Part 13
Projectava-se armar nas ruas arcos festivos e porticos imponentes; erigir sobre pedestaes vistosos estatuas e figuras symbolicas; entoldar as ruas e adornar as janellas com preciosas colgaduras; desfraldar galhardetes nos innumeros mastaréos; fazer jorrar agua de rosas das fontes improvizadas; e construir estrados e palanques nos sitios onde deveria passar o cortejo.
A cidade de Lisboa, apesar da mingoa do Thesouro, deliberára dar ao Rei duzentos mil cruzados para a sua jornada, afóra as avultadas quantias destinadas aos festejos.
De porta para porta, na Rua Nova, os mercadores nacionaes ou extrangeiros--os ataqueiros, que faziam atacas, os roupavelheyros, os relojoeiros de sol, os confeiteiros, os vendedores de porcelanas e outras cousas da India, e os que vendiam crystaes de Veneza--commentavam os preparativos ao sabor das predilecções.
--Decidiu-se finalmente Sua Magestade Catholica a visitar este seu burgo, dizia com pouco dissimulada malquerença, um algibebe remedeiado a um seu vizinho, rico mercador de sedas, velludos, damascos e tafetás. Mas para se metter a caminho carece das ajudas d’esta cidade e das villas que vae atravessando.
--E muito devemos agradecer á Providencia respondia o interpellado, senão succeder como ha alguns annos, quando o fallecido Marquez de Castello Rodrigo (que o inferno queime!) fingindo ceder ás reclamações dos povos, aconselhava o seu amo, que anda sempre em viagens de recreio, a alongar uma até cá. No fim de contas...
--No fim de contas, commentava um vendedor de especiarias, que voltava da Ribeira, El-Rei exigia cem mil cruzados, só á capital, para fazer a viagem, e, deitando poeira aos olhos do povo, mandou chamar galés e soldados de Italia para lhe fazerem acompanhamento.
--E depois d’essa comedia, nem cá pôz os pés, atalhou uma velha embiocada, com o seu matéo de briche, que vendia padinhas, n’uma cabana ambulante. Ainda me lembra de quando eu era rapariga, e tinha bastas vezes o bom dia de vêr passar n’esta rua o Senhor Rei D. Sebastião, muito galhardo... com o seu prepõem de velludo... n’um cavallo com freio e estribos de ouro... e os fidalgos atraz muito luzidos...
Agora já não ha côrte e está muito syncopada a galanteria. Tempos que já lá vão!
--E que hão de voltar! retorquiu um velhote de gabinardo cinzento, com olhar de iniciado. Annunciam-n’o as prophecias. Lá o diz o sapateiro de Trancoso...
Os mercadores abastados, vendo o caminho em que enveredava a conversa, entreolharam-se receiosos, não fossem os esbirros denuncial-os. E desviando o curso aos commentarios, o mercador de sêdas apressou-se a informar:
--Os Inglezes vão levantar no Pelourinho Velho um arco magestoso, que os officiaes de bandeira de S. Jorge tencionam ornamentar ricamente.
--Aqui na rua Nova, que é a mais bella da cidade, (basofiou um homem de alentado corpanzil, com pronuncia extrangeira, que ouvira silencioso a ementa dos festejos), nós, os Flamengos, para mostrarmos quem somos, vamos construir, todo de madeira e lona, um edificio de cento e vinte pés de altura e sessenta de largura, com columnas e pedestaes para dezesete estatuas, e um frontão que ha de fazer morderem-se de inveja os Italianos, que dizem ir adornar á sua custa as portas da Sé...
--Parece que a festa mais galante (aventou o loquaz negociante de estofos) entre todas as momarias que se projectam, será no dia do juramento do Principe herdeiro a representação de uma peça, que o Senado da Camara escolheu para solemnizar esse acontecimento. Dizem que entre muitas, foi escolhida a comedia de uma menina de dezoito annos apenas, que é muito sabedora d’isto de versos e que ha de vir a hombrear com o grande Quevedo...
--D. Francisco? interrogou com intenção um hespanhol, mestre de manicordio e de orgão, o que está escrevendo a _Historia del Gran Tacaño_...
