Part 8
Chamei o José Pinho, proseguiu elle em voz baixa, e dei-lhe uns toques.--Então, disse-lhe eu, seu amo é o diabo com mulheres hen? Elle que é muito _ladino_[88] respondeu-me logo.--Nhôr não.--Assumptei a _embromação_[89],--Qual, você, carioca, tem levado areia nos olhos.--Eu? ... não é capaz... Então você não tem visto o que faz seu amo?--Tem sido um santo, retrucou o espertalhão. No Rio, sim--Na Côrte?--Nhôr-sim, na Côrte. Ia todas as noites a uma casa de bebidas, assim uma especie de venda de muito luxo e lá estava horas perdidas petiscando e conversando com senhoras damas, muito bonitas, bem _limpas_ ... algumas com o pescoço e os braços todos á mostra...
--Contou-lhe isso? atalhou Cyrino com alguma duvida e sobresalto.
--Contou, affirmou Pereira com furor.
Vejam só que homem, hen? É um mequetrefe!... Esta noite e d'ora em deante, venho dormir nesta sala a ver se elle se mexe da cama. Ah! se eu pudesse! ... cahia-lhe de _cala-bocca_[90] em cima, que lhe deixava as costellas em lascas.
Acabavam as imprudentes historias de José Pinho de por a ultima pedra ao edificio da desconfiança que tão depressa erigira a imaginação de Pereira em desconceito de Meyer. O que nellas havia de verdade, eram apenas algumas horas de lazer, consagradas, durante a estada no Rio de Janeiro, pelo naturalista ao consumo de grandes copazios de cerveja no café _Stadt Coblenz_, e nas quaes entretivera risonhos, bem que innocentes colloquios, com pessoas do sexo amavel, frequentadoras daquelle estabelecimento e de costumes não lá muito rigorosos.
[Nota 83: Porção, quantidade.]
[Nota 84: A dentada dessas formigas é em extremo dolorosa. Provêm o seu nome, de que novatos são os que se deixam morder por ellas.]
[Nota 85: Homen fraco.]
[Nota 86: É crença popular que umas cobrinhas que vivem dentro de terra fofa tem duas cabeças e não tem olhos.]
[Nota 87: Desmoralisação.]
[Nota 88: Qualificativo muito usado em todo o interior do Brasil.]
[Nota 89: A mentira, o engano.]
[Nota 90: Em Minas assim chamam um cacete curto e grosso.]
CAPITULO XVI
O EMPALAMADO
Ao homem não faltam importunações; quanto à vossa capacidade, nem a conhecemos.
MOLIÈRE.--_O medico á força._
Conforme o promettido, trouxe Pereira a rede para a sala dos hospedes e, encetando um modo de vigilancia muito especial, ainda que perfeitamente inutil em relação á pessoa suspeitada, associou os sonoros roncos do valente peito á ruidosa respiração de Meyer.
Se, comtudo não tivessem seus olhos a venda da confiança ou, melhor, se o somno não os acommettesse sempre com tamanha imposição, de certo em breve houvera estranhado a cruel agitação em que vivia Cyrino e que este não podia mais encobrir.
Na verdade, o modo porque o infeliz mancebo passava as noites era de fazer nascer suspeitas no espirito mais indifferente e desprevenido. Ou se revolvia na cama, dando mal abafados suspiros, ou então sahia para o terreiro, onde se punha a passear e a fumar cigarros de palha uns após outros, até que os gallos, alcandorados na cumieira da casa e nas arvores mais proximas, annunciassem as primeiras barras do dia.
Desabrida paixão enchia o peito daquelle malsinado; dessas paixões repentinas, explosivas, irresistiveis, que se apoderam de uma alma, a enleiam por toda a parte, a prendem de mil modos, a suffocam como as serpentes de Neptuno a Laocoonte. Conhecedor, como era, dos habitos do sertão, do jugo absoluto dos preconceitos, do respeito fatal á palavra dada, antevia tantas difficuldades, tamanhos obstaculos deante de si, que, se de um lado desanimava, do outro mais sentia revoltado o nascente e já tão violento affecto.
