Part 6
Tambem o papel nos diz que tendo o soberano farejado o namorico da sobrinha com o Principe herdeiro, o que contrariava os seus projectos, decidira que ella casasse com o Conde de Alcoutim, como o pae d’este reclamara cinco annos antes.
O outro documento é uma carta de 20 de Dezembro, de El-Rei D. Manoel, em resposta a uns _apontamentos_ que o Duque de Bragança lhe mandára sobre o caso.
Esses apontamentos, pelo que se deduz da carta de El-Rei, seriam uma contradicta a algumas affirmações acerca da sobrinha, exposta por D. Manoel.
É lamentavel não haver conhecimento d’esses _apontamentos_, pois nos elucidariam sobre os obstaculos (_pejos_ lhe chama D. Manoel) antepostos pelo Duque ás resoluções do monarcha. Ao que se vê o Duque persistia na sua reclamação, e, por isso, El-Rei empraza-o a encontrarem-se em Lisboa no mez de Janeiro afim de, pessoalmente, lhe expôr as razões que o tinham movido.
D’estes documentos, que effectivamente nos esclarecem alguns pontos da chronica cortezã, tira Luciano Cordeiro conclusões imprevistas e, com especiosa hermeneutica, chega a encontrar n’elles elementos para explicar os _ignorados_ motivos do casamento de El-Rei D. Manoel com a noiva do proprio filho.
Para isso, obrigando as palavras a significarem mais do que naturalmente os lexicons permittem, tem que dar como certo que D. Brites, no seu idyllio com o Principe D. João, resvalou imprudentemente, se não impudentemente, pelas margens floridas do rio, que banha os valles de Cythera.
E tem que attribuir ao proprio Rei a feia pecha de conspurcar a honesta fama de sua sobrinha, assumindo, declaradamente cynico, o papel odioso de atirar a pobre menina, com a sua supposta mancha, ao thalamo do Conde de Alcoutim, tambem seu parente, e um bravo militar, que servia em Ceuta.
Luciano Cordeiro depois de expôr aquillo a que elle chama--a _Lenda_--, e que é a _Historia_ tal como nol-a transmittiram os chronistas comtemporaneos dos factos, apresenta a versão, que dá como assente, quando diz:
«Perjudicada a idéa do casamento do Duque D. Jayme com a litterata filha do seu orgulhoso adversario, o Marquez de Villa Real, ficára naturalmente mallogrado tambem o outro termo do régio plano:--o casamento do filho do Marquez com a juvenil sobrinha d’este e do Rei, Dona Brites de Lara, a neta do Duque de Vizeu. É até permittido duvidar da sinceridade do Rei quando em Setubal a promettera por nóra ao Marquez, como este lhe lembrava na colerica carta de 1515. D. Manuel tinha acerca de D. Brites bem diversas ideias.»
Fallando depois na inclinação de Dona Brites pelo herdeiro, accrescenta aquelle escriptor: «embarcaram ambos n’um idyllio de _secretos e desaustinados_ (sic) amores, emquanto o Rei, o Duque e o Marquez, gente pratica e sisuda disputavam gravemente a quem ella havia de querer e dar-se. Deu-se a D. João. Não deixa duvida o dizer dorido e indignado do proprio D. Manoel a D. Jayme.»
Como se vê, Luciano Cordeiro dá como certo aquillo que o proprio D. Jayme (mais interessado e mais bem informado que o impetuoso escriptor) parece contestar nos seus apontamentos.
Mas além d’essa affirmação, Luciano Cordeiro accrescenta que «surprehendidos por El-Rei estes amores... e dada a obcessão apaixonada do Principe D. João por D. Brites... não sómente a revelação positiva d’este caso até agora _escondido_, _desconhecido_, e _absolutamente inedito_ dissolve e arreda o conto já de si soffrivelmente inconsistente da paixão do Principe por D. Leonor, que não vira, como illumina e explica, facil e naturalmente a historia do terceiro casamento de Dom Manoel».
Depois, seduzido ainda pela ideia de _modificar a Historia_ affirma que D. Manuel, vendo que o herdeiro envolvido em tratos de amores com D. Brites se recusaria a honrar o compromisso do pae e a sacrifical-a ao empenho da politica real, desposando a Princeza castelhana, resolve elle tomal-a como esposa.
