Innocencia

Part 12

Chapter 123,762 wordsPublic domain

Cyrino em pouco mais de uma hora, transpôz a distancia da povoação ao rio. Tambem, na legua e quarto que até lá medeia, só ha de ruim o trecho em que fica a floresta que borda as margens da magestosa corrente.

Nessa matta, trazem os troncos das arvores vestigio das grandes enchentes; o terreno é lodacento e ennatado; centro de putrefacção vegetal donde irradiam os miasmas que, por occasião da retirada das aguas, se formam em dias de calor abrazador e suffocante.

Abundam alli coqueiros de stipite curto e folhuda corôa chamados _aucurys_, a que rodeiam numerosas lagoinhas de agua empoçada e coberta de limo.

Em nada é, pois, aprazivel o aspecto, e a lembrança de que alli imperam as temidas sezões faz que todo o viajante apresse a travessia de tão tristonhas paragens.

Ouve-se a curta distancia o ruido do rio que corre largo, claro e com rapidez.

Como duas verdes orlas reflectem-se no espelhado da superficie as elevadas margens, a cujo sopé moitas de _sarandys_, curvadas pelo esforço das aguas e num balancear continuo, produzem doce marulho.

Causa-nos involuntario scismar a contemplação de grande massa liquida a rolar, a rolar mansamente, tangida por força occulta.

Bem como a ondulação incessante e monotona do oceano agita a alma, assim tambem aquelle perpassar perenne, quasi silencioso, de uma corrente caudal, insensivelmente nos leva a meditar.

E quando o homem medita, torna-se triste.

Franca e espontanea é a alegria, como todo o facto repentino da natureza. A tristeza é uma vaga aspiração metaphysica, uma elação inquieta e quasi dolorosa acima da contingencia material.

Ninguem se prepara para ficar alegre. A melancolia, pelo contrario, aos poucos é que chega, como effeito de phenomenos psychologicos a encadear-se uns nos outros.

De que modo nasceu aquella enorme móle de aguas? Donde veiu? Para onde vae? Que mysterios encerra em seu seio?

Largo tempo ficou Cyrino a olhar para o rio. Em sua mente tumultuavam negros pensamentos.

Já se havia diffundido o crepusculo, e bandos folgazões de _quero-queros_ saudavam os ultimos raios de sol e despertavam os écos em descommunal gritaria. De vez em quando, passava algum pato selvagem, batendo pesadamente as azas; sobre as aguas, adejavam garças estirando e encolhendo o niveo collo e pombas, aos centos, cruzavam de margem a margem a buscar inquietas o pouso de querencia.

Foi a luz gradativamente morrendo no céu, seguida de perto pelas sombras; e o rio tomou aspecto uniforme; como se fora immensa lamina de prata não brunida.

--Emfim, conheci o Manecão! pensava Cyrino. E para esse é que reservam a minha gentil Innocencia?!... Bonito homem para qualquer ... para mim, para ella, horrendo monstro!... E como é forte!...

Digamol-o, sem por isso amesquinhar o nosso heróe, a idéa de força no rival acabrunhava-o.

--Se eu pudesse ... esmagava-o!... E que ar sombrio e desconfiado!... Meu Deus, dae-me coragem ... dae-me esperanças... Nossa Senhora da Abbadia!... Nosso Senhor da Canna Verde ... valei-me!...

E o mancebo, deante daquella natureza acabrunhadora a quem tanto importava a paixão que lhe atenazava o peito, como o insecto a chilrar debaixo da folha de humilde herva, cahiu de joelhos, orando com fervor ou, melhor, desfiando automaticamente as preces que sua mãe lhe havia, em pequeno, ensinado.

E o rio lá se ia sereno; e uma onça ao longe urrava, ou algum passaro da noite soltava gritos de susto, esvoaçando ás tontas.

* * * * * * *

Transpondo, na manhã seguinte, o rio Paranahyba, pisou Cyrino territorio de Minas-Geraes.

