Iracema com uma noticia biographica do auctor
Part 7
Poty recebeu no baptismo o nome de Antonio Fillippe Camarão, que illustrou na guerra hollandeza. Seus serviços foram remunerados com o foro de fidalgo, a commenda de Christo e o cargo de capitão-mór dos indios.
Martim Soares Moreno chegou a mestre de campo e foi um dos excedentes cabos portuguezes que libertaram o Brazil da invasão hollandeza. O Ceará deve honrar sua memoria como de um varão prestante e seu verdadeiro fundador, pois que o primeiro povoado á foz do rio Jaguaribe foi apenas uma tentativa frustrada.
Este é o argumento historico da lenda; em notas especiaes se indicarão alguns outros subsidios recebidos dos chronistas do tempo.
Ha uma questão historica, relativa a este assumpto; fallo da patria do Camarão, que um escriptor pernambucano quiz pôr em duvida, tirando a gloria ao Ceará para a dar á sua provincia.
Este ponto aliás somente contestado nos tempos modernos pelo Sr. commendador Mello em suas _Biographias_, me parece sufficientemente elucidado já, depois da erudita carta do Sr. Basilio Quaresma Torreão, publicada no Mercantil n.° 26 de 26 de Janeiro de 1860, 2.ª pagina.
Entretanto farei sempre uma observação.
Em primeiro logar a tradicção oral é uma fonte importante da historia, e ás vezes a mais pura e verdadeira. Ora na provincia de Ceará em Sobral não só se referiam entre gente do povo noticias do Camarão, como existia lima velha mulher que se dizia d'elle sobrinha. Essa tradicção foi colhida por diversos escriptores, entre elles o conspicuo auctor da _Corographia Brasilica_.
O auctor do Valoroso Lucideno é dos antigos o unico que positivamente affirma ser Camarão filho de Pernambuco; mas além de encontrar essa asserção a versão de outros escriptores de nota, accresce que Berredo explica perfeitamente o dito d'aquelle escriptor, quando falla da expedição de Pero Coelho de Souza a Jaguaribe, _sitio d'aquelle tempo e tambem no de hoje da jurisdicção de Pernambuco_.
Outro ponto é necessario esclarecer para que não me censurem de infiel á verdade historica. É a nação de Jacaúna e Camarão que alguns pretendem ter sido a tabajara. Ha n'isso manifesto engano.
Em todas as chronicas se falla das tribus de Jacaúna e Camarão, como habitantes do littoral, e tanto que auxiliam a fundação do Ceará, como já haviam auxiliado a da Nova-Lisboa em Jaguaribe. Ora a nação, que habitava o littoral entre o Parnahyba e o Jaguaribe ou Rio-Grande, era a dos Pytiguaras, como attesta Gabriel Soares. Os Tabajaras. habitavam a serra de Ibyapa, e portanto o interior.
Como chefes dos Tabajaras são mencionados Mel Redondo no Ceará e Grão Deabo em Piauhy. Esses chefes foram sempre inimigos irreconciliaveis e rancorosos dos portuguezes, e alliados dos francezes do Maranhão, que penetraram até Ibyapaba. Jacaúna e Camarão são conhecidos pela sua alliança firme com os portuguezes.
Mas o que solve a questão é o seguinte texto. Lê-se nas _memorias diarias_ da guerra brasilica do conde de Pernambuco:--1834, Janeiro, 18: "Pelo bom procedimento com que havia servido A. Ph. Camarão o fez El-rei capitão-mór de todos os indios não somente de sua nação, que era _Pytiguar_, mas das outras residentes em varias aldeias."
Esta auctoridade, além de contemporanea, testemunhal, não pode ser recusada, especialmente quando se exprime tão positiva e intencionalmente a respeito do ponto duvidoso.
Pag. 19.--_Onde canta a jandaia._--Diz a tradicção que Ceará significa na lingua indigena--_canto de jandaia_.
