Part 4
Feito o testamento, D. João II, muito doente, hydropico, _malenconizado_, e sentindo retalhadas as entranhas pela peçonha que bebêra, havia annos, n’um pucaro junto á Fonte Coberta, partiu das Alcaçovas para Monchique, no Algarve, onde esperava encontrar allivios.
O filho acompanhou-o. Mas nem a presença d’elle o distrahia, nem as danças e luctas dos vaqueiros da Serra o alegravam, nem a corrida aos porcos lhe desenferrujava as articulações.
Tomou dois banhos com pouca cautella, bebeu agua das Caldas mais do que devêra e, peorando, resolveu regressar, indo dormir a Alvor.
D. Jorge apresentou-se em Villa Nova de Portimão, d’onde foi ver o Pae duas vezes.
Ruy de Pina dá a entender que essas visitas rapidas deram azo a conjecturas ácerca da successão.
A verdade, porém, é que já a esse tempo o Rei temia «rebates de carne», que, dias depois, quando se sentia morrer, mais ainda quiz evitar, afastando de si o filho, cuja presença lhe trazia ao espirito lembranças das faltas commettidas no passado.
A sua morte, nas casas de Alvaro de Ataide, em Alvor, remata com singella belleza o drama impressivo que foi a vida desse homem tamanho.
Emquanto transportavam o corpo de D. João II para a Sé de Silves, o filho, que completára em Agosto quatorze annos, ficou em Portimão.
Alli, recebeu todos os Senhores e Fidalgos, que então estavam no Algarve, e d’alli voltava, quando encontrou Henrique Correia (meio irmão de sua Mãe), que lhe trazia uma carta de pezames de D. Manoel, então já Rei, que se achava em Monte-mór-o-Novo.
O aio Diogo Fernandes d’Almeida levou-o logo a saudar o Soberano.
Já então D. Manoel estava seguro no throno e descançado ácerca d’aquellas «duvidosas alterações» que, nos ultimos dias de vida do primo e cunhado, lhe assaltavam o animo.
Recebeu, por isso, com boa avença o rapazelho, que agora definitivamente deixava de ser um temivel obstaculo ás suas ambições, e escutou com favoravel disposição o discurso em que o velho aio o recommendava á sua generosidade.
Não era necessaria tanta eloquencia. O Rei D. Manoel logo satisfez o pedido, outorgando fartos beneficios ao pequeno primo.
O Bispo D. Jeronymo Osorio no seu livro «De rebus Emmanuelis», transpõe em linguagem de Tacito a falla do ancião. Alli se vê que a grandiloquencia de D. Diogo arrancou lagrimas ao benigno Soberano (_adeo fuit Emmanuellis maeror excitatus_). A ventura (e elle foi o Rei _venturoso_) dispõe o animo para a magnanimidade.
* * * * *
Passaram annos.
A vida corria serena para o moço Duque. De indole bonachã, torna-se bem acceito do Rei e da Rainha, que já fôra sua cunhada durante aquelles mezes em que estivera casada com seu meio irmão, o Principe D. Affonso.
Encontravam-se agora como primos, e ella renovava ao Duque de Coimbra, já quasi um homem, a amizade um tudo nada protectora, que havia annos concedera ao pequeno Senhor D. Jorge.
Em 1498, quando foi da viagem solemne dos Reis de Portugal a Castella, para serem jurados herdeiros d’aquella Corôa, foi resolvido que o Senhor D. Jorge, Duque de Coimbra, os acompanhasse n’esse passeio triumphal.
Com D. Manoel--o _Sátrapa do occidente_--que já sonhava collocar na cabeça a corôa imperial da Peninsula--Portugal, Castella, Aragão, Leão--e tambem a da Sicilia, iam os nomes mais illustres: Dom Diniz irmão do Duque de Bragança, o Senhor D. Alvaro, D. Francisco de Almeida, Tristão da Cunha, João Fogaça e muitos outros.
Ao chegarem a meia legua de Toledo, El-Rei D. Manoel destacou D. Jorge, Duque de Coimbra, com alguns do sequito, para irem áquella cidade saudar os Reis Catholicos, seus sogros.
Caminhava a vistosa cavalgada, levando á frente D. Jorge, de figura menineira, mas de porte airoso e nobre, e seguia pela estrada arida e amarellenta, que leva á antiga capital wisigothica, quando, quasi ás portas da cidade, o veiu receber, com todas as honras, Fernando, o Catholico.
