Mulheres e creanças: notas sobre educação
Chapter 7
Que dizem então da mulher que casa para ser livre, para ser independente, para ter diamantes e rendas preciosas, para frequentar os bailes, os theatros, os passeios, para ser uma taboleta ambulante do luxo real ou do luxo hypothetico do _ménage_?
Imagine-se, por instantes um rapaz moço, intelligente, cheio de aspirações sãs, de boa vontade e de energia, dotado de ricas faculdades intellectuaes, capaz de conquistar á força de perseverança, de trabalho e de privações, um lugar distincto na sciencia ou na industria, na politica ou no magisterio.
Não tem dinheiro, ou tem apenas uma pequena fortuna que o pae lhe legou, juntamente com um nome honrado.
Sente a natural aspiração de completar a sua existencia, unindo-se á mulher que mais ou menos lhe povoou os sonhos de adolescente.
Não tem tempo para escolher; absorve-o o trabalho a que forçosamente tem de consagrar quasi todas as suas horas.
Não tem um conhecimento profundo da natureza feminina.
Os nossos costumes com as suas reservas hypocritas, com as suas precauções restrictas, que dão idéa pouco lisongeira do pudor e da castidade das mulheres portuguezas, oppoem-se a que o homem tenha d'ellas um conhecimento que não seja frivolo, ridiculo, superficial--o conhecimento que se adquire em uma sala entre duas quadrilhas sensaboronas, ou n'um camarote durantre um entre-acto cheio de tedio.
Não póde pôr-se pelo mundo á busca de uma excepção: o molde das nossas meninas da sociedade varia muito pouco.
Todas sabem bordar a matiz, tocar a _Somnambula_ e o _Trovador_ ao piano, fazer _housses_ de crochet, papaguear em duas ou tres linguas puerilidades comicas, dançar os _Lanceiros_ e criticar as _amigas intimas_.
N'estas circumstancias o que póde fazer o pobre moço?
Ou resistir ás solicitações impetuosas da mocidade, á necessidade instinctiva que sente do conchêgo de familia, d'aquelle _sweet home_ que tanto imperio tem no coração de todo o homem de pensamento e de trabalho; ou tem de contentar-se com a escolha feita á pressa de uma d'essas rachiticas flôres de salão.
É desinteressado no sentido mais amplo da palavra, tem aquellas santas utopias que são a suprema riqueza dos vinte annos; na sua escolha impera tudo menos o calculo e a arithmetica.
Prefere, pois, uma noiva pobre.
Applaudem-lhe a generosa imprevidencia; gabam-lhe os sentimentos honestos e cavalleirosos; envolve-o um certo prestigio durante uns poucos de mezes.
Os mezes da _lua de mel_.
--Portou-se admiravelmente!--exclamam as _mamãs_, contemplando com ar piedoso as filhas sem dote, e envolvendo na sua furia rancorosa os _dandys_ que andam á pesca de noivas ricas, pelas aguas turvas da nossa sociedade.
Resultado pratico de tudo isto: seis mezes depois de casado, o nosso pobre heroe vê-se a braços com todos os encargos de um _ménage_ a que falta o conchêgo e a alegria. Como não teve tempo de fazer-se amado, como o amor é no fim de contas um genero carissimo que o coração das meninas de hoje prodigalisa muito pouco, encontra em casa ao voltar das luctas quotidianas, a que se arrojou com novos alentos e nova fé, um acolhimento frio, um rosto desconsolado, uma mulher que finge resignação e que só tem despeito, porque o casamento lhe não deu nenhumas das frivolas vantagens que lhe promettera.
Tinha sonhado com _toilettes_ elegantes, uma _robe de chambre_ bordada, uma touca de manhã como as que desenha a phantasia pittoresca dos caixeiros da _Mode Illustrée_, queria uma casa de jantar elegante com mobilia _en vieux chêne_, aparadores carregados de finas porcellanas, um criado de casaca preta e modos de embaixador, passando discretamente, sem fazer barulho, por cima do _parquet_ suisso, cuidadosamente encerrado.
Gostava de ter um _boudoir_ todo de seda côr de perola onde ella podesse ler, preguiçosamente deitada no no seu pequeno _fauteuil_ muito flascido, diante de um _guéridon_ cheio de violetas e de _gardenias_, os ultimos romances, as revistas estrangeiras, as criticas musicaes dos mestres mais famosos.
