Chapter 3
Que a minha airosa andaluza como a gazella fugio, se o não disse a casta musa que me inspira, o leitor pio (não ha _calemburgo_ aqui) certo de si para si a crêl-o não se recusa; mas o que o leitor ignora é que eu proprio, eu que ind'agora lhe dissera: _Vae-te embora_, ao vêl-a fugir fiquei triste, só, desamparado como o valido d'um rei quando cae em desagrado!...
Ai! se o pensamento é vário mais varía o coração. Coração--Contradicção-- affirma-me o diccionario que dois synonymos são.
VII
Amar depois que trinta annos nos pesam sobre o cachaço; quando os frios desenganos guias são do incerto passo que nos vae levando á campa; quando a edade a correr vem e nas faces nos estampa oitenta rugas, ou cem! amar sem crenças; amar sem possuir attractivos; é padecer, é penar dôres do inferno entre os vivos.
Sabia-o; mas se fadado fôra eu já para essa dôr! e diz Garrett, o doutor em taes materias versado, que ninguem foge ao seu fado! Funesto foi sempre o meu! Est'alma, que Deus me deu, em quantos affectos nutre que devorou Prometheu!.
VIII
Da rósea estancia em que mora com seu limpido clarão, sorrindo, ao ceu vinha a aurora soltar do prégo as azelhas d'onde pende a escuridão sobre chaminés e telhas.
A festival harmonia pouco e pouco esmorecêra; e co'a luz do novo dia d'outra oschestra a afinação mais altos cantos rompêra, pois que entre os rocios do orvalho levantára escopro, e malho, um hymno de gratidão ao Deus, author do trabalho.
Este aranzel, espremido n'uma phrase clara e chã, quer dizer:--era manhã, e a solfa dos caldeireiros matava o bicho do ouvido na rua Augusta aos parceiros.
IX
Cheguei a casa. Quem ama tambem dorme o seu bocado; nem ha nada como a cama para amor ser bem tratado. Vêde as ratices do mundo! Sentados no mesmo throno amor, que é vida;--e o somno, que da morte é irmão segundo!...
Em tão doloroso trance é praxe no bom romance surgir a pallida insomnia beliscando a cachimonia do que ás paixões não se poupa; mas eu, que sigo outra lei, fui-me enroscando na roupa, e dormi. Fiz mais: sonhei.
Sonhei, sim. O que é sonhar? É fugir do captiveiro d'esta bola sublunar. A noss'alma, que gemia entre os ferros, encontrar a paz, o amor, a alegria, vivo, real, verdadeiro, o mundo da phantasia. É n'um divinal momento conquistar, possuir, haver o que nunca o pensamento, por mais audaz, ousou crêr que um dia á mão nos viria. Sonhar é vêr palpitante a toda a luz da existencia o pae, os filhos, a amante que a morte apartou de nós!
Ouvir-lhes a dôce voz... interromper essa ausencia eterna, a eterna saudade que nos deixára o perdêl-os! Sonhar é esta piedade do ceu pelas nossas dôres; esta mão cheia de flôres que Deus esparge nos gelos!-- Tudo mais são pesadelos.
Pois eu sonhei, e não digo o sonho que tive então. Não por ser segredo, não, que á terra desça commigo; mas quem tem, como eu, vergonha, mesmo ao leitor seu amigo nem sempre diz o que sonha.
X
No outro dia ao almoço, frugal almoço invejado ao pobre e triste empregado a quem aos mezes o Estado permitte rilhar um osso, muitas vezes esbrugado; no outro dia a Gertrudes, velha magra, feia, teza, inda cheia, á portugueza, de calvas e de virtudes, as quentes papas de milho veio pôr-me sobre a meza.
A mim a quem nada escapa logo ali me deu no gôto O vêl-a andar n'um sarilho a peneirar-se, e á socapa sorrindo com ar garôto.
--Gertrudes, que historia é esta?-- E ella a rir. --De que ri?!...-- A rir-se mais. --Temos festa! Vae grande baralha aqui se me não diz, como quero, porque essa bocca escancára, e se desengonça, e rebola... Ella, atalhando: «Salero! Soy, señorito, española!»
Figurem-se a minha cara!! A visão, a Raphaela com quem ha pouco sonhára, o bello typo andaluz, a flôr de um dia... era ella saída das mãos do Cruz![2]
XI
A moral d'este meu conto implica artigos de fé:
1.º
Quem vê masc'ra não vê rosto.
