Part 3
Na Côrte dos Valois, perto de trez seculos depois, em plena Renascença, os combates singulares, antigo _julgamento de Deus_, tornaram-se solemnidades quasi festivas, que chegariam ao apogeu de brilho no celebre torneio em que Jarnac, o favorito da Duqueza d’Etampes, jarretou o pomposo Châtaigneraie, defensor de Diana de Poitiérs, na liça rutilante de St. Germain, sob os olhares do Rei, da nobreza, e de todas as summidades da França.
Aqui, porém, n’esse final do seculo XIV, e n’este canto da Peninsula, as escaramuças, perante uma côrte mais guerreira, que polida, mais austera que licenciosa, se não tinham o esplendor das ceremonias theatraes que deslumbram, não eram menos impressivas, ou menos importantes os seus resultados.
Pelo contrario. Na Côrte de Henrique II digladeavam-se dois adversarios para liquidarem uma intriga de alcôva.
No arraial de D. João I batiam-se duas mulheres, disputando a honra de dous exercitos, empenhados em fixar a fronteira do Reino.
N’essa manhã do começo de Março em que a _Arrenegada_ sahiu pelo postigo da fortaleza, para vir defrontar-se com a sua competidora _Ignez Negra_, todos de um lado e outro se dispuzeram a presencear o espectaculo d’esta pugna de nova especie, a que deram fóros de combate, e que a chronica regista com a designação honrosa de _escaramuça entre duas mulheres bravas_. Bravas no sentido de valorosas, e bravas na acepção de ferinas.
Os de dentro subiam aos parapeitos das cortinas e bastiões, debruçando-se curiosos. Os do arraial formavam circulo em volta das luctadoras, saudando com vozearia carinhosa _Ignez Negra_ a portugueza, e enchendo de vaias e apupos a desnaturada castelã.
As almas tambem têm sexo, como os corpos. Assim se aclaram, quando a natureza as troca, tantos casos inexplicaveis, tantas anomalias flagrantes--homens mulherengos, mulheres viragos.
Nos corpos d’estas duas moravam almas de luctadores valentes, herdadas talvez de seus avoengos; dos que em eras remotas haviam ajudado a expulsar da Peninsula as raças invasoras.
Foi logo impetuoso o primeiro embate das justadoras. Com furia, com sanha, com rancor atiraram-se uma á outra sem mais armas do que as unhas, com que reciprocamente rasgavam as carnes, e os dentes com que se esfacellavam. Atropellando-se, arrancando os cabellos, afogando-se nos fortes braços nervosos, derrubando-se alternadamente na lucta; ensaguentadas, esfarrapadas, e rugindo como feras prolongaram durante minutos a encarniçada peleja.
Davam mais a impressão de dois monstruosos animaes ennovellados em trapos, cabellos e sangue, que de duas mulheres humanamente construidas.
O drama começava a abalar o animo ainda dos menos susceptiveis de soffrer commoções, quando a _Arrenegada_, ou porque tivesse menos elasticidade nos musculos que _Ignez Negra_, ou porque o espirito dos que renegam crenças e opiniões é sempre menos resistente, entrou a fraquejar, cahindo logo desfallecida.
Então Ignez, que a supplantára, foi gloriosamente levada em triumpho e saudada com acclamações, ao som de trombetas e charamellas festivas.
* * * * *
Alguns escriptores, seduzidos pela idéa de attribuir a este episodio o resultado da empreza, outros, copiando aquelles, (o que é pecha vulgar em quem não se dá grande trabalho nas investigações) affirmam ter sido decisiva para a entrega do castello a pugna entre as duas mulheres.
Phantazias!
A verdade é que, se este duello animou e excitou a coragem dos Portuguezes, foi só d’ahi a horas, na manhã de segunda-feira, trez de Março, que a praça se rendeu pela acção dos nossos guerreiros e poder dos engenhos.
Conta-o Fernão Lopes fazendo-nos assistir ao movimento da bastida sobre as suas rodas, avançando dezoito braças; depois á escalada dos que «se chegavam tanto á Villa que punham um pé no muro outro na escala», atirando-se, primeiro que todos, o Prior do Hospital.
A peleja foi feroz. Dez homens no mais alto estrado levavam pedras de mão que arremessavam aos de dentro, (como agora se arremessam granadas) emquanto outros se atiravam ao muro com grossos páos.
