Iracema com uma noticia biographica do auctor

Part 4

Chapter 44,168 wordsPublic domain

Quando Iracema foi de volta, já o Pagé não estava na cabana; tirou do seio o vaso que alli trazia occulto sob a carioba de algodão entretecida de pennas. Martim lh'o arrebatou das mãos, e libou as gottas poucas do verde e amargo licor. Não tardou que a rede recebesse seu corpo desfallecido.

Agora podia viver com Iracema, e colher nos seus labios o beijo, que alli viçava entre sorrisos, como o fructo na corolla da flor. Podia amal-a, e sugar d'esse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno no seio da virgem.

O goso era vida, pois o sentia mais vivo e intenso; o mal era sonho e illusão, que da virgem elle não possuia mais que a imagem.

Iracema se affastara oppressa e suspirosa.

Abriram-se os braços do guerreiro e seus labios; o nome da virgem resoou docemente.

A juruty, que divaga pela floresta, ouve o terno arrulho do companheiro; bate as azas e vôa a conchegar-se ao tepido ninho. Assim a virgem do sertão, aninhou-se nos braços do guerreiro.

Quando veiu a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta que dormiu no seio do formoso cacto. Em seu lindo semblante accendia o pejo vivos rubores; e como entre os arrebões da manhã scintilla o primeiro raio do sol, em suas faces incendidas rutilava o primeiro sorriso da esposa, aurora de fruido amor.

Martim vendo a virgem unida ao seu coração, cuidou que o sonho continuava; cerrou os olhos para tornal-os a abrir.

A pocema dos guerreiros, troando pelo valle, o arrancou ao doce engano; sentiu que já não sonhava, mas vivia. Sua mão cruel abafou nos labios da virgem o beijo que alli se espanejava.

--Os beijos de Iracema são doces no sonho; o guerreiro branco encheu d'elles sua alma. Na vida, os labios da virgem de Tupan, amargam e doem como o espinho da jurema.

A filha de Araken escondeu no coração a sua alegria. Ficou timida e inquieta, como a ave que presente a borrasca no horisonte. Affastou-se rapida, e partiu.

As aguas do rio depuraram o corpo casto da recente esposa.

A jandaia não tornou á cabana.

Tupan já não tinha sua virgem na terra dos Tabajaras.

XVI

O alvo disco da lua surgiu no horisonte.

A luz brilhante do sol empallidece a virgem do céo como o amor do guerreiro desmaia a face da esposa.

--Jacy!... Mãe nossa!... exclamaram os guerreiros tabajaras.

E brandindo os arcos lançaram ao céo com a chuva das flechas o canto da lua nova:

"Veiu no céo a mãe dos guerreiros; já volta o rosto para vêr seus filhos. Ella traz as aguas, que enchem os rios e a polpa do cajú.

"Já veiu a esposa do sol; já sorri ás virgens da terra filhas suas. A doce luz accende O amor no coração dos guerreiros e fecunda o seio da joven mãe."

Cae a tarde.

Folgam as mulheres e os meninos na vasta ocara; os mancebos, que ainda não ganharam nome de guerra por algum feito brilhante, discorrem no valle.

Os guerreiros seguem Irapuam ao bosque sagrado, onde os espera o Pagé e sua filha para o mysterio da jurema. Iracema já accendeu os fogos da alegria. Araken está immovel e extactico no seio de uma nuvem de fumo.

Cada guerreiro que chega depõe a seus pés uma offerenda a Tupan. Traz um a succulenta caça; outro a farinha d'agua; aquelle, o saboroso piracem da trahira. O velho Pagé, para quem são estas dadivas, as recebe com desdem.

Quando foram todos sentados em torno do grande fogo, o ministro de Tupan ordena o silencio com um gesto, e tres vezes clamando o nome terrivel, enche-se do Deus, que o habita:

--Tupan!... Tupan!... Tupan!...

Tres vezes o echo ao longe repercutio.

Vem Iracema com a igaçaba cheia do verde licor.

Araken decreta os sonhos a cada guerreiro, e destribue o vinho da jurema, que transporta ao céo o valente tabajara.

Este, grande caçador, sonha que os veados e as pacas correm ao deante de suas flechas paras e traspassarem nellas; fatigado alfim de ferir, cava na terra o bucan, e assa tamanha quantidade de caça, que mil guerreiros em um anno não acabarão.

