Part 9
Vinha então a tarde descendo, e a luz do crepusculo irradiava por toda a parte, tão melancolica e suave que, sem saber por que, a alma de Cyrino de repente se confrangeu.
Com assombro o encarava o lazaro. Deante delle se erguera quem lhe ia apontar o caminho da eterna proscripção. Dos seus labios ia cahir a sentença ultima, irremediavel, fatal!
Quanta angustia no olhar daquelle homem! Que pensamentos sinistros! Quanta dor!
Tambem ficara alli attonito, boquiaberto, á espera que a palavra de Cyrino lhe quebrasse o horroroso enleio.
--Então, disse este depois de breve pausa, que me quer o senhor?
--Doutor, balbuciou Garcia ... primeiro que tudo quero ... pagar-lhe; ... trouxe algum ... dinheiro ... mas, talvez ... seja ... pouco.
Interrompeu-o Cyrino:
--Não recebo dinheiro para tratar ... da sua molestia.
--Quer isto dizer, replicou com acabrunhamento Garcia, que ella não tem cura... Eu bem sabia, mas ... é tão duro ouvir sempre isso!... Olhe, o meu mal é de pouco ... está em principio. Quem sabe ... se o Sr. não conhecerá alguma herva?...
--Infelizmente, respondeu Cyrino, nem eu, nem ninguem conhece essa planta...
--Emfim!
E Garcia, fechando os olhos como que para concentrar as forças, continuou:
--Ah! doutor, eu sou um pobre homem ... velho já cansado... Porque não me veio a morte em lugar desta podridão que me está comendo as carnes?... Muito tempo a senti dentro de mim... Disfarcei, disfarcei, até ao dia em que minha neta ... a filha do meu coração ... a Jacyntha ... ella mesma, mostrou certo receio de me abraçar... Ah! senhor, quanto se soffre nesta vida!
E Garcia parou offegante, empallidecendo muito.
--Dê-me agua, exclamou elle, agua ... pelo amor de Deus!... Pudesse agora ... ser o meu dia. A minha garganta ... está que nem fogo!...
E agarrou-se aos arreios para não cahir no chão.
Cyrino correu a buscar agua.
--Onde hade ser? perguntou Pereira.
--Onde queira, respondeu o outro com pressa, veja que aquelle christão está soffrendo...
--Ah! leve a caneca de louça... Depois a quebraremos...
Com sofreguidão tomou o lazaro o vaso, bebeu de um trago e pareceu melhorar.
--Foi um vágado, disse reassumindo aos poucos a calma. Mas, como lhe contava, certeza tinha eu do mal. Agora, só quero saber uma coisa e vou-me de partida. Este mal ... pega, doutor?
--Pega, affirmou Cyrino com tristeza.
--E que me resta fazer?
--Pedir á Senhora Sant'Anna paciencia e a Nosso Senhor Jesus-Christo...
Garcia abanava a cabeça acabrunhado.
... que o proteja na sua vida de desgraças.
--Meu Deus, balbuciou o morphetico a meia voz, dae-me forças ... coragem para que eu faça o que devo fazer.
E, com subita resolução:
--Cumpra-se a vontade do Altissimo! exclamou emfim. Doutor, obrigado! O pobre lazaro hade pedir ao Todo Poderoso que neste mundo e no outro lhe pague as suas palavras de homem de letras... Adeus! Eu me vou para as terras de S. Paulo ... talvez me junte á gente da minha especie. Adeus...
E, a custo montando a cavallo, voltou-se para as pessoas que tinham de longe vindo assistir á consulta.
--Adeus, disse elle acenando com o chapéu, gente e patricios. Senhor Pereira, Sr. Coelho, mais senhores, adeus! Eu me _bóto_ de uma feita para _lá_ das _Parnahybas_[99]... Este sertão não me vê mais nunca!...
Acolheu o silencio essas palavras de eterna despedida.
Garcia então, esporeando com o calcanhar o ventre da cavalgadura, a passo tomou rumo da estrada geral e sumiu-se numa das voltas do caminho, quando ja vinha a noite estendendo o seu lugubre manto.
[Nota 99: Isto é, para lá do rio Paranahyba: _Para cá ou para lá das Parnahybas_ é phrase muito usada no sertão em que corre aquelle grande rio.]
CAPITULO XVIII
IDYLLIO
Mas, que luz é essa que alli apparece, naquella janella? A janella é o oriente, e Julieta o sol. Sobe, bello astro, sobe e mata de inveja a pallida lua.
