Neves de antanho

Part 17

Chapter 173,743 wordsPublic domain

Diz d’elle o chronista Duarte Nunes de Leão: «Sendo de cavallo se avantajou dos outros a destreza, e bom ar, e ligeireza com que cavalgava do chão: e no commetter aos inimigos nas emprezas maiores e de importancia, sempre o Capitão o nomeava e mandava na deanteira como ao mais destro cavalleiro que tinha. E assim se achou em muitas pelejas e encontros onde foram captivos e mortos muitos mouros principaes e seus cavallos, de que Antonio Rodrigues participava como o melhor cavalleiro da companhia. Velava de noite nos muros seus quartos sem faltar, e sahia ao campo com sua espingarda a cavallo a fazer lenha e feno. E muitas vezes ajudava a matar porcos no campo dos mouros, de que trazia sua parte».

Quando vemos figuradas nos azulejos portuguezes as apparatosas caçadas ao porco bravo, em que cavalleiros de vistosas casacas e emplumados tricornes, perseguem com suas lanças, e seguidos de ululante matilha, o javardo, emquanto os couteiros, e moços do monte, sopram nas buzinas, concebemos facilmente como os heroes d’esse exercicio varonil, tão dilecto da gente de escol, alvoraçava imaginações femininas. E não nos causa espanto ver que n’aquelle canto da Africa o denodado caçador Antonio Rodrigues que tinha fama de atravessar com o acerado chuço a pelle dos animaes bravios, trespassasse tambem com os olhares os corações das formosas portuguezas.

«Por parecer um mancebo mui gentilhomem e de muita graça (diz o chronista) era mui bem olhado e favorecido das donzellas de Mazagão».

Entre ellas havia uma, cujo nome a historia não registra, talvez para não a vexar pelo seu equivoco, que se apaixonou loucamente pelo arrojado cavalleiro. Nos combates em que elle entrava, tão encarniçados que, segundo o costume, dois frades de São Francisco, com o crucifixo levantado contra os moiros, se collocavam no mais alto do castello para inspirar confiança aos soldados, não era raro ver a amorosa rapariga acompanhar as outras mulheres da povoação, moças e velhas que vinham dar agua aos homens, e que muitas vezes, deixando nas mãos d’elles os pucaros emquanto bebiam, arremessavam ellas pedras contra o inimigo.

Quando o combate cessava e todos recolhiam, Antonio Rodrigues era convidado a ir descansar a casa d’aquella, que muitos consideravam já sua noiva, e que era filha de «um cavalleiro principal». Ahi era recebido com affectuosa familiaridade pelos paes e mais parentes, que lhe offereciam dadivas como se já o considerassem genro ou pessoa da familia.

Antonia, receiando que o revelar a verdade trouxesse um natural escandalo, ou graves dissabores, e sendo-lhe tambem penoso desilludir a sentimental menina, deixava-se amar sem retribuir galanteios, e empregando meios dilatorios que a tirassem de difficuldades.

Este caso original de psychologia amorosa, já de si embaraçoso para qualquer casuista, e principalmente para quem andava mais habituado a escaramuças com agarenos que a justas de corações, ou embates de almas, complicava-se agora com um facto ainda mais curioso, e a que ella não era indifferente.

Entre os olhares com que as suas numerosas admiradoras solicitavam o seu, notava por vezes o de um moço militar de boa familia, que apenas se julgava presentido, o desviava, dissimulando. E por uma circumstancia inexplicavel, emquanto todos os camaradas tratavam Antonio Rodrigues desenfastiadamente, aquelle nunca lhe dirigia a palavra, ou se a dirigia era com visivel commoção.

Cantar-lhe-iam talvez na memoria, com mysteriosa significação, os versos d’aquelle romance tão lindo «_A Donzella que vae á guerra_», melopêa com que em creança sua aia o adormecia:

«Tende-los peitos mui altos Filha conhecer-vos hão. --Venha gibão apertado Os peitos encolherão.

* * * * *

Senhor Pae! Senhora Mãe! Grande dôr de coração. Que os olhos do Conde Daros São de mulher, de homem não!»

* * * * *

Esta situação de equilibrio instavel de sentimentos durou cinco annos.