Depois de legua e meia em matta semelhante á da margem direita, abrem-se campos dobrados, um tanto crestados do sol, de aspecto pouco variado, mas abundantissimos em perdizes e codornas.

Tão preoccupado levava o moço o espirito que, nem sequer uma só vez, imitou o pio daquellas aves; distracção, a que aliás não se furta quem por lá viaja, tão instantes são os motivos de instigação.

Foi com impaciencia mais e mais crescente que percorreu as dezeseis leguas intermedias á fazenda do Padua.

Ia com o coração cheio de aprehensões e os olhos se lhe arazavam de lagrimas, de cada vez que contemplava o melancolico bority. Então pelo pensamento voava á casa de Innocencia. Tambem, alli junto ao corrego em cuja borda se déra a ultima entrevista, se erguia uma daquellas palmeiras, rainha dos sertões.

Que estaria fazendo a querida dos seus sonhos?

Que lhe aconteceria? E Manecão?! Já teria lá chegado?

Ao pensar nisto, augmentava-se-lhe a agitação e com vigor esporeava a cavalgadura.

Transformava-se para elle o caminho em dolorosa via, que numa vertiginosa carreira quizera vencer, mas que era preciso ir tragando pouso a pouso, ponto por ponto.

A magestosa impassibilidade da natureza exasperava-o.

Quando o homem soffre devéras, desejara nos raptos do allucinado orgulho, ver tudo derrocado pela furia dos temporaes, em harmonia com a tempestade que lhe vae no intimo.

--Meu Deus! murmurava Cyrino, tudo quanto me rodeia está tão alegre e é tão bello! Com tanta leveza voam os passaros: as flores são tão mimosas; os ribeirões tão claros ... tudo convida ao descanço ... só eu a padecer! Antes a morte... Quem me dera arrancar do coração este peso! esta certeza de uma desgraça immensa! Que é afinal o amor!... Daqui a annos talvez nem me lembre mais da pobre Innocencia... Estarei me atormentando á tôa... Oh não! Essa menina é a minha vida! é o meu sangue ... o meu pharol para os céus... Quem m'a rouba, mata-me de uma vez. Venha a morte ... fique ella para chorar por mim ... um dia contará como um homem soube amar!...

Levantara Cyrino a voz. De repente, deu um grande grito, como que o suffocava:

--Innocencia!... Innocencia!

E as sonoridades da solidão, doceis a qualquer ruido, repetiram aquelle adorado nome, como repetiam o uivo selvatico da çuçuarana, a nota plangente do sabiá ou a martellada metallica da araponga...

Como tudo, afinal, tem termo, alcançou Cyrino, no quarto dia, a casa de Antonio Cesario. Acolheu-o este com toda a amabilidade e franqueza.

CAPITULO XXVI

RECEPÇÃO CORDIAL

Assignalemos este dia entre os mais felizes; não se poupem amphoras; e, como Sabios, descanso não demos aos nossos pés.

HORACIO.--_Ode XXVI._

Em breve chegara Manecão á casa do futuro sogro.

Não é grande a distancia de Sant'Anna até lá, e entretanto o animal brioso e descansado que montava o tropeiro viera sempre estimulado do ferreo acicate.

Batia de impaciencia o coração do capataz, e a lembrança da formosa noiva que o esperava, enchia-o de desconhecido alvoroço. Tambem, por vezes, fugia-lhe do rosto o toque habitual de severidade, e tenue sorriso afastando a custo os densos bigodes, lhe pairava nos labios.

Acolheu-o Pereira com verdadeira explosão de alegria.

--Viva! viva! exclamou de longe acenando com os braços, seja bemvindo neste rancho... Ora, até que afinal!... Faltam _rojões_ para festejar a sua chegada... Que demora!... Pensei que não topava mais com o caminho da casa... _Nocencia_ vae pular de contente...

