Innocencia

Part 10

Chapter 103,762 wordsPublic domain

Por isso, ao inflammado mancebo não acudia a idéa de saltar por aquella janella e menos a de praticar qualquer acção desrespeitosa. Consumia o tempo em beijos nas mãos da namorada, em tagarelices de amor, protestos, juras, e illusões de futuro.

--Amanhã, dizia Cyrino, hei de com cuidado assumptar a seu pae ... falando no seu casamento ... depois ... hei de virar a conversa para mim...

--Papae, observou a menina, é muito bom, muito mesmo. Mas tenho um medo delle! Tem um genio, meu Deus!...

--Quanto a mim ... heide falar bem claro e explicito... O que quero, é que você me seja constante...

Mas do sentimento de temor, que sobresaltava Innocencia, tambem participava Cyrino. Por isso, chegado o dia, não ousava tocar na melindrosa questão, bem que as continuas queixas de Pereira contra Meyer lhe dessem ensejo mais ou menos favoravel para desembaraçadamente encetal-a. Com gosto adiava o momento decisivo e esperava perplexo qualquer incidente, que melhor servisse a seus planos.

Entretanto, apezar de se accumularem os dias sem que trouxessem modificação naquelle estado de coisas, doce esperança pairava no fundo do seu coração, consentindo-lhe planos de venturoso porvir e feliz desenlace ás duvidas e soffrimentos em que vivia.

[Nota 102: Especie de gavião.]

[Nota 103: Passaro da noite.]

CAPITULO XX

NOVAS HISTORIAS DE MEYER

Disse-lhe Sancho: Cada qual abra bem o olho e fique alerta, porque o diabo entrou na dansa e se lhe derem ensejo, ver-se-hão maravilhas.

Virae-vos em mel, e as moscas vos comerão.

CERVANTES.--_D. Quixote._ Cap. XLIX.

Uma occasião, de volta do trabalho diario, attingiu a habitual irritação de Pereira contra Meyer grande intensidade. Entrara cabisbaixo, sorumbatico e fez gesto a Cyrino de que precisava falar-lhe a sós. Dalli a pouco, saindo ambos, caminharam silenciosos pela estrada até a um regato que ficava a meio quarto de legua da casa.

--Que terá este homem hoje? dizia Cyrino comsigo mesmo. Talvez vá chegando o momento de tratar do assumpto.

Voltou-se de repente Pereira e, com voz alterada, prorompeu em exclamações:

--Sabe, Doutor, que não posso mais aturar esse _allamão_?... Aquillo é um _mandingueiro_, uma _çuçuarana_, vinda do inferno para me botar a perder!... Meu irmão ... meu irmão, que presente me fez você!...

--Mas, que houve? perguntou Cyrino.

--Olhe ... se não fosse aquella carta, e a palavra que dei ao maldito ... mil raios o partam, surucucú do diabo! potro melado!... já um bom balazio lhe teria varado os miolos...

--Que novidades ha então, Sr. Pereira? tornou a inquirir Cyrino.

--Vim mesmo até aqui para tirar este peso do coração...

--Mas...

--Sabe o senhor que aquelle _Mochú_ é peor que um tigre preto?... Parece homem á toa, um _punga_, incapaz de matar uma pulga, não é?... Pois aquillo é uma alma damnada ... um _seductor_...

--Sempre as suas desconfianças! observou Cyrino.

--Desconfianças, não: agora, certeza. Pois o que quer dizer o homem todo o dia ... estar a lembrar-se da menina é... Procurar trazel-a á conversa?--Como está sua filha? pergunta-me elle sempre.--Está boa, de uma vez para todas. E elle, _toda a vida_ a insistir... Isto me põe o sangue a ferver, mas vou-lhe respondendo com bom modo... Hoje, saiu-se o _cujo_ de seus cuidados e disse-me como quem _toma leite com farinha de milho_[104]:--Sua filha vae casar?--Vae, respondi-lhe todo trombudo.--Com quem? Tive vontade de lhe dizer: Não é da tua conta, _seu_ bisbilhoteiro, _seu_ biltre, e atacar-lhe uma cabeçada, mas, como é meu hospede, _secundei-lhe_ enfarruscado: Com um homem do sertão que hade amolar a faca na pelle da barriga do mariola que vier mexer com a mulher delle. O _allamão_ não se deu por achado e, com todo o semvergonhismo, me retrucou: Pois o senhor faz mal. A sua filha é muito mimosa e deveria casar com alguem da cidade.--Então, perdi a paciencia: Mochú, lhe disse, cada um manda em sua casa como entende; eu na minha, não quero ser _anarchizado_; elle, quando me viu fulo de raiva, pediu-me mil desculpas, contou-me muitas historias, isto, aquillo, aquillo outro, et cœtera e tal, que era para bem de minha filha e não sei mais o que, numa lingua que pouco entendi...

