Iracema com uma noticia biographica do auctor
Part 6
Logo apóz a victoria o christão tornára ás praias do mar, onde construira sua cabana. De novo sentiu em sua alma a sede do amor; e tremia de pensar que Iracema houvesse partido, deixando ermo aquelle sitio tão povoado outrora pela felicidade.
O christão amou outra vez a filha do sertão, como da primeira vez, quando parece que o tempo não poderá exhaurir o coração. Mas breves sóes bastaram para murchar aquellas flôres de um coração exilado da patria.
O imbú, filho da serra, se nasceu na varzea porque o vento ou as aves trouxeram a semente, vingou, achando boa terra e fresca sombra; talvez um dia copou a verde folhagem e enflorou. Mas basta um sopro do mar, para tudo murchar. As folhas lastram o chão; as flôres leva-as a brisa.
Iracema tambem foge dos olhos do esposo, porque já percebeu que esses olhos tão amados se turbam com a vista d'ella, e em vez de se encherem de sua belleza como outrora, a despedem de si. Mas seus olhos d'ella não se cançam de acompanhar á parte e de longe o guerreiro senhor, que os fez captivos.
Ai d'ella!... Sentiu já o golpe no coração e como a copaiba ferida no amago, distilla lagrimas em fio.
XXVIII
Uma vez o christão ouviu dentro em sua alma o soluço de Iracema: seus olhos buscaram em torno e não a viram.
A filha de Araken estava além, entre as verdes moitas de ubaia, sentada na relva. O pranto desfiava de seu bello semblante; e as gotas que rolavam a uma e uma cabiam sobre o regaço, onde já palpitava e crescia o filho do amor. Assim cahem as folhas da arvore viçosa antes que amadureça o fructo.
--O que espreme as lagrimas do coração de Iracema!
--Chora o cajueiro quando fica tronco secco e triste. Iracema perdeu sua felicidade, depois que te separaste d'ella.
--Não estou eu junto a ti?
--Teu corpo está aqui; mas tua alma vôa á terra de teus pais, e busca a virgem branca, que te espera.
Martim doeu-se. Os grandes olhos negros que a indiana pousara n'elle o tinham ferido no amago.
--O guerreiro branco é teu esposo: elle te pertence.
A formosa tabajara sorriu em sua tristeza:
--Quanto tempo ha que retiraste de Iracema teu espirito? Antes teu passo te guiava para as frescas serras e os alegres taboleiros; teu pé gostava de pisar a terra da felicidade e seguir o rastro da esposa. Agora só buscas as praias ardentes, porque o mar que lá murmura vem dos campos em que nasceste; e o morro das areias, porque do alto se avista a igara que passa.
--É a ancia de combater o tupinambá que volve o passo do guerreiro para as bordas do mar: respondeu o christão.
Iracema continuou:
--Teu labio seccou para a esposa, como a canna quando ardem os grandes sóes; perde o grato mel e as folhas murchas não podem mais brincar quando passa a brisa. Agora só fallas ao vento da praia para que elle leve tua voz á cabana de teus paes.
--A voz do guerreiro branco chama seus irmãos para deffender a cabana de Iracema e a terra de seu filho, quando o inimigo vier.
A esposa meneou a cabeça: do fructo do genipapo e buscam a flôr do espinheiro; a fructa é saborosa, mas tem a côr dos Tabajaras; a flôr tem a alvura das faces da virgem branca. Se cantam as aves, teu ouvido não gosta já de escutar o canto mavioso da graúna; mas tua alma se abre para o grito do japim, porque elle tem as pennas douradas como os cabellos d'aquella que tu amas!
--A tristeza escurece a vista de Iracema e amarga seu labio. Mas a alegria ha de voltar á alma da esposa, como volta á arvore a verde rama.
--Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ella morrerá, como o abaty depois que deu seu fructo. Então o guerreiro branco não terá mais quem o prenda na terra extrangeira.
--Tua voz queima, filha de Araken, como o sopro que vem dos sertões do Icó, no tempo dos grandes calores. Queres tu abandonar teu esposo?
--Vêem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vae subindo ás nuvens; a seus pés ainda está a secca raiz da murta frondosa, que todos os invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para abraçar o tronco irmão. Se ella não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer áquella altura. Iracema é a folha escura que faz sombra em tua alma; deve cahir, para que a alegria alumie teu seio.