De cima choviam pedras e fachos incendiados de mistura com imprecações e insultos («desmesuradas palavras») que assanhavam o animo de D. João I.
Por isso, o Rei assomado e iracundo, quando os de dentro, reconhecendo a propria inferioridade, pediam novamente treguas, recusou qualquer avença e resolveu continuar o assedio á viva força.
Então João Rodrigues de Sá, _o das Galés_--voz sensata--alvitrou que era de bôa politica acceitar a capitulação. D. João I, brutalmente, retorquiu:
«Quem medo houver não vá na escala.»
Subiu uma onda de sangue ás faces do guerreiro, que tinha ainda frescas as quinze cicatrizes de feridas, que recebera quando foi do ataque das Galés na Ribeira de Lisboa. E resentido respondeu:
--«Eu, Senhor, não sei se dizeis vós isso por mim, mas cuido que nunca me vós a mim por tal conhecestes.»
E o Rei, cahindo em si, pois que n’elle estes assomos de colera eram logo dominados pela força calmante da razão, emendou:
--«Nem eu não o digo por vós. Mas digo-o, porque os hei já por tomados.»
Dividiam-se ainda as opiniões. Uns queriam continuar o assalto, na esperança de farta preza. Outros seguiam o alvitre razoavel do ponderado Sá, com o qual o Rei concordou afinal, enviando o Prior do Hospital a acceitar a preitezia e estipular as condições.
Foram todas acceites. Não só entregariam a villa e castello a El-Rei, mas obrigavam-se a sahir da fortaleza _em gibões sem outra cousa_...
Assim foi. No dia seguinte, o rapazio foi apanhar feixes de varas verdes, e cada um dos que pela porta do castello ia sahindo era, por escarneo, obrigado a empunhar um d’esses ramos.
Alguns mordiam-se de raiva pela humilhação imposta.
Houve até um escudeiro fidalgo que, fincando os joelhos em terra, pediu a El-Rei que lhe entregasse as suas armas e lhe poupasse a deshonra, ao que D. João I galhardamente accedeu.
Outros, comtudo, com riso forçado, e levemente alvar, como gracejando, tomavam o expediente «por sabor» de dizer aos garotos que lhes davam as hastes verdes:--«Ai, rogo-te ora que me dês uma bem direita e bôa».
Não ficou nenhum! Quando na quinta-feira seguinte, depois de cincoenta e trez dias de assalto, o castello e villa de Melgaço foram entregues a João Rodrigues de Sá, para governar; e quando El-Rei e a Rainha retiravam festivamente com a sua comitiva em direitura a Monsão, do alto da muralha, que olha para noroeste, um vulto de mulher (segundo reza a tradição local), empunhando a bandeira gloriosa das quinas, agitava com ufania esse pendão redemptor.
Era _Ignez Negra_ a batalhadora, imagem symbolica das energias femininas, proclamando assim a victoria que consolidava de vez a fronteira no extremo norte de Portugal.
Se Aljubarrota tem a illustral-a pittorescamente Brites de Almeida, a denodada padeira, e a sua lendaria proeza, não é menos digno de registo, no livro de ouro da epopéa joannina das luctas pela independencia, o feito mais authentico e mais significativo de _Ignez Negra_ a heroina de Melgaço.
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Ainda hoje, emquanto isto escrevemos, (Agosto 1917), a villa conserva algumas d’essas viellas de pittoresco aspecto, e é, em parte, cintada com as veneraveis muralhas que tanto a enobrecem.
Consta-me, porém, que o municipio, com a deploravel mania de «modernizar», vicio incorrigivel das nossas edilidades, umas boçaes, outras mal orientadas, está attentando criminosamente contra a magestade da sua terra, dilacerando-lhe os vetustos flancos para «fazer dinheiro» e colher materiaes destinados a um edificio publico! Um tribunal, segundo me informam, que será provavelmente semelhante ao matadouro com que já se orgulha! Uma lastima! Se alguma entidade ha, que possa impedir o sacrilegio, accuda breve a afastar esta vergonha de Portugal.
OS AMORES DO SENHOR DOM JORGE
SUMMARIO
Os dois filhos de D. João II--Idyllio do Principe D. Affonso--O bastardo D. Jorge--A posse dos mestrados--Projectos de seu Pae--Morte de D. João II--Viagem de El-Rei D. Manoel a Castella--_A Perigosa_--Enxame de poetas, e adoradores. Casamento do Senhor Dom Jorge--O drama de D. Guiomar, filha do Conde de Marialva--Viuvez de D. Jorge--Paixão senil--D. Maria Manoel.
