Part 13
Só de vez em quando se ouviam pancadas surdas e intermittentes dos pica-paus de crista vermelha, agarrados aos troncos das arvores e a explorar-lhes os pontos carunchosos, subindo em zig-zags.
Á hora ajustada, apresentou-se Antonio Cesario.
Por cautela vinha armado de uma espingarda de caça, que bem serviria para derrubar alguma onça, ou animal damninho.
Seu rosto, habitualmente sereno, indicava certa inquietação, repassada de curiosidade.
--Aqui me tem, doutor, disse elle descançando a arma sobre o páu derrubado e sentando-se ao lado de Cyrino. Estou prompto para ouvil-o quanto tempo queira...
Muito pensara Cyrino nesse momento a que devia chegar e, entretanto, não pudera achar o modo por que encetasse as suas declarações. Parafusara de continuo mil pretextos sem nada assentar.
Foi, pois, a balbuciar que respondeu:
--O Sr ... hade me desculpar ... o incommodo que ... lhe dou...
--Incommodo nenhum.
--E deve estar ... espantado do que lhe pedi ... vir falar commigo ... em lugar ermo ... commigo que sou como qualquer hospede, como tantos que a sua casa tão franca todos os dias recebe...
--Com effeito, confirmou Cesario.
--Pois bem, daqui a nada tudo lhe ficará claro e explicado... Se emquanto eu falar ... o offender, perdoe-me, ouviu?
--Sr. Cesario, continuou Cyrino após breve pausa, se o Sr. visse um homem arrastado numa _corredeira_[120] e pudesse atirar-lhe uma corda e salval-o ... o faria?
--Boa duvida! replicou o outro com força. Ainda que corra perigo de vida, não deixarei homem nenhum, branco ou preto, livre ou escravo, rico ou pobre, conhecido ou não, sem o soccorro de meu braço.
--Pois bem, exclamou Cyrino arrebatadamente, sou eu esse homem que vae morrer, que está perdido e a quem o Sr. pode salvar...
E respondendo á tacita suspeita de quem o ouvia:
--Não acredite que esteja doido ... não. Estou tão são de juizo como o Sr. e falo-lhe a verdade. Uma palavra esclarece-lhe tudo ... eu morro de paixão por uma mulher e essa mulher é ... sua afilhada!... Innocencia!
De um pulo levantou-se Cesario. Seus labios tremiam, os olhos de subito injectados de sangue. A mão procurou a arma que lhe ficava ao lado.
--Que é isso? balbuciou encarando fixamente Cyrino.
Adivinhara-lhe este todos os pensamentos.
Erguera-se tambem, cara a cara com Cesario:
--Mate-me, bradou elle, mate-me... É um favor que me faz... Dê cabo desta vida desgraçada.
Já arrependido do gesto que fizera e um tanto corrido da sua precipitação, replicou o outro todo sombrio:
--Não tenho razões para matal-o... O Sr. nunca me fez mal...
--Não, proseguiu Cyrino meio desvairado, peço-lhe por favor... Se o Sr. tem caridade, e é bom, se gosta de seus filhos, se tem pae e mãe no céu ... por tudo isso eu lhe peço de joelhos! mate-me ... mate-me!
E deixou-se cahir aos pés de Cesario, occultando a cabeça entre as mãos.
Contemplou-o largos instantes o mineiro com surpreza.
Inclinando-se para o moço, bateu-lhe no hombro e quasi com brandura lhe disse:
--Que historia é essa, doutor?... Isso é loucura! Conte-me o que ha... Quero saber se a sua bola está gyrando ou não. Sou homem do sertão, mineiro de lei ... mas sei tratar com gente...
A estas palavras, recobrou Cyrino algum alento e pôz-se de pé.
Sentando-se então ao lado de Cesario, narrou-lhe tudo, o desespero que o minava, a certeza que tinha do amor de Innocencia e a implacavel sentença proferida por Pereira.