Promptamente se apearam o Duque de Coimbra e os seus para lhe beijarem a mão. Mas era tal a multidão curiosa, e tão miudinha a estatura do Duque, apezar dos seus dezesete annos, que se sumiria no aperto se não o erguessem, tomando-o nos braços, D. João de Menezes, mordomo-mór, e o esforçado D. Fernando Martins Mascarenhas, capitão de ginetes. O Rei D. Fernando, ao ver assim levantada aos hombros de dois cortezãos, a figurinha delicada de um rapaz imberbe, perguntou surpreso, quem era, que assim lhe apresentavam.
Apenas ouviu nomear o filho de D. João II, descobriu-se reverente, com uma grande cortezia e mandou-o montar a cavallo, levando-o á sua direita, e dispensando-lhe d’ahi em diante as maiores deferencias.
* * * * *
Sobre a cabeça do feliz Duque iam sempre cahindo honrarias e benesses.
Pouco tempo depois de voltarem ao Reino, fez-lhe El-Rei doação das Villas de Montemor-o-Velho, de Penella, de Torres Novas com seus termos e o Reguengo de Campores, com muitas terras e Padroados.
E como a esse tempo ainda não tinha filha casadoira com que o juntasse, cumprindo o que em testamento lhe recommendára D. João II, procurou nos circulos de escol quem pela categoria, situação e belleza pudesse vir a dar uma duquezinha de Coimbra capaz de figurar no esplendor da Côrte manoelina.
Andava então na roda do Paço, e fazia as delicias dos Serões, uma senhora, parenta proxima de El-Rei, cortejada por todos os poetas e versejadores, e de formusura tão rara que em trovas e motes a cantavam, dando-lhe o sobrenome significativo de a _Perigosa_.
E perigosa era decerto D. Brites ou Beatriz de Vilhena, pois que, se facilmente se apaixonavam por ella todos os homens, difficilmente podia pertencer a algum, visto que era filha do Sr. D. Alvaro, irmão do Duque de Bragança, e portanto muito chegada ao throno.
Este Sr. D. Alvaro era alguem. Sem appellido, pois o não tinham os filhos dos Duques de Bragança, batalhara valentemente em Toro, achara-se no cerco de Samora, e fôra perseguido, como todos os Braganças, por D. João II que, primeiramente, o empurrou para fóra do Reino e depois lhe confiscou a casa e bens.
Recolhido com carinho por Fernando e Izabel de Castella, para alli mandou ir a mulher e os filhos. D. João II, porém, fizera constar ao Conde de Olivença, sogro do Sr. D. Alvaro, que desejava ficasse no Reino uma filha do desterrado a quem daria toda a casa e fazenda do pae.
Entregue á rainha D. Leonor, ficou vivendo no Paço, D. Beatriz, que tomou o appellido de Vilhena.
Tornando-se assim senhora de uma grande fortuna, e brilhando na Côrte com uma rara formosura, era deveras perigosa a altiva Beatriz, em torno da qual enxameavam, chamuscando as azas, numerosos poetas e adoradores.
Foi D. Diogo, filho do Marquez de Villa Real, quem lhe deu a alcunha com o celebre rifão:
«Nam s’espera outro rremedio de quem vyr _a periguosa_ se nam vida douidosa.»
Accorreram á chamada numerosos versejadores e poetas palacianos que, em _cantigas de louvor_ com mais ou menos metro, lhe exaltavam a belleza, lhe censuravam a altivez, ou se queixavam do seu rigor.
D. Nuno da Cunha referindo-se aos signaes que lhe apimentavam o rosto diz com intenção:
As duuidas, que nos days cada ora em nossas vidas eu as tinha bem sabidas, senhora, em vossos ssynaes Em vossos sinaes mortaes, em que nam vi douidosa minha vida periguosa.
Ao passo que D. Nuno, como vemos, era inspirado pelos provocantes lunares do rosto da _Perigosa_, João Fogaça, Védor da Casa d’El-Rei, exclamava com mais enthusiasmo que estro e que grammatica:
«Quem loouar e quem disser muy grande verdade dys, y nam se enguana, que nam a hy ygoal molher a senhora dona Briatys de Vylhana Polo qual nam ha rremedio a cousa tam _periguosa_ nem ha molher tam fermosa.»
D. Affonso de Ataide, Senhor d’Atouguia, esse então, indo-se-lhe os sentidos só de encaral-a, dizia:
«Mas olhos y coraçam, nesta vida duvidosa, escolhem a mays periguosa!»