Encontrámos já por vezes, no decurso d’estas palestras, ou seja nas _Donas de tempos idos_ ou na _Gente d’Algo_, a figura curiosa, embora apagada, do Senhor D. Jorge, Duque de Coimbra, Mestre de Santiago e de Aviz, nascido do idyllio de D. João II com D. Anna de Mendoça, nos bosques de Sernache do Bomjardim.
Mas, se o leitor sentir o inexplicavel antojo de acompanhar-nos em mais esta jornada, recordaremos juntos algumas occorrencias, e a aventura amorosa d’esse personagem, que esteve para ser Rei de Portugal, pelo desapparecimento do filho legitimo, o Principe D. Affonso, quando este, no areal de Almeirim, depois de arrastado pelo cavallo, se deixou morrer entre a noivazinha que a politica lhe dera, e a Rainha D. Leonor, sua mãe, que com esse filho via sumir-se a maior affeição que lhe tomava a alma.
D. Affonso e D. Jorge--os dois filhos do Principe Perfeito--tiveram destinos oppostos na esphera sentimental.
Ao passo que o herdeiro, condemnado por mofina parca a uma morte prematura, esboça precocemente com uma D. Branca o ephemero romance de amor, que teve a passageira duração de um sorriso e de uma lagrima, o Senhor D. Jorge só foi arpoado pela grande paixão da sua vida quando ia no declinar.
Segundo suppõe, e com bons fundamentos, o Sr. Anselmo Braancamp Freire, no seu livro «Critica e Historia», aquella Dona Branca, por quem se sentiu preso o primogenito de D. João II, era filha de Vasco Fernandes Coutinho, e portanto sobrinha do Conde de Marialva.
Captivou ella o coração do moço Principe, a ponto de ficar esse pequeno episodio amoroso celebrado nos versos do Prior de Santa Cruz, de D. João, camareiro-mór, de Pedr’Ome, de Nuno Pereira, e d’outros poetas aulicos, que em trovas dolentes o consagraram.
O «Cancioneiro Geral», de Garcia de Resende, deixa adivinhar a tristura dos dous namorados nas cantigas que têm como rubrica: «... pelo principe D. Affonso, quando casou D. Branca, com quem elle andava d’amores».
Começam assim:
«Lloran mys ojos y my coraçon Y con mucha razon.»
«Lloran my pena, my mal non fengydo, my dicha no buena, tan lexos d’olvido Morio my sentido de biva passyon con mucha razon.»
Depois Nuno Pereira accode, dizendo sobre o mesmo assumpto:
«Lloran dos vidas con grande agonya, la vuestra y la mya, por seren partidas.»
Sente-se que houve uma mão de ferro a desunir os dous amantes, pois lá o diz Dom Martinho da Silveira nas trovas que fez «quando casou dona Branca Coutinho»:
«e pois vemos não poderdes resistir ás opressões com que casastes, dó na côrte pelo serdes tomaram mil corações, que vós quebrastes.»
Entre esses mil corações enternecidos contava-se o do Principe D. Affonso que, segundo o pintam as chronicas era «muito cheio de branduras e prezava-se muito da sua gentileza.»
A rapariga, como era natural, tambem prezava a gentileza d’esse ephebo real que:
«Por sua gran formusura foi no mundo nomeado angelica creatura.»
e que «se vestia sempre de tabardos com martas ao pescoço forradas de setim e guarnecidas de ouro.»
Ora os requebros do Principe D. Affonso e de D. Branca desagradavam de certo ao aspero D. João II, a quem não convinha nem uma ligação clandestina, da qual podia provir um rebento indesejavel, nem um casamento que lhe desmancharia o taboleiro politico. Agastava-se com a indole branda e macia do filho, «mais inclinado ás cousas d’El-Rei D. Affonso V, seu avô, que ás suas.»
Censurava-o muitas vezes por tentar transgredir a _ordenança_ que prohibia sedas e brocados, chaparias e canotilhos, e increpava-o por não trazer capas abertas nem espada. Vendo-o preferir a companhia de homens delicados á dos rudes homens d’armas, reprehendia-o e amoestava-o com mau modo. Mas... não podia tirar-lhe o seu natural.
