Part 14
Era este convento situado na rua das Farinhas, da Freguezia de S. Lourenço, e fôra edificado no terreno que um tal Vicente Martins Michão, sobrinho do Bispo de Silves, doára em 1279, para n’essa _courella de vinha_ ser instituido um mosteiro de Dominicanas.
Desde o seculo XIII até á era de seiscentos vinha o sagrado cenobio augmentando-se e enriquecendo, a ponto de, quando Violante n’elle entrou, ser um dos mais opulentos e povoados da capital. Frey Nicoláo de Oliveira, que escreveu por este tempo as «Grandezas de Lisboa», diz que «havia n’elle cento e trinta mulheres entre freiras e servidoras».
Por que escolheu Violante este convento?
Vivia ella junto á Sé, na casa em que nascera a 30 de Maio de 1602. Era perto da rua das Farinhas. Tinha n’aquelle mosteiro amigas, talvez confidentes, e de certo tambem o seu confessor, que porventura lhe ouvira queixas mais concretas do que as reveladas nos seus versos.
As tradições de recato d’este convento quadravam ao seu feitio espiritual e, por seu lado, attrahia-a a ideia de que a ordem não era demasiadamente apertada, e de que a disciplina permittia confortos defesos á de outras communidades, como á da Madre Deus, na qual as freiras não tinham serviçaes.
O Padre Manuel Bernardes, contemporaneo de Soror Violante, querendo exaltar a modestia das Claristas, escreve n’uma das apostrophes da _Nova Floresta_:
«D’estes escrupulos hoje ha poucos, ou se os ha devem passar pela peneira da consciencia, porque é rara. Ver hoje uma cella d’estas, que não são Santa Clara, é ver uma casa de estrado de uma noiva, laminas, oratorios, cortinas, sanefas, rodapés, tomados a trechos com rosas de maravalhas, banquinhas de damasco, franjadas de seda ou de ouro, pias de crystal, guarda-roupas de Hollanda, caçoulas, espelhos, craveiros, mangericões, ou naturaes ou contrafeitos, passarinhos, cachorrinhos de manga, que, se adoecem de puro mimo, se chama o mais perito na arte de os curar, jarros, ramalhetes, porcellanas, brinquinhos de sangria, figuras de alabastro ou de gesso, frutas escolhidas para coroar as molduras da alcova ou dos contadores, perfumes, alambiques, todo o genero de arame para a fabrica dos doces, almarios para os recolher, criadas para o ministerio da casa, tecto da cella com taes paizagens, relevos e pinturas que passam para as mãos dos officiaes as bolsas dos parentes e devotos mais ricos. Oh! que temos licença e assim não violamos o voto...»
Eram assim as cellas das freiras, de que o doce Bernardes extranhava o sybaritismo. E assim devia ser a de Soror Violante do Céo, tendo ainda a accrescentar-se junto _do cachorrinho de manga_ e das sanefas tomadas a rosas de maravalhas, a harpa que tangia em horas de inspiração, e o bufete onde escrevia as suas _Rythmas_, _os Soliloquios_, _os Divinos e humanos versos_.
Este titulo quadra bem na obra em que foram reunidos n’um _Parnaso Lusitano_ muitos dos versos sahidos d’aquella cella, onde a famosa dominicana no seu habito branco, ora se entretinha com Deus em meditações mysticas, ora se dirigia aos grandes da terra--Reis--Principes e Nobres--ora desentranhava do proprio coração gritos de profano affecto, de que se arrependia depois:
«Si escrivi, si canté de objecto humano, Y no solo de vós, Divino objecto, En la publicidad de tal defecto Bien castigado está mi error profano.»
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Vem aqui a talho de foice uma pergunta, que estou sentindo aflorar á bocca de quem me lê. Pergunta indiscreta, maliciosa talvez, mas natural, quando se conhece a alma inflammada da monja da Rosa, e quando se recordam leituras em que passam phantasmas leves de freiras amorosas, ou tragicas, ou de leviana memoria.
Perguntar-se-me-ha, (como se eu tivesse o privilegio da madre vigilante, que, ao longo do claustro ou dos corredores da Rosa, escutava os colloquios mysteriosos das noviças), perguntar-se-me-ha se nenhuma aventura de profano amor perturbou a existencia de Soror Violante desde os 23 annos, em que para alli entrou, até os 91, em que morreu quasi de subito n’uma noite fria de Janeiro de 1698.