Emquanto o mineiro enfiava estas palavras quasi em gritos, apeou-se o sertanista que, de chapéu na mão, veiu pedir-lhe a benção.

--Deus o faça um santo, disse Pereira abençoando-o com fervor. Você não queria chegar...

--Como vae a dona? perguntou Manecão.

--Agora, muito bem. Teve sezões; mas já está de toda boa...

--E lembrou-se de mim?

--Olhe, que _enjoado_!... Pois se elle enfeitiça a gente... Eu mesmo só pensava em você... Quando estará por cá aquelle marreco? dizia eu commigo mesmo ... e botava uns olhos compridos por essa estrada a fora ... quando mais, mulher! Isto é um não acabar nunca de saudades. Mas, observou elle, estamos a bater lingua e não o faço entrar... _Agorinha_ mesmo, _Nocencia_ foi para o corrego... Desensilhe o _pingo_ e deixe-o por ahi...

Fez Manecão o que disse Pereira. Tirou os arreios, não de subito, mas com cautela e lentidão para que o animal, encalmado como estava, não ficasse _airado_: deixou sobre o lombo a manta e, apanhando um sabugo de milho, esfregou de vagar a anca e o pescoço.

Depois de dar termo áquelles cuidados, penetrou na casa fazendo soar ruidosamente as esporas, que pelas dimensões desproporcionadas o obrigavam a caminhar firmado nos dedos do pé e com a planta levantada.

O mineiro não cabia em si de contente.

--Então, está tudo arranjado? perguntou alegremente.

--Tudo. Os papeis já foram tirados... Tive que ir até Uberaba, e foi o que me atrazou... Quando mecê queira ... botamo-nos de partida para a Senhora Sant'Anna... Amanhã cá chegam os cavallos que comprei... Está falado o Lata ... o vigario avisado; só ... falta o dia...

--Nestes casos, quanto mais depressa melhor... Não acha?

--Certo que sim...

--Então, se quizer, daqui a dois domingos...

--Como queira... Eu, cá por mim... Bem sabe, isto de _casorios_, o que custa é ... tomar resolução ... depois ... deve-se _pegar_ na carreira... A rapariga está prompta?...

--Não sei ... hade estar... Vejo-a sempre cosendo... Quero ficar bem certo do dia, porque mando chamar a gente do Roberto... Afinal, é preciso matar a porcada e mandar buscar _restillo_[116]. Quando se casa uma filha e ... filha unica, as algibeiras devem ficar _velleiras_[117]... Já estão todos combinados ... é só dar o signal... Tudo se arma logo... Aqui, em frente da casa, faz-se um grande rancho... A latada para a _janta_ hade ser no oitão direito... Já encommendei de Sant'Anna alguns rojões, e o mestre Trabuco prometteu-me uns que deitam lagrimas... Depois, tiros de bacamarte e _ronqueiras_ hão de troar...

--Eu, interrompeu Manecão, mandei com a sua licença vir da _cidade_ duas duzias de garrafas de vinho da casa do major...

--Olaré! Você metteu-se em gastos!... Duas duzias de garrafas de vinho?

--Nhôr-sim...

--Pois essas, meu caro, hão de ser reguladinhas da _silva_... Para o vigario ... para o major ... o collector ... o professor ... emfim, gente de alguma representação, porque com ella conto, sem falar na _arraia miuda_. Isso ha de haver um _despotismo_. Quero que, dez dias antes da _fonçonata_ venha a comadre do Ricardo com o seu povaréu para prepararem sequilhos, tarecos, bróas, biscoitos de polvilho e _brevidades_[118]. Haverá regalo de _chicolate_[119] todas as manhãs... Você verá que desta festa falarão... E o _sapateado_ á noite? Os descantes?... Talvez se possa arranjar um _cururú_ valente...

--Mas, perguntou Manecão, qu'é de sua filha?

