Musa Velha

Chapter 2

Chapter 24,106 wordsPublic domain

«Vossê pague! ai que vae torta!» gritava o crédor.--Com quê?-- gemia o outro.--Não vê que entrei nú aquella porta porque nú me poz vossê?!--

E n'este rosnar eterno, n'este diz tu direi eu, o crédor, que era judeu, enreda o outro n'um inferno como o inferno em que viveu.

Se em meu derradeiro instante eu tiver crédor voraz, permitte, ó Deus, se te apraz, que por cá fique o tratante p'ra que eu, morto, viva em paz.

_A JULIO CESAR MACHADO_

que em folhetim do _Diario de Noticias_ dirigira ao author phrases benevolas

Ó Julio, ó meu amigo, o que disseste? Fallar em nós?! Fallar em mim?! Na peste d'esse Parnaso ignobil de ha trinta annos? Fui um asno sem tom, nem som, nem furo; uma coisa p'r'ahi entre os humanos como entre o trigo o joio; um insensato cuidando toda a vida que o futuro se faz sómente como o faz o gato por noites janeirinhas, e o menino d'onde ha de vir ridente, e róseo, e puro, é da raiz... do verso alexandrino! Tu verás, se viveres. O destino se condôa de ti a tempo e a horas, que eu já não temo nada. N'esta idade quanto mais o doutor me põe escoras mais depressa galopo á Eternidade. No dia em que florir a ideia nova nem restos ha de mim na escura cova. Depois... Pensando bem, ás vezes julgo que não deve ser mau vêr estes numes na faina redemptora! E, mais, o vulgo já não crê n'outro Deus! Os bons costumes vão apanhar por fim um São Martinho qual nunca lhes foi dado... excepto em vinho que embrutece a razão! Pois com certeza leva uma _razzia_ o Torres e o Cartaxo! Ou bem que a gente é gente ou que é um cacho! D'amor, que é velho, temos conversado! Rua com elle! Amor é uma fraqueza. É velho e cego, e não espera luas, e quando lhe appetece faz das suas, e são as suas d'elle o vil peccado! Basta cortar-lhe bem a ponta da aza e triumpha a moral. Rapaziada, nunca mais andarás no mundo em braza atraz da tua amada!

Mudei de metro como d'alimaria muda Tinoco, o bravo, na tourada, pois quanto em verso a fórma fôr mais vária menor é a massada.

Calcule-se o porvir pelo presente. Nós somos democratas; e fique o ponto assente. _Noventa e tres_ é tudo quanto, em datas, a Historia nos tem dado mais nobre, e santo, e digno de imitado.

Amor... e guilhotina! Luz d'uma aurora, d'um incendio chamma! _Mayonnaise_ de sangue e de doutrina! Quanto o homem sublima e quanto o infama! _Noventa e tres_ e a França! Eis o lemma, eis o exemplo, a viva esp'rança.

Anda tu cá, ó lemma, que te quero! Dom Bertholdinho a dar-se um ar de Nero! Somos, sim, democratas... á capucha; Marats de sêda frouxa; uma chalaça com Marselheza indigena,--a _Cachucha_. Palavra! que tem graça!

Que o bom senso, tão raro! nos acuda; nos tome um dia a sério! Não ha Sebastião nenhum da Arruda, suando phalansterio, que não mande estampar nos seus bilhetes armas ducaes, brazões de pataratas! Morremos por trincar a monarchia; mas trincamos-lhe a ceia e os sorvetes emquanto lá do ceu Deus não envia novo maná... de instituições baratas!... Uns typos! Bons, pacatos, sem ter odios nem bombas... a não ser de Santo Antonio, bombas de luxo, bombas só de estrondo; indo buscar pretextos para brodios a casa do demonio, e quando os não achamos nem dentro em nossa casa nem na estranha, calçado a polimento o pé redondo, vazio o coração, repleta a entranha, vêr desfilar a procissão de Ramos. E n'este ambiente, em pleno Rilhafolles, no ardor da Saturnal, sonhaste, ó Julio, que um velho gordo, com as carnes molles, sem ter outro peculio além do rheumatismo, sertanejo, viria em _petit-maitre_ dar aos folles do outr'ora enamorado realejo?