Não é possivel garantir que nos seus sonhos, ou que nas horas perigosas da quadra do anno, em que a natureza se renova e invade com os philtros estonteadores os organismos vivos, o seu coração não recordasse as doces tempestades dos tempos em que, moça, o sentia bater apressado. Não asseguramos tambem que nas trevas das suas noites de vigilia se não desenhasse luminoso o espectro d’aquelle que a fizera padecer.
Mas durante os sessenta e trez annos que n’aquella cella recordou e formulou em verso os seus lamentos, não entrou alli homem, senão porventura na imagem, já muito diluida d’aquelle _Silvano_, que primeiro lhe despertou o coração ou do outro, que por desgraça distinguiu passageiramente. Mas só a imagem.
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Um ponto melindroso ha, porém, na sua vida sentimental que um seu biographo tratou com menos delicadeza.
Costa e Silva, referindo-se á mania das que entravam para freiras por despeito, escreveu o seguinte:
«Creio que foi esta a sorte de Soror Violante do Céo, não só pelo seu modo de vida todo profano, mas porque a idéa de piedade, e o fervor religioso, não póde de modo algum combinar-se com varias poesias que se deparam entre as suas, tão cheias de arrebatamentos apaixonados, de admirações da formosura, de certa Menandra, de colloquios ternos, de finezas ardentes, e, o que é mais em estylo tão natural, despido dos seus costumados gongorismos, como ditado pelo coração e não pelo espirito, que dão motivo para desconfiar muito da sua honestidade.»
E o casmurro commentador transcrevendo uma poesia que julga de equivoca interpretação e reveladora de intimidades suspeitas, accrescenta:
«Ora, como me parece que uma amizade simples e pura nunca usou de semelhante linguagem, presumo que, sem escrupulo, poderei inferir d’esta e de outras poesias que a moderna Sapho ardeu nas chammas d’aquelle amor inatural de que foi accusada a antiga Sapho.»
A poesia em que o resmungão encontrou resaibos lesbianos e um indicio de paixão amorosa por essa Menandra, a quem se dirige com hyperbolica emphase, não é prova senão dos exageros da escola e da epocha. D’essa poesia destacamos as quadras em que Costa e Silva encontrou prova do _amor inatural_ de Soror Violante:
«Se vivo en ti transformada Menandra, bien lo averiguas, Pues quando me atiras flechas Hallas en ti las heridas.
Flechas me tiras al alma Mas quando flechas me tiras Como en ti misma mi hieres Hallas la herida en ti misma.
Tu mano candida, e bella, Dulce Señora, lo diga, Pues siendo yo la flechada Ella fué solo la herida.
Ya no dirás que en tu mano No tienes el alma mia; Pues quando el alma mi hieres Sangre tu mano destila.»
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Não defendemos o mau gosto que esta gymnastica de vocabulos revela, mas o que é certo é que qualquer freira escrevendo a outra freira, ou qualquer _Filis_ dirigindo-se a uma _Cloris_ sobre materia de amizade, usava de metaphoras e de hyperboles tanto ou mais inflammadas, que as das poesias da nossa Violante, sem que d’isso se inferisse que eram inspiradas pela sensualidade.
A transposição para uma oitava acima, como na éra de seiscentos se fallava e escrevia em toda a Europa, sem excepção da Inglaterra, onde o Eufuismo introduzido por Lyly florescia, torna suspeitos, lidos hoje, trechos que então eram de uso corrente.
Se a cella da musa dos _Divinos e humanos versos_ se tivesse transformado em alcova almiscarada de espasmos lubricos, não seria ella decerto que viria devassar os mysterios do tabernaculo, em quadras que são, não o nego, expansões algo alambicadas de amizade requintada, mas nunca requebros amorosos de femineas concupiscencias.
Para se avaliar do sentido que Soror Violante ligava ao sentimento de amizade deverá ler-se o soneto em que ella se dirige a uma amiga, cujo transparente anagrama de _Belisa_ indica uma _Isabel_, talvez D. Isabel de Castro, a quem tambem dedicou uma epistola por ocasião da morte da Rainha D. Luiza.
