Neves de antanho

Part 10

Chapter 103,748 wordsPublic domain

«Antontem, que foram oito d’este mez, se partio el-rey de Fontenableo, e foy dormir a hua vila d’aly tres leguas, que chama Valença, e nam levou as damas comsigo que he maior milagre... No mesmo dia depois del-rey partido, se sairam ao campo a Delfyna, madama Marguaryta filha del-rey, madama de Etampes, a duqueza de Monpensé, que he nova e das famosas d’esta terra, sobrinha del-rey, filha de hua sua irmãa, e tambem dizem que avó, por sobeja amizade que tem com Monsior d’Orlyens. Na verdade cousas d’esta calydade sam quaa tam desacostumadas que se non deve de crer; sairam mais Mamsy, que é a mimosa del-rey, e madama de Latranja e outras da mesma banda, e metidas em hum cerco de cordas grandes que mandaram fazer repartidas em deus bandos, em vasquinhas de tafetaa curtas e manguas de camisa, porque os dias n’este tempo sam quaa quentes, jugaram a péla huas contra outras, e duas ou tres por muito destras davam d’arras juguar sempre co pee; pode vossa senhoria crer que aas vezes tomavam o voléo mais alto do que era necessario pera lhe ficarem cubertos os artelhos, e ainda que se fiassem nas calças que chegavam tee o gyolho, tambem afirmo a vossa senhoria que tinham ruim fiador. Eu me achey presente a esta festa, que aquele dia por mandado do senhor D. Francisco fuy a Fontenableo a negocio, crendo que el-rey e a corte estavam ali e sey que quaa pareceo muy bem e tambem sei que em nossa terra nam parecera asy. E pera que os brincos tivessem mais graça acercando-se da banda de fóra do cerco hum padre theologo da ordem de Sam Domingos que agora prega todo o avento á Raynha, e não sey se de muyto servidor se de namorado começou servyr de fóra do cerco as pélas que vinham perdidas de dentro. No principio ainda parecia que ho fazia com menos despejo, mas como a cousa começou a andar, deu cõ abyto no campo, e se o jogo durara muyto, parece-me que assy como se despejou do abyto de cima, se despira de todo para ficar mays desenvolto. Afirmo a vossa senhoria que foy um dos mays destros juguadores de péla que nunca vy. Acabado de perder huma das partes aquelas princezas e senhoras se foram daly tee o paço, que seria doze tiros de bésta juguando o aleo e saltando huas por cima das outras; tambem aqui avya aas vezes saltar mal e cayr cos focinhos pera baixo, mas ynda que as novas sejam pera o senhor Marquez, como a carta é pera vossa senhoria, não posso dizer tudo, senam que o padre pera nam ver desonestydades remetya as que cahiam e cobertas cõ manto as ajudava a levantar; duas cousas lhe vy em extremo mavyoso e ligeiro o que eu nam cuydey que avia n’eles, que de conversaveis já he manqueira veelha que lhe ha-de durar tee morte.

Aa noute coatro ou cinquo d’estas senhoras em que entrou Tampes, Latranja, Mansy, madama de Monpensé, e despidas em calças e camisa com frauta e tamboril vyeram em mascara a casa da raynha onde contrafizeram volteadores e sempre muito mal; soo o pino acertou de ter graça n’ele madama de Mansy. A raynha parece que nam lhe pareceu tam bem a festa e porque nam ousou dizel-o mandou despejal a casa porque não podesse ser vista de muytos...»

* * * * *

Esta narrativa tão cheia de vida é feita com uma segurança de processos, que revela a penna habil de um romancista, o lapis de um humorista, e a ironia de um observador de costumes.

O observador, porém (pobre d’elle!) era homem, era um meridional impressionavel, era um portuguez de coração sensivel.

A atmosphera da côrte embriagava-o. A desenvoltura das ageis jogadoras de pella espicaçava-lhe os sentidos. As serenadas com frauta e tamboril boliam-lhe como cocegas na epiderme. E as vasquinhas curtas de tafetá, que não encobriam tudo, davam-lhe volta ao juizo.

Com o seu antiquado pelote de brocado á _usança portugueza_, tão querido de D. João III, e que tanto destoava das modas francezas, que os amaneirados e dengosos Valois iam introduzindo, sentia-se quasi um anachronismo, desageitado e levemente rustico, entre os requintes das provocantes bellezas das mimosas d’El-Rei.

