Part 1
NEVES DE ANTANHO
CONDE DE SABUGOSA
NEVES DE ANTANHO
Ignez negra--Amores do senhor D. Jorge--D. Brites de Lára--Um romance na Côrte de D. João III--Desculpa de uns amores--A filha de Pedro Nunes--Soror Violante do Céo--D. Francisco Manoel de Mello--Antonia Rodrigues--Amor aos livros--Ramalho Ortigão--Um beija-mão de Anno Bom no Paço da Ajuda
[Illustração]
PORTVGALIA EDITORA
LISBOA: R. DO CARMO, 75 RIO DE JANEIRO: R. BUENOS AYRES, 145
OBRAS DO MESMO AUCTOR
_O Minuete_--Comedia em 1 acto. Não entrou no mercado.
_Poemetos_--Versos, 1 vol. 1882.
_De Braço dado_--Collaboração com o Conde de Arnoso. 1 vol. 1894. Exgotada.
_O Paço de Cintra_--Com illustrações de Sua Magestade a Rainha. 1 vol. 1903.
_Na guella do Leão_--Conto. 1 vol. Exgotada.
_Auto da Festa_--de Gil Vicente. Com uma explicação prévia. 1 vol. 1906.
_Embrechados_--1.ª edição. 1 vol. 1908. Exgotada.
_Embrechados_--2.ª edição. 1 vol. 1908.
_Historiadores Portuguezes_--Conferencia realisada na Liga Naval em 1909. 1 vol. Exgotada.
_Donas de Tempos Idos_--1.ª edição. 1 vol. 1912. Exgotada.
_Gente d’Algo_--1.ª edição. 1 vol. 1915. Exgotada.
_Auto de Natural Invenção_--de Ribeiro Chiado. Com uma explicação prévia. 1 vol. 1917.
_Donas de Tempos Idos_--2.ª edição. Com um prologo e cartas ineditas. 1 vol. 1918.
_Neves de Antanho_--1 vol. 1919.
NO PRELO
_Gente d’Algo_--2.ª edição. Com um prologo inédito.
EM PREPARAÇÃO:
_A RAINHA D. LEONOR_
EXPLICAÇÃO PRÉVIA
Entrando a entoar, com uma pontinha de melancholia, a celebre balada--_Dames du temps jadis_, o poeta François Villon, em sua linguagem docemente archaica e ao de leve desbotada, interroga, n’um estribilho famoso:--_Où sont les neiges d’antan?_
La Royne Blanche comme un lys, Qui chantait à voix de sireine, Berthe au grand pied, Biettris, Allix, Harembouges qui tint le Mayne, Et Jehanne la bonne Lorraine Que Angloys brulèrent à Rouen, Où sont-ils, Vierge, souveraine?... Mais où sont les neiges d’antan?
Já seculos antes d’este poeta aulico do quinhentismo francez, o Rei Trovador D. Diniz, n’uma das suas cantigas de escarnho, empregára em bom portuguez d’esse tempo o vocabulo _antano_.
E o nosso Jorge Ferreira de Vasconcellos, com menos graça, mas com vernacula auctoridade, legitima, na sua _Aulegraphia_ dizendo:--_hûa hora de um bom acerto como o de Antanho_--a expressiva locução, que tão de geito me serve para designar, no livro que ides ler, as figuras ou as cousas, que se vão diluindo no passado, como _neves_ derretidas pelo tempo.
A belleza fugidia das mulheres que seduziram, que dominaram, ou que a paixão venceu; os ciumes que consumiram corações, hoje mortos, de heroes feitos captivos; as illusões de sabios attrahidos pela eterna esphinge; os tragicos destinos de Reis, de Principes, e grandes do mundo dominados pela fatalidade, ou arrastados pelas vozes de sereias perfidas, tudo aquillo que, em tempos que já lá vão, teve na historia, na chronica, ou na lenda um momento de fulgorosa existencia, e que se vae apagando nos nevoeiros de _Antanho_, merece uma menção no rol das reminiscencias, onde o cuidado piedoso do artista tenta crystallisar as cousas vagas e tenues, que se vaporisavam na atmosphera...
Por isso fixar, por um instante que seja, nas paginas de um livro, ephemero como este, as feições dos rostos que sorriram, ou das almas que palpitaram, e que a acção dos annos vae corroendo, tem para mim uma especie de voluptuosidade, como a que acaricía o animo das creanças quando modelam estatuas feitas de neve que se derrete, ou edificam castellos construidos com areias que o vento espalha!
