Part 16
Desde a noticia sobre a familia em que nasceu, até ao ultimo capitulo em que faz um apanhado sobre o homem e o escriptor, os seus amores e a sua descendencia, o auctor do ensaio vae seguindo com minuciosa attenção cada um dos trabalhos litterarios do prodigioso polygrapho, tirando d’elles preciosos dados para a sua biographia e para a analyse psychologica da sua interessante individualidade.
Os capitulos sobre o exilio no Brazil; sobre as viagens; sobre a «academia dos generosos», em que ha a curiosa relação dos certamens, e a lista dos socios; sobre as negociações para o casamento de D. Affonso VI e sobre a morte do escriptor, encerram paginas não só de biographia, mas de historia.
E dos documentos que são annexos ao volume, alguns ha bem curiosos, como aquelle que testemunha as relações de D. Francisco Manoel com o Governo hespanhol logo depois da Restauração, e que tanto fazem meditar sobre a concepção de patriotismo n’aquelle turvado periodo. Augmentam esses documentos o valor da obra, e tiram-lhe todo o caracter de panegyrico, pois não poupam o espectaculo de algumas mazellas espirituaes.
O ensaio biographico está destinado a ser não só o breviario de todos aquelles que quizerem conhecer D. Francisco Manoel de Mello, mas a formar a base fundamental do monumento que é devido ao inconfundivel escriptor.
* * * * *
Esta obra faz cahir o véo de sobre alguns pontos escuros e duvidosos da vida de D. Francisco Manoel, e, por engenhosas e rebuscadas conjecturas, encaminha o espirito do leitor a hypotheses provaveis. Mas não tem pretenção a desvendar de vez muitas das circumstancias em que está envolvida a existencia do interessante vulto seiscentista, nem dissipar por completo essa nebulose que nunca se esfarrapará em volta do nome prestigioso do escriptor.
No frontespicio de muitas das suas obras figura a enygmatica palavra: «Quare?»--«Por que?»
A concisão com que é feita essa pergunta encerra um mundo de interrogações, que dão á figura de D. Francisco Manoel de Mello juntamente com a poesia do infortunio, a poesia do mysterio.
ANTONIA RODRIGUES
AMAZONA DE MAZAGÃO
SUMMARIO
A Veneza Luzitana é seu berço--Vinda para Lisboa--Educação livre--Repressões--Revolta--Partida para o desconhecido destino, Mazagão--Annos de serviço militar--Galanteios de ambos os sexos--A Donzella que vae á guerra--Confissão inesperada--Desposorios--Regresso ao Reino.
Em Aveiro, a linda _Veneza luzitana_, nasceu, a 31 de Março de 1580, Antonia Rodrigues, que havia de dar brado no seu tempo.
O pae, Simão Rodrigues, mareante de profissão, passava a vida laboriosa no mar, embarcado nas galés, que, ou partiam com longinquo rumo, carregadas de sal, para o ultramar, ou se dirigiam aos bancos da Terra Nova, á pesca do bacalháo, ou iam seguindo a costa, em busca de acasos raramente lucrativos.
A mãe, Lianor Diaz, mourejava para ajudar o sustento da familia. Casara a filha mais velha, que logo partira para Lisboa.
A pequena Antonia herdara do pae, e talvez dos remotos avós, phenicios ou celtas, que n’aquellas paragens tinham abordado em passadas éras, a attracção pelo desconhecido, e o animo resoluto, avido de aventuras. Quando bebia na aragem, que vinha dos lados da barra, cem as emanações salinas, o philtro mysterioso, que impelliu os nossos navegadores para a conquista do mundo, sentia ferver-lhe tumultuosamente nas veias o sangue. E pelos minusculos canaes da _ria_, que serpenteava na planicie, ou pelas estreitas viellas da antiga villa, lá ia de envolta com a garotada turbulenta em perigosas excursões sobre jangadas improvisadas, ou em luctas monumentaes de pedrada. Era o tormento da mãe, que não podia domar aquelle pequeno animal bravío. Era o enlevo do pae, que, nas occasiões em que não embarcava, se revia na filha, quando ella partia, já dominadora, commandando o infantil exercito, ou organizando giganteas partidas de jogo de _barra_, em que se distinguia, apezar da edade, por ser dextra e agil.