Ayres do Casal, Corographia Brasilica, refere essa tradicção. O senador Pompêo, em seu excellente diccionario topographico, menciona uma opinião, nova para mim, que pretende vir _Siará_ da palavra _saia_-caça, em virtude da abundancia de caça que se encontrava nas margens do rio. Essa etymologia é forçada. Para designar quantidade, usava a lingua tupy da desinencia _iba_; a desinencia _ára_ junta aos verbos designa o sujeito que exercita a acção actual; junta aos nomes o que tem actualmente o objecto--exp. _Coatyara_--o que pinta.--_Jussara_--o que tem espinho.
Ceará é nome composto de _cemo_--cantar forte, clamar, e _ará_, pequena arara ou periquito. Essa é a etymologia verdadeira, e não só conforme com a tradicção, mas com as regras da lingua.
Pag. 20.--I. _Giráu._--Na jangada é uma especie de estrado onde accommodam os passageiros: e ás vezes o cobrem de palha. Em geral é qualquer estiva elevada do solo e suspensa em forquilhas.
II. _Iracema._--Em guarany significa labios de mel--de _ira_--mel e _tembe_ labios. _Tembe_ na composição altera-se em _ceme_, como na palavra _ceme-yba_.
III. _Graúna_ é o passaro conhecido de cor negra luzidia.--Seu nome vem por corrupção de _guira_ passaro e _una_, abreviação de _pixuna_ de preto.
IV. _Jaty._--Pequena abelha que fabrica delicioso mel.
Pag. 21.--I. _Ipú._--Chamam ainda hoje no Ceará certa qualidade de terra muito fertil, que fórma grandes corôas ou ilhas no meio dos taboleiros e sertões, e é de preferencia procurada para a cultura. D'ahi se deriva o nome d'essa comarca da provincia.
II. _Tabajaras._--Senhores das aldeias--de _taba_--aldeia--e--_jara_--senhor. Essa nação dominava o interior da provincia, especialmente a Serra da _Ibyapaba_.
III. _Oitycica._--Arvore frondosa, apreciada pela deliciosa frescura que derrama sua sombra.
IV. _Gará._--Ave palludal, muito conhecida pelo nome de _guará_. Penso eu que esse nome anda corrompido de sua verdadeira origem, que é--_ig_, agua e _ará_, arara; arara d'agua, pela bella côr vermelha.
V. _Ará._--periquito. Os indigenas como augmentativo usavam repetir a ultima sillaba da palavra e ás vezes toda a palavra--como _murémuré_. _Muré_, frauta--_murémuré_, grande frauta. _Arára_ vinha a ser pois o augmentativo de _ará_, e significaria a especie maior do genero.
VI. _Urú._--Cestinho que servia de cofre ás selvagens para guardar seus objectos de mais preço e estimação.
VII. _Crautá._--Bromelia vulgar, de que se tiram fibras tão ou mais finas que as do linho.
VIII. _Jussara._--Palmeira de grandes espinhos, das quaes se servem ainda hoje para dividir os fios da renda.
Pag. 22.--I. _Uiraçaba._--aljava--de _uira_ seta e a desinencia--_caba_--cousa propria.
II. _Quebrar a flecha._--Era entre os indigenas a maneira symbolica de estabelecerem a paz entre as diversas tribus, ou mesmo entre dois guerreiros inimigos. Desde já advertimos que não se extranhe a maneira porque o extrangeiro se exprime falando com os selvagens: ao seu perfeito conhecimento dos usos e lingua dos indigenas, e sobretudo a ter-se conformado com elles a ponto de deixar os trajos europeus e pintar-se, deveu Martim Soares Moreno a influencia que adquiriu entre os indios do Ceará.
Pag. 23.--I. _Ibyapaba._--Grande serra que se prolonga ao norte da provincia e a extrema com Piauhy. Significa terra aparada. O Dr. Martins em seu _glossario_ lhe attribue outra etymologia. _Iby_-terra--e _pabe_--tudo. A primeira porém tem a auctoridade de Vieira.
