Iracema com uma noticia biographica do auctor

Part 2

Chapter 24,171 wordsPublic domain

Iracema accendeu o fogo da hospitalidade; e trouxe o que havia de provisões para satisfazer a fome e a sede: trouxe os restos da caça, a farinha d'agua, os fructos silvestres, os favos de mel e o vinho de cajú e ananaz.

Depois a virgem entrou com a igaçaba, que enchêra na fonte proxima de agua fresca para lavar o rosto e as mãos do extrangeiro.

Quando o guerreiro terminou a refeição, o velho Pagé apagou o cachimbo e falou:

--Vieste?

--Vim: respondeu o desconhecido.

--Bem vieste. O extrangeiro é senhor na cabana de Araken. Os Tabajaras tem mil guerreiros para defendel-o, e mulheres sem conto para servil-o. Dize, e todos te obedecerão.

--Pagé eu te agradeço o agasalho que me déste. Logo que o sol nascer deixarei tua cabana e teus campos onde vim perdido; mas não devo deixal-os sem dizer-te quem é o guerreiro, que fizeste amigo.

--Foi a Tupan que o Pagé serviu: elle te trouxe, elle te levará. Araken nada fez pelo hospede; não pergunta d'onde vem, e quando vae. Se queres dormir, desçam sobre ti os sonhos alegres: se queres falar, teu hospede escuta.

O extrangeiro disse:

--Sou dos guerreiros brancos, que levantaram a taba nas margens do Jaguaribe, perto do mar, onde habitam os Pytiguaras, inimigos de tua nação. Meu nome é Martim, que na tua lingua diz como filho de guerreiro; meu sangue o do grande povo que primeiro viu as terras de tua patria. Já meus destroçados companheiros voltaram por mar ás margens do Parahyba, de onde vieram: e o chefe, desamparado dos seus, atravessa agora os vastos sertões do Apody. Só eu de tantos fiquei, porque estava entre os Pytiguaras de Acaraú, na cabana do bravo Poty, irmão de Jacaúna, que plantou commigo a arvore da amizade. Ha tres sóes partimos para a caça; e perdido dos meus vim aos campos dos Tabajaras.

--Foi algum máu espirito da floresta que cegou o guerreiro branco no escuro da mata: respondeu o ancião.

A cauâm piou, além. na extrema do valle. Cahia a noite.

IV

O Pagé vibrou a maracá, e sahiu da cabana: porém, o extrangeiro não ficou só.

Iracema voltára com as mulheres chamadas para servir o hospede de Araken, e os guerreiros vindos para obedecer-lhe.

--Guerreiro branco, disse a virgem, o prazer emballe a tua rêde durante a noite; e o sol traga luz aos teus olhos, alegria á tua alma.

E assim dizendo Iracema tinha o labio tremulo, e humida a palpebra.

--Tu me deixas? perguntou Martim.

--As mais bellas mulheres da grande taba comtigo ficam.

--Para ellas a filha de Araken não devia ter conduzido o hospede á cabana do Pagé.

--Extrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ella que guarda o segredo da jurema e o mysterio do sonho. Sua mão fabrica para o Pagé a bebida de Tupan.

O guerreiro christão atravessou a cabana e sumiu-se na treva.

A grande taba erguia-se no fundo do valle, illuminada pelos faxos da alegria. Rugia o maracá; ao quebro lento do canto selvagem, batia a dança em torno a rude cadencia. O Pagé inspirado conduzia o sagrado tripudio e dizia ao povo crente os segredos de Tupan.

O maior chefe cia nação tabajara, Irapuam, descêra do mais alto da serra Ibyapaba, para levar as tribus do sertão contra o inimigo Pytiguara. Os guerreiros do valle festejam a vinda do chefe e o proximo combate.

O mancebo christão viu longe o clarão da festa, e passou além, e olhou o céo azul sem nuvens. A estrella morta que então brilhava sobre a cupula da floresta, guiou seu passo firme para as frescas margens do Acaraú.

Quando elle transmontou o valle e ia penetrar na matta, o vulto de Iracema surgiu. A virgem seguira o extrangeiro como a brisa subtil que resvalla sem murmurejar por entre a ramagem.

--Porque, disse ella, o extrangeiro abandona a cabana hospedeira sem levar o presente da volta? Quem fez mal ao guerreiro branco na terra dos Tabajaras?

O christão sentiu quanto era justa a queixa, e achou-se ingrato.