Outro, fogoso em amores, sonha que as mais bellas virgens dos tabajaras deixam a cabana de seus paes e o seguem captivas do seu querer. Nunca a rêde de chefe algum embalou mais voluptuosas caricias, que elle as frue n'aquelle extase.

O heroe sonha tremendas lutas, e horriveis combates de que sahe vencedor, cheio de gloria e fama. O velho renasce, na prole numerosa, e como o secco tronco donde rebenta nova e robusta sebe, cobre-se ainda de flôres.

Todos sentem a felicidade tão viva e continua, que no espaço da noite cuidam viver muitas luas. As boccas murmuram; o gesto falla; e o Pagé, que tudo escuta e vê, colhe o segredo das almas desnudas.

Iracema, depois que offereceu aos guerreiros o licor de Tupan, sahio do bosque. Não permittia o rito que ella assistisse ao somno dos guerreiros e ouvisse falar os sonhos.

Foi d'ali direito á cabana, onde a esperava Martim.

--Toma as tuas armas, guerreiro branco. É tempo de partir.

--Leva-me onde está Poty, meu irmão.

A virgem caminhou para o valle; o christão a seguio. Chegaram á falda do rochedo, que ia morrer á beira do tanque, em um massiço de verdura.

--Chama teu irmão!

Martim soltou o grito da gaivota. A pedra que fechava a entrada da gruta cahio; e o vulto do guerreiro Poty appareceu na sombra.

Os dois irmãos encostaram a fronte na fronte e o peito no peito, para exprimir que não tinham ambos mais que uma cabeça e um coração.

--Poty está contente porque vê seu irmão, que o máo espirito da floresta arrebatou de seus olhos.

--Feliz é o guerreiro que tem ao flanco um amigo como o bravo Poty; todos os guerreiros o invejarão.

Iracema suspirou, pensando que a affeição do Pytiguara bastava á felicidade do extrangeiro:

--Os guerreiros tabajaras dormem. A filha de Araken vae guiar os extrangeiros.

A virgem seguio adeante; os dois guerreiros apóz. Quando tinham andado o espaço que transpõe a garça de um vôo, o chefe Pytiguara tornou-se inquieto, e murmurou ao ouvido do christão:

--Manda á filha do Pagé que volte á cabana de seu pae. Ella demora a marcha dos guerreiros.

Martim entristeceu; mas a voz da prudencia e da amizade penetrou em seu coração. Avançou para Iracema; e tirou do seio uma voz doce para acalentar a saudade da virgem:

--Mais affunda a raiz da planta na terra, mais custa arrancal-a. Cada passo de Iracema no caminho da partida, é uma raiz que lança no coração de seu hospede.

--Iracema quer-te acompanhar até onde acabam os campos dos Tabajaras, para voltar com o socego em seu peito.

Martim não respondeu. Continuaram a caminhar, e com elles caminhava a noite; as estrellas desmaiaram e a frescura da alvorada alegrou a floresta. As roupas da manhã, alvas como o algodão, appareceram no céo.

Poty olhou a mata e parou. Martim comprehendeu e disse a Iracema:

--Teu hospede já não pisa os campos dos Tabajaras. É o instante de separar-te d'elle.

XVII

Iracema pousou a mão no peito do guerreiro branco:

--A filha dos Tabajaras já deixou os campos de seus paes; agora pode falar.

--Que guardas tu em teu seio, virgem formosa do sertão?

Ella pôz os olhos cheios no christão:

--Iracema não pode mais separar-se do extrangeiro.

--Assim é preciso, filha de Araken. Torna á cabana de teu velho pae, que te espera.

--Araken já não tem filha.

Martim tornou com gesto rudo e severo:

--Um guerreiro da minha raça jamais deixou a cabana do hospede, viuva de sua alegria. Araken abraçará sua filha, para não amaldiçoar o extrangeiro ingrato.

A virgem pendeu a fronte; velando-se com as longas tranças negras que se esparziam pelo collo, cruzando ao gremio os lindos braços, recolheu em seu pudor. Assim o roseo cacto, que já desabrochou em formosa flôr, cerra em botão o seio perfumado.

--Tua escrava te acompanhará, guerreiro branco: porque teu sangue dorme em seu seio.

Martim estremeceu.

--Os máos espiritos da noite turbaram o espirito de Iracema.

--O guerreiro branco sonhava, quando Tupan abandonou sua virgem, porque ella trahio o segredo da jurema.

O christão escondeu as faces á luz.

