Part 5
Como não o seria D. Maria Manoel, Dama da Rainha D. Catharina, perante a miragem d’uma corôa de Duqueza, promettida por um homem que, para attenuar as devastações da edade, tinha ainda attractivos proprios, e um grande prestigio pessoal?
Deixava-se adorar...
Mas a Rainha, cuja austeridade em materia de amores chegou a tocar no desabrimento e aspereza, inspirando até, ao que parece, a Camões desterrado a celebre ode que diz:
«Oh crua esquiva e fera Duro peito cruel e empedernido;»
a Rainha, que os amores do Senhor Dom Jorge contrariavam, interveiu severa, impedindo a continuação das entrevistas.
Então o Duque, como se fosse namorado imberbe, entrou a escrever bilhetes e a mandar recados á Dama da Rainha, por creados ou terceiras pessoas, com pouca cautela e recato.
Amigos e parentes censuravam-n’o inutilmente.
A paixão desenfreada do Duque não conhecia barreiras. Queria forçosamente casar com a rapariguinha, désse por onde désse.
E ella ia-se deixando adorar...
Então o filho do Senhor D. Jorge, o Marquez de Torres Novas, agora já Duque de Aveiro, que tão contrariado fôra nas suas pretensões á mão de D. Guiomar Coutinho, foi quem se levantou com mais sanha, oppondo-se ao casamento do pae. Ajudava-o n’essa empreza D. Jayme, seu irmão, Bispo de Ceuta, que, por ser creatura muito affecta á Rainha, que o fez Capellão-mór, contribuia para crear todos os obstaculos ao casamento do Duque, dando-se então a estranha situação de se ver um Prelado, um Bispo, um Principe da Egreja oppor embaraços ás amorosas pretensões do seu progenitor.
Elle e o Duque de Aveiro dirigiram-se ao pae, expondo-lhe respeitosamente, mas com firmeza, os inconvenientes do casamento.
Não negavam virtude a D. Maria Manoel. Mas a rapariga tinha dezasseis annos e o Duque quasi setenta...!
(Corvisart havia de dizer trezentos annos depois: «Aos setenta ha sempre filhos». Os dois Lancastres, menos cynicamente e com mais respeito, apropriavam-se do espirito d’esta formula.)
Com este enlace, diziam, corriam risco a saude e a vida do pae; era ameaçada a fazenda da sua Casa; e não seria decoroso dar-lhes por mãe quem podia ser filha de qualquer d’elles.
O Duque repelliu bruscamente a monitoria dos filhos. Havia de casar por força. Era uma paixão indomita, devastadora.
Disse-se então á bocca pequena que, de uma vez que D. Maria sahiu do Paço para ir a casa da mãe, o Duque a recebêra por mulher e lhe mandára depois ao Paço um escripto confirmando este acto.
E D. Maria ia-se sempre deixando adorar...
Mas agora já sentia tambem o amor proprio golpeado pelos enredos contra ella preparados.
Além d’isso a sua propria familia incitava-a a concluir o casamento.
Estavam as coisas n’este estado, e a intriga continuava fervilhando quando surgiu uma circumstancia que até ahi não occorrera á mente de ninguem--os dois noivos eram parentes em terceiro grau! Grande satisfação no partido do Duque de Aveiro que a esse tempo já estava casado com D. Juliana de Lara, filha do Marquez de Villa Real.
Enorme desprazer na familia da noiva que via assim retardado o almejado enlace.
O Duque porém não esmoreceu. Pelo contrario! Mostrou-se mais tenaz em proseguir no intento.
Então, pelos fins de Março, D. João III, que via o caso ir ganhando importancia e avinagrando-se, chamou-o á sua presença. Fallou-lhe como parente que prezava a dignidade da familia, e como Rei a quem cumpria zelar a boa ordem da Côrte, e o decoro nos seus principaes. Terminando, emprazou o mestre de Santiago a que desistisse da sua louca pretenção.
O arguido curvou a cabeça; agradeceu os conselhos e chegou mesmo a fazer promessas. Promessas com restricções mentaes (entenda-se) que depois havia de invocar para não obedecer. Tinha a attitude de um rapaz leviano na presença minaz de um pae severo. Mas... passados dias esquecia promessas e protestos e, levado pela impetuosidade do sentimento, declarava publicamente que já era casado com D. Maria por palavras de presente, e que mandára pedir ao Nuncio dispensa da affinidade.