--Qual D. Francisco (replicou o Portuguez), Vasco Mousinho de Quevedo auctor de _Affonso, o Africano_, natural alli de Setubal. Que nós Portuguezes em poetas, como em tudo, não ficamos abaixo dos hespanhoes...
--Essa tal menina (disse então com ares de alviçareiro o mercador de especiarias) que por signal é muito formosa, ainda hontem a vi aqui passar quando ia, grave e sisuda, acompanhada de seus paes, o Sr. Manoel da Silveira Montesino e a Sr.ᵃ D. Helena Franco, que moram alli perto da Sé, dar licção de harpa e de canto. Tão dotada de engenho é ella, que a sua comedia, ou auto, ou lá que é, foi a preferida para ser representada na presença de El-Rei e da Côrte.
--E como se chama essa joia litteraria? interrogou com sorriso sceptico um estudante de rhetorica, que descia das Escolas Geraes.
--_Santa Eugenia_ ou _Santa Engracia_, respondeu o mercador. E já não é a primeira composição da sua lavra...
E o colloquio proseguiu n’aquelle soalheiro de Lisboa de então, fertil de bisbilhotice, que n’essa occasião mais fervilhava com a approximação dos festejos.
* * * * *
Effectivamente Fillippe III de Hespanha, II de Portugal, que já em 1611, escutando os conselhos do Ministro Christovam Moura promettera vir a Lisboa (sem ter cumprido a promessa), resolvera agora (Maio de 1619) a instancias do seu valido Duque de Uzeda realizar a viagem, como remedio para os perigos e embaraços que a cada passo surgiam no Governo de Portugal.
Entrou por Elvas e Estremoz em 13 de Maio. Em 14 descansou em Evora.
Presenceou alli espectaculos varios, tendentes a desannuviarem o seu espirito sombrio, ou a fortificarem o seu ardor religioso. Visitando as aulas ouviu discutir algumas theses de philosophia, em que sobresahiu o irmão do Marquez de Fereira, Rodrigo de Mello. Applaudiu tambem a representação de uma obra dramatica executada pelos estudantes, e animada com danças, folias, tramoias, e transformações de monstros e figuras.
Mas o que lhe mereceu maior interesse foi a realização de um _auto de fé_, em que se queimaram muitos réos, e que durou desde manhã até á noite.
Consolado assim na sua fé, mas não socegado no seu animo. Filippe mostrava-se inquieto. Não lhe sahiam do sentido as reclamações dos povos descontentes; as queixas contra o Governador; as exigencias de que o Principe herdeiro ficasse regendo Portugal. E recordava agastado aquella scena, quando fôra da passagem por Elvas em que o Duque de Bragança, D. Theodosio, com orgulho soberano, recusara dar _Excellencia_ ao seu valído o Duque de Uzeda, originando-se assim uma animosidade entre os dois, que fermentou depois, levedando sempre.
Tratavam de lhe proporcionar distracções. Elle, porém, desconfiado não apreciava com regalo os espectaculos, que a natureza e o artificio dos povos lhe offereciam.
Chegando a Almada ficou deslumbrado com o panorama do Tejo e o doce espreguiçar de Lisboa nas suas sete collinas. Mas quando á noite via o luzir dos fogareus com que os operarios se alumiavam para ultimar os preparativos, ou dos archotes que acompanhavam o coche de algum nobre, logo lhe assaltava o animo um enxame de presentimentos e agouros.
Resolveu deter-se no Convento dos Jeronymos em Belem, antes de fazer a entrada solemne em Lisboa. Alli se demorou um mez esperando as galés de Hespanha que por precaução o haviam de acompanhar pelo Tejo, desde o Restello até á ponte dos Mercadores, junto ao Paço de Ribeira.
Foi um cortejo luzido. Doze galés e mais dois mil baixeis ornamentados seguiam a galeota real á qual Neptuno sahiu ao encontro tirado em um carro marinho por quatro phocas, e acompanhado de tritões montados em baleias, espadartes e crustaceos enormes. O Deus dos Mares, depois de dar ao monarcha as boas vindas, encorporou-se no sequito. Na ponte, D. Filippe foi acolhido delirantemente pela população da cidade em festa.
Portugal n’esse momento acreditava, ou diligenciava acreditar, que o Rei, de boa fé, vinha tentar uma solução que salvaguardasse os brios nacionaes...