--Deus!... clamou seu labio tremulo.

Permaneceram ambos mudos e quedos.

Afinal disse Poty:

--Os guerreiros tabajaras despertam.

O coração da virgem como o do extrangeiro, ficou surdo á voz da prudencia. O sol levantou-se no horisonte; e seu olhar magestoso desceu dos montes á floresta. Poty de pé como um tronco decepado esperou que seu irmão quizesse partir.

Foi Iracema quem primeiro falou:

--Vem: emquanto não pisares as praias dos Pytiguaras, tua vida corre perigo.

Martim seguiu silencioso a virgem, que fugia entre as arvores, como a selvagem acoty. A tristeza lhe roia o coração; mas a onda de perfumes que deixava na brisa a passagem da formosa tabajara, açulava o amor no seio do guerreiro. Seu passo era tardo, o peito lhe offegava.

Poty scismava. Em sua cabeça de mancebo morava o espirito de um abaeté. O chefe pytiguara pensava que o amor é como o cauim, o qual bebido com moderação fortalece o guerreiro, e tomado em excesso abate a coragem do heroe. Elle sabia quanto veloz era o pé do tabajara; e esperava o momento de morrer defendendo o amigo.

Quando as sombras da tarde entristeciam o dia, o christão parou no meio da mata. Poty accendeu o fogo da hospitalidade. A virgem desdobrou a alva rêde de algodão franjada de pennas de tucano e suspendeu-a aos ramos de arvore.

--Esposo de Iracema, tua rêde te espera.

A filha de Araken foi sentar-se longe, na raiz de uma arvore, como a cerva solitaria, que o ingrato companheiro afugentou do aprisco. O guerreiro pytiguara desappareceu na espessura da folhagem.

Martim ficou mudo e triste, semelhante ao tronco d'arvore a que o vento arrancou o lindo cipó que o entrelaçava. A brisa perpassando levou um murmurio:

--Iracema!

Era o balido do companheiro; a cerva arrufando-se ganhou o doce aprisco.

A floresta distillava suave fragrancia e exhalava harmoniosos arpejos; os suspiros do coração se difundiram nos murmures do deserto. Foi a festa do amor e o canto do hymeneo.

Já a luz da manhã coou na selva densa. A voz grave e sonora de Poty repercutio no susurro da mata:

--O povo tabajara caminha na floresta!

Iracema arrancou-se dos braços que a cingiam e mais do labio que a tinha captiva: saltando da rede como a rapida zabelé, travou das armas do esposo, e levou-o atravez da mata.

De espaço a espaço o prudente Poty escutava as entranhas da terra; sua cabeça movia-se pesada de um a outro lado, como a nuvem que se embalança no cocuruto do rochedo, aos varios lufos da proxima borrasca.

--O que escuta o ouvido do guerreiro Poty?

--Escuta o passo veloz do povo tabajara. Elle vem como o tapyr, rompendo a floresta.

--O guerreiro pytiguara é a ema que vôa sobre a terra; nós o seguiremos, como suas azas; disse Iracema.

O chefe sacudio de novo a fronte:

--Emquanto o guerreiro do mar dormia, o inimigo correu. Os que primeiro partiram já avançam além como as pontas do arco.

A vergonha mordeu o coração de Martim.

--Fuja o chefe Poty e salve Iracema. Só deve morrer o guerreiro máo, que não escutou a voz de seu irmão e o pedido de sua esposa.

Martim arripiou o passo.

--A alma do guerreiro branco não escutou sua bocca Poty e seu irmão só tem uma vida.

O labio de Iracema não fallou: sorrio.

XVIII

Treme a selva com o estrupido da carreira do povo tabajara.

O grande Irapuam, primeiro, assoma entre as arvores. Seu olhar rubido viu o guerreiro branco entre nuvens de sangue; o grito rouco do tigre rompe de seu peito cavernoso.

O chefe tabajara e seu povo, vão precipitar-se sobre os fugitivos, como a vaga encapelada que rebenta no Mocoribe.

Eis late o cão selvagem.

Poty solta o grito da alegria:

--O cão de Poty guia os guerreiros de sua taba em soccorro teu.

O rouco buzio dos Pytiguaras estruge pela floresta. O grande Jacaúna, senhor das praias do mar, chegava do rio das garças com seus melhores guerreiros.

