Part 18
As de luxo, trabalhadas nas officinas venezianas e florentinas, que ornavam a bibliotheca do afamado Maoli; as celebres encadernações _à la salamandre_ de Francisco I de França, e os artefactos dos famosos encadernadores de Henrique III e de Henrique IV, Nicolau Eve e seu filho Clovis, provocam ainda hoje a admiração de quem visita as bibliothecas onde ellas se encontram.
Foi entre nós um grande amador de bellas encadernações El-Rei D. João V, o Magnifico, que tinha enviados em todos os centros intellectuaes da Europa, com o encargo de comprarem as mais valiosas obras litterarias, e de as fazerem encadernar luxuosamente.
A maior parte d’essas maravilhas foram destruidas pelo terremoto, e pelo incendio que se lhe seguiu.
Os ricos exemplares doirados por folhas e com ellas azaradas; os de seixas finamente trabalhadas com oiro; os que apresentavam os mais bellos _ferros_ nos seus marroquins; as encadernações em velludo vermelho, tão nobres, e as de pergaminho, tão severas; as lindas capas de madeira com metaes preciosos e outras de _segredo_, com a sua pequena corrediça onde se escondiam miniaturas profanas e licenciosas, ou reliquias devotas; as innumeras encadernações de phantasia, feitas com pelle de animaes diversos--a panthera, o crocodilo, a serpente, o bacalhau e a phoca--tudo foi destruido na catastrophe de 1755.
Não refere a historia se, n’essa espectaculosa bibliotheca do intelligente Rei, havia tambem, como n’algumas outras, encadernações feitas com pelle humana.
Estas phantasias macabras davam um valor especial ás obras a que se applicavam.
Assim, era grande a estimação em que o medico inglez Dr. Ashew tinha dois volumes encadernados com a pelle d’uma feiticeira do Yorkshire, Mary Ratman, que fôra enforcada pelo crime de assassinio.
Um rico negociante de Cincinnati mandou encadernar a _Viagem Sentimental_, de Stern, com a pelle d’uma negra; e com as das costas d’uma chineza o livro _Tristam Shandy_, do mesmo auctor.
Goncourt conta, no seu jornal, que um encadernador do Faubourg St, Honoré era especialista em aproveitar a pelle dos seios femininos nos seus trabalhos. E o editor Lireux affirma ter visto um exemplar da _Justine_, do Marquez de Sade, encadernado em pelle de mulher.
O insigne astronomo Flammarion foi uma vez convidado pela Condessa de Saint Auge, enthusiasta do seu talento, para ir passar uns dias no pittoresco castello que ella habitava no Jura. Parece que o sabio admirou com desvanecimento os hombros decotados da linda condessa...
Pouco depois, morria ella, e o seu medico escrevia a Flammarion dizendo que, para cumprir o desejo da morta, lhe enviava a pelle do peito que tanto o encantára na noite da despedida, pedindo-lhe que com ella fizesse encadernar o seu proximo livro.
É assim que, na bibliotheca do philosopho, figura ainda hoje a obra «_Terras do Ceu_», encadernada com a pelle da romantica condessa. E nas folhas azaradas a vermelho, do livro, fez o sabio semear estrellas d’oiro, que lhe recordam as noites scintillantes do Jura...
Extravagante idyllio!
* * * * *
Se o amor ao livro, como todo o sentimento humano, reveste as mais diversas fórmas, desde o culto que se dedica ao volume, que os olhos d’um ente querido e ausente leram em horas felizes ou em horas de tristeza e desalento, e desde a soffreguidão com que alguns ciumentos do livro (que tambem os ha), os conhecidos _bibliotaphios_, que, com sofrega avareza, reservam exclusivamente para si o uso das suas livrarias, até á ostentação dos vaidosos que adquirem por centenas de libras o exemplar unico que, n’um leilão retumbante, faça espalhar o seu nome por todo o mundo e lhes lisongeie o amor proprio--se essa paixão do livro é tão profunda e tão complexa, não o é menos o sentimento opposto--o dos _bibliophobos_ e _biblioclastas_.
Por espirito religioso, ou de seita, ou de raça, ou de politica, a historia está cheia de casos de devastação de livros. Hecatombes medonhas! Inutil é mencional-as.