Sempre tivera a esperança de fugir pelo casamento á pressão sordida da miseria paterna.
Detestava a vida que tinha levado em solteira, fazendo ella propria os vestidos para ir ao baile, cerzindo redes nas botinas de setim branco, com os dedos picados, um roupão de chita amarrotado, e o coração cheio de rancor e inveja ás que tinham o luxo e o conforto que ella não tinha.
Aquelle homem apparecera-lhe.
Era pobre, é verdade, mas disseram-lhe que _tinha talento_, que tinha _ou que ia ter uma posição_; acceitara-o por cansaço, por desalento, porque se impacientava já de esperar mais tempo.
Levara comsigo os mesmos sonhos que a tinham perseguido, imaginava casas imprevistas, edificava hypotheses extravagantes; á força de ambicionar a riqueza, acabava por se convencer que havia de ser rica.
E agora!
Tudo que a cercava era tão mediocre!
Se tivesse pachorra, se tivesse boa vontade, podia enfeitar com plantas o seu pequenino quarto de trabalho, pôr ao menos umas cortinas de cassa branca na janella.
Não tendo a riqueza, podia ter o aceio; não tendo o luxo, podia ter a graça.
Os livros bem dispostos sobre a mesa, cujo tapete ella propria houvesse feito ao serão, uma jarra de louça com um ramo de madresilva ou de rosas de maio, as cadeiras agrupadas com um certo ar de intimidade e de alegria, um aspecto de pobreza satisfeita que faz tão bem á alma!
Vestiria um simples roupão de fazenda clara, sem enfeites, mas de um feitio elegante e gracioso, os cabellos bem penteados, uma flôr presa nas tranças.
Iria ella mesma á cosinha arranjar uns pratinhos de que elle gostasse, o pobre trabalhador que á noute voltaria cansado, mas cheio de fé robusta e de profundas crenças, porque o amor o amparava e lhe sorria!
Dentro de uma gaiola, na janella da casa de jantar, haveria um canario muito alegre, não tanto ainda assim como ella, a pequenina _ménagere_ muito atarefada, muito contente, espalhando na sua casa modesta e pobre um perfume de virtude, de castidade, de ternura animadora e sã!
Mas quem é que a tinha educado para cumprir este programma tão simples e tão difficil?
Quem lhe tinha communicado com o leite a noção d'estes graves e honestos deveres?
A mãe que a passeara de baile em baile, á cata de um marido?
Os livros que ella lêra e que fallavam de duetos apaixonados entre um bardo _pelintra_ e uma menina romantica com olheiras e muito pó de arroz?
O marido ao principio quer luctar; procura educal-a elle, já que a familia a não educou; vem de fóra muitas vezes preoccupado com os seus estudos, com um problema scientifico que deseja resolver, com uma especulação industrial que talvez lhe dê a paz e a aurea mediocridade a que tanto aspira, por amor da sua querida mulhersinha... não importa!
Sacode como um peso importuno todos os pensamentos que o absorviam, senta-se ao pé d'ella, porque a vê triste, enfastiada, com um certo desleixo no aspecto que lhe aperta o coração, procura não reparar, para a casa sem arranjo a que falta aquella poesia do lar que tanto o captivou nas suas scismas de rapaz; conversa, afaga-a, desenrola diante do olhar d'ella vago e distrahido um horisonte de futuras alegrias.
Um dia, porém, descobre com magoa que ninguem jámais poderá sondar nem comprehender, que tudo que elle esperou um dia assenta n'uma base chimerica; que essa mulher, a quem associou a sua vida, em vez de ser-lhe amparo, guia, consolação, conselho, em vez de luctar ao lado d'elle para conquistarem ambos a ventura dos filhos, o dôce e tranquillo socego da velhice, vive toda absorta n'um sonho de imaginarias riquezas; que empallidece de raiva de vêr as outras ricas emquanto ella é pobre; que amaldiçôa todos os dias o alimento que elle lhe ganha laboriosamente, porque lhe não é servido em pratos do Japão; que olha com desdem para os modestos presentes que elle á custa de longas economias consegue comprar-lhe; que detesta emfim tudo que elle ama; que tem o tedio invencivel de tudo que elle julgou, por muito tempo, o resumo de todas as suas alegrias!