2.º
Belleza vista de dia dê-se-lhe sempre o desconto de trinta por cento em cré.
3.º
Depois do sol se haver posto até a Virgem Maria precisa ser vista ao pé.
4.º
Mesmo assim, inda que perto, não se diga nunca ao certo que se está longe da Sé.
[2] Guarda-roupa.
_AS MINHAS MEMORIAS_
Á Exc.ma Snr.ª D. A. F. Pinto
Nasci. Vivi. Foi meu cruel destino ser inutil, vulgar, emquanto moço. De dôr em dôr, cançado peregrino, chego á triste velhice sem conforto. Nunca pude saber o que era tino, como a bolsa não soube o que é _caroço_.
Quando voltares hei de ser um morto.
_ESTRELLA CADENTE_
Ella não tinha ainda os seus vinte annos. Eu já cincoenta, ou mais. Poucos enganos podia haver na conta. Trouxe-a ao cóllo! Não fôra um pólo em frente do outro pólo; mas, inda assim, contando-se este caso, dir-se-ia ao certo: Era uma vez o Occaso, e era uma vez a Aurora... Não sei como n'um bello dia, por ser vedado o pomo, por ser appetitoso, finalmente não sei porquê!... por eu ser um demente... por ser ella o retrato da que é morta... fosse lá porque fosse!--Isso o que importa n'um bello dia--amei-a!... Uma doença que a gente apanha quando menos pensa.
*
Sorriam de piedade os meus amigos todos á uma, e os novos e os antigos. Nas salas bichanava-se em cochichos: «Ora, o ginja! aparando inda os esguichos com que o _bisnaga_ amor! Atraz da pomba, o perfido lacrau!» Deitavam tromba os outros pretendentes. Um barulho por nada. Então porquê?! Por um arrulho?... Um simples suspirar?... Pois que mau era brotar-me em pleno inverno a primavera?... Durava pouco?... Tanto quanto dura em toda a terra tudo o que é ventura. Engeita-se por isso?... A minha idade?! Fui de Mathusalem socio e confrade. Adão dizia ao vêr-me: _Olá, compadre!_ Contemporaneo eu sou do eterno Padre. Não ha mais nada acima. Querem isto?... O Padre, o velho, foi mais tarde o Christo. Ondas d'amor jorrou d'aquelle peito. Remiu. Salvou. Pôz termo ao longo pleito entre as trevas e a luz, e, porque vinha em nome só do amor, annos que tinha ninguem lh'o perguntou. Sinceramente: ha rugas dentro d'alma?!...
*
Impenitente morrera n'esta fé; sobre o Evangelho jurára que mais ama o que é mais velho; se o ponto da questão, o delicado, outro não fôra; um velho ser amado! Aqui é que me dóe! É necessario primeiro formular um questionario. Menos se quer á flôr, menos se trata, por ser de argilla o vaso e não de prata? Aqui... além... embora onde estiveres... não és, ó flôr, a mesma?... e das mulheres, --não digo já de todas; mas d'algumas-- igualmente o _boudoir_ tu não perfumas?... Não busca asylo a crença, a christandade não presta o culto seu á Divindade no templo secular, de negro aspecto, humida arcada, abobadas por tecto, como na alegre ermida redourada, quente aos raios do sol, sempre inundada de jubilos e festa?!... Amor travêsso, só por vêr para dentro, vê do avêsso?
*
Não te illudas, ó louco! A Providencia dependente do amor fez a existencia. Para estimulo a amor fez a belleza, o viço, a força, quanto com certeza tu já não tens. Por isso no concurso aos vagos corações a pelle do urso, a penna luzidia do bom pato, dão por si preferencia ao candidato. Esta a verdade crua. O sentimento depois é que se faz. É-lhe fermento, é mister que primeiro insuffle a arteria, e n'ella o sangue injecte, a vil materia. A bocca, um pé, a guia d'um bigode mais que as almas em fogo sempre póde. E tu não valsas!... tu não tens bocca o _argot_ da moda, a phrase insossa e ôca! Por mais _ciré_, torcido, repintado, que o teu bigode vá... bigodeado és tu que ficas, velho! a torto e a esmo!