A antithese entre os dous caracteres era tão profunda como fôra entre a de seu pae cavalheiroso, idealista, sonhador, e a sua de homem de Estado, intransigente, frio e positivo.
Agora á antinomia dos animos juntava-se a dos corações! O Principe D. Affonso era um amoroso, D. João II um politico.
Aquelle deixára-se enfeitiçar pela rapariguinha namoradeira que era o «Ai Jesus» da roda cortezã. Este sentia o perigo das frioleiras sentimentaes. E, com a implacavel decisão com que sempre resolvia os negocios de Estado, determinára desunir os dous pombos arrulhadores.
Assim, a encantadora sobrinha do Conde de Marialva, a seductora Branca dos _Porquês de Setubal_, a Coutinha dos Serões do Paço, onde as palavras _coutinhas_ eram equivalentes de galanteio, foi levada a casar com Jorge de Mello por alcunha o _Lageo_, capitão, e anadel-mór de besteiros.
O Principe, esse, pouco depois, e ainda todo enleiado nas recordações do seu entretenimento amoroso, estava destinado a cumprir o estipulado por seu pae com os Reis Catholicos, Fernando e Izabel, consorciando-se com a Infanta sua prima filha d’estes.
Tinham os dous passado parte da infancia juntos, em Moura, quando foi das _terçarias_, á guarda da Infanta D. Beatriz.
Conheciam-se. Estimavam-se. Attrahia-os mesmo uma reciproca sympathia. E como ao tempo que a Infanta veiu de Castella, já D. Branca tinha sido afastada da Côrte, havia mezes, com o seu Lageo, a primeira entrevista começava a ser appetecida pelo Principe.
Ao encontro da noiva vieram a Extremoz o Pae e o Filho, incognitos, trazidos pela curiosidade.
O Rei desejando saber se a promettida Nóra que vinha de Castella teria as qualidades que as suas ambições requeriam. O Principe avaliar as mudanças que o tempo, esse grande esculptor, operára na esthetica e na plastica d’aquella creaturinha que, havia dous annos, elle deixára franzina, pallida, esmaiada, nas fraguras da insalubre villa alemtejana.
Apparecia-lhe ella agora n’um scenario de sonho, entre as suas nove Damas, cardeaes, nobreza de Castella, numerosos cavalleiros, ao som de musicas festivas, entre bandeiras das suas cores e armas, que no alto das torres e muros tremulavam, e acompanhada por folias de homens e moças que, nas ruas armadas de tapeçarias, bailavam sobre os ramos de espadanas. E vinha tão linda, que o proprio Duque de Beja (o futuro Rei D. Manoel) que a fôra esperar, sentira subitamente a faísca, que havia de incendiar-lhe no animo a paixão pela noiva de seu Primo.
Este chegára a Extremoz com o seu Pae., ambos «vestidos de caminho». Dirigiram-se logo para a casa junto do Castello onde habitava a Princeza, que n’esse momento jantava com a sua comitiva, e que tão alvoroçada ficou que, interrompendo o banquete, veiu ao topo da escada esperal-os, e alli ajoelhou commovida.
O Rei fez-lhe um discurso. O Principe, porém, ficou calado, suspenso, encantado com a transformação. E é de crêr que n’essa hora se desvanecesse por completo na sua memoria a imagem de D. Branca, que a esse tempo déra já descendencia ao marido, Capitão-mór de Mazagão.
Dos sentimentos do Principe dá conta, e em termos expressivos, o chronista Garcia de Resende no seguinte trecho que tem o sabor especial da sua prosa:
«E á sexta-feira e ao sabbado esteve a Princeza no dito mosteiro (Nossa Senhora do Espinheiro), onde d’El-Rei e do Principe por suas pessoas foi sempre visitada. E segundo fama antes d’ella entrar na cidade, alli nas casas do mosteiro, onde pousava, teve o Principe ajuntamento com ella, o que de muitos foi estranhado por ser em casa de Nossa Senhora, e de tanta devoção. E affirmou-se por mui certo que n’aquella noite cahiu da parede da igreja uma ameia junto da camara d’onde jouveram, a qual ameia até hoje não foi concertada, e está assim por memoria que os frades d’isso fizeram.»