Ouvia-o Cesario attentamente. Só de vez em quando deixava escapar esta exclamação:
--Ah! mulheres!... mulheres! É a nossa perdição.
Depois que Cyrino acabou de falar, encarou-o detidamente e, com ar severo, perguntou:
--Fale-me a verdade, doutor, o senhor nunca trocou palavra com Innocencia? Nunca esteve só com ella?
--Estive, respondeu o outro meio receioso.
As faces de Cesario subiu uma onda de sangue.
--Então, roquejou elle, a desgraça...
--Deus meu, atalhou Cyrino com fogo, caia a alma de minha mãe no inferno, se Innocencia não é pura ... se...
Conteve-o Cesario com um gesto.
--Basta, moço: quem jura assim, não mente... Tambem no meu tempo tive uma paixão infeliz ... e sei o que é soffrer...
--Oh! Sr. Cesario, salve-me!...
--Que posso eu fazer? Não sabe o senhor que ella hoje não pertence nem mesmo ao pae, ao seu proprio pae? Pertence á palavra de honra, e palavra de mineiro não volta atraz... Não sabia o senhor disso, quando deixou que o amor lhe entrasse pelos olhos?... Mulheres não pensam ... mulheres o que querem é ver os homens _derretidos_ por ellas ... sacrificam tudo ... e por um requebro _pincham_ na rua a honra de suas casas...
--Não, protestou Cyrino, ella não é assim...
--Então é melhor que as outras? objectou Cesario com desdem.
--Sim, sim, é melhor do que tudo deste mundo. Acima della, só Nossa-Senhora!...
Ligeiramente sorriu o mineiro.
--Qual! observou elle, bem disse o _outro_: a paixão é um transtorno. Fica um homem que nem uma miseria! É...
--Então? interrompeu Cyrino.
--Então o que?... Já lhe não disse quanto basta? Minha afilhada pertença tanto a Manecão, como uma garrucha ou um _guampo lavrado_[121] que Pereira lhe tivesse dado... Não ha meios e modos de voltar atraz...
Não desanimou o mancebo.
Falou por muito tempo com verdadeira eloquencia, appellando principalmente para a protecção que todo o christão tem obrigação de dispensar ao ente que leva á pia baptismal, a seu segundo filho, ao pagãosinho por quem o padrinho se torna responsavel perante Deus.
Feriu o sentimento religioso do mineiro e commoveu-o.
--Não me falle assim, contrariou este, o senhor quer ver se me puxa para o seu lado... E quem me assegura que, _Nocencia_ gosta tanto da sua pessoa?... Quem?
O coração está-lh'o dizendo baixinho, respondeu com calma Cyrino. O senhor, que é homem de honra, acredita que eu esteja mentindo? Que tudo isso é falso? ... diga, acredita?
Cesario tartamudeou:
--Sim... _Assumpto_ verdades, mas...
--Ah! exclamou Cyrino, o Sr. sente a consciencia bater-lhe que sua afilhada está desamparada, que vae ser sacrificada ... e agora tapa os ouvidos e diz: Não quero ouvir, não quero cumprir a minha palavra! Porque a deu então o Sr ... essa palavra de honra de que tanto fala?... Nossa Senhora que a proteja ... que a tire deste mundo... Isso ha de pesar-lhe no peito ... e, quando um dia tiver noticia que Innocencia morreu de desgostos, ha de dizer lá comsigo que ajudou a cavar-lhe a sepultura.
Estava Cesario abalado: com verdadeira anciedade retorquiu:
Que historias me conta o Sr.? Eu mettido no meu canto ... vivendo tão socegado ... não bulindo com ninguem, e agora _anarchisado_ por estes mexericos!... Quem o mandou vir cá?
--Quem seria, retrucou Cyrino, senão Innocencia? Por ventura eu o conhecia? ... algum dia o vi?... Não; foi aquelle anjo que me disse: busca meu padrinho, é o ultimo recurso. Se elle não nos amparar, então ... estamos perdidos de uma vez.