Desde que o maganão do deus Cupido não tem na aljava setta que me fira, passou-me do sentido tudo quanto em rapaz tanto sentira. Rabisaltona musa é hoje em dia quem me ampara e conforta, e quem me inspira. Quando fugir, morri. Outra alegria qual te foi dada a ti, sol na velhice, conceder-m'o não quiz quem bem podia. E fez uma tolice. Eu sei se a fez, ou não; modestia á parte.

E só para dizer-te uma palavra d'affecto e gratidão moí d'est'arte a tua paciencia! Antes do Lavra subisses a calçada, ou lesses uma peça premiada. Era muito, bem sei; mas era menos.

Obrigado, meu Julio. Isto, em resumo, devera ter escripto. O mais é fumo. Deixa-o seguir no espaço o ignoto rumo, e dá saudades minhas aos pequenos.

_DIES IRAE_

É novembro, e faz um frio! Eu então é que ando em braza! Pudera! se o senhorio me pede a renda da casa!

Réles cobre em vão recruto no lidar da vida insano. Desertam n'um só minuto as vis poupanças d'um anno.

Embora á carne dê tratos, á velha carne exigente, deixando passar os pratos sem pôr nos piteus o dente;

Embora esguia quinzena traga já no extremo fio, e córte a rara melena só pelas calmas, no estio:

Não coalha esta formiga nem grão, nem sequer paveia! Sempre na mesma fadiga, enche... vasa... o pé da meia!

Sob o teimoso aguaceiro de tanta renda de casas, depennado, em meu poleiro, metto a cabeça nas azas.

Cança o sorrir da ventura; o rigor da sorte cança; só por entre o que não dura vae sempre durando a esp'rança.

Eu espero a moradia, onde de graça me acoite, no seio da terra fria; nas sombras da infinda noite!

Ao menos no eterno gelo, nos fundos antros escuros, não terei por pesadêlo meus senhorios futuros!

Um é Deus: a esse um amigo satisfaça em padre-nossos. Outro é o verme: eu cá o espigo dando-lhe em paga os meus ossos.

_O MEU TINTEIRO_

Era em agosto. O norte, desabrido, mugindo como um toiro, sacudia os troncos do arvoredo. Ia-se o dia: um dia d'amarguras tão comprido que eu cheguei a pensar que a Eternidade nas chammas infernaes já me envolvia! Por meu mal terminou! que um outro veio depois d'aquelle, e foi peior mil vezes! A minha irmã, á dôce companheira da longinqua, saudosa mocidade, coubera, nova ainda, a feliz sorte de ter, após tres longos, tristes mezes d'um filho haver perdido, achado a morte.

Antes d'ella expirar, á cabeceira, em torno do seu leito, se agrupára tudo quanto durante a vida inteira fôra por ella amado, e tanto a amára. Eu, fingindo sorrir, assim dizia:

«Agora estás melhor. No rosto as rosas da antiga primavera! Olhos em fogo! Uns olhos como d'antes! Vês, Maria, que estás melhor agora?! Em desafogo respira o peito já! Estas nervosas dão vontade de rir! Que espalhafato! Um cortejo de coisas! Raça estranha! Por isso o outro fez com que a montanha désse, aturdindo a terra, á luz um rato! Vae a galope a enferma que melhora. Ámanhã, ou depois, saltarás fóra d'essa importuna cama. O que te cança é ter o corpo ahi. Vamos a Piza passar o inverno todo. Alli serenos são sempre os ceus. Alli tepida a briza dá vida a um velho! Então a uma criança!

