Innocencia

Part 11

Chapter 113,825 wordsPublic domain

Fora Pereira dormir no interior da casa, passando alli a maior parte do tempo. Assim os encontros dos dois apaixonados tornaram-se de todo impossiveis e, não tendo mais a attenção do mineiro o alvo que sempre collimara durante a estada do allemão, começava como era de prever, a voltar-se para Cyrino, a quem confessou ter tratado Meyer com injusta prevenção.

--Hoje, dizia o mineiro dóe-me a consciencia do modo porque desconfiei daquelle homem... Quem sabe se tudo que eu parafusei não foi abusão cá da cachola?... Sr. Cyrino, quando a gente entra a dar volta ao miolo ... é que vê que todos tem queda para malucos... Sim senhor!... Hoje estou convencido que o tal _allamão_ era bom e sincero... Olhou para a menina ... achou-a bonitinha ... e disse aquelle _despotismo_[107] de asneiras sem ver a mal... Em pessoa que não guarda o que pensa, é que os outros se podem fiar... Ás vezes o perigo vem donde nunca se esperou... Emfim não me arrependo muito de ter feito o que fiz... Recebi ... e tomei tento...

Amiudando-se estes e outros dizeres eguaes, deram que reflectir a Cyrino. De uma hora para outra comprehendeu que as vistas inquisitoriaes poderiam tornar a sua posição insustentavel.

Por emquanto, tratou de encontrar-se com Innocencia. Grandes eram as difficuldades; o meio unico, tentar novamente as entrevistas nocturnas; pelo que do laranjal não arredava pé, noites e noites inteiras, ficando alli com os olhos presos á janella da querida do coração.

Certa madrugada, viu afinal a sombra de Innocencia.

Achou-se num apice o mancebo junto della e agarrou-lhe com violencia nas mãos.

--Emfim, exclamou elle, eu a vejo.

--Meu pae, murmurou a moça com voz tão fraca que mal se ouvia, póde acordar...

--Não importa, replicou Cyrino desabrido, descubra-se tudo ... não posso mais viver assim...

--Chi! observou ella, cuidado!.. Se elle nos acha aqui, mata-nos logo... Olhe, vá-me esperar junto ao _corguinho_[108] para lá do laranjal ... daqui a nada vou ter com mecê... A porta está só encostada...

O moço fez signal que obedecia e sumiu-se incontinente na escuridão do pomar.

Aquella hora dava a lua de minguante alguma claridade á terra; entretanto, como que se presentia outra luz a preparar-se no céu para irradiar com subito esplendor e infundir animação e alegria á natureza adormecida. Nos galhos das laranjeiras, ouvia-se o pipilar de passaros prestes a despertar, um gorgeio intimo e aveludado de ave que cochila; e ao longe um sabiá mais madrugador desfiava melodias que o silencio harmoniosamente repercutia. Riscava-se o oriente de dubias linhas vermelhas, prenuncio mal percebivel da manhã; nos espaços pestanejavam as estrellas com brilho bastante amortecido, ao passo que fina e amarellada névoa empallecia o tenue segmento illuminado do argenteo astro.

Não era mais noite; mas ainda não era sequer a aurora.

Tão commovido se sentia Cyrino, que teve de sentar-se, emquanto esperava por Innocencia.

Esta não tardou: vinha vestida de uma saia de algodão grosseiro e, á cabeça, trazia uma grande manta da mesma fazenda cujas dobras as suas mãos prendiam junto ao corpo. Estava descalça, e a firmeza com que pisava o chão coberto de seixinhos e gravetos, mostrava que o habito lhe havia endurecido a planta dos pés, sem lhes alterar, comtudo, a primitiva elegancia e pequenez.

Parecia muito assustada, e, mau grado seu, dos olhos lhe rolavam lagrimas a fio.

O mancebo, apenas a avistou, correu-lhe ao encontro.

--Innocencia, exclamou elle notando um gesto de duvida, nada receie de mim... Heide respeita-la, como se fora uma santa... Não confia então em mim?...

--Sim! disse ella apressadamente. Por isso é que vim até cá... Entretanto, estou com a cara ardendo ... de vergonha...

E levando uma das mãos de Cyrino ás suas faces:

--Veja, Cyrino, como tenho o rosto em braza... Porque é que mecê veio bulir commigo?... Eu era uma moça socegada ... agora, se mecê não gostasse mais de mim ... eu morria...

--Deveras?

--Eu lhe juro... É mais facil apagarem-se de repente estas estrellas todas, do que eu deixar de amal-a...