Por este arrazoado aqui resumido já o leitor sente a inconsistencia da critica d’este investigador, que na ancia de tirar effeitos de documentos _escondidos_, _desconhecidos_ e _ineditos_, se lança nas regiões da phantasia, chegando a interpretar a mania que sempre teve D. João de se vestir á portugueza, como uma homenagem a Dona Brites, em opposição aos que ostentavam trajos flamengos para fazerem a côrte á nova Rainha.
Mas não pára aqui. Para fortalecer a sua these entra em considerações psychologicas, que deixam todos os personagens a sangrar.
«Zelando, diz elle, affectuoso e austero, a honra do Duque e da Casa de Bragança--quem sabe se lembrando-se da tragedia de Vila Viçosa?--Dom Manoel diz-lhe assim sem reservas, carinhosa e honradamente que a noiva que lhe promettera, e elle queria para o filho, não lh’a aconselharia, não lh’a dará agora, que não é digna d’elle, e do futuro Duque, pois não soube guardar a honra de mulher. E ao mesmo tempo friamente, calculadamente sem uma palavra de hesitação ou escrupulo, atira essa mulher que elle proprio repudia e infama, para os braços de um nobre e moço soldado...»
Vamos já vêr como a razão fria e a justiça feita ao caracter dos personagens apresentados, desfaz este edificio architectado, com boa fé, sim, mas com imprudente leviandade.
Antes d’isso, porém, não resistimos a abrir um parenthesis, registrando um thema ou exercicio litterario que, por ser bordado sobre este caso, tem interesse e é pittoresco.
* * * * *
O Sr. Theophilo Braga, no decurso da analyse das obras de Gil Vicente, allude a este episodio sentimental, mas não lhe liga a importancia que a Luciano Cordeiro merece.
Diz até: «É mesmo natural que o Principe se adiantasse nos amores com D. Brites de Lara pelo despeito do terceiro casamento de seu pae com a irmã de Carlos V, que pretendia para sua esposa.»
Por esta versão o _adiantar nos amores_, ao contrario do que pensa Luciano Cordeiro, seria o effeito da paixão mallograda, uma especie de reacção contra o rapto paterno.
Sem entrarmos a escabichar nos recessos da psychologia joannina, vejamos como o commentador de Gil Vicente entende haver nas obras do comediographo referencias aos amores do Principe.
Tanto no _Auto das Fadas_ como principalmente na _Comedia de Rubena_, encontrou o Sr. Theophilo Braga «elementos d’essa intriga amorosa» e até «uma allusão delicada á paixão do Principe, que a teria comprehendido, pois que Gil Vicente, n’aquella comedia, romantiza a situação d’esses amores, velando algumas circunstancias.»
Por muito que diligenciassemos achar, lendo e relendo esta ultima comedia, as pretendidas allusões, e tentassemos levantar o sendal que velou as taes circunstancias, não encontrámos maneira de identificar a _Rubena_, gemendo ao sentir as dores da maternidade, com a avó de D. Brites; nem esta com a pastorinha _Cismena_, que nas suas invocações exclama:
«Oh! mãe de filha perdida Oh! filha de mãe prenhada Sem ventura.»
Tambem não encontrámos a menor parecença entre o futuro D. João III, e o pastorinho _per nome Joanne_, que pergunta a Cismena quando entra em scena:
«Di, rogo-te Cismeneninha Viste-m’a minha burrinha?»
E sobre tudo não vemos motivo para D. João se lisongear com a allusão.
Nos versos, com que o Licenciado apresenta o argumento da peça, quer o Sr. Theophilo Braga encontrar uma referencia á aventura amorosa do Duque de Vizeu:
«En tierra de Campos allá en Castilla Habia un abad, que alli se moraba Tenia una hija, que mucho preciaba, Bonita, _hermosa_ á gran mara_villa_.»
Com este trocadilho, especie de calembourg, formado com o tirar meia palavra ao final de um verso--_villa_--para o juntar a um adjectivo anterior--_hermosa_, formando o titulo--Villa Hermosa, com que alludiria á Duqueza, o nome d’esta heroína fica por tal fórma rebuçado que, embora demonstre engenho, não abona a hypothese. E menos se encontrará qualquer fundamento para ella no decorrer da peça em que a phantasia do poeta vôa de Castella para Creta; mettendo em scena pastores, diabos, feiticeiras, e todo o arsenal vicentino.
