Mulheres e creanças: notas sobre educação

Chapter 9

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Talvez não houvesse tantos bailes e saraus, talvez Offenbach, Dumas filho, Sardou tivessem menos espectadores, talvez as salas de bilhar perdessem um pouco da sua popularidade; talvez os ourives e as modistas fechassem algumas das suas lojas, mas em compensação quebravam menos negociantes, perdiam-se menos mulheres, a calumnia renunciava a uma grande porção do seu alimento diario, o falso luxo que mata de fome os filhos e que arrasta sedas pelas ruas enlameiadas da cidade, ou se reclina voluptuosamente nos coxins flascidos d'um coupé de oito mollas, o falso luxo deixaria de ostentar com tão descarada altivez as suas lentejoulas compradas com moeda vil, e esta nossa sociedade, que parodía tão ridicula e tão desgraçadamente a sociedade cosmopolita, opulenta e artificial da França, tomava diverso rumo, assumia a dignidade que lhe falta, e descobriria no futuro o ideal, que não tem e que procura nas trevas.

O primeiro passo para que este deploravel estado de cousas melhore um pouco, é que as mulheres comecem a trabalhar.

As ricas instruam-se; as pobres ajudem seu marido sem se envergonharem da sua honesta pobreza, e todas sem exceptuar qualquer posição social, occupem o tempo para não darem logar ás tentações da vaidade, aos sonhos morbidos que enfraquecem o corpo e o espirito, ás negras horas dissolventes do tédio, em que tudo se concebe e se admitte como possivel, até o esquecimento de todos os deveres, até o proprio crime com o seu romantico cortejo de sensações e de terrores.

CAPITULO XII

A toilette

As mulheres teem, na generalidade, um costume deploravel! Só se vestem e se enfeitam e querem ser amaveis para o publico.

O marido, ainda o mais feliz e mais extremoso, tem sempre um rival terrivel, um rival exigente, um rival que lhe rouba parte das prerogativas e lhe cerceia parte dos direitos.

Esse rival é o publico, é esse detestavel tyranno chamado _tout le monde_, a quem tudo se sacrifica, e do qual em recompensa só se recebem criticas e desdens!

Para elle nos vestimos, para elle levamos horas e horas a combinar o effeito da nossa _toilette_, para elle estamos defronte do espelho prendendo flores no cabello, inventando as difficeis architecturas do penteado, para elle sabemos tocar piano e sabemos cantar, para elle desejamos ser formosas! para que elle nos applauda--mentiroso e humilhante applauso!--exhaurimos todos os recursos da nossa imaginação.

Para agradarmos a elle, que é o _extranho_, nos esquecemos dos que são nossos!

Em casa as mulheres, pelo menos as mulheres portuguezas, as que eu de mais perto conheço, preferem a tudo, aquillo a que tão impropriamente chamam _estar á vontade_.

Usam uma _robe-de-chambre_ desbotada, quando não trazem um vestido velho que já não serve para a rua; trazem o cabello em _papelotes_ ou frisado em ganchos, e como querem descansar um pouco das talas que impuzeram aos pés, consolam-nos, mettendo-os em umas largas _babouches_ desgeitosas.

Pela manhã, á hora do almoço dão vontade de chorar!

O marido olha para ellas e... de duas uma:--ou sente fastio ou come como um lobo.

De qualquer dos modos manifesta a sua melancolia.

Questão de temperamento que não vem ao caso analysar aqui.

Ao meio dia, eis porém, que se lembram das visitas que não tardam, das _inimigas intimas_ que veem colhêr invejas e semear despeitos, de todas as ferozes exigencias sociaes, de que são submissas escravas!

Desfranzem a testa, ageitam um sorriso malicioso ou sentimental, consoante o genero da physionomia, mergulham o corpo nas tepidas e perfumadas caricias do banho, vestem-se, burnem-se, penteiam-se, pintam-se... e apparecem transformadas.

Durante umas poucas de horas estão no palco.

O auditorio é escrupulosissimo. Ao menor indicio que lhe destôe, manifesta sem piedade o seu desagrado.

Ellas, no entanto, suam _sous le harnais_, mas são intrepidas até á heroicidade.