Essas que elle encontrava na camara da Rainha Leonor, quando era recebido pela virtuosa senhora, interessavam-n’o por motivos varios.

Alli via por vezes a Princeza Margarida filha do Rei e futura Duqueza de Saboya--_a mãe do povo_--casta e séria no meio da côrte frivola e licenciosa. É esta que Francisco de Moraes, no seu romance, faz figurar com o nome de _Gratiamar_ (filha do rei Arnedos) dôce anagrama de _Margarita_, da qual Brantôme dizia: «elle eut le coeur grand et haut».

Alli encontrava tambem aquella a que chama a _Delfyna_, nem mais nem menos que Catharina de Medicis, a esse tempo já casada com o futuro Henrique II.

Conheceu tambem a Duqueza de Montpensier, «que é nova e das famosas d’esta terra».

N’esta palavra _famosa_ ha reticencias, e intenções de interpretação que ficam á responsabilidade de Moraes, bem como no parentesco que lhe attribue, e com o qual deixa transparecer alguns dos maliciosos ruge-ruges, que apodavam como _sobeja_ a amizade d’esta Princeza com o Duque d’Orléans.

Outras muitas attrahiam os olhares do cortezão portuguez, avido de sensações novas, e attrahido pelo espectaculo deslumbrante d’essa sociedade, onde brilhavam como lantejoulas todos os vicios, todas as graças e todas as qualidades da Renascença.

Quatro d’ellas, porém, lhe prenderam os sentidos. E uma os sentidos e o coração.

As trez primeiras apparecem-nos recentemente identificadas com mais ou menos felicidade e segurança pelo escriptor inglez a que já alludimos. _Mansi_--_Telensi_--e _Latranja_, que figuram no romance, parece serem a representação phonetica de nomes de senhoras francezas, que a pronuncia de um portuguez fazia soar assim.

Mansi, portanto, seria Mademoiselle Macy, depois Madame de Pont de la Haute de Magdelaine, que n’um banquete d’esse anno (1541) figurou á esquerda de Francisco I. com Diana de Poitiers, a Duquesa d’Etampes e a Condessa de Vertus. Era «amada e servida por El-Rei, com o que se ennobrecia muito».

_Telensi_ devia ser aquella «_gracieuse Damoyselle de Teligny_», de que falla Billon, referindo-se á elegancia agradavel da sua distincta personalidade.

E Latranja é, sem duvida, Mademoiselle de l’Estrange, que fôra amante do Delphim Francisco, (fallecido havia poucos annos) e a quem um poeta aulico chamou n’um epigramma lisongeiro «_face d’ange_».

Uma, porém, enfeitiçou completamente o nosso Moraes: Claudia Blosset, _dame_ de Torcy; a coquette Torsi «de grão valor»; Torsy a dama da Rainha, a quem Brantôme nas _Dames galantes_ se refere significativamente, dizendo «J’ay ouy conter à Madame Fontaine Chalandry dite la belle Torcy...» Foi a ella tambem que Clement Marot, o poeta da côrte, n’uma das suas saborosas, picantes e espirituosas _estrennes_, disse:

«Damoyselle de Torcy, Cest an cy Telle estrenne vous desire, Qu’un bon coup vous puissiez dire Grand mercy.»

De nobre estirpe, pois que descendia da grande familia normanda dos Estouville, figura na _Historia genealogica da Casa Real de França_, _do P.ᵉ Anselme_, como filha de Jean de Blosset, Senhor de Torcy.

A nobreza de sangue dava-lhe um ar altivo, arrogante, encaprichado e desdenhoso, que quadrava bem com a sua elevada estatura. Tão alta e tão acima das outras que, quando Francisco I distribuira em 1538 velludo e setim, para que cada uma das damas da Rainha e da Princeza Margarida, fizesse dous vestidos, emquanto vinte e uma d’ellas recebiam apenas dez váras dos preciosos estofos, a Mademoiselle de Torcy foram dadas nada menos de onze.

«Gram soberba (diz Moraes), acompanhava aquellas senhoras e a da Senhora Torsi maior que todas. De mais confiada ou mais cruel todo seu fundamento era na confiança do seu parecer e fermosura: e como de nenhuma outra cousa se quizesse ajudar, suas mostras eram acompanhadas de desdem isenção, e altiveza; e sobre isto esquecida de todos os serviços e vontade, com que lh’os faziam.»

