Part 11
Attribuiram tambem alguns o crime á sanha dos Jesuitas. Foi moda durante certo tempo, entre historiadores e homens de lettras, imputar todos os attentados praticados na sombra, ás forças occultas da famosa Companhia.
A verdade, porém, é que não se acham motivos para que os Jesuitas lucrassem em supprimir o escriptor.
Outros, porém, e talvez com o faro mais apurado, querem imputar a morte do auctor do _Palmeirim de Inglaterra_ a algum d’aquelles cavalleiros francezes, que tinham sido maltratados no romance.
Levara muitos annos a vingança em fermentação.
Mas n’aquella epocha os livros circulavam morosamente, e os despeitos e os odios conservavam durante muito tempo a força do rancor. Se a suspeita é certa, como parece, Francisco de Moraes teria morrido victima do seu coração que muito tinha amado a formosa Torcy, e victima do proprio talento, com que tão certeiramente alvejou os rivaes, que o tinham supplantado!
A FILHA DE PEDRO NUNES
SUMMARIO
O bem molherigo de Portugal--A donzella Guiomar--moradora na Calçada. Filha do Cosmographo mór--O sabio--Os discipulos--Astrologia--Astronomia--O romance da Filha--Traição do pretendente. A cutilada--Entrada no Convento.
Escrevendo a respeito do «bom molherigo» de Portugal, e especialmente do «valor e animo das mulheres portuguezas», Duarte Nunes do Leão, no livrinho posthumo, a _Descripção do Reino de Portugal_, que seu sobrinho Gil fez imprimir, falla com particular enternecimento na «donzella moça D. Guiomar,» cujo animo levantado e varonil tanto o assombrou.
Foi o laborioso Licenciado eborense contemporaneo da endiabrada rapariga, e talvez a conhecesse, pois no minusculo mundo da intellectualidade d’esse tempo o Desembargador Duarte Nunes--chronista--e o Doutor Pedro Nunes--cosmographo-mór--embora a identidade dos patronimicos não seja prova de que houvesse parentesco, de certo cultivavam relações de espirito, e até porventura conviveram, visto que ambos habitaram por vezes, simultaneamente, Evora, Lisboa, e talvez mesmo Coimbra.
Acabou Duarte Nunes de escrever o seu livro em 1599, «estando recolhido na villa de Alverca, por causa do mal de que Deus nos livre» (a peste que então lavrava). E como é todo composto de notas, e esta de que nos occupamos foi registada nos seus canhenhos pouco depois do escandaloso caso, a que vamos assistir, não se atreveu o Doutor a esmiuçar circunstancias ou tirar a lume pormenores da picaresca aventura, que tornou celebre D. Guiomar, dando-lhe como alcunha: _a da cutilada_.
Não que o amedrontasse o genio assommado da resoluta menina, pois as referencias que houvesse de fazer-lhe seriam todas em seu abono. Mas talvez porque na familia do imbelle casquilho coimbrão, heroe da romanesca historia, havia gente de importancia, e creaturas rancorosas e vingativas, como veremos.
É de lastimar que, por esta ou por outra razão, não nos dêem mais informações acerca de D. Guiomar, nem o repositorio a que alludimos, nem as «Noticias chronologicas da Universidade de Coimbra», de Francisco Leitão, onde se encontram os famosos versos, já por alguem attribuidos a Camões:
«Senhora Dona Guiomar. Moradora na Calçada...»
Mas, á falta de indiscreções de soalheiro, que tornariam mais picante a anecdota, temos de nos soccorrer dos estudos feitos ácerca da vida e obras do seu glorioso pae.
O nome d’este, mais que regionario, mais que nacional, mais que europeu, porque o seu engenho notavel, e a sciencia que possuiu ajudaram os navegadores portuguezes no proseguimento das suas derrotas, logrou fama universal.
Se, porém, as suas obras o tornaram celebre e lhe dão um logar unico entre aquelles, que teem contribuido para fazer crescer o patrimonio dos conhecimentos da humanidade, e se a invenção do _Nonio_, o pequeno instrumento tão precioso para as observações astronomicas, perpetuou a nome do genial Portuguez, a sua vida, sendo pouco conhecida, escassamente nos ajuda nas investigações para architectar o romance, que deixou a sua filha apontada á nossa curiosidade.