Teem caricias felinas, sorrisos que adormecem a tristeza nos corações mais desconsolados, sabem ser engenhosas, cheias de invenções felizes, conseguem plenamente o seu fim, e ao deixarem a scena fica no ar uma impressão boa, quasi enternecida.

Chegou a occasião de voltar aos _bastidores_.

N'este caso os bastidores são a companhia do marido.

Oh! Como ellas veem cansadas, aborrecidas, cheias de tedio, e de desalento! Despem, com a voluptuosidade com que se despe um cilicio, todas essas elegancias que as torturavam; o sorriso ficticio apaga-se-lhes dos labios, a luz ficticia esmorece-lhes no olhar.

A pelle precisa de _cold-cream_, de _veloutine_, de todos os ingredientes nauseabundos: o cabello cahe-lhes aos pés, solto dos ganchos que o prendiam, e em quanto a aia, com um sorriso ladino, os recolhe cuidadosamente na caixa de cartão, o marido contempla assarapantado, cheio de ingenuo e comico assombro, aquella cabeça que ainda ha pouco, no orgulho com que se erguia, na magestade altiva com que ostentava o delicado edificio das tranças e dos _riçados_, lembrava uma das cabeças gentis que o seculo XVIII beijou com enlevos e que a guilhotina beijou com volupia selvagem.

O pé estreito e _cambré_, que ainda ha pouco nos circulos vertiginosos da valsa, fazia pensar n'aquellas andorinhas forasteiras, que roçam a terra com o vôo inquieto e leve, sacode as prisões que o ligavam dolorosamente, e dilata-se á vontade, com uma furia de independencia verdadeiramente demagogica e revolucionaria, na primeira chinela que apparece.

Todo o aspecto physico se transfigura e--consequencia fatal d'esta mesma causa--o aspecto moral transfigura-se tambem.

Como a dissimulação eterna é impossivel ainda aos mais hypocritas, os defeitos que tão cuidadosamente se esconderam ao publico, revelam-se ao marido.

Riamos sem vontade ainda agora!

Com a fortuna! Desabafemos o nosso mau humor, visto que estamos em casa!

Tinhamos paciencia para aturar com expressão interessada e benevola as sensaborias muito estafadas de um senhor engravatado, de luvas côr de canario e bigode retorcido e insolente?...

Sejamos agora desapiedadas para as historias já um pouco velhas, mas em summa bastante apresentaveis que o nosso marido nos quer contar!

Fingir! sempre fingir!... Impossivel!

Sejamos verdadeiras, ao menos n'esta occasião, já que só desagradamos áquelle que tem obrigação restricta de nos aturar, quer queira, quer não!

Isto, que á primeira vista parece insignificante, quasi frivolo, tem um alcance enorme no destino de vv. ex.^{as}, minhas senhoras!

O marido, ao perceber que de todas as mulheres a mais desagradavel é a sua, tem um momento de profunda tristeza, ao qual succedem uns poucos de annos de revolta!

É assim que se destroe a familia, é assim que se torna desflorido e deserto o lar.

Em compensação enchem-se os salões, os _clubs_, os theatros, os botequins. Resta saber se uma das cousas póde n'uma sociedade honesta e bem constituida supprir a outra.

Sejam mais garridas em casa, e sejam-no menos fóra; aspirem á elegancia desprezando os mentirosos artificios; procurem, antes de tudo, agradar á familia e conseguirão a pouco e pouco, sem esforço premeditado, agradar aos estranhos.

Uma familia boa, unida e feliz é como um fóco de calor que attrahe e que irradia luz benefica.

Ha casas onde se entra e onde nos sentimos como n'um meio sympathico e captivante.

São sempre as casas em que a mulher possue a intelligencia do coração, essa cousa rara e preciosa, que suppre a formosura, o talento e todos os attractivos do espirito.

Vestir-se com uma graça despretenciosa e simples, rodear-se de cousas bellas, sentir e communicar em torno de si o prazer das distracções delicadas, ser em casa um perfume vivo, uma harmonia suave que não cansa, uma luz serena que allumia e que não deslumbra, eis o que é ser mulher na accepção completa da palavra.