Por estas palavras e por todas que accodem á penna de Moraes, sempre que falla, ficticiamente no romance, de Torsi a dama da Rainha Melicia, ou que se refere, na realidade, a Torsi «_gram pessoa_», na _Desculpa de uns amores..._ sente-se quanto a soberba creatura o deslumbrava, e que tormentos lhe causou.

A perigosa rapariga manejava com artificio subtil a arma cruel da indifferença affectada, o que, por um phenomeno vulgar em casos de paixão morbida, excitava o temperamento naturalmente arrebatado do fogoso lusitano. «O repouso de Torsi, juntamente com o pouco caso que fez de ver que a olhavam, fizeram n’elles maior massa que nenhum dos outros.» São d’elle (no romance) estas palavras indicadoras do gráo elevado a que ascendera o seu thermometro amoroso.

Ao encanto que o avassallava juntava-se, ainda para o vencer, o cicate inquietador do ciume, farpão de amor, que ella, com a natural perversidade dos animaes felinos, explorava para seu divertimento, dispensando a outros, favores que a elle negava.

De uma vez que a Côrte se dirigia, para assistir ás Vesperas, atravez da galeria de Diana, para a sumptuosa Capella da Trinité, o Embaixador de Inglaterra que, como tantos outros, andava preso das graças da formosa Torcy, e lhe prodigalizava as suas assiduidades, offereceu-lhe o braço. E, conduzindo-a, poz n’isso tanta significação de galanteio que o pobre Moraes sentia estalar o coração vendo-os passar sorridentes e felizes.

De outra vez, entrando n’um aposento, surprehendeu o Duque de Chatillon (Monsieur de Xatillon, diz elle), «gentil homem de edade juvenil, lançado no regaço» da leviana Torcy.

Quando estes casos se davam o romanesco Francisco de Moraes, dilacerado, com o cerebro em ebulição e os nervos vibrantes, corria a encerrar-se no quarto e fazia versos. Atirava ao papel, sempre docil e fiel confidente de poetas, a expressão do seu tormento.

* * * * *

As novellas de cavallaria tinham grande acceitação na Europa inteira. Liam-n’as com interesse não só as mulheres frivolas ou sentimentaes mas tambem espiritos sérios, almas voltadas para os horizontes da graça celestial ou da politica dos homens, que tiravam prazer de tal leitura. Santo Ignacio, Santa Thereza, Diogo Furtado de Mendonça, o proprio Imperador Carlos V, eram leitores apaixonados d’essas maravilhosas bugigangas.

Francisco I fôra educado quasi exclusivamente com a leitura de romances de cavallaria andante. Sire de Boissy dera-lhe a beber desde creança um leite capitoso, com a licção dos _Amadis_ e quejandos, que geravam muita acção heroica e muita exaltação amorosa. A alma do complicado Valois, assim formada, encaminhou-o na vida, que para elle foi um verdadeiro romance de aventuras.

O Secretario da Embaixada portugueza, cuja phantasia era povoada tambem pelos heroes das fabulas cavalleirosas, e pelas aventuras romanescas, encontrou-se assim n’um ambiente propicio á expansão da sua actividade sentimental. Imaginou então fabricar elle proprio façanhas, descrever acções heroicas, exaltar rasgos amorosos... Emprehendeu escrever o _Palmeirim de Inglaterra_.

Levava-o já adeantado quando o fulminou a paixão pela formosa dama da Rainha Leonor. N’essa altura introduziu na traça do romance o episodio das _quatro Senhoras_. Como vingança? Como desabafo? Como homenagem? É difficil sondar á distancia de mais de trez seculos a alma do namorado poeta, e procurar nos escaninhos mais fundos do seu ser os sentimentos que dictavam os periodos em que faz figurar a bella desdenhosa. Entretanto esses dez capitulos cotejados com o escripto intitulado _Desculpa de uns amores..._ são um valioso auxilio para o conhecimento da psychologia do auctor, e uma prova de ter sido por elle escripta primitivamente essa obra, cuja paternidade os Hespanhoes reclamaram.

Mas não é nosso intento agora entrar na controversia.

Voltemos aos quartos da Rainha Leonor, onde Francisco de Moraes encontrava a linda Torcy, seu enlevo e seu tormento.