Tambem não faltou Garcia de Resende que lhe diz:
Quem na vyr, nam pode ver se nam de ssy maao pesar, poys tem çerto o padeçer, y a pagua do perder soo com ve-la se paguar. Mas goay de quem ss’afastar de ver cousa tam fremosa, que seja tam periguosa!
D. Joanna de Mendoça, que supponho ser a futura Duqueza de Bragança, celebre pela formosura, entrou tambem com a sua cantiga:
«Por acudir ao rrifam nam sey cousa que nam faça, até confessar na praça tudo o que nele vos dam. E pareçe-me rrezam, que poys soys tam periguosa, nam sejays despiadosa.»
Fizeram tambem versos á perturbadora creatura Jorge Barreto, o Conde de Alcoutim, o Conde de Portalegre, o Barão d’Avito, D. Luiz de Menezes, etc.
Mas o que parece mais exaltadamente apaixonado é D. Diogo, filho do Marquez de Villa Real. Este tem no Cancioneiro uma longa poesia em oitavas na qual «se aqueixa comsigo mesmo» e que termina assim:
«meu tormento tam estranho, que nam ha hy mal tamanho que não s’acabe ou m’acabe.»
Logo a seguir n’umas trovas «A huma guedelha de cabellos que viu ha Senhora D. Beatriz de Vilhena» exclama:
«Cabelos de fremosura, que me tanto namoraram, ditosa minha ventura, que sereys a sepultura dos olhos que vos olharam.»
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Foi esta rapariga, que á força de encantos se tornava perigosa, quem El-Rei D. Manoel e sua irmã a Rainha D. Leonor destinaram ao Duque de Coimbra.
Irão os leitores talvez conjecturar que, assim casada, ella veiu a dar n’uma das muitas malmaridadas de que rezam as chronicas coscuvilheiras. E imaginarão talvez que teve uma vida matrimonial tormentosa o consorte d’esta Duqueza tão rodeada de galanteios e paixões.
Mas, porque a natural altivez a defendesse, ou porque não fosse facilmente accessivel o seu coração, ou porque sinceramente gostou do marido que, embora de pequena estatura, era bem talhado, a verdade é que o Duque, que não lhe fizera versos, apesar de ter sido discipulo de Cataldo Siculo, e que não a assediára com declamações sentimentaes teve a sorte inesperada de ser querido pela appetecida de tantos, pela admirada de todos.
E a vida continuou a correr desannuviada para o Mestre de Santiago.
Administrava com cuidado a sua grande casa, e governava com tino as ordens militares o que não era uma _sinecura_, pois reunia com frequencia Capitulos, fazia ordenar Estados e definitorias (que ficaram conhecidos com o titulo de Estatutos do Mestre D. Jorge) e correspondia-se com a Curia para obter privilegios e regalias em favor dos Freires.
Ora em Lisboa, ora em Setubal, ora em Palmella, os Duques de Coimbra ostentavam grande estado, e gozavam de poderosa influencia.
Em 1508, quando El-Rei D. Manoel determinou ir soccorrer Arzilla, achava-se o Duque em Setubal. Apenas soube da intenção do soberano, aprestou numerosos navios, e, levando gente sua, correu a Tavira a juntar-se ás tropas reaes.
Não se realizou a expedição. Mas d’este caso resultou uma vistosa parada das forças de que dispunha o Duque.
Não foi maninha a formosa D. Beatriz. Deu ao marido oito filhos dos quaes o primogenito foi D. João de Lancastre, 1.º Duque de Aveiro e Marquez de Torres Novas de romantica memoria, que mais adiante encontraremos.
Foi tambem seu filho D. Affonso de Lancastre que veiu a ser pae do 3.º Duque de Aveiro.
E outros teve, entre os quaes D. Jayme Bispo de Ceuta que vieram a representar um papel curioso na opposição aos amores de seu pae.
Emquanto viveu El-Rei D. Manoel foi o Duque de Coimbra amimado constantemente com provas de affavel generosidade, e carinho.
Se adoecia, logo o Rei o visitava pessoalmente, o que era testemunho de grande consideração. E tão alta era reputada essa honra que a primeira vez que o Duque adoeceu depois da morte de D. Manoel, seu filho El-Rei D. João III reuniu Conselho para resolver se o devia visitar.
