Mulheres e creanças: notas sobre educação
Chapter 8
--Deixemos isso aos artifices mais ou menos engenhosos, que trabalham com as sobreditas materias, e aos _trovadores_ mais ou menos choramigas, que manejam as sobreditas rimas; não é saber olhar com expressão ardente ou languida consoante o genero da phisionomia; saber sorrir com malicia ou com ternura, saber inclinar-se meiga e scismadora ao influxo do um sentimento occulto, ou erguer a cabeça altiva e triumphante com a plena consciencia da propria formosura!
Ser bonita, ser bella, na accepção elevada e completa d'esta palavra, é possuir a graça mysteriosa que prende os que param junto de nós, que attrahe os que vão passando ao nosso lado.
Resta agora analysar os fios tenuissimos de que se tece este divino encanto da mulher!
A graça de que eu fallo é feita principalmente de intelligencia e de bondade.
O primeiro dom concede-o Deus, e aperfeiçoa-o e depura-o a vontade humana; o segundo adquire-se á custa de sacrificios cccultos, de abnegações intimas, de aspirações continuas e incessantes para a suprema perfeição!
Todos podem ser bons!
É preciso que os espiritos se compenetrem profundamente d'esta verdade, que é o primeiro passo para a conquista do bem, que todos ambicionam e que tantos julgam vedado.
Não ha terreno, por mais duro, inhospito e ingrato, a que um cultivo cuidadoso e vigilante não possa arrancar flôres.
No homem--e quando digo _homem_, refiro-me geralmente á humanidade--, no homem ha preso, algemado, vencido, um robusto animal de tendencias bravias, que lucta continuamente para reconquistar a perdida liberdade.
Foi a acção civilisadora de seculos sem conta que domou essa féra de funestos instinctos; é a pressão continuada e constante de uma vontade energica, de uma razão esclarecida, de uma percepção profunda de todos os deveres, que conserva e sustem intimidado e submisso o terrivel selvagem.
Uns precisam de desenvolver n'esta porfia assidua, mais tenacidade e mais força, outros de indole nativamente branda e pacifica, podem deixar adormecer de vez em quando a accesa vigilancia.
São no fim de contas os primeiros que teem maior merecimento.
Ser bom é quasi sempre um esforço, mas para ser meritorio cumpre que este esforço seja tão invisivel para todos os olhos, que a analyse ainda a mais perspicaz não chegue a dar por elle. A bondade é o supremo attractivo da mulher, aquelle que mais acção exerce em torno de si.
A bondade é pois a verdadeira belleza feminina.
Imaginae que a ella se reune a intelligencia, e tendes o ideal da perfeita formosura, da unica que só se apaga e extingue com a vida, da que excita os grandes, os eternos, os sãos e robustos amores.
O culto pagão da belleza plastica é um dos erros que mais ha de custar a destruir, e que no entanto se acha tão deslocado no ideal moderno, como se achava no seu verdadeiro lugar, no velho mundo que a revolução deitou por terra alluido e decomposto!
A mulher transviada por esta falsa comprehensão do seu destino, só aspira a ser bonita no sentido futil e exterior da palavra, só inveja as que possuem os ephemeros encantos de que foi desherdada, e não percebe que a belleza interior é aquella cuja gloriosa conquista, accessivel para todos, lhe podia dar a realeza e o predominio.
A quantas meninas sentimentaes de olheiras roxas e phrases sonoras não temos nós ouvido lamentar a pouca duração dos affectos terrestres, a _inconstancia_ do homem, a ingratidão cruel que faz definhar as suas victimas em desolador abandono!
Apesar do aspecto ridiculo de que estas romanticas e elegiacas creaturas se revestem, que ninguem se ria d'elles!
Victimas se chamam, e victimas são de certo, mas não de imaginarias perfidias ou de tragicas aventuras.
São victimas da sua educação falsa, da sua sentimentalidade piégas, da idéa inteiramente errada que formam da vida pratica.