«Tontinha é o que tu és! que estás chorando! sem que saibas porquê, aposto, ao menos! Iremos todos, grandes e pequenos! Quasi uma romaria, um cirio, um bando d'alegres passarinhos chilreando por essa Europa além! Tu, pregoando: _Quem quer saude? Quem? Vende-se e dá-se!_ irás distribuindo, co'a mão cheia d'essas papoilas, um _bouquet_ vermelho que pouco e pouco a desbotada face ha de tingir-te e... até fazer-te feia!»

--Iremos todos, sim!--fraca, tossindo, a pobre interrompeu:--Sim!... Vamos _indo_. É então ámanhã que eu d'aqui saio? Depressa ámanhã vem! Dá-me esse espelho. Se tu não mentes devo estar um Maio!-- Mirando-se, volveu:--A minha pena é que... _ellas_... me não vejam n'este instante em que finda a comedia e deixo a scena! Se eu não soubesse que este mundo é um sonho; se trouxesse o meu Deus de mim distante; como este despertar fôra medonho!--

Depois foi repartindo as suas prendas por quantos eram lá.

--A ti... primeiro. Lego-te... dou-te... aquelle meu tinteiro. Tu fazes versos. Sei que não te emendas; sempre te serve aquillo!--

Desde ess'hora, e já lá vão cumpridos bons trinta annos, quando me engano a mim n'esses enganos da musa brincalhona, raro mólho a penna folgazã que me não traga nos bicos uma lagrima.

Ai!... Eu ólho... aos abysmos do mar pergunto: «A vaga, que eu vi sumir-se, onde é?»

E o mar afaga a praia em que a deixei, e vae-se embora, e volta, e vae! mas não responde; chora.

_A VENUS NOVA_

Não, Rachel, não desvario. Venus, o estylo é antigo, os seus dotes repartio bem largamente comtigo.

Deu-te esse corpo divino! esses seios palpitantes! Fosse eu inda pequenino e tu minh'ama! Que instantes!

Por ser branca e por ser loira tem o loiro em menos preço; por isso te deu da moira o negro cabello espesso.

Chega aos olhos... De repente vê que não tem na palheta côr nenhuma refulgente para imitar um planeta.

Corre logo á fonte limpa; e procedeu com acerto que em ocios não se repimpa quem se encontra em duro aperto.

«Ó dôce noite», ella exclama. «Tu tens estrellas a esmo. Duas quero em rubra chamma, quasi soes; dois soes. É o mesmo.»

A Noite, que é velha fina, e foi sempre a Venus dada, responde:--Minha menina, só para a outra fornada.--

«Pois ao forno! e já! que eu pago!» A Noite, ouvindo-a, lampeira. A estrada de São Thiago deitou logo na caldeira.

Fogo ao lado, e fogo ao centro! Quando a fervura era viva o sete-estrello p'ra dentro! e folhas de sensitiva!

Ao cabo de poucas horas em duas orbitas fundas despejou duas auroras com que est'alma em luz inundas.

Venus pulou de contente; mas depois... (que são mulheres!) disse á outra em tom plangente: «Adeus!... O que tu quizeres!...

«Fizeste-a fresca! Eu reinava. Era no Olympo a mais bella. Passei de rainha a escrava. A Venus agora... é ella!»

_O LOBO E O CÃO_

Traducção da fabula de Lafontaine--Le Loup et le Chien

Não tinha um lobo mais que a pelle e o osso. Signal é que de orelha arrebitada bem vigilante andava a canzoada. Encontra o lobo um dógue forte, grosso, nutrido, luzidio, uma belleza! que distraído abandonára a estrada. Sorri-lhe a nedia preza! Saltar-lhe logo ali, fazêl-a em postas o seu desejo fôra. Dura empreza! A lucta era infallivel. Voltar costas não usam perros quando são valentes, e, mais, os brutos! dão ás vezes cabo do fero contendor! Diabo!... Diabo! Então aquelle, com aquelles dentes!

*

Humilde o lobo, pois, encolhe a cauda; chega-se ao cão; abaixa-lhe a cabeça; puxa conversa; diz que folga em vêl-o, que deixe que elle admire, que elle applauda topal-o assim... e com tão bom cabello!... e rijo! e gordo! Um frade! Uma abbadessa!