Os do Conselho approvaram, mas o Duque resentiu-se com a idéa da consulta.
No dia em que D. João III se apeiou á porta do palacio do Senhor D. Jorge estava este convalescente. El-Rei sem demonstrar apressurado zelo, atravessou as salas de espera, as do estado e deixando de lado a sala do Throno, dirigiu-se directamente aos aposentos particulares do Duque. Estava este ennovelado n’um ferragoulo de velludo escuro, quasi sumido entre os braços de uma cadeira de couro com pregaria amarella, e assistia interessado a uma partida de xadrez, que dois creados jogavam, para o divertirem, quando El-Rei entrou. Este, vendo retirar a mesa e taboleiro, perguntou ao Duque se gostava de vêr jogar. Respondeu este logo, sublinhando as phrases:
--«Senhor! Quando El-Rei vosso pae, que santa gloria haja me honrava com sua presença, por me divertir nas doenças, elle mesmo com summa benignidade se punha a jogar por me divertir.»
Este remoque levava a intenção de mostrar o desgosto que tivera com o saber que El-Rei, consultara o conselho para o visitar, o que contrastava com as intimidades recebidas de El-Rei D. Manoel.
Os Reis desadoram que lhes joguem biscas. D. João III, mais arguto do que muitos julgam, sentiu o alcance da picuinha e enguliu em secco. Abreviada a visita retirou-se carrancudo.
Este caso não os desuniu. Mas o que é certo é que nunca houve d’este Rei para com D. Jorge aquelle carinho que elle merecera aos dois predecessores.
Bem se mostrou quando foi do conhecido escandalo provocado pelo Marquez de Torres Novas.
Recordemol-o de passagem, visto que d’elle foi protagonista um filho do Senhor Dom Jorge.
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D. Francisco Coutinho, 4.º Conde de Marialva, e Meirinho-mór do Reino, era, no primeiro quartel do seculo XVI, um dos mais notaveis fidalgos da Peninsula. Os seus annos (andava pelos setenta quando a tempestade estalou), os seus serviços (já fôra Alferes-mór de El-Rei D. Affonso V, e batalhára em Castella e em Africa), a sua fortuna (pois a casa Marialva era reputada das mais ricas) tornavam-n’o respeitado por todos, gozando de uma grande reputação e auctoridade.
Tinha uma filha unica, D. Guiomar, que «pela pessoa e riqueza era considerada o maior casamento que então havia em Hespanha».
O velho Conde, embora nobre e rico, ambicionava para a cabeça da filha uma corôa fechada, e não lhe desagradava a idéa de que ella trocasse as suas armas por um escudo com banco de pinchar. Queria vel-a Infanta de Portugal. Não se atreveu a aspirar ao herdeiro do throno. Mas como El-Rei D. Manoel tinha mais filhos pretendera que este a acceitasse para o Infante D. Fernando então ainda creança.
O Rei Venturoso não era indifferente á seducção do oiro. Accedeu aos desejos do Conde, por lhe parecer (escreveu elle) cousa proveitosa para o Infante e para o Reino.
Morrendo entrementes D. Manoel, seu filho, D. João III, não se demorou em dar cumprimento ao ajustado e, na casa do Conde de Marialva, em Março de 1522, fizeram-se as capitulações para se effectuar o casamento logo que o Infante chegasse aos dezesete annos.
Estavam as cousas n’este ponto, quando um dia surje no Paço o velho Conde de Marialva, allucinado, afflicto, fóra de si, e deita-se aos pés d’El-Rei clamando justiça.
Era o caso que D. João de Lancastre, Marquez de Torres Novas, filho da Senhor D. Jorge, Duque de Coimbra, com um atrevimento inaudito, viera oppôr-se ao matrimonio de D. Guiomar, allegando «que muito antes do contracto com o Infante Dom Fernando era elle casado clandestinamente com a filha do Conde, e determinára pôr este caso em juizo».
--«Era uma affronta á sua velhice (gritava o velho), era uma injuria ás suas cãs. Era tambem para El-Rei um insulto, pois que, fiado na pouca edade do soberano, o Marquez esperára a morte d’El-Rei D. Manoel, julgando que a inexperiencia do successor lhe facilitaria a empresa.»
D. João III ouviu attentamente o velho Conde...
Cá fóra, nas ante-camaras do Paço, segredava-se o acontecimento. Pode bem imaginar-se o alvoroço que levantou. Começavam a esboçar-se partidos. Uns, a favor do Conde, lamentavam vel-o assim desconsiderado, n’uma edade que não podia desforçar-se.