SHAKESPEARE.--_Romeu e Julieta_, Acto II.
Entretanto, desde algum tempo, sentia-se Virginia agitada de mal desconhecido... Em sua fronte, não pousava mais a serenidade, nem o sorriso lhe pairava nos labios... Pensa ella na noite, na solidão, e fogo devorador a abraza toda.
B. DE SAINT-PIERRE.--_Paulo e Virginia._
Decorreram sem novidade dias e dias uns após outros; Cyrino diagnosticando e curando ou melhor, receitando; Meyer augmentando cada vez mais a sua bella collecção entomologica, sempre feitorisado por Pereira, que cautelosamente tratava de mantel-o no suspeitoso circulo da sua apertada vigilancia.
Confidente de todos os infundados e mal empregados receios era Cyrino.
O _allamão_, dizia o mineiro, não me deixa pôr pé em ramo verde, mas também trago-o vigiado que é um gosto... Se desconfiasse, teria medo até da sua sombra... Estou em brazas... Não sei porque não chega o Manecão Dóca... Quero arriar a carga no chão... Agora, mais do que nunca, devo casar _Nocencia_... Estas mulheres botam sal na moleira de um homem. Salta! E ainda isto tudo não é nada.
--Então espera muito breve o Manecão? perguntou o outro com anciedade.
--Não pode tardar ... por estes dois ou tres dias quando muito... Vem de Uberaba e sem duvida por lá arranjou todos os papeis... Dei a certidão do meu casamento ... a do baptismo da pequena ... e adeantei dinheiro para as despezas ... bem que elle refugasse meio vexado.
--Então está tudo decidido? perguntou Cyrino com vivacidade.
--Boa duvida!... Já lhe tenho dito mais de uma vez. Hoje é coisa de pedra e cal... Se até trato o Manecão de filho... A honra desta casa é tambem honra delle.
--Mas sua filha?
--Que tem?
--Gosta delle?
--Ora se!... Um homemzarrão ... desempenado. E, quando não gostasse é vontade minha, e está acabado. Para felicidade della e, como boa filha que é, não tem que piar... Estou, porem, certissimo de que o noivo lhe faz bater o coração ... tomara ver o _cujo_ chegado!
Já nesse tempo, como dissemos, Innocencia de todo se restabelecera, ainda que Cyrino tivesse feito quanto possivel render a enfermidade. Mas, quando o rubor da saúde voltou á assetinada cutis da sertaneja e o vigor ao esbelto corpo, não houve pretexto a que se apegar, e as entrevistas curtas e graves de medico foram cortadas, até mesmo para não desviar a attenção de Pereira da pessoa de Meyer.
Com o coração, pois, partido de dor, declarou que os seus cuidados e presença se tornavam completamente desnecessario.
Seguiram-se então semanas inteiras, sem que pudesse pôr os anciosos olhos na formosa namorada, e por tal modo se exacerbou a sua paixão que, para encobril-a e disfarçar a excitação nervosa, a falta de appetite e pallidez extrema, teve que recorrer a desculpas de molestia; cahiu realmente doente.
A incerteza em que se via, sem, pelo menos, saber se o seu affecto era ou não correspondido, dava-lhe accessos de violenta angustia, que a deshoras tocava ás raias da exasperação.
Uma noite, em que havia luar embaciado por ligeira bruma, tomou a sua afflicção tal violencia que elle decidiu fugir daquelle local de soffrimentos e incertezas, logo na manhã seguinte.
Assente uma vez nesta resolução, ergueu-se do leito em que jazia prostrado pelo mais cruel desalento e, com algum custo, sahiu para o terreiro, abrindo cautelosamente a porta da casa, afim de não acordar os companheiros de quarto. Uma vez fóra, sentou-se num tronco de madeiro o alli ao ar fresco e acariciador da madrugada, entrou com mais tranquillidade a pensar no caso.
Seria uma hora depois de meia noite.
Estavam os espaços como que illuminados por essa luz serena e fixa que irradia de um globo despolido; luz fosca, branda, sem intermittencias no brilho, sem scintillações, e diffundida igualmente por toda a atmosphera.
Haviam já os gallos cantado uma vez, e, ao longe, muito ao longe, de vez em quando, se ouvia o clamor das anhumas pócas.
Levantou-se de repente Cyrino.
Depois de alguma vacillação, deu uma volta por toda a habitação, pulando os cercados, e tomou o rumo do frondoso laranjal, a cuja espessa sombra se abrigou por algum tempo.
