’essa noite ir accommodar o noivo na sua pousada, bem como todos os assistentes, alguns dos quaes tinham vindo de longe e para longe iam, afim de na manhã seguinte, logo ás 8 horas, estarem prestes para se celebrar a missa pontifical, em que o bispo do Funchal devia lançar as bençãos aos Duques de Aveiro. Eram complicadas as fórmulas do Cerimonial Romano.

Foi longo o jantar, e só pela tarde se organizou a cavalgada que havia de levar a nova recem-casada a casa do Duque seu senhor.

* * * * *

Occorre agora perguntar se os echos d’esta rija festa, levados pela indiscreção de algum alviçareiro desastrado, chegariam ao retiro onde a esse tempo se amofinava D. João Lobo, filho do Senhor de Alvito.

Vozes de orgão na capella real, charamellas, sacabuxas, trombetas e atabales da fanfarra de El-Rei, o repicar festivo dos sinos das torres de Almeirim, annunciando as bodas, talvez fossem n’esse Fevereiro luminoso inquietar as vigilias do infeliz namorado.

Elle, no emtanto, tinha em si recursos para reagir contra as perrices do destino.

Não se deixou succumbir.

Tempos depois, já desvanecido o sonho amoroso, casava com D. Leonor Mascarenhas, filha do Capitão de Ginetes de El-Rei, e decorridos trinta annos veiu a rematar heroicamente a sua existencia ao som clangoroso das trombetas de guerra.

Entre estas duas datas a vida correu serena, e talvez feliz nos dois casaes.

D. João Lobo foi Vedor da Fazenda com agrado da Rainha Regente.

E o Duque de Aveiro desempenhou honrosas, difficeis, e ostentosas missões. Entre outras a da sua ida a Castela em 1552, com notavel pompa, a tomar entrega da Princeza D. Joanna, que veiu para casar com o Principe herdeiro, e que havia de ser a mãe de D. Sebastião. Para avaliar a grandeza d’essa embaixada basta dizer que, além de vinte parentes, todos com as suas comitivas, o Duque levava quinhentos homens de cavallo, oitenta alabardelos da sua guarda, e dois arautos, todos vestidos de sua libré roxa, amarella, e branca; e era seguido por cincoenta azemolas de bagagem.

Era opulenta a sua casa, era faustosa e intellectual a existencia do erudito fidalgo. E a residencia, assim como as dos Braganças, Vimiosos Borbas e Redondos, era frequentada pelos bons engenhos, que deixaram rasto notavel na litteratura portugueza.

Alli se encontravam o cerimonioso Caminha, o namorado Lopes Leitão, Francisco de Moraes, autor do «Palmeirim de Inglaterra», o Doutor Antonio Ferreira e, fulgurante entre os maiores--Camões, que mantinha com o Duque estreitas relações de espirito.

Da sua quasi intimidade dá-nos amostra a anecdota, referida por Juromenha quando conta a vida do Poeta.

«Indo o Duque de Aveiro (diz o biographo) ouvir missa a Nossa Senhora do Amparo, ahi encontrou o Poeta, e perguntando-lhe o que queria da sua mesa respondeu-lhe logo que bastava que lhe mandasse uma gallinha: esqueceu-se o Duque, ou fingio esquecer-se, e, depois de haver jantado, quando já não havia outra cousa, lhe mandou uma peça de carneiro, e o Poeta pelo mesmo creado lhe respondeu:

«Já eu vi a taverneiro Vender vacca por carneiro, Mas não vi, por vida minha, Vender vacca por gallinha Senão ao Duque de Aveiro».

Não pareça esta anecdota indicar parazitismo deprimente por parte de Camões, nem desdem ou falta de consideração do Duque, mas antes um despretencioso commercio de estima.

Elle proprio Duque de uma vez quando El-Rei o enviou á raia da Hespanha buscar a Princeza, e tendo n’essa occasião recebido de Setubal um solho, mandou de presente ao monarcha o saboroso peixe dizendo: «Que folgaria que soubesse tão bem a Sua Alteza como a elle lhe sabia a _arraya_ de que lhe fizera mercê».

Da Duqueza pouco sabemos depois que casou, senão que manteve a linha orgulhosa e altiva que desde tamanina revelou. Mostra-o a insistencia com que, conversando um dia com o Duque de Bragança, D. Theodosio, lhe ia dando no decorrer da palestra o tratamento de «Vossa Senhoria».

Elle dissimulou cortezmente o despeito, mas na despedida disse-lhe sorrindo: «Advirta _Vossa Excellencia_ (e sublinhava o tratamento) que cada um dá o que tem comsigo».

Ora, nesse tempo, só a casa de Bragança tinha «Excellencias» de juro.

Era a duqueza, ao que parece, boa educadora dos filhos, em contrario do Duque, o qual tinha com elles taes complacencias que levaram alguem a dizer:

«O Duque não é pae, é irmão mais velho de seus filhos.»

Educados com rigor ou sem elle, os Duques modelaram-lhes as almas com tão preciosa argilla que todos foram notaveis, e o mais velho, o Segundo Duque de Aveiro, escreveu com lettras de sangue uma das mais bellas paginas da lamentosa epopêa.