Ficaria o moço Principe Rei de um Portugal independente?
N’essa esperança abriam-se sorrisos, desfraldavam-se bandeiras, ostentavam-se galas nos vestidos, faziam-se brilhar ao sol as pedrarias,--trazidas do Oriente--rubis brilhantes, esmeraldas rutilando em collares, em gargantilhas, em copos de espadas, e nos cabellos das bellas portuguezas.
Filippe, ligeiramente curvado, e tendo no olhar aquella sombra de desconfiança, que herdara do pae, atravessou a cidade n’um deslumbramento. Quando ao cahir da noite fez a sua entrada nos Paços da Ribeira, entre cincoenta moços de Camara que, empunhando tochas accesas allumiavam a larga escadaria, e que, precedido pelas trez guardas reaes dos archeiros, subia levado na magnificencia do triunpho ao som dos instrumentos e vozes que entoavam em côro, exclamou já socegado de animo e convencido da sinceridade do acolhimento jubiloso--«Só neste dia sei que sou verdadeiramente Rei».
E dando largas a um bom humor, que não era habitual, passou os dias seguintes desfructando os desfastios espectaculosos que lhe offereciam as danças dos padeiros e collareos, as folias, e as chacotas populares, e outros festejos, que lhe davam a illusão do amor de um povo agradecido. E agradecidos estavam effectivamente aquelles que o acclamavam, jubilosos por sobre elles ter feito cahir uma chuva de vinte mil cruzados, e os que aproveitavam com a suspensão, por trez dias, dos direitos do consumo de peixe na cidade.
Em 14 de Julho na sala grande do Paço da Ribeira, celebrou-se a ceremonia do juramento do Principe.
Foi então n’essa noite ou n’uma das que se lhe seguiram que o Senado offereceu a representação de uma peça theatral composta pela poetisa Violante Montesino, cuja mocidade, formosura e talento precoce despertavam a mais viva curiosidade.
Além do exito que obteve, e esse foi grande, não ficou outro vestigio d’essa producção litteraria.
Sobre o proprio titulo e assumpto os auctores discordam. Emquanto Barbosa Machado na _Bibliotheca Lusitana_ e Garcia Perez no _Catalogo Razonado_ se referem a esta peça theatral, chamando-lhe _Santa Engracia_, outros, como Costa e Silva no _Ensaio biographico e critico_ dizem: «Contava esta poetisa apenas dezoito annos de idade quando compoz a comedia _Santa Eugenia_, que foi representada com grande apparato na presença de Filippe III quando este visitou Lisboa em 1619.»
Fosse, porém, heroina do drama Santa Eugenia, abbadessa na Alsacia, ou como de preferencia crêmos, Santa Engracia virgem e martyr, natural de Braga que, com o peito rasgado e o coração ás escancaras, ainda clamava a sua fé em Christo, o certo é que o exito da linda musa lusitana foi retumbante, mettendo na sombra uma tragicomedia de grande apparelho theatral posta em scena pelos jesuitas, com esplendor extraordinario, em honra de Filippe com o titulo de: _Descoberta e conquista da India_.
Para nos descerrarem um pouco as cortinas da sala em que se realisou a representação do drama de Violante, faltam-nos os registos da palrice mundana, que modernamente as gazetas fornecem aos leitores, curiosos de conhecer o movimento da gente elegante a que se chama--a _Sociedade_.
Carecemos de um jornal d’esse tempo para procurarmos n’aquelle cantinho em que a leitora actual, cada manhã ou cada tarde, procura anciosa quem faz annos, quem dançou no baile, ou quem recitou no saráo de arte; os que vão casar e os que estão doentes; quem partiu e quem chegou; como vestiam as dirigentes da moda, e quem concorreu ás reuniões da tafularia, falta-nos essa tagarelice informadora, de que alguns sorriem e que todos lêem, para sabermos como a côrte do soberano hespanhol acolheu a peça da poetisa portugueza, e para buscarmos os nomes dos que compunham o auditorio brilhante.
O que sabemos é que todos á uma applaudiram o nascente talento d’aquella a que desde logo ficaram chamando «Fenix de los ingenios lusitanos».