Estas palavras convenceram de todo Cesario.
Ficou em silencio, recolhido, a meditar; Cyrino o observava offegante.
--Pois bem, disse por fim o mineiro em tom grave e pausado, hei-de pensar no que o Sr. me conta...
--Oh! Sr. Cesario!...
--Levarei dois dias a remoer sobre o caso... O que disse uma vez, não digo duas... No fim desse tempo, monto a cavallo e appareço por casa de Pereira...
--Sim, sim, balbuciou o moço.
--Amanhã mesmo, de madrugada, o Sr. sae daqui e vae esperar-me na Senhora Sant'Anna.
--Irei ... salve-me...
Cesario parou um pouco.
--Agora, quero que o Sr. me faça um juramento ... pelas cinzas de sua mãe.
--Estou prompto.
--Pela salvação da sua alma...
--Pela salvação de minha alma, repetiu Cyrino.
--Pela vida eterna...
Cyrino acenou com a cabeça.
--Jure!
O mancebo cruzou os dedos indices e beijou-os com uncção abaixando os olhos e empallidecendo.
--O Sr., disse Cesario, jurou antes de saber o que era... Deu-me boa idéa do seu caracter... Farei tudo por ajudal-o, mas exijo-lhe uma condição... Se quizer aceital-a, fica valendo o juramento; senão ... o dito por não dito...
--Que será, meu Deus? murmurou Cyrino.
--É ficar o Sr. esperando em Sant'Anna. Se eu apparecer por estes oito dias, iremos juntos á casa do compadre. Se não, é que decidi o contrario. Neste caso, virá o Sr. até cá e aqui esperará as suas cargas que mandarei buscar. Será signal de que, nunca mais ha de procurar botar as vistas em Innocencia ... nem sequer fallar nella. Acceita?
--Aceito, respondeu o moço com exaltação; mas fique certo de uma coisa: se o Sr., no tempo marcado, não estiver na villa, reze por alma de Cyrino, porque elle terá deixado este mundo de afflicções.
Cesario meneou tristemente a cabeça e retirou-se, sem dizer mais palavra.
[Nota 120: Trecho de rio encachoeirado.]
[Nota 121: Guampo é uma vasilha feita de chifre para tirar agua. Chama-se lavrado quando tem desenhos de lavor.]
CAPITULO XXIX
RESISTENCIA DE CORÇA
Acasto--Não póde ella falar?
Oswaldo--Se ralar é tão somente fazer ouvir sons por meio da lingua e dos labios, é aquella creatura muda; mas se tão maravilhosa faculdade consiste tambem em tornar comprehensiveis os menores pensamentos por accionados e expressivos gestos, póde dizer-se que ella a possue, pois seus olhos brilhantes como estrellas do céu tem uma linguagem intelligivel, bem que falha de sons e de palavras.
SHAKESPEARE.
Deixámos Innocencia tão abatida de corpo, quanto resoluta de espirito.
Presentia os choques que tinha de supportar, e robustecia a alma na meditação continua e firme da sua infelicidade.
Estava de joelhos deante da imagem de Nossa Senhora, quando a voz de seu pae a fez levantar.
--_Nocencia_! chamava elle.
Rapidamente passou a pobresinha a mão pelo rosto para apagar os vestigios de copioso pranto, e com passo quasi seguro penetrou na sala.
Estavam Pereira e Manecão sentados junto á mesa. O anãosinho Tico aquecia-se aos pallidos raios de um sol meio encoberto e, sentado á soleira da porta, brincava com umas palhinhas.
--Estou aqui, papae, disse Innocencia em voz alta e um pouco tremula.
Encarou-a Manecão com ar entre sombrio e apaixonado.
Julgou dever dizer alguma coisa.
--Até que afinal a dona sahiu do ninho... É que hoje o dia está de sol, não é?