--Deus me ajudará, pensava comsigo mesmo: o que só quero é a amizade de Innocencia... Ha dias que não a vejo ... se não puder mais vel-a ... dou cabo da vida...
Sublevava-se o seu coração, gyrava-lhe o sangue com vertiginosa rapidez nas veias e vinha toldar-lhe a vista, trazendo ondas de rubro calor ao descorado rosto.
--Nossa Senhora da Abbadia, implorava elle puxando os cabellos com desespero, valei-me neste apuro em que me acho! Dae-me pelo menos esperanças de que aquella menina poderá um dia querer-me bem... Nada mais desejo... Possa o fogo que me consome abrazar tambem o seu peito...
Costumava a fervorosa prece dirigida á Santa da especial devoção de toda a provincia de Goyaz acalmar um pouco o mancebo, que alquebrado de forças pegava no somno para, instantes depois, acordar sobresaltado e cada vez mais abatido.
Tambem estava sempre de pé, quando Pereira costumava saltar da rede.
--Oh! observou elle da primeira vez, isso é que se chama madrugar.
--Pois é contra o meu costume, replicou Cyrino, todas estas noites tenho passado mal...
--Na verdade vosmecê não está com boa cara...
--Creio que me entraram no corpo as maleitas.
--Essa é que é boa! Então o doutor foi _emprestar_[91] da doente a molestia?...
Olhe, é preciso pôr-se forte, porque hoje mesmo ha-de lhe chegar uma boa _machina_ de doentes...
--Melhor...
--Já está tudo espalhado por ahi da sua chegada e a romaria não ha de tardar.
--Cá a espero...
--Naturalmente virá primeiro o Coelho... É boa occasião de pagar a sua divida... Não tenha receio de puxar mais no preço...
--Daqui mesmo pretendo despachar um proprio para me ver livre dessa obrigação...
--Isso mostra que o Sr. é pessoa de brio... Não é como certa gente que conheço...
Ao dizer estas palavras, voltara-se Pereira para Meyer a contemplal-o attentamente.
Estava na verdade o allemão digno de exame, posto ainda de parte outro qualquer motivo que não o de simples curiosidade.
Dormia com as pernas e braços abertos e cahidos para fóra do estreito leito das canastras: tinha o queixo muito levantado pela posição incommoda da cabeça, deixando a boca meio aberta ver uma fieira de magnificos dentes.
--Está roncando, hen? murmurou o mineiro. _Cavouqueiro_ ... a mim você não engana ... mas é o mesmo!
Iam as prevenções de Pereira tomando proporções de idéa fixa, e Meyer, na simplicidade da ignorancia, como que de proposito ministrava elementos para que ellas mais e mais se fossem arraigando.
Assim, ao almoço, lembrou-se de perguntar entre duas enormes colheradas de feijão:
--Sua filha, Sr. Pereira? Como vae? _É_ melhor?
--_É_ melhor o que, _Mochú_? exclamou o pae com modo esquivo.
--A saude della _é_ melhor?
--Está melhor; está, está, respondeu Pereira muito seccamente. Está boa ... vae fazer uma viagem...
--Viagem; para onde?... Até á villa?
--Homem, _Mochú_, observou o mineiro um tanto desabrido, vosmecê está que nem mulher velha, tudo quer saber...
Meyer, nessa reprehensão que lhe causou vexame e alguma admiração, só enxergou censura justa à sua curiosidade, falta que confessou com toda a nobreza, bem que aggravando a situação.
--É verdade, Sr. Pereira, concordou elle. A boa educação não manda o que eu fiz ... mereço porém desculpa, mereço... Sua filha é tão interessante ... que me lembro sempre della... Tenho commigo uns presentesinhos...