Achegou-se, em seguida, á cerca dos fundos da casa o parou no meio do pateo, olhando com assombro para uma janella aberta.
Um vulto alli estava!... Era o della; Innocencia... Não havia duvidar.
A principio, nenhum movimento fez; mas, depois, lentamente se foi retirando e aos poucos fechou o postigo.
Cyrino deu um só pulo e de leve, muito de leve, bateu apressadas pancadas na taboa da janella.
[Ilustração: Innocencia!... Innocencia!... chamou com voz sumida.]
--Innocencia!... Innocencia!... chamou com voz sumida, mas ardente e cheia de supplica.
Ninguem lhe respondeu.
--Innocencia, implorou o moço, olhe ... abra ... tenha pena de mim... Eu morro por sua causa...
Depois de breve tempo, que para Cyrino pareceu um seculo, descerrou-se a medo a janella, e appareceu a moça toda assustada, sem saber por que razão alli estava nem explicar tudo aquillo.
Parecia-lhe um sonho.
Quiz, entretanto, dar qualquer desculpa á situação e, fingindo-se admirada, perguntou muito baixinho e a balbuciar:
--Que vem ... mecê ... fazer aqui? ... já ... estou boa.
Da parte de fóra, agarrou-lhe Cyrino nas mãos.
--Oh! disse elle com fogo, doente estou eu agora... Sou eu que vou morrer ... porque você me enfeitiçou, e não acho remedio para o meu mal.
--Eu ... não, protestou Innocencia.
--Sim ... você que é uma mulher como nunca vi... Seus olhos me queimaram... Sinto fogo dentro de mim... Já não vivo ... o que só quero é vel-a ... é amal-a ... não conheço mais o que seja somno e, nesta semana, fiquei mais velho do que em muitos annos havia de ficar... E tudo, porque, Innocencia?
--Eu não sei, não, respondeu a pobresinha com ingenuidade.
--Porque eu amo ... amo-a, e soffro como um louco ... como um perdido...
--Ué, exclamou ella, pois amor é soffrimento?
--Amor é soffrimento, quando a gente não sabe se a paixão é acceita, quando se não vê quem se adora: amor é céu, quando se está como eu agora estou.
--E quando a gente está longe, perguntou ella, que se sente?...
--Sente-se uma dôr, cá dentro, que parece que se vae morrer... Tudo causa desgosto: só se pensa na pessoa a quem se quer, a todas as horas do dia e da noite no somno, na reza, quando se ora a Nossa-Senhora, sempre ella, ella, ella! ... o bem amado ... e...
--Oh! interrompeu a sertaneja com singeleza, então eu amo....
--Você? indagou Cyrino sofregamente.
--Se é como ... mecê diz...
--É ... é ... eu lhe juro!...
--Então ... eu amo, confirmou Innocencia.
--E a quem?... Diga: a quem?
Houve uma pausa, e a custo retrucou ella, ladeando a questão:
--A quem me ama.
--Ah! exclamou o joven, então é a mim ... é a mim, com certeza, porque ninguem neste mundo, ninguem, ouviu? é capaz de amal-a como eu... Nem seu pae ... nem sua mãe, se viva fosse... Deixe falar seu coração... Se quer ver-me fóra deste mundo ... diga que não sou eu, diga!...
--E como ia mecê morrer? atalhou ella com receio.
--Não falta pau para me enforcar, nem agua para me afogar.
--Deus nos livre! não fale nisso... Mas, porque é que mecê gosta tanto de mim? Mecê não é meu parente, nem primo, longe que seja, nem conhecido sequer... Eu _lhe_ vi apenas pouco tempo ... e tanto se agradou de mim?
--E com você ... não succede o mesmo? perguntou Cyrino.
--Commigo?
--Sim, com você... Porque é que está acordada a estas horas? Porque é que não pode dormir? ... que a cama lhe parece um brazeiro, como a mim tambem parece?... Porque pensa em alguem a todo o instante? Entretanto, esse alguem não é primo seu, longe que seja, nem conhecido sequer?...
--É verdade, confessou Innocencia com doce candura.
Depois quiz emendar a mão:
--Mas, quem lhe disse que vivo pensando em mecê?
--Innocencia, implorou o moço, não queira negar; vejo que sou amado...
