Neves de antanho

Part 2

Chapter 23,762 wordsPublic domain

E porque a loura Rainha recem-casada adorava o marido, apenas o soube doente determinou partir.

Não attendeu a pedidos, exhortações, e supplicas para que desistisse de commetter tamanha imprudencia.

O verão corria abrazador e doentio (diziam-lhe) os caminhos eram asperos, e as mulas facilmente tropeçariam nos corregos pedregosos dos montes até ao Curval. Uma queda desastrosa podia ameaçar, e até destruir a esperança de um herdeiro, que se ia annunciando propiciamente. A nada cedeu.

Conselhos do pae que com a sua voz arrastada, mas persuasiva insistia, sensatamente, rogos das damas, representações dos physicos e dos homens sisudos, tudo foi inutil para a demover.

Organisou-se prestes a caravana.

Donas, aias e camareiras, besteiros portuguezes e alguns archeiros inglezes, prepararam-se sem demora para a abalada.

Com infinitas cautelas accommodaram as andas que haviam de transportar a Rainha, e não tardou que a cavalgada se puzesse em marcha, caminhando todos em silencio, e ruminando cada qual pensamentos inquietadores.

A Rainha, por um phenomeno frequente nas almas alvoroçadas com a approximação da desgraça, recordava os tempos da sua ephemera felicidade. Rememorava as bodas ainda recentes, com os festejos, justas, danças e trebelhos. Revia o cortejo sahindo do Paço Episcopal do Porto, através das ruas atapetadas de «verduras e cheiros». Olhava, com os olhos d’alma, a figura do seu noivo, que se lhe affigurava um archanjo, montado n’um cavallo branco em pannos de ouro, junto ao d’ella, que era levado de redea pelo Arcebispo. Escutava o echo das trombetas, das pipias e das musicas, que se casavam com as acclamações da multidão em delirio.

Relembrava a sala do banquete com as mesas _mui guarnidas_ em volta das quaes se sentavam os bispos, os fidalgos, os burguezes do logar, donas e donzellas do Paço e da cidade. E repassava, commovida na memoria a scena dos prelados á luz das tochas, benzendo o leito nupcial.

Depois, era a primeira separação tão custosa ao seu affecto, mas em que o via partir são, forte, todo entregue á ancia de batalhar...

E agora?...

Agora era uma onda de amargura levantada no coração pelas más novas; era o receio do que iria encontrar; era a ameaça do destino que lhe afogava a garganta; era o prognostico de um sortilegio sinistro que lhe opprimia as entranhas, em que se estava gerando o futuro Rei de Portugal.

O Duque de Lancastre, aparentando mocidade, apezar dos seus sessenta e tantos annos, ia tambem apprehensivo, embora desfarçasse a perturbação que lhe trazia ao animo tantas interrogações inquietadoras.

Até que ponto a morte provavel do genro alteraria a situação, e perjudicaria o exito das suas ambições?

Aos espiritos de todos os outros que acompanhavam a Rainha affluiam semelhantemente incertezas afflictivas.

Em alguns, (almas generosas, incondicionalmente devotadas ao Rei,) dominava a angustia e o receio de o perderem, sem a mistura de outro sentimento.

Outros pesavam dentro em si, n’aquella balança de egoismo, inseparavel da natureza humana, os prós e os contras que um desenlace funesto traria ás conveniencias proprias. E o interesse, a principal força determinante das acções dos homens, segredava-lhes perfidamente soluções diversas para o seu proceder ulterior.

Se a creança nascesse viavel, quem seria o Regente na menoridade?

Se, porém, a Rainha não désse á luz um herdeiro a quem iria de vez o governo do Reino?

Do lado de Castella redobrariam as pretenções!...

O rancho conturbado caminhava silenciosamente, sob a oppressão de agourentos presagios.

Chegaram ao Paço do Curval. Alli, o estado do Rei não era de molde a tranquillizar, ou desfazer cuidados.

Quando a Rainha e o Duque seu pae viram o enfermo, vencido pela febre «tão fraco e sem esforço que adur lhe podem fallar, ficaram nojosos e tristes».

Os cirurgiões interrogados temiam que a prostração em que a _quentura_ deixára o Rei o levasse em pouco. Ouvindo isto, a desditosa Rainha, atormentada, e exhausta com a violencia da jornada e das commoções, sentiu que alguma coisa se despedaçava dentro em si... e moveu uma creança.