--Ninguem fez mal ao teu hospede, filha de Araken. Era o desejo de vêr seus amigos que o afastava dos campos dos Tabajaras. Não levava o presente da volta; mas leva em sua alma a lembrança de Iracema.

--Se a lembrança de Iracema estivesse na alma do extrangeiro, ella não o deixaria partir. O vento não leva a areia da varzea, quando a areia bebe a agua da chuva.

--A virgem suspirou:

--Guerreiro branco, espera que Cauby volte da caça. O irmão de Iracema tem o ouvido subtil que pressente a boicininga entre os rumores da matta; e o olhar do oitibó que vê melhor na treva. Elle te guiará ás margens do rio das garças.

--Quanto tempo se passará antes que o irmão de Iracema esteja de volta na cabana de Araken?

--O sol, que vae nascer, tornará com o guerreiro Cauby aos campos do Ipú.

--Teu hospede espera, filha de Araken: mas se o sol tornando, não trouxer o irmão de Iracema, elle levará o guerreiro branco á taba dos Pytiguaras.

Martim voltou á cabana do Pagé.

A alva rêde que Iracema perfumara com a resina do beijoim guardava-lhe um somno calmo e doce. O christão adormeceu ouvindo suspirar, entre os murmurios da floresta, o canto mavioso da virgem indiana.

V

O gallo da campina ergue a poupa escarlate fora do ninho. Seu limpido trinado annuncia a aproximação do dia.

Ainda a sombra cobre a terra. Já o povo selvagem colhe as redes na grande taba e caminha para o banho. O velho Pagé que velou toda a noite, falando ás estrellas, conjurando os máus espiritos da treva, entra furtivamente na cabana.

Eis retroa o boré pela amplidão do valle.

Travam das armas os rapidos guerreiros, e correm ao campo. Quando fôram todos na vasta ocára circular, Irapuam, o chefe, soltou o grito de guerra.

--Tupan deu á grande nação tabajara toda esta terra. Nós guardamos as serras, que manam os corregos, com os frescos ipús onde cresce a maniva e o algodão; e abandonamos ao barbaro Potyuara, comedor de camarão, as areias núas do mar, com os sêccos taboleiros sem agua e sem florestas. Agora os pescadores da praia, sempre vencidos, deixam vir pelo mar a raça branca dos guerreiros de fogo, inimigos de Tupan. Já os emboabas estiveram no Jaguaribe; logo estarão em nossos campos; e com elles os Potyuaras. Faremos nós, senhores das aldeias, como a pomba, que se encolhe em seu ninho, quando a serpente enrosca pelos galhos?

O irado chefe brande o tacape e o arremessa no meio do campo. Derrubando a fronte, cobre o rubido olhar:

--Irapuam falou; disse.

O mais moço dos guerreiros avança:

--O gavião paira nos ares. Quando a nambú levanta, elle cae das nuvens e rasga as entranhas da victima. O guerreiro tabajara, filho da serra, é como o gavião.

Troa e retroa a pocema da guerra.

O joven guerreiro erguera o tacape; e por sua vez o brandio. Girando no ar, rapida e ameaçadora, a arma do chefe passou de mão em mão.

O velho Andira, irmão do Pagé, a deixou tombar, e calcou no chão, com o pé agil ainda e firme.

Pasma o povo tabajara da acção desusada. Voto de paz em tão provado e impetuoso guerreiro! É o velho heroe, que cresceu na sanha, crescendo nos annos, é o feroz Andira quem derrubou o tacape, nuncio da proxima lucta?

Incertos todos e mudos escutam:

--Andira, o velho Andira, bebeu mais sangue na guerra do que já beberam cauim nas festas de Tupan, todos quantos guerreiros allumia agora a luz de seus olhos. Elle viu mais combates em sua vida do que luas lhe despiram a fronte. Quanto craneo de Potyuara escalpellou sua mão implacavel, antes que o tempo lhe arrancasse o primeiro cabello? E o velho Andira nunca temeu que o inimigo pisasse a terra de seus paes: mas alegrava-se quando elle vinha, e sentia com o faro da guerra a juventude renascer no corpo decrepito, como a arvore sêcca renasce com o sopro do inverno. A nação tabajara é prudente. Ella deve encostar o tacape da lucta para tanger o memby da festa. Celebra, Irapuam, a vinda dos emboabas e deixa que cheguem todos aos nossos campos. Então Andira te promette o banquete da victoria.