II. _Igaçaba._--de _ig_--agua e a desinencia _çaba_--cousa propria.
Pag. 24.--I. _Vieste._--A saudação usual da hospitalidade era esta:--_Erc ioubé_--tu vieste? _pa-aiotu_, vim sim. _Auge-be_, bem dito. Veja-se Lery, pag. 286.
II. _Jaguaribe._--maior rio da provincia; tirou o nome da quantidade de onças que povoavam suas margens. _Jaguar_--onça--_iba_--desinencia para exprimir copia, abundancia.
III. _Martim._--Da origem latina de seu nome, procedente de Marte, deduz o extrangeiro a significação que lhe dá.
IV. _Pytiguaras._--Grande nação de indios que habitava o littoral da provincia e estendia-se desde o Parnahyba até o Rio Grande do Norte. A orthographia do nome anda mui viciada nas differentes versões, pelo que se tornou difficil conhecer a etymologia.
_Iby_ significava terra; _iby-tira_ veiu a significar serra, ou terra alta. Aos valles chamavam os indigenas _iby-tira-cua_--cintura das montanhas. A desinencia _jara_ senhor, accrescentada, formou a palavra _Ibyticuara_--que por corrupção deu _Pytiguara_--senhores dos valles.
V. _Mau espirito da floresta._--Os indigenas chamavam a esses espiritos _caa-pora_, habitantes da mata, d'onde por corrupção veiu a palavra caipora, introduzida na lingua portugueza em sentido figurado.
Pag. 25.--I. _As mais bellas mulheres._--Este costume da hospitalidade americana é attestado pelos chronistas. A elle se attribue o bello rasgo de virtude de Anchieta, que para fortalecer a sua castidade, compunha nas praias de Iperoig o poema da _Virgindade de Maria_, cujos versos escrevia nas areias humidas, para melhor os polir.
II. _Jurema._--Arvore mean, de folhagem espessa; dá um fructo excessivamente amargo, de cheiro acre, do qual juntamente com as folhas e outros ingredientes preparavam os selvagens uma bebida, que tinha o effeito do hatchis, de produzir sonhos tão vivos e intensos, que a pessoa fruia n'elles melhor do que na realidade. A fabricação d'esse licor era um segredo, explorado pelos Pagés, em proveito de sua influencia. _Jurema_ é composto de _ju_-espinho e _rema_ cheiro desagradavel.
Pag. 26.--I. _Irapuam._--de _ira_-mel e _apuam_ redondo: é o nome dado a uma abelha virulenta e brava, por causa da forma redonda de sua colmeia. Por corrupção reduziu-se esse nome actualmente a _arapuá_. O guerreiro de que se trata aqui é o celebre Mel-redondo, assim chamado pelos chronistas do tempo, que traduziam seu nome ao pé da lettra. Mel-redondo, chefe dos Tabajaras da serra Ibyapaba, foi encarniçado inimigo dos portuguezes, e amigo dos francezes.
II. _Acaracú._--O nome do rio é _Acaracú_--de _acará_ garça--_co_--buraco, toca, ninho, e _y_--som dubio entre _i_ e _u_, que os portuguezes, ora exprimiam de um, ora de outro modo, significando _agua_. Rio do ninho das garças é pois a traducção de _Acaracú_; e o rio das garças a de _Acaraú_. Usou-se aqui da liberdade horaciana para evitar em uma obra litteraria, obra de gosto e artistica, um som aspero e ingrato. De resto quem sabe se o nome primitivo não foi realmente _Acaraú_, que se alterou como tantos outros, pela introducção da consoante?
III. _Estrella morta._--A estrella polar, por causa da sua immobilidade; orientavam-se por ella os selvagens durante a noite.
IV. _Boicininga._--é a cobra cascavel--de _boia_, cobra e _cininga_ chocalho.
V. _Oitibó._--é uma ave nocturna, especie de coruja.
Pag. 27.--I. _Espiritos da treva._--A esses espiritos chamavam os selvagens _curupira_, meninos máus--de _curumim_, menino, e _pira_ máu.