Novo sobresalto do Duque filho.
Indignado El-Rei mandou chamar outra vez o Senhor D. Jorge. Reprehendeu-o severamente. E como as respostas d’este fossem confusas, ordenou-lhe que se retirasse para Setubal.
O velho apaixonado, roendo o freio, teve que ceder.
De lá, vencido, mas não convencido mandou, em Outubro, um recado a El-Rei.
Da linguagem embuçada d’esse papel, que se encontra nas «Provas da Historia Genealogica», e não póde deixar de ser authentico, de tal modo n’elle transparece o sentir do Duque, deduz-se que houvera realmente casamento.
Affirma mesmo esse papel que fôra em Janeiro.
N’elle se queixa do filho, que, com a opposição que fazia lhe ia encurtando a vida. E então, melhor seria, (dizia elle), morrer por ter casado, do que por motivo dos desgostos causados pelo Duque seu filho.
Casuistica amorosa!
Todo este documento, aliás curioso, e feito com raciocinio de apaixonado, é digno de figurar n’um curso de psychiatria.
Á Rainha escreveu o Senhor D. Jorge tambem, implorando que interviesse junto de El-Rei D. João III. E no paroxismo da paixão chegava a dizer, que quanto mais o contrariassem, mais esbanjaria a fazenda de sua Casa. (Esta ameaça era dirigida contra os dois filhos que sabia patrocinados pela Rainha.)
O Rei mandou responder-lhe em Novembro. Entre outras coisas dizia-lhe que «não póde chamar-se casado quem não tem faculdade para isso pelo gráo de parentesco sem dispensa.»
Para terminar dava-lhe o golpe de misericordia.
Annunciava-lhe que o Papa e o Nuncio tinham negado a licença!!!
Era o desmoronar de todos os castellos que a sua imaginação romanesca construira! Os dois annos que lhe restaram de vida levou-os a consumir-se... e a distillar illusões.
Quando em 1550, pouco antes de morrer, fez testamento, a paixão estava já como que volatilizada pela temperatura elevadissima que lhe abrazára o coração durante o periodo em que viveu caminhando no seu sonho exaltado.
N’uma verba d’esse testamento diz em palavras que, embora frias na apparencia, encerram ainda uma prova de affecto:
«Deixo a D. Maria Manoel, pela obrigação que lhe tenho em lhe prometter de casar com ella se o Santo Padre dispensar, mil cruzados da terça do dote que minha filha D. Elena me ha de levar e assim lhe deixo um Alvará do Duque meu filho em que me promette a valia de cem mil réis de renda para minhas obrigações em vida de sua pessoa para assim e na maneira que se no dito alvará contém que quero que haja _non cazando ella_, e casando, se distribuir em obras como acima digo.»
D. Antonio Caetano de Sousa na «Historia Genealogica» entende que este dizer é uma prova de que o Duque não tinha casado.
Salvo melhor interpretação, parece-nos que o Duque escreveria assim, prevendo que, se lhe chamasse sua mulher, os herdeiros se prevaleceriam da nullidade por não ter havido dispensa, e lhe negariam o legado.
* * * * *
«Que quero que haja _non cazando ella_.» Dizia o Duque no testamento.
Ella, porém, poucos annos passados, ajustou-se a casar com um parente viuvo, D. Manoel de Sousa e Silva, aposentador-mór da Casa de El-Rei D. Sebastião.
O parentesco entre os dois era apertado e tornava-se necessaria uma dispensa de Roma.
Eram demorados n’esse tempo os tramites para resolução d’estes negocios. E os noivos impacientavam-se com as longuras.
Que fazer?
D. Manoel de Sousa resolveu partir para Roma na empreza de facilitar a concessão. Obtida a desejada licença, regressou triumphante a Lisboa.
D. Maria Manoel tinha morrido entretanto!
E assim o Duque de Aveiro não teve que pagar o legado áquella que seu pae tão loucamente adorára.
D. BRITES DE LARA
SUMMARIO
A côrte de El-Rei D. Manoel--Duas estrellas--D. Joanna de Mendoça e D. Brites de Lara. Quem eram--D. Brites é pretendida por muitos--O Marquez de Villa Real, o Duque de Bragança e o proprio Rei desejavam-n’a para seus filhos--O Principe Herdeiro fez-lhe a Côrte. Interpretação de textos desfavoravel ao bom nome de D. Brites. Rectificação das accusações--D. Brites casa com o Conde de Alcoutim--É mãe da primeira Duqueza de Aveiro
E trabalhay por andardes com as damas, laa vos onray de danardes suas famas.