--Sempre amar! observou ella, mais para si do que para quem a ouvia. No anno que já passou e por occasião da Sra Sant'Anna[100], aqui vieram umas parentas minhas e caçoaram commigo, porque eu não as entendia: tanto assim que uma dellas, a Nhã Tuca, me disse: «Deveras, mecê ainda não gostou de nenhum moço? E eu respondi: Não _assumpto_[101] o que mecê estão a _prosear_.» Aquillo era certo, e tão verdade como estar nosso Deus no paraiso... Hoje...
--E hoje?
--Hoje? repetiu a moça. Quem sabe se não era bem melhor não ter nunca gostado de ninguem?
--Isso não está na gente... É ordem lá de cima...
--Emfim, se for destino, que se cumpra.
Conservava-se Innocencia ainda um pouco arredada da janella, de modo que Cyrino, para lhe falar baixinho, tinha o corpo inclinado do lado de dentro. Segurava as mãos da namorada e puxava com doce violencia, quando mostrava querer afastar-se.
Era o ardente colloquio dos dois cortado de frequentes pausas, durante as quaes se embebiam reciprocos os olhares carregados de paixão.
--Deixa-me ver bem o teu rosto, dizia Cyrino a Innocencia. Para mim, e muito mais bello que a lua e tem mais brilho que o sol.
E, apezar de alguma resistencia, fraca embora, mas conscienciosa, que lhe foi opposta, conseguiu que a formosa rapariga se recostasse ao peitoril da janella.
--Amar, observou ella, deve ser coisa bem feia.
--Porque?
--Porque estou aqui e sinto tanto fogo no rosto!... Cá dentro me diz um palpite que é peccado mortal que faço ..
--Você tão pura! contestou Cyrino.
--Se alguem viesse agora e nos visse, eu morria de vergonha. Sr. Cyrino deixe-me ... vá-se embora! ... o Sr. me atirou algum quebranto ... aquella sua mézinha tinha alguma herva para mim tomar ... e me virar o juizo...
--Não, atalhou o mancebo com força, eu lhe juro! Pela alma de minha mãe ... o remedio não tinha nada!
--Então porque fiquei ... _ansim_, que me não conheço mais?... Se papae apparecesse ... não tinha o direito de me matar?...
Foi-se-lhe a voz tornando cada vez mais baixa e sumiu-se num golfão de lagrimas.
Atirou-se Cyrino de joelhos diante della.
--Innocencia, exclamou, pela salvação de minha alma lhe dou juramento: nada de mau fiz para prender o seu coração... Se você me ama, é porque Deus assim mandou... Sou um rapaz de bons costumes... Até hoje nunca tinha amado mulher alguma ... mas não sei como deixar de amar uma moça como você... Perdoe-me; se você soffre ... eu tambem padeço muito... Perdoe-me...
Alçara o mancebo um pouco a voz.
De repente Innocencia estremeceu.
--Não ouviu ruido? perguntou ella com terror.
--Não, respondeu Cyrino.
--Alguem acordou lá dentro...
--Pois ... então vá ver ... o que é ... e se não for nada, volte... Aqui a espero, escondido á sombra da parede...
Minutos depois, reappareceu a moça.
--Não vi nada, disse.
--Então foi abusão.
--É melhor que o Sr. se vá embora.
--Não, Innocencia, tenha pena de mim... Eu não poderei vel-a tão cedo e ... preciso conversar ... mesmo para arranjo da nossa vida... O Manecão não tarda...
--Ah! exclamou ella com sobresalto, então mecê sabe...
--Sei; e desgraçadamente, breve está elle batendo aqui...
--Eu bem dizia que o Sr. me _havéra_ de perder... Antes de o ter visto ... casar com aquelle homem, me agradava até... Era uma novidade ... porque elle lhe disse que me levava para a villa... Mas agora esta idéa me mette horror! Porque é que mecê mexeu commigo? Sou uma pobre menina, que não tem mãe desde creancinha... Não ha tanta moça nas cidades ... nos povoados?... Porque veio tirar o somno ... a vontade de viver a quem era ... tão alegre ... que até hoje não pensou em maldade ... e nunca fez damno a ninguem?
--E eu? replicou com energia Cyrino, pensa então que sou feliz?... Olhe bem uma coisa Innocencia. Digo-lhe isto deante de Deus: ou hei de casar com você ... ou dou cabo da vida... Quem arranjou tudo assim ... foi o meu caiporismo... Se eu tivesse passado aqui antes daquelle homem, que odeio, que quizera matar ... nada impediria que eu fosse hoje o ente mais feliz do mundo!... Mais feliz aqui neste sertão, do que o Imperador nos seus paços lá na côrte do Rio de Janeiro! Eu já lhe disse ... culpa não tive...