_Neves_ e _areias_!--Embora movediças, inconsistentes, volateis e transitorias como as velhas luas que os mezes devoram, como as nuvens que se espreguiçam, como o fumo que se espalha no ar, e como as sombras que fogem pelo chão, são comtudo elementos para recompor os capitulos das _memorias de Antanho_.
* * * * *
Mas por que _Antanho_?
Se a alguem causar estranhesa este termo, ou o alcunhar de rebuscado, julgando que por affectação dou preferencia a vocabulos desusados, despresando a linguagem correntia e chan, breve corrigirá a accusação fazendo-me justiça.
Nunca manegei um diccionario em cata de palavras antiquadas para surprehender artificiosamente a estupefacção do leitor, nem recorri de fito feito á licção dos classicos, no proposito de apparelhar uma phrase com alfaias de molde a inculcar-me senhor dos arcanos da lingua.
Adoro a simplicidade no dizer e a naturalidade no discurso. Os melhores auctores são sempre, para mim em qualquer lingua, os que escrevem com mais clareza. Foi com esses que se formou a grammatica e se creou o gosto. Castilho,--Garrett, Herculano--mestres de todos nós, depois de rumiarem a herança dos avoengos litterarios atravez da confusa syntaxe medieva, ou da labyrinthica construcção quinhentista, ou dos pretenciosos gongorismos dos humanistas, ou dos prolixos arrazoados do seculo XVIII, deram com a sua prosa castiça, ao nosso lindo idioma, a crystalina transparencia, que tão bem se harmonisa com a sua aristocratica origem.
Se, porém, no decorrer da oração, pinga, do bico da minha penna um vocabulo de que se perdeu o uso, ou uma locução que, embora tocada da ferrugem do tempo, expressa significativamente a ideia, não me tolhe o receio de que me alcunhem de affectado, ou me accuzem de calamistrar propositamente os periodos. Deixo-o ficar.
Assim eu pudesse, com engenho e arte, trazer á minha prosa os termos, os vocabulos, as locuções, hoje perdidas, que tanta nobreza e lustre davam á linguagem portugueza.
Assim eu soubesse usar com discreto artificio das riquezas, que nos legaram os bons doutores da palavra escripta!
Quem lograsse hoje pôr ao serviço de ideias modernas a ferramenta com que trabalharam os Barros, os Coutos, Manuel Bernardes ou Francisco Manuel de Mello, quem conseguisse dar aos pomposos processos do classicismo novas articulações, e a flexibilidade que torna a phrase ductil e lhe dá graça, teria creado a forma mais elegante do verbo humano.
Já um sabio conspicuo preconisava, como a melhor receita para nos desfazermos do ranço dos extrangeirismos, que tanto tem contribuido para a nossa desnacionalisação, o uso diario de--_caldos de Vieira_.
Estomagos ha, bem sei, que não acceitam de bom grado tão substancioso alimento e se obstinam nutrindo-se com traducções atabalhoadas de romances francezes. Se porém cada traductor ou cada operario de lettras, todas as manhãs, antes de entrar na officina, se decidisse a confortar o esophago com uns goles de humanidades, em breve a multidão dos leitores se encontraria mais rica nas _boas artes_ e com um glosario mais abundante.
Vem isto a pello para explicar a preferencia dada ao vocabulo _Antanho_ no titulo com que embucei este livro.
É antiquado? Cahiu n’um meio esquecimento? Não está admittido no emprego diario, nem adoptado na giria das salas?
Mas que me diga quem quer que me leia se, para significar tudo aquillo que é anterior ao momento actual, ao anno em que vivemos (_ante annum_) não o julga mais proprio, mais perfilhavel e de mais agradavel euphonia que o corriqueiro _Passado_.
No termo _Passado_, é certo cabe tudo o que existiu no tempo, e os homens registaram nos seus papyros, canhenhos e tabuas enceradas, ou seja Tacito nas paginas dos _Annaes_, ou Suetonio nos _Doze Cesares_, ou Strabão na _Geographia_, ou os chronistas, narradores, memoristas e bisbilhoteiros de Côrte, desde o indiscreto Saint Simon ao mexiriqueiro Pepy nos _Gossips_ da gente ingleza; e entre os nossos o Bispo do Grão Pará nas suas _Memorias_, ou a dôce Condessa de Atouguia nas confidencias auto-biographicas.
