Neves de antanho

Part 12

Chapter 123,665 wordsPublic domain

Em 1572 manda-o vir de Coimbra, onde residia, já jubilado, para o ouvir acerca do projecto que então affagava de _reformar os pesos e medidas do Reino_.

Eram frequentes as vindas a Lisboa de Pedro Nunes, pois, por occasião das partidas das frotas para o Ultramar, era reclamado o seu saber para superintender nos aprestos scientificos das náos, e para instruir os pilotos, e orientar os navegadores, cabendo-lhe assim um farto quinhão da gloria d’aquelles, que contribuiram para a grandeza d’este torrãozinho lusitano, e para facilitar a empreza dos seus habitantes na derrota heroica iniciada pelo Infante D. Henrique.

Outra especie de gloria estava ainda reservada para o genial cosmographo.

Além de ser mestre do padre Clavio, denominado o Euclides do seculo XVI, reformador do kalendario romano, que tem o nome de _gregoriano_, teve como discipulo um vulto que excede todos.

Indirectamente, por meio das suas obras, se não por alguma communicação directa, que desconhecemos, Pedro Nunes foi o mestre de Camões, e com elle collaborou nos _Lusiadas_.

Poeta elle proprio, não nos seus versos, que são mediocres, mas no vôo de aguia com que a sua imaginação atravessou os espaços e pairou nas regiões sidereas, fluctuando na grande machina do mundo entre as nove espheras, o cosmographo, reformador de toda a sciencia astronomica do seu tempo, impressionou a alma lyrica do grande poeta, que, nas suas obras, colheu noções acerca dos céos que rodeiam a terra, das estrellas, dos astros, dos planetas e dos movimentos dos corpos, que povoam os espaços celestes.

As theorias do astronomo, fundindo-se no cadinho cerebral do épico, transformam-se nos mais formosos decassylabos com que, em lingua humana, um poeta póde fallar dos phenomenos da natureza, assimilando o rigor da sciencia e a harmonia d’um lyrismo cheio de pittoresco.

Nos eruditos artigos publicados na _Revista da Universidade de Coimbra_ pelo Dr. Luciano Pereira da Silva, intitulados: _A Astronomia dos Lusiadas_, o sabio professor expõe lucidamente o estado das sciencias astronomicas no seculo XVI, as ideias de Pedro Nunes e a applicação que d’ellas fez Luiz de Camões com a leitura do _Tratado da Esphera_ publicado em 1537.

A esses artigos remettemos o leitor, curioso d’estes assumptos, que, se ainda os não conhece, nos dará alviçaras pelo bom aviso. Como tambem lhe aconselhamos os preciosos trabalhos do actual Director da Torre do Tombo, o Sr. Antonio Baião, elucidativos para a biographia do cosmographo, rectificando erros, e ampliando-a com noticias saccadas dos processos do Santo Officio. Tambem valiosos repositorios de elementos para conhecer a vida e obras de Pedro Nunes são os dois opusculos publicados pelo distincto academico Rodolpho Guimarães, e os artigos do General Brito Rebello.

Não nos adeantam, porém muito estes trabalhos acerca da filha famosa do cosmographo, e da sua ruidoza aventura.

Ainda assim os processos da Inquisição com os depoimentos dos sobrinhos-netos, e de varias testemunhas encaminham-nos o espirito em conjecturas provaveis.

* * * * *

Envelhecia docemente em Coimbra, onde definitivamente estabelecera residencia, n’umas casas da Calçada, (provavelmente entre o Convento de Santa Cruz e a congosta que subia pelo Arco de Almedina,) o velho professor estimado por uns, venerado por outros, discutido por alguns que lhe contestavam os acertos scientificos e invejado por muitos, pois, além da gloria que o aureolava, attribuiam-lhe bens de fortuna.

A mulher, D. Guiomar de Areas, uma hespanhola de que se namorara quando em 1523 (tinha então 21 annos) lia em Salamanca uma cadeira de mathematica, morrera havia tempo deixando-lhe algumas filhas e dois filhos. Estes foram para a India. As meninas, umas iam casando, as outras faziam por isso. Um alvará do começo do reinado de D. Sebastião estabelecia que: «havendo respeito aos serviços que o Doutor Pedro Nunes meu cosmographo-mór, tem feito a El-Rei meu senhor hei por bem de lhe fazer mercê para a pessoa que casar com uma de suas filhas do officio de contador de Elvas»... Facil foi por isso á mais velha D. Briolanja casar em 1566 com Manoel da Gama Lobo que recebeu em dote aquelle officio depois transformado n’uma tença de 50.000 reaes.