«Esplendido senhor»,--o cão responde;-- «de vós depende o ter igual gordura. Fugí dos bosques, onde por teima da desgraça de fome e frio só achaes fartura, vós, senhor lobo, e a vossa pifia raça. Dias e dias sem comerem nada! e lá por festas, raras, esquecidas, um petisquinho conquistado á espada, tragado ás escondidas! Ahi é certa a morte! Furtae-vos a seus braços! Seguí... seguí meus passos; tereis outro destino e melhor sorte.» --Mas como?--volve o lobo. --Fazer então que devo?-- «Bagatella: nem morte d'homem nem de egreja roubo; simplesmente estas coisas: não dar tregoa á _santa_ gente rôta, mendicante, bordão n'uma das mãos, n'outra a tigela, que vem inda a distancia d'uma legoa e já tresanda a essencia de tratante. Lamber as mãos ao dono; ser submisso... _dar cóca_, é o termo proprio, ao dono e a todo quanto bicho careta houver em casa. Salario apanhareis que vos apraza: ossos das aves, rodas de chouriço, restos vindos da mesa, e tudo a rôdo! Até uns _tagatés_ em cima d'isso!»

*

Tendo prestado ao cão attento ouvido o lobo, coitadinho! com perspectiva tal enternecido não tugiu nem mugiu, mas fez beicinho.

*

Iam caminho já do povoado quando o lobo notou que no pescoço o cão era pellado. --Que tens ahi?--pergunta em alvoroço. «Nada, que eu saiba.» --Nada?!-- «Frioleira.» --Mas afinal o que é?-- «Ora!... A colleira com que á noite me prendem junto á porta...» --Prender-te?!--o lobo exclama.--Não saes fóra, não corres livre pela terra inteira quando te dá na gana, e a toda a hora?-- «Nem sempre. Isso que importa?!» --Tanto importa que toda a trincadeira com que me acenas, um thesouro embora, por tal preço não quero.-- O lobo finda; põe-se logo na perna, e corre ainda.

_DEUS E O AMOR_

(1870)

No ceu, cabisbaixo, o Amor um d'estes dias entrava. O pobresito levava impressa no rosto a dôr e as settas todas na aljava.

Ao vêl-o o Eterno exclama: «Que vens tu fazer aqui?!» --De Lysia, meu Deus, fugi porque lá vivo da fama; os meus freguezes perdi.

Busca a moça um noivo rico sem lhe importar nada mais. _São fumo as paixões e os ais; pintos, nina. Apanha o mico!--_ lhe bradam os proprios paes.

Por isso, feito o consorcio, sae da egreja o par fiel, e o noivo compra papel para requ'rer o divorcio, passada a lua de mel.

Torto já, e á vara larga, o fino _dandy_ seduz. O mais que faz o lapuz quando em finezas se alarga é roncar: _Que tal te eu puz!_

Do patrio amor todo o fogo traduz-se no _venha a mim_. Quem faz d'um jornal pasquim, sem trunfos entra no jogo e sae-se trunfo por fim.

Bellini foi-se!... não presta. Da harmonia a nata, a flôr, veio encontrar successor no _Fado_, que é o rei da festa, o canto que faz _furor_!--

A virgem martyr Cecilia, ao ouvir blasphemia tal, ataca o _si_ natural, e, pedindo um chá de tilia, cae em deliquio mortal.

Sem reparar no que passa soluça o Amor e diz: --Murcha pende a flôr de liz. Jaz prostrada na desgraça a patria de São Luiz!

O Krupp a morte semeia de Sarbruck até Sedan, e París, a cortezã, nas garras da fome anceia! Que serás, França, ámanhã?!

Pois n'estes dias sombrios a velha Europa sagaz, cuidando ter um antraz, fez ataduras e fios em vez de fazer a paz!