Mas em _Antanho_ conchava-se melhor aquillo cujo desapparecimento nos deixa a penosa sensação de que não volta mais, de tudo o que se esvae na poeira da vida, de tudo o que a lenda envolve na nebulosa recordação, de tudo quanto o bafejo das edades embaciou, de tudo quanto a morte fez tombar.
Do _Passado_ tracta a Historia, illuminada pela Philosophia.
_Antanho_ é a evocação animada do que existiu, amorosamente acariciada pela phantasia.
O _Passado_ é a realidade positiva testemunhada por documentos.
_Antanho_ é a reconstrucção conjectural das eras anteriores.
O _Passado_ é a biographia da humanidade.
_Antanho_ é o poema da Vida e da Morte.
Plutarcho escreve acerca dos varões illustres do _Passado_.
Camões canta as glorias do Portugal de _Antanho_.
Na toada d’este vocabulo escuta-se como que um echo da voz longinqua das gerações extinctas. E sente-se n’elle não sei que perfume de saudade, tão portuguez, que é lastima pensar que portuguezes o vão esquecendo.
* * * * *
Ha na lingua ingleza duas palavras semelhaveis entre si que designam com propriedade feliz o duplo sentido que pode ter o termo--Historia.
_History_ quando na apreciação dos factos o historiador os liga e explica com leis, que a sciencia ensina. _Story_ quando o chronista ou o narrador conta casos ou evoca figuras, deixando o leitor avaliar a importancia do que á vista da sua alma apparece.
A primeira é como que orgão pomposo de cathedral tangido pelos pontifices da Sciencia.
A segunda é o maneirinho harmonium chromatico, que papagueia sem emphase tudo quanto o compositor organista fareja nos codices, ou desentranha da tradição, ou desencanta nas lendas avitas, repetidas á lareira.
Não imaginem, porém, que vão encontrar n’este livro _Historias da Carochinha_ ou _Contos de Fadas_, taes como nol-as narravam as velhas creadas de nossas Avós:
«Era uma vez uma Princeza, que se agradou de um pastor...» Não!
As velhas cuvilheiras morreram ha muito, e não deixaram successores.
As Fadas fugiram espavoridas com a balburdia que por ahi vae.
Os pastores só cuidam em reclamar com arreganho augmento de salario e diminuição de horas no trabalho.
E as Princezas e Infantinhas (onde ainda as ha!) tremem receiosas, escutando o rouquejar dos sociologos e politicos que teimam em nivellar a humanidade... por baixo.
Este livro rasteirito e terra-a-terra não é pois tecido com fios de imaginação, nem na sua trama se bordam anecdotas improvisadas, ou conjecturas faltas de bôa fiança!
Homens e factos, paysagens e scenas, fallas e gestos, toda a acção que se desenrolla em tragedia, em drama, ou em simples farça, foram colhidos nas obras, que rezam com veracidade acerca das coisas dos bons tempos d’outróra.
Desde a era dos Affonsinhos quando o bravo Ibn Enrik, temido pelos mouros, mas muito donoso e bem camuz de entender damas, se comprazia em donear com galanteios, e desde as auróras de Aviz, quando o Mestre andava na empreza afanosa de consolidar a independencia, até ao surgir e desapparecer das figuras de hontem, ainda fixadas nas nossas retinas, Portugal é tão fertil em assumptos pittorescos que não ha mister recorrer a ficções, ou engendrar romances fabulados para embalarmos a imaginação com idyllios bucolicos, ou retemperarmos as almas com a memoria de acções heroicas praticadas pela gente lusa.
É assim que os medalhões que tenho trazido entre dedos, e cuja serie vou continuando para meu desfastio, reproduzem imagens reaes de creaturas que viveram.
E parecendo escolhidos ao sabor do accaso ou do capricho, são comtudo suspensos pelo mesmo nastro, como contas de uma gargantilha, que um unico fio de retroz atravessa.
Não obedece a factura d’esses paineis, como não obedeceu a dos anteriores, a tyrannia de escholas.
E por isso n’elles não se estabelecem theses, nem se proclamam theorias, nem se tentam resolver questões sociaes.
São simples productos de uma olaria indigena todos nascidos do mesmo sentir portuguez; d’aqui são terrantezes, e todos modelados com o barro da mesma barreira amassado com agua dos nossos rios, e cosidos com o calor do sol que nos aquece.
Tem talvez por isso um ar de familia que os irmana e em cada qual o leitor encontrará uma feição caracteristica da nossa raça tão rica de qualidades typicas.