Entre os modernos escriptores, o sr. Alberto Pimentel, aproveitando-se do que diz Duarte Nunes do Leão, um pouco tambem das _Noticias_ de Francisco Leitão, e mais que tudo da propria phantasia, compoz uma novella que, embora interessante, é como muitos dos chamados romances historicos, obra principalmente de imaginação.
Quando o distincto escriptor engendrou a sua _Dama da Cutilada_, novella que se encontra n’um volume intitulado _Portugal de Cabelleira_, editado no Pará, em 1875, quasi nada se sabia da vida de Pedro Nunes e nada da de sua filha, além da scena que adiante vamos relatar.
Mas com o recente movimento de estudos historicos, que tem trazido á luz factos ignorados, ou rectificado os confusos, na biographia do Cosmographo-Mór, podemos adiantar-nos um pouco (muito poucochinho!) no campo das conjecturas pelo que diz respeito á filha, conhecendo-lhe a raça, a nacionalidade da mãe, a sua situação social, a regalada mediania em que vivia, o nome do heroe da aventura amorosa, e os motivos plausiveis, que o levaram a um proceder descortez.
Depois de muitos escriptos, além dos que já apontámos, em que se trata das obras, e se dá algumas noticias da vida de Pedro Nunes, como são as de Ribeiro dos Santos, Stokler, Varnhagen, etc., veiu em 1889 Sousa Viterbo, o cego-vidente, que tantos documentos curiosos arrancou ao limbo dos archivos, e publicou nos seus _Trabalhos nauticos dos Portuguezes_ um artigo ácerca de Pedro Nunes.
Depois, os estudos recentissimos dos distinctos academicos Dr. Luciano Pereira da Silva, General Brito Rebello, Antonio Baião, Rodolpho Guimarães, etc., trouxeram, além de valiosa contribuição para se dar um balanço sério aos tratados scientificos do Mathematico, alguns dados para accrescentar ás suas notas biographicas.
Antes de fallar da filha, fallemos d’elle e de seus discipulos.
* * * * *
Entre as individualidades gigantes do grande seculo portuguez, aquelle periodo aureo que decorre entre Aljubarrota e Alcacer-Kibir, avulta com singular relevo a do auctor do _Tratado da Esphera_, _Dos Crepusculos_, da _Arte de Navegar_, essa inconfundivel figura do grande _Nonius_.
O mathematico Pedro Nunes, philosopho e um quasi nada astrologo, como adiante veremos, foi um notavel professor de _Artes_, expressão que no seu tempo abrangia, segundo a divisão aristotelica--o _trivio_--em que figurava a grammatica, a rhetorica e a dialetica; e o _quadrivio_, constituido pela geometria, arithmetica, astronomia e musica.
A sua crescente fama apontou-o, desde moço á attenção de El-Rei D. Manoel, perspicaz farejador de meritos, e contrastador de capacidades, que lhe confiou a missão de ensinar as sciencias mathematicas e a philosophia a seus filhos.
Ensinou trez gerações de Principes e, o que ainda é melhor, formou o espirito scientifico, dos mais eminentes cerebros do seu tempo.
Que mestre e que discipulos!
Não só lhe ouviram as licções D. João, que depois foi Rei, e o Infante D. Luiz, «sacra anchora da nação, delicias de Portugal», e o Infante D. Henrique, depois Cardeal e Rei, e o Infante D. Duarte e D. Antonio Prior do Crato, e El-Rei D. Sebastião, mas aproveitaram-lhe os ensinamentos, além de successivas gerações de ouvintes anonymos, e de infinitos navegadores e pilotos, que foram guiados, na «liquida estrada», pelas luzes da sua arte de marear, D. João de Castro, o heroe da India, auctor dos Roteiros, e o proprio Camões!
D’entre os Principes, discipulo dilecto foi o Infante D. Luiz, quarto filho de El-Rei D. Manoel, nascido em 1506, a quem o Mestre dedicou o _Tratado da Esphera_.
Esse Principe deixou da sua memoria um rasto luminoso.
Poeta, generoso Mecenas, fogoso guerreiro, arguto estadista, faustoso amphytrião, homem de sciencia e amoroso cavalleiro, quando a gente começa a ler ácerca da sua vida deixa-se insensivelmente ficar a maldizer da sorte, que o poz em quarto logar na série dos filhos de El-Rei D. Manoel.
