Iracema com uma noticia biographica do auctor

Part 5

Chapter 54,211 wordsPublic domain

O guerreiro christão. ao percorrer essa paragem, começou de scismar. Até alli elle caminhava sem destino, movendo seus passos ao acaso; não tinha outra intenção mais que affastar-se das tabas dos Pytiguaras para arrancar a tristeza do coração de Iracema. O christão sabia por experiencia que a viagem acalenta a saudade, porque a alma pára emquanto o corpo se move. Agora sentado na praia pensava.

Poty veiu:

--O guerreiro branco pensa; o seio do irmão está aberto para receber seu pensamento.

--Teu irmão pensa que este lugar é melhor do que as margens do Jaguaribe para a taba dos guerreiros de sua raça. N'estas aguas as grandes igaras que vem de longes terras se esconderiam do vento e do mar; d'aqui ellas iriam ao Mearim destruir os brancos tapuias alliados dos Tabajaras, inimigos de tua nação.

O chefe pytiguara meditou e respondeu:

--Vae buscar teus guerreiros. Poty plantará sua taba junto da mayr de seu irmão.

Aproximava-se Iracema. O christão mandou com um gesto o silencio ao chefe Pytiguara.

--A voz do esposo se calla, e seus olhos se abaixam quando chega Iracema. Queres tu que ella se affaste?

--Quer teu esposo, que chegues mais perto, para que sua voz e seus olhos penetrem mais dentro de tua alma.

A formosa selvagem desfez-se em risos como se desfaz a flor do fructo que desponta, e foi debruçar-se na espadua do guerreiro.

--Iracema te escuta.

--Estes campos são alegres, e mais serão quando Iracema n'elles habitar. Que diz teu coração?

--O coração da esposa está sempre alegre junto de seu senhor e guerreiro.

O christão, seguindo pela margem do rio, escolheu o logar para levantar a cabana. Poty cortou esteios dos troncos da carnaúba; a filha de Araken ligava os leques da palmeira para vestir o tecto e as paredes: Martim cavou a terra com a espada e fabricou a porta das fasquias da taquára.

Quando veiu a noite os dois esposos armaram a rede em sua nova cabana; e o amigo no copiar que olhava para o nascente.

XXII

Poty saudou o amigo e faltou assim:

--Antes que o pae de Jacaúna e Poty, o valente guerreiro Jatobá, mandasse a todos os guerreiros pytiguaras, o grande tacape da nação estava na dextra de Batuireté, o maior chefe, pae de Jatobá. Foi elle que veiu pelas praias do mar até o rio do jaguar, e expulsou os tabajaras para dentro das terras, marcando a cada tribu seu logar; depois entrou pelo sertão até á serra que tomou seu nome.

Quando suas estrellas eram muitas, e tantas que em seu camocim já não cabiam as castanhas que marcavam o numero, o corpo vergou para a terra, o braço endureceu como o galho do ubiratan que não verga; seus olhos se escureceram.

Chamou então o guerreiro Jatobá e disse:--Filho, toma o tacape da nação pytiguara. Tupan não quer que Batuireté o leve mais á guerra, pois tirou a força de seu corpo, o movimento do seu braço e a luz de seus olhos. Mas Tupan foi bom para elle, pois lhe deu um filho como o guerreira Jatobá.

Jatobá empunhou o tacape dos Pytiguaras. Batuireté tornou o bordão de sua velhice e caminhou. Foi atravessando os vastos sertões, até os campos viçosos onde correm as aguas que vem das bandas da noite. Quando o velho guerreiro arrastava o passo pelas margens, e a sombra de seus olhos não lhe deixava que visse mais os fructos nas arvores ou os passaros no ar, elle dizia em sua tristeza:--Ah! meus tempos passados!

A gente que o ouvia chorava a ruina do grande chefe; e desde então passando por aquelles logares repetia suas palavras; d'onde veiu chamar-se o rio e os campos, Quixeramobim.

Batuireté veiu pelo caminho das garças até áquella serra que tu vês longe, onde primeiro habitou. Lá no pincaro o velho guerreiro fez seu ninho alto como o gavião, para encher o resto de seus dias, conversando com Tupan. Seu filho já dorme embaixo da terra, e elle ainda na outra lua scismava na porta de sua cabana, esperando a noite que traz o grande somno. Todos os chefes Pytiguaras, quando acordam á voz da guerra, vão pedir ao velho que lhes ensine a vencer, porque nenhum outro guerreiro jamais soube como elle combater. Assim as tribus não o chamam mais pelo nome, senão o grande sabedor da guerra, Maranguab.