--Guarde-os, rosnou Pereira abafando a reflexão num accesso de tosse.
E para evitar o proseguimento de semelhante assumpto, deu por finda a refeição, levantando-se da mesa.
--Ahi vem o Coelho, doutor, exclamou elle olhando para fóra. Chi! como esta amarello!... Ha tempos que o não via ... já parece alma do outro mundo... É do tal em quem falamos... Aperte-o, porque é _mofino_ como tudo...
E, interpellando a quem chegava gritou:
--Bons olhos o vejam!... Se não fosse, amigo Sr. Coelho, ter medico em casa, nunca _havéra_ de vel-o por cá; não é verdade?
--Ora, respondeu o outro com um gemido, ando sempre tão doente. Nem faz gosto viver assim... Mas qu'é delle, o homem?
--Está aqui...
--Já me disseram que faz milagres. Deixou nome para lá das Parnahybas...
Sabia?
--Lá que tivesse deixado nome, não; mas que é _cirurgião_ de patente, tenho certeza, porque, num abrir e fechar de olhos, me pôz de pé uma pessoa cá de casa.
--Se elle me curar ... não sei mesmo como lhe agradecer.
--É pagar-lhe, concluiu Pereira tratando logo de advogar os interesses do hospede.
--Sim, hei-de ... pagar-lhe, confirmou o outro com alguma hesitação.
--Em todo o caso, desça do animal.
Pouco depois, entrava na sala e comprimentava a Cyrino e a Meyer a pessoa a quem o mineiro chamara Coelho. Era homem já de edade, muito mais quebrantado por enfermidades que pelos annos; tinha a testa enrugada, as bochechas meio inchadas e balofas, os labios quasi brancos e os olhos empapuçados.
--Qual dos senhores é o doutor? perguntou elle.
--Sou eu, respondeu Cyrino revestindo-se de convicto ar de importancia, emquanto Meyer apontava para elle, cedendo direitos que talvez pudesse contestar.
Interveio Pereira com amabilidade:
--Sente-se, Sr. Coelho, sente-se. Não se ponha logo a falar de molestias... Isto não vae de afogadilho... Descance um pouco... Olhe, já almoçou?
--O pouco que como, retrucou o outro, já está comido.
--Pois bem, ponha-se primeiro a gosto: depois então, converse com o doutor... Diga-me: que ha de novo pela villa?
--Que eu saiba, nada.... Tambem ha mais de anno, que de lá nenhuma noticia tenho... Já não se me dá do que vae pelo mundo... Quem não goza saúde, perde o gosto de tudo... É mesmo uma calamidade...
Emquanto Coelho, em toada monotona, desfiava outras queixas no mesmo sentido, tirara Cyrino da canastra o seu Chernoviz e algumas hervas seccas que depoz em cima da mesa.
--O senhor, declarou elle voltando-se para o doente, está empalamado.
--É verdade, Sr. doutor.
--Eu, que não sou physico, observou Pereira, diria logo isso...
--Chi, compadre! atalhou Coelho com impaciencia e pedindo silencio.
--O senhor, continuou Cyrino com entono, teve maleitas muitos annos _afios_[92] depois, começou a sentir fastio e o estomago embrulhado; inchou todo e em seguida definhou... Aos poucos, foi perdendo a sustancia e o _talento_[93].
--Tal qual! murmurou Coelho seguindo com cautelosa attenção a marcha do diagnostico.
--Agora, o Sr. não póde comer que não sinta affrontação, não é?
--Muita, Snr. doutor.
--Este homem, disse Pereira para Meyer, leu bastante nos livros....
--Veio-lhe depois uma canseira, e, quando o Sr. anda, dão-lhe uns suores e tremuras por todo o corpo... O baço está engorgitado e o figado tambem... De noite fica o Sr. sem poder tomar respiração, mais sentado que deitado... Ás vezes tosse muito, uma tosse sem escarrar, como quem tem um pigarro secco...