Desabriu emfim Irapuam a funda colera:

--Fica tu, escondido entre as igaçabas de vinho, tica, velho morcego, porque temes a luz do dia, e só bebes o sangue da victima que dorme. Irapuam leva a guerra no punho de seu tacape. O terror que elle inspira voa com o rouco som do boré. O Potyuara já tremeu ouvindo rugir na serra, mais forte que o ribombo do mar.

VI

Martim vae a passo e passo por entre os altos joaseiros que cercam a cabana do Pagé.

Era o tempo em que o doce aracaty chega do mar, e derrama a deliciosa frescura pelo arido sertão. A planta respira; um dôce arrepio irriça a verde coma da floresta.

O christão contempla o occaso do sol. A sombra, que desce dos montes e cobre o valle, penetra sua alma. Lembra-se do lugar onde nasceu, dos entes queridos que alli deixou. Sabe elle se tornará a vel-os algum dia?

Em tôrno carpe a natureza o dia que expira. Soluça a onda trepida e lacrimosa; geme a brisa na folhagem; o mesmo silencio anhela de afflicto.

Iracema parou em face do joven guerreiro:

--É a presença de Iracema que perturba a serenidade no rosto do extrangeiro?

Martim pousou brandos olhos na face da virgem:

--Não, filha de Araken: tua presença alegra, como a luz da manhã. Foi a lembrança da patria que trouxe a saudade ao coração presago.

--Uma noiva te espera?

O forasteiro desviou os olhos. Iracema dobrou a cabeça sobre a espadua, como a tenra palma da carnaúba, quando a chuva peneira na varsea.

--Ella não é mais doce do que Iracema, a virgem dos labios de mel; nem mais formosa! murmurou o extrangeiro.

--A flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue, e tronco onde se enlace. Iracema não vive n'alma de um guerreiro: nunca sentiu a frescura de seu sorriso.

Emmudeceram ambos, com os olhos no chão, escutando a palpitação dos seios que batiam oppressos.

A virgem falou emfim:

--A alegria voltará logo á alma do guerreiro branco; porque Iracema quer que elle veja antes da noite a noiva que o espera.

Martim sorriu do ingenuo desejo da filha do Pagé.

--Vem! disse a virgem.

Atravessaram o bosque e desceram ao valle. Onde morria a falda da collina o arvoredo era basto: densa abobada de folhagem verde-negra cobria o adyto agreste, reservado aos mysterios do rito barbaro.

Era de jurema o bosque sagrado. Em torno corriam os troncos rugosos da arvore de Tupan; dos galhos pendiam occultos pela rama escura os vasos do sacrificio: lastravam o chão as cinzas de extincto fogo, que servira á festa da ultima lua.

Antes de penetrar o recondito sitio, a virgem que conduzia o guerreiro pela mão, hesitou, inclinando o ouvido subtil aos suspiros da brisa. Todos os ligeiros rumores da mata tinham uma voz para a selvagem filha do sertão. Nada havia porém de suspeito no intenso respiro da floresta.

Iracema fez ao extrangeiro um gesto de espera e silencio, e desappareceu no mais sombrio do bosque. O sol ainda pairava suspenso no viso da serrania: e já noite profunda enchia aquella solidão.

Quando a virgem tornou, trazia n'uma folha gottas de verde extranho licor vasadas da igaçaba, que acabava de tirar do seio da terra. Apresentou ao guerreiro a taça agreste.

--Bebe!

Martim sentiu perpassar nos olhos o somno da morte: porém logo a luz inundou os seios d'alma: a fôrça exhuberou no coração. Reviveu os dias passados melhor do que os tinha vivido: fruiu a realidade de suas mais bellas esperanças.

Eil-o que volta á terra natal, abraça sua velha mãe, revê mais lindo e terno o anjo puro dos amores infantis.

Mas porque, mal de volta ao berço da patria, o joven guerreiro de novo abandona o tecto paterno e demanda o sertão?

Já atravessa as florestas; já chega aos campos do Ipú. Busca na selva a filha do Pagé. Segue o rastro ligeiro da virgem arisca, soltando á brisa com o crebro suspiro o doce nome:

--Iracema! Iracema!...

Já a alcança e cinge-lhe o braço pelo talhe esbelto.

Cedendo á meiga pressão, a virgem reclinou ao peito do guerreiro, e ficou alli tremula e palpitante como a timida perdiz, quando o terno companheiro lhe arrufa com o bico a macia penugem.