O christão cingio o talhe da formosa indiana e a estreitou ao peito. Seu labio levou ao labio da esposa um beijo, mas aspero e amargo.
XXIX
Poty voltou do banho.
Segue na areia o rastro de Coatyabo, e sobe ao alto da Jacarécanga. Ahi encontra o guerreiro em pé no cabeço do monte com os olhos alongados e os braços estendidos para os largos mares.
Volve o Pytiguara as vistas e descobre uma grande igara, que vem sulcando os verdes mares, impedida pelo vento:
--É a grande igara dos irmãos de meu irmão que vem buscal-o!
O christão suspirou:
--São os guerreiros brancos inimigos de minha raça, que buscam as praias da valente nação pytiguara, para a guerra da vingança: elles foram derrotados com os Tabajaras nas margens do Camocim; agora vem com os seus amigos os Tupinambás pelo caminho do mar.
--Meu irmão é um grande chefe. Que pensa elle que deve fazer seu irmão Poty.
--Chama os caçadores de Soipé e os pescadores do Trahiry. Nós iremos ao seu encontro.
Poty accordou a voz da inubia: e os dois guerreiros partiram ambos para o Mocoribe. Pouco alem viram os guerreiros da Jaguarassú e Camoropim que corriam ao grito de guerra. O irmão de Jacaúna os avisou da vinda do inimigo.
O grande maracatim corre nas ondas, ao longo da terra que se dilata até ás margens do Parnahyba. A lua começava a crescer quando elle deixou as aguas do Mearim; ventos contrarios o tinham arrastado para os altos mares, muito alem do seu destino.
Os guerreiros pytiguaras, para não espantar o inimigo se occultam entre os cajueiros; e vão seguindo pela praia a grande igara: durante o dia avultam as brancas velas; de noite os fogos atravessam a negrura do mar, como vaga lumes perdidos na mata.
Muitos sóes caminharam assim. Passam alem do Camocim, e afinal pisam as lindas ribeiras da enseada dos papagaios.
Poty manda um guerreiro ao grande Jacaúna e se prepara para o combate. Martim, que subiu ao morro de areia, conhece que o maracatim vem recolher no seio da terra; e avisa seu irmão.
O sol já nasceu; os guerreiros guaraciabas e os tupinambás seus amigos, correm sobre as ondas nas ligeiras pirogas e pojam na praia. Formam o grande arco, e avançam como o cardume do peixe quando corta a correnteza do rio.
No centro estão os guerreiros do fogo, que trazem o raio; nas azas os guerreiros do Mearim que brandem o tacape.
Mas nação alguma jamais vibrou o arco certeiro, como a grande nação pytiguara; e Poty é o maior chefe, de quantos chefes empunharam a inubia guerreira. Ao seu lado caminha o irmão, tão grande chefe como elle, e sabedor das manhas da raça branca dos cabellos do sol.
Durante a noite os Pytiguaras fincam na praia a forte caiçara de espinho: e levantam contra ella um muro de areia, onde o raio esfria e se apaga. Ahi esperam o inimigo. Martim manda que outros guerreiros subam á copa dos mais altos coqueiros; alli defendidos pelas largas palmas, esperam o momento do combate.
A setta de Poty foi a primeira que partiu, e o chefe dos guaraciabas o primeiro heroe que mordeu o pó da terra extrangeira. Rugem os trovões na dextra dos guerreiros brancos; mas os raios que desferem mergulham-se na areia, ou se perdem nos ares.
As settas dos pytiguaras, já cahem do céo, já voam da terra, e se embebem todas no seio do inimigo. Cada guerreiro tomba crivado de muitas flechas, como a presa que as piranhas disputam nas aguas do lago.
Os inimigos embarcam outra vez nas pirogas, e voltam ao maracatim em busca dos grandes e pesados trovões, que um homem só, nem dois, podem manejar.
Quando voltam, o chefe dos pescadores, que corre nas aguas do mar como o veloz camoropim, de que tomou o nome, se arroja nas ondas, e mergulha. Ainda a espuma não se apagára, e já a piroga inimiga se afundou, parecendo que a tragára uma baleia.
Veiu a noite, que trouxe o repouso.
Ao romper d'alva, o maracatim fugia no horisonte para as margens do Mearim. Jacaúna chegou, não mais para o combate e sim para o festim da victoria.