Abrindo ao publico esta nova sala da minha galeria não quero comtudo obrigal-o a uma visita enfadonha de museu, com _Baedecker_ em punho, forçando-o á contemplação de quadros consagrados pelas indicações banaes dos Guias dos viajantes.
Convido-o apenas, mais outra vez, a uma digressão livre, na companhia de _cicerones_ caseiros cujas arengas são buscadas nos melhores alfarrabios.
Com o auxilio do bom Fernão Lopes, e das tradições locaes, conseguiremos obter um logar junto á estacada para assistirmos á lucta de duas valentonas da edade-média, perante D. Filippa de Lancastre e a sua côrte.
O palreiro conego Braz da Motta levar-nos-ha a Almeirim, ao Paço dos nossos Reis, onde tomaremos parte nos festejos com que se celebraram as bodas dos Duques de Aveiro.
Com Francisco de Andrade e D. Antonio Caetano de Sousa auscultaremos o coração serodio do Senhor D. Jorge, perdido de amores, aos 70 annos, pela tenrinha D. Maria Manoel.
E guiados pelas proprias confidencias escutaremos as pulsações do amoroso Francisco de Moraes, o _Palmeirim_, rendido aos pés da bella Torcy.
Com o nosso contemporaneo, o erudito Prestage, entraremos de passagem no carcere onde D. Francisco Manoel de Mello encastellava periodos sonoros, e amaldiçoava a sua paixão amorosa.
Depois, acompanhados por Duarte Nunes de Leão seguiremos attentos as peripecias que provocaram a vingança da filha de Pedro Nunes, o cosmographo, e as aventuras da heroica amazona aveirense, Antonia Rodrigues, hoje homem, ámanhã mulher, que deixou brado em Mazagão.
Não hesitaremos tambem em penetrar indiscretamente, levados pelo maldizente Costa e Silva ou pelo sisudo Barbosa Machado, nas cellas do convento da Rosa, ou nas do convento da Esperança onde emmurcheceram Violante do Céo, Magdalena da Gloria, Maria do Céo e outras freirinhas, preciosas flôres do seiscentismo, exhalando sonetos, soliloquios, e villancetes, de amortecido perfume.
Se algum dos meus leitores se enfadar, em meio da jornada, tem um recurso facil.
Fecha o livro e recolhe-se nas proprias cogitações, certamente mais interessantes que os meus arrazoados.
E eu não lhe quererei mal, porque isso não me tolherá que vá continuando a regar com agua de _Neves de Antanho_ as plantas do horto portugalense.
St.º Amaro--Junho 1918.
IGNEZ NEGRA
A HEROINA DE MELGAÇO
SUMMARIO
Lua do mel--A primeira separação--Incursões na Galliza--Morte de Ruy Mendes de Vasconcellos--Regresso a Coimbra--Doença do Rei--Partida do Duque de Lancastre--Viuvez de Nun’Alvares--Projecto de ataque a Melgaço--A côrte da Rainha é convidada a assistir--As duas contendoras--Lucta de mulheres--Victoria de Ignez Negra.
Eram casados de pouco, quando foram obrigados a separar-se, porque as exigencias da lide guerreira assim o impunham a El-Rei D. João I.
Em plenilunio de mel, a loura Filippa de Lancastre, affectuosa e ternamente enlaçada no noivo, que a politica do pae lhe outorgára, e a quem desde logo a sua alma se rendera, sentiu como que se lhe arrancassem o coração, quando ficou assim, sósinha em terra extranha.
É certo que a rodeavam donas nobres, e cuvilheiras de qualidade, mas todas eram portuguezas. É certo que a acompanhavam Prelados, dignitarios, e doutores, gente de estirpe ou de consideração, mas pouco de molde a saber consolar-lhe o animo saudoso.
Ainda houve, no momento da partida, uma voz que parecia interpretar o seu sentimento. Era Gonçalo Mendes que exclamava:
--«Senhor! N’este Reino sohia de haver um costume de antigo tempo que o homem no anno que casava, não havia de ir em guerra, nem ser constrangido para ella. E vós que ha tão pouco que casastes o quereis agora britar e vos ir fóra do reino?»
D. João I, porém, não era homem que a lua de mel edulcorasse mollemente, nem que cedesse a exhortações de brandura emolliente.
Respondeu com sobrecenho: «que assim lhe cumpria por defensão da sua terra, e fazer damno a seus inimigos.»
E arredou-se do Porto, penetrando em Castella, para ajudar o sogro na sonhada conquista do throno d’aquelle reino.