E se o derivativo das batalhas com os moiros espaçava uma solução inevitavel, é certo tambem que a forçada intimidade n’uma cidade pequena, e n’uma sociedade limitada; a influencia do clima ardente tão propicio á explosão das paixões; e os perigos compartilhados com frequencia, elemento que tão fortemente concorre para o estreitamento de laços sentimentaes, espicaçava os cerebros e os sentidos dos actores d’este pequeno drama.

Repugnava ao instincto de rectidão de Antonio Rodrigues o embuste, embora forçado, em que vivia; desadorava a comedia que estava representando, tanto em contraste com os lances e investidas guerreiras, em que por vezes andava empenhada; e apiedava-se do engano em que via enredar-se a doce creatura, que lhe davam como noiva.

É possivel tambem que os impulsos do seu sexo, tão longamente reprimidos, a levassem a julgar necessario tornar regular a situação. Talvez mesmo não fossem extranhos a esse estado de espirito os olhares esquivos, quasi envergonhados, do moço militar.

Afigurava-se-lhe, porém, embaraçoso resolver este caso.

Não era correcto confessar a qualquer homem a sua ambigua situação. E difficilmente encontraria uma mulher, mesmo entre as matronas da cidade, que lhe escutasse de boamente a confidencia arriscada.

Durante muita noite de vigia na barbacan da fortaleza, durante muitas horas de ronda nos arredores do castello, meditou sobre o passo que tinha a dar.

Lembrou-se afinal que, entre os clerigos, que mais piedosamente confortavam os moribundos em occasião de batalha, e que mais reputação gozavam de saber tranquillizar os espiritos anciosos, destacava-se o Padre Provisor. Resolveu abrir-se em confissão ao austero magistrado ecclesiastico que, habil em questões de jurisdicção ecclesiastica, era ao mesmo tempo subtil manejador de almas e de casos de consciencia. Elle melhor que ninguem lhe indicaria o modo de proceder.

Ouviu-a surpreso o Padre Provisor, e logo lhe aconselhou a que ambos se dirigissem ao Governador Diogo Lopes de Carvalho, que sempre dispensára protecção ao moço militar, afim de lhe fazerem a extranha revelação.

Mais surprehendido ficou ainda o Governador, que o Padre, com tão inesperavel noticia.

E o que mais lastimava n’aquella insolita occorrencia, era ter que assim perder um dos seus melhores cavalleiros.

Mas forçoso era submetter-se ás circumstancias, e inevitavel o regresso de Antonio Rodrigues ao sexo a que pertencia.

Procurou-se então a casa de uma familia honesta onde pudesse recolher-se, e vestir o fato que lhe era proprio.

Não foi custosa a iniciação, porque a varonilidade de Antonia provinha mais da sua energia de animo, que da mascula rudeza de maneiras. Não era a virago das revoluções da rua; era antes o athleta androgyno dos collegios athenienses, cujas fórmas foram consideradas a suprema expressão da esthetica.

O novo trajo, longe de se desageitar no seu corpo, deu-lhe a graça feminina com que adquiriu um encanto proprio. Era isso o que lhe affirmava a familia que a recolheu. E Duarte Nunes do Leão, que a conheceu mais tarde, quando ella tinha trinta e cinco annos, achava-a «bem parecida, com muita graça no fallar, e grande viveza no espirito que justificava a sua fama».

Mas como seria encarada a metamorphose pelos seus antigos camaradas? E como a olhariam as raparigas que a tinham requestado? E que pensaria o official que de longe a olhava com timidez?

Então, ella, que tinha afrontado tempestades, balas de moiros, e arremettidas de féras, intimidava-se com a ideia de ver menos bem acolhido o seu novo _avatar_; a sua transformação de guerreiro em donzella. Pensou voltar ao Reino.

Aproveitaria a partida de qualquer familia que regressasse, e assim dissimuladamente subtrahia-se a commentarios indiscretos. Entretanto, não ousava apparecer em publico, tanto lhe parecia que todos haviam de encaral-a com zombaria ou menosprezo.

Enganava-se.

Duarte Nunes do Leão assevera «que a foram visitar as donzellas a que ella fallava amores, as quaes mudaram o amor que lhes tinham em amizade, e lhe pagaram as galanterias que lhes dizia com presentes de rocas e fusos, e outros taes ditos».