Não é licito tambem pensar que em plena côrte de D. Manoel, já casado com D. Leonor no tempo em que a _Rubena_ se representou (1521) o comediographo na intenção de ser agradavel (?) ao Principe, se permittisse recordar o galanteio de pouca dura entre este e a priminha, agora tambem já casada com um grande fidalgo, um valente militar, um homem que Gil Vicente estimava e respeitava.
São provas d’esses sentimentos as citações referentes ao marido de D. Brites que se encontram nas obras do poeta.
Entre as _orações dos Grandes de Portugal_ a Nossa Senhora, depois de enterrado D. Manoel, lá poz Gil Vicente a do Alcoutim. E no _Romance_ á acclamação de D. João III, quando os Grandes do Reino lhe beijam a mão, depois dos dizeres do Duque de Bragança, do Mestre de Santíago, do Marquez de Villa Real, do Bispo d’Evora e dos Condes de Marialva de Penella, de Tentugal, e da Feira accrescenta:
«Diria o Conde d’Alcoutim Beijando a mão preciosa: Deus vos dê vida ditosa E tire os dias de mi. Pera vossa vida e nossa», etc., etc.
Ora Gil Vicente não poria esta linguagem na bocca do Conde, se porventura tivesse querido na _Comedia de Rubena_ lisonjear o Principe com allusões, aliás de máu gosto, aos suppostos amores da Condessa, embora do tempo de solteira.
Esta tentativa, porém, de encontrar na Rubena situações e personagens identicos aos do episodio cortezão, se carece de fundamento, não deixa de ser engenhosa como jogo de espirito, habilmente architectado com mais ou menos verosimilhança.
* * * * *
Fechado este parenthesis voltemos agora á outra these. Essa colloca tão deploravelmente todos os actores que entram em scena, traz á historia consagrada tão grandes modificações, e carrega com tão graves responsabilidades os chronistas que a escreveram, que necessitamos examinal-a com alguma attenção e desprevenido criterio.
Não pretendo de modo algum, (seja dicto desde já), arvorar-me em paladino da nobre Brites, futura Condessa de Alcoutim, futura Marqueza de Villa Real, e mãe d’aquella que havia de ser a primeira Duqueza de Aveiro.
Não o necessita a sua memoria.
Nem tenho procurações, enviadas de além tumulo, dadas pelos que se pretende fazer figurar tão deprimentemente n’este pequeno drama. É excusado pois allegar provas de que El-Rei D. Manoel não era um cynico e um diffamador; de que o Duque D. Jayme, cujos defeitos a historia registra sem poupança, não póde ser acoimado de ambicioso vulgar, que põe de parte escrupulos na ganancia de augmentar o patrimonio do filho; de que o Marquez de Villa Real era incapaz de menosprezar a dignidade do seu nome reclamando e acceitando uma nóra «já poluida» como quem realiza um «soberbo negocio»: e de que o Conde de Alcoutim não era homem que ao voltar de Ceuta soffresse a imposição de lavar, com o seu nome limpo, a mancha cahida na candura virginal da noiva.
Finalmente não venho com a pretensão de defender os creditos dos chronistas Damião de Góes e Francisco de Andrade, accusados de terem contribuido com os «seus testemunhos autorizados» para se formar aquillo a que se chama a Lenda, mas deixando «adivinhar nas entrelinhas a verdade». Nem tão pouco me arrogo a tarefa de desviar de sobre a cabeça de Frei Luiz de Sousa a culpa de ter insinuado «com a sua penna cortezã» motivos falsos para o casamento de D. Manoel, ou de illibar D. Antonio Caetano de Sousa do delicto de «fazer cópias viciadas por piedosa ou cortezã intenção, forçando e escondendo quaesquer vestigios que certamente encontraria, do recalcado escandalo.»
A minha intenção é sómente pôr de sobreaviso o leitor, para se não deixar involuntariamente seduzir pelo apparato conjectural da versão romantizada.
Muito longe leva a phantasia quando se pretende a todo o transe defender uma these, acariciada pelo amor proprio de auctor!
Conheci pessoalmente Luciano Cordeiro. Tinha um excellente caracter. Era um trabalhador bem intencionado, um investigador a quem se devem muitos trabalhos de merecimento.