Os Pytiguaras recebem o primeiro impeto do inimigo nas pontas erriçadas de suas flechas, que elles despedem do arco aos molhos, como o coandú os espinhos do seu corpo. Logo apóz sôa a pocema, estreita-se o espaço, e a luta se trava face a face.

Jacaúna atacou Irapuam. Prosegue o horrivel combate que bastára a dez bravos, e não esgotou ainda a força dos grandes chefes. Quando os dois tacapes se encontram, a batalha toda estremece como um só guerreiro até ás entranhas.

O irmão de Iracema veio direito ao extrangeiro, que arrancara a filha de Araken á cabana hospedeira; o faro da vingança o guia; a vista da irmã assanha a raiva em seu peito. O guerreiro Cauby assalta com furor o inimigo.

Iracema, unida ao flanco de seu guerreiro e esposo, vio de longe Cauby e fallou assim:

--Senhor de Iracema, ouve o rogo de tua escrava; não derrama o sangue do filho de Araken. Se o guerreiro Cauby tem de morrer, morra elle por esta mão, não pela tua.

Martim pôz no rosto da selvagem olhos de horror:

--Iracema matará seu irmão?

--Iracema antes quer que o sangue de Cauby tinja sua mão que a tua; porque os olhos de Iracema vêem a ti, e a ella não.

Travam a luta os guerreiros. Cauby combate com furor, o christão defende-se apenas; mas a seta embebida no arco da esposa guarda a vida do guerreiro contra os botes do inimigo.

Poty já prostrou o velho Andira e quantos guerreiros topou na luta seu valido tacape. Martim lhe abandona o filho de Araken, e corre sobre Irapuam.

--Jacaúna é um grande chefe; seu collar de guerra dá tres voltas ao peito. O tabajara pertence ao guerreiro branco.

--A vingança é a honra do guerreiro, e Jacaúna ama o amigo de Poty.

O grande chefe Pytiguara levou além o formidavel tacape. O combate renhio-se entre Irapuam e Martim. A espada do christão. batendo na clava do selvagem fez-se pedaços. O chefe tabajara avançou contra o peito inerme do adversario.

Iracema silvou como a boicininga, e se arremessou ante a furia do guerreiro tabajara. A arma rigida tremeu na dextra possante e o braço cahio desfallecido.

Soava a pocema da victoria. Os guerreiros pytiguaras conduzidos por Jacaúna e Poty varriam a floresta. Os tabajaras, fugindo, arrebataram seu chefe ao odio da filha de Araken que o podia abater, como a jandaia abate o procero coqueiro roendo-lhe o cerne.

Os olhos de Iracema estendidos pela floresta, viram o chão juncado de cadaveres de seus irmãos; e longe o bando dos guerreiros tabajaras que fugiam em nuvem negra de pó. Aquelle sangue que enrubecia a terra era o mesmo sangue brioso que lhe ardia as faces de vergonha.

O pranto orvalhou seu lindo semblante.

Martim affastou-se para não envergonhar a tristeza de Iracema. Deixou que sua dor núa se banhasse nas lagrimas.

XIX

Poty voltou de perseguir o inimigo. Seus olhos se encheram de alegria vendo salvo o guerreiro branco.

O cão fiel o seguia de perto, lambendo ainda nos pellos do focinho, a marugem do sangue tabajara de que se fartára; o senhor o acariciava satisfeito de sua coragem e dedicação. Fora elle quem salvara Martim, alli trazendo com tanta deligencia os guerreiros de Jacaúna.

--Os máos espiritos da floresta podem separar outra vez o guerreiro branco de seu irmão Pytiguara. O cão te seguirá d'aqui em deante, para que mesmo de longe Poty acuda a teu chamado.

--Mas o cão é teu companheiro e amigo fiel.

--Mais amigo e companheiro será de Poty, servindo a seu irmão que a elle. Tu o chamarás Japy, e elle será o pé ligeiro com que de longe corramos um para o outro.

Jacaúna deu o signal da partida.

Os guerreiros pytiguaras caminharam para as margens alegres do rio onde bebem as garças: alli se erguia a grande taba dos senhores das varzeas.

O sol deitou-se, e de novo se levantou no céo. Os guerreiros chegaram aonde a serra quebrava para o sertão; já tinham passado aquella parte da montanha, que por ser despida de arvoredo e tosquiada corno a capivara, a gente de Tupan chamava Ibyapina.

Poty levou o christão aonde crescia um frondoso jatobá, que affrontava as arvores do mais alto pincaro da serrania, e quando batido pela rajada parecia varrer o céo com a immensa copa.