Toda a mulher tem de ser _coquette_ para o marido emquanto para o marido a eterna tentação for o pômo vedado.

Em geral só se conhecem os dous extremos.

Ou a matrona envolvida na sua virtude como n'uma couraça, temivel, assanhadiça, formidavel, imaginando merecer todas as homenagens do esposo, porque afugenta com medonho aspecto as homenagens de todos os outros; ou então a mulher dos salões, a flôr exotica das nossas estufas mundanas, Salamandra que vive no fogo, Ninon de _biscuit_ que se compraz nas adorações que provoca e que inspira, infativel actriz que só á luz da _ribalta_ sabe desenvolver e manifestar todos os seus recursos.

Entre os dous contrastes é que fica a verdade.

Mulheres, desenvolvei no seio da familia as graças que desperdiçaes pelas voragens d'este mundo.

Tende todas as flexibilidades e todas as resistentencias, todas as graças e todas as energias; sêde o encanto, sem deixardes de ser a virtude; e sobretudo perdei de vista o publico, esse brutal amante que vos absorve, que vos perde e que nunca vos corresponde.

CAPITULO XIII

Victoria Woodhall

Uma oradora americana

Os Estados-Unidos, que são decididamente a patria das excentricidades colossaes, o paiz em que o excesso do positivismo, como que para justificar o axioma de que _os extremos se tocam_, tem conduzido a intelligencia a uma especie de permanente hallucinação, os Estados-Unidos estiveram para dar segundo affirmou a imprensa ingleza, mais uma prova evidente do seu amor pelas originalidades ruidosas.

Dizia-se que a presidencia d'esta republica tão poderosa e florescente ia ser offerecida a uma mulher, e citava-se o nome d'essa mulher, que é uma das mais fervorosas e apaixonadas propagandistas da reforma politica e social, uma das advogadas mais eloquentes da emancipação completa do seu sexo.

Já muitas vezes o temos dito, antipathisamos formalmente com esta doutrina revolucionaria, da qual não esperamos senão funestos resultados, por isso nenhum laço de sympathia póde prender-nos á famosa Victoria Woodhall, de que se occupam com verdadeiro enthusiasmo alguns dos jornaes importantes da Inglaterra e da America do Norte.

Não deixaremos, porém, de estudar com attenção os poucos dados que conhecemos do seu caracter e da sua intelligencia, porque, embora como mulher--não concordemos com as suas theorias,--como artista--não podemos deixar de reconhecer que ella é um producto perfeito do seu meio.

Victoria Woodhall é moça, tem uma formosa presença, _sabe vestir-se_, o que já é deveras para notar-se n'uma advogada convicta dos _direitos politicos da mulher_, e se aprecia os triumphos que a sua palavra um pouco emphatica costuma arrancar aos numerosos ouvintes que a escutam, nem por isso desdenha os cuidados minuciosos da elegancia mundana.

Teem-na visto prégar sobre um texto biblico, que ella modernisa segundo as conveniencias da sua these, trajando elegantemente um vestido de velludo preto, e com uma rosa purpurea aninhada nas lustrosas tranças escuras do seu cabello garridamente penteado.

É casada, visto que lhe chamam Mistres Woodhall, mas nos salões onde tem preleccionado apparece sempre só sobre uma elevada platafórma, de onde préga ás turbas.

O marido, se existe, é um simples comparsa, ninguem o nota e ninguem se occupa em fallar d'elle. Entre parenthesis: não ha posição mais deploravel que a do marido de uma mulher _celebre_, quer dizer de uma mulher que falla em publico, que apparece, que declama, que tem os ruidosos triumphos da actriz, da cantora, da agitadora politica, e agora os mais modernos da preleccionista social.

Nunca pudemos deixar de sentir muito dó do Barão Stael, de _monsieur_ Rolland, do marido de Henriqueta Beecher Stowe, e de tantos outros forçados e obscuros satelites d'esse astro brilhante e phenomenal que é a mulher acclamada pelo indiscreto applauso das multidões.

Agora o marido de Mr. Victoria Woodhall, se acaso vive, o que não podemos de modo algum affirmar, não tendo nunca ouvido citar o seu nome, parece-nos uma victima igualmente lamentavel do mesmo negro fado.