N'essa hora em que o canto guerreiro dos pytiguaras celebrava a derrota dos guaraciabas, o primeiro filho que o sangue da raça branca gerara n'essa terra da liberdade, via a luz nos campos da Porangaba.
XXX
Iracema cuidou que o seio se lhe rompia: e buscou a margem do rio, onde crescia o coqueiro.
Estreitou-se com a haste da palmeira. A dôr lacerou suas entranhas; porém logo o choro infantil inundou todo o seu ser de jubilo.
A joven mãe, orgulhosa de tanta ventura, tomou o tenro filho nos braços e com elle se arrojou ás aguas limpidas do rio. Depois suspendeu-o á teta mimosa; seus olhos então o envolviam de tristeza e amor.
--Tu és Moacyr, o nascido de meu soffrimento.
A ará, pousada no olho do coqueiro, repetiu Moacyr; e desde então a ave amiga em seu canto unia ao nome da mãe, o nome do filho.
O innocente dormia; Iracema suspirava.
--A jaty fabrica o mel no tronco cheiroso do assasfraz; toda a lua das flores vôa de ramo em ramo, colhendo o suco para encher os favos; mas ella não prova sua doçura, porque a irara devora em uma noite toda a colmeia. Tua mãe tambem, filho de minha angustia, não beberá em teus labios o mel do sorriso.
A joven mãe passou aos hombros a larga faxa de macio algodão, que fabricara para trazer o filho sempre unido ao flanco; e seguiu pela areia o rastro do esposo, que ha tres sóes partira. Ella caminhava docemente para não despertar a creancinha adormecida como o passarinho sob a aza materna.
Quando chegou junto ao grande morro das areias, viu que o rastro de Martim e Poty seguia ao longo da praia; e adivinhou que elles eram partidos para a guerra. Seu coração suspirou; mas seus olhos sêccos buscaram o semblante do filho.
Volve o rosto para o Mocoribe.
--Tu és o morro da alegria; mas para Iracema tu não tens senão tristeza.
Tornando, a recente mãe pousou a creança sempre dormida na rêde de seu pae, viuva e solitaria em meio da cabana; ella deitou-se ao chão, na esteira onde repousava, desde que os braços do esposo se não tinham aberto mais para recebel-a.
A luz da manhã entrava pela cabana, e Iracema viu entrar com ella a sombra de um guerreiro.
Cauby estava em pé na porta.
A esposa de Martim ergueu-se de um impeto e saltou ávante para proteger o filho. Seu irmão levantou da rêde a ella uns olhos tristes, e falou com a voz ainda mais triste:
--Não foi a vingança que arrancou o guerreiro Cauby aos campos dos Tabajaras; elle já perdoou. Foi a vontade de ver Iracema, que trouxe comsigo toda a sua alegria.
--Então bemvindo seja o guerreiro Cauby na cabana de seu irmão: respondeu a esposa abraçando-o.
--O nascido de teu seio dorme n'essa rede; os olhos de Cauby gostariam de vêl-o.
Iracema abriu a franja de pennas; e mostrou o lindo semblante da creança. Cauby depois que o contemplou por muito tempo, entre risos, disse:
--Elle chupou tua alma.
E beijou nos olhos da joven mãe, a imagem da creança, que não se animava tocar com receio de offender.
A voz tremula da filha resoou:
--Ainda vive Araken sobre a terra?
--Pena ainda; depois que tu o deixaste sua cabeça, vergou para o peito e não se ergueu mais.
--Dize-lhe que Iracema é morta já, para que elle se console.
A irmã de Cauby preparou a refeição para o guerreiro, e armou no copiar a rêde da hospitalidade para que elle repousasse das fadigas da jornada. Quando o viajante satisfez o appetite, ergueu-se com estas palavras:
--Dize onde está teu esposo e meu irmão, para que o guerreiro Cauby lhe dê o abraço da amizade.
Os labios suspirosos da misera esposa moveram-se como as petalas do cacto que um sopro amarrota, e ficaram mudas. Mas as lagrimas debulharam dos olhos e cahiram em bagas.
O rosto de Cauby annuviou-se:
--Teu irmão pensava que a tristeza ficara nos campos que abandonaste; porque comtigo trouxeste todo o riso dos que te amavam!