É como se respondesse á suspeita que sobre ella recahiu, não em vida, mas duzentos annos depois de morta.
«Belisa, el amistad es un tesoro Tan digno de estimar-se eternamente, Que a su valor no es paga sufficiente De Arabia e Potosi la plata e oro.
Es la amistad un licito decoro, Que se guarda en lo ausente y lo presente Y con que un amigo el otro siente La tristeza, el pesar, la risa, el lloro.
No se llama amistad la que es violenta Sinó la que es conforme simpatia, De quien lealtad hasta la muerte ostenta.
Esta amistad es, que hallar queria Esta la que entre amigas se sustenta Y esta, Belisa, en fin la amistad mia.»
Ora diga-me o leitor imparcial, se quem faz este soneto tinha de Sapho a paixão ardente.
E são tantas as senhoras a quem Soror Violante se dirige á Condessa de Penaguião e á Duqueza de Aveiro, ás poetisas D. Marianna de Luna e D. Bernarda Ferreira de Lacerda, á Condessa da Vidigueira e a outras mais, sem que das suas poesias rescenda o aroma capitoso com que a poetisa grega perfumou as suas, que entro a suppôr ter Costa e Silva tido o proposito preconcebido de attribuir a Soror Violante costumes, que melhor se conformam com as liberdades lesbias, do que com as austeridades das filhas de S. Domingos.
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A vida da monja da Rosa, no longo periodo que vae desde a sua profissão em 1629 até 1693, corre sem ser cortada de outros incidentes, que não sejam as producções litterarias com que ia celebrando factos, e dirigindo-se a personagens importantes.
Saúda a acclamação de D. João IV n’um soneto em perguntas e respostas, genero muito em moda, que já Camões cultivara.
Dirige muitas cartas á Duqueza de Medina--Celi, que devem ser interessantes, mas de que na Bibliotheca Publica, onde as procurámos, por indicação do catalogo de Garcez Perez, não encontrámos vestigio.
Dedicou rimas ao padre Antonio Vieira, a Manuel Severim de Faria, a Antonio de Sousa de Macedo, etc.
E solicitada para concorrer com as suas producções aos certamens litterarios, que se realizavam quer no Convento do Carmo, quer nas varias Academias, vê coroadas e premiadas essas poesias e sente-se festejada pela fina flôr do cultismo.
Por isso não lhe faltam encomios e elogios.
É Antonio dos Reis que no seu _Enthusiasmus poeticus_, a sauda em latim. É Souza Caria que traduzindo esse elogio lhe chama:
«A celebre Violante A delicia do Céo, da terra o gosto».
É Antonio de Sousa de Macedo que na _Eva e Ave_ a chama _insigne_ e nas _Flores de España_ e _Excelencias de Portugal_ a saúda como auctora de _Obras admirables_.
É Froes Perim no _Theatro Heroino_ e Juan Loar de Brito no _Theatro Luzitano_; é Frei Lucas de Santa Catharina na continuação da Historia de S. Domingos.
É D. Francisco Manoel de Mello que diz rendidamente: «Soror Violante do Céo _em tudo de seu appellido_ por juizo e virtude»; e é Manoel de Faria e Sousa que na _Fuente de Aganipe_ lhe diz: «Viola antes que lirio, antes que rosa». É tambem Jacintho Cordeiro, poeta então em voga, que no anno de 1636 publicando o _Elogio dos poetas lusitanos_ (livro hoje rarissimo) falla da nossa musa dizendo:
«Que es Violante deidad cuya camena A valientes ingenios desafia Com tanta admiracion que alçando el vuelo, Las lettras hurta del insigne abuelo.»
Não alongaremos a lista de nomes d’aquelles que a louvaram, nem continuaremos a accumular citações, mas relembremos ainda que, achando-se em Ruão no anno de 1646 o Conde de Vidigueira, D. Vasco Luiz da Gama, Almirante da India (marido da Condessa, que se vestia de pardo na sua ausencia, como se vê da dedicatoria em um soneto) chegou áquella cidade o capellão do Conde, um tal Dom Leonardo de S. Joseph, levando na sua bagagem o manuscripto das _Rythmas_, que a freira lhe confiara. Logo o intelligente fidalgo, avaliando o merito da obra, a mandou dar á estampa na imprensa de Maury, sahindo á luz com alguns preliminares, entre os quaes a dedicatoria do capellão, que em prosa e em verso lhe chama «Aguia de Portugal, decima musa da Hespanha.»