Lisboa, toda vergonhas, e orgulhosa, e esmoler, atraz ficar-lhe não quer e desata a fazer _monhas_; mas fios, nem um, sequer!

Acima da humanidade ha n'esse bom Portugal o novilho e o boi real. A dôce fraternidade anda nos paus do animal.

De meu seio a pura chamma deixa, ó Deus, arder aqui. De Lysia a correr fugi porque lá já ninguem ama nem mesmo, Senhor, a ti!

Nem mesmo! que sem respeito tonsurado berrador troveja em voz de Stentor, batendo murros no peito, que o teu braço é vingador;

Que ao reino teu infinito, á mansão da eterna luz, tua mão, Senhor, não conduz quem fez o enorme delicto de ignorar que houve Jesus;

Que tu, meu Deus, que és o forte que destruiu Jericó, que és a Justiça... tu só, habitas n'aquella córte; encarnas no immundo pó!

E para acabar o quadro, para lhe dar mais unção, afoga o impio sermão junto á cruz que está no adro em ondas de carrascão!

No templo teu, Pae divino, apparato theatral! Em redoma de crystal vestido Jesus Menino de _chéché_ do Carnaval;

E o alvo lirio, Maria, a pura depois de mãe, caracoes e rolos tem como usava a minha tia quando ia ao Paço em Belem!

No altar-mór o scenario que effeito fazendo está! Pallida a lua... acolá!... Além a cruz... o Calvario... Fóra, author! Bravo, Rambois![1]

Na nave central--cavaco; e no côro, ai! pobre fé! latagões côr de café uivando dentro d'um sacco: --Sou o Barba-Azul! Olé!--

A catholica Judêa, o christianismo pagão, ousa mais! Põe em acção do Homem-Deus a epopêa na sensual procissão!

Ás enfeitadas janellas corre a curiosa avidez. _Fazem cauda._ Esperam vez como se elles e ellas fossem vêr um entremez!

Depois começa o serviço. Olho aqui... e olho lá... no seu _tudo_, e no papá que embirra co'o tal derriço por andar no _b-a-ba_.

Namorando as carnes núas do que vae no floreo andor, outras dizem:--«Salvador, se todas são como as tuas quem não será peccador?!»

Emquanto se eleva o incenso na caprichosa espiral, o garoto, essa vestal dos vates de hoje, no lenço faz mão baixa e no metal.

E, manso, por entre o grupo da ondulante multidão, serpenteia a procissão. Rumoreja em torno o apupo. Consternam-se alma e razão.

Que brutos cêpos são esses? Vae Deus ali? Christo nú posto a par do _manitú_, homens dos torpes int'resses, filhos glotões de Esaú?!...

Tartufo os impetos doma. Vive agachado o chacal a espreitar se o olhar fatal de Filippe á voz de Roma lampeja no Escurial!

Fiar n'elle!... O incendio lavra occulto. Na escuridão forja de novo o grilhão á consciencia, á palavra, a satanica legião.

Em teu nome o lar deserto!... O pranto manando a flux!... Morta a esp'rança! Extincta a luz! e da cruz contra o liberto mudada em punhal a cruz!--

Largamente aqui respira sêcca a lingua e falto de ar, que o terno Amor, a fallar, não é como os de Tavira: --dá-lhe... dá-lhe até 'stoirar!--

Mas, depois, como o Vesuvio irrompe. Ao rosto gentil assoma a raiva, e febril bate o pé; grita;--um diluvio manda ao infame covil!

Outro diluvio! incessante a subir... subir... até que não fique nada em pé! nem possa nenhum farçante fazer arca e ser Noé!--

Deus, que os seus ouvidos presta ás queixas que Amor lhe faz, sorri e diz: «Ó rapaz, um _T_ escripto na testa porventura me verás?

Eu dei-lhes a lei sublime nas alturas do Sinai. Se contra a lei, contra o pae, conspira Lysia--no crime do crime o castigo vae.

Triumpha o Milhão, e Hero não houve mais que uma só? O Creso do oiro em pó a flauta fará de Nero, e da flauta um bom cipó.