Mas de todas as causas de ruina d’essa coisa tão essencial até hoje á vida da humanidade--o Livro--duas predominam e ameaçam consumar o seu desapparecimento.
Uma, a acção destruidora do tempo com o seu cortejo de insectos, de humidades, de incendios, de vandalismos, de ignorantes despresos e do fatal esquecimento.
Outra, e essa está por emquanto apenas esboçada nas brumas do futuro, vem a ser a transformação da palavra escripta.
N’um recente estudo intitulado «Prosodia e Ortographia» Coelho de Carvalho tratando dos caracteres alphabeticos, e dos signaes representantes das syllabas escreve:
«Ora desde que se conhece que todo o som é resultado do movimento e que este, como todo o movimento deslocando uma porção de materia, traça no espaço uma linha, a successão de pontos por que a massa deslocada vae passando; e, sabendo nós que a falla é produzida pela mobilidade de uma massa de ar, que variamente impellida dentro do apparelho vocal, produz sons de modalidades diversas, conforme a intenção emotiva que determina a emissão do ar; e se a sciencia physica achou a forma pratica de tornar visivel, por instrumento de phonographia, a linha de cada um d’esses movimentos; nenhuns outros traços graphicos, senão aquelles que tal instrumento desenhar, podem ser representativos das _unidades sonicas_ da linguagem.»
E propõe como unica reforma: «fazer na ortographia: _substituir o alphabeto pelo syllabario systematisado da linguagem_, substituindo, para dar o caracter da syllaba, as figuras sonicas que o phonographo nos der, á compilação das chamadas lettras».
Sendo assim, (e parece-me que o talentoso escriptor tem a visão d’uma revolução na escripta,) o que será no futuro o livro?
Um rolo phonographico?
Uma fita como a dos apparelhos Morse?
Voltarão as bibliothecas a ser a antigo _columbarium_, especie de pombal cujas paredes eram cheias de ninhos (que as tornavam semelhantes ás modernas lojas de papeis pintados) onde se encerravam os rolos que foram os primitivos livros?
No melhor dos casos, e conservando, por um movimento adquirido e tradicional, a antiga fórma, o que haverá nas suas paginas?
Caracteres cabalisticos. Figuras sonicas de mysteriosa apparencia.
Hão-de passar ainda, eu bem o sei, alguns lustros antes que se torne definitiva a reforma prevista, e antes que as gerações do futuro se habituem á pratica da racional, mas para nós (que vivemos na era do alphabeto) inesthetica fórma do livro que ha-de vir.
Quando ella, porêm, se realisar, apenas algumas das obras-primas da humanidade serão transportadas á nova graphia.
E o resto do actual patrimonio bibliographico?
Será considerado, por aquelles que usarem correntemente o syllabario phonographado, uma herança archeologica? Um thesouro de eruditos? Uma fórma anachronica da materialisação da palavra? Uma quasi enigmatica escripta cuneiforme?
É difficil atravessar com a vista algumas camadas de tempo, e poder futurar o que será a litteratura d’aqui a mil annos.
É certo, porém, que no homem ha-de haver sempre, cumulativamente com o anceio de novas conquistas, a curiosidade retrospectiva, o culto do passado.
E por isso é de crer que os netos dos nossos netos, querendo reconstituir o viver da antiguidade nos tempos em que se lia pelo alphabeto, deitem mão d’esses objectos, que para elles serão de curiosidade archaica a que seus avós chamaram--livros.
A esse tempo a livraria terá já perdido o seu caracter de ser vivo (pois uma bibliotheca é como um animal cujo organismo se renova incessantemente) e será um museu, como todos os museus, cemiterio de arte, sarcophago onde se conservam, como cadaveres, os objectos curiosos, que as passadas gerações nos legaram.
Para que essa herança preciosa se perpetue, ou para que, pelo menos a sua força, se prolongue por largas centenas de annos, devem tender os esforços d’aquelles que deveras amam o livro.
Por isso as sociedades dos bibliophilos têem na vida dos povos uma missão conservadora de incontestavel alcance, tanto mais benefica, quanto mais valiosos forem os monumentos a que o seu amor vigilante se applique.
A bibliographia portugueza é rica e gloriosa.