Mas não só litterariamente carecia de uma penna attica que tornasse menos pesada a sua prosa, e mais elegante a sua erudição, como tambem nos seus juizos era arrastado por violencia tão intransigente no apresentar das affirmações, que chegava a attingir a bôa memoria de algumas figuras femininas e a auctoridade de alguns historiadores.
Já na obra intitulada: _Senhora Duqueza_, pretendendo, aliás com bom designio, descarregar a memoria do Duque, desnuda indirectamente o coração de D. Leonor, e entra tambem a accusar D. Antonio Caetano de Sousa e outros genealogistas.
Menoscaba-lhes a probidade profissional e alcunha-os de falsarios, sem outro motivo senão o do auctor da _Historia Genealogica_, e os outros escriptores, não favorecêrem a sua these.
Aqui o caso é identico. Arrastado pela ideia de rectificar episodios historicos, excedeu a méta, e atropellou os obstaculos que encontrava.
Os documentos a que nos referimos, embora valiosos e interessantes, não têem o pezo que lhes attribue, nem d’elles se podem extrahir as conclusões de alcance historico que n’elles deseja encontrar.
Começa por dar a duas palavras alli empregadas o seu significado actual que differe do que então ellas tinham.
_Honra--Escandalo._ Não possuiam estes vocabulos, no seculo XVI o sentido que agora se lhes liga e com que Luciano Cordeiro interpreta os periodos da carta de D. Manoel.
Por isso quando aquelle Monarcha escreve ao Duque D. Jayme dizendo que:
«Se seguiram entre meu filho e ella algumas _cousas de amores_ e que isso foi tão adeante sem eu ser d’isso sabedor, que quando o soube era já muito desservido do que era passado, que de nenhuma cousa o podia ser mais nem fallecia muito para de todo não ser muito anojado e dentre mim e o Principe meu filho se seguir _mui grande escandalo_» (repito) El-Rei D. Manoel quando isto escrevia, não queria ligar á palavra _escandalo_ a ideia que hoje lhe ligamos.
Não pretendia fallar na revelação espalhada de um caso escabroso ou no conhecimento pelo publico de scenas vergonhosas. Não! Queria apenas significar que _algumas cousas de amores_ entre o Principe e D. Brites, isto é, o idyllio encetado, se fosse progredindo, podia trazer _desavença_ entre elle e o filho, que estava destinado a outra alliança.
N’este mesmo sentido, e a proposito do casamento de El-Rei D. Manoel com D. Leonor, emprega Francisco de Andrade esta palavra quando diz:
«onde tiveram de lançar mão aquelles que desejavam de _semear escandalos e desavenças_ entre o Principe e El-Rei seu Pae».
_Escandalo_, com sentido de divulgação de actos vexatorios e deshonestos, é termo recente e empregado sem grande correção.
Assim tambem a palavra--_honra_.
Quando na sua carta El-Rei D. Manoel diz: «vendo como por esta mulher estar tão fóra d’aquillo que eu esperava e com tanta magua _da sua honra_» não queria dizer que ella a tivesse perdido, como hoje se diria em linguagem de noticia de gazeta, para annunciar a quéda irreparavel de qualquer burguesinha loureira.
Apenas quiz, como tio-avô, informar o Duque de que ella decidindo-se a acceitar o galanteio do Principe, quando elle a destinava a um dos Infantes, exorbitara, e não _honrara_ as determinações que lhe impuzera.
Nem o Rei D. Manoel, cavalleiroso e nobre como era, iria, pela bocca de um Secretario e mettendo na confidencia o Conde de Vimioso, e o proprio Duque D. Jayme, diffamar uma parenta sua, uma orphã quasi creança, que lhe devia merecer attenções especiaes.
Sómente, encarando o galanteio do filho como uma ameaça á realização dos seus planos, e desejando afastar da côrte tão perigosa e perturbadora creaturinha cuja belleza iria causar «desaseguo» e tirar «descanso e contentamento» resolveu, antes que houvesse mais corações captivos e cerebros estonteados, que ella casasse com o primitivo noivo, que a levaria para o faustoso solar de Villa Real, ou para o seu commando de Ceuta.
Descobre-se na mensagem de El-Rei D. Manoel, é certo, bastante azedume por ver que a tentadora rapariga lhe alterava os projectos, e contrariava a vontade, que era casal-a com um dos Infantes. Resistir-lhe era motivo bastante para o exasperar. Enfeitiçar-lhe o filho, uma aggravante que trazia _magoa para a sua honra_.