Justo e fatal!... Fatal e justo é o mesmo.
No chão não rojes teus cabellos brancos n'um desespero ignobil! Para arrancos, para entrares no inferno como o Dante, a dôr da tua cólica é bastante. Outras não queiras, outras não procures improprias já de ti. Não; em nenhures rejuvenesce o Fausto; e, dês que ha mundo, quem disse um velho--disse um moribundo.
*
Ella não tinha ainda os seus vinte annos. Por não tel-os vivia n'uns enganos que eu não devia ter nos meus cincoenta. Distraída commigo olhou attenta para um moço qualquer. Nem eu me lembro do nome d'elle já! Era em setembro. Isso sei eu. Que noite!... Estou a vêl-a! Ultima noite azul!... Rasto d'estrella, curva de luz nos amplos ceus cadente, illuminar-nos veio de repente. Ella assustou-se, e disse: _Dieu te garde!_
Pouco tempo depois, horas mais tarde, tal qual a estrella, em rapido trajecto, no mundo novo entrou d'um novo affecto.
_AO ACTOR JOÃO ANASTACIO ROSA_
que, na sua officina de sapateiro, mandára fazer para uso do author umas botas impermeaveis
Boas botas com effeito! Ha que tempos que te eu digo que, de pequeno, o teu geito é ser sapateiro, amigo!
Afóra o bico da moda, que é moda o _bico_ hoje em dia, quem da terra andasse á roda _mestre_ assim não toparia.
E lá no mar,--tens ratices!-- com ellas por sobre as ondas anda a gente como Ulysses nas aguas das Trabisondas.
O povo grita: Milagre!--; teus filhos:--Estamos salvos!--; e tu com graxa e vinagre vaes enganando os papalvos.
Queima a Sciencia as pestanas buscando o que seja aquillo; e nem passadas semanas conclue que é sebo de grillo!
Tu proprio chuchas no dedo, _avis rara_, ó _raio_ d'ave; pois ao fechar teu segredo perdeste-lhe o tino e a chave.
Seja qual fôr teu systema, graxa só ou graxa e sebo, eu, indigena na gemma, applaudo o que não percebo.
De tão prodigioso invento só entendo, e não é pouco, que ou me saíste um portento ou és rematado louco!
Mas que importa qual diploma um logar nos dá na Historia? Toda a estrada leva a Roma. Por atalhos vae-se á gloria.
É certo que ao fim da vida a luz do provir é tua: luz accêsa sem torcida!... porta aberta com gazua!--
Vê quanto o sec'lo é fecundo! Vê; regista em tuas notas. Em poucos annos ao mundo botou dois homens das botas!
_ÁS RÃS PEDINDO REI_
Traducção da fabula de Lafontaine--Les Grenouilles
Viviam certas rãs n'um charco immundo em republica plena. Era um pagode! Tal qual uns democratas que ha no mundo julgando que a republica, no fundo, outra coisa não é senão a gente fazer o que bem quer e quanto póde, a rã tripudiava impunemente. Todos os dias era certo o choque entre o batrachio forte, intransigente, e parte da nação já descontente que a Jupiter pedia ou rei ou roque.
O deus fez-lhe a vontade. Largou-lhe lá do ceu um rei pacato, de summa gravidade.
Das alturas tombando, o rei na quéda fez tal espalhafato, que as fêmeas em pavor, os machos fulos, aquellas saltitando, estes aos pulos, como é uso das rãs nas grandes crises, cada qual a gritar:--arreda! arreda!-- entre os juncaes, no lôdo, nas raizes dos salgueiraes se enreda.
*
Por longo tempo em seus esconderijos das rãs esteve homiziado o povo. Transformaram-se em medo os regosijos da antiga bacchanal. Gigante novo cuidavam ser o rei que o ceu lhes déra. Não ousavam sequer saír da tóca; pois, não raro, os instinctos maus da fera por imprudente a presa é que os provoca.
Já n'essas eras muito a pêllo vinha dizer: _Cautela e caldos de gallinha..._
O rei era um pedaço de madeira. Nem mais, nem menos. N'uma bella tarde uma das rãs, por ser menos covarde ou mais bisbilhoteira, tirou-se de cuidados, manso e manso na flôr das aguas surge, e ás guinadinhas com muito tento e geito do cêpo se aproxima. Após ella vem outra... e outra... aos centos. Vendo que o rei não sae do seu ripanso, rodeiam-no; coaxam: _Salta acima!..._ e coaxado e feito!...