(De Francisco Mendez de Vasconcellos hyndo-se meter frade--_Cancioneiro geral_, tomo III, pag. 435)
Em plena Côrte manoelina a formosa D. Brites de Lara foi astro de primeira grandeza.
N’esse periodo da Renascença em Portugal, quando tudo desabrocha com exhuberancia florente: quando os sabios transformam a astrologia na sciencia de observar o céo, e de caminhar nos mares, e as artes passam a inspirar-se nos ideaes da antiguidade pagã; quando já chegam de Além-mar as náos abarrotadas de ouro e especiarias, e os capitães trazem protestos de vassallagem dos potentados do Oriente; quando os Reis do mundo pedem allianças e offerecem a sua bemquerença; quando a ogiva severa das cathedraes gothicas se transforma nas bracejantes nervuras de pedra em ramificações artificiosamente brincadas, e da Italia vem os primeiros sopros do humanismo nas lettras, a vida aulica toma aspectos novos de fausto, de grandeza, de elegancia e de graça.
As embaixadas partem com ostentação a levar Infantas a Monarchas e Principes, e a apresentar ao Papa, soberano da christandade, dadivas e homenagens.
Nas coutadas de Cintra echôam as trombetas das caçadas régias, em perseguição de veados e javalis.
No Tejo navegam docemente as galeotas com musicas festivas, levando o Rei _Afortunado_ ás merendas dos caramanchões de Santos-o-Velho.
Nas ruas e praças o bom povo de Lisboa vê com pasmo atravessor o cortejo, em que D. Manoel, a cavallo, é precedido pelo rhinoceronte, pela onça brava que lhe dera o Rei de Ormuz, e pelos cinco elephantes trazidos do Industão, que borrifam com aguas rosadas os toucados das meninas curiosas debruçadas das adufas rotuladas.
Baylos mouriscos, com suas retortas e folias, meneiam-se ao som dos alaúdes, pandeiros e tamboris, rufados pelas languidas agarenas, nas viellas estreitas da Alfama, subindo em danças até á Alcaçova.
Nos serões dos Paços da Ribeira, de Almeirim e de Evora, a voz de Gil Vicente e dos seus comicos exalta a fama de Portugal, a belleza das suas mulheres e a bravura dos homens.
Os rimadores palacianos e versejadores cortezãos compõem trovas, vibram apodos, entoam vilancetes e tecem enredos amorosos.
A vida é uma festa! A Côrte um scenario deslumbrante.
Entre as muitas Guiomares, Leonores e Isabeis, de quem os echos do _Cancioneiro_ e registos mundanos repetem indiscretos ruge-ruges, duas formosas mulheres deixam fama do seu encanto--D. Joanna de Mendoça e D. Brites de Lara.
Aquella, cantada em verso por todos os poetas. Esta, cortejada por Duques e Principes.
D. Joanna, porque era triumphantemente bella e porque ella propria cultivava as lettras com relevo, inspirou muitos cantares e despertou muitas paixões. Celebrou-a o rendido Simão de Souza nas suas trovas enternecidas, e adorou-a o Duque de Bragança D. Jayme, aquelle que annos antes n’um delirio de ciume matara a primeira mulher, e que depois de conquistar Azamor veiu, n’um accesso de paixão ardente, depôr a sua alma triste no regaço da linda Joanna e coroal-a duqueza.
Não é d’ella que nos occupamos agora. Deixemol-a ir para o seu remanso de Villa Viçosa curar com o balsamo de uma felicidade tranquilla o espirito atormentado do melancholico Duque.
Trouxemol-a á memoria porque viveu na mesma roda e brilhou na mesma esphera em que se movia Brites de Lara. E sendo grande o prestigio da sua belleza, convem notar que não tolheu o poder de seducção que esta exercia.
D. Joanna, futura Duqueza de Bragança, tinha na dominante formosura a severidade olympica das deusas, e uma leve melancholia no geito, que fazia exclamar um dos seus adoradores, quando uma vez a Rainha a prohibiu de sahir:
Não cureis de vos queixar nem deis lugar á tristeza, folgae, dama de folgar...