Com este parto prematuro e desastrado, iam-se todas as alegres esperanças, desmoronava-se o edificio da sua felicidade sonhada, e... (cousa rara na vida) da sua felicidade realizada.

Via-se sósinha, casada de pouco em terra extranha, fallecer-lhe logo assim tudo o que a fortuna lhe trouxera «e bem se tinha por mal aventurada entre as mulheres do mundo». Chorava, pedindo á morte que a levasse primeiro.

Na Camara proxima, onde os lamentos da Rainha, por serem energicamente suffocados, não chegavam, o Rei, conscio do seu estado, tomava providencias.

Mandava chamar o Condestavel, agora ausente no Alemtejo. Fazia testamento. E dispunha-se a morrer perdoando a alguns fidalgos que mandára, tempos antes, encarcerar.

Era solemne o momento. A Rainha, receiosa de que a morte lhe roubasse o marido, como lhe roubára o filho, levantou-se e, embora gravemente combalida, arrastou-se até ao quarto onde o Rei agonizava.

Não sabia reter as lagrimas. A voz embargava-se-lhe na garganta. Olhava-o, sem articular uma palavra, tomada d’aquella ancia com que nas occasiões decisivas tentamos arpoar um vislumbre de esperança.

Comtudo os olhos do Rei, semi-cerrados, e a sua respiração offegante não permittiam illusão!...

Então aquella mulher, a quem o destino parecia ter talhado uma tão radiante missão, sentiu-se miseravelmente infeliz, e cahiu junto á cama do moribundo n’uma convulsão de choro, implorando a protecção de Deus e da Virgem Maria.

Assim se conservou largo tempo...

Pelas janellas entreabertas ouvia-se de quando em vez o carpir do povo, sempre exhuberante nas manifestações do seu sentir. Os lamentos da multidão, impressionada com os presumiveis sinistros casavam-se com as preces roufenhas dos sacerdotes, e com os soluços da Rainha.

Sentia-se o destino da Nação suspenso por um fio...

A autonomia de Portugal dependia de um alento d’aquelle homem, estendido n’um catre estreito, junto do qual o vulto de D. Filippa continuava rezando...

Passaram horas...

Como se a mysteriosa acção das préces, e o esforço superhumano d’aquelle coração de mulher posto n’um só affecto, operassem mais efficazmente que as drogas ministradas pelos physicos, o arquejar do robusto arcabouço foi-se tranquillisando, os olhos começaram a descerrar-se, e o enfermo entrou a renascer para a vida...

Estava salvo D. João I!

* * * * *

Foi do Curval convalescer a Coimbra, onde a Rainha tambem se libertou do pezadelo que lhe opprimira o animo. Recomeçou para os dois o idyllio interrompido.

De breve dura, porém, havia de ser o repouso, que nem D. João I era homem que se deixasse ficar em lazer descuidado, quando tantos negocios lhe sollicitavam a attenção.

Cumpria despachar o sogro que começava a ser um estorvo sério, e cuja empreza ia perdendo probabilidades de exito. Cumpria reunir Côrtes para a resolução de alguns negocios de Estado. Cumpria caminhar sobre Melgaço, unica praça que no Minho ainda conservava voz por Castella.

Foi resolvido partir logo, de Coimbra para o Porto, onde El-Rei e a Rainha, que o acompanhava, despediram o Duque de Lancastre e a sua reduzida hoste, que, em seis galés, n’uma clara manhã de fins de Setembro largou de foz em fóra, para Bayonna, então ingleza.

Desembaraçado assim do hospede, e aviados outros assumptos, que se antolhavam urgentes, dirigiu-se D. João I para Braga a reunir as Côrtes.

Foi durante ellas que D. Nuno Alvares Pereira, o Condestavel, teve noticia da morte de sua mulher. Correu ao Porto onde ella fallecera, fez-lhe exequias solemnes, mandou a filhinha para Lisboa á guarda da Avó--Iria Gonçalves--e, arrumadas assim as cousas domesticas, voltou para Braga onde o reclamava o interesse do Estado, verdadeiro fulcro do seu espirito.

Negocio de Estado era tambem por certo e de alta importancia para D. João I, essa viuvez de Nun’Alvares.