* * * * *
E agora, leitora curiosa, se me perguntaes, a mim que não sou seiscentista, que não sou D. Francisco Manoel de Mello, que não sou capellão do Conde Almirante, qual o meu sentir ácerca da celebre musa dir-vos-hei sem ambages:
--Nem aguia nem gallinha.
Os seus versos, se não têem o sopro do genio que faz estremecer de admiração, não merecem comtudo o desdem com que os paladares modernos os regeitam.
Violante foi na mocidade a rapariguinha bem dotada que, logo de estreia, uma côrte aclamou.
Foi depois uma mulher apaixonada por um vago anonymo, ausente, infiel, e que, segundo ella pensava «_fazia loucuras por outra_». Vingou-se. Mas logo mal ferida sentiu o ferro retalhal-a. Atirou-se para o convento.
O romance é banal. Mas é sempre interessante saber-se como sente um coração feminino, sobretudo quando a heroina escreve em estrophes a sua autobiographia.
Sómente n’este caso, a linguagem, que o gosto do seu tempo lhe impôz, foi como uma fôrma de cobre em que a massa ligeira de uma alma de mulher endurecesse nos moldes convencionaes.
Por isso, indiscreta leitora, visto que instaes em saber se deveis lêr, para vosso agrado, todas as poesias de Soror Violante do Céo, dir-vos-hei que... somente devereis ler algumas, escolhidas nas anthologias. E sendo difficil obter as obras completas, que ha muito se esgotaram, encontrareis n’esse obstaculo uma desculpa plausivel para vos absterdes de percorrer as numerosas paginas das _Rythmas_, _do Parnaso_, e dos _Soliloquios_ em que se repetem com monotona insistencia os _Villancicos_ ao _Nascimento_, á _Visitação_, á _Ascenção_ com que a velhinha do Convento da Rosa ia distillando o seu espirito e volatilizando a sua alma amorosa.
D. FRANCISCO MANOEL DE MELLO
SUMMARIO
Duas obras recentes--De Ruy Chianca, no Theatro. De Edgar Prestage, em livro--Valor da obra do erudito lusophilo--Trabalho exhaustivo sobre o escriptor seiscentista. A vida do D. Francisco, suas viagens, suas aventuras, sua prisão. Lenda romantica--O duello nas sombras--A sua divisa: _Quare?_
Estabeleceu certa academia um premio valioso para ser conferido ao sabio zoologo, que escrevesse a mais completa e notavel memoria sobre o _Leão_.
Trez candidatos concorreram ao certamen: um Francez, um Inglez, um Allemão.
O Francez, espirito vivo, intelligencia captadora, facetada, assimiladora, que lêra Buffon, e admirára a elegancia de estylo com que o nobre Conde escrevia historia natural, empunhando uma penna de ouro, com mão bem tratada e esguia emergindo das preciosas rendas, sobraçou um volume d’essa historia, encadernado em marroquim, _or sur tranches_, e tomou um carro que o conduziu ao _Jardin des Plantes_.
Alli, em frente da jaula d’um formoso specimen do rei dos animaes, emquanto as amas e creadas da visinhança ouviam dengosas os requebros dos soldados, e as borboletas se perseguiam amorosas entre a folhagem, estudou os movimentos do soberbo animal, idealizou-lhe a existencia, e, em seguida, n’uma barraca da feira Neuilly, assistiu attento ás coleras d’um bando de leôas, excitadas pelo chicote de uma domadora que, vestida com _maillot_, dava tiros de polvora secca, em frente das fauces escancaradas dos bichos truculentos.
Poucas semanas depois tinha escripto um volume faiscante, pulverizado de anecdotas, livro de leitura interessante e facil, que foi devorado por milhares de leitores.
O Inglez comprou um fato de linho, um capacete de cortiça, uma boa carabina de caça, varias obras de viagens, um livro em branco para tirar notas e tomou um bilhete a bordo d’um transatlantico que o levou a um porto da Africa.