A vida, porém, corria difficil para a familia. Os invernos quasi haviam atulhado de areia a barra, e a navegação fôra perjudicada com esse impedimento. Os canaes transformados em paúes tornaram-se estereis e doentios. Nas marinhas diminuiu a producção do sal, e por pouco não se extinguiu a industria da pesca. A villa, agora insalubre, ia-se despovoando pouco a pouco.
O antigo embarcadiço sentiu de perto a miseria. Foi então que sua mulher, a valorosa Lianor, resolveu levar a pequena Antonia para Lisboa, onde a outra filha se estabelecera. Afigurava-se-lhe que o genio indomito d’aquelle seu rebento meio selvagem, se disciplinaria melhor longe das complacencias do pae, e no contacto da gente da capital, mais polida de maneiras, que os miseraveis habitantes da decadente Aveiro.
O certo é que, pelos annos de mil quinhentos e noventa e tantos, metteram-se as duas a caminho, arrostando com as difficuldades e perigos d’uma viagem, tão arriscada n’aquelles tempos, quer por mar, onde os corsarios inglezes e hollandezes atacavam as embarcações mal defendidas, quer por terra, onde os ciganos aos cardumes surprehendiam os viajantes nas estradas, e até nas albergarias, ou dependencias de conventos em que pousavam.
Vieram encontrar Lisboa bem diversa das pinturas com que lh’a haviam figurado--primeiro ruidosa, festiva, brilhante, quando fôra da expedição para a Africa com D. Sebastião e a flor da nobreza; depois amargurada, deprimida, orphã de Rei e de côrte, quando da morte do Cardeal D. Henrique; depois ainda tumultuaria, nervosa, excitada por occasião da phantasmagorica acclamação do Prior do Crato; finalmente, galvanizada, com a organização e preparativos da partida da _Invencivel Armada_, para a qual tinham dado:
«Naples ses brigantins, Cadix ses galions Lisbonne ses marins, car il faut des lions».
Na Lisboa onde entravam, respirava-se agora a atmosphera soturna das povoações subjugadas, sentia-se a tristeza apagada de uma terra de provincia, votada ao desdem pelo poder central.
O Palacio Real fechado, depois da partida do Vice-Rei, Archiduque Alberto, era na sua mudez taciturna a imagem do Portugal de então.
* * * * *
A filha mais velha de Lianor Diaz acceitou a missão de hospedar a irmã, o que não foi pequeno encargo para uma, nem grande motivo de regosijo para a outra.
A mais velha era azeda e violenta de genio. Pretendia governar com aspereza a rapariga que, passando já dos doze annos, manifestava cada vez mais o seu espirito de independencia, andando a flaino pelas congostas da antiga Alfama; subindo perto do Castello, d’onde enxergava ao longe o Tejo, que lhe avivava saudades da sua Costa Nova; renovando com a gaiatada do largo de S. Christovão e das Cruzes da Sé as proezas de Aveiro.
Eram então grandes partidas do jogo do _pião_, do _homem_, da _laranjinha_, do _pegochuna_, da _cunca_ e sobretudo da _barra_, em que a rapariga revelava especial destreza e habilidade, como para todos os exercicios a que os Inglezes dão o nome generico de _sport_, vocabulo que os modernos lexicographos traduziram por _desporto_, palavra cuja significação é antes _folgança_, que _jogos athleticos_.
Outras vezes a pequena Antonia deitava até á Ribeira das Náos, onde se quedava pasmada, admirando toda a faina maritima, que ainda alli era muita, a despeito da progressiva decadencia, que a acção do Governo hespanhol ia tornando cada vez mais sensivel.
Ainda alli se construiam galeras, carracas, fustas e caravellas; ainda alli se carregavam as embarcações, que levavam homens e mantimentos para as nossas possessões, ainda alli se apparelhavam as armadas que iam a combater, e se descarregavam as que vinham da India com especiarias.
Estas excursões pouco proprias de uma rapariga que ia entrar n’uma puberdade promettedora; cujas fórmas começavam a desenhar-se em linhas felizes; e a cujo caminhar cadenciado os exercicios physicos tinham dado uma elegancia especial, não agradavam á sizuda e rebarbativa irmã primogenita.