Por isso os Lucenas, os Sousas, os Telles, Vimiosos, Alvitos, e quantos mais! (são quatorze os poetas que no Cancioneiro lhe dedicam versos) andavam captivos seus a incensar com trovas, glosas e cantigas a fulgurante inspiradora.
Mas Brites, mais nova e com mais frescura, tinha no olhar provocante, na boca risonha, no meneio airoso do seu corpinho bem moldado, todas as graças herdadas da avó hespanhola...
Porque esta rapariga azougada, que enfeitiçava Principes, esta sobrinha d’El-Rei D. Manoel, sobre cuja cabeça esteve por um momento suspensa a corôa real, tinha uma avó castelhana, muito bonita tambem, como o nome da sua terra ducal--Villa _Hermosa_.
O Duque de Vizeu, irmão de El-Rei D. Manoel, quando estivera em Castella, pelo capitulo acerca das _tercearias_, encontrou viuva a Duqueza de Villa Hermosa, cunhada de Fernando, o Catholico, e neta, por sua mãe, de D. Ignez de Castro e de D. Pedro I.
O Duque de Vizeu e a viuva impressionavel do mestre de Calatrava encontraram-se na Côrte dos Reis Catholicos. Elle, o futuro apunhalado de Setubal, galhardo, bom cavalleiro, e com um certo _lusitanismo_ que ás hespanholas agrada; ella livre de peias matrimoniaes, e envolvendo-se com donairoso gesto nos véos elegantes da viuvez recente.
Entreabriram, nas respectivas existencias, um parenthesis amoroso, que breve se encerrou, mas do qual resultou uma creança que o pae trouxe cuidadosamente para Portugal quando finda a sua missão.
El-Rei D. João II, porém, logo que se desfez summariamente do Duque, determinou ao tenebroso Antão de Faria que mandasse crear o pequeno em segredo e longe da Côrte, na casa de um lavrador de Portel... não fosse a creança, pela sua origem, crear-lhe difficuldades de futuro.
A essa obscura villa alemtejana mandou El-rei D. Manoel, quando subiu ao throno, buscar o sobrinhito, e casou-o com D. Joanna de Noronha, da casa de Villa Real, nomeando-o em seguida Condestavel.
Foi d’esta união, de pouca dura, que nasceu em 1501 a linda Brites em quem, segundo a phrase do conspicuo D. Antonio Caetano de Sousa, a natureza «ajuntou descrição e formosura sobre o real sangue que lhe deu o nascimento, que fez a esta senhora tão esclarecida, que a habilitava digna consorte de um soberano.»
E quasi esteve a sel-o.
Vejamos como.
* * * * *
A sua meninez passou-se junto da mãe, a Condestabelleza viuva, e a sua radiante mocidade illuminou os salões dos Paços de El-Rei D. Manoel, seu tio-avô, que se revia n’ella desvanecidamente.
Ainda ia nos quatorze annos, e já em volta lhe borboleteavam pretendentes; uns presos da sua belleza, outros attrahidos pela sua grande fortuna, e situação eminente. Quantos!
A Condestabelleza viuva era irmã de Marquez de Villa Real, D. Fernando. Este tinha um filho--o Conde de Alcoutim--e para elle ambicionava a appetecida sobrinha.
Por seu lado o Duque de Bragança, D. Jayme, que frequentava assiduamente a casa de sua prima, (os Villa Reaes eram primos dos Braganças), via enlevado o desabrochar promettedor de D. Brites, cujo rostinho enfeitiçava todos em redor. Alguem chegou até a julgar que o sorumbatico Duque, visitava D. Joanna de Noronha porque «estando hi sua filha bordada de louçainhas» se sentia elle proprio namorado, pretendendo-a para si.
Deste rumor chegou echo aos ouvidos do Marquez de Villa Real, que se julgava seguro d’esta noiva para seu filho, fundado n’uma supposta promessa de El-Rei. E como detestava o Duque de Bragança, e não estava longe de suppôr que este projecto nascesse no intuito de «o danar» fazendo-lhe picardia, escreveu uma carta desabrida a El-Rei.
Mas não era para si que o Duque de Bragança D. Jayme a queria, pois talvez já a esse tempo andasse tomado de amores pela que devia ser sua segunda mulher, e ainda não estava desligado d’um compromisso que por elle tomára El-Rei D. Manoel, de casar com D. Leonor de Noronha, filha do Marquez, senhora de grande erudição, mas de poucos attractivos femininos.