E se os maridos, tontinho, fugindo ás esposas vão, deixa-os lá. Por fim terão, em vez do calor do ninho, os gêlos da solidão.

A vida passa ligeira; e, quando a morte vier, qual d'elles é que não quer dôce oração derradeira entre beijos de mulher?!

Ai!... Acabar longe d'isto!... sem perdão!... sem paz!... e meu sem ser nenhum!... Galileu, tu que fizeste?... Ó Christo, teu sangue que fructos deu?!...

Fiz de ti a rósea aurora da universal redempção; inda após o teu clarão o Deus cêpo é o Deus que adora a proterva multidão!

Pois para amar-me é preciso mais que os olhos alongar pelos ceus, por terra, e mar? mais que o pallôr indeciso d'uma noite de luar?!

Pois n'esses milhões de mundos, que girar no espaço fiz, não falla tudo? não diz em seus canticos jucundos: --Senhor! Senhor, existis?!--

Erriça o leão a coma? Nas sombras do Escurial ergue a pedra sepulchral de Filippe a astuta Roma?... Erga!... e surja o rei fatal!...

Antro, e fera, e vil Tiberio, tudo no pó sumirei!... que dos reis eu sou o rei, e as chaves do meu imperio a mão nenhuma entreguei!

Perdes o tempo, creança! Se o perdes, meu doido Amor! Sei quanto és enganador! quanto és feroz na vingança e folgas da alheia dôr!

És vendado, és cego, e ousas como se visses fallar?! Pois has de á terra voltar.»-- E o pae de todas as cousas foi-lhe os olhos desvendar.

Então o dôce fedelho, tão dôce como cajú, repara em si... vê-se nú... faz-se azul... faz-se vermelho como um monco de perú.

Depois a fugir desata pelas ethereas regiões. Atraz d'elle as maldições de quanta velha beata foi ao ceu... por alçapões.

Que o ceu que estamos mirando occultas entradas tem, e sem fiscal! Inda bem. A não ser por contrabando já lá não entra ninguem.

Vôa... vôa... É mesmo um raio rapido o espaço a rasgar. Vôa... Á força de voar perde o alento, e n'um desmaio vem no chão co'as azas dar!

N'essa noite a authoridade metteu, zelosa qual é, o menino em São José; mas ninguem crê na cidade que a sciencia o ponha em pé.

Quem tem os dias contados mais viver não póde, não. É do amor finda a missão dês que os fundos, bem cotados, valem mais que o coração.

[1] Pronuncie _Ramboá_.

_ENTEADA_

Casou segunda vez certo sujeito que sempre á viuvez torceu a cara. Deixára-lhe uma filha o velho leito, e mimo egual o novo lhe offertára.

Quando eu as conheci, uma era forte, córada, alegre, brincalhona, viva; pallida a outra, triste, pensativa, como quem traz em si a dôr e a morte.

Das duas a mais nova, a que é sadía, a lapis, n'um papel, graciosos traços d'um corpo de mulher hontem fazia. No fim as palmas bate, e, erguendo os braços,

«Olha a mamã!» gritou, «De longe basta... basta vêl-a d'ahi!... Não será ella?»-- Volve-lhe a outra em voz que o sangue gela: --_Agora pinta lá uma madrasta!_--

Miserrimos poetas que nós somos! Por mais inspiração que nos abraze, por mais phantasiar tomos e tomos não valem juntos, não, aquella phrase.

_N'UM ALBUM_

Por essa existencia fóra nosso caminho é diff'rente. Eu vou por onde se chora; tu por onde canta a gente. Tu chegas; tu vens agora; tu sobes qual sobe a aurora; eu, tal qual o sol poente, desço... desço!... Vou-me embora.

_RAPHAELA_

I

Era em março, e a Folia, dando o braço ao Carnaval, entrava em _Dona Maria_. Não sei que idea fatal me levou tambem á festa.

