Iracema com uma noticia biographica do auctor

Part 3

Chapter 34,110 wordsPublic domain

Os roseos labios da virgem não se abriram mais para que ella colhesse entre elles a polpa da fructa ou a papa do milho verde; nem a dôce mão a affagára uma só vez, alisando a penugem dourada da cabeça.

Se repetia o mavioso nome da senhora, o sorriso de Iracema já não se voltava para ella, nem o ouvido parecia escutar a voz da companheira e amiga, que d'antes tão suave era ao seu coração.

Triste d'ella! A gente tupy a chamava jandaia, porque sempre alegre estrugia os campos com seu canto fremente. Mas agora, triste e muda, desdenhada de sua senhora, não parecia mais a linda jandaia, e sim o feio urutão que sómente sabe gemer.

O sol remontou a umbria das serras; seus raios douravam apenas o viso das eminencias.

A surdina merencoria da tarde, que precede o silencio da noite, começava de velar os crebros rumores do campo. Uma ave nocturna, talvez illudida com a sombra mais espessa do bosque, desatou o estridulo.

O velho ergueu a fronte calva:

--Foi o canto da inhuma que accordou o ouvido de Araken? disse elle admirado.

A virgem estremecêra; já fóra da cabana voltou-se para responder á pergunta do Pagé:

--É o grito de guerra do guerreiro Cauby!

Quando o segundo pio da inhuma resoou, Iracema corria na matta, como a corça perseguida pelo caçador. Só respirou chegando á campina, que recortava o bosque, como um grande lago.

Quem seus olhos primeiro viram, Martim, estava tranquillamente sentado em uma sapopema, olhando o que passava alli. Contra, cem guerreiros tabajaras com Irapuam á frente, formavam arco. O bravo Cauby os affrontava a todos, com o olhar cheio de ira e as armas valentes empunhadas na mão robusta:

O chefe exigira a entrega do extrangeiro, e o guia respondera simplesmente:

--Matae Cauby, antes.

A filha do Pagé passara como uma flecha: eil-a deante de Martim oppondo tambem seu corpo gentil aos golpes dos guerreiros. Irapuam soltou o bramido da onça atacada na furna.

--Filha do Pagé, disse Cauby em voz baixa. Conduz o extrangeiro á cabana: só Araken pode salval-o.

Iracema voltou-se para o guerreiro branco:

--Vem!

Elle ficou immovel.

--Se tu não vens, disse a virgem, Iracema morrerá comtigo.

Martim ergueu-se; mas longe de seguir á virgem, caminhou direito a Irapuam. A sua espada flammejou no ar.

--Os guerreiros do meu sangue, chefe, jamais recusaram combate. Se aquelle que tu vês não foi o primeiro a provocal-o, é porque seus paes lhe ensinaram a não derramar sangue na terra hospedeira.

O chefe tabajara rugiu de alegria; sua mão possante brandio o tacape. Mas os dois campeões mal tiveram tempo de medir-se com os olhos; quando fendiam o primeiro golpe, já Cauby e Iracema estavam entre elles.

A filha de Araken debalde rogava ao christão, debalde o cingia em seus braços buscando arrancal-o ao combate. De seu lado Cauby em vão provocava Irapuam para attrahir a si a raiva do chefe.

A um gesto de Irapuam, os guerreiros afastaram os dois irmãos; o combate proseguiu.

De repente o rouco som da inubia reboou pela matta; os filhos da serra estremeceram reconhecendo o estridulo do buzio guerreiro dos Pytiguaras, senhores das praias, encombradas de coqueiros. O ecco vinha da grande taba, que o inimigo talvez assaltava já.

Os guerreiros precipitaram-se, levando por deante o chefe. Com o extrangeiro só ficou a filha de Araken.

XI

Os guerreiros tabajaras, acorridos á taba, esperavam o inimigo deante da caiçara.

Não vindo elles sahiram a buscal-o.

Bateram as matas em tôrno e percorreram os campos; nem vestigios encontraram da passagem dos Pytiguaras; mas o conhecido fremito do buzio das praias tinha resoado ao ouvido dos guerreiros da montanha; não havia duvidar.

Suspeitou Irapuam que fosse um ardil da filha de Araken para salvar o extrangeiro; e caminhou direito á cabana do Pagé. Como trota o guará pela orla da mata, quando vae seguindo o rastro da presa escápula, assim estugava o passo o sanhudo guerreiro.