O labio do guerreiro suspirou mais uma vez o doce nome e soluçou, como se chamara outro labio amante. Iracema sentiu que sua alma se escapava para embeber-se no osculo ardente.

E a fronte reclinava, e a flôr do sorriso desabrochava já para deixar-se colher.

Subito a virgem tremeu; soltando-se rapida do braço que a cingia, travou do arco.

VII

Iracema passou entre as arvores, silenciosa como uma sombra: seu olhar scintillante coava entre as folhas, quaes frouxos raios de estrellas: ella escutava o silencio profundo da noite e aspirava as auras subtis que afflavam.

Parou. Uma sombra resvallava entre as ramas; e nas folhas crepitava um passo ligeiro, se não era o roer de algum insecto. A pouco e pouco o tenue rumor foi crescendo e a sombra avultou.

Era um guerreiro. De um salto a virgem estava em face d'elle, tremula de susto e mais de colera.

--Iracema! exclamou o guerreiro recuando.

--Anhanga turvou sem duvida o somno de Irapuam, que o trouxe perdido ao bosque da jurema, onde nenhum guerreiro penetra sem a vontade de Araken.

--Não foi Anhanga, mas a lembrança de Iracema, que turvou o somno do primeiro guerreiro tabajara. Irapuam desceu de seu ninho de aguia para seguir na varzea a garça do rio. As vozes da taba contaram ao ouvido do chefe que um extrangeiro era vindo á cabana de Araken.

A virgem estremeceu. O guerreiro cravou n'ella o olhar abrazado:

--O coração aqui no peito de Irapuam, ficou tigre. Pulou de raiva. Veio farejando a presa. O extrangeiro está no bosque, e Iracema o acompanhava. Quero beber-lhe o sangue todo: quando o sangue do guerreiro branco correr nas veias do chefe tabajara, talvez o ame a filha de Araken.

A pupilla negra da virgem scintillou na treva, e de seu labio borbulhou como gottas do leite caustico da euphorbia, um sorriso de despreso:

--Nunca Iracema daria seu seio, que o espirito de Tupan habita só, ao guerreiro mais vil dos guerreiros tabajaras! Torpe é o morcego porque foge da luz e bebe o sangue da victima adormecida!...

--Filha de Araken! Não assanha o jaguar! O nome de Irapuam voa mais longe que o goaná do lago, quando sente a chuva além das serras. Que o guerreiro branco venha, e o seio de Iracema se abra para o vencedor.

--O guerreiro branco é hospede de Araken. A paz o trouxe aos campos do Ipú, a paz o guarda. Quem offender o extrangeiro, offende o Pagé.

Rugiu de sanha o chefe tabajara:

--A raiva de Irapuam só ouve agora o grito da vingança. O extrangeiro vae morrer.

--A filha de Araken é mais forte que o chefe dos guerreiros, disse Iracema travando da inubia. Ella tem aqui a voz de Tupan, que chama o seu povo.

--Mas ella não chamará! respondeu o chefe escarnecendo.

--Não, porque Irapuam vae ser punido pela mão de Iracema. Seu primeiro passo, é o passo da morte.

A virgem retrahiu d'um salto o avanço que tomara, e vibrou o arco. O chefe cerrou ainda o punho do formidavel tacape; mas pela vez primeira sentio que pesava ao braço robusto. O golpe que devia ferir Iracema, ainda não alçado, já lhe trespassava, a elle proprio, o coração.

Conheceu quanto o varão forte, é pela sua mesma fortaleza, mais vencido das grandes paixões.

--A sombra de Iracema não esconderá sempre o extrangeiro á vingança de Irapuam. Vil é o guerreiro, que se deixa proteger por uma mulher.

Dizendo estas palavras, o chefe desappareceu entre as arvores. A virgem sempre alerta volveu para o christão adormecido; e velou o resto da noite a seu lado. As emoções recentes, que agitaram sua alma, a abriram inda mais á doce affeição, que iam filtrando n'ella os olhos do extrangeiro.

Desejava abrigal-o contra todo o perigo, recolhel-o em si como em um asylo impenetravel. Acompanhado o pensamento, seus braços cingiam a cabeça do guerreiro, e a apertavam ao seio.

Mas quando passou a alegria de vêr o extrangeiro salvo dos perigos da noite, entrou-a mais viva a inquietação, com a lembrança dos novos perigos que iam surgir.

--O amor de Iracema é como o vento dos areaes; mata a flôr das arvores: suspirou a virgem.

E afastou-se lentamente.