O rei, temido outr'ora, ás pecuinhas d'essa chusma villã se vê sujeito. Em rapido momento sobre elle a malta audaz se encarapita, e faz do bom monarcha um bom assento. Nem chus nem bus! Calado que nem porta, qual fôra n'outros tempos!... Isto irrita. Rompem as rãs então n'uma algazarra que o pantano atordôa, os fios d'alma a quem as ouve corta. «Leva d'aqui, ó Jove, esta almanjarra que nem mexe, nem pune, nem perdôa, e mais parece uma alimaria morta, cabide d'uma c'rôa, em vez de nosso rei--nossa vergonha!» Vae Jupiter que faz? Uma cegonha, das muitas que possue, logo destaca, e manda que das rãs ponha e disponha, n'uma das mãos o queijo e n'outra a faca. Ora a cegonha, apenas em seu throno dona das rãs se vê e sem ter dono, diz comsigo: --Nasci dentro d'um folle! Quem tira agora o papo da miseria sempre sou eu!...-- Passeia toda séria, perna aqui... perna além, n'um andar molle, e quanta rã apanha quanta engole.
*
Geral consternação o charco enluta. Renovam-se as lamurias: que o rei é doido e tem ás vezes furias; que, doido ou não, o povo trata á bruta; por fim, que faça o deus formal promessa d'outro rei que as não coma tão depressa! O Jupiter tonante d'est'arte lhes responde: «Inutil prece! Dei-vos um rei tranquillo, inoffensivo, que nem sempre se tem nem se merece: um rei que era um regalo! Foi vêl-o e pôl-o pela barra fóra! Dei-vos segundo: um genio um pouco vivo... um pouco extravagante... Meninas, aguental-o! Era bom o primeiro e foi-se embora. É mau este de agora. Contentae-vos com elle, ó meus endezes, pois venha quem vier... peior mil vezes.»
_ONZE DE NOVEMBRO_
É noite de São Martinho, rival do velho Noé. Cae agua em logar de vinho, e--milagre!--o meu visinho entra em casa por seu pé!...
Memorias do alegre santo, porque é que tanto duraes se eu já nem bailo nem canto dês que me deram quebranto as peças originaes?!
Até as caras meninas, socias minhas na funcção, rosas, d'antes, purpurinas, por muito favor--cravinas... d'Ambrosio cravinas são.
Martinho, ao que chega a gente! Ellas feitas uns pasteis de carne velha e doente; eu comprando cada dente por tres e quatro mil reis!
Bem me toucaram taes flôres! Bem com ellas me touquei! Da cabeça agora as dôres quem m'as faz são os tenores, as portarias, e a lei!
A lei!... a eterna cantiga! o eterno sarapatel! Na nossa edade, e na antiga, lá para uns certos--espiga; lá para uns outros--papel.
Só uma córta direito: só a lei da morte é egual. Para calcular-lhe o effeito vou, deitado no meu leito, dormir um somno real.
_ASSIM É QUE EU GÓSTO D'ELLA!_
Eu nunca fui poeta. Era loucura mostrar depois de velho pretensões quando as não tive em horas de ventura, de tão dôces, mas breves, illusões.
Então era a minh'alma que gemia no vago anceio d'onde nasce o amor; mas hoje sei que amor no mesmo dia nasce, esmorece, e morre como a flôr.
Da meiga briza o tépido bafejo, a rosa perfumada, o pôr do sol, as nuvens d'oiro,--esplendido cortejo do astro-rei, a voz do rouxinol;
Esse hymno immenso com que a terra exprime viva saudade pela extincta luz, se para mim então era sublime, ai! que já por meu mal me não seduz!
Quando contemplo agora o fim da tarde, quando ao sumir-se no crystallino mar o facho accêso sobre as ondas arde e vae depois nas ondas mergulhar;
Sabeis vós o que penso em tal instante? --Vêde a que prosa vil isto chegou!-- Sabeis vós o que penso?'... o que lamento?... O dia mais de vida que passou.
De vida, sim, meus senhores, que não ha pechincha egual! Só algum sarrafaçal em horas de maus humores grunhirá sombrio e rouco que pelo seu fim anhela! Eu cá por mim acho pouco e morro d'amores por ella!