--E Manecão? perguntou ella com terror.

--Oh! esse homem, sempre esse nome maldito!...

--Hade ser meu marido...

--Isso nunca, Innocencia... É impossivel!... E se fugissemos?... Olhe amanhã a estas mesmas horas ou mais cedo, trago para aqui dois bons animaes... Você monta num, eu noutro ... batemos para Sant'Anna e, a galope sempre, havemos de chegar a Uberaba ... onde acharemos um padre que nos case... Vamos, ouviu?

--E mecê havia de me estimar _toda a vida_?

--Sempre... Diga, sim ... diga pelo amor de Deus, e estamos salvos ... diga!...

--E meu pae, Cyrino? Que _havéra_ de ser?... Atirava-me a maldição ... eu ficava perdida ... uma mulher de má vida ... sem a benção de seu pae... Não ... mecê está me tentando... Não quero fugir... Antes a desgraça para toda a existencia ... mas fique eu sendo o que meu nome diz que sou... Já muito pecco, fazendo o que faço... Mecê é moço da cidade: não lhe custa enganar uma creatura como eu... Até...

--Pois bem, interrompeu Cyrino, você não quer?... não falemos mais nisso... Não heide querer, senão aquillo que achar bom... E se eu, por fim, me decidir a falar a seu pae?

--Deus nos livre! retorquiu ella aterrada. Pensei a principio que pudera ser, mas depois vi que era peior... Mecê não conhece o que é palavra de mineiro ... ferro quebra, ella não... Manecão hade ser genro delle...

--Quem sabe, Innocencia? Heide falar tanto ... pedir com tanta humildade...

--Ché, que esperança! ... de nada serviria...

--Então, que fazer? bradou o moço. A que Santa agarrar-nos? Porque é que o céu nos quer tanto mal?

E occultando a cabeça entre as mãos, desatou a chorar ruidosamente. Innocencia, por seu lado encostou a fronte ao hombro do amante, e ambos, unidos, choraram como duas creanças que eram.

Foi ella quem primeiro rompeu o silencio.

--Ah! meu Deus, se o padrinho quizesse!...

--Seu padrinho? perguntou Cyrino. Quem é? ... quem é elle?

--Um homem que mora para lá das Parnahybas, já nos terrenos Geraes.

--Onde?... É longe?...

Meio longe, meio perto... Mecê não conhece o _Pauda_[109]?

--Conheço... A 16 leguas do rio Paranahyba...

--Pois é ahi que padrinho _pára_[110]... A esquerda da fazenda do Pauda, n'umas terras de sesmaria...

--E como se chama elle?

--Antonio Cesario... Papae lhe deve favores de dinheiro e faz tudo quanto elle manda... Se dissesse uma palavra, Manecão havéra de ficar atrapalhado...

--Oh! exclamou Cyrino com confiança, estamos salvos então!... Amanhã mesmo, monto a cavallo e toco para lá... Daqui á villa são sete leguas... Até lá, umas dezesete... É um passeio... Chego ... conto-lhe tudo ... ponho-me de rastos aos seus pés ... e...

--Mas, interrompeu Innocencia, não lhe falle em mim, ouviu? Não lhe diga que tratou commigo ... que commigo _mapiou_... Estava tudo perdido... Invente umas historias ... faça-se de rico ... nem de leve deixe _assumptar_ que foi por meu _juizo_ que mecê bateu a porta delle... Hi! com gente desconfiada, é preciso saber _negacear_...

--Oh! meu Deus, disse Cyrino no auge da alegria, estamos salvos!... Não ha duvida... Vejo agora como hade tudo acontecer... Depois de um dia ou dois de parada na casa, _desembucho_ o negocio. O velho escreve uma carta a seu pae e, pelo menos, se não se arredar logo o Manecão ... ganha-se tempo... Eu já quizera estar montado na minha besta tordilha queimada, a bater a estrada por ahi _afóra_... Dois dias para ir, dois para voltar, dois ou tres de pousada... Com pouco mais de uma semana, estou de volta, trazendo ou a felicidade ou a _caipora_ de uma vez. Não! Tenho fé em Nossa Senhora da Abbadia... Ella nos ajudará ... e juntos havemos ainda de cumprir a promessa que já fiz...

--Que _permessa_ foi? perguntou Innocencia com curiosidade.

--Irmos nós daqui até a villa a pé, botar duas velas bentas no altar de Nossa Senhora.