Patriotica e util é, portanto, a missão d’aquelles que--amadores, colleccionadores de livros e estampas, ou curiosos de bibliotheconomia, iconographia e artes subsidiarias do livro--se juntaram sob a invocação do venerando patrono Barbosa Machado. Com nenhum outro nome podia melhor baptisar-se esta prestimosa Sociedade, do que com o do erudito abbade de Sever, pois que, assim como elle, fundando a sua _Bibliotheca Luzitana_, assentou as bases da nossa bibliographia e nos legou um thesouro de conhecimentos inestimavel, assim os esforços d’esta Sociedade tenderão a conservar, para os tempos que hão de vir o patrimonio da _Bibliotheca Portugueza_.
NOTAS DE RODAPÉ:
[2] Prefacio do primeiro numero do Boletim da Sociedade de Bibliophilos Barbosa Machado.
RAMALHO ORTIGÃO
SUMMARIO
A sociedade portugueza de então--O Paço--A Thebaida da Ajuda--A casa de Castilho--O hotel de Rambouillet na Rua Formosa--Casa dos Ficalhos nos Caetanos--S. Carlos--O Chiado--As Camaras--A Academia--Os ataques de Ramalho--Piparotes na burguezia macaqueadora--Os vencidos--Soldado e monge.
«_Celui qui n’a pas vécu en France pendant les années qui précédèrent la Révolution, ne sait pas ce que c’est que la douceur de vivre_».
Isto, ou cousa semelhante, affirmava Talleyrand, Principe de Benavente, aquelle que atravessou uns poucos de regimens, sempre na primeira fila, onde melhor podia satisfazer as tendencias das suas faculdades estheticas e as exigencias do seu requintado sybaritismo.
Entre nós, outro tanto se poderá avançar de quem não tiver vivido nos ultimos decennios do seculo XIX.
Sem curar agora de esboçar um quadro synoptico da vida portugueza n’esse periodo, nem de analysar a politica, as finanças, as relações internacionaes, que absorveram a attenção de estadistas, de diplomatas e dirigentes de collectividades, demos o braço ao forasteiro que, vindo de fóra, encontrasse em Lisboa, esse conjuncto composto de algumas dezenas de pessoas, a que se convencionou chamar: _a sociedade_.
Não _sociedade_ apenas no sentido restricto das listas que enchiam a secção do _High-Life_ no _Diario Illustrado_, ou o _Carnet mondain_ nas _Novidades_ e no _Tempo_, mas esse organismo que funcciona em todos os agrupamentos civilisados, constituindo o seu escol, e que entre nós (sem atendermos agora a exigencias de synchronismo) vae desde a côrte, em que El-Rei D. Luiz, academico e homem de lettras traduz Shakespeare, e a Rainha D. Maria Pia, que deslumbrára as Tulherias com a sua distincção, resuscita em Ajuda galas de outros tempos; em que El-Rei D. Carlos, homem de sciencia e artista, produz os memoraveis trabalhos de oceanographia e ornithologia e concorre ás exposições com paysagens e _marinhas_ cheias de luz e côr, e a Rainha D. Amelia funda instituições de beneficencia e emprehende com o seu lapis o catalogo de objectos de arte antiga, que se encontravam dispersos em cathedraes, conventos e museus; e em que El-Rei D. Manuel preside, ainda muito novo, á Academia Real das Sciencias e toma parte activa nas sessões; até ás festas, bailes, paradas, serões d’arte onde todas as elegancias brilham, onde ha mulheres formosas, que são intelligentes, e homens sisudos, que são mundanarios.
Tomemos o braço d’esse peregrino, extranho ao nosso mundo, mas curioso d’elle, e percorramos em sua companhia estancias várias.
Entremos de improviso na austera Thebaida da Ajuda, e alli encontraremos Alexandre Herculano escrevendo, como monge erudito, a sua _Historia de Portugal_, ou evocando no _Monasticon_ figuras de intensa vida, emquanto palestram, no desfastio dos frugaes pospastos, Bulhão Pato, discipulo dilecto, e outros que já hoje se abrigam «á sombra dos cyprestes».