II. _Boré._--frauta de bambú,--o mesmo que muré.
III. _Ocara._--praça circular que ficava no centro da taba, cercada pela estacada, e para a qual abriam todas as casas. Composto de _oca_, casa e a desinencia _ara_, que tem; aquillo que tem a casa, ou onde a casa está.
IV. _Potyuara._--comedor de camarão; de _poty_--e _uara_. Nome que por desprêso davam os inimigos aos Pytiguaras, que habitavam as praias e viviam em grande parte de pesca.
Este nome dão alguns escriptores aos Pytiguaras. porque o receberam de seus inimigos.
Pag. 28.--I. _Pocema._--grande alarido que faziam os selvagens nas occasiões solemnes, como em começo de batalha, ou nas expansões da alegria; é palavra adoptada já na lingua portugueza e inserida no diccionario de Moraes. Vem de _po_-mão e _cemo_ clamar; clamor das mãos, porque os selvagens acompanhavam o vozear com o bater das palmas e das armas.
II. _Andira._--morcego: é em allusão a seu nome que Irapuam dirige logo palavras de despreso ao velho guerreiro.
Pag. 29.--_Aracaty._--Significava este nome bom tempo de _ara_ e _catú_. Os selvagens do sertão assim chamavam as brisas do mar que sopram regularmente ao cahir da tarde, e correndo pelo valle do Jaguaribe se derramam pelo interior e refrigeram da calma abrasadora do verão. D'ahi resultou chamar-se _Aracaty_ o logar de onde vinha a monção. Ainda hoje no Icó o nome é conservado á brisa da tarde, que sopra do mar.
Pag. 32.--I. _Afflar._--Sobre este verbo que introduzi na lingua portugueza do latim _afflo_, já escrevi o que entendi em nota de uma segunda edição da _Diva_ que brevemente ha de vir á luz.
II. _Anhanga._--Davam os indigenas este nome ao espirito do mal; compõe-se de _anho_ atrito, só e _anga_ alma. Espirito só, privado do corpo, phantasma.
Pag. 36.--I. _Camocim._--vaso onde encerravam os indigenas os corpos dos mortos e lhes servia de tumulo; outros dizem _camotim_, e talvez com melhor orthographia, porque se não me engano o nome corrupção da phrase _co_ buraco, _ambyra_ defuncto, _anhotim_ enterrar--buraco para enterrar o defuncto--_c'am'otim_. O nome dava-se tambem a qualquer pote.
II. _Guabiroba._--Deve ler-se _Andiroba_. Arvore que dá um azeite amargo.
III. _Cabellos do sol._--Em tupy _guaraciaba_. Assim chamavam aos europeus que tinham os cabellos louros.
Pag. 38.--I. _Moquem._--Do verbo _mocaém_ assar na labareda. Era a maneira por que os indigenas conservavam a caça para não apodrecer, quando a levavam em viagem. Nas cabanas a tinham ao fumeiro.
II. _Senhor do caminho._--assim chamavam os indigenas ao guia--de _py_, caminho e _guara_, senhor.
Pag. 39.--I. _O dia vae ficar triste._--Os tupys chamavam a tarde _carúca_, segundo o diccionario: Segundo Lery, _che caruc acy_, significa--"estou triste." Qual d'estes era o sentido figurado da palavra? Tiraram a imagem da tristeza, da sombra da tarde, ou a imagem do crepusculo do torvamento do espirito?
II. _Jurupary._--demonio; de _juroboca_ e _apara_ torto, aleijado. O bocca torta.
III. _Ubaia._--fructa conhecida da especie engenia. Significa fructa saudavel, de _uba_-fructa e _aia_ saudavel.
Pag. 41.--I. _Jandaia._--Este nome que anda escripto por diversas maneiras _nhendaia_, _nhandaia_ e em todas alterado é apenas um adjectivo qualificativo do substantivo _ará_. Deriva-se elle das palavras _nheng_--falar--_antan_, duro, forte, aspero, e _ara_ desinencia verbal que exprime o agente--_nh' ant' ara_; substituido o _t_ por _d_--e o _r_ por _i_, tornou-se nhandaia, d'onde jandaia, que se traduzirá por periquito grasnador.