Começaram então os reparos, as prohibições, as repressões, que em vez de alcançarem o recato e a compostura requeridas, mais excitaram no animo da insubmissa Antonia o espirito de revolta.
Ás recriminações da sensatez, correspondiam os impetos insubordinados.
De um lado o resguardado viver no interior da habitação lisboeta da edade média, com as gelosias de rotulas cerradas, e adufas cahidas, na qual a femea semi-arabe, ancilla enclausurada tradicionalmente, fiava durante as horas da sésta, até que entre lusco e fusco sahia a pedir ás visinhas lume para apromptar a ceia do marido, e a depenicar um pouco na reputação alheia; do outro lado a alma celtibera, impetuosa e independente que destroça cadeias, e rompe preconceitos, que é ciosa de emancipação individual, que se governa a si propria, indomavel, e que se encarna nas figuras de Brites de Almeida, a lendaria padeira de Aljubarrota; em Izabel da Veiga a heroina de Diu; em Filippa de Vilhena e Magdalena de Lencastre, as matronas da restauração; na filha do cosmographo Pedro Nunes, a freira de Coimbra; e em nossos dias n’uma neta de Vasco da Gama, cujo nome de Constança é já glorioso.
As duas irmãs representavam as qualidades typicas da mulher portugueza da pequena burguezia n’aquella quadra--a que, educada no recato moirisco, tinha a existencia quotidiana limitada pelo horizonte da sua rua, e as aspirações reduzidas a ver passar de anno a anno as pompas do «Corpus Christi»; e a que, deslumbrada com as aventuras narradas pelos capitães de navios, que regressavam de remotas paragens, sonhava com os explendores do Oriente, com os jardins de Ceuta, com os dramaticos encontros com piratas no alto mar, e com os cercos famosos das fortalezas da Africa e da India, em que as mulheres representavam por vezes tão insigne papel. Com estas narrativas de epopeia e miragem de riquezas, começava a levedar na alma da rapariga a aspiração de emigrar em companhia dos que partiam...
D’esta antinomia de caracteres havia de nascer necessariamente um conflicto de vontades. A mais velha, exigente e escudada com a razão, impunha recolhimento; a mais nova resistindo, proclamava emancipação. O resultado não se fez esperar.
Uma manhã Antonia enfiou na cabeça o seu capello, alforjou no bolso de briche o pequeno peculio que a mãe lhe deixára; e eil-a ahi vae pelas tortuosas quelhas em direcção á rua dos mercadores de fato feito e roupavelheiros, á porta dos quaes se penduravam, balouçando ao sabor do vento, casacos, vareiros alcatroados, e calçotas oleadas dos pescadores da Costa. Alli ajustou um «vestido conforme ao trajo dos moços que vivem no mar em navios mercantes» e munida de uma thesoura dirigiu-se para o campo, fóra de portas. Não ficava n’esse tempo longe para qualquer dos lados, pois Lisboa ainda estava quasi toda encerrada nas muralhas de D. Fernando.
Sahindo pelas portas da Trindade, logo alli achou perto de Santa Catharina o que procurava, isto é, um lugar escuso onde, depois de cortar o cabello despiu o trajo de mulher e envergou o de grumete. Desceu então pelo corrego junto da muralha, e vindo dar ao _Cata-que-farás_ dirigiu-se á Ribeira, perto das _tercenas navaes_.
Fervilhavam-lhe no cerebro projectos arrojados, atravessavam-lhe a alma de creança rajadas de emancipação.
Chegando á praia encontrou o formigueiro humano em plena actividade. Calafates e carpinteiros de machado trabalhavam nos arcabouços de pequenos bateis destinados á navegação costeira, emquanto outros alcatroavam os bojos de galeras inclinadas. Regateiras açodadas, confundindo os seus prégões com a algaravia da marujada, offereciam fructas, bebidas, frituras de peixe salgado. Alguns da soldadesca dos terços resmoneavam, queixando-se de serem mal pagos, e substituidos nas fortalezas de Cascaes e Setubal por guarnições hespanholas. Por entre a arraia alguns vultos embuçados em seus gibões, maldiziam dos vexames dos Castelhanos ou dos senhores governadores do Reino, e suspiravam olhando para os lados da Barra, em cata de um galeão phantastico, que lhes havia de trazer o _Encoberto_, o Rei legitimo, o _desejado_ D. Sebastião...