Araken viu entrar em sua cabana o grande chefe da nação tabajara, e não se moveu. Sentado na rede, com as pernas cruzadas, escutava Iracema. A virgem referia os successos da tarde: avistando a figura sinistra de Irapuam saltou sobre o arco, e uniu-se ao flanco do joven guerreiro branco.

Martim a affastou docemente de si, e promoveu o passo.

A protecção, de que o cercava a elle guerreiro a virgem tabajara, o desgostava.

--Araken, a vingança dos tabajaras espera o guerreiro branco; Irapuam veiu buscal-o.

--O hospede é amigo de Tupan; quem offender o extrangeiro ouvirá o rugir do trovão.

--O extrangeiro foi quem offendeu a Tupan, roubando a sua virgem, que guarda os sonhos da jurema.

--Tua bôcca mente como o ronco da jiboia: exclamou Iracema.

Martim disse:

--Irapuam é vil e indigno de ser chefe de guerreiros valentes!

O Pagé falou grave e lento:

--Se a virgem abandonou ao guerreiro branco a flôr de seu corpo, ella morrerá; mas o hospede de Tupan é sagrado; ninguem lhe tocará, todos o servirão.

Irapuam bramio; o grito rouco troou nas arcas do peito, como o fremito da sucury na profundeza do rio.

--A raiva de Irapuam não pode mais ouvir-te, velho Pagé! Caia ella sobre ti, se ousas subtrahir o extrangeiro á vingança dos Tabajaras.

O velho Andira, irmão do Pagé, entrou na cabana; trazia no punho o terrivel tacape e nos olhos uma raiva ainda mais terrivel.

--O morcego vem te chupar o sangue, se é que tens sangue e não mel nas veias, tu que ameaças em sua cabana o velho Pagé.

Araken affastou o irmão:

--Paz e silencio, Andira.

O Pagé desenvolvera a alta e magra estatura, como a caninana assanhada, que se enrista sobre a cauda, para affrontar a victima em face. As rugas affundaram; e repuxando as pelles engelhadas esbugalharam os dentes alvos e afilados:

--Ousa um passo mais, e as iras de Tupan te esmagarão sob o peso d'esta mão sêcca e mirrada!

--N'este momento, Tupan não é comtigo! replicou o chefe.

O Pagé rio; e o seu riso sinistro reboou pelo espaço como o regougo da ariranha.

--Ouve seu trovão, e treme em teu seio, guerreiro, como a terra em sua profundeza.

Araken proferindo essa palavra terrivel, avançou até o meio da cabana; alli ergueu a grande pedra e calcou o pé com fôrça no chão: subito, abriu-se a terra. Do antro profundo sahiu um medonho gemido, que parecia arrancado das entranhas do rochedo.

Irapuam não tremeu, nem enfiou de susto; mas sentiu turvar-se a luz nos olhos, e a voz nos labios.

--O senhor do trovão é por ti; o senhor da guerra será por Irapuam.

O torvo guerreiro deixou a cabana; em pouco seu grande vulto mergulhou-se nas sombras do crepusculo.

O Pagé e seu irmão travaram a pratica na porta da cabana.

Martim ainda surprêso do que vira, não tirava os olhos da funda cava, que a planta do velho Pagé abrira no chão da cabana. Um surdo sumor, como o echo das ondas quebrando nas praias, ruidava alli.

O guerreiro christão scismava; elle não podia crêr que o Deus dos Tabajaras desse ao seu sacerdote tamanho poder.

Araken percebendo o que passava n'alma do extrangeiro, accendeu o cachimbo e travou do maracá:

--É tempo de applacar as iras de Tupan, e calar a voz do trovão.

Disse e partiu da cabana.

Iracema achegou-se então do mancebo; levava os labios em riso, os olhos em jubilo:

--O coração de Iracema está como o abaty n'agua do rio. Ninguem fará mal ao guerreiro branco na cabana de Araken.

--Arreda-te do inimigo, virgem dos Tabajaras; respondeu o extrangeiro com asperesa de voz.

Voltando brusco para o lado oposto, furtou o semblante aos olhos ternos e queixosos da virgem.

--Que fez Iracema, para que o guerreiro branco desvie seus olhos d'ella, como se fôra o verme da terra?

As falas da virgem resoaram docemente no coração de Martim. Assim resoam os murmurios da aragem nas frondes da palmeira. O mancebo sentiu raiva de si, e pena d'ella:

Não ouves tu, virgem formosa? exclamou elle apontando para o antro fremente.

--É a voz do Tupan!