Ha n’esta offerta uma leve ironia, um innocente debique. Mas não a podia molestar; nem era essa a intenção das raparigas, logradas, mas não rancorosas.

O governador, que muito se lhe affeiçoara, e todos os da villa, tanto homens como mulheres, oppuseram-se á sua partida.

Entretanto aquelle a quem, de havia muito, a figura de Antonia impressionara, sem que nunca o tivesse revelado, e que era pessoa de qualidade, apresentou-se solicitando a sua mão.

Ha situações difficeis de sustentar. O marido de cantora celebre que assiste diariamente aos duettos da mulher com um tenor almiscarado; o da dançarina, que a vê desnuda e provocante piruetando perante espectadores em irreverente observação; o da mulher cujo talento pertence exclusivamente ao publico; o da feminista, que reivindica direitos politicos e a emancipação da tutela marital; o da mundana, que em bailes e em festas provoca adulações, segredos equivocos, colloquios prolongados, contactos em danças lascivas...

Mas de todas a mais estravagante é por certo a qualidade de marido de um soldado reformado, de um marujo na reserva, de um cavalleiro d’Africa.

E comtudo a casta attitude de Antonia, a sua candidez intemerata, o juizo recto, a doçura do seu animo, collocavam a esposa do moço official n’uma atmosphera ideal que não acarretava ridiculo sobre o noivo.

* * * * *

Partiram para o Reino logo depois do casamento.

A noiva recemcasada trazia entre as joias do enxoval uma dadiva pouco vulgar--a certidão, que o governador lhe dera, dos seus serviços pelas armas, e das acções de valor que commettera em successivas batalhas. Um attestado authentico de heroe d’Africa!

Parece que essa qualidade nada perjudicou a ternura do casal, visto que pouco depois lhe nascia um filho. Pelo menos de um, temos noticia.

Felippe III, isto é Filippe II de Portugal, quando veiu a Lisboa em 1619 quiz vel-a.

Tinha essa entrevista por motivo não sómente satisfazer a curiosidade do monarcha, mas talvez um intuito politico.

Era conhecido o prestigio da valorosa amazona a quem chamavam a _cavalleira portugueza_.

O soberano hespanhol no intento em que então estava de captar as boas disposições da Nação que, embora o estivesse recebendo com festejos espaventosos--cortejos, illuminações, danças e arcos triumphaes--era no entanto ainda ciosa de autonomia, aproveitava todos os meios de lisonjear, sem compromettimento, essa illusão. Affigurou-se-lhe que era um passo habil dar um testemunho da sua graça á heroina, que tão brilhantemente tinha honrado o brio portuguez.

Mandou chamal-a.

Accudiu Antonia Rodrigues ao convite. E pouco depois subia a grande escadaria do Paço da Ribeira, onde o Rei se achava, depois de ter vindo do convento dos Jeronymos.

Atravessou a sala dos Tudescos, entre os olhares curiosos da côrte, e foi introduzida na Camara onde Filippe III dava audiencias.

Devia ser um espectaculo curioso o encontro d’essa mulher forte, desempenada, de rosto aberto e olhar decidido, com o valetudinario e debil monarcha!

A pallidez de familia, tão pronunciada em Filippe, e as feições caracteristicas da casa d’Austria, tornadas celebres depois por Velasquez, nos rostos compridos e nos beiços proeminentes dos famosos quadros, contrastavam com a pelle de Antonia, tisnada pelo sol africano; com o seu rude dizer, ainda por polir; e com as maneiras de quem tinha a cavallo espetado alguns javalis e muitos moiros.

O Rei, ou por diplomacia, ou porque realmente a heroina lhe agradasse, conversou-a longamente. Acabou o colloquio (conforme diz o chronista) por lhe fazer mercê de duzentos cruzados para ajuda de custo, uma fanga de trigo em cada mez, e uma tença de dez mil réis em sua vida.

Mais ao deante tomou um filho para moço da sua camara, em attenção aos serviços d’ella.