Violante conheceu então a deliciosa embriaguez do triumpho. Pelo prestigio da sua formosura, pelo poder do seu engenho, pela graça da sua mocidade encantadora, captivou todas as imaginações. Poetas e cortezãos exaltaram-n’a na linguagem alambicada do tempo, e crearam em volta d’ella uma atmosphera de gloria e de adulação, que a envolveu em ondas de incenso lisongeiro.
Ficou consagrada!
* * * * *
Foi provavelmente n’esse periodo da sua existencia que se deu o episodio a que já atraz alludimos, quando com tanta vivacidade respondeu aos versos do Doutor apaixonado.
N’uma d’aquellas reuniões da Lisboa seiscentista que já não eram os saráos da côrte joannina ou manuelina, mas discretas assembléas, rudimentos de academias que então começavam a pullular, n’um desses cenaculos familiares onde as classes já entravam promiscuamente, acorrendo a ellas desembargadores escolhidos na magistratura alitteratada, dignidades ecclesiasticas decorativas ou eruditas, e membros da alta burguezia, á qual pertencia a familia de Violante, certo Doutor recitou-lhe uns versos em que, invocando o seu nome, a comparava ás violetas e ás violas.
Ella, repentista e manejando com facilidade a _decima_ (forma de estrophe muito usada no versejar de então), repelliu o intencional trocadilho, retorquindo:
«Contradizer hum Doutor Nem sei que he temeridade, Porém com huma verdade Quero pagar um louvor. Nem instrumento nem flor Sou, porém se o posso ser Ninguem trate de emprehender O que não ha de alcançar, Pois nenhum me ha de tocar Pois nenhum me ha de colher.
Por que não acceitou ella o galanteio do legisperito?
E porque se mostrava assim esquiva?
A este tempo já teria sentido de certo a alma invadida por aquella paixão amorosa, que lhe trouxe na vida tempestade tão grande, que a ella deveu talvez a resolução decisiva da sua existencia.
Conforme alguem já notou, nos proprios versos da celebre poetisa se póde seguir o fio do seu romance sentimental, tanto quanto é possivel procurar vestigios de coração entre as selvas do cultismo, dos arrebiques litterarios, dos trocadilhos, impostos pelo gosto da moda.
Áquelle que lhe tinha prendido os sentidos chama ella _Silvano_, certamente um véu cryptonimico em que esconde o nome do homem de que chora a ausencia, a quem exproba pelas infidelidades, de quem tenta vingar-se, e por causa de quem abandona o mundo.
Não transcrevemos das suas poesias, (muitas das quaes aliás se lêm na integra com prazer) senão o que fôr guia para nos esclarecer um pouco ácerca da sua biographia e da vida do seu coração. E assim, da Ode que foi escripta por ventura logo depois da partida do seu escolhido, só copiaremos as primeiras estrophes, que são documentos caracteristicos da casuistica amorosa de uma portugueza sentimental.
Diz ella:
«Amante pensamento Nuncio de amor, terceiro de vontade; Emulação do vento, Lisonja da mais triste soledade; Ministro da Lembrança. Gosto na posse, allivio na esperança,
Já que de minhas queixas A causa idolatrada vás seguindo, Dize-lhe que me deixas, Dize-lhe que estou morta mas sentindo, Que póde mal tão forte Fazer que sinta, ái triste, a mesma morte.
Dize-lhe que é já tanto O pesar de me vêr tão dividida, Que só me causa espanto A sombra que me segue de uma vida Tão morta para o gosto Como viva, ái de mim para o desgosto.»
Seguem-se mais algumas estrophes, que são variantes do mesmo thema, cuja substancia são os trez versos seguintes
«Pois para quem _padece o mal d’ausente_ Que he só remedio entendo Ver o que quer, ou fenecer querendo.»
N’este primeiro periodo da sua paixão quasi todos os versos são fabricados com a idéa exclusiva da morte causada por sentir saudades; da vida consagrada a padecer por ellas.
O soneto seguinte, todo dedicado ao ausente querido revela na intencional pobreza de rimas (só usa de duas palavras) o proposito de tornar bem patente o seu modo de sentir.
É como se nos abrisse o peito, para que possâmos devassar o mechanismo do seu coração, e as subtilezas da sua psychologia amorosa.