--Não fez bem, atalhou Cyrino.

--Boa duvida! Aquillo é uma alma damnada ... boa para as caldeiras de Pedro Botelho, um judeu ... emfim, um caçador de _anicetos_: está dito tudo!... Mas ainda não lhe contei o mais... Parece que hoje estava mesmo com o diabo no corpo... Metteu-se no matto perto da minha roça, onde eu trabalhava com os meus _captivos_, e lá fazia um barulhão a quebrar galhos e romper o cipoal como se fosse anta; de repente ouvi uma gritaria muito grande; era o tal Meyer com o camarada José Pinho a berrar como dois _minhocões_[105]. Corri a ver o que era e os achei muito contentes a olhar para uma barboleta grande, já fincada num páu de pita. O _allamão_ poz-se a pular como um cabrito.

É novo, me disse elle, é novo!--Novo o que, _Mochú_? Este bicho, ninguem o descobriu antes de mim! É coisa minha... Entendeu? E vou botar-lhe o nome de sua filha!... Quando ouvi aquillo, fiquei tão passado, que não pude engulir o cuspo da bocca... Vejam só ... o nome de _Nocencia_ numa bicharada!... Até parece mangação... Agora, quero saber do doutor o que devo fazer... Venho pelo menos desabafar... Não posso metter uma bala naquelle patife como bem merecia ... mas tambem é demais tel-o em casa ... é demais! Peço-lhe um conselho... Felizmente, sempre o trago arredado de casa, e a menina de nada desconfia; do contrario, como mulher que é, _havéra_ de me dar que fazer... Tambem não sei, porque é que o Manecão não chega ... só elle é quem havia de me livrar destes apuros... Uma vez que o tal _allamão_ visse a rapariga com o noivo, deixava-a socegada... Não acha? Olhe, palavra de honra, isto _ansim_ não é viver! Fui feito para dizer o que penso, tratar bem a todos ... mas estes modos que tenho agora, só Deus sabe quanto me custam... Até o meu serviço vae soffrendo, porque muitas vezes largo a roça e ponho-me a correr atraz dos bichinhos, só para não deixar de olho o tal marreco, em lugar de feitorar o trabalho dos negros... O meu fazendeiro é um diabo ruim e já velho... Ah! meu irmão, que carga você me pôz em cima das costas! Eu então, que não nasci para esconder o que sinto cá dentro!...

E Pereira, de tão attribulado que trazia o espirito deixou-se cahir num comoro de terra.

Cyrino, defronte delle, ficara de pé e pensativo.

Afinal, depois de breve duvida, decidiu tentar fortuna e encetar a grave questão que lhe importava a felicidade.

--Sr. Pereira, disse bastante commovido, acho que o allemão faz mal em andar batendo lingua em pessoa da sua familia, e dou razão ás suas inquietações...

--Ah! vosmecê é homem de confiança.

--Mas, continou o moço a custo e parando em cada palavra, penso que num ponto tem elle alguma razão... É quando ... lhe deu ... conselho ... que o senhor não casasse sua filha ... assim ... sem perguntar a ella ... se ... emfim não sei ... mas talvez o Manecão lhe não agrade...

Ergueu-se Pereira de um pulo e, approximando a face, repentinamente incendida de colera, junto ao rosto de Cyrino:

--O que? exclamou com voz de trovão, eu ... consultar minha filha?... Pedir-lhe licença ... para casal-a?... O senhor está doido?... Ou está mangando commigo?... Ai ... que tambem...

E vago lampejo de desconfiança lhe illuminou a chammejante pupilla.

Comprehendeu logo Cyrino a perigosa situação e, sem demora, tratou de desfazer a má impressão que produzira.

--Ah! disse com fingido riso, é verdade... Isto são costumes da cidade ... aqui, no sertão, ha outros modos de pensar... Desculpe-me, Sr. Pereira, este Meyer é que está a confundir-me todas as idéas. Pois eu julgo ... já que pede a minha opinião, que o senhor deve continuar a ter olho no estrangeiro ... e eu heide ajudal-o, quanto estiver nas minhas forças.