* * * * *

EPILOGO

1578! Junho arde. O ar escalda. No ambiente passam ondas de um fluido subtil que agita as multidões.

Lisboa nervosa, Lisboa quasi festiva, Lisboa em alvoroço, vibra n’um grande movimento de almas.

O Rei vae partir! Portugal quasi todo o acompanha, e todo o segue com os corações anciosos.

Nas ruas passa a cavallo, bello, sobre-humano, fulvo como um archanjo, entre os clamores, os gritos, as preces, e a ternura do povo que o acclama, El-Rei D. Sebastião em caminho dos galeões que o hão de levar á vizinha Africa.

Com o Rei vae a fina flôr da gente portugueza. Sedas, velludos, télas de ouro e prata cobrem os corpos elegantes e esforçados. Nas cabeças, levemente embriagadas pela ambição de gloria, as plumas das gorras presas por firmaes de brilhantes, tremulam ao sabor da aragem. Os cavallos mordendo freios de ouro, são sellados com os mais ricos arnezes, e nos xaireis levam bordados os escudos da melhor nobreza. As esporas que lhes tocam de leve o flanco são tambem de ouro, assim como os estribos em que os cavalleiros apoiam os pés. É o caminhar de um exercito em festa, sacudido pela febre da conquista.

Entre os que o compõem dois, e dos mais graduados, nos interessam agora.

Um já começa a branquear, mas tem vigor no aspecto; e no olhar decisão e energia.

É D. João Lobo, Barão de Alvito que vae seguindo com a vista o moço Duque de Aveiro, filho da formosa D. Juliana, aquella que, trinta annos antes, tanto o enfeitiçara, e pela qual se ia perdendo.

Este, gentil de apparencia e seguido de numerosa companhia demonstra já o ardor exhuberante com que vae bater-se.

Quando em 4 de Agosto nos areaes de Alcacer Kibir, se deu a grande batalha, ambos foram heroicos no morrer.

O Barão com a experiencia da idade e a agudeza do engenho quando sentiu inevitavel a catastrophe, pela allucinação de El-Rei D. Sebastião, volta-se para Frei João da Silva gritando: «Por que não havemos nós de prender este homem?»

--«É tarde!» respondeu o frade.

--«Pois se é tarde, redarguio o Barão de Alvito, rezemos pelo Rei, pelo Reino, e pelos Vassallos.»

E morreu como um bravo!

O Duque, esse, fogoso, ardente, indomavel era a melhor ilharga do Rei.

Logo a 2 de Agosto, dois dias antes da batalha foi por D. Sebastião enviado a reconhecer o inimigo levando o Guião real. Arriscada era a missão e por isso tanto mais a apreciou. Foi o primeiro que encarou com os mouros.

Horas depois mettia-se com o seu batalhão no mais acceso da refrega.

A sua acção pessoal, nas trez avançadas que praticou, e em que «obrou milagres de valor» é das mais bellas estrophes d’esse poema de perdição.

Na investida tremenda e furiosa que Dom Sebastião deu com o melhor da nobreza para livrar a artilharia, o Duque de Aveiro retalhado de golpes, pereceu gloriosamente. Pouco depois D. João de Portugal que assistira á mortandade dirigia-se a D. Sebastião exclamando:

«Só nos resta morrer!»

«Morrer, sim», murmurou com melancholica tenacidade o Rei, «morrer sim, mas devagar!»

Era como um dobre funebre acompanhando o anniquilamento d’essa geração que, se teve culpas, loucuras, leviandades e devaneios, resgatou tudo com sublime heroicidade.

DESCULPA DE UNS AMORES

SUMMARIO

As glorias portuguezas disputadas por estrangeiros. O Palmeirim de Inglaterra attribuido a hespanhoes. Controversias. Os trabalhos de Purser--Alguns dos documentos mais interessantes. A desculpa de uns amôres feita por Francisco o Moraes. A sua paixão pela bella Torcy na Côrte de França. As mimosas de El-Rei. Identificações. Coração ferido. A Infanta D. Maria acolhe benevolamente o poeta. Morte mysteriosa.

É sina das glorias portuguezas verem-se disputadas por extranhos!

Um punhado de aventureiros audazes e sonhadores embarca-se um dia em rudes galeões, em airosas fustas, ou em resistentes carraças e, de longada vae ao mundo revelando novos mundos...

Logo vêm Italianos, Hespanhoes, Francezes, e até Inglezes reivindicar a prioridade dos seus descobrimentos. E comtudo, se da Europa amputassem esta nesgasita occidental que as ondas beijam, e onde os monstros marinhos cantam extravagantes balladas; se supprimissem da Historia o povo que foi seduzido pela mysteriosa Atlantida, pelo mysterio do Preste João, e que, por loucura aventureira se metteu aos mares, o _homem_ não teria tão rapidamente caminhado, a humanidade não poderia tanto a tempo ter-se alastrado pela terra, e muito mais tarde haveria conquistado o globo.