--Teu Deus falou pela bôcca do Pagé. Se a virgem de Tupan abandonar ao extrangeiro a flôr de seu corpo, ella morrerá!...

Iracema pendeu a fronte abatida:

--Não é voz de Tupan que ouve teu coração, guerreiro de longes terras, é o canto da virgem branca que te chama!

O rumor extranho que sahia das profundezas da terra, apagou-se de repente: fez-se na cabana tão grande silencio, que ouvia-se pulsar o sangue na arteria do guerreiro, e tremer o suspiro no labio da virgem.

XII

O dia ennegreceu; era noite já.

O Pagé tornára á cabana; sopesando de novo a grande lage, fechou com ella a bôcca do antro. Cauby chegára tambem da grande taba, onde com seus irmãos guerreiros se recolhera depois que bateram a floresta, em busca do inimigo Pytiguara.

No meio da cabana, entre as redes armadas em quadro, extendeu Iracema a esteira da carnauba, e sobre ella serviu os restos da caça, e a provisão de vinhos da ultima lua. Sé o guerreiro tabajara achou sabor na ceia, porque o fel do coração que a tristeza expreme não amargava seu labio.

O Pagé bebia no cachimbo o fumo sagrado de Tupan, que lhe enchia as arcas do peito: o extrangeiro respirava, ar ás golfadas para refrescar-lhe o sangue effervescente; a virgem distillava sua alma como o mel de um favo, nos crebros soluços que lhe estalavam entre os labios tremulos.

Já partiu Cauby para a grande taba; o Pagé traga as baforadas do fumo, que prepara o mysterio do sagrado rito.

Levanta-se no resomno da noite um grito vibrante, que remonta ao céo.

Martim ergue a fronte e inclina o ouvido. Outro clamor semelhante resoa. O guerreiro murmura, que o ouça a virgem e só ella:

--Escutou Iracema, cantar a gaivota?

--Iracema escutou o grito de uma ave que ella não conhece.

--É a atyaty, a garça do mar, e tu és a virgem da serra, que nunca desceu as alvas praias onde arrebentam as vagas.

--As praias são dos Pytiguaras, senhores das Palmeiras.

Os guerreiros da grande nação que habitava as bordas do mar, se chamavam a si mesmos Pytiguaras, senhores dos valles; mas os Tabajaras, seus inimigos, por escarneo os apellidavam Potyuaras, comedores de camarão.

Iracema não quiz offender o guerreiro branco; por isso falando a respeito dos Pytiguaras, não lhes recusou o nome guerreiro que elles haviam tomado para si.

O extrangeiro reteve por um instante a palavra no seu labio prudente, emquanto reflectia:

--O canto da gaivota é o grito do guerra do valente Poty, amigo de teu hospede!

A virgem estremeceu por seus irmãos. A fama do bravo Poty, irmão de Jacaúna, subio das ribeiras do mar ás alturas da serra; rara é a cabana onde já não rugiu contra elle o grito da vingança, porque em quasi todas o golpe de seu valido tacape deitou um guerreiro tabajara em seu camocim.

Iracema cuidou que Poty vinha á frente de seus guerreiros para livrar o amigo. Era elle sem duvida que fizera retroar o buzio das praias, no momento do combate. Foi com um tom misturado de doçura e tristeza que replicou:

--O extrangeiro está salvo; os irmãos de Iracema vão morrer, porque ella não falará.

--Saia essa tristeza de tua alma. O extrangeiro partindo-se de teus campos, virgem tabajara, não deixará n'elles rasto de sangue, como o tigre esfaimado.

Iracema tomou a mão do guerreiro branco e beijou-a.

--Teu sorriso, continúa elle, apagou a lembrança do mal que elles me querem.

Martim ergueu-se e marchou para a porta.

--Onde vae o guerreiro branco?

--Adeante de Poty.

--O hospede de Araken não pode sahir d'esta cabana, porque os guerreiros de Irapuam o matarão.

--Um guerreiro só deve protecção a Deus e a suas armas. Não carece que o defendam os velhos e as mulheres.

--Não vale um guerreiro só contra mil guerreiros; valente e forte é o tamanduá, que mordem os gatos selvagens por serem muitos e o acabam. Tuas armas só chegam até onde mede a sombra de teu corpo; as armas d'elles voam alto e direitos como o anajê.

--Todo o guerreiro tem seu dia.

--Não queres tu que morra Iracema, e queres que ella te deixe morrer!

Martim ficou perplexo:

--Iracema irá ao encontro do chefe Pytiguara e trará a seu hospede as falas do guerreiro amigo.