Iracema seccou os olhos:
--O esposo de Iracema partiu com o guerreiro Poty para as praias do Acaraú. Antes que tres sóes tenham allumiado a terra elle voltará e com elle a alegria á alma da esposa.
--O guerreiro Cauby o espera para saber o que elle fez do sorriso que morava em teus labios.
A voz do tabajara enrouquecera; seu passo inquieto volveu a esmo pela cabana.
XXXI
Iracema cantava docemente, embalando a rêde para acalentar o filho.
A areia da praia crepitou sob o pé forte e rijo do guerreiro tabajara, que vinha das bordas do mar depois da abundante pesca.
A joven mãe cruzou as franjas da rede, para que as moscas não inquietassem o filho acalentado, e foi ao encontro do irmão:
--Cauby vae tornar ás montanhas dos Tabajaras! disse ella com brandura.
O guerreiro annuviou-se:
--Tu despedes teu irmão da cabana para que elle não veja a tristeza que a enche.
--Araken teve muitos filhos em sua mocidade; uns a guerra levou e morreram como valentes; outros escolheram uma esposa, e geraram por sua vez numerosa prole: filhos de sua velhice, Araken só teve dois. Iracema é para elle como a rôla que o caçador tirou do ninho. Só resta o guerreiro Cauby ao velho Pagé, para suster seu corpo vergado, e guiar seu passo tremulo.
--Cauby partirá quando a sombra deixar o rosto de Iracema.
--Como vive a estrella da noite, vive Iracema em sua tristeza. Só os olhos do esposo podem apagar a sombra em seu rosto. Parte, para que elles não se turvem com tua vista.
--Teu irmão parte para agradar tua vontade; mas elle voltará todas as vezes que o cajueiro florescer para sentir em seu coração o filho de teu ventre.
Entrou na cabana. Iracema tirou da rêde a creança; e ambos, mãe e filho, palpitaram sobre o peito do guerreiro tabajara. Depois Cauby passou a porta, e sumio-se entre as arvores.
Iracema, arrastando o passo tremulo, o acompanhou de longe até que o perdeu de vista na orla da mata. Ahi parou: quando o grito da jandaia de envolta com o choro infantil, a chamou á cabana, a areia fria onde esteve sentada, guardou o segredo do pranto que em bebera.
A joven mãe suspendeu o filho á teta; mas a bocca infantil não emmudeceu. O leite escasso não apojava o peito.
O sangue da infeliz diluia-se todo nas lagrimas incessantes que não estancavam dos olhos; nenhum chegava aos seios, onde se forma o primeiro licor da vida.
Ella dissolveu a alva cariman e preparou ao fogo o mingáo para nutrir o filho. Quando o sol dourou a crista dos montes, partiu para a mata, levando ao collo a creança adormecida.
Na espessura do bosque está o leito da irara ausente; os tenros caxorrinhos grunhem enrolando-se uns sobre os outros. A formosa tabajara approxima-se de manso. Prepara para o filho um berço da macia rama do maracujá; e senta-se perto.
Põe no regaço um por um os filhos da irara; e lhes abandona os seios mimosos, cuja teta rubra como a pitanga ungio do mel da abelha. Os caxorrinhos famintos precipitam-se gulosos e sugam os peitos avaros de leite.
Iracema curte dôr, como nunca sentiu; parece que lhe exhaurem a vida; mas os seios vão-se entumecendo; apojaram afinal, e o leite, ainda rubro do sangue, de que se formou, esguicha.
A feliz mãe arroja de si os caxorrinhos, e cheia de jubilo mata a fome ao filho. Elle é agora duas vezes filho de sua dôr, nascido d'ella e tambem nutrido.
A filha de Araken sentiu afinal que suas veias se estancavam; e comtudo o labio amargo de tristeza recusava o alimento que devia restaurar-lhe as forças. O gemido e o suspiro tinham crestado com o sorriso o sabor em sua bocca formosa.
XXXII
Descamba o sol.
Japy sae do mato e corre para a porta da cabana.
Iracema sentada com o filho no collo, banha-se nos raios do sol e sente o frio arripiar-lhe o corpo. Vendo o animal, fiel mensageiro do esposo, a esperança reanimou seu coração; quiz erguer-se para ir ao encontro de seu guerreiro e senhor, mas os membros debeis se recusaram á sua vontade.