D’alli penetrou na Libya, procurando a região onde melhor pudesse observar a vida, os usos, os costumes das soberbas féras em plena natureza. Passou noites no embrenhado das florestas, e nas quebradas dos montes, onde echoam os rugidos dos magestosos animaes, e ouviu os bramidos das fulvas leôas amorosas nas clareiras alumiadas pelo luar africano.
Surprehendeu nos antros o ciume das mães; as luctas sanguinolentas entre os machos com o cio; o esphacelar das victimas colhidas nas caçadas. Elle proprio matou valorosamente, para se defender, medonhos leões, e trouxe exemplares preciosos para o estudo da raça. Ao fim de dez annos, tinha escripto um livro bem documentado, vivido, verdadeiro. Um livro de consulta, um livro de sciencia, um livro de bibliotheca.
O Allemão, esse, limpou os cristaes dos seus oculos de ouro, penetrou na bibliotheca imperial de Berlim, requisitou todas as obras de historia natural escriptas nas seis mil linguas que se fallam no mundo, abancou n’um dos mais reservados cantos da sala de leitura, e começou a ler, tomando apontamentos sobre tudo quanto se tem escripto ácerca do Leão, desde as obras fundamentaes de sabios até ás dissertações phantasistas a respeito do leão alado de S. Marcos nos monumentos de Veneza, não esquecendo as referencias á fabula do immortal Phedro. _Ego nominor leo..._ O Allemão tem lido, lido, lido. Já lá vão vinte annos e juntou notas para outros tantos volumes de uma futura obra colossal!
Occorreu-me ao espirito a anecdota que precede ao ler as duas obras recentes (emquanto não apparece a terceira) inspiradas na personalidade de D. Francisco Manoel. O polygrapho seiscentista não é positivamente um leão. Mas o facto de ter sido agora assumpto de um drama de Ruy Chianca, e de um estudo biographico de Edgar Prestage, trouxe-me a confirmação do caso, que tão bem caracteriza as tres raças.
* * * * *
Francisco Manoel de Mello! A todos os que estudam, ainda que superficialmente, litteratura portugueza, este nome recorda o auctor da «Carta de Guia de Casados», dos «Apologos dialogaes», das «Epanaphoras», o diplomata da Restauração, o prisioneiro da Torre de Belem, e mais ainda o heroe do romanesco duello nas sombras, o supposto rival de D. João IV, e a victima da sua paixão pela Condessa de Villa Nova.
Dados estes elementos tentadores, o espirito meridional do sr. Ruy Chianca, todo vibrante ainda do seu triumpho com o exito de «Aljubarrota», toma o auctor do «Fidalgo Aprendiz», colloca-o em scena, apresentando-o entre personagens, mais de imaginação que de historia, e, dando-o como typo da nobreza de sentimentos da raça portugueza, exalta-o e celebra-o.
«_Porque é poeta e nobre audaz e ciumento_»
e tambem ainda porque, segundo elle põe na propria bocca do seu heroe:
«_Poeta e bom fidalgo á moda portugueza Bato-me onde é precizo em lidima defeza. Por que? Pela divisa escripta em minha espada. Por quem? Por meu amor. Por quem? Por minha amada._»
Não sei se quem não conhecer a individualidade de D. Francisco Manoel, tão complexa, e tão cheia de incertezas e de penumbras na vida do coração; quem não tiver perfeito conhecimento das suas obras litterarias, nas quaes o culteranismo, triumphante n’esse tempo, é tão elegantemente subjugado por um bom gosto artistico, raro nos seus contemporaneos; se quem não tiver lido os cem volumes de que se compõe a opulenta lista das suas obras; se quem não tiver saboreado nos «Apologos dialogaes» a «Visita das Fontes» e os «Relogios fallantes» tão ricos de conceitos, noticias, e bom sal attico; se quem não conhecer as discussões ora eruditas, ora piegas da «Academia dos Generosos»; se quem não tiver compulsado os diccionarios bibliographicos de Barbosa Machado e de Innocencio, e os estudos de Costa e Silva, Alexandre Herculano, e Camillo Castello Branco; não sei, repito, se o espectador que assistir desprevenido ao drama intitulado: «Dom Francisco Manoel» ficará com uma ideia approximada do homem notavel, que se chamou assim. É incontestavel, porém, que a sua attenção será sollicitada com sympathia para as qualidades reaes d’esse attrahente vulto, que o auctor do drama phantaziou galhardamente, e para a nobreza de sentimentos, que caracterizam a sua classe, predicados que são postos em formosos versos, n’um peito genuinamente portuguez. E porventura essa obra de arte, concebida e executada com a impetuosidade de um quasi improviso, n’um jacto de lyrismo, induzirá muitos a irem buscar nas fontes noticias acerca da individualidade do heroe, e a lerem nas obras de investigação o que se tem escripto com relação a esse personagem tão rodeado de interrogações, a esse soldado, diplomata, philosopho e poeta, sobre cuja acção politica a historia falla alto; sobre cujo valor intellectual os seus livros são eloquentes attestados, que perpetuam a sua fama; e cuja existencia sentimental a lenda envolve n’uma atmosphera de mysterio propicia ás hypotheses romanescas.