--Tambem agora, disse o mineiro depois de ligeira pausa, não hade ser por muito tempo... Ha mais de um mez que elle aqui pára e já me ... contou que breve seguia viagem para Camapuan... Desenganou-se afinal... O tal _meco_ não chegará até lá ... mas é o mesmo. Um destes dias, leva por ahi algum tiro para lhe botar juizo na cachola, ou alguma facada que lhe ponha as tripas á mostra... Nem sempre ha de ter cartas de irmão para sahir-se bem da _rascada_... O diabo o leve para longe!... Voltemos, Sr. Cyrino... Já demais temos deixado o bicharoco sósinho.

E encaminhou-se para a vivenda, acompanhado de Cyrino. Ia este desalentado; na realidade, bem rentes lhe ficavam cortadas as esperanças que haviam animado na tentativa de opposição ao projectado casamento da amada com o terrivel e fatal Manecão.

Ainda a meio do caminho, voltou-se Pereira e disse-lhe peremptoriamente:

--Deveras, Sr. Cyrino, aquellas suas palavras me buliram com o sangue todo... Ainda o sinto galopar nas veias... Que ideias esturdias!... Que lembrança! Ah ... a tal vida das cidades ... cruzes!

[Nota 104: Como quem faz cousa muito simples.]

[Nota 105: Animaes phantasticos do sertão que, segundo a crendice, dão gritos muito fortes. Acreditam alguns que sejam monstruosos sucurys.]

CAPITULO XXI

PAPILIO INNOCENTIA

Considerae a arte da composição das azas da borboleta: a regularidade das escamas, cobrindo-as, como se fossem pennas; a variedade das cambiantes côres; a tromba enrolada, com que suga o alimento no seio das flores: as antennas, orgãos delicados do tacto, que lhe corôam a cabeça cercada de uma rede admiravel de mais de mil e duzentos olhos...

BERNARDIN DE SAINT-PIERRE.--_Harmonias da natureza._

Meyer, que estava sentado na soleira da porta com as compridas pernas encolhidas, ergueu-se precipitadamente ao avistar Cyrino e correu ao seu encontro.

Trazia o coração no rosto, um coração cheio de alegria e triumpho.

--Oh, Sr. doutor, exclamou, todo risonho, venha, venha ver uma preciosidade ... uma descoberta ... especie nova ... não ha em parte alguma... Ouviu? Coisa assim vale um thesouro... E fui eu que o descobri!... Nem sequer _Júque_ me ajudou ... pois estava deitado e dormindo... Não é verdade, Sr. Pereira?

--Veja, murmurava o mineiro, que barulhada faz elle com o tal _aniceto_... Ao menos, se fosse um animal grande!

--É uma especie ... nova ... completamente nova! Mas já tem nome... Baptizei-a logo... Vou lhe mostrar... Espere um instante...

E, entrando na sala, voltou sem demora com uma caixinha quadrada de folha de Flandres, que trazia com toda a reverencia e cujo tampo abriu cuidadosamente.

Da propria garganta sahiu um grito de admiração, que Cyrino acompanhou, embora com menos enthusiasmo.

Pregada em larga taboa de pita, via-se formosa e grande borboleta, com as azas meio abertas, como que disposta a tomar vôo.

Eram essas azas de maravilhoso colorido; as superiores, do branco mais puro e luzidio; as de baixo, de um azul metallico de brilho vivissimo.

Dir-se-ia a combinação aprimorada dos dois mais bellos lepidopteros das mattas virgens do Rio de Janeiro, Laertes e Adonis, estes, azues como ceruleo cantinho do ceu, aquelles alvinitentes como petalas de magnolia recem-desabrochada.

Era sem contestação lindissimo especimen, verdadeiro capricho da esplendida natureza daquelles páramos. Tambem Meyer não tinha mão em si de contente.

--Este insecto, preleccionou elle como se o ouvissem dous profissionaes na materia, pertence á phalange das Heliconias. Denominei-a logo _Papilio Innocentia_, em honra á filha do Sr. Pereira, de quem tenho recebido tão bom tratamento. Tributo todo o respeito ao grande sabio Linneu--e Meyer levou a mão ao chapéu--mas a sua classificação já está um pouco velha. A classe é, pois, _Diurna_; a phalange, _Heliconia_, o genero, _Papilio_ e a especie, _Innocentia_, especie minha e cuja gloria ninguem mais me póde tirar... Daqui vou, hoje mesmo, officiar ao secretario perpetuo da Sociedade Entomologica de Magdeburgo, participando-lhe facto tão importante para mim e para a sabia Germania.