Surprehendeu-o esse furacão quando já se julgava ao abrigo de paixões. Elle proprio o diz: «Não sei que isto foi que em idade já desviada de pensamentos ociosos cobrei um cuidado novo... Não cuidava que em tal idade amor tivesse poder, agora sei que a nenhuma não perdôa.»

Não lhe soffreu o animo callar-se. Declarou-se, ora com os olhos, á portugueza, naquella linguagem que toda a mulher entende; ora com palavras que ella não percebia, manifestando a sua paixão e esperando que fosse acceita benevolamente, ou pelo menos que lhe désse _um doce engano_.

«Não quiz mais enfadal-a (confessa elle) com razões, pois eram ditas em vão. Affirmei os olhos nella guiados do coração e d’alma, porque já desesperado de outro remedio aquelle me dava a vida, e chegado a casa fiz um vilancete ao mesmo proposito, e em castelhano, porque me pareceo que aquella linguagem lhe seria mais leve de entender:

«Ya que yo no se hablaros Pongo los ojos em vos...»

* * * * *

Mas, depois arrependendo-se, compoz outro vilancete em portuguez, «que hei que faço injuria á minha natureza querer bem como portuguez e escrevel-o em castelhano». E dizia-lhe:

«Para se poder passar O grande mal, quando vem Ha-se de fiar de alguem...»

Elle confiava-o ao papel, e fazia versos. Torcy não os entendia. E que entendesse?! A maliciosa e frivola pariziense, toda entregue ás futilidades da sua vida de prazer, de festas e de dissipação mundana, era forçosamente avessa áquella furia amorosa, e toda se arripiava com as impulsivas demonstrações sentimentaes do impetuoso Portuguez.

Deixou perceber o enfado que lhe causavam.

Elle então lançou mão de um expediente que poderá surprehender o leitor de hoje. Mas se recordarmos os livros de cavallaria andante, e até mesmo o D. Quixote, tão ingenuamente desastrado em muitos lances amorosos, não estranharemos ver Francisco de Moraes cahir de joelhos aos pés da bella Torcy em plena sala da Rainha de França...

* * * * *

A mais genuina expressão da Cavallaria é o culto da Mulher.

_Pela sua Dama_ combatiam os cavalleiros. Usavam d’ella as côres e as emprezas, punham nos escudos as iniciaes dos seus nomes, morriam contentes na liça sob o seu olhar, ou corriam mundos em cata de occasiões para a defender. O culto enternecido que a Cavallaria medieval prestou á Virgem Maria tinha por motivo ser Ella a Mulher entre as Mulheres.

Á ideia de Cavallaria ligavam-se todos os sentimentos nobres, levantados, intransigentes em pontos de honra, incondicionalmente submissos ao predominio da Mulher.

E Francisco de Moraes, que _viveu_ o seu Palmeirim e na sua vida é retintamente cavalleiro, e impenitentemente namorado, não hesita nem recúa perante o que hoje achariamos ridiculo. Ajoelha-se deante da mulher que o captivou, e desabafa enternecidamente.

«Na camara da Rainha, á vista d’ella e de suas damas, ajoelhado em terra, comecei com palavras mui compostas trovadas do acatamento de sua pessoa e presença antes de confessar a culpa a pedir perdão d’ella. Não sei se de ufana de si mesma, se do lugar onde estava, se enfadada de me não entender me disse que não era contente que a amasse tanto, mandando-me que o não fizesse d’alli por diante.»

A romanesca alma de Francisco de Moraes defrontava-se assim com a gelida ironia de uma _coquette_ de raça, apenas occupada na adoração da sua pessoa.

N’uma tal ou qual ingenuidade nativa, no seu idealismo poetico e apaixonado, o enternecido portuguez é um verdadeiro precursor de D. Quixote.

E, guardadas as devidas proporções, a bella Torcy, insensivel ao calor das inflammadas palavras de Moraes, lembra, não sei por que, a Dulcinéa, assediada com as declarações do heróe manchego.

Uma na Côrte requintada de Francisco I impertinente e zombeteira, a outra boçal, rustica, asselvajada na sua aldêa de Toboso, são ambas o typo do eterno feminino divinizando-se e esquivando-se ás adorações dos seus devotos, e são um exemplo do fundamental contraste entre a poetica phantasia dos apaixonados e a prosaica indifferença das naturezas imperturbaveis e frias.