D. Francisca, a segunda, foi professar á Lorvão, e alli morreu freira.

D. Guiomar, que acompanhava seu pae, deixou-se galantear por um rapaz pertencente a familia distincta da terra, um tal Heitor de Sá, de quem nada mais se sabe alem da proeza que vamos referir.

Devia a rapariga ser formosa. Assim o attestam as poesias que lhe chamam _bella dama_, o que não custa a crer imaginando um perfil hebraico, temperado pela graça castelhana.

Além dos encantos pessoaes seria chamariz para o pretendente a segurança de altas protecções e a perspectiva da herança paterna.

Teria o cosmographo conhecimento do namorico?

E contrariaria elle os amores de sua filha, ou por egoismo de velho, que vê fugir-lhe a companhia, ou por conhecer pecha na familia do Heitor?

Houve um Diogo de Sá, talvez parente d’este, que n’um livro intitulado--_De navigatione libri tres_--atacava vivamente Pedro Nunes; e outro Diogo de Sá (senão o mesmo) que lançara contra os hereges um escripto, a que alguem já attribuiu a intenção de renovar contra Pedro Nunes a perseguição em tempo iniciada contra Damião de Goes.

Fosse o que fosse, Heitor de Sá, por sua parte, começou a esfriar, diminuindo com esquivança as suas assiduidades, e causando com esse desapego grande desgosto a D. Guiomar, a quem prometera casamento. Alguns supuzeram que a fama de christão novo, agora assacada a Pedro Nunes, afastara o pretendente, a quem os parentes davam reproche por tencionar assim conspurcar-lhes o sangue limpo.

É facil de imaginar quanto a deserção de Heitor affrontou D. Guiomar, que, vendo-se tão dolorosamente desprezada, adoptou o expediente de citar o perjuro perante o Bispo da diocese, que então era D. Manoel de Menezes.

Assim, convocado pela intimação, apoiada com a auctoridade do Prelado, o remisso noivo compareceu na egreja de S. João de Almedina, contigua aos paços episcopaes.

Renovado pelo Bispo D. Bernardo no seculo XII, o pequeno templo tinha na sua architectura, antes das ultimas transformações que soffreu, um vago parentesco, um ar de familia, com a visinha Sé, cujas naves romanicas haviam sido scenario de tanto drama no decurso dos tempos.

Tambem agora, sob as abobadas que abrigavam o tumulo do Bispo D. Paterno, sentia-se um desassocego de animos, precursor de borrasca, nos grupos que vinham chegando com desvairados impulsos.

Inclinavam-se uns á parte de D. Guiomar, cuja sisudez e mocidade recatadas eram atropeladas pela offensa recebida. E lamentavam que a injuria feita á velhice veneranda do cosmographo não pudesse ser desaggravada pelos filhos agora ausentes na India.

Outros, da parcialidade dos Sás, rosnavam maldizentes, salpicando de doestos a filha de Pedro Nunes, e alcunhando-a de enredadora.

Para ella aquelle momento era grave e decisivo. Envolta no manteu negro que fazia sobresahir a sua pallidez, cravava os olhos no chão, atraiçoando-lhe apenas a commoção o palpitar das azas do nariz, revelador do seu natural irrascivel.

O Bispo sizudo e grave, arrogando-se auctoridade de juiz inflexivel, sentia comtudo no intimo um pendor favoravel á justiça da accusadora. Adivinha-se essa parcialidade de animo no decurso dos acontecimentos narrados por Duarte Nunes de Leão, contemporaneo do drama, e nas declarações dos sobrinhos da heroina quando foram depôr, passados annos, no Tribunal do Santo Officio.

N’aquelle momento, porém, se lá bem no fundo orientava a sua sympathia para a filha do cosmographo, pelo interesse que lhe merecia a situação de desamparo em que a via, pela consideração que votava ao sabio, agora velho e alquebrado, cuja reputação enchia o mundo, e se tambem era pouco caroavel d’essa familia dos Sás, de onde brotara o petulante pimpolho, que alli se apresentava, a attitude do Prelado, julgador austero e pastor das suas ovelhas, era da mais intransigente impassibilidade.