Sei que fui. Sei que vestia _dominó_ côr de giesta, e que a mascara, que ao rosto trago presa todo o dia, eu trocára, ébrio de gosto, por outra que não mentia.

II

Ia a noite em mais de meio quando os pés na sala puz. Os gritos, a dança, a luz que os novos encanta, e creio que mais os velhos seduz, tocaram-me o coração por tão estranha maneira, que a não ter ali á mão as costas d'uma cadeira, dava co'as minhas no chão. Persuadiam-me que a Sorte quer que o homem seja egual sómente perante a morte, e vi eu que o Carnaval tinha o mesmo poder forte!

Junto a mim o sôr _Sovela_, disfarçado em lord inglez, trata por _tu_ o freguez, que n'outro _tu_ se nivela com quem as botas lhe fez. Ao longe o sujo vadio que, para impingir á gente um bilhete do _Pão quente_, corre a Baixa e o Rocio dando _Excellencias_ a rodo, agora vestido á turca, _turca_ por dentro elle todo, grunhindo sem tom nem som paga depois da mazurka ponche ardente a quem tem _Dom_. N'aquelle canto escondido o calvo e gordo marido ás moças falla d'amor; e como deve o traidor pela traição ser punido, n'outro canto anda a mulher a brincar co'o deus Cupido... dê o brinquedo o que dér! Cada flôr, rosa ou jasmim, com seu calix entreaberto embalsama este jardim, e ás abelhas que andam perto como que as oiço dizer: --Oh! Bebei dôce prazer que rendida vos offerto!--

Isto é vida! Isto aqui, sim! que a humilde e santa egualdade o mundo mergulha emfim no sol da eterna verdade!...

III

«Boas noites, dominó.» --Só isso me dizes?-- «Só. --Pois desde já te requeiro que ámanhã fiques na cama, e manda o teu travesseiro dar umas voltas por cá. Na chalaça, no epigramma, as lampas te levará.-- «Quem de espirito é tão fino devêra ser mais cortez.» --Vestiu-se de peregrino a cortezia...-- «Talvez d'essa longa romaria a que foi não voltaria!» --Assim parece. Não vês?!

IV

Quem me descobre a razão d'esta infame grosseria?... Consultando minha tia, disse-me ella:--És um ratão! Coisas tuas!...-- «Coisas minhas?! Ora essa!» --De quem são? Se teu pae sem ter gallinhas te deu boa creação?!-- Mais ainda me condemna ser a mulher que offendi segunda Venus de Milo! Que remorso o que eu senti, e que nó no gorgomilo, quando, absorto, o que era vi!... Que ao fallar olhei... Por Christo! juro que olhei sem ter visto.

V

Como usa a formosa filha da formosa Andaluzia, sob a elegante mantilha pelos hombros lhe caía de negro e farto cabello a madeixa ondeada e crespa. Na cinturinha de vespa... Alto lá! De vespa, não; que é corriqueira a figura e tola a comparação.-- A cintura... Se lhe chamo só delgada--aqui d'el-rei! porque é prosa. Ah! Já sei. Delgadinha como um ramo que sustém duas laranjas... E da voz os sons tão finos com que os hei de comparar? Com voz d'anjos pequeninos, travêssos, loiros, meninos que andam no ceu a cantar, aos quaes não tira o chapeu este pobre filho d'Eva emquanto Deus o não leva a conhecel-os no ceu?!... Impossivel!... Pois com quê?...

Deixe-se lá d'essas franjas, ruim poeta! Você não sabe que a natureza faz coisas de tal belleza que um homem, se logra vêl-as, ha de pasmado ficar, e pasmar... pasmar... pasmar; mas não tentar descrevêl-as?!

VI

Qual a timida gazella que no prado anda brincando estremece e foge quando sente rumor perto d'ella, assim Dona Raphaela... Podia chamar-lhe Jónia, Mathilde, Elisa ou Antonia. Era o mesmo. Á mulher bella todo o nome fica bem. Toma-lhe a graça, a frescura: participa da candura de su'alma... se é que a tem.