Dizia Meyer tudo isto com legitima ufania e lentidão dogmatica.

Depois, com mais volubilidade e apezar de tropeçar amiudadas vezes em palavras, o que, para commodidade dos leitores, temos quasi sempre deixado de indicar, continuou:

--Reparem, meus senhores, neste lepidoptero com os olhos cuidadosos da sciencia. Tem quatro pés caminhantes; as antennas de terminação comprida, e oval, cavada em forma de colher; os palpares maiores do que a cabeça e escamosos; tromba toda branca e labio quasi nullo. Não perdi nem sequer um pouco do seu pó, porque o pó, um só grão de pó, vale tanto como uma penna de passaro, e a comparação é perfeita, visto como cada uma destas escamas, á semelhança das pennas, é atravessada por uma trachéa, por onde circula o ar. Oh! que achado! proseguiu elle. Que triumpho para mim! A Sociedade Entomologica de Magdeburgo hade ficar muito orgulhosa... Sem duvida alguma, farão uma sessão solemne, extraordinaria... Mein Gott!... Estou que não posso de alegria... Tambem daqui, a tres ou quatro dias, vou-me embora desta casa ... ainda que cheio de saudades...

--Devéras? atalhou Pereira, vai partir?

--Sim, senhor. O meu itinerario é para Camapoan; depois, vou a Miranda e talvez Nioac... Heide subir até ao Coxim e ahi, ou embarco para Cuyabá no rio Taquary, ou sigo por terra pelo Pequiry.

--E o senhor volta para sua patria?

--Boa duvida!... Daqui a anno e meio, pretendo apresentar a minha collecção toda arranjada á Sociedade Entomologica...

--Homem, observou Pereira com intenção que seu hospede não podia nem de leve perceber, eu quizera já estar nesse dia. Daqui a anno e meio, que voltas terá dado o mundo?...

--Terá percorrido, respondeu Meyer gravemente, dezoito signos do Zodiaco.

--Pois bem, eu queria ver isso... Já me tarda esse dia...

--Quando elle chegar, continuou o allemão com sinceridade e um tanto commovido, heide lembrar-me com gratidão do tratamento que recebi ... nos sertões do Imperio ... e heide dizer ... bem alto ... que os brazileiros ... são felizes porque são morigerados e tem muito boa indole ... hospitaleiros como ninguem.

--Accrescente, interrompeu Pereira com algum azedume, que zelam com todo o cuidado a honra de suas familias.

Obedeceu docilmente Meyer e repetiu palavra por palavra:

--E zelam com todo o cuidado a honra de suas familias.

--Muito bem, replicou o mineiro, diga isso, e o Sr. terá dito uma verdade.

CAPITULO XXII

MEYER PARTE

Adeus, pois amigos; bella companhia! Aos lares distantes cada qual de nós, por caminhos diversos, deve um dia chegar.

CATULLO.--_Epigramma_ XLVI.

Não haviam descontinuado as visitas feitas a Cyrino por enfermos de muitas leguas em torno. Tão frequentes e teimosos eram os casos de sezões ou maleitas, que a porção de sulfato de quinina que trouxera em suas canastras estava toda esgotada, pelo que se vira levado a substituir esse medicamento sem tanta confiança, porem, por plantas verdes do campo ou hervas seccas, fornecidas por uns bolivianos que encontrara em Minas, vindos de Santa Cruz de la Sierra em peregrinação pelo interior do Brazil e a tratarem de doentes, sem Chernoviz em punho, nem aquelles resquicios de conhecimentos therapeuticos que ostentava o nosso doutor.

Entre os enfermos que o vinham diariamente procurar, alguns accusavam molestias cujas qualificações eram complicadas e estramboticas: assim declaravam-se salteados de _engasgue, espinhela cahida, mal de encalhe, tosse de cachorro, feridas brabas, almorreimas erysipelas_, ou até _assombração e mau-olhado_.

Quem se queixava de _engasgues_ era o capataz de uma fazenda chamada do Váu, distante umas boas cincoenta leguas.