Seu irmão, o bisonho D. João III, sentia-lhe a superioridade, e, dominado por um semi-ciume, semi-admiração, ora reclamava a sua voz auctorisada no Conselho para a resolução de casos difficeis na administração do Reino, ora contrariava os seus projectos de emprezas guerreiras e allianças conjugaes. Foi contra a vontade do Rei, o qual mais de uma vez lhe promettera um commando, sem nunca o deixar ir batalhar em Africa ou na India, que resolveu fugir de Evora e clandestinamente partir com os navios de Antonio de Saldanha, para levar auxilio ao cunhado, o Imperador Carlos V, contra os infieis.
N’essa expedição pediu para se incorporar um pequenito ruivo, cuja viveza era notavel. Chamava-se Luiz de Camões e ambicionava tornar-se bem acceito do Infante.
Presentia, de certo, o turbulento pagenzito a gloria que o Infante havia de alcançar no cerco de Goleta e na jornada de Tunis, cuja conquista aconselhara, contra o parecer dos capitães de Carlos V.
Do coração amoroso d’este Infante dá testemunho a firmeza com que recusou desposar a Princeza Edwige, filha do Rei da Polonia, com o contrapeso do seu grande dote, porque a esse tempo andava captivo dos encantos da formosa Violante Gomes, a _Pelicana_, appetitosa judia, de quem havia de nascer o Prior do Crato.
Mas se foi elle proprio quem desviou aquelle casamento, foram outros que o impediram de casar com a Rainha de Escocia, Maria Stuart, de tragica e voluptuosa memoria; com a filha de Francisco I, de França; com Maria, Rainha de Inglaterra (_the bloody Mary_), com a filha de seu irmão D. Duarte, que foi Duqueza de Parma, e com a que foi mulher de Felippe II, projectos atropelados pelo irmão, pela cunhada, e pelo Imperador.
Tão bem dotado pela natureza e fadado para maiores feitos, este Principe cultivava carinhosamente as lettras. Attribuem-se-lhe, com mais ou menos fundamento, muitos dos sonetos que andam nas obras de Camões, e o _Auto do D. Duardos_, que figura nas de Gil Vicente, bem como o dos _Captivos_ ou dos _Turcos_, que se suppunha perdido e que ultimamente foi encontrado.
Tambem d’elle existe um soneto, que se conserva na bibliotheca de Evora.
Além do cultivo das artes, e da faina a que o obrigava a sua alta posição social, applicava este Principe a sua actividade intellectual no estudo das sciencias mathematicas, em que foi leccionado por Pedro Nunes, e escreveu um _Tratado dos modos, proporções e medidas_, e outro sobre a _Quadratura do circulo_.
Condiscipulo era d’este Infante, nas licções de Pedro Nunes, um moço de nobre ascendencia, filho segundo de uma grande Casa, onde, como em muitas outras illustres, as lettras eram um segundo morgado, e que, levemente excentrico, revelara desde pequeno um assombroso engenho, e um caracter de rija tempera, que a Historia havia de eternizar nas pedras das fortalezas da India; nas phrases emphaticamente lapidares de Jacintho Freire de Andrade; nas paginas dos _Roteiros_ celebres, nas estancias da Villa de Almada ou nas penedias e bosques silvestres de Penha Verde, para onde se retirava, escondendo soffregamente a lua de mel com uma prima, ou fugindo «com antecipada velhice» ás ambições da Côrte. Arredío e avesso a seducções mundanas, mais ambicioso de gloria que de mercês, e preferindo a honra a honrarias, se não era mimoso na aula régia, onde El-Rei D. João III «que o amava por valoroso, lhe era comtudo pouco affecto, por altivo,» foi tido em alto apreço na aula de Pedro Nunes, onde acompanhava o Infante D. Luiz, de quem foi intimo, e de quem, no fim da vida, havia de receber, com os emboras pela victoria, aquella famosa carta que começa: «Honrado Viso Rei!...»
Porque aquelle rapaz, que ouvia com tão grande proveito a exposição das doutrinas do Cosmographo e que havia d’ellas tirar noções para escrever, «nas horas que lhe perdoavam os cuidados da guerra, a descripção das Costas da India, signalando baixos e recifes, a altura da elevação do Polo em que estão as cidades, restingas, angras e enseadas, as monções dos ventos, condições das marés arrumando as linhas em taboas differentes; tudo com tão miuda geographia que o podera esta só obra fazer conhecido se já o não fôra, tanto pelo valor militar», esse rapaz, era o futuro heroe do Diu, era--D. João de Castro!