--Sim confirmou a moça com fogo eu juro... Fosse até ao fim do mundo!...

--Oh! minha santa do Paraizo, exclamou o moço apertando-a de encontro ao peito, quanto você me ama!!

E assim abraçados, quedaram elles inconscientes, emquanto a aurora vinha clareando o firmamento e desferindo para a terra raios indecisos como que a sondarem a profundidade das trevas; em quanto os passaros chilreavam á surdina, preparando as gargantas para o matutino concerto; emquanto o orvalho subia da terra ao céu molhando o dorso das folhas das grandes arvores e suspendendo, ás das rasteiras plantinhas, gottas que scintillavam já como diamantes.

Ao longe, á beira de algum rio, as aracuans levantavam a sonora grita, e o macauan atirava aos ares os pios prolongados da aspera garganta.

--É dia, observou Innocencia desprendendo-se dos braços de Cyrino.

--Já?! exclamou este amuado.

--Meu Deus, e eu que tenho de ir até a casa ... vou-me embora...

--Então, partirei hoje mesmo, disse o moço.

--Sim...

--E na semana que vem, estou de volta...

--Pois bem... Leve com mecê esta certeza: a minha vida ou a minha morte depende do padrinho...

--A minha tambem, replicou o mancebo beijando com fervor as mãos de Innocencia...

Deixe-me ... deixe-me, implorou ella. Adeus, estou com um medo!... Felizmente ninguem me viu...

Nesse momento e, como que para responder á asseveração, de dentro do pomar partiu aquelle fino assobio que tanto assombrara os amantes na primeira das suas entrevistas.

Innocencia quasi cahiu por terra.

--Meu Deus! balbuciou ella, que agouro!... Quem sabe se não é gente?

Ao assobio seguiu-se uma especie de gargalhada, que gelou o sangue nas veias dos dois miseros.

Agarrou-se a menina a Cyrino.

É alma do outro mundo, murmurou ella persignando-se.

Não perdera o mancebo o sangue frio. Invocando a São Miguel, fez o signal da cruz na direcção dos quatro pontos cardeais; depois suspendeu a moça em seus braços e, transpondo a toda a pressa o pomar, foi depol-a junto á porta que estava entreaberta, naturalmente pelo vento.

Quase desmaiara Innocencia; entretanto, reunindo as forças pode entrar, e cautelosa correu o ferrolho interior.

Mais sossegado a esse respeito, voltou Cyrino ao laranjal e, como da primeira vez, pôz-se a percorrel-o em todos os sentidos, indagando, á nascente claridade do dia, se era ente humano ou fantasma quem delle parecia fazer joguete.

No momento em que passava por junto de uma laranjeira mais copada, viu de repente certa massa informe cair-lhe quasi na cabeça e no meio de folhas e ramos quebrados vir ao chão com surdo grito de angustia.

--Cruz! T'esconjuro! bradou o moço.

E, como uma visão, passou-lhe por perto uma creaturinha, desaparecendo logo entre os troncos das arvores.

Alli esteve Cyrino com os cabellos eriçados, os olhos fixos, os braços hirtos de terror, os labios seccos a tartamudear um exorcismo, e as pernas a tremer.

Uma voz, a certa distancia, arrancou-o desse espasmo.

Era Pereira; com a mão encostada á bocca, interpelava a um dos seus escravos.

--Faz fogo, José!... Se for alma do outro mundo ou lobisomem, a bala não pega... Se for gente, melhor.

E um tiro troou.

Sibilou uma bala aos ouvidos de Cyrino, indo cravar-se numa arvore proxima.

Por outra, não esperou elle. Com o favor da escuridão que ainda reinava, deslisou rapido e foi buscar a frente da casa, quando já iam acordando os camaradas.

Mal chegara á sala, appareceu-lhe Pereira á porta.

--Que foi isso? perguntou Cyrino compondo a physionomia.

--Lá sei, respondeu o mineiro. Uma matinada de gritos no laranjal, que parecia um inferno... A pequena ficou toda que parecia querer morrer de medo. Desconfio que a alma do collector[111] andou hoje me rondando a casa... Não seja presagio de mal... A Senhora Sant'Anna nos proteja...

--Pois eu cá dormi como um chumbo, disse Cyrino; acordei com um tiro...

--Não hade poder enfiar outra somneca; daqui a um nadinha, está o sol batendo no terreiro.

Com effeito, depressa caminhara o alvorecer, e debaixo daquellas vivas impressões acordaram aquelles que haviam conciliado o somno, na morada de Pereira.