O chefe Poty vae á serra vêr seu grande avô; mas antes que o dia morra elle estará de volta na cabana de teu irmão. Teus tu outra vontade?

--O guerreiro branco te acompanha. Elle quer abraçar o grande chefe dos Pytiguaras, avô de seu irmão; e dizer ao velho que renasce em seu neto.

Martim chamou Iracema; e partiram ambos guiados pelo Pytiguara para a serra, do Maranguab, que se levantava no horisonte. Foram seguindo o curso do rio até onde n'elle entrava o ribeiro da Pirapora.

A cabana do velho guerreiro estava junto das formosas cascatas, onde salta o peixe no meio dos borbotões de espuma. As aguas alli são frescas e macias, como a brisa do mar, que passa entre as palmas dos coqueiros, nas horas da calma.

Batuireté estava sentado sobre uma das lapas da cascata; e o sol ardente cahia sobre sua cabeça núa de cabellos e cheia de rugas como o genipapo. Assim dorme o jaburú na borda do lago.

--Poty é chegado á cabana do grande Maranguab, pae de Jatobá, e trouxe seu irmão branco para vêr o maior guerreiro das nações.

O velho soabriu as pesadas palpebras, e passou do neto ao extrangeiro um olhar baço. Depois o peito arquejou e os labios murmuraram:

--Tupan quiz que estes olhos vissem antes de se apagarem o gavião branco junto da narseja.

O abaeté derrubou a fronte aos peitos, e não falou mais, nem mais se moveu.

Poty e Martim julgaram que elle dormia e se afastaram com respeito para não perturbar o repouso de quem tanto obrára na longa vida. Iracema que se banhava na proxima cachoeira, veiu-lhes ao encontro, trazendo na folha da taioba favos do mel purissimo.

Discorreram os amigos pelas floridas encostas até que as sombras da montanha se extenderam pelo valle. Tornaram então ao logar onde tinham deixado o Maranguab.

O velho ainda lá estava na mesma attitude, com a cabeça derrubada ao peito e os joelhos encostados á fronte. As formigas subiam pelo seu corpo; e os tuins adejavam em torno e pousavam-lhe na calva.

Poty poz a mão no craneo do velho e conheceu que era finado: morrera de velhice. Então o chefe pytiguara entoou o canto da morte; e depois foi á cabana buscar o camocim, que transbordava com as castanhas do cajú. Martim contou cinco vezes cinco mãos.

Entanto Iracema colhia na floresta a andiroba, de que foi ungido o corpo do velho no camocim, onde a mão piedosa do neto o encerrou. O vaso funebre ficou suspenso ao tecto da cabana.

Depois que plantou ortiga em frente á porta, para deffender contra os animaes a oca abandonada, Poty despediu-se triste d'aquelles logares, e tornou com seus companheiros á borda do mar.

XXIII

Quatro luas tinham alumiado o ceu depois que Iracema deixara os campos do Ipú; e tres depois que ella habitava nas praias do mar a cabana de seu esposo.

A alegria morava em sua alma. A filha dos sertões era feliz, como a andorinha, que abandona o ninho de seus paes, e emigra para fabricar novo ninho no paiz onde começa a estação das flôres. Tambem Iracema achara ali nas praias do mar um ninho do amor, nova patria para o coração.

Ella discorria as amenas campinas, como o colibri borboleteando entre as flôres da acacia. A luz da manhã já a encontrava suspensa ao hombro do esposo e sorrindo, como a enrediça, que entrelaça o tronco e todas as manhãs o coroa de nova grinalda.

Martim partia para a caça com Poty. Ella separava-se então d'elle, para mais sentir o desejo de tornar a elle.

Perto havia uma formosa lagoa no meio de verde campina. Para lá volvia a selvagem o ligeiro passo. Era a hora do banho da manhã; atirava-se á agua, e nadava com as garças brancas e as vermelhas jaçanans. Os guerreiros pytiguaras, que appareciam por aquellas paragens chamavam essa lagoa da belleza, porque n'ella se banhava Iracema, a mais bella filha da raça de Tupan.

E desde esse tempo as mães vinham de longe mergulhar suas filhas nas aguas da Porangaba que tinham a virtude de tornar as virgens formosas e amadas pelos guerreiros.