Tem esta scena, passada em S. João de Almedina, de Coimbra, um sabor medieval, embora succedesse no declinar do seculo XVI.

Tinham affluido muitos curiosos áquella especie de tribunal, ou pretorio erecto sob as abobadas sagradas do vetusto templo, presidido pelo Bispo, que lhe dava a um tempo o aspecto solemne, que a sua alta cathegoria impunha, e uma feição familiar da auctoridade paternal para com os filhos espirituaes.

A assembléa escutava attenta as interrogações do Prelado.

Quando este perguntou a Heitor de Sá, se effectivamente, promettera casamento a D. Guiomar, como ella affirmára, ou se, como alguem chegara a avançar, esse casamento se tinha realizado, houve em todo o auditorio uma suspensão...

As palavras do accusado echoaram claras e peremptorias.

Assegurou que nunca fizera tal promettimento, e que nem mesmo conhecia D. Guiomar.

Todos os olhos se voltaram para ella interrogativos. Em alguns apontava a ironia, n’outros o desdem, em muitos commiseração.

Então, a pallidez da sua physionomia tornou-se mais livida, o olhar mais negro, e n’aquella alma de hespanhola, fermentada pelos rancores de israelita, levantou-se impetuosa uma onda de indignação e de odio.

Tremeram-lhe as mãos esguias com instinctivo furor. A direita, encontrando ao alcance o canivete do estojo, que lhe pendia da cinta, levantou-se ameaçadora e antes que alguem pudesse suspender-lhe o gesto, a enfurecida rapariga, com segurança de punho, retalhou o rosto do perfido com uma funda cutilada.

Impellido pela agudeza da dôr e pela perturbação que lhe causava o borbotár do sangue da ferida hiante, o malfadado heroe arrancou da espada e arremetteu contra D. Guiomar.

Mas, ou porque a vista turvada o não deixasse bem enxergal-a, ou porque um resto de cavalheirismo o impedisse de commetter outra cobardia, descarregou a espadeirada sobre uma columna da egreja.

A este tempo, já D. Guiomar cahira de joelhos perante o altar, pedindo perdão a Deus pelo sacrilegio commettido, e ao Bispo pelo desacato e escandalo que causara.

É facil de imaginar o sentimento de estupor que nos primeiros momentos se apoderou da assembléa e o borborinho que lhe succedeu.

Os parciaes dos Sás reclamavam energicamente a punição da culpada.

Os animos iam levedando de fórma que ameaçavam tumultos.

O Bispo atalhou promptamente, ordenando que D. Guiomar fosse levada para o Aljube, onde permaneceu. Mas não se contentava a familia de Heitor com tanta benignidade. Exigiam castigo mais severo. E não o obtendo recorreram aos tribunaes, moveram influencias, e conseguiram que da Côrte viesse um magistrado com provisões, em vista das quaes a desditosa Guiomar foi removida para o Castello.

Resentido com esta affronta, o Bispo D. Manoel de Menezes, escreveu a El-Rei, e como que para affirmar a sua auctoridade e interessar mais profundamente aquillo a que hoje chamariamos a opinião publica, lançou sobre a cidade um interdicto cujo effeito era: _cessatio a divinis_, expediente bem doloroso para a população, que durante trez ou quatro mezes esteve privada de soccorros espirituaes, e por isso em permanente excitação de animos.

Entretanto, mandava retirar da masmorra a prisioneira, e tornava a fazel-a conduzir para a Aljube, carcere menos duro que o do Castello.

Grande alarido dos Sás, que chegaram a fazer correr insidiosas suspeitas ácerca dos motivos por que o Bispo favorecia D. Guiomar.

O velho cosmographo consumia-se de desgosto. A sua nomeada corria agora mundo, entrançada com o apimentado escandalo.

Pasto das linguas chilreadoras, o caso foi aproveitado pelos poetas palreiros, que logo começaram a mettel-o nos seus villancetes, chacotas e canções.

Pela calada das noites luarentas ouvia-se por vezes a voz d’um estudante, acompanhada pela viola, entoar:

«Senhora Dona Guiomar, Moradora na Calçada, Que destes a cutilada, Senhora Dona Guiomar Que moraveis na Calçada, Mereceis tença d’el-Rei Pois destes a cutilada».

e outra voz respondia:

«Foi mui grande o valor d’ella E pouca a vergonha d’elle Mas se ella ficou sem elle Elle não ficou sem ella».