O Pagé sahiu emfim de sua contemplação. O maracá rugiu-lhe na dextra; tiniram os guisos com o passo hirto e lento.

Chamou elle a filha de parte:

--Se os guerreiros de Irapuam vierem contra a cabana, levanta a pedra e esconde o extrangeiro no seio da terra.

--O hospede não deve ficar só; espera que volte Iracema. Ainda não cantou a inhuma.

Tornou a sentar-se na rede o velho. A virgem partiu, cerrando a porta da cabana.

XIII

Avança a filha de Araken nas trevas; pára e escuta.

O grito da gaivota terceira vez resôa ao seu ouvido; ella vae direito ao logar d'onde partiu; chega á borda de um tanque; seu olhar investiga a escuridão, e nada vê do que busca.

A voz maviosa, debil como susurro de colibri, resôa no silencio.

--Guerreiro Poty, teu irmão branco te chama pela bôcca de Iracema.

Só o ecco lhe respondeu.

--A filha de teus inimigos vem a ti, porque o extrangeiro te ama, e ella ama o extrangeiro.

A lisa lace do lago fendeu-se; e um vulto se mostra, que nada para a margem, e surge fora.

--Foi Martim quem te mandou, pois tu sabes o nome de Poty, seu irmão na guerra.

--Fala, chefe Pytiguara; o guerreiro branco espera.

--Torna a elle e diz que Poty é chegado para o salvar.

--Elle sabe, mandou-me para te ouvir.

--As falas de Poty sahirão de sua bôcca para o ouvido de seu irmão branco.

--Espera então que Araken parta e a cabana fique deserta; eu te guiarei á presença do extrangeiro.

--Nunca, filha dos Tabajaras, um guerreiro Pytiguara passou a soleira da cabana inimiga, se não foi como vencedor. Conduz aqui o guerreiro do mar.

--A vingança de Irapuam fareja em roda da cabana de Araken. Trouxe o irmão do extrangeiro bastantes guerreiros Pytiguaras para o deffender e salvar?

Poty reflectiu:

--Conta, virgem das serras, o que aconteceu em teus campos depois que a elles chegou o guerreiro do mar.

Iracema referiu como a colera de Irapuam se havia assanhado contra o extrangeiro, até que a voz de Tupan, chamada pelo Pagé, tinha apasiguado seu furor.

--A raiva de Irapuam é como a andira; foge da luz e voa na treva.

A mão de Poty cerrou súbito os labios da virgem; sua fala parecia um sopro.

--Suspende a voz e o respiro, virgem das florestas; o ouvido inimigo escuta na sombra.

As folhas crepitavam de manso, como se por ellas passasse a fragueira nambú. O rumor partido da orla da matta, vinha discorrendo pelo valle.

O valente Poty, resvallando pela relva, como o ligeiro camarão. de que elle tomara o nome e a viveza, desappareceu no lago profundo. A agua não soltou um murmurio, e cerrou sobre elle sua limpida onda.

Iracema voltou á cabana; em meio do caminho seus olhos perceberam as sombras de muitos guerreiros que rojavam pelo chão, como a intanha.

Araken vendo-a entrar, partiu.

A virgem tabajara contou a Martim o que ouvira de Poty; o guerreiro christão ergueu-se de um impeto para correr á defeza de seu irmão Pytiguara. Cingiu-lhe o collo Iracema com os lindos braços:

--O chefe não carece de ti; elle é filho das aguas; as aguas o protegem. Mais tarde o extrangeiro ouvirá em seus ouvidos as falas amigas.

--Iracema, é tempo que teu hospede deixe a cabana do Pagé e os campos dos Tabajaras. Elle não tem medo dos guerreiros de Irapuam, tem medo dos olhos da virgem de Tupan.

--Elles fugirão de ti.

--Fuja d'elles o extrangeiro, como o oitibó da estrella da manhã.

Martim promoveu o passo.

--Vae, guerreiro ingrato; vae matar teu irmão primeiro, depois a ti. Iracema te seguirá até aos campos alegres onde vão as sombras dos que foram.

--Matar meu irmão, dizes tu, virgem cruel?

--Teu rasto guiará o inimigo aonde elle se occulta.

O christão estacou em meio da cabana; e alli permaneceu mudo e quedo. Iracema receosa de fital-o, tinha os olhos postos na sombra do guerreiro, que a chamma do fogo projectava na vetusta parede da cabana.

O cão felpudo, deitado no borralho, deu signal de que se approximava gente amiga. A porta entretecida dos talos de carnaúba foi aberta por fora. Cauby entrou.