* * * * *

Frey João de São Pedro, ou para melhor dizer Damião de Fróes Perym, (anagrama que servio de cryptonimo ao frade hieronimita) insere no seu _Theatro Heroino_ um capitulo dedicado á intrepida cavalleira. Se não nos dá copiosas noticias, pois Frey João é pobre de erudição e de interesse, constitue comtudo um justo panegyrico celebrando o seu valor.

E D. Antonio da Costa no livro intitulado «A mulher em Portugal» tambem lhe dedica duas paginas, mais encomiasticas e laudatorias que noticiosas. Os dois escriptores contribuiram assim, cada um conforme a sua fazenda, com pedras valiosas para a base do monumento, que em tempo devia ter sido levantado, perpetuando a memoria da heroina.

Porque, encontrando-se n’ella tantas das qualidades da nossa raça aventurosa, sonhadora, resoluta; e tantas das virtudes da mulher portugueza, energica, valente, e leal, bem teria merecido a intrepida amazona (é esse o voto do licenceado Duarte Nunes do Leão) uma estatua equestre na melhor praça de Mazagão!

POST SCRIPTUM

Já depois de composto este artigo o sabio investigador General Brito Rebello a quem tanto deve a litteratura historica, teve a amabilidade de me fornecer a nota seguinte, que transcrevo a titulo de curiosidade, e que vem corroborar as affirmações do chronista, havendo apenas divergencia na quantia que foi dada como tença á heroina o que para nós pouca importancia tem, visto que não é a abastança do casal que nos interessa.

Ev El Rey faço saber aos que este aluará uirem que auendo respeito a Antonia Rodriguez seruir na villa de Mazagão cinco annos despingardeiro de cavallo e de pee em trajos desoldado, ey por bem de lhe fazer merçe de cinqo mil reis de tença cada ano em sua vida pagos no almoxarifado da dita uilla alem dos dez mil reis de tença que tem nas obras pias os quaes cinqo mil reis começará a uencer de treze de nouembro deste ano presente em diante ê que lhe fiz esta merçe. Pello que mando ao almoxarife do almoxarifado da dita uilla que ora he e ao diante for que do dito tempo pague a dita Antonia Rodriguez os ditos cinqo mil reis de tença em sua vida como dito he, e pello treslado deste que será registado no liuro de sua despesa pello escriuão de seu cargo e conhecimentos da dita Antonia Rodriguez lhe será leuado em conta o que lhe pella dita maneira asi pagar, e este ualera como carta sê êbargo da ordenação do 2.º Liuro titulo XX ê contrario, Diogo de Sousa o fez ê Lixboa a quatro de dezembro de j̃ bjᶜ e dous. Sebastião d’Abreu o fez escreuer.

Archiv. da Torre do Tombo, Chancel. de Felip. II, Doaç. Liv. 12, fl. 18 vᵒ

N. B.--Por não haver na typographia o signal _e til_, usou-se do accento circumflexo quando a graphia do documento indicava aquelle accento.

AMOR AOS LIVROS[2]

SUMMARIO

O livro na antiguidade. A paixão pelo livro--Bibliographos, bibliophilos, bibliomaniacos, bibliolatras, bibliotaphios, biblioclastas, bibliophobos. As encadernações. O livro do futuro--Sociedade de Bibliophilos Barbosa Machado.

Affirma Renan algures que, de hoje a algumas centenas ou milhares de annos, terão completamente desapparecido da memoria dos homens todos os livros que actualmente conhecemos, com excepção da _Biblia_ e talvez das obras de Homero.

É possivel que a prophecia mofina do mais attico escriptor francez do seculo passado, sahida da sua penna prestigiosa n’um dia de melancholico desalento, venha a realisar-se, sendo precipitado no fundo sorvedoiro dos tempos todo o vasto cabedal do saber humano, desde que o pensamento se materialisou na palavra, e a palavra escripta se juntou a outras, para formar--o Livro.

E, assim como a acção destruidora dos flagellos tem devorado o recheio das mais famosas bibliothecas da antiguidade, taes como a que Osymandias estabeleceu no seu maravilhoso palacio de Thebas, e sobre cuja porta fez gravar a conhecida inscripção: _Remedios para a alma_, e a celebre de Alexandria, que Ptolomeu Soter dotou com os setecentos mil volumes, queimados depois, segundo a lenda, pelo musulmano Omar, ou desapparecidos com a ruina do templo de Serapis,--assim tambem a acção demolidora dos annos irá talvez, em successivos outomnos cyclicos, fazendo cahir no chão do esquecimento, e apodrecendo na terra, as folhas da grande arvore do saber humano, d’onde hão de sahir novas folhas vivas, pelos seculos dos seculos...