VIII

A alvorada abriu o dia e os olhos do guerreiro branco. A luz da manhã dissipou os sonhos da noite: e arrancou de sua alma a lembrança do que sonhara. Ficou apenas um vago sentir, como fica na moita o perfume do cacto que o vento da serra desfolha na madrugada.

Não sabia onde estava.

Á sahida do bosque sagrado encontrou Iracema: a virgem reclinava n'um tronco aspero do arvoredo: tinha os olhos no chão: o sangue fugira das faces; o coração lhe tremia nos labios, como gôtta de orvalho nas folhas do bambú.

Não tinha sorrisos, nem cores, a virgem indiana; não tem borbulhas, nem rosas, a acacia que o sol crestou; não tem azul, nem estrellas, a noite que enluctam os ventos.

--As flôres da matta já abriram aos raios do sol; as aves já cantaram: disse o guerreiro. Porque só Iracema curva a fronte e emmudece?

A filha do Pagé estremeceu. Assim estremece a verde palma, quando a haste fragil foi abalada; rorejam do espato as lagrimas da chuva; e os leques ciciam brandamente:

--O guerreiro Cauby vae chegar á taba de seus irmãos. O extrangeiro poderá partir com o sol que vem nascendo.

--Iracema quer vêr o extrangeiro fora dos campos dos Tabajaras; então a alegria voltará ao seu seio.

--A juruty, quando a arvore secca, abandona o ninho em que nasceu. Nunca mais a alegria voltará ao seio de Iracema: ella vae ficar, como o tronco nú, sem ramas, nem sombras.

Martim amparou o corpo tremulo da virgem; ella reclinou languida sobre o peito do guerreiro, como o tenro pampano da baunilha que enlaça o rijo galho do anjico.

O mancebo murmurou:

--Teu hospede fica, virgem dos olhos negros: elle fica para ver abrir em tuas faces a flôr da alegria e para colher, como a abelha, o mel de teus mimosos labios.

Iracema soltou-se dos braços do mancebo, e olhou-o com tristeza:

--Guerreiro branco, Iracema é filha do Pagé, e guarda o segredo da jurema. O guerreiro que possuisse a virgem de Tupan morreria.

--E Iracema?

--Pois que tu morrias!

Esta palavra foi sopro de tormenta. A cabeça do mancebo vergou e pendeu sobre o peito: mas logo se ergueu.

--Os guerreiros de meu sangue trazem a morte comsigo, filha dos Tabajaras. Não a temem para si, não a poupam para o inimigo. Mas nunca fóra do combate elles deixaram aberto o camocim da virgem na taba de seu hospede. A verdade falou pela bôcca de Iracema. O extrangeiro deve abandonar os campos dos Tabajaras.

--Deve: respondeu a virgem como um ecco.

Depois a sua voz suspirou:

--O mel dos labios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no tronco da guabiroba: tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azues e dos cabellos do sol guarda para seu guerreiro na taba dos brancos o mel da assucena.

Martim afastou-se rapido, e voltou, mas lentamente, A palavra tremia em seu labio:

--O extrangeiro partirá para que o socego volte ao seio da virgem.

--Tu levas a luz dos olhos de Iracema, e a flôr de sua alma.

Reboa longe na selva um clamor extranho. Os olhos do mancebo alongam-se.

--É o grito de alegria do guerreiro Cauby: disse a virgem. O irmão de Iracema annuncia a sua boa chegada aos campos dos Tabajaras.

--Filha de Araken, guia teu hospede á cabana. É tempo de partir.

Elles caminharam par a par como dois jovens cervos ao pôr do sol atravessam a capoeira recolhendo ao aprisco d'onde lhes traz a brisa um faro suspeito.

Quando passavam entre os joazeiros, viram que atravessava além o guerreiro Cauby, vergando os hombros robustos ao peso da caça. Iracema caminhou para elle.

O extrangeiro entrou só na cabana.

IX

O somno da manhã pousava nos olhos do Pagé como nevoas de bonança pairam ao romper do dia sobre as profundas cavernas da montanha.

Martim parou indeciso; mas o rumor de seu passo penetrou o ouvido do ancião, e abalou o corpo decrepito.

--Araken dorme! murmurou o guerreiro devolvendo o passo.

O velho ficou immovel:

--O Pagé dorme porque já Tupan voltou o rosto para a terra e a luz correu os máus espiritos da treva. Mas o somno é leve nos olhos de Araken, como o fumo do sapé no cocuruto da serra. Se o extrangeiro veiu para o Pagé, fale; seu ouvido escuta.