N'essa hora dolorosa e que tem de soar fatalmente na vida de quasi todos estes obscuros luctadores, alguns, os mais fracos, amaldiçoam tambem a sua austera e honrada pobreza, e tractam de fugir-lhe atirando-se a todos os turvos mares da especulação e do mercantilismo!
Outros--os fortes--afastam-se com desdem de aquella que, sem talvez saber o que fazia, tentava arrastal-os por um declive funesto, e isolam-se n'um mundo onde não querem a companhia de ninguem.
Ha tambem os que, despertando do sonho em que andaram embebidos, descrêem de tudo em que um dia acreditaram e cedem á convicção fatal de que no mundo não ha cousa alguma que seja digna, desinteressada e sem liga de calculos vis.
A verdade é que mais ou menos todos se arrependem e todos o deixam ver!
Este exemplo é que vae a pouco e pouco destruindo no coração dos moços a idéa de que a familia, em vez de roubar o alento e a força ao homem, os robustece e lhes dá mais solidos alicerces.
No dia em que as mulheres tiverem coragem para supportarem com alegria e com intrepidez a pobreza que tanto as assusta, verão como a base do casamento deixa de ser o calculo que hoje o macula.
Se o homem, que é por natureza egoista, comprehender que unindo a sua vida á vida d'uma mulher dedicada, adquire novas forças para a lucta em que anda empenhado, é incontestavel que deixará de considerar como unico elemento de prosperidade futura o dote da noiva que houver escolhido.
Não basta ter coragem e ter intrepidez para supportar as privações da pobreza; é preciso antes de tudo compenetrar-se bem da idéa de que a pobreza tem grandes alegrias defezas aos ricos; que a modestia dos meios não obsta a que possamos enflorar a vida dos que amamos, com aquelle dôce e poetico conchego, que é para a alma um ninho mais tepido e mais macio, do que as pompas magestosas que envolvem theatralmente a vida dos millionarios.
CAPITULO IX
A uma noiva
Minha querida Maria:
A tua carta conta-me as tuas primeiras e adoraveis alegrias de noiva.
Estás radiante!
Subiste ao _setimo céo_ da ventura humana e crês que não é possivel cahir de lá.
Fallas-me do teu véo branco, da tua corôa, das palavras enternecidas que _elle_ te disse, das opulencias do teu enxoval, do teu quarto de cama á Pompadour, do amor que tens ao teu _maridinho_, do futuro que sonhas radioso, eu sei; fallas-me de tudo, filha, e eu li esse poema gentil da tua mocidade com um verdadeiro enternecimento bem sincero.
Fallas-me de tudo, digo eu; engano-me.
Não me fallaste de uma cousa importantissima, filha.
Não me fallaste da panella.
Sou eu, pois, que vou fallar-te, com a mais profana das irreverencias, d'este assumpto que é um dos mais graves n'um _ménage_ que principia.
Credo! exclamas tu com aquella _moue_ engraçadissima, que eu te conheço do collegio, e que sempre teve a habilidade de me fazer rir immenso.
--«Pois eu sei lá sequer se ha em minha casa uma panella! Pois eu hei de misturar as confidencias extaticas da minha mysteriosa e ideal felicidade com a relação das minhas cassarolas! Que tem este amor que me enleva e me arrebata, com a comida que se manipula na cosinha! Deixa que eu te descreva as rendas e os setins com que me enfeito para lhe agradar a _elle_; mas, por Deus, pelo amor da arte, da poesia, da delicadeza feminil, não queiras que eu ajunte a essas descripções uma nova receita de refugado.»
Ouve-me, filha; ninguem attende por ahi estas verdades, que são elementares, tudo quanto ha de mais elementar.
Sabes onde se fabríca e se consolída a felicidade de um _ménage_?
Na cosinha.
Sabes de onde sahe muitas vezes a ruina de uma casa?
Da cosinha.
Sabes qual é a origem de tantas doenças que por ahi nos desconsolam com os seus aspectos repulsivos?
A cosinha.