--O cauim perturbou o espirito dos guerreiros; elles vem contra o extrangeiro.

A virgem ergue-se de um impeto.

--Levanta a pedra que fecha a garganta de Tupan, para que ella esconda o extrangeiro.

O guerreiro tabajara, sopesando a lage enorme, emborcou-a no chão.

--Filho de Araken, deita na porta da cabana, e nunca mais te levantes da terra, se um guerreiro passar por cima do teu corpo.

Cauby obedeceu: a virgem cerrou a porta.

Decorreu breve trato. Resoa perto o estrupido dos guerreiros; travam-se as vozes iradas de Irapuam e Cauby.

--Elles vêm; mas Tupan salvará seu hospede.

N'esse instante, como se o Deus do trovão ouvisse as palavras de sua virgem, o antro mudo em principio retroou surdamente.

--Ouve! É a voz de Tupan.

Iracema cerra a mão do guerreiro, e o leva á borda do antro. Somem-se ambos nas entranhas da terra.

XIV

Os guerreiros tabajaras, excitados com as copiosas libações do espumante cauim, se inflammam á voz de Irapuam, que tantas vezes os guiou ao combate, quantas á victoria.

Aplaca o vinho a sêde do corpo; accende outra sêde maior na alma feroz. Rugem vingança contra o extrangeiro audaz que affrontando suas armas offende o Deus de seus paes, e o chefe da guerra, o primeiro varão tabajara.

Lá tripudiam de furor, e arremettem pelas sombras; a luz vermelha do ubiratan, que brilha ao longe, os guia á cabana de Araken. De espaço em espaço erguem-se do chão os que primeiro vieram para vigiar o inimigo.

--O Pagé está na floresta! murmuram elles.

--O extrangeiro? pergunta Irapuam.

--Na cabana com Iracema.

O grande chefe lança o terrivel salto; já é chegado á porta da cabana, e com elle seus valentes guerreiros.

O vulto de Cauby enche o vão da porta; suas armas guardam deante d'elle o espaço de um bote do maracajá.

--Vis guerreiros são aquelles que atacam em bando como os caetetús. O jaguar, senhor da floresta, e o anajê, senhor das nuvens, combatem só o inimigo.

--Morda o pó a bocca torpe que levanta a voz contra o mais valente guerreiro dos guerreiros tabajaras.

Proferidas estas palavras, ergue o braço de Irapuam o rigido tacape, mas estaca no ar; as entranhas da terra outra vez rugem, como rugiram, quando Araken accordou a voz tremenda de Tupan.

Levantam os guerreiros medonho alarido; e cercando seu chefe o arrebatam ao funesto lugar e á colera de Tupan, contra elles concitado.

Cauby extende-se de novo na soleira da porta; seus olhos adormecem; mas seu ouvido vella no somno.

A voz de Tupan emmudeceu.

Iracema e o christão perdidos nas entranhas da terra, descem a gruta profunda. Subito uma voz que vinha reboando pela crasta, encheu seus ouvidos:

--O guerreiro do mar escuta a falla de seu irmão?

--É Poty, o amigo de teu hospede: disse o christão para a virgem.

Iracema estremeceu:

--Elle fala pela bôcca de Tupan.

Martim respondeu emfim ao Pytiguara.

--As falas de Poty entram n'alma de seu irmão.

--Nenhum outro ouvido escuta?

--Os da virgem que duas vezes em um sol defendeu a vida de teu irmão!

--A mulher é fraca; o tabajara traidor; e o irmão de Jacaúna prudente.

Iracema suspirou: e pousou a cabeça no peito do mancebo:

--Senhor de Iracema, cerra seus ouvidos, para que ella não ouça.

Martim repelliu docemente a gentil fronte:

--Falle o chefe Pytiguara; só o escutam ouvidos amigos e fieis.

--Tu ordenas, Poty fala. Antes que o sol se levante na serra, o guerreiro do mar deve partir para as margens do ninho das garças; a estrella morta o guiará ás alvas praias. Nenhum tabajara o seguirá, porque a inubia dos Pytiguaras rugirá da banda da serra.

--Quantos guerreiros Pytiguaras acompanham seu chefe valente?

--Nenhum; Poty veiu só, com suas armas. Quando os espiritos máus da floresta separaram o guerreiro do mar de seu irmão, Poty veiu em seguimento do rastro. Seu coração não deixou que voltasse para chamar os guerreiros da sua taba; mas expediu seu cão fiel ao grande Jacaúna.