Riu-se Pereira.

--Maganão! não pensa noutra coisa, hen? Tambem fui _ansim_ ... cada qual tem o seu tempo... Isto é regra de Nosso-Senhor Jesus-Christo.

E, sahindo para o terreiro, gritou com força, fazendo das mãos buzina:

--_Nocencia_!... _Nocencia_!...

Não teve resposta.

--Coitadinha da pequena, disse elle, ha de saltar que nem veadinha, quando voltar do rio.

E accrescentou:

--Já que ella não vem ... entremos. Você é de casa: tome por cá e chegue até o meu quarto... Rede e pelles macias não faltam.

Ao dizer estas palavras, Pereira bateu amigavelmente no hombro de Manecão e fel-o seguir para o lanço do fundo da casa.

[Nota 116: _Restillo_ é a aguardente distillada. No interior empregam-se estas palavras como synonymas.]

[Nota 117: _Velleiras_, isto é, faceis no abrir.]

[Nota 118: Especie de pão de milho em que entram claras de ovo.]

[Nota 119: _Chicolate_ é café com leite e ovos batidos.]

CAPITULO XXXVII

SCENAS INTIMAS

Santa Maria, advogada nossa, ouvi nossos rogos. Virgem pura, ante Vós se prostra uma infeliz donzella.

WALTER SCOTT.--_Os dois desposados._

Descrever o abalo que soffreu Innocencia ao dar, cara a cara, com Manecão fora impossivel. Debuxaram-se-lhe tão vivos na physionomia o espanto e o terror, que o reparo, não só da parte do noivo, como do proprio pae habitualmente tão despreoccupado, foi repentino.

--Que tem você? perguntou Pereira apressadamente.

--Homem, a modos, observou Manecão com tristeza, que metto medo á senhora dona...

Batiam de commoção os queixos da pobresinha; nervoso estremecimento balanceava-lhe o corpo todo.

A ella se achegou o mineiro e pegou-lhe no braço.

--Mas você não tem febre?... Que é isto, rapariga de Deus?

Depois, meio risonho e voltando-se para Manecão:

--Já sei o que é... Ficou toda fóra de si ... vendo o que não contava ver... Vamos, _Nocencia_, deixe-se de tolices.

--Eu quero, murmurou ella, voltar para o meu quarto.

E encostando-se a parede, com passo vacillante se encaminhou para dentro.

Ficara sombrio o capataz.

De sobrecenho carregado, recostara-se á mesa e fôra, com a vista, seguindo aquella a quem já chamava esposa.

Sentou-se defronte delle Pereira com ar de admiração.

--E que tal? exclamou por fim... Ninguem pode contar com mulheres, _iche_!

Nada retorquiu o outro.

--Sua filha, indagou elle de repente com voz muito arrastada e parando a cada palavra, viu alguem?

Descorou o mineiro e quasi a balbuciar.

--Não ... isto é viu ... mas todos os dias ... ella vê gente... Porque me perguntas isso?

--Por nada...

--Não:... explique-se... Você faz assim uma pergunta que me deixa um pouco ... _anarchizado_. Este negocio é muito, muito serio. Dei-lhe palavra de honra que minha filha _havéra_ de ser sua mulher ... a _cidade_ já sabe e ... commigo não quero historias... É o que lhe digo.

--Está bom, replicou elle, nada de precipitações. _Toda a vida_ fui _ansim_... Já volto: vou ver onde _pára_ o meu cavallo.

E sahiu, deixando Pereira entregue a encontradas supposições

Decorreram dias sem que os dois tocassem mais no assumpto que lhes moia o coração. Ambos, calmos na apparencia, viviam vida commum, visitavam as plantações, comiam juntos, caçavam, e só se separavam a hora de dormir, quando o mineiro ia para dentro e Manecão para a sala dos hospedes.

Innocencia não apparecia.