Do canto d'esta ave, como se viu, é que vem o nome de Ceará, segundo a etymologia que lhe dá a tradicção.
II. _Inhuma._--Ave nocturna palamedea. A especie de que se fala aqui é a palamedea chavaria, que canta regularmente á meia noite. A orthographia melhor creio ser _anhuma_, talvez de _anho_, só, e _anum_, ave agoureira conhecida. Significaria então assim _anum solitario_, assim chamado pela tal ou qual semelhança do grito desagradavel.
Pag. 42.--_Inubia._--Trombeta de guerra. Os indigenas, segundo Lery, as tinham tão grandes que mediam um diametro na abertura.
Pag. 43.--_Guará._--Cão selvagem, lobo brazileiro. Provêm esta palavra do verbo _u_ comer, do qual se forma com o relativo _G_ e a desinencia _ara_ o verbal _g-u-ára_ comedor. A syllaba final longa é a particula propositiva _ã_ que serve para dar fôrça á palavra.
_G-u-ára-ã_ realmente comedor, voraz.
Pag. 44.--I. _Jiboia._--Cobra conhecida: de _gi_ machado e _boia_ cobra. O nome foi tirado da maneira porque a serpente lança o bote, semelhante ao golpe do machado; pode traduzir-se bem cobra de arremesso.
II. _Sucury._--A serpente gigante que habita nos grandes rios e engole um boi. De _Suu_, animal e _cury_ ou _curu_ roncador. Animal roncador, porque de feito o rouco da sucury é medonho.
III. _Se é que tens sangue e não mel._--Allusão que faz o velho Andira ao nome de Irapuam, o qual como se disse significa mel redondo.
IV. _Ouve seu trovão._--Todo esse episodio do rugido da terra é uma astucia, como usavam os pagés e os sacerdotes de toda a nação selvagem para imporem á imaginação do povo. A cabana estava assentada sobre um rochedo, onde havia uma galeria subterranea que communicava com a varzea por estreita abertura; Araken tivera o cuidado de tapar com grandes pedras as duas aberturas, para occultar a gruta dos guerreiros. N'essa occasião a fenda inferior estava aberta e o Pagé o sabia; abrindo a fenda superior, o ar encanou-se pelo antro espiral com estridor medonho, e de que pode dar uma idéa o sussurro dos caramujos.--O facto é pois natural; a apparencia sim maravilhosa.
Pag. 45.--_Abaty n'agua._--Abaty--arroz; Iracema serve-se da imagem do arroz que só viça no alagado, para exprimir sua alegria.
Pag. 53.--I. _Ubiratan._--Páo ferro, de _ubira_--páo e _antan_ duro.
II. _Maracajá._--Gato selvagem.
III. _Caetetus._--Porco do mato, especie de javali brazileiro. Do _caeté_--mato grande e virgem--e _suu_ caça, mudado o _s_ em _t_ na composição pela euphonia da lingua. Caça do mato virgem.
IV. _Jaguar._--Vimos que guará significa voraz. Jaguar tem inquestionavelmente a mesma etymologia; é o verbal _guara_ e o pronome _ja_ nós. Jaguar era pois para os indigenas todos os animaes que os devoravam. _Jaguareté_ o grande devorador.
V. _Anajê._--Gavião.
Pag. 55.--_Acauan_, ave inimiga das cobras--de _caa_ pão e _uan_--do verbo _u_, que come pão.
Pag. 56.--_Sahy._--Lindo passaro azul.
Pag. 57.--I. _Carioba._--Camisa de algodão, de _cary_ branco e _oba_ roupa. Tinham tambem a _arassoia_ de _arára_, e _oba_, vestido de pennas de arara.
II. _Á cintura da virgem._--Os indigenas chamavam a amante possuida _aguaçaba_, de _aba_, homem, _cua_, cintura, _çaba_ cousa propria; a mulher que o homem cinge, ou traz á cintura. Fica pois claro o pensamento de Iracema.