A ligação intellectual entre os dois grandes vultos que foram o Infante D. Luiz e D. João de Castro, e a influencia de cada um nas sciencias do seu tempo, dariam ensejo para um capitulo interessante, que seria todo em louvor e exaltação dos merecimentos do mestre commum, o mathematico Nunes.
* * * * *
Outros discipulos teve elle, por diversos motivos attrahentes, e que dariam tambem pretexto a pittorescos quadros evocativos da epocha, se seguissemos em imaginação o doutor envergando o seu gibão de bombazina parda, montado em mula pacata, caminhando pelas congostas e viellas da Lisboa mourisca, em direcção á Alcaçava, onde El-Rei residia ainda, emquanto não se terminavam as obras dos Paços da Ribeira.
Nos aposentos reaes esperavam os Infantesinhos. E, chegado alli, levemente curvado pelo habito do estudo, vel-o-hiamos dobrar o joelho perante esses pequenos Infantes que, uns mais rebeldes, outros menos, lhe ouviam as praticas.
O seu perfil adunco, revelador de _homem de nação_, desenhando-se sobre o damasco vermelho das paredes, daria á scena uns tons caracteristicos e significadores das relações que entre as duas raças até esse tempo existiam. De uma parte, os christãos aproveitando as faculdades scientificas ou financeiras dos judeus de quem colhiam conhecimentos, remedios medicinaes, bom manejo de finanças; e da outra os hebreus recebendo em troca uma certa tolerancia nas leis e nos costumes, e auferindo elevados juros de suas agencias.
Breve ia acabar este estado de cousas, com o começo das perseguições já proximas.
Entretanto, a fama de christão novo, que vagamente pairava sobre o Cosmographo, nunca o prejudicou directamente.
Reis e Principes, mesmo depois, em tempo do Cardeal Rei, intransigente e inquisidor, tinham pelo glorioso mathematico carinhosa predilecção.
É que recordavam, talvez, as sessões de estudo nos palacios reaes e nos aposentos dos Infantes, onde D. João III ainda tamanino aprendera noções geographicas, arithmeticas e os prolegomenos da philosophia aristotelica; onde o Infante, depois Cardeal D. Henrique, ouvira as theorias de Ptolomeu e as correcções apresentadas áquelle systhema, pelo sabio professor; e onde o Infante D. Duarte, depois da sua licção com mestre André de Rezende, empregado com o resumir em latim o tratado _De Predicabilibus_ e as cathegorias de Aristoteles, ou em declamar de côr o livro _De officiis_, de Marco Tulio, recitando-o tambem ao revez, pegando na ultima palavra e palrando todo o capitulo de deante para traz, se entregava, com a memoria ainda desarticulada por este exercicio, ás prelecções de Pedro Nunes, que lhe explicava como traduzira do latim o livro sobre a esphera, com que Sacro Bosco, o monge inglez, revolucionara a astronomia.
Tambem o sabio mestre dera prelecções de Philosophia e Mathematica ás filhas d’este Infante. Primeiramente á Senhora D. Maria que havia de vir a ser Princeza de Parma por casar com Alexandre Farnesio, creaturinha meuda e feia, mas com uma certa graça no vestir e grande applicação ás boas lettras latinas e gregas. Tão impressionavel era esta com as bellezas da poesia que, abrindo por duas vezes as obras de Petrarcha, as fechou subitamente, como castigando-se, e temendo que o seu espirito devoto fosse excessivamente captivado pelas profanidades do adorador de Laura. Para esta deviam ser apaziguamento da sensibilidade, e perservativo de tentações mundanas, as demonstrações algebricas, e os elementos de Euclides, que o mestre lhe ministrava.
Egualmente, e com proveito semelhante, recebia d’elle licções a Infantasinha D. Catharina, que depois foi Duqueza de Bragança, concorrente com Filippe II ao throno de Portugal, e avó de El-Rei D. João IV.