Os bons dos monges resmungaram, ao que se vê, pela supposta irreverencia, mas os dois Principes amorosos já haviam a esse tempo, um pouco prematuramente, mas com legitimo direito, saccado uma somma de caricias, que ambicionavam, por essa innocente lettra de cambio, talvez presentindo que o futuro lhe reservava pouca duração na felicidade.
Effectivamente logo oito mezes depois das pomposas festas d’Evora rebentava a tragedia de Almeirim.
Na cabana do pescador do Alfange, junto ao Tejo, o Principe ia agonizando. O silencio pavido da Rainha e da Princeza recem-casada, contrastava com o alarido dos prantos e com as desvairadas manifestações da assistencia afflicta «dando todos em si muitas bofetadas, depenando muitas e honradas barbas e cabellos e as mulheres desfazendo com suas unhas e mãos a formosura dos seus rostos que lhes corriam em sangue.»
* * * * *
Acompanhando a Rainha e a Princeza, primeiro a pé desatinadamente, e depois em mulas emprestadas, viera tambem, e agora assistia recolhidamente ao passamento do irmão, o Senhor D. Jorge, mocito de pouco mais de nove annos que, havia pouco andava na Côrte.
Perante a certeza da morte do herdeiro do throno, logo alli se levantaram em muitas imaginações, entre lamentos e queixumes extravagantes, as duvidas sobre a futura successão.
A Rainha em 1483 estivera á morte com um movito que a inhabilitara a dar ao Rei outro herdeiro.
Restavam dois: D. Manoel Duque de Beja, irmão da Rainha, que a essa hora fôra já chamado de Thomar; e o Senhor Dom Jorge a quem D. João II, seu pae, queria tanto ou mais que ao moribundo.
É que o bastardo, aquelle pequenote que agora estava alli junto ao catre, mal ageitado n’uma aljubeta, saccudido por soluços, fôra o filho dos seus amores. Sentia correr n’elle o proprio sangue. Achava-lhe (talvez com illusões de pae), qualidades que lhe lisongeiavam o orgulho, emquanto que ao Duque seu primo e cunhado, todo affecto aos Braganças, se não o odiava nem perseguia, repugnava-lhe comtudo pensar que por elle essa familia, inimiga e rebelde, havia de apossar-se do seu espolio politico, usufruir as vantagens da faina rude em que se empenhara para engrandecer o poder real.
O Sr. D. Jorge, que nascera em 1481, ia breve entrar na puberdade.
Fôra educado em Aveiro por sua tia a Princeza D. Joanna, filha de D. Affonso V, até que, por morte d’ella viera para a Côrte, trazido por seu pae, a quem a Rainha D. Leonor nobremente, e com uma dignidade que o orgulho nativo fazia realçar, prometteu ao marido que d’elle cuidaria ella propria como se fosse seu.
Cumpriu-o... até á morte do herdeiro.
Durante os treze mezes que esteve no Paço, D. Jorge foi tratado como um segundo filho.
Depois... Depois seguiu-se o drama violento que as chronicas deixam claramente entrever, e a que D. Antonio Caetano de Sousa chama na Historia Genealogica--_domesticos dissabores_--e que nós a mais de quatrocentos annos de distancia concebemos, recompomos, e scenographamos conforme a nossa imaginativa e os elementos que conhecemos.
Esses elementos, nascidos da humana condição de cada um dos personagens, e gerados na profundeza dos seus animos, são, conforme as indoles e caracteres dos figurantes: em D. Leonor um mixto de ciumes retrospectivos, agora assanhados com a ferida aberta no seu coração de mãe, a repugnancia em ver o lugar do seu proprio filho occupado pelo bastardo, o amor proprio de Rainha, que não podia resignar-se a ver que D. Anna de Mendoça, havia tempo commendadeira era Santos-o-Novo, viesse a ser mãe do Rei; em D. João II era a voz do sangue clamando em favor do proprio filho, era a razão de Estado que se afigurava lucrar mais collocando D. Jorge no throno, era a sua phobia brigantina, era a sua alma tempestuosa exarcebada pela desgraça; em D. Manoel, simples Duque de Beja, era a natural ambição, era a visão das grandezas, a corôa de Rei, o interesse da familia e, já no fundo, bem no fundo do coração, a miragem da posse da Princeza, agora viuva, que desde a primeira vista o seduzira, e que d’ahi a poucos annos veiu a ser a primeira das suas trez mulheres.