Mas logo se calavam olhando desconfiados em redor não fosse algum esbirro denuncial-os, e dar que fazer á corda com que fôra enforcado o _Rei da Ericeira_, á galé em que se sumira o _Rei de Penamacor_, ou ao garrote com que Filippe II engravatou o _Pasteleiro de Madrigal_.
Carregadores espadaudos, transportando fardos de mercadorias, eram seguidos por mendigos andrajosos, que procuravam na peugada bagos de trigo esvasiados dos saccos mal compostos, ou sardinha petinga, escapada das canastras abarrotadas. Marinheiros mercenarios concertavam com os capitães de navios mercantes as soldadas de futuras derrotas. Outros embarcadiços preparavam-se para a largada.
Entre estes, o mestre de uma caravella carregada de trigo, prestes a partir, lamentava-se de que á ultima hora lhe desertára um grumete, que lhe fazia grande falta na viagem.
Antonia ouvindo a queixa sentiu-se tocada pelo destino, e obedecendo a uma força irresistivel, offereceu-se para substituir o marinheiro remisso. O mestre da galera olhou-a sobranceiro e desdenhoso. Parecia-lhe atrevimento do franganote. Quem lhe garantia as aptidões do rapaz? Hesitava.
O marujito, porém, inculcou-se como sabedor da arte de marear, e prompto para qualquer mister.
O capitão achou esperto o pimpolho, leu-lhe nos olhos vivos determinação e arrojo, e impellido pela urgencia determinou-se a engajal-o.
Partiu a caravella com rumo a Mazagão.
Durante a viagem tudo correu á maravilha. O novo grumete, activo, desembaraçado e agil, causava o espanto da tripulação pela fórma como realizava as manobras e serviços de bordo, trepando pelos mastros e tomando as velas, talvez por invocar reminiscencias do officio paterno, e a pratica das suas proezas na ria de Aveiro. Sempre álerta, era o primeiro arriba ao toque de alvorada, e á noite o ultimo a recolher. Dormia a qualquer canto do porão embrulhado no varino. E era tanto o seu recato, que os companheiros de camarata nunca suspeitaram o seu sexo.
É vulgar este contraste apparente entre uma grande desenvoltura de maneiras e a fundamental honestidade no viver. Não é rara tambem a inversa.
Entre as borboletas loiras, que esvoaçam em volta das lampadas electricas de Leicester Square em Londres, ha expressões virginaes, olhos azues cheios de innocencia, sorrisos ingenuos que se transformam em espasmos lubricos apenas se vendem por alguns _schillings_. Em compensação quanta _manola_ sevilhana se pavonea no passeio das _Delicias_, de cigarro ao canto da bocca e punhal na liga, que não consentiria sequer que um atrevido esboçasse o minimo gesto de familiaridade equivoca.
A mulher de Claudio tinha no rosto as linhas hieraticas da sua dignidade imperial, e comtudo, chegada a noite, prostituia-se nas alfurjas de Roma, tornando um symbolo o seu nome de Messalina. Ao contrario, Jeanne d’Arc cavalga escarranchada e vestida de homem á caça de Inglezes nos campos de Patay, dorme nos arraiaes, de conserva com os arcabuzeiros de Carlos VII, e sahe pura, virginal, intemerata de todas as promiscuidades perigosas.
Assim a nossa heroina.
A pureza do seu espirito, a castidade do seu organismo preservam-n’a de avaria no contacto com a marujada, e nas intimidades do dormitorio.
Alma e corpo atravessam immaculadas as concupiscencias dos rudes mareantes.
Passaram dias. A travessia n’aquelle tempo, embora o barco fosse veleiro, era demorada. E a derrota não isenta de perigos n’esses mares infestados de piratas mouros e christãos. O capitão porém era homem de longa pratica, muito saber e prompta resolução. Entretanto havia nas suas maneiras dubias qualquer cousa que inspirava desconfiança a Antonia. A sua perspicacia teve ensejo de apurar-se na forçada convivencia de bordo e o seu faro não a enganava, como veremos.
Aproaram emfim a Mazagão, cuja fortaleza e casaria branca o pequeno grumete, trepado á verga da sobre-prôa, foi o primeiro a signalar.