Dois discipulos teve ainda Pedro Nunes, cujos genios altaneiros pareciam estar destinados a reagir contra a disciplina dos raciocinios mathematicos, e a cujos animos insubmissos parecia dever repugnar o rigor das demonstrações algebricas:--El-Rei D. Sebastião, e D. Antonio, Prior do Crato.
E, comtudo, ambos aquelles espiritos se deixaram attrahir pela seducção do genio do mestre.
D. Antonio «cuja viveza era tanta que o poz em estado de encontrar no Cardeal algum desagrado» ouvira Pedro Nunes com preveito, segundo se affirma, principalmente em Logica e Metaphysica.
Emquanto a D. Sebastião, o irriquieto ephebo corôado, todo elle absorvido no maravilhoso da missão que se impuzera, levado pela attracção dos perigos que o fazia buscar a lucta com animaes ferozes, a braveza das ondas do mar em noites de temporal, as corridas doidas nos matagaes do Alemtejo, e os misanthropicos recolhimentos nos bosques sombrios de Cintra; essa alma de heroe n’um corpo desiquilibrado, symbolo de uma raça e de uma nação decadentes; esse a quem chamaram o Nun’Alvares da perdição, e que tinha a ferverem-lhe no cerebro as imagens do Rei Arthur e dos companheiros da Tavola Redonda; _o capitão de Deus_ como a si proprio se appellidava; embora por indole pareça pouco disposto a attender com serenidade ás regras para resolver equações de segundo grau, ou a seguir as tentativas para obter o maximo divisor de duas expressões algebricas, é certo que ouvia com tão feliz resultado as lições de Pedro Nunes e que fez por sua propria iniciativa uns commentarios á _Esphera_ de Sacro Bosco, a que Bavão no _Portugal cuidadoso e lastimado_, chama «muy doutos, e engenhosos os quaes vistos pelos peritos na materia não acharão que emendar».
Eram as lições dadas n’aquella sala dos Paços da Ribeira onde estava preparado um bofete preto de pau santo, com o seu tinteiro, pennas, papel e uma palmatoria de marfim, sem disciplinas. (Não reza a chronica se este delicado instrumento de fustigação e de correcção pedagogica era applicado por D. Aleixo de Menezes, ou por algum dos Padres da Companhia, ahi presentes, ás mãos nervosas do pequeno D. Sebastião. Mas era decerto á dos turbulentos moços fidalgos _da chacotada d’El-Rei_, que tambem recebiam lições.) Sobre o bofete a ampulheta marcava, com o correr da areia, a hora destinada á licção, emquanto n’uma cadeira de espaldas o discipulo attento escutava a palavra do cosmographo explicando-lhe o movimento das espheras. Uma parte do saber de Pedro Nunes interessaria principalmente o imaginoso Rei--a astrologia--á qual, apezar da sua probidade scientifica, o grande espirito do sabio, influenciado pelas ideias ainda imperantes, não se poude eximir completamente.
Conhecia o moço Rei talvez, e isso devia inquietar-lhe o animo, o aviso sinistro com que o Mestre prognosticára a sua Avó, a Rainha D. Catharina, desgraças para o Seu Reinado se não addiasse a solemnidade da entrega.
Conta assim o caso o chronista no seu _Portugal cuidadoso e lastimado_. «Convocou-se a nobreza e Prelados do Reino; e estando tudo prompto (no mez de Janeiro de 1568) para se fazer a Real funcção da entrega em terça-feira 20 do dito mez, dia de S. Sebastião com que El-Rei cumpria justamente os quatorze annos, dois dias antes veio fallar á Rainha Pedro Nunez cosmographo-mór do Reino, e mestre nas mathematicas d’El-Rei e lhe disse: que posto que elle exercitava pouco a parte da mathematica _que julga de sucessos futuros_ pela ter por fallivel e cheia de incerteza, comtudo que o grande amor que tinha a El-Rei e o zelo do seu serviço, e bem da sua pessoa e obrigavão a sahir do seu costume, e _levantar figura_ sobre o dia, e tempo em que se lhe havia de fazer entrega do governo, e se desvelára em apurar o juizo d’ella quanto permittia sua sciencia e as regras de mathematica e depois de muy bem conciderado o que alcançava, lhe pareceo conveniente avisar a sua Alteza que, sem dar a entender a causa porque o fazia, cuidasse muito em dilatar o acto da entrega alguns dias, ainda que não fossem mais que tres, porque elle affirmava segundo o que entendia, que se El-Rey começasse a governar n’aquelle dia, seria seu Reinado instavel, cheio de inquietação ordinaria e de muy pouca dura.»