Mais lá adeante, alli em S. Francisco de Paula, penetremos na casa patriarchal de Castilho, o mestre do verso castigado, que, na sua cegueira luminosa, enrolando com os dedos torcidas de papel, vae iniciando na _Arte_ o filho bem dotado, ou escuta com desvanecimento a voz harmoniosa de Thomaz Ribeiro, que lhe recita os primeiros cantos do _D. Jayme_, com os quaes traz uma nota inédita ao lyrismo portuguez.
Subamos depois as escadas do palacete da Rua Formosa, onde D. Maria Kruz recebe, como na sala azul d’um novo _hotel de Rambouillet_, a fina flôr e a nata da intellectualidade do seu tempo: Garrett, janota, disfructando a plena aura do principado das lettras e favoneiado pela sua nomeada romantica; José Estevam com a sua facundia grandiloquente, enthusiasta, exhuberante; Casal Ribeiro, de sorriso ironico, pequena estatura, grande cabeça, maior talento; Fontes, o estadista mais representativo do systema representativo; Rebello da Silva, que entrançára já na corôa de louros, ganha com os seus trabalhos historicos, a _Mocidade de João V_; Andrade Corvo, homem de sciencia, que interessava as leitoras de romances com o seu _Anno na Côrte_.
Avancemos pela calçada dos Caetanos, até casa dos Ficalhos, onde a Condessa, seguindo as tradições maternas, e o Conde, a mais completa individualidade do seu meio--homem de sciencia, homem de lettras, homem do mundo--acolhem, tempo depois Antonio de Serpa, que transita, com o espirito sempre moço, d’aquella sociedade para esta, e vem camaradar ainda com a garrula precocidade tão promettedora de Carlos Valbom; com o engenho pluriforme de Oliveira Martins; com a espiritualidade zombeteira de Eça de Queiroz; com a perspicacia diplomatica de Luiz Soveral sempre monoculisante; com o talento polytypico de Carlos Mayer; com a gloria já consagrada de Guerra Junqueiro, o poeta; com a sociabilidade communicativa de Bernardo Pindella, privilegiado da natureza e _enfant gaté_ de todas as salas.
Caminhemos mais e paremos em S. Carlos nas noites de gala (um deslumbramento!) ou nas de simples recitas, e alli encontraremos em cada camarote nomes que significam alguma coisa.
Ouviremos recordações dos tempos de Farrobo, das festas das Larangeiras, e, por uma associação de ideias, das dos Marquezes de Vianna, de Penafiel, dos Palmellas, ou no Calhariz, com as representações da _Sobrinha do Marquez_, ou no Rato, com as do _Marquis de Villemer_... E entrando n’esse palacio do Rato percorramos o _atelier_ da Duqueza tão inspirativo d’arte e opulento de maravilhas; e as salas onde os retratos de Lawrence sorriem acolhedores; e a casa de jantar onde as ceias em honra da Duse e de Sarah Bernhardt eram espiritualisadas pela conversação de Maria Amalia Vaz de Carvalho, de João da Camara, de Mousinho de Albuquerque, de D. Antonio de Lencastre.
Desçamos depois o Chiado em tardes alegres de inverno, quando a tafularia fervilha em busca de modas novas na Aline, ou de commoções mysticas nas conferencias religiosas dos Martyres, e emquanto grupos no seu lazer meridional, ás portas das tabacarias e livreiros, observam as mulheres que passam ou paroleiam sobre os casos do dia.
E n’esses grupos veremos Antonio Ennes depois de acabar o artigo para o _Dia_; Gervasio Lobato--o Labiche portuguez--; Sousa Viterbo que, apesar de erudito e investigador, aprecia o modernismo e vae á livraria Gomes buscar ferramenta litteraria; José Antonio de Freitas, culto espirito de lettrado, e fluente conversador, que informa ácerca dos ensaios, em D. Maria, da sua traducção do _Hamlet_; e Alberto Braga, que justifica a sua reputação de cavaqueador inegualavel.
Passemos depois na Avenida entre as olaias em flôr quando pela tarde se cruzam equipagens de luxo, e cavalleiros em _puros-sangues_ acompanham amazonas irreprehensiveis, que por vezes são a Rainha D. Amelia, a Condessa de Paris, a Princeza Helena, futura Duqueza d’Aosta.