Era para o proprio filho, D. Theodosio, embora tamanino, que o Duque de Bragança ambicionava a gentil noiva.
Havia, porém, da parte de El-Rei D. Manoel, como se vae ver, uma intenção reservada.
Damião de Góes, o chronista, diz-nos que sendo ella «hua das formosas e bem dispostas mulheres que em seu tempo houve n’estes regnos com as quaes partes e nobreza de sangue, e bom dote que tinha, trouxe sempre opinião de casar com o Infante D. Fernando, filho terceiro D’El-Rei D. Manoel, posto que fosse muito mais moço que ella.»
E accrescenta:
«Mas por isto não lhe succeder á vontade...»
É necessario notar que a vontade d’ella não era casar com o Infante. El-Rei é que, conforme elle proprio diz, a desejava «para algum dos meus filhos»... Excepto o mais velho, já se vê.
Ora, foi esse justamente, o herdeiro, o futuro D. João III, que esboçou um idyllio amoroso com a seductora prima.
Creados os dois na aula régia, eram frequentes as ocasiões de se encontrarem; de trocarem olhares a que davam significativa intenção; de entrarem juntos nos mesmos jogos de cartas que entretinham os serões, ou nos folgares que alegravam as horas da sésta nos jardins realengos.
Assistiam com egual interesse ás diversões de altanaria, quando, nos campos de Almeirim, os falcoeiros reaes largavam os açores e gerifaltes encarapuçados, a alarem-se elegantes na perseguição da voaria, pelas crystallinas manhãs da leziria ribatejana.
Sublinhavam as mesmas allusões nos Autos de Mestre Gil. Riam-se juntos das mesmas facecias com que os chocarreiros, bobos, e anões os debicavam nas ante-camaras. E nas festas da Capella ouviam com egual unção os sons do orgão a gemer plangente, emquanto na atmosphera se aspirava aquelle perfume mixto de rosmaninho, de alecrim e de incenso que tão favoravelmente dispõe as almas á terneza.
Os quinze annos d’ella rimavam com os do Principe.
E d’este rythmo das duas mocidades ia nascendo suavemente um sentimento...
Não ainda uma paixão.
Mas o lume ia-se ateando com indiscreta chamma, e os roazes do mundo já entravam o boquejar o caso.
É que, quando D. Brites vinha com sua mãe, de Santarem a Almeirim, assistir a alguma caçada ou torneio em que o Principe tomava parte, involuntariamente o seguia com o jacto luminoso dos seus olhos negros.
E quando, em Lisboa, nos Paços da Ribeira, as figuras declamavam no tablado as suas fallas com emphase, não era raro surprehender o herdeiro do throno, distrahido das arengas, procurar com a vista interessada as louçainhas da garrida Lara.
Á perspicacia de El-Rei D. Manoel não escapou o embevecimento do filho, que assim ia contrariar os seus planos. Ou talvez algum mexerico caseiro lhe segredasse que já na côrte se formavam conluios e projectos sobre a possibilidade d’aquelle enlace.
Occorreu-lhe talvez então á lembrança, que no reinado antecedente tambem o Principe herdeiro andara, muito novo ainda, captivo dos olhos languorosos de D. Branca Coutinho, e a promptidão com que o inflexivel D. João II atalhou o devaneio amoroso.
N’este caso tratava-se apenas de um _namorico_ passageiro, uma iniciação de adolescentes. E a perturbante D. Brites não passaria para o Principe d’aquillo a que os Hespanhoes chamam--_novia de verano_, querendo significar que estes laços corrediços se atam e se desfazem com a mudança de uma estação, deixando apenas uma recordação risonha. Tudo levava a crer que assim fosse. Mas á imaginação do monarcha afigurava-se o perigo imminente, e resolveu acudir-lhe, retirando o fogo de ao pé da estopa. Não que a estopa já se estivesse inflamando, como parece quererem alguns deduzir do exame de uns documentos vindos a lume ha poucos annos.
Vem aqui a talho fallar n’esses documentos.
* * * * *
Foi Luciano Cordeiro, a quem João Bastos, o Director da Torre do Tombo, os revelou, que veiu com elles a publico no appendice de um folheto que tem por titulo--A _Segunda Duqueza_--e que mais propriamente se deveria chamar--_A segunda mulher do Duque D. Jayme_. Mas isso não vem para o caso.