Mal sahia do quarto, pretextando recahida de sezões: entretanto, não era o seu corpo o doente, não; a sua alma, sim, essa soffria morte e paixão; e amargas lagrimas, sobretudo a noite, lhe inundavam o rosto.

--Meu Deus, exclamava ella, que será de mim? Nossa-Senhora da Guia me soccorra. Que pode uma infeliz rapariga dos sertões contra tanta desgraça? Eu vivia tão socegada n'este retiro, amparada por meu pae ... que agora tanto medo me mette... Deus do ceu, piedade, piedade.

E de joelhos, deante de tosco oratorio allumiado por esguias velas de cera, orava com fervor, balbuciando as preces que costumava recitar antes de se deitar.

Uma noite, disse ella:

--Quizera uma reza que me enchesse mais o coração ... que mais me alliviasse o peso da agonia de hoje...

E, como levada de inspiração, prostrou-se murmurando:

--_Minha Nossa Senhora_ mãe da Virgem que nunca peccou, ide deante de Deus. Pedi-lhe que tenha pena de mim ... que não me deixe assim nesta dor cá de dentro tão cruel. Estendei a vossa mão sobre mim. Se é crime amar a Cyrino, mandai-me a morte. Que culpa tenho eu do que me succede? Rezei tanto, para não gostar deste homem! Tudo ... tudo ... foi inutil! Porque então este supplicio do todos os momentos? Nem sequer tem allivio no somno? Sempre elle ... elle!

Ás vezes, sentia Innocencia em si impetos de resistencia: era a natureza do pae que acordava, natureza forte, teimosa.

--Hei de ir, dizia então com olhos a chamejar, á igreja, mas de rastos! No rosto do padre; gritarei: Não, não!... Matem-me... mas eu não quero...

Quando a lembrança de Cyrino se lhe apresentava mais viva, estorcia-se de desespero. A paixão punha-lhe o peito em fogo...

--Que é isto, Santo Deus? Aquelle homem me teria botado um mau olhado? Cyrino, Cyrino volta, vem tomar-me ... leva-me! ... eu morro! Sou tua, só tua ... de mais ninguem.

E cahia prostrada no leito, sacudida por arrepios nervosos.

Um dia, entrou inesperadamente Pereira e achou-a toda lacrymosa.

Vinha sereno, mas com ar decidido.

--Que tem você, menina, perguntou elle, meio terno, de alguns dias para cá?

Innocencia encolheu-se toda como uma pombinha que se sente agarrar.

Puxou-a brandamente o pae e fel-a sentar no seu collo.

--Vamos, que é isto, _Nocencia_? Porque se _socou_ assim no quarto?... Manecão lá fóra a toda a hora está perguntando por você ... isto não é bonito... É, ou não, o seu noivo?

Redobraram as lagrymas.

--Mulher não deve atirar-se á cara dos homens ... mas também é bom não se _canhar_ assim ... É de _enjoada_... Um marido quasi, como elle já é...

De repente o pranto de Innocencia cessou.

Desvencilhou-se dos braços do pae e, de pé deante delle, encarou-o com resolução:

--Papae sabe porque tudo isto?

--Sim...

--É porque eu ... não devo...

--Não devo o que?

--Casar.

Arregalou Pereira os olhos e de espanto abriu a boca.

--Que? perguntou elle elevando muito a voz. Comprehendeu a pobresinha que a lucta ia travar-se. Era chegado o momento.

Revestiu-se de toda a coragem.

--Sim, meu pae, este casamento não deve fazer-se...

--Você está doida? observou Pereira com fingida tranquilidade.

Prosseguiu então Innocencia com muita rapidez, as faces incendiadas de rubor:

--Conto-lhe tudo papae... Não me queira mal... Foi um sonho... O outro dia, antes de Manecão chegar, estava sesteando e tive um sonho... Neste sonho, ouviu, papae? minha mãe vinha descendo do céu... Coitada! estava tão branca que mettia pena... Vinha _bem limpa_, com um vestido todo azul ... leve, leve!