--Tal qual! repetiu o enfermo com uncção e quasi enthusiasmo.
--Pois bem, terminou Cyrino, como já lhe disse, o Sr. está _empalamado_.
--E não ha cura? perguntou Coelho meio duvidoso.
--Ha, mas o remedio é forte.
--Comtanto que faça bem...
--Muita gente, replicou Cyrino, tenho já curado em estado peior que o Sr.; mas, repito, o remedio é violento...
--Tomarei tudo, affirmou Coelho: ha annos que faço um horror de mézinhas e de nenhuma dellas tiro proveito. Vamos ver.
Cyrino neste ponto mudou o tom de voz e olhando para Pereira:
--O Sr. sabe, observou elle que o meu modo de vida é este...
Com um movimento de cabeça applaudiu o mineiro aquella estrada em materia.
O mesmo não pensou Coelho, que tartamudeou:
--Ah!... Estou prompto... Sou pobre muito pobre...
Piscou Pereira um olho com malicia.
--Costumo, continuou Cyrino, receber o pagamento em duas _ametades_...
Depois accrescentou, um tanto vexado:
Si falo nisto agora com esta pressa, é porque tambem tenho precisão urgente de dinheiro... Não acha, Sr. Meyer?
--Pois não, pois não, concordou o allemão: tem todo o direito.
--Meu amigo, corroborou Pereira, o doutor não trabalha para o bispo; tem que ganhar honradamente a vida.
--Então como lhe dizia, proseguiu o outro dirigindo-se para Coelho, o senhor pagar-me-ha no principio da applicação e no fim. Assim, não ha enganos... Serve-lhe?
--Que remedio! suspirou Coelho. Eu lhe darei ... até trinta mil réis ... ou ... quarenta...
--Qual! retorquiu Cyrino. O meu preço é um só.
--E a quanto monta?
--A cem mil réis[94].
--Cem _mim_ réis! exclamou Coelho aterrado.
--Cincoenta no principio, cincoenta no fim.
Gemeu o doente lá comsigo.
--Ora o que é isto para você, compadre? interveio Pereira. Um atilho de milho para quem tem tulhas cheias a valer[95]!...
--Nem tanto, nem tanto assim, objectou Coelho.
--Deixe-se de historias, continuou Pereira. Se vosmecê não tivesse bons patacos, eu diria logo ao nosso amigo:--Olhe que este é dos nossos, não tem onde cair morto--e elle o _havéra_ de curar de graça ... não é?
--De certo, de certo, declarou Cyrino com muita promptidão.
--Mas com vosmecê o caso é _defronte_[96]. Doutra maneira, por que razão havia um cirurgião de andar por estes _socavões_? Tambem quer _bichar_ um pouco... É muito justo...
--Cincoenta ... mil ... réis balbuciava Coelho; assim de pancada...
--Se o medico o cura, disse Meyer intromettendo-se, é negocio da China.
Nada dizia Cyrino por dignidade propria. Estava folheando o Chernoviz, cujas paginas mostravam continuo manusear, algumas até enriquecidas de notas e observações á margem.
Assim no artigo _oppilação_ ou _hypoemia intertropical_ havia elle escripto ao lado: «É o que se chama no sertão _molestia de empalamado_.» E, no fim, abrira grande chave para encerrar esta ousada e peremptoria sentença: «Todos estes remedios de nada servem. Sei de um muito violento, mas seguro. Foi-me, ha annos, ensinado por Mathias Pedroso, curandeiro da villa do Prata, no sertão da Farinha Podre, velho de muita pratica e que conhecia todas as raizes e hervas do campo.»
--Pois bem, disse Coelho depois de grande hesitação, está o negocio fechado. Mas, olhe que entrará no pagamento o preço das mézinhas, e as visitas hão de ser feitas em minha casa...
--Não ha duvida, concordou Cyrino; irei á sua fazenda todos os dias... Não é longe daqui?