Grande conchavador de casamentos, até mesmo sem audiencia prévia dos interessados, El-Rei resolveu logo, de accôrdo com a Rainha, casar o seu Condestavel com D. Beatriz de Castro, filha do Conde D. Alvaro Pires, «uma donzella assaz formosa e bem filha d’algo». Proxima parenta da linda Ignez, _collo de garça_ possuia porventura o mesmo poder de encanto que seduzira o Rei D. Pedro. Este viuvo, porém, era pouco susceptivel de se deixar captivar com graças femininas.

Avesso por indole ao tracto conjugal, não lhe soffria tambem o animo independente aquella imposição de um consorcio, assim improvisado.

Resistiu bisonhamente,--ao Rei com uma simples negativa; á Rainha, pela qual professava um respeitoso affecto, respondeu esquivamente:--«Para offerecer a D. Brites os braços, era preciso que estivessem desarmados e não convém ainda lançar a espada.»

Excusa de guerreiro! Sentir de monge!

Desobrigado assim, e livre da teia em que podia ser enleiado, levantou vôo para entre Tejo e Guadiana, onde a fronteira estava ameaçada.

D. João I conhecia o seu irmão d’armas. Era inutil insistir, podendo até qualquer teima provocar alguma d’aquellas desavenças, que entre os dois ás vezes surgiam.

D. Beatriz, se acaso edificára n’aquelle terreno o castello da sua felicidade, viu-o desfeito em nevoa, antes mesmo de o habitar. E continuou, (até que ao deante levou outro destino) a ser ornamento na Côrte de D. Filippa, acompanhando-a como as outras na jornada que logo El-Rei emprehendeu sobre Melgaço, e onde por certo foi das que mais applaudiram a aventura da aguerrida _Ignez Negra_, que logo vamos presencear.

Compunha-se a casa da soberana de nobres senhoras que El-Rei puzera ao seu serviço. A ella pertenciam: como aia e camareira-mór D. Beatriz Gonçalves de Moura viuva de Vasco Fernandez Coutinho, senhor de Liumil, e como damas a filha d’esta, Tareja Vasques Coutinho, viuva do filho do Conde D. Gonçalo, e, portanto, cunhada de Leonor Telles; a irmã d’aquella, Leonor Vasques, que depois casou com D. Fernando, que chamaram de Bragança, filho do Infante D. João; D. Biringueira Nunes Pereira, prima do Condestavel e filha de Ruy Pereira, que morrera na peleja das náos ante Lisboa; e ainda outras que formavam um luzido batalhão volante, n’esse cortejo que ia assistir ao mais typico episodio d’aquella épocha.

D. João I preparava-o adrede para mostrar á Rainha como se assediava uma praça, e para exhibir perante a sua côrte, a valentia dos homens d’armas, que vinham consolidando a independencia do Reino.

Era uma genuina galanteria de guerreiro medieval, esse desejo de fazer assistir a fina flôr da Côrte feminina ao rude embate dos seus besteiros contra a fortaleza rebelde. E era ao mesmo tempo um poderoso incitamento para a hoste, esse torneio revelador da arte, da dextreza, e do valor com que se pelejava.

Era tambem uma vistosa parada de forças combatentes perante os olhares mulheris, o mais aguilhoante estimulo da cavallaria gloriosa.

Era, finalmente, uma _ala de namorados_ de nova especie, batalhando em frente de suas damas.

Era, em resumo, uma phantasia de heroe!

Marchou a numerosa comitiva de Braga para Monsão, onde D. Filippa foi acampar, indo logo a seguir ao mosteiro de Santa Maria de Fiães, perto de Melgaço. Acompanhavam-n’a João das Regras--o Doutor, João Affonso de Santarem, e ainda outros lettrados e jurisperitos, mais exercitados no manejo das Pandectas e das Institutas, que no brandir das espadas e dos arremeções.