--O chefe Pytiguara está só; não deve rugir a inubia que chamará contra si todos os guerreiros tabajaras.

--É preciso para salvar o irmão branco; Poty zombará de Irapuam, como zombou quando combatiam cem contra ti.

A filha do Pagé, que ouvira callada, debruçou-se ao ouvido do christão:

--Iracema quer-te salvar e a teu irmão; ella tem seu pensamento. O chefe Pytiguara é valente e audaz; Irapuam é manhoso e traiçoeiro como a acauan. Antes que chegues á floresta, cahirás; e teu irmão da outra banda cahirá comtigo.

--Que fará a virgem tabajara para salvar o extrangeiro e seu irmão? perguntou Martim.

--Mais um sol e outro, e a lua das flores vae nascer. É o tempo da festa, em que os guerreiros tabajaras passam a noite no bosque sagrado, e recebem do Pagé os sonhos alegres. Quando estiverem todos adormecidos, o guerreiro branco deixará os campos do Ipú, e os olhos de Iracema, mas não sua alma.

Martim estreitou a virgem ao seio; mas logo a repelliu. O toque de seu corpo, doce como a assucena da mata, e quente como o ninho do beija flôr, espinhou seu coração; porque lhe recordou as palavras terriveis do Pagé.

A voz do christão disse a Poty o pensamento de Iracema; o chefe Pytiguara, prudente como o tamanduá, pensou e respondeu:

--A sabedoria fallou pela bôcca da virgem tabajara Poty espera o nascimento da lua.

XV

Nasceu o dia e expirou.

Já brilha na cabana de Araken o fogo, companheiro da noite. Correm lentas e silenciosas no azul do céo, as estrellas, filhas da lua, que esperam a volta da sua mãe ausente.

Martim se emballa docemente; e como a alva rêde que vae e vem, sua vontade oscilla de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos affectos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores.

Iracema recosta-se langue ao punho da rêde; seus olhos negros e fulgidos, ternos olhos de sabiá, buscam o extrangeiro, e lhe entram n'alma. O christão sorri; a virgem palpita; como o sahy, fascinado pela serpente, vae declinando o lascivo talhe, que se prostra sobre o peito do guerreiro.

Já o extrangeiro a prime ao seio; e o labio avido busca o labio que o espera, para celebrar n'esse adyto d'alma, o hymineo do amor.

No recanto escuro o velho Pagé, immerso em sua contemplação e alheio ás cousas d'este mundo, soltou um gemido doloroso. Pressentira o coração o que não viram os olhos? Ou foi algum funesto presagio para a raça de seus filhos, que assim echoou n'alma de Araken?

Ninguem o soube.

O christão repelliu do seio a virgem indiana. Elle não deixará o rastro da desgraça na cabana hospedeira. Cerra os olhos para não vêr; e enche sua alma com o nome e a veneração do seu Deus:

--Christo!... Christo!...

A serenidade volta ao seio do guerreiro branco, mas todas as vezes que seu olhar pousa sobre a virgem tabajara, elle sente correr-lhe pelas veias uma scentelha de ardente chamma. Assim quando a creança imprudente revolve o brasido de intenso fogo, saltam as faúlhas inflammadas que lhe queimam o corpo.

Fecha os olhos o christão, mas na sombra de seu pensamento surge a imagem da virgem, talvez mais bella. Em balde chama elle o somno ás palpebras fatigadas; ellas se abrem, máu grado seu.

Desce-lhe do céo ao atribulado pensamento uma inspiração:

--Virgem formosa do sertão, esta é a ultima noite que teu hospede dorme na cabana de Araken, onde nunca viera, para teu bem e seu. Faze que seu somno seja alegre e feliz.

--Manda; Iracema te obedece. Que pode ella para tua alegria?

O christão falou submisso, para que não o ouvisse o velho Pagé:

--A virgem de Tupan guarda os sonhos da jurema que são doces e saborosos!

Um triste sorriso pungiu os labios de Iracema:

--O extrangeiro vae viver para sempre á cintura da virgem branca; nunca mais seus olhos verão a filha de Araken; e elle quer que o somno já feche suas palpebras, e o sonho o leve á terra de seus irmãos!

--O somno é o descanço do guerreiro, disse Martim; e o sonho a alegria d'alma. O extrangeiro não quer levar comsigo a tristeza da terra hospedeira, nem deixal-a no coração de Iracema!

A virgem ficou immovel.

--Vae e torna com o vinho de Tupan.