[Nota 107: Grande quantidade.]

[Nota 108: Corregosinho.]

[Nota 109: Talvez seja o nome deste fazendeiro Padua. Entretanto é geralmente conhecido por Pauda.]

[Nota 110: Mora.]

[Nota 111: Esse collector, de que fala Pereira e cuja alma anda, no dizer dos sertanejos, vagando pelas solidões de Sant' Anna, era um empregado publico, que foi processado e preso depois de provada a concussão praticada n exercicio das suas funcções. Falleceu na prisão, e como o Estado lhe sequestrou todos os bens, cahiram em abandono a excellente casa e fazenda que formara a umas trinta leguas da villa.]

CAPITULO XXIV

A VILLA DE SANT'ANNA

Debaixo do céu ha uma cousa que nunca se viu: é uma cidade pequena sem falatorios, mentiras e bisbilhotices.

LAVERGNE.

Nesse mesmo dia, montou Cyrino a cavallo e despediu-se de Pereira por uma semana ou pouco mais dando por motivo de tão inesperada viagem, não só a necessidade de visitar alguns doentes mais afastados, senão tambem procurar, quer na villa, quer mesmo nos campos da provincia de Minas Geraes, uns remedios e simplices que lhe iam faltando.

--Daqui a um terno de dias estarei de volta, disse ao partir.

Desde a casa de Pereira até ao Albino Lata é tão ensombrada e agradavel a estrada, que essas tres leguas lhe foram muito faceis de vencer.

Alli, porem, começam campos dobrados e soalheiros que, num estirão de quatro leguas, até á villa de Sant'Anna tornam penosa a viagem, sobretudo quando são percorridas sob os ardentes raios do sol do meio-dia.

Exaltam-se e irritam-se os incommodos de espirito, no momento em que o physico começa a soffrer.

Quando Cyrino passou por aquellas campinas desabrigadas, abrazado de calor, desaminou completamente do exito da empreza a que se atirara. Tanta esperança o alvoraçara quando ia seguindo a vereda encoberta e amena, quanto desalento sentia agora; e, descoroçoado, deixava que deixava que o animal o fosse levando a passo vagaroso e como que identificado com a disposição de animo do cavalleiro.

--Que vou eu fazer? pensava quase alto... Como encetar aquella conversa?

Tamanha era a duvida que o salteava que chegou quase a blasfemar contra a amada do seu coração.

--Maldita a hora em que vi aquella mulher... Seguia eu sossegado o meu rumo ... botaram-me a perder os seus olhos!... Depois, exclamou contrito:

--Perdão, Innocencia! perdão, meu anjo! Estou a amaldiçoar a hora da minha felicidade... Eu, que sou homem, posso fugir ... deixar-te ... mas tu, amarrada à casa... Infeliz, fui o culpado!...

E, engolfado em dolorosa cogitação, alcançou a Vila de Sant'Anna do Paranahyba.

De longe é summamente pitoresco o primeiro aspecto da povoação.

Ponto terminal do sertão de Matto Grosso, assenta no abaulado dorso de um outeirozinho. O que lhe dá, porem, encanto particular para quem a vê de fora, é o extenso laranjal, coroado anualmente de milhares de aureos pomos, em cuja folhagem verde-escura se encravam as casas e ressalta a cruz da modesta igreja matriz.

Transpondo limpido regato e vencida pedregosa ladeira com casinholas de sapé á direita e á esquerda, chega-se á rua principal, que tem por mais grandioso edificio espaçosa casa de sobrado, de construção antiquada. Ornamenta-a uma varanda de ferro e um telhado que se adianta para a rua, como a querer abrigal-a em sua totalidade dos ardores do sol.

É ahi que mora o Major Martinho de Melo Taques, baixote, rechonchudo, corado.

Na sua loja de fazendas, ao rez do chão, reune-se a melhor gente da localidade, para ouvil-o dissertar sobre politica, ou narrar a guerra dos farrapos no Rio Grande do Sul e a vida que se leva na côrte do Rio de Janeiro, onde estivera pelos annos de 1838 a 1839.

De vez em quando, naquella silenciosa rua em que tão bem se estampa o typo melancolico de uma povoação acanhada e em decadencia, apparece uma ou outra tropa carregada, que levanta nuvens de pó vermelho e atrahe ás janellas rostos macilentos de mulheres, ou á porta creanças pallidas das febres do Rio Paranahyba e barrigudas de comerem terra.