--Não ha nada que me possa salvar, atalhou a moça.
--Nada?... Talvez...
Soou nesse momento e repentinamente do lado do laranjal um assobio prolongado, agudissimo, e uma pedra, arremessada por mão mysteriosa e com muita força, sibilou nos ares e veiu bater na parede com surda pancada, passando rente á cabeça de Cyrino.
Deu Innocencia abafado grito de terror e fechou rapidamente a janella, ao passo que o mancebo, esgueirando-se com celeridade pela sombra, resoluto correu para o ponto donde presumia ter partido a pedra.
Não viu ninguem.
Por toda a parte, o ruido mysterioso e peculiar a uma noite calma de verão.
Percorreu em todos os sentidos o pomar, e só ouviu a bulha dos seus passos.
Afinal, de cansado, deixou o sitio e cautelosamente se dirigiu para o terreiro da frente.
Quando lá chegou, parou attonito.
O mesmo assobio, prolongado e finissimo, desta feita talvez mais estridente, feriu-lhe os ouvidos.
[Nota 100: Sc. da festa.]
[Nota 101: Não percebo.]
CAPITULO XIX
CALCULOS E ESPERANÇAS
Apezar, porém, de joven, apezar da violencia do amor que a prendia a Julião, sabia ella conter os movimentos do seu coração e desconfiar de si mesma.
WALTER SCOTT.--_Peveril do Pico._
Lisa--Comtanto que tenhas bastante resolução...
Lucinda--Que queres que eu faça contra a autoridade de um pae? Se elle for inexoravel aos meus pedidos?...
MOLIÈRE.--_O amor medico._
Durante os dias de estada nas terras de Pereira, as quaes não tinham limites nem visinhos dalli a muitas leguas, augmentou Meyer a sua interessante collecção com extraordinaria variedade de bichinhos e sobretudo borboletas.
Tal era a alegria de que se possuira por esse fausto motivo, que a cada momento a manifestava num tom de franqueza capaz de por si só convencer o mais descrente dos homens em questão de sinceridade.
--Sr. Pereira, dizia o naturalista, afianço-lhe que em parte alguma do Brazil estive ainda tão bem como em sua casa.
--Eu te entendo, maroto, rosnava o mineiro.
--Devéras!... Só o que sinto é que sua filha não nos apparecesse mais... Sinto muito, na verdade...
Sorriu-se Pereira com riso amarello e replicou, apertando os punhos de raiva:
--_Mochú_ sabe ... isto são costumes cá da terra. As mulheres não são feitas para...
--Para que? perguntou Meyer com pausa.
--Para _prosearem_ com qualquer um...
--Que é _prosearem_?
--É conversar, dar de lingua, explicou Cyrino.
--Obrigado, doutor, retorquiu Meyer, agradecendo mais aquella indicação philologica que foi immediatamente enriquecer o seu caderno de notas. _Prosear_ é conversar. Muito bem!... Pois é pena, Sr. Pereira, porque sua filha é uma bonita senhora!
--Nesta arapuca não caio eu, seu tratante... Hei-de _toda a vida_ andar com o olho em ti, murmurava o mineiro.
--É pena, confirmava Meyer duas e tres vezes ... é pena...
Por certo não era esta a linguagem mais propria para desvanecer as prevenções e receios de Pereira; ao envez, mais e mais recrescia a sua vigilancia sobre Meyer, o que proporcionava ao verdadeiro culpado a liberdade de que carecia para tornar a ver o mal-guardado thesouro.
Não foi todavia sem custo a nova conferencia.
Ficara a pobre menina tão impressionada com o final da primeira entrevista, que por alguns dias mal sahia do quarto.
Escrever-lhe Cyrino, era de todo inutil, por isso que ella nunca aprendera a ler: e, depois, qual o meio de lhe fazer chegar ás mãos qualquer papel ou recado?
Sobravam, portanto, razões para que o joven se ralasse de impaciencia e quasi desesperasse da sorte.
Passava as noites em claro, mettido no laranjal e procurando uma solução a tanta difficuldade; atordoavam-no ainda aquelles dois assobios que não podia explicar e sobretudo aquella pedrada tão bem dirigida, que por pouco talvez o houvesse estendido por terra.
N'uma dessas noites de anciedade, viu afinal reabrir-se a janella de Innocencia.