Depois do banho Iracema discorria até ás faldas da serra do Maranguab, onde nascia o ribeiro das marrecas. Ali cresciam na frescura e sombra as fructas mais saborosas de todo o paiz; d'ellas fazia copiosa provisão, e esperava, embalando-se nas ramas do maracujá, que Martim tornasse da caça.

Outras vezes não era a Jererahú que a levava sua vontade, mas do opposto lado, junto da lagoa da Sapiranga, cujas aguas diziam que inflammavam os olhos. Cerca d'ahi havia um bosque frondoso de muritys, que formavam no meio do taboleiro uma grande ilha de formosas palmeiras. Iracema gostava do Murityapuá, onde o vento suspirava docemente; ali espolpava ella o vermelho côco, para fabricar a bebida refrigerante, endossada com o mel da abelha, que os guerreiros amavam durante a maior calma do dia.

Uma manhã Poty guiou Martim á caça. Caminharam para uma serra, que se levanta ao lado da outra do Maranguab sua irmã. O alto cabeço se curva á semelhança do bico adunco da arara; pelo que os guerreiros a chamaram Aratanha. Elles subiram pela encosta da Guaiuba por onde as aguas descem para o valle, e foram até o corrego habitado pelas pacas.

Só havia sol no bico da arara quando os caçadores desceram de Pacatuba ao taboleiro. De longe viram Iracema, que viera esperal-os á margem de sua lagoa da Porangaba. Caminhou para elles com o passo altivo da garça que passeia á beira d'agua: por cima da cariola trazia uma cintura das flores da maniva que era o simbolo da fecundidade. Collar das mesmas cingia-lhe o collo e ornava os rijos seios palpitantes.

Travou da mão do esposo, e a impoz no regaço:

--Teu sangue já vive no seio de Iracema. Ella será mãe de teu filho!

--Filho, dizes tu? exclamou o christão em jubilo.

Ajoelhou ali e cingindo-o com os braços, beijou o ventre fecundo da esposa.

Quando se ergueu, Poty falou:

A felicidade do mancebo é a esposa e o amigo, a primeira dá alegria; o segundo dá força: o guerreiro sem a esposa é como a arvore sem folhas nem dores; nunca ella verá o fructo: o guerreiro sem amigo é como a arvore solitaria no meio do campo que o vento embalança; o fructo d'ella nunca amadura. A felicidade do varão é a prole, que nasce d'elle e faz seu orgulho; cada guerreiro que sahe de suas veias é mais um galho que leva seu nome ás nuvens, como a grimpa do cedro. Amado de Tupan é o guerreiro que tem uma esposa, um amigo e muitos filhos; elle nada mais deseja senão a morte gloriosa.

Martim unio o peito ao peito de Poty.

--O coração do esposo e do amigo falou por tua boca. O guerreiro branco é feliz, chefe dos Pytiguaras, senhores das praias do mar; e a felicidade nasceu para elle na terra das palmeiras, onde reacende a baunilha, e foi gerada do sangue de tua raça, que tem no rosto a côr do sol. O guerreiro branco não quer mais outra patria, senão a patria de seu filho e de seu coração.

Ao romper d'alva Poty partiu para colher as sementes de crajurú que dão a mais bella tinta vermelha, e a casca do angico de onde sae a cor negra mais lustrosa. De caminho sua flecha certeira abateu o pato selvagem que planeava nos ares: e elle arrancou das azas as longas penas. Subindo ao Mocoribe, rugiu a inubia. A refega que vinha do mar levou longe o ronco som. O buzio dos pescadores do Trahiry, e a trombeta dos caçadores do Soipé, responderam.

Martim banhou-se na agua do rio, e passeou na praia para secar o corpo ao vento e ao sol. Ao seu lado ia Iracema e apanhava o ambar amarello que o mar arrojava. Todas as noites a esposa perfumava seu corpo e a alva rede, para que o amor do guerreiro se deleitasse n'ella.

Voltou Poty.

XXIV

Foi costume da raça, filha de Tupan, que o guerreiro trouxesse no corpo as cores de sua nação. Traçavam em principio negras riscas, sobre o corpo, á semelhança do pello do coaty de onde procedeu o nome d'essa arte da pintura guerreira. Depois variaram as cores; e muitos e muitos guerreiros costumaram escrever os emblemas de seus feitos.

O extrangeiro tendo adoptado a patria da esposa e do amigo, devia passar por aquella ceremonia, para tornar-se um guerreiro vermelho, filho de Tupan. N'essa intenção fora Poty prover-se dos objectos necessarios.