Victoria tem dado conferencias, extraordinariamente concorridas, em Nova-York, em Londres, em Liverpool e em outros centros industriaes da Inglaterra e da America.

Tem a voz insinuante e harmoniosa, a gesticulação arrebatada e artistica, a palavra facil, fluente, emphatica, mas tão quente e apaixonada que exerce sempre uma impressão profunda nos que a escutam.

Como já dissemos não tem os terriveis oculos azues, nem o rosto anguloso e severo de Mrs. Beecher Stowe, uma mulher que fez no seu paiz uma revolução humanitaria, e que destruiu aos nossos olhos todo o effeito sympathico da sua cruzada contra a escravatura com aquellas conferencias pedantes pelas quaes concluiu a sua carreira litteraria.

A mulher oradora precisa de ser formosa, sob pena de ser ultra-ridicula. Parece-nos, porém, que do ridiculo simples, sem circumstancias aggravantes, não a salva nem mesmo a formosura.

Victoria Woodhall no seu paiz préga em favor da santidade do matrimonio, da reforma da educação, de todos os graves e momentosos assumptos de que hoje depende a regeneração politica e moral das sociedades.

Fóra do seu paiz, porém, não vão tão longe ainda as suas aspirações.

O que ella por emquanto reclama é a igualdade e nivelamento absoluto de deveres e direitos entre a mulher e o homem.

Adoptamos com todo o coração não os meios, mas o fim d'essa propaganda tão necessaria; mas não podemos concordar de modo algum com o complemento que a feminil oradora proclama indispensavel.

Achamol-o contraproducente, illogico, funesto ás instituições abaladas, que se pretendem salvaguardar.

Queremos o casamento grave, austero e santo, querermos a creança educada com solicitude extremosa, queremos a mulher respeitada e querida, consciencia de bronze e coração de cêra, queremos na arte um ideal severo e levantado, queremos na sociedade a incorruptivel e serena justiça, queremos o homem regenerado e forte, e é porque desejamos tudo isso, que pedimos a Deus afaste para bem longe de nós o terrivel flagello da mulher dominando o seu proprio destino e o destino da sociedade.

N'um discurso de Victoria Woodhall, pronunciado em Nova-York e applaudido enthusiasticamente por um auditorio de 40:000 pessoas leem-se os trechos seguintes:

«Fallando do casamento, é escusado dizer que falamos n'esse casamento ideal que toda a maldade dos homens não póde destruir; n'esse casamento, de cujos membros poderá dizer-se com verdade: _Foram unidos por Deus, e o poder do homem, não logrará desunil-os_; n'esse casamento, de cujas alegrias jámais quererão apartar-se os que um dia as conhecerem; n'esse casamento que é tão sagrado, tão puro, tão santo, que nem a sombra de uma discussão póde existir entre, os dous factores que o determinam; fallamos n'esse casamento em que os dous representantes oppostos da humanidade--o elemento positivo e o negativo das raças--se tornam pela acção e pelo pensamento n'um unico ser, e tão perfeito, que os mesmos motores o movam e o façam pensar e obrar; em resumo, n'esse casamento do qual nem a sombra d'um elemento estranho possa alterar a pureza, a unidade, a ideal perfeição.

«O casamento é geralmente considerado como um assumpto por demais frivolo ou pueril.

«Aceitam-no ou quebram-lhe os laços com a mesma pressa e a mesma idéa das responsabilidades que elle impõe, como se o considerassem uma instituição especialmente designada para satisfazer as egoisticas paixões da humanidade.»

Sim, concordamos plenamente com este levantado ideal do casamento que a formosa preleccionista apresenta e proclama, mas affirmamos que elle nunca poderá realisar-se se triumpharem universalmente as doutrinas que ella tão ardentemente advoga.

A prova evidente d'esta nova asserção é ella quem se encarrega de nol-a fornecer.

A mulher, como nós a sonhamos e a queremos, não é a forasteira acclamada e illustre que anda espalhando por sobre a cabeça das turbas indifferentes ou passageiramente commovidas, as suas convicções e as suas theorias sociaes.