Pag. 59.--I. _Jacy._--A lua. De _já_--pronome, nós, e _cy_--mãe.--A lua exprimia o mez para os selvagens; e seu nascimento era sempre por elles festejado.
II. _Fogos da alegria._--Chamavam os selvagens _tory_, os fachos ou fogos; e _toryba_, a alegria, a festa, a grande copia dos fachos.
Pag. 60.--_Bucan._--Significa uma especie de grelha que os selvagens faziam para assar a caça; d'ahi vem o verbo francez _boucaner_. A palavra é da lingua tupy.
Pag. 63.--I. _Acoty._--cotia.
II. _Abaeté._--varão abalisado; de _aba_--homem e _eté_--forte, egregio.
Pag. 66.--I. _Jacaúna._--jacarandá preto--de _jaca_, abreviação de jacarandá, e _una_, preto. Este Jacaúna é o celebre chefe, amigo de Martim Soares Moreno.
II. _Coandú._--porco espinho.
III. _Seu collar de guerra._--O collar que os selvagens faziam dos dentes dos inimigos vencidos era um brazão e tropheu de valentia.
Pag. 68.--I. _Japy._--significa, nosso pé, de _ja_--pronome, nós e _py_ pé.
II. _Ibyapina._--De _Iby_-terra, e _apino_, tosquiar.
III. _Jatobá._--grande arvore real. O logar da scena é o sitio da hoje Villa Viçosa, onde diz a tradição ter nascido Camarão.
Pag. 71.--I. _Meruoca._ De _mera_, mosca, e _oca_, casa. Serra junto do Sobral, fertil em mantimentos.
II. _Uruburetama._--patria ou ninho de urubus: serra bastante alta.
III. _Mundahú._--rio muito tortuoso, que nasce na serra de Uruburetama. _Mandé_, cilada, e _hu_ rio.
IV. _Potengi._--rio que rega a cidade do Natal, d'onde era filho Soares Moreno.
Pag. 72.--I. _As saborosas trahiras._--É o rio Trahiry trinta leguas ao norte da capital. De _trahira_, peixe e _y_, rio. Hoje é povoação e districto de paz.
II. _Soipé._--paiz da caça. De _Sôo_ caça, e _ipé_ lugar onde. Diz-se hoje Siupé, rio e povoação pertencente a freguezia e termo da Fortaleza, situada á margem dos alagados chamados Jaguarassú na embocadura do rio.
III. _Pacoty._--Rio das pacobas. Nasce na serra de Baturité e lança-se no Oceano duas leguas ao norte de Aquirás.
IV. _Iguape._--Enseada distante duas leguas de Aquirás. De _Ig_, agua, _cua_, cintura e _ipé_, onde.
Pag. 73--I. _Mocoribe._--morro de areia na enseada do mesmo nome a uma legua da Fortaleza; diz-se hoje Mucuripe. Vem de _Corib_ alegrar e _mo_, particula ou abreviatura do verbo _monhang_ fazer, que se junta aos verbos neutros e mesmo activos para dar-lhes significação passiva--exp. _caneon_ affligir-se, _mocaneon_ fazer alguem afflicto.
II. _Rio que forma um braço de mar._--É o _Parnahyba_, rio de Piauhy. Vem de Pará. mar, _nhanhe_, correr e _hyba_, braço; braço corrente do mar. Geralmente se diz que _Pará_ significa rio e _Paraná_ mar; é inteiramente o contrario.
Pag. 74.--I. _Mayr._--cidade. Talvez provenha o nome de _mayr_ extrangeiro, e fosse applicado aos povoados dos brancos em opposição ás tabas dos indios.
II. _Brancos tapuias._--em tupy, _tapuitinga_. Nome que os Pytiguaras davam aos francezes para differença-los dos Tupinambás. _Tapuia_, significa barbaro, inimigo. De _taba_, aldeia e _puyr_, fugir,--os fugidos da aldeia.
Pag. 75.--I. _Batuireté._--narseja illustre, de _batuira_ e _eté_. Appellido que tomara o chefe pytiguara, e que na linguagem figurada valia tanto como valente nadador. É o nome de uma serra fertilissima e da comarca que ella occupa.