E, pela mesma fórma que pouco ou nada resta de tudo quanto compunha essas colossaes bibliothecas, em cujos escrinios e columbarios se encerravam os preciosos _volumen_ de papyros de Saïs, fabricados com agua do Nilo, e de pelles respançadas de cordeiros de Pergamo,--é tambem para recear que, no cumprimento da prophecia do mestre, desappareça tudo quanto enche as modernas livrarias, cuja colossal bibliographia é impossivel organisar no seu conjuncto, tantos são os milhares de publicações que em cada dia e a cada hora apparecem em todos os paizes, escriptas em qualquer das seis mil linguas do mundo, e nascidas da vertiginosa producção litteraria da nossa epocha.

Se assim fosse, se o vacticinio se cumprisse, tempo haveria em que a humanidade do futuro não teria a delicia suprema de conhecer o effeito da leitura das obras primas, que nos legou a antiguidade hellenica e a latinidade classica; ignoraria a deleitosa impressão de sentir em consonancia com os poetas, que tem agitado a alma moderna; desconheceria o theatro de Shakespeare, o de Racine, o de Corneille e o de Molière, os tercetos de Dante, os sonetos de Camões, as obras de Schiller e as de Calderon e Cervantes; deixaria de admirar a força prestigiosa da palavra com que alguns privilegiados de genio tem feito vibrar os nervos do animal humano, e os trabalhos que tem transmittido o patrimonio da sciencia de geração em geração, n’esta faina incessante a que se convencionou chamar progresso; seria privada de avaliar a acção d’aquelles que dotaram a raça humana com ideias e beneficios; ter-se-hiam apagado na memoria dos homens os nomes de Newton, Lavoisier, Darwin, Pasteur... E, quem sabe? deixaria até, (se a revolução de que fallamos adeante se realisar,) de conhecer, de possuir, de consultar essa coisa preciosa que é o Livro.

O Livro! A paixão por esse objecto que na sua essencia se compõe apenas de laminas, de rolos ou de algumas folhas, em cuja superficie são traçados, pintados ou impressos alguns caracteres, symbolicos ou alphabeticos, sendo tudo envolvido n’uma capa ou _capsa_, que varia segundo a epocha, o gôsto e a fortuna do seu possuidor, essa paixão é uma das que mais fundas raizes tem no animo das gentes cultas, e que apresenta fórmas mais diversas.

Bibliographos, bibliophilos, bibliomaniacos, bibliolatras, bibliotaphios, e até mesmo (pois tambem existe a paixão do odio) biblioclastas e bibliophobos, são outros tantos amorosos do Livro, da sua essencia ou da sua fórma externa.

Que poderoso é o attractivo que exerce no animo do amador de livros a edição estimada, o exemplar raro, a encadernação de luxo!

Quem tem visto esse amador nas lojas dos nossos alfarrabistas--o velho Rodrigues, do Pote das Almas,--o Silva, por alcunha o _Frade_, da rua dos Retrozeiros, de quem o filho herdou, aperfeiçoando-a, a technica da sua arte, e a memoria feliz, que faz da sua cabeça um diccionario bibliographico; quem tem percorrido os estendaes dos ferro-velhos da Feira da Ladra, onde se vendem volumes a vintem; quem tem assistido aos leilões das bibliothecas que se dispersam, e observa a physionomia interrogadora e interessada d’esse bibliophilo que fareja e segue a pista do volume ambicionado, encontra-se perante um dos entes humanos, que mais exclusivamente é absorvido por uma paixão, e que, para a satisfazer, commetterá loucuras e até crimes.

Quem não conhece casos de bibliokleptas celebres, que roubam sem escrupulos livros que appetecem?