Imaginaram que haviam de ser eternamente amadas, amadas com extasis poeticos, com grandes discursos inflammados, com acompanhamento de viola franceza e de epistolas em verso, que tivessem de mais em amor, o que tivessem de menos em grammatica; sonharam ser as pallidas Julietas apaixonadas, recebendo á luz branca da lua, as confidencias convulsas dos seus Romeos de obra grossa; e para attingirem este ideal dos seus desejos suppozeram que lhes bastavam a alvura da tez, o brilho do olhar, a frescura dos labios, a abundancia dos cabellos, e por cima de tudo isto a garridice, a pretensão, a ignorancia e a _toilette_!
Em muito menos tempo do que é preciso para murchar uma rosa, os proprios homens se enfastiaram.
E eil-as inconsolaveis e inconsoladas, maldizendo a traição masculina, que lhes não deu mais que o castigo merecido!
Houve tempo em que a mulher feia tinha como unico refugio o convento.
Felizmente, porém, esse tempo vae longe.
O homem já não exige da companheira do seu destino, como condição unica de felicidade, encantos que murcham com os annos.
Assenta em mais solidas bases a ventura conjugal.
Mulheres, sêde boas, cultivae o espirito, e allumiae a consciencia; na vida do homem ha horas escuras; que a luz que sabeis diffundir as illumine.
A sociedade tem desfiladeiros sombrios, tem _selvas ignotas_, como o _inferno_ do Florentino, aprendei a guiar com a vossa pequena mão branca e macia os robustos luctadores, que ás vezes param no limiar d'esses caminhos, com a vista incerta e o passo hesitante.
E isso que hoje se exige de vós.
Eu vou mais longe que _madame_ de Girardin, na sua arrojada proposição que tão poucos comprehenderam.
Quando vejo um homem sou capaz de adivinhar a que genero pertence a mulher que elle tem por esposa; quando entro n'uma casa basta-me vêr a disposição dos moveis, a escolha dos livros, o aspecto das creanças, a expressão das _cousas mudas_, para poder afiançar se a dona d'essa casa, a divindade modesta e tutelar d'esse pequeno templo, é digna do seu titulo sagrado de esposa e mãe.
É que tudo falla, para quem sabe ouvir, e a mulher sobretudo--natureza expansiva e vibratil--põe uma indiscrição involuntaria em cada objecto de que se rodeia.
Mais de uma vez tenho ouvido vozes femininas levantarem-se em favor da emancipação politica e social do seu sexo.
Pobres sêres hybridos e incompletos são de certo os que teem tão acanhada idéa do destino da mulher.
No dia em que esta fôr emancipada, cahirá para sempre do throno que tem seculos por degraus.
É que a emancipação politica seria a abdicação domestica, quer dizer, a mais dolorosa catastrophe que tem affligido as sociedades.
Imagino que nenhuma verdadeira mulher a acceitaria!
A familia tal como a entendem todos que sabem sentir e pensar, é o refugio onde se vae buscar paz e esquecimento; é o templo onde encontram _direito de asylo os parias_ que andam cá fóra aos baldões da ira popular; é o lugar querido, inaccessivel onde os athletas do pensamento acham momentos de alegria descuidada, onde os mineiros cansados da sciencia, os que andam pelos antros obscuros arrancando segredos aos seios da natureza, procuram a clara e festiva luz dos affectos simples, onde os politicos esquecem a maldade e a mesquinhez humana, onde os diplomatas fallam verdade, onde os argentarios fecham os ouvidos ao tinir metallico do ouro, onde os que caminham levando no coração as terriveis hydras do odio e da inveja se assentam por instantes embevecidos na musica matinal de umas vozes infantis que chilrêam, de uma voz crystallina que adverte, aconselha e consola.
Os que roubarem a familia ao incansavel trabalhador d'estas eras de febre e de combate, roubam-lhe a força, a energia, a consciencia, a dignidade, o amor, roubam-lhe tudo emfim!
Emancipar a mulher é atacar na sua base a familia, é trazer para dentro do lar as paixões tumultuosas da praça publica, é destruir o mais doce dos poderes a que o homem se curva, o temivel poder da fraqueza feminina!