Iracema preparou as tintas. O chefe, embebendo as ramas da pluma, traçou pelo corpo os riscos vermelhos e pretos, que ornavam a grande nação pytiguara. Depois pintou na fronte uma flecha e disse:

--Assim como a seta traspassa o duro tronco, assim o olhar do guerreiro penetra n'alma dos povos.

No braço um gavião:

--Assim como o anajê cahe das nuvens, assim cae o braço do guerreiro sobre o inimigo.

No pé esquerdo a raiz do coqueiro.

--Assim como a pequena raiz agarra na terra o alto coqueiro, o pé firme do guerreiro sustenta seu corpo.

No pé direito pintou uma aza:

--Assim como a aza da majoy rompe os ares o pé veloz do guerreirro não tem igual na corrida.

Iracema tomou a rama da penna e pintou uma folha com uma abelha sobre: sua voz resoou entre sorrisos:

--Assim como a abelha fabrica mel no coração negro do jacarandá, a doçura está no peito do mais valente guerreiro.

Martim abriu os braços e os labios para receber corpo e alma da esposa,

--Meu irmão é um grande guerreiro da nação pytiguara; elle precisa de um nome na lingua de sua nação.

--O nome de teu irmão está em seu corpo, onde o poz tua mão.

--Coatiyabo! exclamou Iracema.

--Tu disseste; eu sou o guerreiro pintado; o guerreiro da esposa e do amigo.

Poty deu a seu irmão o arco e o tacape, que são as armas nobres do guerreiro. Iracema havia tecido para ella o cocar e a arassoia, ornatos dos chefes illustres.

A filha de Araken foi buscar á cabana as iguarias do festim e os vinhos de genipapo e mandioca. Os guerreiros beberam copiosamente e trançaram as dansas alegres. Durante que volviam em torno dos fogos da alegria, resoavam as canções.

Poty cantava:

--Como a cobra que tem duas cabeças em um só corpo, assim é a amisade de Coatyabo e Poty.

Acudiu Iracema.

--Como a ostra que não deixa o rochedo, ainda depois de morta, assim é Iracema junto a seu esposo.

Os guerreiros disseram:

--Como o jatobá na floresta, assim é o guerreiro Coatyabo entre o irmão e a esposa: seus ramos abraçam os ramos do ubiratan, e sua sombra protege a relva humilde.

Os fogos da alegria arderam até que veio a manhã; e com elles durou o festim dos guerreiros.

XXV

A alegria ainda morou na cabana, todo o tempo que as espigas de milho levaram a amarellecer.

Uma alvorada, caminhava o christão pela borda do mar. Sua alma estava cançada.

O colibri sacia-se de mel e perfume; depois adormece em seu branco ninho de cotão até que volta rio outro anno a lua das flores. Como o colibri, a alma do guerreiro tambem se satura de felicidade, e carece de somno e repouso.

A caça e as excursões pelas montanhas em companhia do amigo, as caricias da terna esposa que o esperavam na volta, o doce carbeto no copiar da cabana já não acordavam n'elle as emoções d'outrora. Seu coração resonava.

Iracema brincava pela praia: os olhos d'elle tiravam-se d'ella para se estenderem pela immensidade dos mares.

Viram umas azas brancas, que adejavam pelos campos azues. Conheceu o christão que era uma grande igara de muitas velas, como construiam seus irmãos; e a saudade da patria apertou em seu seio.

Alto ia o sol; e o guerreiro, na praia seguia com os olhos as azas brancas que fugiam. Debalde a esposa o chamou á cabana, debalde offereceu a seus olhos, as graças d'ella e os fructos melhores do campo. Não se moveu o guerreiro, senão quando a vella se sumiu no horisonte.

Poty voltou da serra, onde pela vez primeira fora só. Tinha deixado a serenidade na fronte de seu irmão e achava alli a tristeza. Martim saiu-lhe ao encontro:

--A igara grande do branco tapuia passou no mar. Os olhos de teu irmão a viram voar para as margens do Mearim, alliados dos Tupinambás, inimigos de tua e minha raça.

--Poty é senhor de mil arcos; se é teu desejo elle te acompanhará com seus guerreiros ás margens do Mearim para vencer o Tapuytinga e seu amigo o traidor Tupinambá.

--Quando for tempo teu irmão te dirá.