--Sua mãe? balbuciou Pereira tomado de ligeiro assombro.

--Nhôr sim, ella mesma...

--Mas você não a conheceu! Morreu, quando você era pequetita...

--Não faz nada, continuou Innocencia, logo vi que era minha mãe... Olhava para mim tão amorosa!... Perguntou-me: _Cadê_ seu pae? Respondi com medo. Está na roça; quer mecê, que elle venha?--Não, me disse ella, não é _perciso_; diga-lhe a elle que eu vim até cá, para não deixar Manecão casar com você, porque hade de ser infeliz ... muito!... muito!...

--E depois? perguntou Pereira levantando a cabeça com ar sombrio, gyrando os olhos.

--Depois ... disse mais... Se esse homem casar com você, uma grande desgraça hade entrar ... nesta casa que foi minha e onde não haverá mais socego. Bote seu pae bem sentido nisso. E sem mais palavra, sumiu-se como uma luz que se apaga.

Cravou Pereira olhar inquiridor na filha.

Uma suspeita lhe atravessou o espirito.

--Que signal tinha sua mãe no rosto?

Innocencia empallideceu.

Levando ambas as mãos á cabeça e prorompendo em ruidoso pranto, exclamou:

--Não sei ... eu estou mentindo ... Isto tudo é mentira! É mentira! Não vi minha mãe!... Perdão, minha mãe, perdão!

E, cahindo de bruços sobre a cama, ficou immovel com os cabellos esparsos pelas espaduas.

Contemplou-a Pereira largo tempo sem saber que pensar, que dizer.

Subito se inclinou sobre o corpo da filha e ao ouvido lhe segredou com muita energia:

--_Nocencia_, daqui a bocadinho Manecão chega da roça... Você hade ir para a sala ... se não fizer boa cara, eu a mato.

E erguendo a voz:

--Ouviu? Eu a mato!... Quero antes vel-a morta, estendida, do que ... a casa de um mineiro deshonrada...

Ás pressas sahiu do quarto, deixando Innocencia na mesma posição.

--Pois bem murmurou ella, já que é preciso ... morra eu!

CAPITULO XXVIII

EM CASA DE CESARIO

Ah! a perspectiva que pode mais docemente sorrir ao meu coração é a do aniquilamento.

KLOPSTOCK.--_A Messiada._

Cyrino logo que se estabeleceu em casa do seu novo hospedeiro, tratou de lhe captar as sympathias. Medicou um escravo que estava de cama, fez valer o conhecimento e amizade que tinha com Pereira, conversou muito a respeito delle e incidentemente deu noticias de Innocencia.

Atalhou-o Antonio Cesario neste ponto.

--Mecê a viu? perguntou elle.

--Pois não, respondeu o moço, por signal que a curei de sezões.

--Ah! É uma guapa rapariga...

--Parece-me...

--Isso é ... falo assim, porque afinal ... daqui a poucos dias está casada ... não sabe?

--Ouvi contar.

--Pois é verdade. O noivo passou por cá e levou a minha licença. É homem de mão cheia. A pequena deve estar contente. Ah! nem todas no sertão são felizes assim. Tem-se por aqui o mau vezo de arranjar casamentos ás cégas, e ás vezes, se _encambulha_ um mocetão com uma fanadinha ou então uma sujeita de encher o olho com algum rapaz todo engorovinhado... Cruz! E, uma vez dada a palavra, acabou-se...

Achou Cyrino a occasião propria e redarguiu com vivacidade:

--Então o senhor não é desse parecer?

--Conforme, respondeu logo Cesario com reserva. Aos paes é que convem _inziminar_ essas coisas.

--Boa duvida... Mas ... se ... sua afilhada ... não gostasse de Manecão?

--Não gostasse?

--Sim.