A vida saboreada de um certo modo que eu sei. Nem limpa-botas nem rei; trazer camisa lavada; bem lavada a consciencia; libras velhas na algibeira; ter um trem e por decencia um garoto na trazeira.
Cadeiras... todas de braços, fôfas como pão de ló. Nunca dar ponto sem nó nem pôr ponto em dar abraços. Caçadas... feitas no prato, e sobre a caça café. Charutos... dos de contracto _Lib'ra nos!_ antes galé.
Vejam se eu dava o cavaco ou se quebrava o toutiço por ser tudo quebradiço n'este mundo como um caco! Em se quebrando... acabou-se. Ora, adeus! Fortes lamechas! Era bonito se fosse ficando tudo p'ra mechas!
Amor de marrafa branca como o cão e a cadellinha sempre fiel! Que gracinha!... Ao chá por baixo da banca dando ternas pizadellas que as meias deixam de luto, que fazem vêr as estrellas, e provam que o par é bruto.
Ter sempre o mesmo barbeiro e sempre o mesmo topete!... Á mesa do voltarete defronte o mesmo parceiro!... O molle ser sempre o molle!... sempre esperto o serigaita!... Na mesma gaita de folle soprar quem sopra tal gaita!...
Quem pensa assim... ai! coitado! ou perdeu todo o juizo, ou se tem dente do sizo pelo alveitar foi achado. Para mim que sou amante do que muda e do que mexe, como havia ser seccante o tal mundo de escabeche!
Beijar nos pulsos a algema com que Amor nos manietava; amanhã mandal-a á fava; a belleza eis do systema. Ser hoje amigo do Brito, amanhã sêl-o dos Soisas!... Viajar hoje no Egypto; vêr ámanhã novas coisas!
Isto, sim, que é prazer certo! Quem julgar que assim não presta diga adeus a esta festa que o cemiterio está perto! Pois póde haver tolerancia na China, aqui, ou em Gôa com quem defende a constancia que é a maçada em pessoa?!
Aqui d'el-rei porque mente toda a humana geração!... Grande pena!... pois então, se mente, mente-lhe a gente. Por mentira, mentirola. Por esparrella, esparrella. Assim vae esta charola: assim é que eu gosto d'ella!
Dizem que a vida os assusta porque em tudo encontram móca; que o bem a todos não toca, que a Justiça não é justa. Eu, por mim, quero-a mais larga, que, se acaso um dia fôr parar-lhe ás mãos, menos carga sobre os hombros me ha de pôr.
E se o bem me não tocar tambem uma vez sómente, ferro commigo no quente e, lá, desato a chorar. Não é mau. Dou de conselho a quem quizer divertir-se que chore em frente do espelho e por força acaba a rir-se.
Chorar é bom! Quem me dera nos tempos que já lá vão quando, moço, o coração, ao romper a primavera sobresaltado tremia, e da terra toda em flôr juntava á meiga harmonia doces lagrimas d'amor!
Se á vida não acham geito porque todos têm chorado, cá para mim vem barrado quem lhe põe este defeito. Elles que foram pequenos e contra as lagrimas chiam, de _lacrima christi_ ao menos um copo não beberiam?
Tal resmuneia e se queixa que as filhas não fecha a mãe; que a mãe namora tambem, e mais que torna e que deixa! Ih! Jesus!... Que gritaria! Se a mãe as filhas fechasse, nenhuma as portas abria. Ai de quem as arrombasse!
Caturras! Se ha quem supponha nas politicas regiões que inda póde haver Catões sendo tão rara a vergonha!... O galante é que no jogo cada qual puxa o seu trunfo quando sem armas nem fogo alcançar póde o triumpho!
Deploram republicanos que lhes tosquiam as azas? Pois vão lá p'ra suas casas fazer dos creados--manos. Os outros temem que os thronos se despedacem? Demonio! Não lhes resta ainda, monos, os thronos de Santo Antonio?--
Tudo aqui se remedeia; tudo tem facil saída se as honras dermos á vida d'um jantar ou d'uma ceia. Quem tentar pôl-a a direito perde o tempo e a razão porque luta peito a peito com phantastica visão.