E não se diga que eu combato a mulher quando combato a sua libertação absoluta perante a sociedade e perante a lei.
Os que pretendem furtal-a á tutella salutar, que a contém na esphera que lhe é propria, é que são os seus peiores inimigos.
Dentro, porém, d'essa esphera quantos serviços ella deve fazer e não faz!
Exemplifiquemos: A mulher é na generalidade ambiciosa. Qualidade que não está de todo em todo desligada de peccado, mas qualidade util na maior parte dos seus resultados.
Esta ambição pela influencia latente que exerce no animo masculino leva-o, não poucas vezes a arrojados commettimentos e a grandes e nobres cousas.
Até um certo e determinado limite, é portanto benefica a ambição da mulher.
Transviada, porém, do seu verdadeiro fito, quantas vezes esta ambição mal dirigida por uma educação eivada de mesquinhos preconceitos não arrasta o homem até á infamia, á deshonra, á quebra de todos os pudores, ao suicidio!
A garridice, o amor da _toilette_, das pequenas futilidades elegantes, o gosto do luxo, das graciosas invenções da moda, ahi está uma das graças, um dos elementos do dominio da mulher.
Mas ainda n'este ponto cumpre que uma razão clara, que uma percepção definida do dever, a guie, a dirija, a constranja nas suas tendencias muitas vezes exageradas.
Não ha nada mais agradavel n'um _ménage_ do que uma mulher moça, fresca, elegante, da graciosa e simples elegancia que provém do gosto apurado e distincto; os requintes de luxo exterior são, por assim dizer, na vida do homem, uma superfluidade necessaria, são um conchego para o corpo, uma caricia para a alma, mas que nunca o luxo conduza a familia á mais leve transigencia indelicada, que nunca a mulher lhe sacrifique um só dos seus deveres!
Todos são igualmente respeitaveis; todos estão unidos entre si por uma cadeia de élos inquebrantaveis.
Na mulher ainda mais do que no homem, o abuso das qualidades uteis leva ás mais funestas consequencias.
Para a mulher ainda é mais delgada a linha do dever.
O caminho é estreito, difficil, sinuoso: para áquem d'elle ou para além d'elle está o erro.
Por isso quantas senhoras ás vezes dizem:
«Queixam-se de nós porque somos garridas, e se nos vêem modestas, sem prendermos a minima attenção ás futilidades perigosas do luxo, condemnam-nos ou fogem do nosso lado.
«Queixam-se de nós porque somos ignorantes, mas se o nosso espirito se accende em curiosidades scientificas, se lêmos, se estudamos, se tentamos ir um pouco além dos limites impostos ao nosso sexo, somos alcunhadas de pedantes, e de _preciosas_ ridiculas!
«Queixam-se de nós porque somos devotas, supersticiosas, porque levamos ao exagero as praticas do catholicismo, porque nos deixamos guiar mysteriosamente pela mão occulta do padre, mas se procuramos livrar-nos d'este jugo, se queremos a independencia absoluta do espirito e da consciencia, chamam-nos _livres pensadoras_, e os homens sentem medo instinctivo de entregar a sua honra nas nossas mãos.»
E por aqui adiante uma longa jeremiada n'este teor.
Eu, porém, mesmo concedendo que ha um fundo de incontestavel verdade no que dizeis, respondo-vos, minhas senhoras, que é positivamente porque a vossa missão é difficil que ella tem tamanha importancia e póde adquirir de dia para dia uma importancia ainda maior.
No dia em que comprehenderdes claramente o vosso destino, sabereis então o que é ter a graça, a elegancia, o encanto exterior, sem que vos contaminem as criminosas vaidades; o que é ser intelligente, instruida, reflexiva sem conhecer o pedantismo, e a ridicula pretensão; o que é ter o ideal religioso, sem o manchar com superstições, preconceitos, intolerancias funestas; o que é aproveitar cada uma das vossas riquissimas faculdades equivalentes, mas não iguaes, das do homem, sem que a vossa inercia as esterilise, sem que a vivacidade nervosa do vosso temperamento as leve a extremos e demazias altamente funestas á familia e á sociedade da qual é aquella o mais perfeito reflexo.