Cahiu desfallecida contra o esteio. Japy lambia-lhe a mão desfallecida, e pulava travesso para fazer sorrir a creança, soltando uns doces latidos de prazer. Por vezes, afastou-se para correr até á orla da mata, e latir chamando o senhor, logo tornava á cabana para festejar a mãe e o filho.
Por esse tempo pisava Martim os campos amarellos do Tauape: seu irmão Poty, o inseparavel, caminhava a seu lado.
Oito luas havia que elle deixara as praias da Jacarecanga. Depois de vencidos os Guaraciabas na bahia dos papagaios, o guerreiro christão quiz partir para as margens do Mearim, onde habitava o barbaro alliado dos Tupinambás.
Poty e seus guerreiros o acompanharam. Depois que transpuzeram o braço corrente do mar que vem da serra de Tauatinga e banha as varzeas onde se pesca o piau, viram emfim as praias do Mearim, e a velha taba do barbaro tapuia.
A raça dos cabellos do sol cada vez ganhava mais a amizade dos Tupinambás: crescia o numero dos guerreiros brancos, que já tinham levantado na ilha a grande itaoca, para despedir o raio.
Quando Martim viu o que desejava, tornou aos campos da Porangaba, que elle agora trilha. Já ouve o ronco do mar nas praias do Mocoribe; já lhe bafeja o rôsto o sopro vivo das vagas do oceano.
Quanto mais seu passo o aproxima da cabana, mais lento se torna e pesado. Tem medo de chegar: e sente que sua alma vae soffrer, quando os olhos tristes e maguados da esposa, entrarem n'ella.
Ha muito que a palavra desertou seu labio secco; o amigo respeita este silencio, que elle bem entende. É o silencio do rio quando passa nos logares profundos e sombrios.
Tanto que os dois guerreiros tocaram as margens do rio, ouviram o latir do cão, que os chamava, e o grito da ará, que se lamentava. Eram mui proximos á cabana, apenas occulta por uma lingua de mato. O christão parou calcando a mão no peito para soffrear o coração, que saltava como o poraquê.
--O latido de Japy é de alegria, disse o chefe.
--Porque chegou; mas a voz da jandaia é de tristeza. Achará o guerreiro ausente a paz no seio da esposa solitaria, ou terá a saudado matado em suas entranhas o fructo do amor?
O christão moveu o passo vacillante. De repente, entre os ramos das arvores, seus olhos viram sentada, á porta da cabana, Iracema, com o filho no regaço e o cão a brincar. Seu coração o arrastou de um impeto, e toda a alma lhe estalou nos labios.--Iracema!...
A triste esposa e mãe sôabrio os olhos, ouvindo a voz amada. Com esforço grande, poude erguer o filho nos braços, e apresental-o ao pae, que o olhava extactico em seu amor.
--Recebe o filho de teu sangue. Vieste a tempo; meus seios ingratos já não tinham alimento para dar-lhe!
Pousando a creança nos braços paternos, a desventurada mãe desfalleceu como a jetyca se lhe arrancam o bulbo. O esposo vio então como a dôr tinha murchado seu bello corpo; mas a formosura ainda morava n'ella, como o perfume na flôr cabida do manacá.
Iracema não se ergueu mais da rêde onde a pousaram os afflictos braços de Martim. O esposo, em quem o amor renascera com o jubilo paterno, a cercou de caricias que encheram sua alma de alegria, mas não a poderam tornar á vida; o estame de sua flôr se rompera.
--Enterra o corpo de tua esposa ao pé do coqueiro que tu amaste. Quando o vento do mar soprar nas folhas, Iracema pensará que é tua voz que fala entro seus cabellos.
O labio emmudeceu para sempre; o ultimo lampejo despediu-se dos olhos baços.
Poty amparou o irmão em sua grande dôr. Martim, sentiu que um amigo verdadeiro é precioso na desventura; é como o outeiro que abriga do vendaval o tronco forte e robusto do ubiratan, quando o broca o copim.
O camocim recebeu o corpo de Iracema, embebido de resinas odoriferas; e foi enterrado ao pé do coqueiro, á borda do rio. Martim quebrou um ramo de murta, a folha da tristeza, e deitou-o no jazigo de sua esposa. A jandaia pousada no olho da palmeira repelia tristemente:--Iracema!