A moça nada lhe respondeu; fitou-o com tanta insistencia que fel-o abaixar os olhos.
--Ella esteve doente, desculpou Pereira.
E voltando se para a filha:
--Sente-se aqui bem perto de nós... O Manecão quer conversar com você em negocios particulares...
--Bem percebe ella, observou o desazado noivo intentando abrir o motivo para risos.
Innocencia replicou em tom incisivo:
--Não percebo.
--Está se ... fazendo de ... engraçada, balbuciou Manecão. Pois já ... se esqueceu ... do que tratei com seu pae?... Parece que comeu muito queijo.
Com a mesma entoação, e cortando-lhe a palavra retorquiu ella:
--Não me lembro.
Houve uns minutos de silencio.
Accumulava-se a colera no peito de Pereira: seus olhares irados ião rapidos de Manecão á imprudente filha.
--Pois, se você não se lembra, disse elle de repente, eu cá não sou tão esquecido.
--Ora, recomeçou Manecão levantando-se e vindo recostar-se á beira da mesa para ficar mais chegado á moça, faz-se de _enjoada_ a tôa ... o nosso casamento...
--Seu casamento? perguntou Innocencia fingindo espanto.
--Sim...
--Mas com quem?
--Ué, exclamou Manecão, com quem ha de ser... Com mecê...
Pereira fôra-se tornando livido de raiva.
O anão acompanhava toda essa scena com muita attenção. Scintillavam seus olhinhos como diamantes pretos; seu corpo rachitico estremecia do impaciencia e susto.
Á resposta de Manecão, levantou-se rapida Innocencia e, como que acastellando-se por detraz da sua cadeira, exclamou:
--Eu?... Casar com o senhor?! Antes uma boa morte!... Não quero ... não quero... Nunca... Nunca...
Manecão bambaleou.
Pereira quiz pôr-se de pé, mas por instantes não pôde.
--Está doida, balbuciou, está doida.
E, segurando-se á mesa, ergueu-se terrivel.
--Então, você não quer? perguntou com os queixos a bater de raiva.
--Não, disse a moça com desespero, quero antes...
Não pôde terminar.
O pae agarrara-a pela mão, obrigando-a a curvar-se toda.
Depois, com violento empurrão, arrojou-a longe de encontro á parede.
Caiu a infeliz com abafado gemido e ficou estendida por terra, amparando o peito com as mãos. Mortal pallidez cobria-lhe as faces, e de ligeira brecha que se abrira na testa deslisavam gottas de sangue.
Ia Pereira a precipitar-se sobre ella como para esmagal-a debaixo dos pés, mas parou de repente e, levando as mãos ao rosto, occultou as lagrimas que dos olhos lhe saltavam a flux.
Manecão não fizera o menor gesto. Extatico assistira a toda essa dolorosa scena. A physionomia estava impassivel, mas, por dentro, seu coração era um vulcão.
Lugubre silencio reinou por algum tempo naquella sala.
O anão chegara-se a Innocencia, tomando-lhe uma das mãos: depois, a fizera sentar e, no meio de carinhos, mostrara-lhe por signaes a necessidade de retirar-se.
A custo pôde ella seguir aquelle conselho. Quasi de rastos e ajudada por Tico é que saiu da presença do pae e de seu perseguidor.
Nenhum movimento fizeram os dois para retel-a. Calados como estavam, deixaram-se ficar de pé, um ao lado do outro, ambos acabrunhados pela grandeza daquella desgraça.
Com frenesi cofiava Manecão o basto bigode.
Pereira tinha a cabeça pendida sobre o peito.
Afinal, exclamou:
--É preciso que eu _desembuche_ o que tenho cá dentro, senão estouro... Quem for homem que seja ... Manecão, _Nocencia_ para nós está perdida ... para nós, porque um homem lhe deitou um mau olhado...
--E que homem é esse? perguntou em tom surdo e ameaçador o outro.