CAPITULO XI
O trabalho das mulheres
O preconceito mais funesto, que ainda nasceu e medrou n'este mundo, é o que considera o trabalho uma escravidão deshonrosa.
Começa hoje a irradiar os seus primeiros clarões rubros a aurora do dia que ha de vêr o trabalho santificado, que ha de assistir á divina apotheose d'esse bemfeitor supremo da humanidade, d'esse amigo de todas as horas, que conforta os animos desconsolados, que levanta os animos abatidos, que distráe de todos os tédios, que lucta contra todas as inercias.
Por emquanto, sobretudo entre nós, é rara a mulher bastante superior para confessar que trabalha, e o que é peior de tudo, é rara a mulher que trabalha sem absoluta e incontestavel precisão.
Mais d'uma vez temos visto senhoras, que pela sua educação mais apurada e mais completa deviam estar a cima de tão profunda ignorancia dos seus deveres, confessarem que não gostam de fazer nada, que são preguiçosas, que não téem com que se distrahir, que os dias lhes parecem seculos, etc., etc.
E no entanto qual será a creatura bastante desfavorecida de Deus, para não poder aproveitar proficuamente as horas do dia, sempre curtas para quem as sabe empregar bem?
Fallemos primeiramente das meninas solteiras de pouca edade; para essas, logo que queiram tornar-se dignas do alto destino que as espera, pouco será sempre o tempo para se instruirem, para adquirirem os varios e complexos conhecimentos de que carecem antes de exercerem a sua missão complexa.
Não são sómente os futeis ornamentos superficiaes em que ellas devem pôr a mira; a par d'esses, que tambem são indispensaveis, ha todo um mundo, que a mulher ignora, e cuja exploração lhe enriqueceria o espirito de thesouros incomparaveis.
E depois, mesmo os frivolos adornos, que constituem uma alta educação mundana, podem ter uma significação elevada, um sentido occulto, uma _alma_ emfim, logo que se não considerem um _todo_, mas uma parte insignificante do mais alto e perfeito conjuncto; logo que occupem o lugar que lhes compete, na classificação harmoniosa e bem graduada das varias riquezas que formam um espirito.
Saber cantar, saber tocar piano, saber fallar as linguas, saber desenho e pintura, que vale tudo isso quando se não tenha uma idéa elevada e synthetica, que ligue entre si estas diversas acquisições intellectuaes, e que por assim dizer as vivifique?
O que é preciso antes de tudo, é comprehender a musica e a sua influencia poderosa nas almas e nos organismos; é saber usar com aproveitamento esses instrumentos que se chamam linguas, as quaes por si, só, tomadas abstractamente, nada significam e para nada servem; é estudar a natureza sob os seus multiplos aspectos e transplantal-a para a tela ou para o papel; é ter emfim um ideal, que sobredoire todas estas prendas, que superficialmente entendidas e superficialmente executadas, não teem valor nem tem utilidade alguma na vida pratica.
Basta a qualquer espirito feminino entrar n'este caminho, que imperfeitamente acabamos de apontar, e, sem que elle mesmo tenha a consciencia d'isso, as suas idéas hão de dilatar-se e encadeiar-se por uma successão logica, e dar á vida um novo e imprevisto aspecto.
As meninas bem educadas das nossas altas classes sociaes, teem todas uma grande facilidade em fallar varias linguas; aproveitam porém essa facilidade... conversando com os diplomatas.
Não lêem Schiller, nem Goethe, nem Shakespeare, nem Macaulay, nem Pascal, nem Montaigne; não entram no genio das differentes nacionalidades e das differentes litteraturas; não comparam entre si as civilisações, chegando por esta comparação a conhecerem de um modo mais ou menos perfeito a humanidade, não senhor! Conversam com os _gommeux_ da diplomacia estrangeira e contentam-se com isso!