Prestando homenagem ás qualidades de investigador d’aquelle publicista, que enriqueceu com alguns trabalhos a litteratura historica, seja-nos comtudo licito, sem menoscabo pela sua memoria, discordar da hermeneutica que usou na glosa d’estes textos.
Levado pelo engodo de apresentar _inédito_, de _destruir lenda_, de _faire du nouveau_, exagera a importancia d’esses documentos, ultrapassa o alcance das palavras e illude-se com a intenção de quem as escreveu.
Uma vez enveredado no labyrintho das conjecturas, tenta desfazer o testemunho dos chronistas, e explica a seu sabor os motivos do terceiro casamento de El-Rei D. Manoel, para o que architecta um plano de politica matrimonial, que vae muito além dos designios d’aquelle monarcha.
O que nos diz a Historia pela penna do coevo Damião de Góes, e de Francisco de Andrade, que não muito longe d’esse tempo viveu?
El-Rei D. Manoel, que era na verdade um grande casamenteiro, como o fôra Dom João de Bôa Memoria, distribuia a seu talante as noivas conforme os interesses internacionaes, ou conveniencias de familia.
E assim, no proposito de continuar a alliança com Castella, determinara pedir para seu filho, o Principe D. João, a irmã de Carlos V.
Entretanto enviuvou. E quando, tempo depois, chegou á Côrte o retrato de Leonor, que o artista favorecera com attrahente belleza, tanto se deixou embelecar com a pintura, que resolveu guardar para si o original.
D’ahi nasceu o despeito do futuro D. João III, o resentimento contra seu pae e o refrear a custo o sentimento pela madrasta.
Pela morte do Rei, esboçou-se até, como é sabido, um projecto de casamento com a Rainha viuva. E são conhecidas as peripecias d’este drama de que já em outros estudos nos occupámos, e a que alludem os historiadores desde Andrade na _Chronica_ e Frei Luiz de Souza nos _Annaes_, até ao sisudo auctor da _Historia Genealogica_.
Luciano Cordeiro, porém, pega nos documentos em que fallamos, e d’elles tira conclusões, por vezes engenhosas, mas tão enfeitadas pela imaginação, que alteram os acontecimentos e (digamos a verdade) collocam pouco geitosamente alguns dos personagens d’esta historia.
É tempo de dizermos quaes sejam os documentos.
Quatro cartas existentes na Torre do Tombo, entre os papeis do Corpo Chronologico.
A primeira e segunda d’essas cartas são do Marquez de Villa Real, dirigidas a El-Rei D. Manoel a 10 e 11 de Agosto de 1515.
O opulento fidalgo estava nas suas terras de Villa Real, quando de Lisboa recebeu um aviso que o alvoroçou.
Annunciava-lhe o zeloso correspondente, que na Côrte se tratava de dar casamento á promettida noiva de seu filho, o Conde de Alcoutim. E com quem? Com o seu primo co-irmão, o seu maior inimigo, o Duque de Bragança D. Jayme («_Inymigo pubriquo_» confessa o Marquez).
Facil é conceber o seu furor com o recebimento de taes novas. Ferido no orgulho, que era apanagio da sua raça, escreve sem detença a El-Rei, queixando-se amargamente, e pedindo-lhe «que atalhe este caso».
Essas duas cartas, em que a par da firmeza das expressões ha um certo resaibo litterario, demonstram que o Marquez, Dom Fernando, manejava com egual energia a espada e a penna. Aquella nas campanhas d’Africa em que se distinguira. Esta, nas horas de lazer do seu solar transmontano.
Na segunda carta relembra o Marquez que em Setubal o Monarcha lhe assegurara, que o Duque de Bragança casaria com sua filha Leonor, para com esta união acabarem as desavenças e «haver concerto» entre elle e D. Jayme.
Dos outros dois documentos apresentados por Luciano Cordeiro, é auctor o proprio Rei D. Manoel.
O primeiro é em fórma de _Instrucções_ dadas a um secretario para as transmittir ao Duque de Bragança, seu sobrinho.
N’este papel datado de 5 de Outubro de 1520, D. Manoel trata dos projectos de casamento para sua sobrinha D. Brites de Lara.
N’elle se vê que o Duque pedira a ambicionada noiva, não para si, como o Villa Real suppunha, mas para seu filho, D. Theodosio, e vê-se tambem que El-Rei só consentiria n’isso, se não se fizesse o casamento com algum dos Infantes seus filhos.