* * * * *
Tinham os Portuguezes aportado alli em 1502 (havia quasi um seculo) e logo edificaram um castello no sitio em que existia uma torre. Mais ao deante, quando o Duque de Bragança D. Jayme voltou da sua expedição famosa da tomada de Azamor, que fica d’alli duas leguas, tão boas informações deu a El-Rei D. Manoel sobre a excellente bahia e amenidade do sitio, que logo este resolveu mandar para alli o architecto João de Castilho, o Velho, que, levando operarios e materiaes, entrou a construir a cidade.
Asturiano de nascimento, mas Portuguez de coração, o talentoso artista dotou a sua patria adoptiva de formosos monumentos. Compoz em pedra alguns dos mais bellos poemas da arte manuelina. Foi o auctor das abobadas e pilares do Cruzeiro dos Jeronymos em Belem; foi o mestre das obras da Batalha por morte de Matheus Fernandes; e foi-o tambem das obras reaes no Convento de Christo em Thomar. Poeta na architectura, lança ainda uma projecção luminosa sobre o nome de dois vultos eminentes no patriciado das lettras portuguezas--os dois Castilhos nossos contemporaneos.
Em 1543 João de Castilho, depois de ter estado em Arzila, parte para edificar a praça de Mazagão e delinear a cidade, que ainda hoje conserva tantos vestigios do dominio portuguez.
Poz n’esse trabalho toda a sciencia que exigia a construcção d’uma fortaleza a cada passo atacada pela moirama, que vinha aguerrida e cheia de sanha em tentativas de vingança assediar esse porto portuguez. E poz nas construcções toda a arte com que o seu genio se enriquecera em Italia, então em plena explosão de Renascença. Os baluartes, as bombardeiras de onde a grossa artilharia de bronze vomitava granadas em occasião de ataque, as seteiras dos parapeitos, as ameias ao longo das muralhas, a ponte levadiça sobre as fundas cavas, davam á curiosa fortaleza não só a segurança requerida, mas a elegancia, que caracteriza as construcções do nosso periodo aureo, tão lindamente manifestado na Torre de Belem.
Ás habitações da cidade João de Castilho deu a graça da sua arte, e as commodidades exigidas pelas condições sociaes dos moradores--ou gente da nobreza e familias da guarnição que da metropole tinham vindo acompanhar os seus parentes, ou mercadores que ensaiavam o trafico nos raros intervallos da paz.
Mazagão ficou assim constituindo um dos pontos fortificados d’essa costa de Africa ao longo da qual Ceuta, Tanger, Arzila, Azamor, Zafim serviam de theatro ás façanhas dos fidalgos, que alli iam ganhar as suas esporas de oiro, antes de passarem á India. Impellidos por esse espirito de cavallaria andante, que caracteriza grande parte da nobreza n’aquelle declinar da Edade Média, muitos faziam d’essas praças de Africa a sua escola de guerra. Em cada uma punhados de bravos arriscavam quotidianamente a vida em correrias, rechaçando com valentia os marroquinos que vinham de Fez, e colhendo, além de gloria, rebanhos de gado. Não era raro tambem aprisionarem formosas moiras, que traziam captivas ás suas noivas, ás suas mães, e ás suas damas, que as tomavam como escravas.
Não foi, porém, só de cruezas feita a epopeia de Portugal em Africa. Então, como agora, a par das brutalidades proprias da guerra, e da braveza com que o animal humano ataca o seu adversario, creaturas de bondade attenuavam com mãos piedosas os horrores da chacina. Assim o mostra o episodio passado em Alcacer--Ceguer no meiado do seculo XV, em que D. Izabel de Castro, Condessa de Vianna, esboça um movimento humanitario, que se torna um embrião da moderna Cruz Vermelha.
A mulher de D. Duarte de Menezes foi uma precursora das heroicas enfermeiras que, abandonando as frivolidades de uma vida de prazer, os confortos de uma existencia farta de gozos, e as elegancias, adornos e joias caras, envergam a simples bluza de linho, de que a braçadeira é divisa e galão honroso.