--Agora vejo como tudo foi... Eu mesmo metti o diabo em casa... Estive alerta ... mas o mal já caminhava.
--Mas, quem é elle? tornou a perguntar com impaciencia Manecão.
--Um maldito! um infame, um estrangeiro que aqui esteve... Roubou-me o socego que Deus me deu...
Contou então ás pressas Pereira todas as tentativas do allemão Meyer, tentativas que haviam sido descobertas, mas que infelizmente, pelo menos assim suppunha, já haviam produzido os seus damnosos fructos.
--Ah! disse por fim abaixando a voz, pensou aquelle cachorro, que tudo era namorar mulheres e depois dar com os pés em polvorosa, não é?... Amanhã mesmo eu lhe saio no rasto.
--Para que? interrompeu Manecão.
--Respondam os urubús...
--Para matal-o?
--Sim...
Houve breve pausa.
--Não será, o senhor, disse o capataz, que lhe hade dar cabo da pelle.
--Porque?
--É negocio que me pertence. O senhor é pae ... eu porém sou ... noivo. Mangaram com os dois ... mas o _allamão_ fica no chão.
--Pois seja, concordou Pereira, parta amanhã mesmo ou hoje ... agora, se possivel fôr. Cão damnado deve logo ser morto, para que a baba não dê raiva... Vá depressa e venha contar-me que aquelle homem já não existe... Como velho, como pae ... abençôo a mão que o hade matar. Caia o sangue que correr ... sobre os meus cabellos brancos...
Havia toda esta conversa sido attentamente ouvida por alguem; o anão Tico.
Viera a pouco e pouco approximando-se da mesa com os olhos a fulgir.
De repente, collocou-se resolutamente entre Manecão e Pereira.
--Que quer você aqui? perguntou o mineiro com aspereza.
Começou então o homunculo a explicar por gestos vagarosos, mas muito expressivos, que de tudo estava sciente, participando de todos os projectos e do mesmo sentimento de indignação e desespero que enchia os dois offendidos.
Depois, apressando mais a gesticulação e por sons meio articulados, fez ver que Pereira laborava em engano, tão somente quanto á pessoa.
Com muita propriedade de imitação e perfeita mimica, ora levantando o braço para caracterisar as physionomias, tão exactamente representou Meyer e Cyrino, que o mineiro logo os reconheceu.
--Bem sei, bem sei Tico, murmurou elle. Você fala do doutor e daquelle...
Ahi o anão fez um gesto de negação e, apontando para o quarto de Innocencia, indicou que nada tinha ella com o allemão.
Ficaram pasmos os dois.
--Então, balbuciou Pereira, quem será?... Cy ... rino, meu Deus?!
--Sim... Sim! gritou o anão com violento esforço abaixando muitas vezes a cabeça.
--Qual! protestou Pereira, o doutor?...
Com muita habilidade e segurança Tico desenvolveu as provas que tinha.
Gesticulou como um possesso; correu para fóra de casa; denunciou as entrevistas; reproduziu ao vivo todas as passadas de Cyrino: mostrou o lugar do laranjal donde vira tudo, o galho quebrado em razão da sua queda; repetiu o grito que dera; lembrou a scena da madrugada, findando com aquelles tiros; exprimiu-se por signaes tão adequados e taes movimentos de cabeça e physionomia, que toda a duvida desappareceu do espirito de Pereira.
Então tudo se lhe descortinou claro e deslumbrante, e sua colera subiu a um grau de violencia inexprimivel.
Esteve a cahir fulminado.
--Infame murmurou roxo de ira, tu me pagas! Infame... Infame!
Depois voltando-se para Manecão:
--Dê-me esse ... eu o quero...
Abanou o capataz a cabeça.
--Não, respondeu surdamente. Esse me pertence... Caçoou com o senhor ... e fez de mim chacota.
--Então, disse apressadamente Pereira, parta hoje ... parta já... E quando voltar, diga só: estamos desaggravados... Innocencia será sua...