Recolhida no seu modesto e placido interior, mãe de um bando infantil, mimoso e louro, de que ella fosse a providencia, o amparo, a suprema alegria, esposa de um homem forte e honesto, de um trabalhador, de um membro activo e laborioso da moderna sociedade, a acção d'esta mulher seria muito mais restricta, mas incontestavelmente mais util e mais salutar.

Não daria uma hora de commoção dramatica ao auditorio que viesse ouvil-a, curioso de excentricidades novas; não julgariam possivel a sua eleição como presidente de uma republica poderosa; mas as pessoas que vivessem em mais ou menos estreito contacto com ella receberiam a influencia honesta do seu exemplo, e os filhos que ella educasse seriam outros tantos elementos fecundos da futura regeneração social.

Não é prégando o respeito ao casamento que se convencem os homens, é provando esse respeito nas minimas acções e nas acções mais decisivas de uma existencia.

Mrs. Victoria Woodhall tem arrebatamentos soberbos de eloquencia oratoria, fulminando a decadencia em que o sentimento da familia tem modernamente cahido, mas como quer ella provar-nos que comprehende essa absoluta identificação de duas almas, essa absorpção de um espirito em outro espirito seu irmão, ella que affirma tão rasgadamente a sua individualidade, ella que apparece em plena luz deixando na sombra aquelle de que não póde ser senão a metade incompleta, a porção imperfeita e mutilada.

Anda n'uma gloriosa faina a converter as suas irmãs que prevaricam ou descreem, ou ignoram.

Mas se o exemplo da gloriosa propagandista as tentar e seduzir?

Onde fica o lar modesto, o aceio do ninho, o terno amor dos filhos pequeninos, as obscuras virtudes domesticas, toda a graça, toda a poesia, todo o conchego, todo o encanto mysterioso e indestructivel d'essa ineffavel união chamada o casamento?

* * * * *

Não nos surprende, porém, este producto extraordinario de uma sociedade agitadissima e ainda para si propria indefinida e indefinivel.

A America tem-se feito a si mesmo, não procura para as suas leis e para os seus costumes uma solida base tradicional.

N'ella que é tão forte como nação, tão pertinaz nos intentos, tão energica nas acções, n'ella que é uma prova terminante de como em dous seculos se fórma uma raça, unica e cheia de virginal vigor, ha cousas que estão ainda perfeitamente vagas e fluctuantes.

O destino das mulheres é uma d'essas cousas.

Politicamente possuem os mais amplos direitos, podem ser tudo, aspirar a tudo, todas as carreiras estão abertas diante dos seus passos; socialmente é quasi um dogma o respeito que inspiram.

Ninguem ousa insultal-as nem com uma palavra, nem com uma suspeita, gosam de uma liberdade absoluta, andam sós, viajam desprotegidas ou antes protegidas pela sua fraqueza omnipotente, nos caminhos de ferro, nos omnibus, nos paquetes; sentam-se sósinhas á meza redonda de um _hotel_, fazem emfim impunemente, apoiadas pela despotica soberania dos costumes, tudo que a nós, européas de facto ou de tradição, se affigura quasi monstruoso de inconveniencia.

E no entanto, apesar d'este reinado apparente, apesar d'este predominio ostensivo, é bem mais profunda a invisivel influencia que as mulheres do velho mundo exercem em torno de si, não sobre as leis, o que seria pouco, mas sobre os costumes, o que é quasi tudo.

É que somos as rainhas do lar; de nosso bom ou mau juizo depende a paz ou a guerra, a ventura ou a desgraça, a prosperidade ou a ruina, a dôce mediania tranquilla ou a agitada e tempestuosa existencia mundana.

Não parecemos nada e somos tudo!

Os que mais nos desdenham não escapam ao nosso poder. Submettem-se-lhe inconscientemente. Os que luctam contra nós teem de confessar-se vencidos.

Não somos medicas, não somos advogadas, não somos professoras, não somos preleccionistas officiosas de qualquer theoria, mais ou menos arriscada; mas somos a influencia continua e permanente, a voz surda que sempre se escuta, a tentação funesta ou a guia providencial, o grande poder obscuro, a que se não furta o filho, o irmão, o marido, o proprio pae!