Tambem aos domingos, à hora da missa, por alli cruzam mulheres velhas, embrulhadas em mantilhas, acompanhando outras mais mocinhas, que trajam capote comprido até aos pés e usam daquelles pentes andaluzes, de moda em tempos que já vão longe.

Atravessou Cyrino a vila, e passando por defronte do Sr. Taques saudou-o com a mão, e sem parar.

Estava o major, como de costume, sentado ao balcão, de chinelos, sem meias, e rodeado das pessoas gradas do lugar, a contar não só as proprias proezas, que muitas tinha aquelle estimavel cidadão, senão tambem as façanhas dos antigos sertanejos, historias que sabia na ponta da lingua.

--Lá vae o doutor, disse um dos presentes á palestra da loja.

--Oh Sr. Cyrino! interpelou o major correndo para a porta. Então que é isso? Por aqui?

--É verdade, respondeu Cyrino, e vou de passagem; tambem por pouco tempo; talvez nesses oito ou dez dias esteja de volta.

Tudo quanto enchia a salinha havia sahido para a rua, de modo que o moço ficou logo cercado. Recostavam-se uns quasi á anca do animal; afagavam-lhe outros a pá do pescoço ou brincavam com o freio.

Achava-se a curiosidade aguçada: era preciso dar-lhe pasto.

Comprehendeu o major o alcance da situação.

--Cada qual tem os seus negocios particulares, disse logo para começar; mas, se não ha segredo que quer dizer esta sua volta?

--Já devia estar bem longe de _acá_, observou um sujeito. Ha quasi dois meses que _parou_ aqui na _cidade_ e...

--Espere, interrompeu o vigario, não ha tal dois mezes. O doutor passou por esta rua ha um mez e vinte dois dias, ás oito horas da manhã.

--Pois bem, continuou o major, tinha tempo de sobra para estar já por bandas de Miranda...

--Isso, se fosse escoteiro, replicou Cyrino, reparem que levava cargas ... e, demais, viajava curando...

--É verdade! confirmou o collector (homem esguio, que trazia um chapéu muito alto e afunilado), não pensam nisso. O que querem é falar ... falar...

--Creio que o senhor não atira a mim, observou o vigario com ar rusguento.

--Quem em tal cuida, senhor padre? protestou logo o outro. Estou dizendo em geral... Em geral. Eu não...

--Mas, doutor, atalhou o major, onde esteve o senhor de molho este _tempão_ todo? ... nalguma fazenda?

Prometia ir longe o interrogatorio.

--Eu já estava quase perto do Sucuriú, disse Cyrino meio perturbado, no...

--Não é tão perto assim, objectou o vigario. Uma vez...

--Ouçamos, senhor padre, atalhou o collector denunciando rixa velha com o clerigo. O moço não disse que seja perto daqui...

Repetiu o major as palavras de Cyrino, acentuando-as de certo modo:

--Então o doutor já estava quasi perto do Sucuriú, não é?

--De facto. Alli encontrei uma pessoa que me devia, há mezes um dinheiro...

--Um dinheiro? perguntou o vigario. Uma pessoa?... Que pessoa? Quem será?

--Homem, quem poderá ser? indagaram a um tempo vozes sofregas.

Prosseguiu o major implacavel:

--Deixem o doutor explicar-se... Vocês fazem logo uma algazarra!...

Foi quasi a balbuciar que Cyrino procurou continuar:

--Sim ... certo tropeiro ... mandou ordem para _mim_ cobrar ... de um parente uma _bolada_... Tambem eu tinha que ... pagar outra pessoa ... que...

--Espere, espere, interrompeu o major, então o senhor veio receber dinheiro ou desembolsar? Não é uma e a mesma coisa...

--Por certo, apoiaram os circunstantes.

Cyrino fez repentina parada nas suas explicações.

--Tambem, disse com alguma volubilidade, muito breve estarei voltando cá. Tenho de ir para lá do rio...

--Vai até as Melancias? Indagou o collector ageitando o nome de um pouso para ver se acertava.

--Mais adiante, respondeu o moço. E vendo a impossibilidade de escapar de tão terrivel inquirição, mudou de tactica.

--Na volta, disse ele dirigindo ao major, hei de lhe comprar algumas fazendas...

Na volta, disse ele dirigindo ao major, hei de lhe comprar algumas fazendas...

--Já adivinhei, exclamou o vigario cortando a palavra a Cyrino, o doutor vae casar.

--Ora, chasquearam alguns, para que tanto segredo?... Ninguem lhe vae roubar a noiva!...