Parando um pouco concluiu tomado de enleio:
--Se quizer aceital-a.
--Havemos de conversar...
Teve o mineiro uma explosão de desespero.
--Meu Deus, exclamou com dor, em que mundo vivemos nós? Um homem entra na minha casa, come do que eu como, dorme debaixo do meu tecto, bebe da agua que, carrego da fonte, esse homem chega aqui e, de uma morada de paz e de honra, faz um lugar de desordem e vergonha! Não, mil raios me partam!... Não quero mais saber que esse miseravel respire o ar que respiro. Não! mil vezes, não! E desde já enxoto a canalhada que trouxe, gente do inferno como elle!... Heide cuspir-lhes na cara... _Pinchal-os_ fóra como cães que são!.. Ladrões!... Eu...
Interrompeu-o Manecão com calma:
--Não faça nada... É preciso que ninguem saiba do que se está passando aqui... Ninguem!... percebe?
--E então?
--Faça de conta[122] que recebeu uma _letra_[123] de Sant'Anna. O _cujo_ foi quem a mandou, para que os camaradas o vão esperar no Leal... Ouviu?
Pereira fez signal de tudo comprehender.
--Depois, acrescentou Manecão com voz sinistra, mãos a obra.
--Você diz bem, retorquiu Pereira, tenha pena de mim... Estou com esta cabeça como um cortiço de guaxupés... É um zumbido!... Mostre que já é dono desta casa e faça como entender... Entrego-me de pés e mãos atadas a você... Tudo lhe pertence... Emquanto a honra do mineiro não for desaffrontada ... não levanto o rosto... Meu Deus, meu Deus, que vergonha!...
--Coragem, coragem, aconselhou o outro.
--Se este _socavão_ não chegar para esconder minhas miserias ... mudo-me para as bandas do Apa... Parece que vou morrer ... sinto fogo dentro da cabeça...
E vencido pela emoção encostou a testa á mesa, deixando cahir os braços.
Bateu-lhe Manecão no hombro.
--Que é isso, meu pae? animo! De que serve ser homem?... Olhe, cara a cara a sua desgraça ... que tambem é minha. Não o consola a certeza de que aquelle homem brevemente...
--Sim, replicou Pereira levantando a cabeça e reparando que o anão se retirara, mas que faremos deste _tico_ de gente, que sabe tudo?
--Não o deixe sair mais de casa.
--Qual!... É que nem _mussú_. Quando a gente mal pensa, surge no Sucuriú e até no Corredor.
--Pois bem... Ficará elle sabendo que ... um só piscar de olho ... pode sahir-lhe caro ... muito caro.
--Então, implorou Pereira, vá quanto antes limpar o meu paiol daquella gente ... vá... Se eu pudesse ainda dormir ... esquecia um pouco, mas...
Com estas palavras retirou-se a custo o mineiro.
Incontinenti foi Manecão despachar os camaradas de Cyrino, os quaes, pouco depois sahiam com destino á casa do Leal.
Em seguida, montando o tropeiro a cavallo, partiu em carreira desapoderada para a villa do Sant'Anna do Paranahyba, onde chegou alta noite.
[Nota 122: Fingir.]
[Nota 123: Carta.]
CAPITULO XXX
DESENLACE
Estão contados os grãos de areia que compõem a minha vida. É aqui que devo tombar. É aqui que ella hade acabar.
SHAKESPEARE.--_Henrique V_, Acto I.
Eis que vi um cavallo amarello, e quem o montava, era a morte.
S. JOÃO.--_Apocalypse._
Durante tres dias, foi Cyrino rigorosamente espreitado pelo noivo de Innocencia.
Com a cautela propria dos seus habitos esquivos, soube Manecão acompanhar-lhe todos os passos sem ser presentido.
Assim notou que o rival montava a cavallo e ia até certo ponto da estrada como que esperar por alguem que não chegava. Na ida, mostrava impaciencia e inquietação; na volta vinha melancolico e curvado sobre si mesmo, absorto em fundo meditar.