Na musica que, mais do que nenhuma arte, lhes revelaria o coração do homem no coração de tantos homens de genio, o que ellas vêem sómente é o modo de executarem mais difficuldades e de desesperarem de inveja mais rivaes!..
Na pintura, copia da natureza que as podia fazer penetrar no seio carinhoso e fecundo da grande mãe, são tão frivolas, tão superficiaes, como em todas as outras cousas.
As mais das vezes não teem animo de colherem uma flôr do jardim e de a copiarem com o pincel ou com o lapis! Copiam copias, amesquinhando a natureza, e atrophiando a propria imaginação!
São estes defeitos, que todas nós as que pensamos um pouco, devemos combater com todas as nossas forças!
Longe de mim o aconselhar á mulher que se emancipe dos seus graves e obscuros deveres, que tente luctar com o homem, e arrancar-lhe a palma das grandes descobertas e das grandes conquistas!
O que eu pretendo é provar-lhe que é divina entre todas, a missão a que o futuro a convida.
A mulher de sala tem por força de morrer; surja pois a mulher da familia, ser complexo, grande e nobre sêr, que as geraçães vindouras hão de admirar fervorosamente.
A mulher da familia não é de certo a matrona desgeitosa, deselegante, só occupada em dar a vida, o leite e o alimento aos filhos de um affecto, despido de todas as flores e de todas as poesias.
Não, ella deve ser instruida, profundamente instruida, tendo ao mesmo tempo a consciencia de que essa instrucção a não aparta do cumprimento religioso dos mais humildes deveres do amanho da casa e da maternidade.
O homem deve achar n'ella não só a enfermeira desvelada das suas doenças; não só a distribuidora sensata e economica do seu alimento; não só a dona de casa aceiada, vigilante, infatigavel; não só a mãe carinhosa, dedicada, capaz dos maximos e dos mais perseverantes sacrificios, senão tambem a companheira do seu espirito; a socia das suas aspirações; a intelligencia que comprehenda e partilhe as suas legitimas ambições e as suas chimericas phantasias; o animo viril que saiba amparal-o nas horas de desalento; a mão firme e branda, que saiba guial-o nos momentos escuros de lucta e de tentação: o seio terno que lhe acolha a cabeça cansada na hora sinistra das derrotas; o bello e enthusiastico espirito que applauda a suprema embriaguez das suas victorias; n'uma palavra, a mulher digna de ser mãe e de educar uma geração de fortes.
É preciso, que se compenetrem bem d'esta idéa fundamental: o trabalho, seja de que especie fôr não desdoira uma mulher nem deixa de ser compativel com as mais delicadas distracções de um espirito culto.
Trabalhar não é fazer _crochet_, não é cozer durante seis mezes na mesma camisa, que ha de ser offerecida a um pobre romantico, a um pobre de _opera-comica_; não é bordar umas eternas _babouches_, que se começam no dia seguinte ao do casamento, e que se acabam dez annos depois.
Trabalhar é ser util, é occupar o espirito, é adquirir conhecimentos ou espalhal-os em torno de si, é concorrer para o bem-estar dos outros e para o seu aperfeiçoamento proprio.
A mulher que trabalha levanta-se cedo, não conhece as scismas voluptuosas, os languores morbidos, as _flâneries_ sem motivo e sem fim.
É activa, por isso não tem aquellas horas de tédio profundo, que descobrem diante de um olhar os horisontes sinistros e esbraseados do suicidio; tem saude porque o tempo bem applicado e bem dividido não lhe deixa intervallos para se _escutar_, se sondar, para analysar as suas pequenas dôres, os seus pequenos incommodos, e os aggravar tomando remedios nocivos, e entregando-se á molleza que a pouco e pouco destroe a robustez do corpo; gosa de tudo com alegria, com vitalidade, com expansão, não desdenha nenhum dever, nenhuma occupação, nenhum trabalho porque o amor e a intelligencia prendem-se a tudo que ella faz.