* * * * *

Corria o mez de Janeiro de 1388. As chuvas tinham ensopado os campos. A payzagem minhota, tão festiva de cambiantes durante o verão, com os seus soutos de castanheiros florentes; com as suas videiras de enforcado enroscando-se nos troncos e ensombrando os pateos das habitações; com os fétos de franjas recortadas, adornando as sebes; com as heras e musgos revestindo os penedos graniticos; com o velludo esmeraldino das nogueiras, e as folhas bicolores das filias opulentas; com a pradaria clara rindo alegremente na voluptuosidade das regas abundantes; toda essa symphonia de verde, executada a grande orchestra, sob a regencia de um sol brilhante, que vivifica o torrão; que se reflete nas lantejoulas de feldspatho e de mica, que atapetam os caminhos como pó de diamantes, e que dá a essa região o geito de um sorriso da natureza; essa payzagem apresentava n’aquella quadra do anno a physionomia rabujenta de uma creança amuada.

O inverno ia rigoroso. As chuvas tinham engrossado as levadas e avolumado os regatos, difficultando a marcha da hoste guerreira, e os movimentos da comitiva real. Por isso o sequito proseguia lentamente, mas sem desfallecimento.

O tropear dos cavallos e dos machos sobre o lagedo da estreita estrada romana, que segue de Monsão a Remoães, e d’ali á aldeiazinha do Prado, galgando os rios com a ponte do Mouro e a ponte da Folia (duas reliquias de eras já idas), que as urzes e as heras enfeitavam com garridice; o vozear dos homens de armas; as exclamações e gritos femininos; e as pragas rouquenhas dos moços bagageiros e conductores de equipagens, alvoraçavam a gente do campo.

Aqui e além deparavam-se n’uma volta do caminho povoações ou casas isoladas.

E do fundo escuro dos estreitos postigos, perfurados nos rusticos tugurios de pedra cinzenta, debruçavam-se bustos de mulheres com olhar curioso. De sobre os muros, cabeças hirsutas de camponezes olhavam embasbacados os comboieiros de munições, e pasmavam para as hacaneas em que cavalgavam as donas, as aias, as creadas e as crystaleiras. Dos cancellos surdiam garotos a misturarem-se na comitiva, mendigando sobejos dos farneis; emquanto bandos de gallinhas e de patos fugiam espavoridos da perseguição da soldadesca, que dissimuladamente tentava deitar-lhes a mão, na expectativa de uma ceia restauradora.

E a extensa comitiva colleando pelos caminhos do valle deixava á esquerda os montes levemente ondulados de Galliza a padrasto do rio Minho, e começando a subir a encosta, que vae ao Prado, avistava já a senhoril Melgaço com a sua torre tão nobre a destacar-se sobre o verde escuro dos pinheiros de Bouças.

A Rainha com a sua côrte, contornando Melgaço, foi aposentar-se no opulento mosteiro de Fiães, onde os oitenta monges benedictinos, com o Dom Abbade á frente, a vieram receber fidalgamente na avenida que conduzia á portaria do convento.

El-Rei D. João I, ficou com as suas mil e quinhentas lanças, afóra a gente de pé, no campo a nordeste de Melgaço, onde logo ordenou que se assentasse o arraial.

Armaram-se as tendas em que pousaram, além do soberano, o Prior do Hospital, D. Alvaro Gonçalves Camello; D. Pedro de Castro, que havia pouco abraçára a causa de Portugal; João Fernandes Pacheco, (filho de Diogo Lopes, assassino de Dona Ignez), de quem Mem Rodrigues dizia ter as qualidades de Lancelote do Lago, e muitos outros capitães e senhores.

Tudo se preparou para a arremetida.

Melgaço, dentro das fortes muralhas em que D. Diniz envolvera a quadrada torre affonsina guarnecida de dentes que mordem o céo, era defendida por Alvaro Paes de Souto Maior, e Diogo Preto Eximeno, que tinham trezentos homens de armas e muitos peões.

Além da gente de guerra era a pequena villa povoada por moradores pacificos, cujas familias habitavam as casinholas de granito, com pequenas escadas exteriores, de poucos degraus, e um varandim, que formavam junto à parte interna das muralhas estreitos arruamentos.[1]

Entre as familias que n’esse fim do seculo XIV se acoitavam n’aquelles habitaculos, havia a de uma portugueza a quem, por se ter bandeado com os castelhanos, tinham dado a alcunha da _Arrenegada_.

Era esforçada. Era o que o povo chama uma _refilona_ e, como todos os _renegados_, odiava figadalmente os seus antigos compatriotas.

Fervia-lhe o sangue em cachão com o presencear, do alto das muralhas, os preparativos do campo portuguez. Ardia em furia e ancia de arremetter ella propria. E não foi extranha aos primeiros lançamentos de trons contra os nossos.