E tu entrando na vida conjugal, acceitando o _encargo_ d'almas, porque a dona da casa acceita-o, recebendo nas tuas pequenas mãos delicadas a responsabilidade complexa de mãe de familia, tu pobre querida ignorante, ousas dizer desdenhosamente que nem sabes sequer se em tua casa ha cosinha.
Pois sabe.
Estás habituada a evocar com a aerea ligeireza dos teus longos dedos brancos as notas immortaes em que Beethoven, Rossini, Mayerbeer nos legaram as mysteriosas riquezas da sua alma?
Gostas dos delicados lavores inventados, pela paciencia feminal, dos bordados custosos, das matizadas sedas, de todo esse conjunto de graciosas futilidades em que nós dispendemos horas e horas da nossa vida?
Pois, minha querida, logo que a mulher penetra no limiar da sua casa de esposa tem de antepôr tudo que é util a tudo que é agradavel, tem de adoptar como suprema divisa da sua vida a palavra--sacrificio!
E não creias que isto seja uma dolorosa e inutil mutilação do teu ser.
Quanto mais te sacrificares, crê que maior e que melhor te has de sentir.
Será como um progressivo ascender a uma esphera superior.
Cá em baixo ficam as pequenas vaidades, as frioleiras inuteis, as puerilidades infantis, os despeitos raivosos, toda a expressão mesquinha e imperfeita do teu organismo; lá em cima está a larga tranquillidade que ha de envolver-te como um delicioso banho tepido, a consciencia plena de haveres attingido o fim para que foste creada, a certeza divina da felicidade que communicas em torno de ti, a satisfação do dever preenchido, tudo emfim que nos eleva, que nos depura, que nos faz comprehender o motivo para que viemos a este mundo--aqui para nós--eminentemente estupido!
Não te deslumbrem, pois, as primeiras alegrias da tua _lua de mel_.
Entre parenthesis, é esta uma phrase que eu abomino, pela simples razão de a achar falsa, e causadora de falsas e funestas interpretações da vida conjugal.
A _lua de mel_ é uma mentira; não existe, ou, se existe, não deve de modo nenhum existir, o que vem a dar na mesma.
Esse periodo officialmente consagrado, que se funda em toda a especie de impostura, deve ser abolido sem appellação por todos os pares honestos que se estimem e prezem.
Imagine-se por um instante que os novos conjuges assumiram a liberdade de formularem em palavras tudo que tivessem no pensamento, o que diziam um para o outro:
«Já conheço todos os teus defeitos, já sei que hei de vir a dar-me muito mal comtigo: achei-te ainda agora profundamente ridiculo n'aquella phrase que me disseste; mas como estamos na _lua de mel_, deixa-me que te beije com transporte, que te recite ao piano o idyllio apaixonado da minha ventura, que olhe para ti com a sentimentalidade piégas com que os caixeiros romanticos olham para as namoradas, que minta emfim conscienciosamente, como compete a quem se acha de posse de uma posição official e a quem não póde renunciar sem desdouro!»
Não seria profundamente ridiculo este dialogo?
Pois sabe, minha querida, que em cada cem casaes, oitenta podiam em boa consciencia traval-o entre si.
Muitas vezes a _lua de mel_ não passa de uma dolorosa iniciação.
Mais tarde as circumstancias modificam-se, o que nos parecia prenuncio de desgraças transforma-se em tranquilla felicidade; os caracteres, que no fundo se repelliam, embora na apparencia se afagassem, adaptam-se e identificam-se em resultado da ultima convivencia; a paz domestica conquista-se, com esforços meritorios de parte a parte; o que ha pouco era mentira, torna-se uma verdade luminosa e pura.
E o que prova tudo isto, minha amiga?
É que o tempo mais difficil da nossa vida de casadas é aquelle que os tolos e os impostores chamam, seguindo a estupida rotina de seculos, o mais delicioso!
Sou adoravelmente feliz, porque ainda não conheço bem meu marido, nem meu marido me conhece a mim...
Palavra, que acho isto uma esplendida interpretação da vida domestica!..
Commentem bem esta phrase implicitamente incluida em todos os louvores que se tecem á celebre _lua de mel_, e ahi téem os divorcios, os adulterios, os intimos dramas conjugaes, as luctas atrozes em que dous entes se dilaceram até que n'elles morra a alma e o corpo!
Mas, minha Maria, que longe me arrastou esta digressão apaixonada.