--N'este logar nasceu teu irmão, disse o pytiguara: Martim estreitou o peito ao tronco enorme:

--Jatobá, que viste nascer meu irmão Poty, o extrangeiro te abraça.

--O raio te decepe arvore do guerreiro Poty, quando seu irmão o abandonar.

Depois o chefe assim falou:

--Ainda Jacaúna não era um guerreiro, Jatobá, o maior chefe, conduzia os Pytiguaras á victoria. Logo que as grandes aguas correram, elle caminhou para a serra. Aqui chegando, mandou levantar a taba, para estar perto do inimigo e vencêl-o mais vezes. A mesma lua que o vio chegar, alumiou a rêde onde Sahy sua esposa, lhe deu mais um guerreiro de seu sangue. O luar passava por entre as folhas do jatobá; e o sorriso pelos labios do varão possante, que tomara seu nome e robustez.

Iracema aproximou-se.

A rôla, que marisca na areia, se o companheiro se afasta, adeja inquieta de ramo em ramo e arrulla para que lhe responda o ausente amigo. Assim a filha da floresta errara pela encosta, modulando o singelo canto mavioso.

Martim a recebeu com a alma no semblante; e levando a esposa do lado do coração e o amigo do lado da força, voltou ao rancho dos pytiguaras.

XX

A lua cresceu.

Tres sóes havia que Martim e Iracema estavam nas terras dos Pytiguaras, senhores das margens do Camocim e Acaraú. Os extrangeiros tinham sua rêde na vasta cabana do grande Jacaúna. O valente chefe guardou para si a alegria de hospedar o guerreiro branco.

Poty abandonou sua taba, para acompanhar seu irmão de guerra na cabana de seu irmão de sangue, e gosar dos instantes que sobejavam do amor de Iracema para a amisade, no coração do guerreiro do mar.

A sombra já se retirou da face da terra: e Martim vio que ella não se retirara ainda da face da esposa, desde o dia do combate.

--A tristeza mora na alma de Iracema!

--A alegria para a esposa só vem de ti; quando teus olhos a deixam as lagrimas enchem os seus.

--Porque chora a filha dos Tabajaras?

--Esta é a taba dos Pytiguaras, inimigos do meu povo. A vista de Iracema já conheceu o craneo de seus irmãos espetado na caiçara; o ouvido já escutou o canto de morte dos captivos tabajaras; a mão já tocou as armas tintas do sangue de seus paes.

A esposa pousou as duas mãos nos hombros do guerreiro, e reclinou ao peito d'elle:

--Iracema tudo soffre por seu guerreiro e senhor. A ata é doce e saborosa; quando a machucam azeda. Tua esposa não quer que seu amor azede teu coração; mas que te encha das doçuras do mel.

--Volte o socego ao seio da filha dos Tabajaras; ella vae deixar a taba dos inimigos de seu povo.

O christão caminhou para a cabana de Jacaúna. O grande chefe alegrou-se vendo chegar seu hospede; mas a alegria fugio logo de sua fronte guerreira. Martim dissera:

--O guerreiro branco parte de tua cabana, grande chefe.

--Alguma cousa te faltou na taba de Jacaúna?

--Nada faltou a teu hospede. Elle era feliz aqui; mas a voz do coração o chama a outros sitios.

--Então parte, e leva o que é preciso para a viagem. Tupan te fortaleça, e traga outra vez á cabana de Jacaúna, para que elle festeje tua boa vinda.

Poty chegou: sabendo que o guerreiro do mar ia partir, falou:

--Teu irmão te acompanha.

--Os guerreiros de Poty precisam de seu chefe.

--Se tu não queres que elles vão com Poty, Jacaúna os conduzira á victoria.

--A cabana de Poty ficará deserta e triste.

--Deserto e triste será o coração de teu irmão longe de ti.

O guerreiro do mar deixou as margens do rio das garças, e caminhou para as terras onde o sol se deita. A esposa e o amigo seguem sua marcha. Passaram além da fertil montanha, onde a abundancia dos fructos creava grande quantidade de mosca, do que lhe veio o nome de Meruoca.

Atravessam os corregos que levam suas aguas ao rio das garças, e avistam longe rio horisonte uma alta serrania. Expira o dia; nuvem negra voa das bandas do mar: são os urubus que pastam nas praias a carniça que o oceano arroja, e com a noite tornam ao ninho.