II. _Suas estrellas eram muitas._--Contavam os indigenas os annos pelo nascimento das pleiades no oriente; e tambem costumavam guardar uma castanha de cada estação de cajú. para marcar a idade.
III. _Jatobá._--arvore frondosa, talvez de _jetahy_, _oba_, folha e _a_, augmentativo; jetahy de grande copa. É nome de um rio e de uma serra em S. Quiteria.
Pag. 76.--I. _Quixeramobim._--segundo o Dr. Martins traduz-se por essa exclamação de saudade. Compõe-se de _Qui_, ah! _xere_, meus, _amôbinhé_, outros tempos.
II. _Caminho das garças._--Em tupy _Acarape_, povoação na freguezia de Baturité a nove leguas da capital.
III. _Maranguab._--A serra de Maranguape distante cinco leguas da capital, e notavel pela sua fertilidade e formosura. O nome indigena compõe-se de _maran_ guerrear e _coaub_ sabedor; _maran_ talvez seja abreviação de _maramonhang_, fazer guerra, se não é, como eu penso, o substantivo simples guerrear, de que se fez o verbo composto. O Dr. Martins traz etymologia diversa. _Mara_, arvore, _angai_, de nenhuma maneira, _guabe_, comer. Esta etymologia nem me parece propria ao objecto, que é uma serra, nem conforme com os preceitos da lingua.
IV. _Pirapora._--Rio do Maranguape, notavel pela frescura do suas aguas e excellencia dos banhos chamados da Pirapora, no lugar das cachoeiras. Provem o nome de _Pira_, peixe, pore, salto: salto do peixe.
Pag. 78.--_O gavião branco_--Batuireté chama assim o guerreiro branco, ao passo que trata o neto por narseja: elle prophetisa n'esse parallelo a destruição de sua raça pela raça branca.
Pag. 79. II. _Porangaba._--significa belleza. É uma lagoa distante da cidade uma legua em sitio aprasivel. Hoje a chamam Arronches: e nas suas margens está a decadente povoação de mesmo nome.
II. _Jererahu._--rio das marrecas; de _jerere_--ou irêrê, marreca, e _hu_ agua. Este lugar ainda hoje é notavel pela excellencia da fructa, com especialidade as bellas laranjas conhecidas por _laranjas de Jererahu_.
III. _Sapiranga._--lagoa no sitio Alagadiço Novo, a cerca de 2 leguas da capital. O nome indigena significa olhos vermelhos, de _ceça_, olhos e _piranga_ vermelhos. Esse mesmo nome dão usualmente no norte a certa ophtalmia.
IV. _Murytiapuá._--de _murity_--nome da palmeira mais vulgarmente conhecida por burity, e _apuam_, ilha. Logarejo no mesmo sitio referido.
V. _Aratanha._--de _arára_, ave e _tanha_, dente. Serra mui fertil e cultivada em continuação da de Maranguape.
VI. _Pacatuba._--de _paca_ e _tuba_, leito ou couto das pacas. Recente, mas importante povoação, em um bello valle da serra da Aratanha.
VII. _Guayúba._--De _goaia_, valle, _y_, agua, _jur_, vir, _be_ por onde; por onde vem as aguas do valle. Rio que nasce na serra da Aratanha e corta a povoação do mesmo nome a seis leguas da capital.
Pag. 81.--I. _Ambar._ As praias do Ceará eram n'esse tempo muito abundantes de ambar que o mar arrojava. Chamavam-lhe os indigenas, _Pira repoti_ esterco de peixe.
II. _Coatyá._--pintar. A historia menciona esse facto de Martim Soares Moreno se ter coatyado quando vivia entre os selvagens do Ceará.
Pag. 82.--_Coatyabo._--A desinencia _abo_ significa o objecto que soffreu a acção do verbo, e talvez provenha de _aba_, gente, creatura.
Pag. 90.--_Imbú._--Fructa da Serra do Araripe que não vem do littoral. É saborosa e semelhante ao cajá.