Em todo o caso é obra digna de ouvir-se agradabilissimamente.
O mais recente estudo, o mais notavel, e o que mais noticias encerra ácerca da vida e obras de D. Francisco Manoel de Mello é o «Ensaio biographico», grosso volume in-8.º, que se deve ao trabalho exegetico do escriptor inglez Edgar Prestage.
Espirito namorado das coisas portuguezas, alma lusitanisada até ao amago, a força de seducção que o levára a trasladar para o seu idioma Azurara na «Chronica do descobrimento e conquista da Guiné»; as «Cartas da Freira portugueza»; e o «Suave Milagre» de Eça de Queiroz, attrahia-o, desde alguns annos, para o vulto que no seculo XVII tão caracteristicamente representa a gente lusa, e que melhor cultiva a sonora e doce lingua de Portugal.
Conservando as qualidades fundamentaes da sua raça, e a segurança dos processos na investigação, o critico inglez entendeu que devia usar o idioma portuguez, tratando de um escriptor cuja linguagem Herculano aponta como modelo de estylo «pelo qual se vê quão rica e bella é esta nossa lingua, que para exprimir affectos não carece de neologismos, nem de enredar-se em archaismos». Prestage resolveu pois fallar d’esse portuguez na lingua portugueza.
O esforço enorme assim realizado pelo critico bilingue não se compara á alternativa facil com que os nossos quinhentistas e seiscentistas empregavam indifferentemente a lingua patria e a castelhana, de que é exemplo o proprio D. Francisco Manoel reputado classico, aqui com os seus «Apologos» e «Carta de Guia de Casados»; lá em Hespanha com o seu «Movimento de Cataluña».
Por isso mesmo é mais para admirar a temeridade do escriptor inglez que, habituado a formular a ideia na simples e regular syntaxe de sua lingua, se aventurou a tratar da vida e obras de um requintado cultista, ligeiramente eivado de gongorismo, e tão avesso na redacção complicada do pensamento á simplicidade ingleza quanto a glotte de um saxonio é rebelde á harmonica e suave musica da dicção portugaleza.
O esforçado escriptor sahiu-se da sua empreza com muita honra, e o seu livro que modestamente baptisou com o nome de «_Esboço biographico_» é trabalho de grande valor, e está destinado a figurar em todas as bibliothecas de estudiosos de Portugal, do Brazil, da Hespanha e da America latina.
Embora por vezes a construcção da phrase deixe no paladar um resaibo, ou ligeiro travo que indica a sua proveniencia britanica, a redacção sempre clara leva-nos arrastados pelo interesse, atravez dos nove capitulos do livro, confiando plenamente na honestidade da factura, e na segurança dos processos empregados.
Para muitos se afigurará exagero de segurança, tanta é a minuciosidade com que se procura uma data: se discute um facto; se verifica uma lacuna; se averigua a existencia de indicios até agora desprezados; e com que se cata as obras do escriptor para n’ellas ir encontrar elementos biographicos.
Mas nunca é demasiada a investigação em livros d’esta indole, ainda mesmo quando as conclusões sejam de natureza negativa.