--Sobretudo quando as coisas têm de me vir parar ás mãos, ponderou o padre.

Por instante, deram o acanhamento e o silencio de Cyrino azo a muitas observações.

--Parabens! dizia um.

--Quem é essa feliz sertaneja? perguntaram outros.

--Juro-lhes, meus senhores, protestou o moço, não ha nada...

Prosseguiu o padre:

--Pois, se quer um conselho, apresse isso; de uma cajadada matarei dois coelhos... É o senhor e o Manecão.

--Na verdade, concordaram os presentes.

--Mas, onde se metteu elle? perguntou um delles.

--Ha pouco estava aqui...

--Quem? o Manecão?

--Sim...

--Alli vem elle! anunciou alguem

No fim da rua, apparecia, com efeito, um homem montado em fogoso cavallo que sofreava com firmeza e mão adestrada.

Era a personificação do capataz de tropa.

Cabellos compridos e emmaranhados, ar selvatico e sobranceiro, tez queimada e vigorosa musculatura constituiam um tipo que atraia de prompto a attenção.

Mettidos os pés numa especie de polainas de couro cru de veado, grandes chinelas de ferro, lenço vermelho atado ao pescoço, garruchas nos coldres da sella e chicote de cabo de osso em punho, tudo indicava o tropeiro no exercicio da sua lida.

--Nosso Senhor ... comvosco, disse ao chegar erguendo ligeiramente a aba do chapéu com a ponta do dedo indicador.

--Bons dias, Sr. Manecão, respondeu por todos o major, ou melhor, boas tardes. Já sei que desta feita vae de batida..

--Boa duvida, grasinou o vigario, vai ver a pequerrucha.

Sorriu-se o capataz com melancolia:

--Não é por isso Sr. vigario. Não me deixo _anarchizar_[112] por mulheres; mas, emfim a gente deve um dia deitar a poita... A vida é uma viagem...

Haviam Cyrino e Manecão ficado no meio dos curiosos.

Fitaram-se: um, indifferente e altivo no modo de encarar; outro, descorado meio tremulo.

--Este _cujo_ é o _cirurgião_? Perguntou à meia voz Manecão adernando no sellim para o lado do collector. A Cula[113] da venda me disse que tinha chegado... Tem-me cara de _enjoado_[114].

--Chi! retrucou o outro, mas _tem cabeça_[115]. Por ahi fez um _despotismo_ de curas.

Cyrino, notando que tratavam delle, comprimentou com um sorriso de amabilidade.

--Boa tarde, patricio.

--Ora viva, correspondeu o tropeiro em tom aspero.

E, olhando para o sol, acrescentou:

--Vejam lá o que é um homem estar como mulher ... a bater lingua... A tarde vem descendo, e muito tenho hoje que palmear... Minha gente, adeus... Sr. major, até mais ver... Sr. vigario, breve estou por cá...

Esporeou o animal o circulo abriu-se, e Manecão partiu em boa marcha.

Aproveitando, por seu turno, aquella sahida rapida, que rompera a cadeia dos que o rodeavam, apertou Cyrino a mão do major e tomou rumo do Rio Paranahyba, em cuja margem contava passar a noite.

Mal desapparecera, e choveram commentarios que nem saraiva.

--Notou o senhor, disse o vigario para o major, como esta mudado? ... todo _jururú_...

--Nem tanto, contrariou o collector, nem tanto...

O Sr. Taques, major e juiz de paz, tomou ar de profunda meditação.

--Hão-de os senhores ver, disse por fim levantando um dedo para o ar, que ahi ha dente de coelho...

Durante aquella noite e muitos dias subsequentes, repetiu a villa todas estas celebres palavras.

--Foi o major quem o disse, asseveravam convictos, alli há dente de coelho.

[Nota 112: Dominar, desmoralisar.]

[Nota 113: Modificação familiar de Clotilde.]

[Nota 114: Enjoado é qualitativo muito usado na provincia de Goyaz. Tem muitas accepções, desde engraçado, tolo, até impostor, vaidoso.]

[Nota 115: Tem muitos conhecimentos.]

CAPITULO XXV

A VIAGEM

Ás vezes sinto necessidade de morrer, como pessoas acordadas sentem necessidade de dormir.

MME DU DEFFAND.

Encantador paiz! Teu aspecto, teus solitarios bosques, ar puro e balsamico, tem o poder de dissipar toda a sorte de tristezas, menos a da perda da esperança.

CARLOTA SMITH.