--O extrangeiro veiu, para te annunciar que parte.

--O hospede é senhor na cabana de Araken; todos os caminhos estão abertos para elle. Tupan o leve á taba dos seus.

Vieram Cauby e Iracema:

--Cauby voltou; disse o guerreiro tabajara. Traz a Araken o melhor da sua caça.

--O guerreiro Cauby é um grande caçador de montes e florestas. Os olhos de seu pae gostam de vêl-o.

O velho abriu as palpebras e cerrou-as logo:

--Filha de Araken, escolhe para teu hospede o presente da volta, e prepara o moquem da viagem. Se o extrangeiro precisa de guia, o guerreiro Cauby, senhor do caminho, o acompanhará.

O somno voltou aos olhos do Pagé.

Emquanto Cauby pendurava no fumeiro as peças de caça, Iracema colheu a sua alva rede de algodão com franjas de pennas, e accommodou-a dentro do urú de palha trançada.

Martim esperava na porta da cabana. A virgem veiu para elle:

--Guerreiro, que levas o somno de meus olhos, leva á minha rede tambem. Quando n'ella dormires, falem em tua alma os sonhos de Iracema.

--A tua rede, virgem dos Tabajaras, será minha companheira no deserto: venha embora o vento frio da noite, ella guardará para o extrangeiro o calor e o perfume do seio de Iracema.

Cauby sahiu para ir á sua cabana, que ainda não tinha visto depois da volta. Iracema foi preparar o moquem da viagem. Ficaram sós na cabana o Pagé que resonava, e o mancebo com a sua tristeza.

O sol transmontando, já começava a declinar para o occidente, quando o irmão de Iracema tornou da grande taba.

--O dia vae ficar triste, disse Cauby. A sombra já caminha para a noite. É tempo de partir.

A virgem pousou a mão de leve no punho da rêde de Araken.

--Elle vae! murmuraram os labios tremulos.

O Pagé levantou-se em pé no meio da cabana e accendeu o cachimbo. Elle e o mancebo trocaram a fumaça da despedida:

--Bem ido seja o hospede, como foi bem vindo á cabana de Araken.

O velho andou até á porta, para soltar ao vento uma espessa baforada de tabaco: quando o fumo a dissipou no ar, elle murmurou:

--Jurupary se esconda para deixar passar o hospede do Pagé.

Araken voltou á rêde e dormiu de novo. O mancebo tomou as suas armas mais pesadas que chegando suspendera ás varas da cabana e se dispôz a partir.

Adiante seguiu Cauby: a alguma distancia o extrangeiro: logo apóz d'elle Iracema.

Desceram a colina e entraram na matta sombria. O sabiá do sertão, mavioso cantor da tarde, escondido nas moitas espessas da ubaia, soltava já os preludios da suave endeixa.

A virgem suspirou:

--A tarde é a tristeza do sol. Os dias de Iracema vão ser longas tardes sem manhã, até que venha para ella a grande noite.

O mancebo voltara-se. Seu labio emmudeceu, mas os olhos falaram. Uma lagrima correu pela face guerreira, como as humidades que durante os ardores do estio transudam da escarpa dos rochedos.

Cauby avançando sempre, sumira-se entre a densa ramagem.

O seio da filha de Araken arfou, como o ésto da vaga que se franja de espuma, e soluçou. Mas sua alma, negra de tristura, teve ainda um pállido reflexo para illuminar a sêcca flôr das faces. Assim em noite escura vem um fogo fatuo luzir as brancas areias do taboleiro.

--Extrangeiro, toma o ultimo sorriso de Iracema... e foge!

A bôcca do guerreiro pousou na bôcca mimosa da virgem. Ficaram ambas assim unidas como dois fructos gemeos do araçá, que sahiram do seio da mesma flôr.

A voz de Cauby chamou o extrangeiro. Iracema abraçou para não cahir o tronco de uma palmeira.

X

Na cabana silenciosa medita o velho Pagé.

Iracema está apoiada no tronco rudo, que serve de esteio. Os grandes olhos negros, fitos nos recortes da floresta e rasos de pranto, parece estão n'aquelles olhares longos e tremulos enfiando e desfiando os aljofares das lagrimas, que rorejam as faces.

A ará, pousada no girau fronteiro, alonga para sua formosa senhora os verdes tristes olhos. Desde que o guerreiro branco pisou a terra dos Tabajaras, Iracema a esqueceu.