Porque sabe conversar na sala com facilidade e chiste, nem por isso deixa de saber estar na cosinha, observar um por um todos os utensilios, vêr se estão limpos, inventar um _menu_ que reuna as condições da economia e da variedade, ensinar a sua cosinheira, fazer mesmo por suas mãos um prato predilecto, que á mesa o marido e os filhos hão de saudar com alegria e saborear com appetite.
Desejo que ella saiba bordar, mas exijo que saiba serzir panno, dar rêdes com perfeição, cozer a roupa da casa e a roupa dos filhos, cortar e fazer os seus vestidos, dando assim mais que um exemplo de economia, um exemplo de moralidade! protestando até onde chegam os seus limites, contra a torrente impetuosa e funesta, que arrasta as familias desde o luxo até á infamia, desde a impostura até á quebra de todas as dignidades e de todos os pudores.
Quero mais, que ella se não envergonhe de confessar que trabalha, e que não diga que o seu fato é feito por uma qualquer modista estrangeira, quando é ao seu laborioso serão que ella deve a elegancia que d'este modo é duplamente preciosa e sympathica.
Não imagine a mulher, que entre os deveres que acceitou ha uns que a deslustram, e outros que lhe ficam bem.
Debaixo do ponto de vista da razão todos os deveres são eguaes e estão prezos entre si por uma cadeia invisivel.
Da alegria da mesa depende a alegria do lar; da economia de todos os instantes, depende o bom humor das festas de familia; da elegancia e primoroso aceio da mulher depende a ternura inexgotavel do marido; do modo porque ella rege e domina o seu pequeno imperio domestico, depende a educação dos filhos, a moralidade do interior, a harmonia intima da vida, e até a graça, o espirito, a liberdade com que ella conversa e ri na sala.
Todas as mulheres se queixam dos maridos, e nenhuma ainda percebeu o seguinte: são ellas que preparam e determinam o seu destino; é a ellas que a familia em geral deve a sua desordem, a sua dissolução, ou a sua felicidade.
Não basta ter todas as graças, é preciso ser util, e no fardo que se acceita em commum tomar a parte que mais custa a supportar.
Não basta ser util, prestadia, arranjada, economica; é preciso ter a intelligencia que idealisa um pouco os tristes e aridos encargos da vida.
Toda ou quasi toda a mulher se sente amesquinhada pelo seu destino, e protesta contra as leis, contra os usos, contra as instituições, que a exilaram dos altos cargos da republica, que lhe tolheram o passo para todas as eminencias sociaes, e que a condemnam á obscuridade e á lhaneza do viver domestico.
Oh! abençoados sejam os costumes, as leis, as instituições, que deram ao homem tudo que é ruido, pompa, ostentação, orgulho e vaidade, e que nos deram a nós a dôce missão de encaminharmos o futuro, de guiarmos a humanidade no caminho do bello e do bom!
Se até agora temos trahido essa missão a que fomos destinadas, a culpa é nossa e não de quem constituio sob uma fórma tão racional e tão justa a sociedade.
O tempo que passamos no barulho vazio das festas mundanas, colhendo decepções e rancores, excitando invejas, provocando sensuaes applausos, porque o não gastamos a lêr, a estudar, a penetrar no mundo da natureza e no mundo da sciencia em todos os seus aspectos tão varios, em todas as suas manifestações tão sympathicas; porque não dirigimos a poder de trabalho e de esforço a primeira educação de nossos filhos, e deixamos que mãos mercenarias lhe arranquem aquella dôce penugem da alma que é a ignorancia dos pequeninos?
Porque não fazemos da nossa casa, um ninho alegre e fôfo, que o nosso marido prefira ao botequim, ao Gremio, ao Club, ao restaurante, á casa dos seus amigos, e onde elle esteja certo de encontrar o alimento mais saboroso e mais hygienico, o ar mais puro e lavado, a poltrona mais commoda, a conversação mais animada, mais substancial, mais chistosa e menos pedante?
Pouco a pouco á regeneração da mulher, seguir-se-hia a regeneração do homem, deixariamos de ser a ruina, para nos tornarmos o conforto; deixariamos de ser o tédio para nos tornarmos a alegria.