Cento e trinta e cinco annos antes, mestre Guedelha, um astrologo tambem, fizera prophecia semelhante a El-Rei D. Duarte, assegurando-lhe que _Jupiter ia retrogrado e o Sol decahido_. Então, como agora, o aviso fôra desattendido.
A Rainha D. Catharina agradecendo o zelo do cosmographo-mór, declarou-lhe que já estava tudo preparado para o dia de S. Sebastião; que o Cardeal julgaria ridicula a causa do addiamento e que era melhor encommendar o negocio a Deus, guardando em segredo o que lhe tinha communicado.
Pedro Nunes atalhou dizendo:
--«Até essa razão tinha eu por tam certa que estive para o dizer a Vossa Alteza antes de lha ouvir; e assim vejo que são inevitaveis os trabalhos d’este Reyno da parte dos quaes Vossa Alteza será testemunha ainda que não dou remate d’elles.»
Dá-nos este dialogo uma impressão inesperada, porquanto (circumstancia curiosa!) é a Rainha viuva, orphã de todos os filhos, com a alma retalhada por tantos desfortunios, e com o espirito sempre alvoroçado pelo temperamento do seu fogoso neto; é a velhinha que a desventura parecia dever predispôr para acceitar todos os vaticinios e presagios dados por essa sciencia ainda então respeitada e temida, que affasta o prognostico agourento, e é o sabio com a intelligencia habituada ás demonstrações rigorosas e positivas que attende ás indicações mysteriosas dadas pela conjugação dos astros.
É que a infelicitada Rainha encommendava «todo o negocio a Deus, em cuja mão estavam os bons successos» e o astrologo, cosmographo-mór, que se julgára obrigado a «levantar figura recorrendo á parte da Mathematica que julga dos successos futuros» entendia que, embora tudo estivesse dependente da Vontade de Deus, deviam respeitar-se as _causas segundas_.
E quem sabe, se ainda um dia a sciencia, no seu caminhar, não dará razão a mestre Guedelha e ao Dr. Pedro Nunes!
Vaticinios, agouros, presagios, horoscopos, vôos d’aves, sentenças de pythonizas, threnos de prophetas, prognosticos de astrologos, formam um cortejo de tentativas para conhecer a acção futura das forças mysteriosas da natureza, actuando sobre os destinos humanos. E tambem infinda é a serie de esforços empregados para conjurar os maleficios de entes sobrenaturaes. Amuletos, sacrificios a divindades hostis, mãos de finado, varas de condão, figas de osso, cordas de enforcado; e os segredos da magia branca, da negra, bem como de todas as sciencias occultas desde a nigromancia á cabala; os dictames da astrologia contra a conjuncção dos astros; os exorcismos da Egreja contra as bruxas, duendes, lobishomens, vampiros, diabos, ou contra as desgraças annunciadas pelo piar das corujas e o uivar dos cães; tudo isso que os espiritos fortes englobaram na palavra _superstição_, e que é como que um presentir de leis ignoradas pela intelligencia limitadissima do homem, na perpetua ancia de descobrir meios de defender a sua miserrima fraqueza contra o poder dos perigos que o rodeiam, tudo isso occupou durante seculos, e continúa a occupar (ai de nós!) o fragil cerebro da humanidade.
Pedro Nunes, annunciando á Rainha D. Catharina desgraças para o reinado do neto, é bem o sabio do seu tempo--crente em Deus e na astrologia, mas já levemente sceptico, não confiando muito n’essa sciencia tanta vez fallivel, e comtudo (concebivel contradicção) receiando, ainda assim, ver cumpridos os prenuncios sinistros.
Quem sabe se recolhendo n’esse dia a casa, e topando com a sua Guiomarzita, ainda então pequena, não encontraria na conjuncção dos astros motivo para a apertar mais soffregamente contra o peito, com receio de vir a perdel-a?...
Mas não antecipemos.
* * * * *
Tivesse ou não suspeita dos avisos do mestre, fundados no zelo pelo seu serviço, e amor pela sua pessoa, El-Rei D. Sebastião demonstrou-lhe sempre affecto e consideração.