--Nhôr-não ... duas leguas pequenas, pela estrada.
--Bem. O senhor, em voltando á casa, metta-se logo na cama.
Coelho fez signal que sim.
--Amanhã, continuou o moço, deve tomar estes pós que lhe estou mostrando. Divida isto em duas porções; hade fazer-lhe muito effeito; depois descanse dois ou tres dias, se acaso se sentir muito fraco; em seguida...
E parando de repente, encarou Coelho alguns instantes:
--O Senhor quer mesmo curar-se?
--Oh! se quero!
--E tem confiança em mim!
--Abaixo de Deus só mecê póde salvar-me.
--Então, tomará ás cegas o que eu lhe receitar?
--Até carvão em braza.
--Olhe bem o que diz... Não gosto de começar a tratar para depois parar...
--Não tenha esse medo commigo... Viver como vivo, antes morrer...
--Então, continuou Cyrino com pausa, acabados os dias de socego, hade o senhor engulir uma boa _data_ de leite de jaracatiá.
--_Jaracatiá_?! exclamaram com assombro o doente e Pereira.
--_Jarracatiá_?! gaguejou por seu turno Meyer arregalando os olhos, que é _Jarracatiá_?
--Mas isso vae queimar as tripas do homem, observou o mineiro.
Cyrino replicou um tanto offendido:
--Não sou nenhum creançola, Sr. Pereira. Sei bem o que estou dizendo. Este remedio é segredo meu, muito forte, muito damninho; mas não é nem uma, nem duas vezes, que com elle tenho curado _empalamados_. A coisa está no modo de dar o leite e na quantidade: por isso, é que não faço mysterio, avisando comtudo que com uma porçãosinha mais do que o preciso, o doente está na cova...
--Salta! atalhou Pereira, tal mézinha não quero eu ... antes ficar _empalamado_...
--Que é _jarracatiá_? tornou a perguntar Meyer.
Coelho abaixou a cabeça e parecia estar reflectindo na resolução que havia de abraçar.
Depois, com voz melancolica:
--O dito, dito, declarou, aceito tudo o que vosmecê me der. Agora, quanto fizer está bem feito... Como é que devo tomar o jaracatiá?
--Em tempo lhe direi, replicou Cyrino. Fazem-se tres cortes no pé da arvore e deixa-se correr o primeiro leite: eu mesmo hei de recolher o que for bom. Tenha toda a confiança em que o senhor ficará são... Bem sabe, ninguem em negocio de doença, mais do que outro qualquer, póde nunca dizer: isto hade ser assim ou _assado_... Todos estamos nas mãos de Deus. Só Elle póde saber se a molestia nos sahirá do corpo ou nos hade atirar á sepultura. Todo o bom christão conhece isso e deve conformar-se com a vontade divina... O que o medico faz é ajudar a natureza e dar a mão ao corpo quando elle póde ainda levantar-se...
--Justo, justo! apoiou Meyer, então todo empenhado em picar um formoso coleoptero.
--Assim tambem é que eu entendo disse o mineiro.
--Mas, o que é _jarracatiá_, Sr. Pereira? insistiu o allemão.
Voltou-se o interpellado com impaciencia:
--É uma arvore, Sr. Meyer, arvore grande de folhas cortadas, que dá umas especies de mamõesinhos. Deitam leite muito grosso e queimão os beiços quando a gente não tem cuidado. É uma arvore ouviu? Uma arvore[97]!
--Ah! exclamou o allemão concertando a garganta.
Nesta occasião sacou Cyrino da canastra outros remedios e passou-os a Coelho, dando-lhe minuciosas informações sobre o modo por que havia de usar delles.
--Tem muito enjoo, quando come? perguntou o curandeiro.
--Muito Sr. doutor.
--Assim é, mas deixe estar; depois do leite de jaracatiá, volta-lhe a appetencia. Nos primeiros tempos, o senhor só hade beber claras de ovos bem batidas. Depois, irá a pouco e pouco tomando mais alimento.