Os guerreiros entraram na cabana, onde estava Iracema. A maviosa canção n'esse dia tinha emudecido nos labios da esposa. Ella tecia suspirando a franja da rede materna, mais larga e espessa que a rede do hymeneo.

Poty, que a viu tão occupada, fallou:

--Quando a sabiá canta é o tempo do amor; quando emmudece, fabrica o ninho para sua prole; é o tempo do trabalho.

--Meu irmão falla como a ran quando annuncia a chuva; mas a sabiá que faz seu ninho, não sabe se dormirá n'elle.

A voz de Iracema gemia. Seu olhar buscou o esposo. Martim pensava: as palavras de Iracema passaram por elle, como a brisa pela face lisa da rocha, sem echo nem rumores.

O sol brilhava sempre sobre as praias do mar, e as areias reflectiam os raios ardentes; mas nem a luz que vinha do ceu, nem a luz que ia da terra, espancaram a sombra n'alma do christão. Cada vez o crepusculo era maior em sua fronte.

Chegou das margens do Acaraú um guerreiro pytiguara, mandado por Jacaúna a seu irmão Poty. Elle veio seguindo o rastro dos viajantes até o Trahiry, onde os pescadores o guiaram á cabana.

Poty estava só no copiar; ergueu-se e abaixou a fronte para escutar com respeito e gravidade as palavras que lhe mandava seu irmão pela boca do mensageiro.

--O Tapuytinga, que estava no Mearim, veio pelas matas até o principio da Ibyapaba, onde fez alliança com Irapuam, para combater a nação pytiguara. Elles vão descer da serra ás margens do rio em que bebem as garças, e onde tu levantaste a taba de teus guerreiros. Jacaúna te chama para deffender os campos de nossos paes: e teu povo carece de seu maior guerreiro.

--Volta ás margens do Acaraú o teu pé não descance emquanto não pisar o chão da cabana de Jacaúna. Quando ahi estiveres dize ao grande chefe:--"Teu irmão é chegado á taba de seus guerreiros." E tu não mentirás.

O mensageiro partiu.

Poty vestiu suas armas, e caminhou para a varzea, guiado pelo passo de Coatyabo. Elle o encontrou muito além, vagando entre os canaviaes que bordam as margens de Jacarehy.

--O branco tapuia, está na Ibyapaba para ajudar os Tabajaras a combater contra Jacaúna. Teu irmão corre a deffender a terra de seus filhos, e a taba onde dormem os camocins de seus paes. Elle saberá vencer depressa para voltar á tua presença.

--Teu irmão parte contigo. Nada separa dois guerreiros amigos quando troa a inubia da guerra.

--Tu és grande, como o mar e bom como o céo.

Os dois amigos abraçaram-se; e seguiram com o rosto para as bandas do nascente.

XXVI

Caminhando, caminhando, chegaram os guerreiros á margem de um lago, que havia nos taboleiros.

O christão parou de repente e voltou o rosto para as bandas do mar: a tristeza sahiu de seu coração e subiu á fronte.

--Meu irmão, disse o chefe, teu pé creou raiz na terra do amor; fica, Poty voltará breve.

--Teu irmão te acompanha; elle disse, e sua palavra é como a seta de teu arco; quando soa, é chegada.

--Queres tu que Iracema te acompanhe ás margens do Acaraú?

--Nós vamos combater seus irmãos. A taba dos Pytiguaras não terá para ella mais que tristeza e dôr. A filha dos Tabajaras deve ficar.

--Que esperas tu então?

--Teu irmão se afflige porque a filha dos Tabajaras pode ficar triste e abandonar a cabana, sem esperar pela sua volta. Antes de partir elle queria socegar o espirito da esposa.

Poty reflectia:

--As lagrimas da mulher amollecem o coração do guerreiro, como o orvalho da manhã amollece a terra.

--Meu irmão é um grande sabedor. O esposo deve partir sem ver Iracema.

O christão avançou. Poty mandou-lhe que esperasse; da alvaja do setas que Iracema emplumara de pennas vermelhas e preta e suspendera aos hombros do esposo, tirou uma.

O chefe pytiguar vibrou o arco: a seta rapida atravessou um goiamum que discorria pelas margens do lago, e só parou onde a pluma não a deixou mais entrar.

Fincou o guerreiro no chão a flecha, com a presa atravessada e tornou para Coatyabo.

--Tu podes partir agora. Iracema seguirá teu rastro; chegando aqui verá tua seta, e obedecerá á tua vontade.