Perdoa-me.
Se bem me lembro, estavamos ambas muito mais _terra a terra_.
Eu tinha conseguido fazer-te largar o teu piano de Erard, as tuas aquarellas e os teus bordados, e tinha-te arrastado até á cosinha de tua casa, cuja existencia tu teimavas em ignorar.
Talvez tu penses, minha pobre amiga, que esse _senhor_, discreto, ameno, gracioso, condescente, que acha graça a tudo que tu dizes, que concorda com todas as tuas opiniões, que ás vezes se ajoelha submissamente aos teus pés, e te diz baixinho--adoro-te!--com uma expressão de _tenor_ em disponibilidade, que se delicia com as tuas _toilettes_, que dá muita attenção á variedade artistica do teu penteado, que é, emfim, _todo teu_ no sentido falso d'esta palavra, pensa tudo quanto diz, e se conservará por muito tempo n'esse adoravel e massador diapasão?..
Enganas-te.
Elle enfastia-se soberanamente do seu papel, estuda-te com ar sorrateiro, e pede a Deus que acabe o periodo em que tem de renunciar á sua individualidade, para se conformar com os usos e costumes da sociedade elegante, de que faz ou quer fazer parte.
Acabado que seja esse periodo que tem limites determinados, dize-me tu qual o meio de que tencionas usar para o prenderes junto de ti, para que elle comece então a ser sincera e dignamente _o teu marido_, isto é, o teu melhor e mais fiel amigo, para que a vossa vida commum assente em bases solidas e perduraveis.
Julgas que basta para isso vestires o teu mais bonito vestido, penteares o teu bello cabello louro do modo mais excentrico e original, dizeres com a tua voz sonora e grave os paradoxos mais scintillantes, mostrares-lhe as riquezas com que uma esmerada educação povoou o teu espirito?
Innocente creatura! não conheces o que é o _homem_, o animal mais prosaico e positivo da creação!
O que elle quer depois das suas luctas com os outros homens, das farças que é obrigado a representar para o publico, dos combates em que é alternativamente vencido e vencedor, o que elle quer é descanso, conchego, esquecimento de todos os artificios que vão lá por fóra, e sobretudo (não te horrorises, minha sonhadora!) e sobretudo commodidades physicas.
Dá-lhe a melhor das poltronas, o mais confortavel dos gabinetes, o mais suave e caricioso dos sorrisos, e, principalmente, dá-lhe _um bom jantar_.
Cheguei emfim, ao ponto a que tendia desde o principio d'esta carta.
Confesso que me custou! Isto de mulheres!..
Tu provavelmente imaginas que um bom jantar é cousa que pertence exclusivamente aos dominios do bom cosinheiro.
Como te enganas!
Em primeiro logar, não ha nada peior que um _bom_ cosinheiro.
Um _bom_ cosinheiro é a ruina de uma casa, é um envenenador de barrete branco, é um assassino de abdomen tranquillisador e hypocrita.
Um _bom_ cosinheiro começa por nos dar cabo da bolsa, o que é terrivel; acaba por nos dar cabo do estomago, o que é simplesmente irremediavel.
Todos os _restaurants_ luxuosos possuem a prenda de um _bom_ cosinheiro.
Põe um pobre homem a jantar durante dous annos a fio n'um d'esses _restaurants_ elegantes, e depois conta-me por miudos em que estado miseravel vaes dar com elle.
Destruida esta primeira idéa, deixa-me ainda dizer-te uma cousa que tu não sabes.
A mesa não tem tal a importancia insignificante que tu embirras em querer dar-lhe.
Sendo o estomago um dos orgãos principaes da humanidade, é absurdo desdenhar d'esse modo o que tem com tão elle estreitas relações.
Se eu fosse pedante era capaz até de te provar que o livro que descrevesse o que o homem tem comido nas épocas primitivas e nas quadras de civilisação refinada e perfeita, nos periodos de barbaria e nos tempos de desenvolvimento e de progresso, seria o livro mais completo da historia universal da humanidade.
O alimento faz o homem.
Os antigos scandinavos, _os reis do mar_, os impetuosos e bravios caçadores de _uroch_, brancos, athleticos, sanguinarios, de olhos azues metallicos e faiscantes; alimentavam-se nos seus festins cyclopicos da carne quasi crua dos animaes que matavam.