--Deus o ouça...
Levantou-se Pereira e, chegando-se á porta, annunciou:
--Ahi vem gente... Estou ouvindo passos de animal montado... Sem duvida é algum pobre _engorovinhado_ de doença. Isto de molestias, não faltam no mundo. Tambem ha tanta maldade, que não poderá ser por menos.
Depois de ligeira pausa, acrescentou em tom de surpresa e aborrecimento.
--Hi! meu Deus!... Nossa Senhora nos soccorra... Sabem quem vem chegando?... É o Garcia; está com o _mal_[98]?! ha mais de dois annos e não quer crer na desgraça... Pobre coitado, sem duvida vem comprar o desengano... Tenho muita pena dessa gente ... mas, devéras, não a quero ver em minha casa... Vamos, Sr. doutor, despache o Garcia depressa. Com lazaros não se brinca. A Senhora Sant'Anna de tal nos livre! Nem olhar é bom.
E, Pereira, voltando-se para dentro, pediu apressadamente:
--Não deixe o homem _desapear_, doutor: ficava-me depois o desgosto de ter que lhe fazer alguma mácreação. Pelo amor de Deus, vá lá fóra... Veja o que elle quer ... e dê-lhe boas tardes da nossa parte... Olhe, está chamando... Saia, doutor saia!
Ouvia-se, com effeito, uma voz perguntar se estava em casa o Sr. Pereira.
Este vendo que Cyrino não se apressava á medida dos seus desejos, ou temendo que o recem-chegado lhe entrasse na sala, sem demora appareceu á soleira da porta e, com manifesta sequidão, respondeu ao humilde comprimento de chapéu e á meiga saudação que lhe era dirigida.
[Nota 91: Emprestar de alguem, por tomar emprestado ou pedir emprestado, é locução muito corrente em todo o sertão de S. Paulo, Minas Geraes e Matto Grosso. É legitimo gallicismo, que corresponde exactamente ao verbo _emprunter_.
Recordo-me da admiração com que ouvi uma pessoa da villa de Miranda, aliás de alguma leitura, dizer-me. Venho ter com o Sr. para lhe emprestar 20$000.--Mas não preciso, retorqui-lhe.--Não; quem precisa sou eu. Eu empresto do Sr.--Ah! o Sr. vem pedir-me 20$000, não é?--Pois foi o que eu lhe disse desde o principio.--Não querendo encetar uma discussão philologica, saquei do bolso o dinheiro pedido, o qual, para fazer justiça a quem _emprestava_, foi pontualmente pago no prazo promettido.]
[Nota 92: Emprega-se, ás vezes, no sertão em lugar de a fio.]
[Nota 93: Como já dissemos, talento é empregado como synonimo de força physica, robustez.]
[Nota 94: É o preço por que um curandeiro queria curar um empalamado, por cuja fazendola passámos em Julho de 1867, nesse mesmo sertão de Sant'Anna.]
[Nota 95: Corresponde ao dito popular no Rio Grande do Sul: Que é um boi para quem tem uma estancia?]
[Nota 96: Differente.]
[Nota 97: A receita do leite de jaracatiá para a cura de hypoemia intertropical é veridico e causou-nos grande admiração, quando a ouvimos aconselhada por um medico do sertão.
Pareceu-nos tão absurda e violenta, que dissuadimos a pessoa que devia, conforme a sua resolução, pol-a em pratica dahi a dias. Entretanto, um profissional abalisado a quem contamos o caso, declarou-nos que fôra de proveitosa applicação naquella molestia.]
[Nota 98: Mal de S. Lazaro; lepra.]
CAPITULO XVII
O MORPHETICO
O leproso.--Interesse?! Ah! nunca inspirei senão compaixão....
O militar.--Quão feliz fora eu, se pudesse dar-vos algum consolo!....