* * * * *

Era ambigua a interpretação d’esta quadra. Mas o sentimento geral continuava a ser favoravel ao cosmographo e á filha, pois que até os vates mais graves entraram a thuribulal-a com sonetos encomiasticos, que correram impressos.

Ainda em 1826, isto é, perto de trezentos annos depois de ella morta, foi dado á estampa em Coimbra o folheto, hoje raro que tem por titulo: _Sonetos a D. Guiomar filha do Dr. Pedro Nunes, sobre a cutilada que deu em Coimbra_, opusculo attribuido a Joaquim Ignacio de Freitas. Revelam os versos engenhos chochos, mas enthusiasmos vibrantes quando declamam:

«Alma formosa e bella produzida Do famoso cosmographo e divino, Illustre gloria, espelho crystallino, Corôa das mulheres mais subida:

Valerosa donzella esclarecida, Esmalte glorioso do ouro fino, Celebre-se teu nome de contino, Tua fama, tua honra, tua vida.

Seja com louvor alto mui cantado D’antiga Coimbra o blasão famoso, Serpente, Leão, Vaso, e bella dama.

E seja juntamente sublimado Dona Guiomar, o teu peito animoso, Pois fez um feito illustre de tal fama».

E outro soneto, depois de evocar Cleopatra, e Lucrecia, termina assim:

«Quem é que a nossa fama escureceu? _Guiomar_, que se vingou co’o duro córte De quem tingir sua fama pretendeu.

Vive na terra? não, porque escolheu Um meio tão seguro em vida e morte, Que estando cá na terra está no Céo.»

Refere-se este ultimo verso á sua clausura, porque o Pae entendeu que a melhor solução para o melindroso caso seria que D. Guiomar entrasse n’um convento, á semelhança da irmã que professara em Lorvão.

D. Manoel de Menezes tinha uma irmã abbadessa em Santa Clara. Suggeriu a adopção d’aquelle mosteiro por tantos titulos nobre.

Acceito o alvitre, promptamente começou a espalhar-se na cidade que a formosa protagonista de tão dramatico reboliço ia sahir do Aljube.

Novamente se alvoroçaram os parentes amigos e sequazes de Heitor de Sá, cuja ferida apenas cicatrizava, emquanto o nome de D. Guiomar corria, já accrescentado com a prestigiosa alcunha de: _a da cutilada_.

Resolveram por isso tirar estrondosa vingança na passagem d’ella para o Mosteiro.

O caso era embaraçoso. Resolveu-o a animosa rapariga por uma fórma original.

Estava-se nas proximidades da Semana Santa, que em Santa Clara era celebrada com solemnidades pomposas. As tochas de cêra e os pannos para realizar os officios religiosos, eram conduzidos para aquelle convento em grandes canastras, ás costas de homens.

A valorosa aspirante a noviça, de concerto com as freiras, mandou ir ao Aljube um d’esses moços com o seu canastrão, e n’elle se acommodou, como tocha do cereeiro.

O trajecto não era longo, e o carregador foi escolhido entre os possantes.

Seguiu elle caminho com a sua carga pela Calçada, em direcção á margem esquerda do rio, onde estava situado o Convento de Santa Clara (hoje em ruinas).

Proximo á Portagem, e mais adiante, n’aquelle alargar dos peitoris, em circulo, a que chamavam o O da ponte, numerosos grupos em fallatorio ruidoso dispunham-se a atacar o cortejo que, suppunham, havia de conduzir a prisioneira.

Entretanto, o carregador caminhava, não sem inquietação, receiando que os discolos, descobrindo o embuste, o atacassem.

Lá de dentro do seu escondedouro, a destemida Guiomar animava-o, exhortando-o a proseguir.

«Que nada temesse (dizia baixinho), porque Deus, a quem ia servir, os guardaria.»

Em volta o tumulto ia crescendo. Homens armados dispunham-se a atacar os que provavelmente viriam guardando a protegida do Bispo.

Previa-se rixa bravia. E emquanto as bravatas ameaçadoras recrudesciam, e se cruzavam no ar imprecações violentas, a voz doce de D. Guiomar, despercebida dos energumenos, acompanhava n’um rythmo suave os passos cadenciados do seu rude salvador.