A pobre coitada, abrazada tambem de amor, queria respirar o ar da noite e beber na viração do sertão uma pouca de tranquilidade para sua alma não afeita ao tumultuar dos sentimentos que a agitavam e, quem sabe? verificar se por ahi não andava rondando aquelle que no seio lhe inoculara tamanho desassocego, impetos tão desconhecidos e violentos, superiores a todas as suas tentativas de resistencia.
Cyrino, rapido como uma seta, rapido como aquella pedra arrojada tão vigorosamente, achou-se ao pé da janella e cobriu de beijos as mãos da sua amada.
--O grito? balbuciou ella. Dois gritos ... e a pedrada... Que foi?
--Ah! não foi nada, respondeu apressadamente Cyrino; fui ver no laranjal ... era um macauán[102] O que pareceu pedrada era um noitibó[103] que frechou para mim e veio dar com a cabeça na parede.
--Devéras? perguntou ella incredula.
--Devéras. A principio tomei tambem um grande susto. Depois, verifiquei que não passava de miragem. De noite, a gente em tudo vê maravilhas... Para mim, a unica que vi era você, minha vida, meu anjo do céu...
Com este madrigal encetou Cyrino uma conversação como a da primeira noite, como a que balbuciam duas candidas almas na eterna e sempre nova declaração de amor, desde que Adão e Eva a trocaram, á sombra das maravilhosas arvores do Eden.
Mostrou se o moço receioso da rivalidade de Meyer. Riu-se ella e gracejou, com espirito e bondade, da figura do estrangeiro. Com toda a confiança, chegou a idear planos de risonho futuro:
--Agora, que sei o que é amar, direi a meu pae que já não quero o Manecão...
--E se elle insistir?
--Hei de chorar ... chorar muito...
--Lagrimas, muitas vezes, de nada servem.
--Mas tenho cá commigo outro recurso...
--Qual é? perguntou Cyrino.
--Morrer!...
--Não! Ha outros ... hei de dizer-lhe...
Tomou Innocencia ar grave e meio offendido.
--Escute, Cyrino, observou ella, nestes dias tenho aprendido muita coisa. Andava neste mundo e delle não conhecia maldade alguma... A paixão que tenho por mecê foi como uma luz que faiscou cá dentro de mim. Agora começo a enxergar melhor... Ninguem me disse nada; mas parece que a minha alma acordou para me avisar do que é bom e do que é mau... Sei que devo de ter medo de mecê, porque pode botar-me a perder... Não formo juizo como; mas a minha honra e a de toda a minha familia estão nas suas mãos...
--Innocencia, quiz interromper Cyrino.
--Deixe-me falar, deixe contar-lhe o que me enche o peito... Depois ficarei socegada... Sou filha dos sertões; nunca morei em povoados nunca li em livros, nem tive quem me ensinasse coisa alguma... Se eu o maguar, desculpe será sem querer...Lembra-me que, ha já um _tempão_, pararam aqui umas mulheres com uns homens e eu perguntei a papae porque é que elle não as mandava entrar cá para dentro, como é de costume com familias... O pae me respondeu:--Não, _Nocencia_, são mulheres perdidas, de vida alegre. Fiquei muito _assombrada_.--Mas, então, melhor; se são alegres hão-de divertir-me.--Aquillo é gente airada, sem vergonha, _secundou_ elle.--Tive tanto dó dellas que mecê não imagina. Depois fui espiar ... cahiam tontas no chão ... _pitavam_ e cantavam muito alto com modos tão feios; que me fizeram corar por ellas! E são os homens que fazem ficar _ansim_ as coitadas!... Antes morrer... Parece-me que Nossa-Senhora ha-de ter pena dos que amam ... mas desampara com certeza os que erram... Se não houver outro remedio, temos que nos lembrar que as almas, quando se acaba tudo neste mundo, vão pelos céus cheios de estrellas, passeando como num jardim... Se eu me finasse e mecê tambem, punha-se a minha alma a correr pelos ares, procurando a de mecê, procurando procurando, e então nós dois, juntinhos iamos viajando ora para aqui, ora para alli, ás vezes pelo carreiro de S. Thiago, ás vezes baixando a este ermo a ver onde é que botaram os nossos corpos... Não era tão bom?
Envolvida em sua pureza como num manto de bronze, entregava-se Innocencia com exaltamento e sem reserva á força da paixão. E essa natureza pudica e delicada a tal ponto dominava a Cyrino, que invencivel acanhamento o prendia ante a debil donzella, alheia a todos os mysterios da existencia.