XAVIER DE MAISTRE.--_O leproso de Aosta._
Não devo ter sociedade senão commigo mesmo; nenhum amigo, senão Deus. Generoso estrangeiro, adeus, sê feliz.
Adeus para sempre!....
_IDEM._
A pessoa que chegára, bem que tivesse descavalgado, não se adeantou ao encontro do dono da casa. Pelo contrario como que recuou, conservando-se depois immovel, encostado a um burrinho, cujas redeas segurava.
De seu lugar perguntou-lhe Pereira com expressão não muito prazenteira:
--Então, como vae, Sr. Garcia?
--Como hei de ir, respondeu o interpellado. Mal ... ou, melhor, como sempre.
--Pois esteja na certeza de que muito sinto.
--Está ahi o cirurgião? indagou Garcia.
--Não tarda a vir vel-o ahi fóra... Olhe, é um instantesinho.
Palavras tão crueis não pareceram fazer mossa no desgraçado.
--Esperal-o-hei com toda a paciencia, replicou melancolico.
--Já sei que volta hoje para casa, affirmou Pereira.
--Volto. Se a noite me pegar em caminho, ficarei no pouso das Perdizes.
--É verdade: lá ha uma tapera. Mas o Sr. não tem medo de almas do outro mundo? Dizem que o tal rancho velho é mal assombrado.
--Eu?! exclamou o infeliz. Só tenho medo de mim mesmo. Quizesse um defunto vir gracejar um pouco commigo, e de agradecido lhe beijava os dedos roidos dos bichos. Olhe, Sr. Pereira, continuou com voz um tanto alta e agoniada, não levo a mal o senhor não me convidar para entrar em sua casa; não, no seu caso, havia de fazer o mesmo.
--Oh! Sr. Garcia! quiz protestar Pereira.
--Nada;... digo-lhe isto do coração... Na minha familia, sempre tivemos nojo de lazaros... Sou o primeiro... O Sr. nem imagina... Vivi muitos annos meio desconfiado... A ninguem contei o caso... De repente, arrebentou o _mal_ fóra. Já não era mais possivel enganar nem a um cégo... Ah! meu Deus, quanto tenho soffrido!...
--Permitta Elle, interrompeu Pereira em tom compassivo, que este doutor tenha algum remedio... Bem vê ... ás vezes...
--Curar a morphéa?! replicou Garcia com sorriso pungente de sarcasmo. Não ha esse _pintado_ ... que em tal pense...
--Então para que quer ver o medico?
--Só para uma coisa... Saber pelos livros que elle tem lido e pelo conhecimento das molestias, se isto pega... É só o que quero... Porque então fujo de minha casa... Desappareço desta terra ... e vou-me arrastando até tombar nalgum canto por ahi... Dizem uns que pega ... outros que não ... que é só do sangue... Eu não sei.
E, abanando tristemente a cabeça, apoiou-se ao tosco sellim.
Depois, ergueu os olhos para os céus, e exclamou:
--Cumpra-se tudo quanto Deus Nosso Senhor Jesus-Christo houver determinado!... Se o medico me desenganar, não quero que a minha gente fique toda ... marcada... Irei para S. Paulo...
Pereira cortou este doloroso dialogo:
--Está bem, patricio Garcia, disse, vou já mandar-lhe o homem ... espere um pouco...
E, entrando, reiterou o pedido a Cyrino, que se demorara a receitar a Coelho umas beberagens de _velame_ e _pés de perdiz_, plantas muito abundantes naquellas paragens, de grandes virtudes diureticas e que deveriam ser empregadas um mez depois da applicação do leite de jaracatiá.
--Ande, doutor, instou Pereira, vá lá fóra ver o coitado do outro e despache-me depressa. Estou todo _enfernizado_ por vel-o no meu terreiro.
Cyrino sahiu então e, caminhando com lentidão, parou a alguns passos do malaventurado Garcia, cujo rosto repentinamente se contrahiu emquanto tirava o chapéo com submissão e receio.