Desde então os guerreiros pytiguaras que passavam perto da cabana abandonada e ouviam resoar a voz plangente da ave amiga, se afastavam, com a alma cheia de tristeza, do coqueiro onde cantava a jandaia. E foi assim que veiu a chamar-se Ceará o rio onde crescia o coqueiro, e os campos onde serpeia o rio.
XXXIII
O cajueiro floresceu quatro vezes depois que Martim partiu das praias do Ceará, levando no fragil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não quiz deixar a terra onde repousava sua amiga e senhora.
O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da patria. Seria a predestinação de uma raça?
Poty com os seus guerreiros esperava na margem do rio. O christão lhe promettera voltar; todas as manhãs subia ao morro das areias e volvia os olhos ao mar a vêr se branqueava ao longe a vela amiga.
Afinal volta Martim de novo ás terras, que foram de sua felicidade, e são agora de amarga saudade. Quando seu pé sentiu o calor das brancas areias, derramou-se por todo o seu ser um fogo ardente, que lhe requeimou o coração: era o fogo das recordações accesas.
A chamma só applacou quando elle tocou a terra onde dormia sua esposa; porque n'esse instante seu coração transudou, como o tronco do jetahy nos ardentes calores, e refrescou sua pena de lagrimas abundantes.
Muitos guerreiros de sua raça acompanharam o chefe branco, para fundar com elle a mayri dos christãos. Veio tambem um sacerdote de sua religião, de negras vestes, para plantar a cruz na terra selvagem.
Poty foi o primeiro que ajoelhou aos pés do sagrado lenho: não soffria elle que nada mais o separasse de seu irmão branco; por isso quiz que tivessem ambos um só Deus, como tinham um só coração.
Elle recebeu com o baptismo o nome do santo, cujo era o dia; e o do rei, a quem ia servir, e sobre os dois o seu, na lingua dos novos irmãos. Sua fama cresceu e ainda hoje é o orgulho da terra, onde elle viu a luz primeiro.
A mayri que Martim erguera á margem do rio, nas praias do Ceará, medrou. A palavra do Deus verdadeiro germinou na terra selvagem; e o bronze sagrados resoou nos valles onde rugia o maracá.
Jacaúna veio habitar nos campos da Porangaba para estar perto de seu amigo branco; Camarão assentou a taba de seus guerreiros nas margens da Mocejana.
Tempo depois, quando veiu Albuquerque, o grande chefe dos guerreiros brancos, Martim e Camarão partiram para as margens do Mearim a castigar o feroz tupinambá e expulsar o branco tapuia.
Era sempre com emoção que o esposo de Iracema revia as plagas onde fora tão feliz, e as verdes folhas a cuja sombra dormia a formosa tabajara.
Muitas vezes ia sentar-se n'aquellas doces areias, para scismar e acalentar no peito a agra saudade.
As jandaias cantavam ainda no olho do coqueiro; mas não repetiam já o mavioso nome de Iracema.
Tudo passa sobre a terra.
FIM
NOTAS
Pag. 10.--_Argumento historico._--Em 1603, Pero Coelho, homem nobre da Parahyba, partiu como capitão-mór de descoberta, levando uma força de 80 colonos e 800 indios. Chegou á foz do Jaguaribe e ahi fundou o povoado que teve nome de _Nova-Lisboa_.
Foi esse o primeiro estabelecimento colonial do Ceará.
Como Pero Coelho se visse abandonado dos socios, mandaram-lhe João Soromenho com soccorros. Esse official, auctorisado a fazer captivos para indemnisação das despezas, não respeitou os proprios indios do Jaguaribe, amigos dos Portuguezes.
Tal foi a causa da ruina do nascente povoado. Retiraram-se os colonos, pelas hostilidades dos indigenas; e Pero Coelho ficou ao desamparo, obrigado a voltar a Parahyba por terra, com sua mulher e filhos pequenos.
Na primeira expedição foi do Rio-Grande do Norte um moço de nome Martim Soares Moreno, que se ligou de amizade com Jacaúna, chefe dos indios do littoral e seu irmão Poty. Em 1608 por ordem de D. Diogo Menezes voltou a dar principio á regular colonisação d'aquella capitania: o que levou a effeito fundando o presidio de Nossa Senhora do Amparo em 1611.
Jacaúna, que habitava as margens do Acaracú, veiu estabelecer-se com sua tribu nas proximidades do recente povoado, para o proteger contra os indios do interior e os francezes que infestavam a costa.