Avancemos até ao Campo Pequeno e alli podemos ainda assistir a algumas touradas vistosas, das que fazem lembrar as do Castello Melhor e as do Vimioso.
Retrocedamos agora e vamos ao Parlamento. Nos Deputados discursa, manejando cifras com a clareza de um professor e a habilidade de um algebrista, Marianno de Carvalho, mathematico e politico.
Na dos Pares escutaremos, n’um assombro, a voz de Antonio Candido, que dá á tribuna portugueza a magestade da eloquencia atheniense.
Vamos depois alli perto a Jesus, á Academia Real das Sciencias, onde authenticos Principes de Sangue confraternizam com os Principes da Sciencia e das Lettras que são Latino Coelho, Thomaz de Carvalho, Pinheiro Chagas o Conde de Ficalho. E, se atravessarmos as ruas da Baixa, talvez vejamos maravilhados passar alguns d’aquelles cortejos deslumbrantes em que os coches de D. João V, bamboleando-se suspensos em corrêas, ou as lindas carruagens amarellas de gala á ingleza, transportam Soberanos, Princezas formosas e as suas Damas emplumadas...
Sem pretendermos alongar este escolio e sobrecarregar demasiadamente a nomenclatura, recordemos que n’essa sociedade dos ultimos sessenta annos, havia grandeza, intellectualidade, elegancia, brilho, movimento, tudo o que seduz, e attrahe e encanta, tudo o que causa _la douceur de vivre_.
* * * * *
Foi esse o meio que Ramalho veiu encontrar em Lisboa, que logo captivou as suas tendencias e em que foi acolhido com agrado.
O seu espirito apetrechado para a critica dos costumes com uma intelligencia sã, um grande poder de ironia, um engenho independente, uma luneta de vidros ampliadores, e uma mochila recheiada de factos, de phrases incisivas, de piparotes petulantes, de dardos ligeiros, e beliscões travessos, não se voltou contra essa sociedade, _frondeur_ ou juvenalesco, como muitos querem assacar-lhe, vendo nas suas obras contradicções e incoherencias.
Não! O que elle atacou de frente foi outra classe, que junto a esta vivia, por um phenomeno de superfetação social. Ridicularisou as rodas em que meninas olheirentas e homens casposos, de unhas sujas, arremedavam os grandes modelos romanticos, deformando-os com sentimentalismo réles: deu palmadas nos ventres venerados de personalidades balofas; troçou da burguezia macaqueadora das raças velhas, de quem usurpára corôas e brazões; espetou com alfinete escarninho os balões assoprados pelo charlatanismo indigena; caricaturou graves personagens conselheiraes, e envolveu n’uma surriada devastadora tudo o que era postiço, falto de valor moral e de sinceridade.
A par d’isto prégou hygiene a uma geração que a ignorava. Ensinou a ensaboar muitos corpos faltos de limpeza. E, com aquelle poder de suggestão, que era uma das qualidades do seu talento, quantos banhos frios elle fez tomar no pino do inverno a pobres rheumaticos, que depois da leitura das _Farpas_, obedecendo submissos aos mandamentos do apostolo, iam tiritantes, sacrificar-se sob a chuva de _douches_ matinaes!
Quanto fato talhado á ingleza appareceu, com o seu exemplo, substituindo janotismos pretenciosos em corpos de peralvilhos!
E a quantos pés atormentados em escarpes e botas _afiambradas_ o seu andar, pisando bem, ensinou a calçar sapatos folgados de sola grossa!
Pôs á moda ser lavado e ser alegre. O seu rir tinha mais de Rabelais que de Voltaire.
Poz isso o trabalho demolidor de Ramalho não foi dirigido contra o edificio do Portugal antigo (então ainda de pé) cujas linhas architectonicas de magestosa grandeza a sua alma de artista enternecidamente amava.
Os projecteis, feitos de critica, que as catapultas da sua prosa arremessavam eram sobretudo destinados ás camadas de mediocres, que mascaravam, com jactancia pedantesca a fachada do monumento lusitano.
Estudando a distancia a sua obra descobre-se melhor a flexuosidade regular das linhas, a pureza dos contornos, a harmonia do conjuncto.