Finalmente, chegaram ao Mosteiro!

A madre rodeira, prevenida, correu a aldraba, entreabriu meia porta que, passado o homem com a sua canastra, se fechou sobre o batente, emquanto o ganhão se sumia nas sombras da crasta, onde depositou o precioso fardo.

Estava salva a filha do cosmographo!

A historia é muda sobre a sua vida conventual.

Cá fóra, porém, as paixões humanas continuaram agitando-se em volta do seu nome.

Pedro Nunes, alquebrado pela edade, roido de maguas, e talvez com saudades da filha, deixou-se morrer pouco depois.

Os Sás não abrandaram na sua sanha, e continuaram a calumniosa tarefa, distingindo peçonha sobre a reputação do Bispo, conforme consta de umas notas marginaes postas n’um exemplar do livro--_Descripção de Portugal_--, que existia na livraria dos Condes de Vimieiro e em que se dizia: «Esta obra toda foi feita pelo Bispo D. Manuel de Menezes, não sei se a canastra, mas sei que foi levada á conta e cargo do Bispo, cuja irmã era abbadessa.»

Uma tal Maria Barreira, no depoimento do processo intentado em 1624 contra os netos do cosmographo, que eram accusados de judaisar, accentúa mais e diz: «quando de sua casa D. Guiomar fora a perguntas á egreja, e depois da cutilada, os Sás se juntaram e insultaram o Bispo D. Manuel de Menezes, entendendo que elle favorecia a dita D. Guiomar.»

N’esse curioso processo, sente-se palpavel o odio dos Sás, sedentos de vingança por o seu parente ter _apanhado pelas queixadas_ (palavras de uma testemunha) a celebre cutilada e vão n’um bando, como _gibelinos_ contra _guelfos_, perseguindo os sobrinhos de D. Guiomar...

* * * * *

Emquanto na turbulenta Coimbra, outr’ora tão pacata, _capuletos_ e _montecchios_ se crivam com dardos envenenados, Romeu e Julieta, ao revez dos amantes de Verona, continuam distanciando-se cada vez mais, de corpo e de espirito. Elle, curando a cicatriz que, mau grado seu, lhe ha de perpetuar a memoria com ridiculosa fama. Ella professando em Santa Clara, abafando no habito cinzento rancores ou despeitos, e porventura afogando em lagrimas ainda vestigios do seu amor desprezado!

SOROR VIOLANTE DO CÉO

SUMMARIO

Viola, instrumento e flôr--No seculo Violante Montesino. O seiscentismo portuguez. As musas--Violante comediographa. Trocadilho e galanteio--A paixão da poetisa.--A sua profissão. As cellas das freiras preciosas. Uma suspeição injuriosa. Rythmas e Soliloquios. A velhinha do Convento da Rosa.

«_Viola, instrumento e flôr!_»

É assim que a ella se dirige um Doutor seu contemporaneo, recitando-lhe alguns versos lamechas, todos rescendentes ao gongorismo, ainda então em moda na litteratura e nas salas.

Esse Doutor thuribulario, e, ao que parece, levemente emprehendedor no seu galanteio, cortejando a poetisa, que desabrochava no pleno irradiar da mocidade, e jogando n’um trocadilho com o nome suave de _Violante_, allude, com intenção, á belleza recatada da musa, formosa como as _violetas_, e ao seu estro, harmonioso como as _violas d’amor_. Não foi d’ella bem acceite.

Respondendo de improviso ao atrevido poetrasto, n’uma decima, que o deve ter deixado estarrecido, a esquiva rapariga termina assim:

«_Nem instrumento, nem flôr, Pois nenhum me ha de tocar. Pois nenhum me ha de colher._»

E realmente pouco depois, mordida por despeito amoroso, que transparece em alguns dos seus versos, encerra-se, sem que uma vocação violenta a arraste, n’um claustro onde vae emmurchecendo e definhando, como flôr nunca colhida, e como instrumento--que jámais fosse tangido por mão de homem.

Quem é a esquiva versejadora, que assim se defende dos madrigaes com que a incensam?

* * * * *

Violante Montesino, se chamou no mundo aquella que foi uma das mais caracteristicas individualidades litterarias d’esse seculo XVII, tão desdenhado pela critica moderna, mas tão rico de cultivadores da nossa lingua.