Assistiu tambem inquieta e fervilhante ás primeiras escaramuças, rejubilando logo que viu que, com uma setta, fôra ferido Pero Lourenço de Tavora, um portuguez do arraial. Era uma verdadeira virago, mais aguerrida que muitos dos seus camaradas castelhanos.

Durante nove dias houve tiroteio sendo lançadas contra o arraial sessenta pedras de trons, ao que do lado portuguez foi correspondido, não havendo grande damno de parte a parte.

Resolveu-se então El-Rei a mandar armar em cima da ponte da villa, um engenho, com que os sitiantes arremessavam muitos projecteis que destruiram algumas casas e caramanchões de Melgaço.

Ao mesmo tempo mandou que nas immediações se cortasse madeira, e se acarretassem materiaes para se construirem duas escadas e uma _bastida_, formidavel machina de guerra sobre rodas, de temeroso effeito contra as praças fortes.

Descreve Fernão Lopes minuciosamente essa _bastida_, muito larga de roda a roda, e de _padral_ a _padral_; com os seus tres sobrados madeirados de pontões, para serem guarnecidos de homens de armas; com estrados de mui grossos caniços para se andar por cima; com escadas de alçapão e nos pontões superiores, tres mil pedras de mão, que mandaram apanhar pelas regateiras. Havia tambem _trebolhas_ cheias de vinagre para evitar o fogo, e seis grandes caniços forrados de carqueja, assim como vinte e quatro couros verdes de boi para guardar o fogo que viesse.

Era um rudimento do moderno _Tank_; era o precursor d’essa machina de guerra, que nos campos da Belgica está actualmente exercendo a sua terrivel acção devastadora.

Ésta de D. João I, que levou quinze dias a construir, era mais modesta e de mais acanhados recursos. Mas o seu effeito, ainda antes de manobrar, foi efficaz, pois os de dentro, que assistiam aterrados á fabricação do apparatoso engenho, apressaram-se a pedir treguas, propondo que João Fernandes Pacheco conferenciasse com Alvaro Paes. Por mandado de El-Rei chegou-se o Pacheco á barbacã, e de dentro, encostado ao muro, fallou-lhe o commissario castellão. Longo espaço de tempo durou esta conversação entre os dous guerreiros arvorados em plenipotenciarios. E emquanto elles fallavam, assediados e assediadores suspenderam as investidas, acudindo ao animo de uns, (os mais pacificos) esperanças de uma concordancia; refervendo no de outros (os mais belicosos) desejos impacientes de recomeçar a pugna. D’estes o mais irreprimivel era o da _Arrenegada_ que ardia em sanha. Sabendo que os dous chefes não se tinham accordado resolveu então provocar um combate singular, pois sabia que entre a gente do arraial se achava um contendor digno d’ella.

Era uma mulher d’aquella região, a quem chamavam _Ignez Negra_.

Negra por appellido de familia? Talvez!

David _Negro_ se chamava o rabbi de Castella que urdiu o enredo contra D. Leonor Telles. E Affonso Pires--o _Negro_--era o escudeiro de Nun’Alvares na vespera de Valverde.

Familias com o nome de _Negrão_ e _Negreiros_ tem havido em Portugal, pertencendo á primeira, no seculo XVIII, o poeta da Arcadia--_Almeno Sincero_.

Ou, seria antes a nossa Ignez, negra, porque a sua pelle exageradamente trigueira, como a da _Sulamite_ do _Cantico dos canticos_, (_nigra sum sed formosa_) contrastasse com a das suas conterraneas, quasi todas alvas, de olhos claros e cabellos aloirados, revelando a origem celta das nobres raças?

A iconographia portugueza é assás pobre. E, se nos faltam retratos de tanta figura predominante, não é maravilha que a galeria das mulheres illustres careça de qualquer documentação ácerca das feições da modesta, mas valente portugueza dos arredores de Melgaço.

Figuramol-a, porém, por artificio de imaginação, com encrespado cabello da côr do seu appellido; olhos igneos como o seu nome de Ignez; a pelle acastanhada, adusta e curtida pelo mordente sol dos campos, na ceifa. Magra, musculosa e com farto buço a atapetar-lhe o labio superior. Peito chato como o das amazonas. Typo levemente aciganado e plebeu, mas não destituido de encanto. E no seu todo o interesse que provoca sempre uma personalidade fortemente accentuada.