Ha mais unidade entre as primeiras e as ultimas palavras de Ramalho, que nas obras de muitos, que se affligem com as suas contradicções apparentes.
Se por vezes os tiros disparados no calor da refrega iam ferir homens ou corporações, que a sangue frio preferiria poupar, logo, com a lealdade dos fortes e das consciencias limpas, tratava de encontrar remedio para o desprazer causado.
Não se chama a isto incoherencia, chama-se honradez de processos.
As duas feições que melhor caracterisam a personalidade de Ramalho Ortigão, mais que a sua philosophia, mais que a viveza dos seus apodos e a crueza dos seus sarcasmos, eram: a sensibilidade do artista e a sua envergadura moral.
A melodia cantante e a limpidez espelhada da sua prosa; a cadencia dos periodos nas demonstrações eloquentes; a luz e a côr que iluminam as suas paysagens; a potencia visual nas descripções; o geito com que ductilisa a syntaxe por vezes hirta da lingua portugueza; a vibratilidade perante os aspectos do mundo externo e a força virtual na transmissão de impressões; a capacidade de captar com delicia todas as manifestações da arte e da natureza, e a faculdade de as transformar em obras-primas de graça no dizer, são qualidades que fazem de Ramalho um dos mais perfeitos cultores do verbo portuguez.
Mas a par d’estes predicados, e sobranceiramente a elles, avultam as linhas nobremente simples do seu caracter integro.
Por isso sentia a alegria de viver, revelada n’uma perfeita saúde de alma independente, sempre alheia a intrigas de partidos, a bisbilhotices de conventiculos, a enredos de facções, a parcialidades de seitas, a invejas de corrilhos.
Orgulhoso da sua penna, manejava-a com a elegancia d’um mosqueteiro seiscentista de capa e espada, ostentando no sombreiro de aba larga a pluma tremulante de generosas illusões, nascidas na sua perenne mocidade.
* * * * *
De uma das vezes que um grupo de amigos a que Ramalho pertencia, e que se reunia periodicamente, ora no Hotel Bragança, onde a garrafeira era famosa, ora debaixo das latadas verdejantes da «Perna de Pau», uma horta afamada dos suburbios de Lisboa, e durante um dos repastos, cujo fim principal era cultivar a planta rara de uma camaradagem isempta de outros interesses que não fossem o convivio espiritual e o despretencioso commercio de ideias, trocadas á medida que iam borbulhando nas nascentes, sem preoccupação de litteratice ou emphasis academica, Oliveira Martins, por quem então a aza da politica ainda não tinha roçado, conservava-se callado e alheio á palrice geral.
Era assim ás vezes o _Philosopho_, como amigavelmente os do grupo lhe chamavam, admirando-o e venerando-o como _Sabio_ na dupla acepção d’esta palavra, isto é: homem de _Sciencia_ e possuidor de _Sabedoria_.
Se os seus silencios eram acatados, a sua palavra era escutada com carinhosa attenção. N’esse dia, despertado por um pendor da conversação, começou a discorrer ácerca da intoxicação das almas pelos venenos distillados com a faina excitante da vida moderna, toda cheia de luctas de interesses, de combates de opinião, de ancias de subir, de _struggleforlifismo_.
E depois, com aquelle inclinar de cabeça que lhe era proprio, ia demonstrando como a Egreja Catholica, sempre previdente em armazenar confortos espirituaes, soubera encontrar o remedio para retemperar cerebros e vigorar animos atacados da nevrose da vida agitada; aconselhando o isolamento individual, ou collectivo na contemplação e contacto directo com a natureza.
E então, entre sério e risonho, suggeria, que, semelhantemente, como prophylaxia moral para o grupo, e tonico efficaz para cada um dos seus membros, realisassemos um _retiro espiritual laico_ na solidão da serra da Arrabida.
A alma de poeta de Oliveira Martins, o seu mysticismo sonhador, o seu desdem pelo vulgo e pela Deusa _Banalidade_, davam-lhe a faculdade de considerar realisavel este projecto, embora proposto com sorridente falta de confiança na vocação dos eleitos. Com o leve pessimismo que melancholisava a sua concepção da existencia, trazia desde já para designar a _comunidade_ aquella formula então para alguns inexplicada--Os _vencidos da vida_.