Outros, baixinho, accusavam-n’o de ambicioso, verdugo da filha, sacrificando á sua ambição os sentimentos d’ella.
Na côrte, na cidade, em toda a parte, por onde a nova ia alastrando, os commentarios ferviam ao sabôr das paixões. Cada qual interessava-se por um dos personagens, e todos se interrogavam sobre a decisão d’El-Rei.
Este fôra prudente. Levou o pleito ao Conselho. Entretanto mandava prender no Castello de Lisboa o Marquez de Torres Novas, e desterrava para fóra da côrte o Duque de Coimbra, pae d’este.
A prisão não atemorizou o indomito Marquez, que depois já no Castello barafustava, e que, proseguindo na demanda, mandou intimar o Conde de Marialva a que lhe entregasse a filha.
O caso aggravava-se.
Os Infantes D. Luiz e D. Fernando mexiam-se proclamando a justiça do Conde e verberando asperamente o procedimento do atrevido pretendente.
Por seu lado, já em Setubal, para onde se exilára, o Duque de Coimbra punha em campo a sua influencia.
Ao Rei, seria licito, usando do poder absoluto, decidir a contenda desde logo. Mas havia pontos duvidosos, e a consciencia não lhe permittia n’uma coisa «tam secreta como esta antremetter-se em fazer nem impedir casamentos».
Deixou correr no juizo ecclesiastico a demanda, que se foi arrastando durante nove mezes. O tempo na sua acção esmoedora ia desfazendo arestas. Morreu o Velho Conde. D. Guiomar interrogada por lettrados canonistas e theologos sobre se era casada com o Marquez, negou peremptoriamente.
O tribunal em vista de, pelo processo «não se provar bastantemente o contrario», decidiu o litigio em favor do Infante que já andava enfadado e desgostoso.
As bodas effectuaram-se. O Infante D. Fernando e sua mulher foram viver para Abrantes.
Pairava, porém, não sei que sinistro e agourento destino sobre o casal. Poucos annos depois de unidos, achando-se o Infante na villa de Azinhaga, referiu a alguns fidalgos, seus intimos, que sonhára n’essa noite ter visto sahir de sua casa em Abrantes, trez tumbas cobertas de negro. Não fez caso. Mas no dia seguinte recebeu recado de ter morrido n’aquella villa a filha unica que lhe restava. E partindo para alli a consolar sua mulher, morreu em Novembro, e ella em Dezembro.
Estava cumprido o sonho. Os fados tinham vingado o Marquez de Torres Novas.
Qual a verdade sobre os factos e sentimentos dos auctores d’este drama?
Qual o segredo do coração de D. Guiomar?
Um leve manto de mysterio ficou sempre entrecobrindo a romanesca historia. E a phantasia, tão propria de cerebros peninsulares, foi bordando sobre o assumpto lendas sentimentaes.
Ainda no meiado do seculo passado, Camillo Castello Branco n’um drama ultra-romantico, intitulado o _Marquez de Torres Novas_, (por signal bem inferior ao seu talento) architecta uma inverosimil acção eivada de erros historicos e de aleijões nos caracteres.
A versão official, que os chronistas estamparam, dá a entender que o Marquez, por ser muito novo e mal aconselhado urdiu aquelle enredo sem que na realidade tivesse havido união clandestina.
Elle proprio alguns annos depois, movido talvez por um sentimento cavalheiroso, escrevia á Rainha D. Catharina:
«Fui prezo e depois degredado da côrte por culpas que se offereceram, o que eu não confesso, nem Deus tal queira, eram alheias e não minhas nem de Sua Alteza por nossa edade, e d’isto porque não pareça que allego com testemunhas mortas, ainda poderei mostrar papeis ou papel, em que mostraria minha innocencia contra quem me culpasse.»
O chronista-mór, Francisco de Andrade, que viveu poucos annos depois dos acontecimentos acaba o capitulo em que os refere com estas palavras:
«A apressada morte de ambos (D. Guiomar e D. Fernando) e dos filhos que d’elles nasceram e a ruina da casa Marialva que tambem se apagou de todo foi occasião de haver no reino alguns juizos sobre este casamento e não faltou quem houvesse n’este caso por justa a sentença do céo.»
Juizes do Deus!
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E a Duqueza de Coimbra D. Brites de Vilhena?