Ia o infeliz mancebo ao encontro de Cesario; mas este não apparecia.
Estava quasi expirado o prazo combinado, e prestes a soar a hora do completo desengano.
Oh! se elle pudera!... Agarraria com forças de Josué esse sol que lhe marcava os dias e o deixaria immovel, até que o seu salvador se resolvesse a estender-lhe a mão.
E já ia findando a semana!...
Completo o circulo de horas, se Cesario não apparecesse, começava a imperar o juramento que dera, irrevogavel, implacavel!
--Matar-me-hei, dizia Cyrino; ficarão sabendo que não menti ás minhas palavras.
Nessa firme resolução sahiu da villa; passou o rio Paranahyba e, como costumava, caminhou pela estrada de S. Francisco de Salles, talvez tres leguas. Contava pousar por aquelles sitios, de modo que alongava o seu passeio.
Claro era o dia; lindo.
Por toda a parte cantavam mil passaros. Gritavam as gralhas nos cerrados; piavam as perdizes no relvoso chão.
Cyrino ia muito agitado. Nada ouvia; os seus olhos, fitos sempre na frente, buscavam na estrada, anciosos o vulto de um cavalleiro.
Soou-lhe de repente aos ouvidos o tropel de um animal.
Alguem vinha a galope.
Seu coração pulsou que parecia ter entrado tambem a galopar.
Mas o som partia de detraz.
Sem duvida, algum viajante vindo da villa.
Continuou Cyrino na vagarosa marcha.
O estrupido vinha indicando carreira folgada e que breve comsigo estaria emparelhando, quem extravagantemente em hora tão impropria corria á desfilada.
O mancebo de nada cuidava, tanto que mal reparou que alguem a trote largo passara por perto de si, quasi a roçar animal contra animal.
Dalli a pouco, novo galope se fez ouvir.
Parecia que o mesmo cavalleiro havia dado de redeas, cortando o rumo que levava.
Dessa vez, porem, Cyrino accordou do lethargo, esporeou vigorosamente a sua cavalgadura e ... esbarrou com Manecão.
Instinctivamente empallideceu. O outro estava tambem muito descorado.
Estacaram elles os animaes e fitaram-se alguns minutos, de um lado com desconfiança e pasmo, de outro com mal concentrado furor.
--Patricio, interpellou por fim o capataz em tom provocador, que faz mecê por aqui?
--Eu? perguntou Cyrino.
--Nhôr sim, mecê mesmo.
--É boa ... viajo.
--Ah! viaja! replicou Manecão. Então é andejo?
--Andejo, não, contestou Cyrino com força. Não sou nenhum bruto.
E por prevenção levantou a capa do coldre em que havia uma pistola, fazendo menção de a sacar.
--Não será andejo, continuou o capataz, mas então o que é?
--Sou o que sou, não é da sua conta.
Contrahiu-se o rosto de Manecão.
De um tranco chegou o cavallo bem junto a Cyrino e disse-lhe em voz surda:
--É um ladrão ... é um cachorro!
A esse insulto, puxou Cyrino a pistola.
--Mato-o já, bradou com violencia se continua a _destratar-me_...
Sorriu-se o capataz com desprezo.
--Gentes, observou cuspindo para um lado, vejam só que valentão... E sabe manejar garrucha!...
--Acabemos com isso, gritou Cyrino.
--Acabemos, retorquiu Manecão com fingida calma.
--Mas quem é o Sr.? perguntou Cyrino.
--Eu?
--Sim!... sim!...
--Então não me conhece?
--Não, balbuciou Cyrino.
--Conhece _Nocencia_? uivou Manecão com voz terrivel.
E de sopetão tirando uma garrucha da cintura, desfechou-a á queima-roupa em Cyrino.
Varou a bala o corpo do infeliz e o fez baquear por terra.
Dois gritos estrugiram.