Uma edição _princeps_, como algumas das que encerra o quarto dos _Reservados_ na nossa Bibliotheca Nacional; um volume raro, quer seja impresso, como o _Boosco deleytoso_, quer manuscripto, como o _Cancioneiro d’Ajuda_; uma encadernação da escola italiana ou franceza do seculo XVI, tem para os amorosos do livro, bibliophilos ou bibliomaniacos, o maior poder de seducção que na vida póde existir.

O prestigio do livro impõe-se por diverso modo, conforme a indole do apaixonado.

Querem alguns a sua bibliotheca composta de livros raros ou preciosos, embora em numero reduzido, como o nosso André de Resende, o archeologo eborense, ou como Barbosa Machado, o sabio oratoriano, que possuia uma das mais escolhidas bibliothecas do seu tempo, ou como o suisso Goulier, que vivia como um asceta, quasi sem comer, para, com as suas economias, poder comprar qualquer maravilha typographica de Jean de Tournes _in-12ᵒ_, ambicionada durante annos.

Querem outros a collecção numerosa, ou seja que a variedade e o prazer da ostentação os impulsione, como aquelle arcebispo de Evora que possuia onze mil volumes, aos quaes os maliciosos chamaram as onze mil virgens, ou que a sofreguidão e a furia de amontoar os domine, como o parisiense Boulard, que, na sua insania, chegou a comprar varios predios em Paris, os quaes foi recheando com os seiscentos mil volumes que pela sua morte deixou.

* * * * *

Livros ha cujo valor, para certos bibliophilos, nasce de circunstancias especiaes, alheias ás suas qualidades bibliographicas, como aquelle exemplar da 2.ª edição de Shakespeare que serviu de leitura a Carlos I na prisão, e que conserva notas á margem, da mão do infeliz monarcha; e aquelle outro manuscripto de Leonardo de Vinci, em que esse assombroso engenho do Renascimento italiano lançou as bases scientificas da aviação, preciosidades, que se conservam na bibliotheca de Windsor e que evocam tão grandes figuras. Quem não sentirá (mesmo os que não são dominados pela mania do livro) uma piedosa e particular commoção, ao contemplar o encantador volume das _Horas da Rainha D. Leonor_, pensando em que tanta vez n’aquellas paginas assentaram os olhos da intelligente viuva de D. João II, e foram folheadas pelas suas mãos esguias, nas vigilias da Madre de Deus; ou quem não apreciará, pelo seu valor archeologico e artistico, aquelle codex do mosteiro de Lorvão que A. Herculano fez conduzir para a Torre do Tombo, e cujas illuminuras são deliciosas precursoras das figuras hieraticas dos pintores modernos?

Para outros amadores de livros, têm mais seducção as lindas edições dos seculos XVII e XVIII, obras eruditas, pomposas, ostentando a gravidade do classicismo, impressas em papel de luxo, de largas margens, como convem á sua nobreza, ornadas de gravuras a buril, com iniciaes ornamentadas e vinhetas floridas terminando os capitulos, e o magestoso frontispicio a duas côres, seguido das licenças necessarias, e da emphatica dedicatoria a El-Rei Nosso Senhor, ao Principe ou ao Mecenas...

Alguns tambem ha ainda, colleccionadores, mais do que bibliophilos, que estimam sobretudo as _Miscellaneas_, tão usadas entre nós no seculo XVIII, e posteriormente, nas quaes o capricho do amador juntava folhetos das mais desvairadas proveniencias e diversos auctores, ou subordinava o feixe de opusculos a um assumpto determinado.

Mas o que a muitos encanta e seduz (e ainda hoje, como outr’ora ha quem possua riquissimas collecções d’esta especialidade) é o aspecto exterior do livro, independentemente da sua alma. Para estes a vestimenta, a encadernação é tudo, como tão pittorescamente o significa François Fertiault no seu livro «Sonetos de um bibliophilo», quando diz:

De loin vous en flairez l’arome avant-coureur; Vous contemplez, ravi, sa date reculée; Vous caressez du doigt sa marge immaculée, Et de sa rareté vous prônez la valeur.

Vous en aimez la tranche à la vive couleur, La nervure du dos, ou svelte ou potelée, La robe au blanc satin, d’un filet dentelée, Le noir chagrin, brodé par le fer du doreur.

* * * * *

As encadernações são, para alguns amigos do livro, um vasto capitulo cheio de delicias.