Martim sorriu; e quebrando um ramo do maracujá, a flôr da lembrança, o entrelaçou na haste da seta, e partiu alfim seguido por Poty.

Breve desappareceram os dois guerreiros entre as arvores. O calor do sol já tinha seccado seus passos na beira do lago. Iracema inquieta veio pela varzea seguindo o rastro do esposo até o tabuleiro. As sombras doces vestiam os campos quando ella chegou á beira do lago.

Seus olhos viram a seta do esposo fincada no chão, o goiamum trespassado, o ramo partido, e encheram-se de pranto.

--Elle manda que Iracema ande para traz, como o goiamum, e guarde sua lembrança, como o maracujá guarda sua flôr todo o tempo até morrer.

A filha dos Tabajaras retrahiu os passos lentamente, sem volver o corpo, nem tirar os olhos da seta de seu esposo, e tornou á cabana. Ahi sentada á soleira, com a fronte nos joelhos esperou, até que o somno acalentou a dôr em seu peito.

Apenas alvorou o dia, ella moveu o passo rapido para a lagoa, e chegou á margem. A flecha lá estava como na vespera: o esposo não tinha voltado.

Desde então á hora do banho, em vez de buscar a lagoa da belleza, onde outrora tanto gostara de nadar; caminhava para aquella, que vira seu esposo abandonal-a. Sentava-se junto á flecha, até que descia a noite, então recolhia á cabana.

Tão rapida partia de manhã, como lenta voltava á tarde. Os mesmos guerreiros que a tinham visto alegre nas aguas da Porangaba, agora encontrando-a triste e só, como a garça viuva, na margem do rio, chamavam aquelle sitio da Mocejana, a abandonada.

Uma vez que a formosa filha de Araken se lamentava á beira da lagoa da Mocejana, uma voz estridente gritou seu nome do alto da carnaúba:

--Iracema! Iracema!...

Ergueu ella os olhos e viu entre as folhas da palmeira sua linda jandaia, que batia as azas, e arrufava as pennas com o prazer de vêl-a.

A lembrança da patria, apagada pelo amor, resurgiu em seu pensamento. Viu os formosos campos do Ipú; as encostas da serra onde nascera, a cabana de Araken; e teve saudades; mas ainda n'aquelle instante, não se arrependeu de os ter abandonado.

Seu labio gaseou em canto. A jandaia abrindo as azas, esvoaçou-lhe em torno e pousou no hombro. Alongando fagueira o collo, com o negro bico alisou-lhe os cabellos e beliscou a bocca vermelha como uma pitanga.

Iracema lembrou-se que tinha sido ingrata para a jandaia esquecendo-a no tempo da felicidade; e agora ella vinha para a consolar no tempo da desventura.

Essa tarde não voltou só á cabana. Durante o dia seus dedos ágeis teceram o formoso urú de palha que forrou da felpa macia da monguba para agasalhar sua companheira e amiga.

Na seguinte alvorada foi a voz da jandaia que a despertou. A linda ave não deixou mais sua senhora; ou porque depois da longa ausencia não se fartasse de a vêr, ou porque advinhasse que ella tinha necessidade de quem a acompanhasse em sua triste solidão.

XXVII

Uma tarde Iracema viu de longe dois guerreiros que avançavam pelas praias do mar. Seu coração palpitou mais apressado.

Instantes depois ella esquecia nos braços do esposo tantos dias de saudade, e abandono que passara na solitaria cabana. Outra vez sua graça encheu os olhos do christão; a alegria voltou a habitar em sua alma.

Como a secca varzea, com a vinda do nevoeiro, reverdece e matisa-se de flôres, a formosa filha do sertão com a volta do esposo reanimou-se; e sua belleza esmaltou-se de meigos e ternos sorrisos.

Martim e seu irmão haviam chegado á taba de Jacaúna, quando soava a inubia; elles guiaram ao combate os mil arcos de Poty. Ainda d'essa vez os Tabajaras, apesar da alliança dos brancos tapuias do Mearim, foram levados de vencida pelos valentes Pytiguaras.

Nunca tão disputada victoria e tão renhida pugna, se pelejou nos campos que regam o Acaraú e o Camocim; o valor era igual de parte a parte, e nenhum dos dois povos fora vencido, se o Deus da guerra não tivesse decidido dar estas plagas á raça do guerreiro branco, alliada dos Pytiguaras.