--E que nos importa isso? Uma menina como ella não sabe o que lhe fica bem ou mal... Ninguem a vae consultar. Mulheres, o que querem é casar. Não ouviu já o patricio dizer que ellas não casam com carrapato, porque não sabem qual é o macho?

E Cesario sorriu.

Depois, fechando de repente a cara, perguntou:

--Porque é que estamos a dar de lingua nesse particular? Não sou amigo disso. Quer-me parecer que mecê é um tanto namorador...

--Eu? protestou Cyrino com vivacidade.

--Boa duvida. Eu cá nem falar nellas quero. Mulher é para viver muito quietinha perto do tear, tratar dos filhos e creal-os no temor de Deus; não é nem para _parolar-se_ com ella, nem a respeito della.

Sempre as mesmas theorias de Pereira: a mesma grosseria repassada de desprezo ao sexo fraco, a mesma susceptibilidade para desconfiar de qualquer pessoa ou de qualquer palavra que lhes parecesse menos bem soante aos prevenidos ouvidos.

--Minha afilhada, continuou Cesario, deve levantar as mãos para o céu. Achou um marido que a hade fazer feliz e tornal-a mãe de uma boa duzia de filhos.

Estremeceu Cyrino, mas nada disse.

Por toda a parte esbarrava de encontro a preconceitos que nada podia vencer.

Nessa mesma tarde quiz montar a cavallo e voltar para Sant'Anna; entretanto, o pensamento da resistencia com que Innocencia encetara a terrivel lucta com seu pae, actuou em seu espirito e o reteve.

Decidiu-se a atacar o touro pelas aspas.

Restar-lhe-ia ao menos o consolo do desabafo, e num jogo perdido arriscava ainda ousado lance.

--Sr. Cesario, disse elle na manhã seguinte, preciso muito falar-lhe em particular.

--A mim?

--Sim, senhor.

--Pois, estou aqui ás suas ordens.

--Quizera que sahissemos. O que lhe vou dizer ... ninguem pode ... ninguem deve ouvir.

--Oh! O senhor me assusta... Então tem segredos que me contar?

--Tenho...

--Pois vá lá... _Mapiaremos_ fóra... Ao meio-dia esteja na minha roça ... sabe onde é?

--Sei...

--Espere-me num pau de peroba secco que esta derrubado.

--Lá estarei.

Muito antes da hora aprazada, achava-se Cyrino no lugar indicado.

Devorava-o a impaciencia.

Resolvido a desvendar sem rebuço os seus amores a esse homem a quem mal conhecia, que por elle não tinha senão razões de passageira sympathia, e de quem, comtudo, estava dependente sua felicidade, considerava decisivos os momentos.

Quem em taes circumstancias se acha, enxerga em tudo quanto o rodeia symptomas de bom ou mau agouro, e nesse instante a Cyrino pouco parecia sorrir a natureza.

Não chovia; mas o tempo estava carregado e sombrio.

Tinha o ceu cor acinzentada e do lado do poente linhas negras e continuas denunciavam trovoada talvez para a tarde.

Era o local, além disso, tristonho. Enfileiravam-se numa grande área, pés de milho já pendoados, dentre os quaes surgiam possantes madeiros de tronco rugoso e galhada completamente despida de ramagem; uns, da base á extrema ponta, lugubremente ennegrecidos pelo fogo lançado antes da sementeira; outros perdidas todas as folhas em consequencia da incisão profunda e circular com que o machado impedira a ascensão da seiva. Esses quedavam vivos, mas de uma vida latente e esmorecida, denunciada por entanguidos brotos no mais alto do tope.

Quando o dia é claro, aquelles gigantes da floresta, que pela robustez do cerne haviam desafiado as chammas e os esforços do homem, servem de poleiro a innumeros bandos de papagaios, periquitos araçaris, ou de graúnas que formam concertos capazes de ensurdecer os écos.

Naquella occasião; porém, tudo era silencio.