Entre aquelles que, no seiscentismo portuguez, levaram o idioma patrio á perfeição pelo culto da palavra, e que melhor sentiram o genio da lingua, manejando-a com uma technica nunca até ahi attingida, nem depois excedida; e junto áquelles que escreveram o castelhano com tal perfeição que se tornaram classicos em Hespanha, figurou n’um relevo precioso a personalidade de Violante do Céo, com as suas «_Rythmas_», os seus «_Soliloquios_», e com o _Parnaso Lusitano_.

E não é pouco ser alguem a escrever, n’esse período em que Rodrigues Lobo dá á phrase uma suavidade que emballa o ouvido, e Antonio Vieira arredonda os periodos, enriquecendo-os com a rebuscada propriedade dos termos; em que D. Francisco Manoel de Mello usa, na concisão da sua prosa, uma elegancia e elasticidade, que encanta ainda o leitor d’hoje; e em que Manoel Bernardes põe notas ineditas na harmonia da sua linguagem opulenta. Nem tão pouco é facil, (como a ella foi,) destacar-se no verso entre os que mais engenhosamente fizeram sujeitar o fogo da inspiração ás exigencias do metro e da rima, jogando com hyperboles e outros artificios de que usaram Gabriel Pereira de Castro, estofando de synonimias e locuções abundantes a famosa «_Ulyssêa_»; e D. Bernarda Ferreira de Lacerda gemendo e cantando com rigor vernaculo as suas «_Soledades do Buçaco_»; e D. Joanna, Condessa da Ericeira, philosophando em oitavas nebulosas no «_Despertador del Alma al sueño de la vida_» e tantos mais, não esquecendo duas freirinhas do aristocratico convento da Esperança que, embora hoje quasi ignoradas, poetavam com muito valor, ao mesmo tempo que Violante. Tem qualquer d’ellas duas tanta graça no dizer e tanta frescura no estylo, que bem mereceram o piedoso gesto com que o Dr. Mendes dos Remedios as evocou n’uma recente collectanea, dando á estampa algumas das suas poesias.

De Maria do Céo, filha de Antonio de Eça de Castro e de Catharina de Tavora, resta-nos, além de outras obras, a _Preciosa_, em que revela uma inspiração nascida, não só de cogitações divinas, mas de graciosa feição mundanal, como transparece n’aquela deliciosa egloga, que Rodrigues Lobo não regeitaria. e que diz assim:

Montanheza que foste á fonte Como suspeito, Que trouxeste agua nos olhos Fogo no peito. Quem te trocou no caminho, Serrana dos olhos negros? Pois te conheço só hoje Pelo que te desconheço? Como suspeito, Que encontraste teus cuidados A roubar-te taes assocegos?

E a outra, Magdalena da Gloria, ou antes Leonarda Gil da Gama, como realmente se chamava, nascida n’um refego da Serra de Cintra, que nos seus _Brados do Desengano_ trata o amor com tal sanha, que mais parece vingança de coração dolorido, que precaução contra os perigos que d’elle provêem. Assim, n’uma composição que intitula o _Baile_ e em que entram como figuras:--o _Amor_--_duas Damas_--o _Apetite_--_dois galantes_, faz aparecer o _Amor_, vestido de pobre, encostado a uma aljava e resmungando:

«El amor soy, que he llegado A tal pobreza, que pido Por sustentar mi decoro Limosna como mendigo. Hay quien quiera limosna Dar al dios Cupido?»

Outras houve poetizas de talento, na mesma quadra, como D. Leonor de Menezes, Condessa de Atouguia, auctora da novella _El desdeñado mas firme_; Maria de Mesquita Pimentel, que escreveu o _Triumpho do Divino Amor_; D. Marianna de Luna (grande amiga de Violante) que compoz o _Ramilhete de Flores_; Izabel Corrêa, que, por motivos religiosos, se ausentou para Hollanda, onde publicou _El Pastor Fido_, e mais outras ainda, que o Padre Antonio dos Reis celebra no seu _Enthusiasmus Poeticus_, e que formam a brilhante pleiade, onde é astro de primeira grandeza Violante do Céo.

* * * * *

Corria o anno de 1619 e Lisboa preparava-se para receber com festejos pomposos Filippe III, o pallido filho do _Diabo do Meio Dia_, que parecia afinal ter-se decidido a realizar a promessa, feita havia dez annos, de visitar a capital de Portugal.