Nero gostava de saborear as contorsões de agonia das _murêas_ que creava nos seus viveiros, e que alimentava muitas vezes com o corpo palpitante dos escravos, e nas festas voluptuosas e crueis que dava na sua _Casa de ouro_, emquanto dançavam as bailarinas gaditanas e egypcias, os convivas, coroados de rosas, esperavam que o peixe tivesse soltado o ultimo arranco de vida para se servirem do saboroso acepipe.
Não vês atravez d'estes dous exemplos uma raça de instinctos barbaros, e uma civilisação pavorosa e apodrecida?
O homem moderno enfraquecido pela degeneração progressiva de umas poucas de gerações, tendo de dispender uma enorme porção de energia e de força nas luctas incessantes a que o obrigam as infernaes exigencias da nossa época, precisa, por assim dizer, de ser reconstituido dia a dia.
É n'isto que as mulheres não pensam bastante.
Depois em um _ménage_, sobretudo de medianos haveres, a mesa relaciona-se com tres questões de uma alta importancia.
Primeiro, a questão da saude, que sobreleva a todas.
Segundo, a questão da economia de que depende a paz, a alegria, o socego, a elegancia modesta da vida intima; o bom humor do marido, a _toilette_ fresca e garrida da esposa, a alvura da toalha pezada de linho adamascado, tudo que emfim constitue o conforto e a alegria domestica.
Terceiro, a fidelidade do marido ás modestas mas saborosas iguarias da sua mesa de familia.
O jantar tem de ser bem feito, economico e salubre. Eis o grande problema.
Para o resolveres não te fies n'uma cosinheira muito estupida, muito suja e muito rotineira, nem n'um altivo sujeito cheio de theorias estapafurdias e de nomes francezes estropiados.
Fia-te em ti.
É o mais seguro, o mais razoavel, aquillo que teu marido te ha de agradecer mais.
Não estragues as tuas finas mãos de duqueza, não desças á humilhante posição de _cordon bleu_ da tua propria casa, mas dirige tu esse ramo tão importante de administração domestica.
Estuda essa sciencia tão util e tão descurada que se chama _chimica culinaria_, e verás como a saude dos que tens debaixo da tua guarda ha de progredir com isso.
Não te injuries, nem te afflijas então quando conheceres que o sorriso que teu marido negou ás sabias architecturas do teu penteado, lhe desabrocha nos labios franco e alegre em frente de um caldo feito sob a tua direcção, de um _roastbeef_ temperado pelas tuas mãosinhas de fada, de um novo acepipe que inventastes e que lhe despertou o esmorecido appetite.
A arte de ser esposa e de ser mãe funda-se n'um segredo muito simples.
Não se trata de sermos felizes á custa dos que são nossos; trata-se de fazermos felizes os nossos, á nossa propria custa.
Começamos pelo sacrificio, e acabamos pela apotheose!
Mas que de cousas eu fui buscar para te dar uma lição de _azeites e vinagres_.
Ai! filha, é que tenho aprendido á minha custa que na terra não ha nada pequeno, e que todas as cousas que de perto se nos afiguram mesquinhas, estão de tal maneira ligadas e relacionadas entre si, que formam unidas este grande conjuncto que se chama a vida.
CAPITULO X
O dever de ser bonita
Dizia uma das mais espirituosas escriptoras da França, aquella para quem Theophile Gauthier inventou o gracioso epitheto de _bas lilas_, livrando-a d'este modo da terrivel, grotesca e immerecida alcunha de _bas bleu_, que _o primeiro e mais sagrado dever da mulher é ser bonita_.
Abaixo o paradoxo! bradou logo em torno a turba-multa das feias, furiosas contra a sentença que as punha por assim dizer fóra da lei.
Foi necessario entrar em explicações, e todas nós vemos então a comprehender o que Madame de Girardin entendia pela belleza feminina.
Ser bonita no fim de contas não é ter fórmas esculpturaes--isso já passou de moda, não é ter feições perfeitas--não ha nada mais profundamente monotono e massador; não é ter collo de _alabastro_, cabellos de _ebano_, labios de _rubis_, dentes de _perolas_, olhos de _diamante preto_, testa de _marfim_, etc., etc., etc.