Se, apartada do corpo a doce vida Domina em seu lugar a dura morte; De que nasce tardar-me tanto a morte, Se ausente d’alma estou que me dá vida?
Não quero sem Silvano já ter vida, Pois tudo sem Silvano é viva morte, Já que se foi Silvano venha a morte, Perca-se por Silvano a minha vida.
Ah suspirado ausente! se esta morte Não te obriga a querer vir dar-me vida, Como não m’a vem dar a mesma morte?
Mas se n’alma consiste a propria vida Bem sei que se me tarda tanto a morte He porque sinto a morte de tal vida!
Não tome o leitor este soneto como um modelo, nem como specimen da arte poetica da escriptora.
Veja n’elle apenas um testemunho interessante, uma especie de thermometro collocado na axilla da lisboetazinha de 1620, que, marcando os gráos de exaltação sentimental da musa amorosa, quando, rendida e morta de saudades pela ausencia do amante, deita mão de um artificio litterario em voga n’esse tempo, para confidenciar ao papel o seu tormento.
Quem percorrer os cinco volumes da _Fenix Renascida_ ou as poesias amorosas que Maria da Veiga Tagarro, nos deixou na _Laura de Anfriso_; quem ler as redondilhas e romances de D. Francisco de Portugal, e todos os gemidos das freiras apaixonadas por Deus ou pelo Mundo, n’esse periodo de convencionalismo litterario, sentirá como aquella geração amava e traduzia o amor em verso. E comprehenderá então como atrás das franjas gongoricas e dos conceitos rebuscados da musa, palpitava vivamente o coração de Violante.
N’um extasis exclama ella de uma vez:
Que suspensão, que enleio, que cuidado É este meu, tyranno Deus Cupido? Pois tirando-me emfim todo o sentido, Me deixa o sentimento duplicado.
* * * * *
Depois começamos a sentir o latejar offegante do seu inquieto amor, quando a invade o ciume. E então despreza as consolações dos parentes e amigos que, com raciocinios cansados e sempre servidos n’estes casos, tentavam desviar-lhe o sentido da obcessão sentimental em que vivia. Os paes, vendo-a estiolar-se, ou ir-se deixando morrer, chamavam em auxilio o physico da casa um esculapio encarregado (eterna illusão de pae!) de a chamar á vida, de lhe dar saude. Mas ella, n’um arranque responde a todos estes cuidados exclamando:
«Cessen ya los remedios Que para vivir me applican, Que quien de zelos se muere No es bien que moriendo viva,
Dexen ya d’importunarme Cansadas philosophias, Que nunca males del alma De Esculapio necesitan.
* * * * *
Muera quien amando tanto Mereció tan poca dicha, Que en vez de correspondencias Experimente tyrannias.
* * * * *
Muera quien siendo constante Fué tan mal correspondida, Que tributando verdades, Adquerió solo mentiras.
Com o assalto que lhe deu o ciume, a que um seu contemporaneo chamou «sarna de amor, que faz doer e gostar juntamente», adoeceu-lhe o espirito.
O ciume é máu conselheiro. Violante escutou-o, e lentamente foi-se-lhe envenenando o animo e foram-se-lhe alterando as particulas de sangue. Mulher que julga castigar uma infidelidade, praticando outra, crava em si propria um punhal, abre uma ferida que raramente cicatriza.
Assim ella, inexperiente e impulsiva, suppondo-se aggravada, deixou-se cortejar por algum dos galantes profissionaes, que enxameavam por esse tempo nos adros das egrejas da moda, ou nos _pucaros d’agua_ e nas merendas das amigas de sua mãe. _Loureira_ (como quem diz _coquette_, a la moda de então) cahiu na _facilidade_ e _ligeireza_ de que resmunga D. Francisco Manoel de Mello quando diz:
«Mulheres ha leves e gloriosas prezadas do seu parecer loureiras, cuido eu que lhes chamavam nossos antigos, por significar que a qualquer bafo de vento se movião.»
Também um rifão popular diz: «Menina loureira, uva de parreira.» Ora, Violante foi loureira, não por indole mas por despeito. E allegando que o infiel
«Hizo locuras por otra, Fué fino en las astucias...
cahiu no laço armado pelo seu desespero e, conforme nos declara:
«Mas pensando en los agrabios Tanto me venció la furia, Que _admitti divertimientos_, Veras amorosas nunca.