Cumpria por tanto dar-lhe depressa um destino, que evitasse futuras complicações.
Iracundo, chega mesmo a affirmar na carta, que lhe diminuira o dote.
Mas d’ahi a cahir na baixeza de declarar, que a sobrinha era barregã de seu filho e que por isso a ia dar a outro sobrinho, ha grande distancia, que não se deve galgar de animo leve.
O proprio Duque D. Jayme, a quem El-Rei dirigia a mensagem, deu tão pequena importancia ao incidente, que nos seus _apontamentos_, em que responde ao Rei, ainda a pretende para seu filho, como se deprehende da contra-resposta de D. Manoel.
Este no entanto intimava por _um cartão_ a seu filho que puzesse ponto no derretimento, e compunha d’este modo as peças do xadrez matrimonial, evitando um _chéque ao Rei_.
* * * * *
E ella, a quasi Infanta, a filha do Condestavel, seria a cabecinha leviana, a estouvanada, aquella a quem pesava mais o coração do que a cabeça, como a querem figurar?
Formosa, sim. Todos o asseguram. Seductora, sem duvida. Sensivel e _romanesca_ a sua imaginação, levantar-se-hia em vôos audaciosos até ao throno, sem que isso revele uma aspiração desairosa, posta em pratica por processos degradantes.
Tinham-lhe dicto que um seu primo a pretendera. Mas esse estava em Ceuta, entregue ao commando militar e talvez desinteressado. Tinham-lhe tambem affirmado que D. Jayme a desejava para seu filho. Mas este era uma creança. Finalmente todos lhe diziam que o proprio Rei a destinava a um dos seus.
Que espanta pois, que ella, aceitando este alvitre, se inclinasse para aquelle que pela sua edade, pela aureola que o cercava, pela convivencia entre os dois, mais se adjectivava ao seu sentir? O Principe D. João!
Seria atrevida a ambição?
Mas a Rainha D. Leonor não era filha de Rei.
Tambem não o fôra D. Ignez de Castro. E, arrepiando mais na historia, lembrar-se-hia de D. Leonor Telles, e da mulher de D. Sancho II--D. Mecia Lopes de Haro, que era filha do Cabeça Brava; recordando-se tambem de D. Mathilde de Bolonha, que casara com o que havia de ser D. Affonso III.
Então?
Não era ella sobrinha de El-Rei D. Manoel? Não a tratava elle como futura nóra?
Mas este é que decidira de outro modo, quando ao filho remetteu o cartão, manifestando a sua vontade de que mudasse de ideias.
E o filho, o Principe D. João, que Luciano Cordeiro quer fazer-nos suppôr apaixonado pela Prima, não se achava tão absorvido pelo «amoroso enlevo» que não fosse, interpretando _a seu modo_ a ordem paterna, cultivar a intimidade d’uma certa Izabel Moniz, cuvilheira da Rainha, e filha do alcaide _Carrança_, de quem teve um filho.
Já esquecera a _novia de verano_.
Ora coincidindo com o desvanecimento do sonho azul de D. Brites, chegava a Lisboa, escorrendo gloria, o filho do Marquez de Villa Real.
Era D. Pedro de Menezes uma prestigiosa figura.
Como erudito tem lisonjeira menção nas obras de Cataldo Siculo, que em seus escriptos louva a eloquencia d’este Conde de Alcoutim, tanto em prosa como no verso latino, chegando a dizer-lhe n’uma carta:
«_Non solum te nostratibus_ Poetis _praefero, sed veteribus illis comparo_.»
Seu avô, D. Pedro, achando-se um dia a jogar a _chóca_ (especie do moderno _golf_) com outros fidalgos, foi chamado por D. João I para ir defender Ceuta. Pegou no páo com que estava jogando e disse para quem lhe trouxera o recado: «Com este cajado irei defender Ceuta dos Mouros». Por isso o escudo de armas de Villa Real tem por legenda--_Aleo_--isto é, o páo ou bastão com que D. Pedro batalhou.
Este tambem, como o seu antepassado, déstro e habil nos jogos athleticos, trocou o _aleo_ com que jogava a _chóca_, pela espada com que entrou em Ceuta no anno de 1512.