Para a Torcy zombeteira e artificiosamente esquiva, o poeta portuguez alli ajoelhado era apenas um joguete, um motivo de galhofa, era mais uma pella do torneio com as companheiras que assistiam á scena entre frouxos de riso. Obrigou-o a repetir as queixas e desculpas amorosas em portuguez e castelhano, e, triumphante conquistadora, orgulhosa voltava-se para as outras escarninhas, commentando com malicia com as contorsões da sua victima. Elle, então, escreve no seu caderno:

«Estas palavras me entendeo mal, mas parece que lhe soaram bem (ingenua illusão!) que me mandou duas ou tres vezes que lh’as tornasse a dizer, e porque no portuguez mas entendia peior, quis que as dissesse em castelhano, e virando o rosto para uma dama que estava da outra parte, me deixou, e praticou com ella, parece-me a mim que á minha custa...»

Esta confissão tão sincera não acarreta sobre o pobre apaixonado nem uma leve sombra de ridiculo, como podia suppor-se, imaginando o amorudo quinquagenario, de joelhos, na roda das raparigas, maliciosas, desfructadoras, trocando umas com as outras sorrisos zombeteiros, emquanto escutavam a aravia, para ellas inintelligivel, do romantico declamador.

Pensando que a victima é uma das mais lidimas glorias da litteratura quinhentista, um escriptor de grande engenho, que a paixão trazia tresloucado, perdido, caminhando n’um sonho, aquillo que a leitura do episodio nos inspira é uma irresistivel sympathia pelo auctor do _Palmeirim de Inglaterra_, e uma inevitavel malquerença contra as levianas encarnicadeiras que assim manteavam o poeta, com a mesma desenvoltura com que os moços da venda hespanhola, se divertiam fazendo saltar Sancho Pança sobre o cobertor.

Não deixou Francisco de Moraes de se sentir, e attribuindo grande parte do seu desfavor a enredos fomentados pela inveja de alguns dos cortezãos francezes, dá largas na sua narrativa ao rancor que lhes dedica, pintando-os constantemente vencidos.

Uma vez é Brecião de Rocafort (Rochefort) que soffre um revez e «fica corrido de fazer tão pouco»; outra vez é Rober Roselim (Ruper) que cahe no chão, abrindo-se-lhe as feridas e soltando-se-lhe as veias; ainda outra vez é o Conde de Brialto (Brialte) levando um braço quebrado, ou o Conde Gisar tirado do campo quasi sem vida.

E sempre os Francezes são apresentados com inferioridade.

Este desforço havia de trazer ao romancista amoroso, e despeitado, consequencias nefastas, como vamos ver.

Entretanto, ia elle terminando o seu admiravel romance.

Leria alguns dos capitulos do seu livro á Rainha Leonor?

É possivel. E não custa a crêr que ella transmitisse a expressão do seu agrado á filha, a Infanta D. Maria, que em Lisboa era o fulcro brilhante da culta Academia.

A esta Princeza deu certamente Francisco de Moraes conhecimento directo dos seus trabalhos. E não só isso, mas até lhe dedicou a novella, quando ella era noiva do Duque de Orléans.

Na douta biographia d’esta Princeza, traça D. Carolina Michaëlis um formoso quadro phantaziando a impressão que a leitura do Palmeirim causaria no cenaculo feminino, composto pelas damas e donzellas da intelligente filha de El-Rei D. Manoel.

«Durante semanas (escreve a erudita academica), as aventuras tanto do fidalgo e poeta namorado, que havia sustentado lá fóra a fama do typo nacional, como os feitos de D. Duardos e D. Florendos, e a esquivez de Miraguarda alimentavam decerto a imaginação do cenaculo. Reunidas na bibliotheca ou na sala de lavor, emquanto a Infanta e as suas damas bordavam custosos paramentos, dando côr e vida ás linhas traçadas por Francisco de Hollanda, as latinas Luiza e Joanna e as musicas Angela e Paula revezavam-se na leitura do Palmeirim. Acabado um capitulo, começava a discussão das bellezas litterarias».

Este romance acabara-o em Pariz, o imaginario poeta e ao passo que ia remoendo a paixão pela endiabrada franceza.