Os viajantes dormem em Uruburetama. Quando o sol voltou, chegaram ás margens do rio, que nasce na quebrada da serra e desce a planicie enroscando-se como uma cobra. Suas voltas continuas enganam a cada passo o peregrino, que vae seguindo o tortuoso curso: por isso foi chamado Mundahú.

Perlongando as frescas margens, viu Martim no seguinte sol os verdes mares e as alvas praias onde as ondas murmurosas, ás vezes soluçam e outras raivam de furia, rebentando em frocos de espuma.

Os olhos do guerreiro branco se dilataram pela vasta immensidade; seu peito suspirou. Esse mar beijava tambem as brancas areias do Potengi, seu berço natal, onde elle vira a luz americana. Arrojou-se nas ondas e pensou banhar seu corpo nas aguas da patria, como banhara sua alma nas saudades d'ella.

Iracema sentiu chorar-lhe o coração; mas não tardou que o sorriso de seu guerreiro o acalentasse.

Entretanto Poty, do alto do coqueiro, flexava o saboroso camoropim que brincava na pequena bahia do Mundahú; e preparava o moquem para a refeição.

XXI

Já descia o sol das alturas do céo.

Chegam os viajantes á foz do rio onde se criam em grande abundancia as saborosas trahiras; suas praias são povoadas pela tribu dos pescadores, da grande nação dos Pytiguaras.

Elles receberam os extrangeiros com a hospitalidade generosa, que era uma lei de sua religião; e Poty com o respeito que merecia tão grande guerreiro, irmão de Jacaúna, maior chefe da forte gente pytiguara.

Para repousar os viajantes, e acompanhal-os na despedida, o chefe da tribu recebeu Martim, Iracema e Poty na jangada, e abrindo a vela á brisa, levou-os até muito longe na costa. Todos os pescadores em suas jangadas seguiam o chefe e atroavam os ares com o canto de saudade, e os murmures do uraçá, que imita os soluços do vento.

Além da tribu dos pescadores estava mais entrada para as serras a tribu dos caçadores. Elles occupavam as margens do Soipé, cobertas de matas, onde os veados, as gordas pacas e os macios jacús abundavam. Assim os habitadores d'essas margens lhe deram o nome de paiz da caça.

O chefe dos caçadores, Jaguarassú, tinha sua cabana á beira do lago, que forma o rio perto do mar. Ahi acharam os viajantes o mesmo agasalho que haviam recebido dos pescadores.

Depois que partiram do Soipé, os viajantes atravessaram o rio Pacoty, em cujas margens cresciam as frondosas bananeiras balançando os verdes pennachos; mais longe o Iguape, onde a agua faz cintura em torno dos comoros de areia.

Além assomou no horisonte um alto morro de areia que tinha a alvura da espuma do mar. O cabo sobranceiro aos coqueiros parece a cabeça calva do condor, esperando alli a borrasca, que vem dos confins do oceano.

--Poty conhece o grande morro das areias? perguntou o christão.

--Poty conhece toda a terra que tem os Pytiguaras desde as margens do grande rio, que forma um braço do mar, até á margem do rio onde habita o jaguar. Elle já esteve no alto do Mocoribe, e de lá viu correr no mar as grandes igaras dos guerreiros brancos, teus inimigos, que está o no Mearim.

--Porque chamas tu Mocoribe, o grande morro das areias?

--O pescador da praia, que vae nas jangadas, lá onde voa a aty, fica triste, longe da terra e de sua cabana, onde dormem os filhos de seu sangue. Quando elle volta e que seus olhos primeiro avistam o morro das areias, a alegria volta ao seio do homem. Então elle diz que o morro das areias dá alegria!

--O pescador diz bem; porque teu irmão ficou contente como elle, vendo o monte das areias.

Martim subiu com Poty ao cimo do Mocoribe. Iracema seguindo com os olhos o esposo, divagava como a jaçanan em tôrno do lindo seio, que alli fez a terra para receber o mar. De passagem ella colhia os doces cajús, que aplacam a sede aos guerreiros, e apanhava as mimosas conchas para ornar seu collo.

Os viajantes estiveram em Mocoribe tres sóes. Depois Martim levou seus passos além. A esposa e o amigo o seguiram até á embocadura de um rio cujas margens eram alagadas e cobertas de mangue. O mar entrando por elle formava uma bacia de agua christalina, que parecia cavada na pedra como um camocim.