Que importa que não possamos exercer a nossa acção dentro da esphera restricta e limitada das leis, se os costumes ahi estão, para que nós os criêmos, os modifiquemos, os transformemos, para que nós lhes dêmos o nosso collectivo impulso enorme!

Na America, visto que a mulher tem a faculdade de luctar com o homem no campo da actividade pratica, é-lhe restringido fatalmente o seu poder na esphera em que ella póde e deve ser rainha.

O casamento na America protestante, dizem os viajantes que teem observado os costumes d'essa raça estranha e vigorosa, é um contracto temporario que se baseia no calculo, e que o mais leve atricto póde destruir.

O divorcio é alli um facto vulgarissimo, ha mulheres divorciadas de tres maridos que contrahem muito serenamente um quarto matrimonio tão sagrado e tão respeitavel como os tres primeiros.

Os filhos resentem-se inevitavelmente d'este estado transitorio em que permanece a familia.

Não teem respeito nem disciplina, e é mais do que provavel que não tenham amor.

Em pequenos teem de sujeitar-se ás regras estabelecidas, logo porém que sahem da infancia representam por si proprios, encetam a grande lucta da vida.

A independencia pessoal, o individualismo britannico, accentua-se alli d'uma fórma muito mais saliente.

_Cada um por si_, eis a lei que rege o verdadeiro _Yankee_, lei que herdou de seus avós anglo-saxonios e que exagerou, accommodando-a ás despoticas exigencias do seu meio.

Assim como a sociedade politica, assenta no principio da mais ampla e rasgada descentralisação, assim a sociedade moral é dominada por um principio exagerado de independencia, que afrouxa necessariamente os laços da familia.

Não se faz idéa entre nós do que é um interior nos Estados-Unidos.

Nas classes burguezas e medianamente favorecidas dos bens de fortuna, vive-se por assim dizer em commum n'uma especie de hospedaria, em que se reune uma duzia ou mais de familias.

Ás horas da refeição agglomera-se em torno da meza aquella multidão de indifferentes que mal se conhecem; comem á pressa absortos em preoccupações de ordens diversas que ainda mais os separam e os distanceiam.

A comida feita sem amor, sem solicitude, sem o cuidado que inspiram á boa mãe e á boa esposa as predilecções dos filhos e do marido, a hygiene da familia, a economia do lar, não tem para nenhum dos commensaes nem alegria nem sabor.

Comem como quem cumpre uma obrigação indispensavel e enfadonha, e d'alli partem para a faina, para o trabalho sem treguas, para a lucta acerba e pertinaz.

Nem um momento de repouso ou de tranquillo devaneio.

A vida é o trabalho; o tempo é mais do que dinheiro, é sangue.

A existencia dos americanos é uma existencia de operario, tressuada, esmagadora.

Todos querem conquistar a sua porção legitima de abundancia ou mais ainda, de riqueza.

Para que?

Para terem bem firme a consciencia de que a mereceram.

Ha uma pressa febril, uma impaciencia vertiginosa, uma ancia de todos os instantes n'esta raça de impetuosos luctadores.

As qualidades e os defeitos britannicos attingem além do Atlantico um relevo exagerado.

N'esta vida cortada de obstaculos e difficuldades, n'esta vida em que a energia do homem, o seu vigor physico e moral, a dura tenacidade do seu querer, se exercitam e robustecem na mais desenvolvida escala, que lugar póde haver para a poesia, para a arte, para as tranquillas doçuras da vida domestica, para os prazeres de uma culta sociabilidade?

Ha tempo apenas para admirar as extravagancias imprevistas, as cousas novas e excentricas que firam a attenção, que se imponham rapida e subitamente ao pasmo das turbas.

Deriva do modo inteiramente caracteristico porque os americanos entendem a vida, o lugar que n'ella dão á mulher. Isolada por um esteril respeito, despojada de todo o predominio que entre nós lhe concedem os costumes, e a tradição religiosa e social, a mulher para tentar adquirir a consciencia da sua força, tem fatalmente de ir procural-a na arena em que luctam os homens.