Eu nunca fui poeta. Agora vêdes que menos do que nunca aspiro a sêl-o. Se espalmar-me tentei pelas paredes do teu Parnaso, Apollo, vae-me ao pêllo!
Põe-me nú se conservo n'este fato algum resto de parvoas pretensões, já que o mundo como é, o mundo ingrato, despir-me soube as dôces illusões.
Dormi. Sonhei. Do sonho hoje acordado na prosa da verdade emfim caí; mas como tudo tem sempre um bom lado ganhei gordura se illusões perdi.
_EM CINTRA_
Tal qual como o sacrista, o velho Catecismo soletrando, primeiro se espreguiça; cabeceia depois de quando em quando; por fim já não atina se ha tres, se um cento d'inimigos d'alma; meninos e doutrina, rosnando manda á missa; engendra um travesseiro da batina; deita-se e dorme emquanto dura a calma: farto da vida fui-me estiraçando n'este alcantil, onde aves de rapina fizeram ninho outr'ora. Ao longe o sol declina; já sobre as ondas arde. Soltando a voz sonora n'um murmurio suave expira a tarde.
Ai! quem me dera aqui morrer agora!... Não ha somno melhor!... Somno?... Sería?... Eu penso que não é, que sentiria em torno do meu sêr, do meu sêr novo, uma coisa qualquer que a phantasia não ousa precisar, á qual aspiro, para a qual vou fugindo, que me chama, na qual hei de caír como em seu giro alado insecto vae caír na chamma.
Não é tolice, não. Quem n'este mundo diria afoito ao sabio mais profundo, se n'esse tempo o mundo sabios tinha, que dentro da gallinha estava um ovo e dentro d'aquelle ovo outra gallinha?... Assim succede em tudo. Muda a fórma; as condições variam da existencia; mas, por mais que a materia se transforma, intacta se conserva sempre a essencia. Logo: hei de viver. Ter consciencia d'aquillo que então fôr!...
UM CORVO (_que fende o espaço, grasnando_)
Senil demencia! Sobre essa rocha estoira como um ôdre: terás a mesma sorte de tudo quanto é pôdre. Serei eu só bastante para fazer-te o corpo n'um farrapo. Que vida has de viver desde esse instante mettido no meu papo? Aonde a consciencia?... o sentimento?... Perante a Eternidade tu duras um momento. Serviste o pensamento da grande Divindade; depois!... Depois da morte não és coisa que importe do mundo ao movimento.
UMA ANDORINHA (_chilreando em roda da penedia_)
Ai! terra onde nasci! Ai! dôce patria minha! tão longe eu sou de ti!...
Saudosa do palmar, aqui, pobre avesinha, errante a voltear.
Um dia... qual--não sei... um dia, em vindo o inverno, de novo á patria irei.
Então sob o docel d'aquelle azul eterno, nos plainos meus d'Argel
Emfim serei feliz! Nenhuma primavera roubar-me ao meu paiz
Jamais conseguirá!... Uma outra pátria, espera, tambem te surrirá.
UM SAPO (_no fundo do valle_)
Cantigas! boas cantigas lá por cima oiço cantar. Do que vae cá pela terra entendem mais as formigas, sabem mais reptis na serra que os passarinhos no ar.
Deixa piar a andorinha. Bem facilmente se ad'vinha a tua sorte futura. Tu és, amigo, a doninha. É teu sapo a sepultura.
Cantigas! Boas cantigas! Quem trinca, trinca; trincou. As doninhas que hei papado por mais figas, figas, figas que as outras me têm armado, ninguem d'aqui m'as levou!
O PINHAL (_ao longe_)
N'um cantico dolente meus hymnos rumorejo. É Deus que passa em mim; o Deus que eu vejo em tudo o que palpita, e vive, e sente. Ó balsamica rosa, quando a fragrancia exhalas docemente da petala mimosa; lá quando do teu seio, tepido ninho d'um amor fremente, irrompem n'um gorgeio maternas alegrias, é Deus que passa, o rosto surridente, cercado de harmonias.
O SINO DA PENA
Dong!... Dong!... Dong!...
UM VELHO QUE VAE NA ESTRADA (_tirando o barrete_)
Avè, Maria, cheia de graça...
O SINO
Dong!... Dong!... Dong!... N'estas auras subtis do fim do dia --descobri-vos, mortaes!--é Deus que passa. Dong!... Dong!... Dong!...