--Sr. doutor, disse o enfermo, a minha vida é um continuo lidar de soffrimentos. Estou com este mal vae fazer cinco annos no S. João, por signal que me veio com uma grande dor na bocca do _estómbago_. Vezes ha que não posso engulir nada, sem beber muitos _gólos_ de agua, de maneira que me encharco todo e fico que mal me mexo de um lugar para outro.

--E a dor, perguntou Cyrino, ainda a sente?

--_Toda a vida_, respondeu o capataz... O que me _afflege_ mais é que ha comidas então que não me passam na guéla... É um fastio dos meus peccados... Boto uns pedacinhos no _bucho_ e parece-me que dentro tenho um bolo que me está a subir e descer pela garganta...

Receitou o medico umas doses de herva de marinheiro como emetico, e fez mais algumas prescripções que o enfermo ouviu com toda a religiosidade.

No estado de perturbação moral em que se achava o joven facultativo, natural é que fosse uma coisa por outra; mais importante, porem, era a fé que suas indicações incutiam, a fé, essa alavanca poderosa da medicina, esse contingente precioso que o espirito ministra aos ingentes esforços da natureza na sua constante lucta contra os principios morbidos.

O doente de _espinhela cahida_ accusava um peso muito forte e perenne no peito e a impossibilidade de levantar as mãos juntas á mesma altura.

Prescreveu-lhe Cyrino amargo do campo, genciana e quina, e ordenou-lhe certas cautelas firmadas na voz geral, mas com algum fundo de razão; verbi-gratia: engulir sempre a saliva e sobretudo deixar de fumar depois de comer.

O infeliz moço, ao passo que tratava de curar os outros, mais que ninguem precisava de quem nelle cuidasse, pelo menos da alma.

Via não só Meyer fazendo os seus preparativos de partida, e em vespera de deixal-o a sós com Pereira, podendo este descobrir afinal o engano em que havia laborado, como tambem a clinica quasi esgotada, aconselhando-lhe a conveniencia de transportar-se para outro ponto e continuar a interrompida jornada.

Tudo isto, e o amor a augmentar, a tirar-lhe todo o socego, a consumil-o a fogo lento...

Meyer, na realidade, desde o achado da sua magnifica borboleta, não pensava senão em partir.

--Oh! dizia elle, eu quizera estar já em Magdeburgo... Quantas leguas, _Mein Gott_!... _Papilio Innocentia_ ... a minha gloria! Que diz, Snr. Cyrino?...

--É verdade ... mais quem sabe se o senhor não deveria ficar mais tempo aqui?... Talvez achasse outra borboleta nova...

--Não, é impossivel... Era felicidade de mais... Além disso, o dinheiro não me havia de chegar.

--Oh! posso emprestar-lhe...

--Muito obrigado ... mas é de todo impossivel a minha estada aqui... Veja o senhor: tenho ainda que ir a Camapoan, a Miranda, a Cuyabá, para então voltar... E só me restão poucos mezes... A Sociedade Entomologica de Magdeburgo conta commigo na primavera do anno que vem....

Mettida uma vez essa idéa na cabeça, Meyer não deixou mais de falar na sua viagem um só instante e, para que a execução correspondesse ao promettido, mandou na tarde seguinte, José Pinho, o camarada, alçar cargas ás costas do burro, depois de as ter, elle proprio, arranjado e revistado com toda a cautela.

Julgou o carioca nesse momento dever lavrar um protesto:

--_Mochú_, disse elle, vae recomeçar com o seu modo de andar por essas estradas á noite... Afinal havemos todos de cahir nalguma _buraqueira_, eu, o senhor, o burro de carga, e os bichos; e não chegaremos, nem eu ao Rio de Janeiro, nem elles e o senhor á sua terra. Emfim, já estou cansado de o avisar.

No momento da partida, apresentava o naturalista aquelle mesmo aspecto da celebre noite da chegada: eram aquellas mesmas frasqueiras a tiracollo, aquelle mesmo ar tranquillo e bonachão com que viera, fóra de horas, pedir pousada á casa de Pereira.

Este, ao ver o hospede a cavallo e prestes a deixar para sempre a sua morada, sentiu-se possuido de alegria, mesclada, sem saber porque, com surpreza repentina e intima, de tal ou qual commoção. No fundo, achou de si para si desconfianças mal empregadas, e deixou-se levar pela sympathia que em todos incutia o caracter naturalmente inoffensivo e meigo do saxonio.

--Chegou, declarou Meyer, a hora da minha despedida.