Essa, que, emquanto rapariga moça, tantas paixões levantou, foi durante os 30 annos de casamento a mais devotada companheira do mestre D. Jorge. Com elle esteve sempre no desterro em Setubal, e, entregando-se a obras piedosas, fundou juntamente com o marido o mosteiro de S. João d’aquella villa, onde entraram trez filhas suas, e onde se mandou sepultar.
Para a sua morte, que succedeu pelos annos de 1580, não contribuiram pouco os desgostos causados pelo escandalo levantado pelo filho, e o desterro d’este.
Nenhum dos Poetas que celebraram a sua formosura entoou endechas á sua morte. A _Perigosa_ deixára de o ser e ia esquecendo...
O Duque que lhe sobreviveu muitos annos procurou consolações.
De uma, ou de mais que uma innominada (passageiros amores!) ficaram trez filhos todos D. Jorges, e todos clerigos, e ainda uma filha D. Joanna de Lancastre que foi recolhida no Mosteiro de Santos-o-Novo.
N’esse Mosteiro era commendadeira, já quasi octogenaria, e muito envelhecida, D. Anna de Mendoça, antiga amante de D. João II, e mãe do Senhor D. Jorge, Duque de Coimbra.
Levava vida exemplar.
O Duque, ou por ver sua mãe, ou para tratar da administração da Ordem de Santiago, a que o convento pertencia, vinha ás vezes de Setubal a Lisboa, aposentando-se n’uns quartos junto ao real Mosteiro.
D’alli fazia repetidas visitas ao Paço, desde a reconciliação com os Soberanos.
N’esse anno de mil quinhentos e quarenta e tantos, a estada em Lisboa foi prolongando-se. As sahidas succediam-se cada vez mais a miudo, comprazendo-se o mestre em frequentar principalmente a casa da Rainha D. Catharina.
Em torno da Soberana enxameava por esse tempo um bando de damas, algumas formosissimas, outras de graça encantadora, e quasi todas de espirito scintillante.
D. Jorge, habil no galanteio, doneador e bom cortezão, embora já serodio, deleitava-se na pratica do regio gyneceu, e deliciava com os seus ditos aquelle esquadrão volante das _Donas e Donzellas da Camara_.
Entre estas ultimas havia uma de dezeseis annos, que lhe prendia mais a attenção. Era D. Maria Manoel, filha de D. Francisco de Lima, já fallecido, e de D. Francisca de Vilhena, que fôra dama da Rainha.
O Duque, em tempo, fizera á mãe uma pontinha de côrte.
Esboçára mesmo um idyllio, que pouco passára dos prolegomenos, e que, tendo ephemera duração, deixou comtudo nos dois uma recordação amavel.
O chronista Francisco de Andrade, fallando ácerca d’este episodio, diz assim: «com quem, andando no Paço o mestre travara outros amores».
Seriam _amores_. Mas não foi _amor_. Não passaria, talvez, de uma _amizade amorosa_ que, por uma reacção exotica de chimica sentimental, se transformou primeiramente n’um interesse accentuado pela rapariguinha filha d’aquella com quem _flirtára_. E o interesse que pouco a pouco foi crescendo em intensidade, e sempre n’um movimento ascencional a pouco trecho desabrochou n’uma paixão violenta.
Um caso de transubstanciação psychica.
A Rainha, que ao principio, não fizera reparo maior nas assiduidades de D. Jorge, cuja edade lhe parecia garantia para a seriedade da sua Casa, quando se inteirou do encantamento de que fôra tomado o primo, determinou dar providencias.
O mundo feminino do Paço agitou-se. D. Maria Manoel sentiu em volta de si condensarem-se nuvens ameaçadoras de borrasca.
Mas... deixava-se adorar...
Não estava ainda inventada a palavra _snobismo_. Comtudo, o sentimento que o vocabulo traduz na sua graduação variadissima, e nos infinitos cambiantes não é só d’este ou d’aquelle tempo, é fundamentalmente humano. Vaidade lisongeada, ambição de honrarias, ostentação de intimidade com os poderosos da terra, seducção pelas grandezas, desejo de brilhar com luz alheia, são modalidades da alma humana, que vem com pequenas differenças _ab initio_.
A nossa Mãe Eva, tal como a descrevem na famosa scena, seduzida pela serpente, que lhe accena com grandezas e lhe desvenda mundos desconhecidos, é já rudimentarmente _snob_ e profundamente feminina.