Os ultimos mezes passados em França foi-os arrastando, ora no palacio do Embaixador, ajudando D. Francisco de Noronha no seu labor diplomatico, ora na Camara da Rainha, cujo coração, magoado pelas infidelidades do Rei, se condoía com os tormentos do infortunado Secretario, ora nas galerias de Fontainebleau, onde via passar ás vezes Francisco I, já a esse tempo comballido pelos effeitos da mysteriosa vingança do marido da bella Ferronière.

Junto da Rainha, que delicadamente sabia lastimal-o, sentia Francisco de Moraes o conforto nascido na piedade tão feminilmente consoladora. Do Rei recebia provas de consideração, pois o intelligente monarcha sabia quanto o _Palmeirim_ era notavel. Nos cortezãos, que frequentavam o Palacio, advinhava, sob a contrafeita deferencia, um sentimento mesclado de emulação e de imperceptivel motejo, que as suas infelicidades sentimentaes porventura provocavam.

* * * * *

Quando terminou a Embaixada e o Secretario encofrou nas arcas das bagagens os gibões de velludo, as gargantilhas de renda, que ostentava na côrte, os papeis do Estado, os manuscriptos da sua novella, e, de mistura, as illusões que lhe haviam enfeitado o espirito, experimentou certamente um allivio.

Recordando amarguras e displicencias passadas, e o desprazer de ter vegetado com tão ingrata sorte na atmosphera artificial d’aquella estufa parisiense, bem diversa da distante e saudosa Lísboa, appellava no seu animo para a recepção que lhe estaria reservada na patria.

E não o trahiu essa esperança.

Quando chegou a Portugal já o seu romance tinha corrido de mão em mão, inflamando todas as imaginações femininas e exaltando os animos cavalleirosos.

O proprio Rei D. João III, embora n’essa quadra andasse dorido ainda com a morte de seu filho natural D. Duarte, pelo qual em signal de lucto, tomou um capuz (tão ostensiva foi a sua mágua!...), pelote e carapuça de arbim cardado, não deixou de attender á belleza da obra e aos meritos litterarios do seu engenhoso auctor. Concedeu-lhe logo, bem como a seus descendentes a graça de usarem o appellido de _Moraes Palmeirim_.

É sem duvida o mais lindo titulo a que um homem de lettras póde aspirar:--usar o nome da sua obra-prima!

Sentiu então a gloria bafejal-o com meiguice, compensando-o de antigos dissabores. E o acolhimento que recebeu da Infanta D. Maria, a quem dedicou a obra, foi dos melhores balsamos para cicatrizar antigas feridas no seu orgulho.

Escutava-o quando elle lhe fallava da mãe, e lhe referia os casos da Côrte franceza. Animou-o, louvou-lhe a novella... Que efficaz unguento é o applauso para alguns espiritos!

O lisonjeiro ambiente, que lhe acariciou o _amor-proprio_, foi sarando as chagas do _amor-paixão_.

Esqueceu a Torcy, e nem talvez tomasse cuidado quando em França pelos annos de 1553 ella casou com Luiz de Montberon, Senhor de Fontaines Chalendray.

Entretanto os annos iam correndo e as phantasias do coração assentavam pouco a pouco, como poeira no fundo de frasco tranquillo. Então Francisco de Moraes pensou em casar tambem, como aposentação sentimental.

Não mencionam as biographias os dotes physicos ou as qualidades d’aquella que o acompanhou no outomno da vida.

Formosa? Intelligente? Bondosa?

Ignoramol-o.

Mas Barbara Madeira, sua mulher, (não sei porque este nome indica uma matrona virtuosa e fecunda) deu-lhe effectivamente numerosa descendencia, d’onde proveiu gente illustre, entre a qual o talentoso Padre Balthazar Telles, da Companhia de Jesus.

As honras tambem o aureolaram. Foi commendador da Ordem de Christo. Teve um cargo no Paço. Era universalmente considerado.

* * * * *

Quando já passava bastante dos 70, indo uma vez, a entrar, já de noite, no rocio de Evora, cahiu varado pelo golpe de um punhal, que mysterioso embuçado lhe vibrou.

Quem seria? Que motivo haveria para assassinar o velho e glorioso novellista?

Alguns escriptores attribuem esta morte a manejos da Inquisição. Mas o terrivel tribunal, se quizesse castigal-o, tinha outros meios ao seu dispôr:--os carceres--os tormentos--os autos de fé.