Fruindo fortuna vária, mas sempre com arreganho, essa pequena hoste, ainda rutilante da gloria alcançada em Aljubarrota, Atoleiros e Valverde, atravessou o rio de Maçãs, entrando em terra inimiga.
Iam os dois condestaveis--Nun’Alvares, o de Portugal--e João de Hollanda, (irmão do rei de Inglaterra), condestavel do duque de Lancastre.
Na vanguarda caminhava o Prior do Hospital, D. Alvaro Gonçalves Camello, emquanto que n’uma das alas montava soberbo Martim Vasques da Cunha, que Mem Rodrigues na sua linguagem imaginadora dizia «ser tão bom como D. Galaaz» o cavalleiro da Tavola Redonda. Acompanhava-o a gente do mestrado de Christo, que levava em vez de bandeira, um grande «prumão» ou pennacho de plumas, n’uma lança de armas.
Na outra ala luzia com garbo Ruy Mendes de Vasconcellos, sempre ardido e desenvolto no commetter; Gonçalo Vasques Coutinho, «tão bom como D. Tristão», e outros mais. Era na propria consciencia do bando heroico, uma côrte d’esse novo--Rei Arthur, Flor de Lys--D. João I de Portugal.
Seguindo em imaginação a marcha da hoste na sua tarefa affanosa de ataque, de conquista e de rapina, assistimos maravilhados á rude e energica actividade d’este Rei de 30 annos, ao mesmo tempo severo e lhano, audaz e cauteloso, prompto, e cruel até, em reprimir, mas generoso no premiar, inexoravel com os delinquentes mas affavel, familiar e bom camarada com os companheiros de armas.
Verdadeiro chefe, sabia mandar.
Perfeito Rei, na missão paternal, era o protector do seu povo.
E elle lá vae montado galhardamente, vestindo com elegancia, o loudel de panno de sirgo branco com a cruz de S. Jorge, incitando uns, gracejando com outros, e discutindo com Nun’Alvares a precedencia na vanguarda, que este não queria ceder ao Duque de Lancastre...
Atacaram Benavente, tomaram Roales e Valdeiras, e cercaram Villa Lobos, havendo aqui e além escaramuças, e correndo-se pontas, sempre com brilho e lustre para a gente portugueza.
Desafiavam ás vezes os inimigos a combates singulares: agora um creado do Condestavel, Alvaro Gomes, que «sem fraldão e bem desenvolto» deu em terra com um castelhano seu contendor; logo Mamborni pelos portuguezes e o francez Ruby pelos castelhanos; aquelle levando o bacinete sem cara, este com dois calmaes e um gorjal, o que não lhe evitou ser posto fóra da sella, tombando limpo no chão. Mais depois é a façanha de Ruy Mendes que, sahindo da sua tenda sem armadura, e apenas com o escudo no braço e lança na mão, dá caça aos castelhanos fazendo-os mergulhar nas aguas turvas da cava. Essa imprudencia valeu-lhe uma reprehensão do Rei, ao qual bem humorado e em tom de graça, o valente responde:
--«A la fé! Eu sou Rodrigo, tão bem las faço, como las digo.»
E logo adeante dá-se a escaramuça, junto a Castro Verde, d’este mesmo Ruy Mendes de Vasconcellos, que foi attingido perto do hombro por um virotão, que o feriu.
A scena é descripta tão pittorescamente pelo velho Fernão Lopes, que, para não lhe tirar o sabor, a copiamos tal como ella apparece na chronica:
«E como veiu á tenda e foi desarmado disse a aquelles que eram presentes:
--«Por certo eu sou ferido d’herva.»
E os outros dizendo que não, elle aprofiando que sim, foram-n’o dizer a El-Rei, ao qual pezou muito d’esto, e veiu logo alli por lhe tirar tal imaginação esforçando-o que não era nada, respondeu elle e disse:
--«Senhor, eu ouvi sempre dizer que aquelle que ferem com herva, que lhe formeguejam os beiços, e a mim parece que quantas formigas no mundo ha, que todas as tenho em elles.»
--«Pois assim é, disse El-Rei, bebei logo da ourina, que é mui proveitosa para esto.»
Elle disse que não beberia por cousa que fosse; El-Rei afincando-o todavia, e elle dizendo que não, como mavioso senhor, com desejo de sua saude, por lhe mostrar que não houvesse nojo, gostou da ourina e disse contra elle:
--«E como não bebereis vós do que eu bebo?»