Chegaria elle a ter noticia d’estes _divertimientos_, e resolveria castigal-a pelo silencio?
O caso é que durante cinco annos não deu signal de si. É o que nos revelam as duas quadras das _Rythmas_ que registam este episodio do enygmatico romance da poetiza:
Despues de un lustro d’ausencia, Despues de tanta fortuna El que negava respuestas Me hace agora perguntas.
Matar-me quiere de nuevo Porque como alfim se occulta No teme ser homecida Y mas de vida que es suya.
Adivinha-se, mais que se lê, este pequeno drama de amor. Um biographo, dando largas á imaginação, pretende que ella se deixou envolver tão desastradamente nas malhas da rêde, que ella propria lançára, que afinal confessa a uma amiga «que o tal amante, por _divertimiento_, tinha feito tanta impressão em sua alma que não sabia decidir-se entre os dois».
Parece-me esticar demais a hermeneutica querer tirar esta conclusão das confusas queixas de Violante.
O que não offerece duvida é que de um ou do outro, d’aquelles com quem _flirtou_, recebeu desdens que a molestaram.
Assim o declara a Nise, sua confidente, n’uma longa poesia.
Teve a vibratil creaturinha com o abandono, ou com a frieza do homem que adorava, uma commoção profunda.
E, como qualquer movimento do seu espirito crystalizava em versos reveladores, logo a sua alma dolorida gemeu em estrophes que dão a voz do seu desespero:
Coração! Basta o soffrido Ponhamos termo ao cuidado, Que hum despreso averiguado Não he para repetido; Basta o que havemos sentido Não demos mais ao tormento, Que passa de soffrimento Dar por um desdem tyranno Toda a alma ao desengano Toda a vida ao sentimento.
Fujamos d’este perigo Livremo-nos, coração! Que não he bom galardão O que parece castigo. Eu comvosco e vós comigo Melhor o mal passaremos, Pois entre amantes extremos Tão divididos ficamos, Que se nos communicamos He só quando padecemos.
* * * * *
D’esta excitação nasceu provavelmente o passo que deu, e que havia de transformar a sua vida.
Sem haver uma causa conhecida que a afastasse da casa paterna, do mundo que a adulava, dos admiradores que festejavam a sua formosura e o seu engenho, e dos pretendentes que aspirávam á sua mão, Violante subitamente, contrariando a vontade dos paes, que a adoravam, determinou encerrar-se n’um mosteiro.
Foi para muitos um mysterio a sua resolução, e ainda hoje alguns biographos teimam em ignorar o motivo d’esta renuncia a tudo o que seduz e attrahe as mulheres.
A este tempo ainda não tinham apparecido impressas as poesias de Violante, e aos poucos que as conheciam faltava o faro necessario para surprehender, nas moitas e nas selvas embrenhadas dos sonetos, decimas e odes da musa, o segredo do seu amor.
As amigas iniciadas--as Nises, as Menandras, as Belisas--não trahiram a confidencia da musa dolente. Mas as queixas, apezar de congeladas em versos hirtos, derretem-se, quando esses versos são humedecidos pelo bafo tepido de uma interpretação carinhosa, e pela sympathia do critico. É facil então de ver que não a chamava uma vocação irresistivel. Impellia-a o coração esmagado.
Tão fracas eram n’esse periodo as suas tendencias mysticas, tão pouco intenso o fogo do amor divino, que o que principalmente lhe assaltava o animo era receios de um arrependimento, e de que, ao olhar para traz, a espicaçassem saudades dos attractivos do mundo que deixava.
Relembrando a estatua de sal em que se transformára a mulher da Loth, invocava Deus, exclamando:
Oh nó permittais vós que arrependida Los ojos buelva más a lo que dexo Pues otro ya, Señor, femineo sexo Por bolver a mirar quedo sin vída.
* * * * *
Por isso, rapidamente, sem olhar para traz, (não fosse ainda a imagem perturbadora do infiel detel-a), entrou como noviça em Agosto de 1629 no Convento de Nossa Senhora do Rosario, a que o vulgo chamava--da Rosa.