Não nos occuparemos agora das peripecias d’esse drama, nem da lucta de sentimentos entre essas trez principaes figuras.
Olhemos para a causa das divergencias--_o Senhor D. Jorge_,--assim chamado por não ter ainda o titulo de Duque, que depois recebeu, e não poder usar o de Principe.
O mesmo tratamento se dava ao irmão do justiçado Duque de Bragança, que foi chamado o Senhor D. Alvaro.
O filho illegitimo foi logo, desde que o Principe morreu, afastado do Paço por El-Rei, no intuito de «tirar paixão á Rainha sua mulher com a vista da Senhor D. Jorge». Entregou-o aos cuidados do Conde de Abrantes, em casa de quem esteve alguns mezes, emquanto tentava desfazer as repugnancias de sua mulher á legitimação do bastardo, e emquanto ia pedindo ao Papa Innocencio VIII Bullas que o investissem no Mestrado da Ordem de Santiago e no governo e administração da Ordem de Aviz.
Chegaram essas Bullas.
Então, no proposito de engrandecer o filho, e talvez com o designio de ir preparando o que hoje chamariamos a opinião publica, acostumando-a á ideia da sua supremacia, determinou dar toda a solemnidade á cerimonia da posse dos mestrados.
Convocou numerosa e selecta assistencia á egreja do convento de S. Domingos e alli, a 12 de Abril de 1492, com a sua presença, o que mais avolumava a pompa e magestade do acto, foi celebrada missa solemne, em seguida á qual, todos os commendadores e cavalleiros das duas Ordens deram obediencia ao novo mestre.
Novo e moço. Tinha apenas onze annos, quando n’aquelle vasto templo dominicano passaram em sua frente, prestando-lhe homenagem, guerreiros de Toro, e nobres cavalleiros, cortezãos e fidalgos, ostentando nos magnificos mantos brancos a verde cruz floreteada de Aviz, e a vermelha de Santiago.
Pequenino pela edade e por ser miudo de estatura, o Mestre D. Jorge, com uma tunica de brocado sob o manto, acceitava como devidos á sua hierarchia os preitos dos cavalleiros das Ordens, ao passo que El Rei D. João II, remirando-se no filho, ruminava no modo de o legitimar para o deixar como successor. Bastardo? Que importava?
Bastardo fôra tambem o mestre de Aviz, D. João I, seu bisavô. E João das Regras com a sabedoria que trouxera de Bolonha, demonstrara a validade dos seus direitos.
Onde se encontraria um João das Regras para D. Jorge? Á falta d’elle nomeou-lhe para aio D. Diogo Fernandes de Almeida, que logo depois foi Prior do Crato, sendo já cavalleiro da Ordem de S. João de Rhodes. Heróe d’Africa, os seus feitos gloriosos tornavam-n’o indicado para formar um homem.
O pequeno, porém, era de natureza brando, _frimatico_ (como então se dizia).
D. Diogo não soube ou não poude fazer fermentar na sua alma quieta a levadura da ambição. Adolescente, deixou-se levar emballado na corrente da vida, fluctuando como uma flôr rara sobre as ondas movediças, que agitavam a Côrte.
Assistiu, primeiramente, impassivel (talvez até ignorando-o) ao drama que se desenrolava e de que elle era o fulcro innocente.
Acceitou depois, com boa feição e de animo complacente, a chuva de graças que sobre elle foi cahindo durante a longa mocidade.
O Pae, disistindo de proposito de fazer d’elle Rei de Portugal, recommenda no testamento a D. Manoel, a quem deixa o Reino, que «se não tiver filhos o nomeie seu successor e sempre se queira haver com elle.»
Por esse testamento assignado na Villa das Alcaçovas a 29 de Setembro de 1495, faz doação ao filho, da cidade de Coimbra em Ducado, e de tudo mais que tivera o Infante D. Pedro.
Recommenda-lhe tambem que supplique para elle ao Papa o mestrado de Christo, pelo que D. Jorge ficava mestre das trez Ordens, o que significava uma situação florescente em honras, em influencia e em riquezas.
Não contente com isto, insta no mesmo testamento, com D. Manoel, para que conceda ao novo Duque de Coimbra a mão da primeira filha que vier a ter.
Era ainda uma ancora feita de esperança, lançada no futuro a favor do filho.