Elle não o quiz fazer por quanto lhe dizer poderam.
El-Rei vinha-o vêr cada dia duas e tres vezes, e ao terceiro dia estando com elle fallando, dizendo-lhe muitas razões de esforço, elle disse contra El-Rei:
--«Senhor, eu vos tenho em grande mercê vossas palavras e visitação, mas entendo que em mim não ha senão morte...»
«El-Rei como ouviu isto, voltou as costas e sahiu da tenda com os olhos nadando em lagrimas... e logo esse dia fez seu acabamento, de cuja morte El-Rei e o Duque e todos os do arraial tomaram grande nojo e tristeza...»
Poderá a nota naturalista da anecdota, no que se refere á pharmacopêa medieval, provocar um sorriso de leve enjôo a alguma leitora menos affeita á pratica das rudes tisanas emborcadas por nossos avós.
Mas ninguem se furtará a uma enternecida admiração, sentindo a grandeza da scena.
Na barraca de campanha armada em terra inimiga jazia o bravo batalhador moribundo, padecendo horrores, com os tormentos causados pela lança que os toxicos violentos do _strophantus_ ou da _digitallis_, haviam envenenado, e conhecendo estoicamente os symptomas precursores da morte.
Junto ao catre improvisado, e de entre os companheiros de armas, destacava-se D. João I, camarada nas pelejas e nos triumphos, com as lagrimas bailando-lhe nos olhos, inquieto, ancioso, commovido a ponto de não hesitar na prova do repugnante medicamento, que preconizava como infallivel.
Elle ás vezes tão duro, que fazia lembrar seu justiceiro pae, n’aquelle lance deixava humanamente revelarem-se requintes de sensibilidade.
Era esse punhado de heroes, cujos animos abrigavam não só as qualidades brutaes e violentas, que levam á victoria, mas as delicadas dedicações e devotadas amizades promptas para o sacrificio, que fazia exclamar o Duque de Lancastre quando presenceava as suas façanhas:
--«Oh! que bom Portugal!
--«Oh! que bons Portuguezes!»
* * * * *
Quando, terminada aquella campanha, no fim do mez de Julho, El-Rei vinha com a sua hoste de Guimarães pelo Porto em direitura a Coimbra, onde então estava a Rainha, ao chegar ao Curval, pequeno povoado a meio caminho das duas cidades, sentiu-se acommettido de doença.
_Dôr de quentura_, diagnosticaram os physicos, consultados sobre o caso.
«Que a doença parecia grave--acrescentavam;--que já tinham cahido enfermos muitos dos homens de armas, com a mesma molestia, causada talvez pelos excessivos calores da estação; e que era conveniente avisar a Rainha.»
Partiu logo, a galope, uma estafeta sem parar até Coimbra, onde, de visita a sua filha, se achava tambem o Duque de Lancastre. O mensageiro subiu á Alcaçova, penetrou nas abobadas que levavam á sala dos archeiros, e, offegante, descarregou-se do penoso recado.
Logo foi grande, e tão ruidoso, o borborinho nos Paços de Coimbra, que chegou aos aposentos de D. Filippa, surprehendendo-a dolorosamente.
Longe de ser, como a alguns se tem affigurado, uma mulher fria, fleugmatica, pedaço de gelo importado de Inglaterra, que o sol da nossa terra não logrou derreter: longe de ser apenas uma creatura de dever, forja geradora _de altos Infantes_, e rigida disciplinadora de côrte, a loura ingleza, que tão grande missão veiu cumprir no mundo, era amoravel, e ternamente devotada ao marido, que ella sentia «tão concordavel ao seu desejo.»
Demonstram-n’o, além das palavras dos chronistas (talvez sujeitas a reservas) o que é mais e o que é melhor, alguns factos que revelam a sua indole carinhosa e meiga, a sua alma toda entregue ao homem a quem, além de tudo, a ligava um sentimento de gratidão, pela preferencia que lhe dera sobre sua irmã D. Catharina, mais nova, talvez mais formosa, e com direitos, por sua mãe, a um throno--o throno de Castella.
Bem sabia ella que o Rei não a escolhera por amor, pois D. João I, entendendo que pretender esse throno para si, seria um perigo para Portugal, optara pela solução mais convinhavel á sua politica.
Entretanto era certo ter sido ella a eleita. E as mulheres nunca são indifferentes a uma preferencia. Além d’isso, o coração não carece de razões para se decidir.
Gosta-se, porque se gosta!