Passou-se o caso quando em 1459 o Rei de Fez resolveu tomar Alcacer, suppondo a guarnição exhausta e o Governador prestes a render-se. Dera-lhe essa esperança uma carta apprehendida no ar, atada ás pennas de uma seta. (N’aquelle tempo a correspondencia entre as praças e os navios era feita, á falta de telegraphia sem fios, por meio de setas). Ora uma, que levava a carta angustiosa de D. Duarte de Menezes, dirigida á caravella do Védor da Fazenda que viera do Reino, e com a noticia da penuria em que se achava, foi colhida por um moiro, e isso resolveu os Arabes a um combate encarniçado, de que afinal resultou a victoria para os nossos. No mais acceso da peleja aconteceu desembarcar, vinda de Lisboa, D. Izabel de Castro, mulher do Governador, com comitiva numerosa. Era a irmã do 1.º Conde de Monsanto, senhora de grande intelligencia e muita auctoridade entre a gente do seu tempo. Foi recebida com enthusiasmo pelos heroicos defensores da praça. E como na refrega muitos tinham cahido feridos, resolveu ella logo organizar soccorros e prodigalizar confortos espirituaes. Conta-o Ruy de Pina na sua chronica quando diz: «... assim pelo reparo que os feridos e doentes em sua cura d’ella recebiam, como pelo favor de suas donzellas com que os fidalgos fronteiros se favoreciam e folgavam melhor de pelejar, porque ella tinha em sua casa gentis mulheres filhas de homens honrados que, guardada em tudo a sua honra e honestidade, sabiam bem fallar e tratar os homens como mereciam». Estava assim esboçada a Cruz Vermelha.
* * * * *
Fechado este parenthesis voltemos á nossa Antonia, que tinhamos deixado abordando a Mazagão como grumete, na caravella carregada de cereaes, onde servia com o nome de Antonio.
Teve então o Governador uma denuncia certificando-lhe «que o mestre da caravella fizera furto e falsidade no trigo que levava». Procedeu-se a um inquerito, ou, como n’esse tempo se dizia, abriu-se uma devassa para averiguar, «tirando-se do caso testemunhas». Uma d’ellas foi o grumete Antonio, que compareceu perante uma especie de conselho composto do governador e alguns magistrados. Logo a todos impressionou a viveza do olhar do marujito, a sua expressão intelligente e decidida, a sua airosa cabeça enquadrada pelo cabello cortado á altura do mento, e aquella apparencia de ephebo, um mixto de escudeiro e de pagem, que lhe dava ao mesmo tempo um ar marcial, e a graça de cortezão.
Interrogado disse a verdade sem rebuço nem receio, a despeito dos olhares minazes do mestre do navio, que esperava assim atemorizal-o.
Não sabemos qual foi a sentença do Tribunal. É porém certo que Antonio revelou tudo, desde as suspeitas, que logo no principio da viagem o tinham assaltado ácerca da honestidade do mestre, até á prevaricação no caso das medidas. O rancor do embarcadiço transudava nos olhos injectados: pelo que não era de invejar a sorte que esperava o intrepido marujo, quando se achasse de novo na caravella á mercê do seu odio.
O Governador da fortaleza não consentiu portanto que o rapaz fosse exposto ás iras vingativas do mareante, e desde logo assentou praça, como soldado, ao grumete Antonio Rodrigues.
Começou elle immediatamente a mostrar a sua destreza no manejar das armas, e quando ia com os outros camaradas ás barreiras e estacadas a todos levava vantagem. Nas ruas e praças publicas, em occasião de exercicios, era tão desembaraçado na esgrima que logo passou a ser notada a sua pericia.
Fallando d’este periodo, diz o chronista seu contemporaneo: «fazia suas vigias de noite sem nunca faltar n’ellas, e com os soldados comia, e se deitava na cama, e dormia entre elles, vestido porém sempre com gibão e ceroulas, que nunca andava sem ellas, por onde não foi conhecido».
Durante mais de um anno fez serviço entre os peões. Mas notando-lhe as qualidades e valor o Capitão encorporou-o entre os de cavallo, dando-lhe soldo e mantimentos como aos outros cavalleiros.
Chegou então o capitulo mais brilhante da sua carreira militar, em que a valentia lhe proporcionou luzentes victorias sobre os moiros infieis, e o seu garbo conquistas sobre os corações christãos.