Visitando a casa onde segundo a tradição ella habitou depois da sua proeza,--a Venda da Angelina--(hoje um predio modernizado), ou percorrendo as ruazinhas estreitas que descem até á porta de D. Affonso, encontrámos algumas moradoras ao soalheiro, que, por comparação retrospectiva, nos ajudaram a recompôr uma effigie da Ignez Negra, porventura sua remota parenta. Devia ser assim como a evocámos!

Quando lhe chegou aos ouvidos o desafio da _Arrenegada_ acceitou prazenteiramente o repto.

* * * * *

Entretanto El-Rei enviára á Rainha recado para que viesse. Os engenhos estavam concluidos, e quasi aplanado o caminho pelo qual se devia fazer rodar a bastida e encostal-a ás muralhas.

É possivel que o mensageiro annunciasse tambem no Mosteiro de Fiães, onde D. Filippa se achava, o desafio entre as duas mulheres de Melgaço.

E isso seria certamente escutado com curiosa attenção pelo mundo feminino que rodeava a Rainha. Ávidas deviam estar por certo as suas damas e cuvilheiras, de distracções e recreios, tão escassos n’aquella solidão.

E logo entre o mulherio quantos commentarios sobre o projectado duello! Nas velhas, altos escarcéos, e motivo para ralharem de tão descomposta escaramuça. Nas novas, grande jubilação com a espectativa de commoções.

Por isso quando n’aquella manhã do principio de Março a Rainha, com a sua Côrte, se apromptou para descer de Fiães a Melgaço, eram agitadas as discussões acerca do projectado combate.

A primavera annunciava-se promettedora. O ar gelado da manhã befejava a pelle do rosto das senhoras, que, ao montarem se embuçavam friorentas nos seus manteus e biocos.

Na descida, quasi a pique, da ingreme ladeira, que durante uma hora percorreram, caminhando pelos carreiros do monte escalvado, algumas das bôas donas iam só attentas ao perigo, que offerecia o marchar hesitante dos cavallos sobre os pedregulhos das veredas agrestes.

E quando as facas em que iam montadas punham o pé com menos segurança, o que trazia a imminencia de um tropeção, ouviam-se exclamações afflictas das mais timoratas, provocando risadas escarninhas entre as resolutas. Outras olhavam maravilhadas a paysagem deslumbrante, o panorama das extensas ondulações que formam o berço delicioso em que se espreguiça voluptuosamente o rio Minho.

Além á esquerda os montes de Pernidêllo, em cuja verdura se aninhava o conventinho de Paderne. Mais ao largo Monsão, a patria de _Deu-la-Deu_. E, como a manhã era clara, lá muito ao longe, quasi se distinguia a nobre Valença. Para a direita inferiormente, e já em terra extranha, as pequenas povoações gallegas tão maneirinhas... que appetecia dal-as como brinquedo a uma creança!

A maior parte, porém, da comitiva só tinha olhos para a villa de Melgaço, alli em baixo com a sua airosa torre quadrada, que uma corôa de ameias enfeitava, e para a povoação em redor d’ella, mettida nas faixas das muralhas defensoras, promettendo um espectaculo attrahente, quando se rendesse á força, como femea dominada pelo seu legitimo senhor.

Por de fóra d’essa muralha estendia-se em arruamentos de tendas de campanha o arraial portuguez, sobresahindo a barraca elegante tomada em Aljubarrota aos Castelhanos, que já servira em Ponte de Mouro para firmar a alliança ingleza. E, informe, como um animal antediluviano, destacava-se a medonha bastida, prompta a atacar.

A comitiva da Rainha continuava a sua marcha descente. O caminho agora começava a estreitar-se entre muros e sebes avivadas de silvados e plantas agrestes, e tão apertado que mal cabiam a dous de fundo todos os do acampamento, sendo difficil a passagem quando de frente encontravam um boisinho barrosão de hastes enormes, ou as récuas de mulas que levavam provisões ao convento. Esse corredor serpenteante (quasi escadaria) de mais de meia legua, desembocava abruptamente em pleno acampamento. N’este, o Rei que logo veiu receber a Rainha, começou explicando o modo de arremetter, e como se realizaria a escaramuça entre as duas mulheres.