E, sacudindo com força a mão e o braço do mineiro:

--Sr. Pereira, meu amigo, adeus! ... nunca mais nos havemos de ver ... mas hei de lembrar-me do senhor toda a vida... Quando eu estiver na minha patria, daqui a milhares e milhares de leguas ... pelo pensamento recordarei os dias felizes ... que aqui passei.

--Oh! Sr. Meyer, balbuciou Pereira.

--Sim, felizes, continuou Meyer com muita lentidão, felizes porque correram ... sem eu perceber que O tempo estava caminhando... De todo o Brazil fica em mim a lembrança ... mas desta sua casa ... essa lembrança é mais viva e mais forte.

Acompanhara o allemão o seu pensamento com accentuado gesto, acenando com o punho fechado para mostrar a lealdade daquellas impressões.

Voltando-se para Cyrino, acrescentou:

--Sr. doutor, as suas receitas estão todas marcadas no meu caderno... O senhor póde enganar-se ás vezes ... mas as suas intenções são sempre boas ... e isso basta para desculpal-o... Eu...

Interrompendo o que ia dizendo, ficou instantes a olhar para Cyrino e Pereira, que estavam igualmente silenciosos, e uma lagrima comprida deslizou-se-lhe pela face, sem que a physionomia mostrasse a menor alteração.

--Adeus! concluiu elle de repente.

--Boa viagem, Sr. Meyer, boa viagem, disse Pereira ajudando-o a montar a cavallo.

--Adeus! adeus ... repetiu elle.

E interpellando o camarada:

--_Júque_, vá na frente!... Toque pouco no burrinho... Nosso pouso é daqui a meia legua...

Deu Meyer então de redeas e caminhou a passo, logo após de José Pinho, este munido de cabeçudo cacete evidentemente hostil ás costas do cargueiro entregue aos seus cuidados.

[Ilustração: Lá vae o homem, exclamou Pereira.]

--Lá vae o homem, exclamou Pereira ao ver a tropinha pelas costas. É um allivio... Elle, coitado, não era mau ... mas não tinha modos... Safa, heide me lembrar para sempre do tal Sr. Meyer! Foi uma campanha... Ué... Olhe, Sr. Cyrino... não está elle de volta?... Teria esquecido alguma bugiganga?

Com effeito reapparecia a trote o allemão em carne e osso, como quem vinha procurar ou dizer coisa de importancia.

--Então que tem? perguntou Pereira adeantando-se e alçando a voz. Deixou algum trem? Daqui a pouco é _escurão_[106].

Meyer, no emtanto, ia chegando e de certa distancia entrou a explicar a razão da volta:

--Não deixei cousa alguma, Sr. Pereira. Tão somente faltei a um dever...

--Qual é? indagou o mineiro.

--Não me despedi de sua filha...

--Ah! replicou Pereira com vivacidade ... não era preciso ... tanto mais que ella ... esta dormindo ... meio adoentada... Ha pouco tinha muito peso na cabeça... Eu lhe heide dizer... Não se incommode...

--Pois então, observou Meyer com muita gravidade, diga-lhe que tem em mim um criado, em toda a parte onde esteja... O seu nome ficou para sempre na sciencia e a estima em que a tenho é grande... É uma moça muito bella ... digna de ser vista na Europa...

--Pois não, pois não, interrompeu Pereira, vá sem susto.

--Sim, eu me vou, adeus!

--Vá indo ... olhe que o sol _dobra_ de repente aquelle matto e a noite cae logo...

--Sim, sim, adeus, disse elle despedindo-se de uma vez.

E na estrada arêenta, á luz do astro que descambava, foi-se tornando comprida a mais e mais a sombra do bom Meyer, á medida que elle marchava atraz do seu camarada, do cargueiro e da collecção entomologica.

[Nota 106: Escurão é o finalisar do crepusculo.]

CAPITULO XXIII

A ULTIMA ENTREVISTA

Está a mascara da noite sobre meu rosto: a não ser ella, verias as minhas faces tintas do rubor virginal.

SHAKESPEARE.--_Romeu e Julieta_, Acto II.

Mais cresce a luz, mais augmentam as trevas das nossas desgraças.

IDEM, _Acto IV_.

Grave modificação trouxe a retirada de Meyer no systema de viver daquella vivenda, onde se agitava um dos problemas mais comezinhos da natureza moral, mas que alli apresentava cores algum tanto carregadas, senão já sombrias.