Governou essa praça, e durante os cinco annos que alli permaneceu «conseguiu muitos triumphos e teve gloriosos successos».
Se não era um futuro Rei, era o herdeiro de um grande nome, parente da Casa Real, senhor de muitas villas e logares e... um noivo attrahente.
Quando desembarcou, vindo da Africa, tinham já corrido dois annos sobre o caso sentimental, que não passára de um _flirt_ (permitta-se-me a expressão applicada a um namorico do seculo XVI), que apenas tivera importancia pelo muito que irritára El-Rei D. Manoel.
No coração da rapariguinha operara-se já, como n’uma retorta de laboratorio chimico, a reacção natural de que o tempo é poderoso agente.
Phantasias, ambições, sonhos de grandeza, chimeras côr de rosa, e todos os elementos com que na alma feminina se compõe a imagem da Felicidade, tinham fermentado salutarmente no seu animo.
O passado não fôra a fallencia de uma vida, porque o devaneio interrompido não causára a derrocada irremediavel da sua existencia.
Fôra apenas uma miragem entrevista e logo desfeita, como as nuvens da primavera; uma illusão de optica sentimental, que a sua vista firme agora rectificava.
E o futuro Marquez de Villa Real não era apenas um premio de consolação na loteria matrimonial, nem um marido complacente destinado a aposentar cabecinhas levianas.
Grande homem de bem, bravo militar, intelligente, elegante e habil cortezão, seduzia com a sua personalidade dominante mais que uma imaginação feminina em busca de ideal.
Não foi por isso constrangida, nem arrastada pelo despeito, que D. Brites o acceitou.
O proprio Rei D. Manoel no seu escripto diz «tenho sabido que he com deliberada vontade de casar com o Conde d’Acoutym.»
Não foi tambem por obediencia ao Rei, que parecia querer impôr este casamento, nem ao pae que tanto o desejava, que o Conde a tomou por mulher.
Casou porque n’ella conheceu qualidades que a tomavam digna de continuar a sua nobre raça, e certamente tambem, seduzido por aquelle poder de encanto, que Damião de Goes celebra quando na sua chronica lhe chama: «uma das formosas e bem dispostas mulheres que em seu tempo houve n’estes reinos.»
As nupcias realisaram-se em 1520, no mesmo anno em que D. Joanna de Mendoça, a outra estrella do firmamento palaciano, se escondia nos Paços solarengos de Villa Viçosa.
Ambos os casaes foram felizes. Cada um a seu modo.
O Duque D. Jayme sentiu a mão delicada da antiga Inspiradora de Poetas, sarar-lhe a ferida, aberta na alma pelas recordações sombrias.
D. Brites e o Conde D. Pedro, esses, sem que recordações ou remorsos perturbassem as horas calmas do seu viver, nem suspeitando que mais de trezentos annos depois, futuros historiadores fossem projectar na sua mocidade fócos de luz artificial para refazer a historia, tiveram numerosa prole.
D’elles nasceu, além do 1.º Duque de Villa Real, aquella gentillissima Juliana, cujo encanto, como veremos no capitulo seguinte, tambem viria a ser causa de episodios ferteis em scenas dramaticas.
D. Brites vendo crescer a filha herdeira da sua belleza, pensaria talvez, com prophetico e penoso alvoroço, que nem sempre a graça e a formosura são dotes invejaveis, porque toda a superioridade, seja ella qual fôr, é sempre o alvo dilecto da malicia humana.
UM ROMANCE NA CÔRTE DE D. JOÃO III
SUMMARIO
Prisão do Barão da Alvito--O heroe da aventura romantica--A filha de Brites de Lara--O romance--Entrevista nocturna--Evasão por uma janella--Quem era a verdadeira heroina?--D. Juliana defende-se--Condemnação de D. João Lobo--O Duque de Aveiro--O casamento--Epilogo.
Estava a Côrte em Santarem, nos fins do anno de 1546, quando occorreu um acontecimento extranho, que excitou vivamente as curiosidades mundanaes.
Fôra preso o Barão d’Alvito, D. Rodrigo, e mandado para o Castello de Soure.
Por que usaria El-Rei de tanto rigor para com o seu Védor da Fazenda?
Fallava-se n’um caso de amores. Mas o Barão tinha 52 annos, e o seu officio imprimira-lhe um caracter de seriedade, incompativel com aventuras galantes.